Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Albert Einstein: vida, obra e pensamento

 

"Das Schönste, was wir erleben können, ist das Geheimnisvolle. Es ist das Grundgefühl, das an der Wiege von wahrer Kunst und wahrer Wissenschaft steht."

"A experiência mais bela que podemos ter é a do mistério. É o sentimento fundamental que está na origem da verdadeira arte e da verdadeira ciência."

Albert Einstein

Mein Weltbild (Como Vejo o Mundo), 1934.

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Albert Einstein

 

Albert Einstein ocupa um lugar singular na história do pensamento humano. Embora seja lembrado principalmente como físico, sua influência ultrapassa em muito os limites dessa disciplina, alcançando a filosofia, a cosmologia, a epistemologia e até mesmo a reflexão ética sobre a responsabilidade da ciência. Suas teorias alteraram profundamente a compreensão do espaço, do tempo, da matéria e da energia, modificando conceitos que durante mais de dois séculos pareciam definitivamente estabelecidos pela física newtoniana. Ao mesmo tempo, sua postura intelectual revelou um pensador profundamente comprometido com a busca da verdade, sempre disposto a revisar pressupostos tradicionais quando estes deixavam de explicar satisfatoriamente a realidade observável. Einstein representa, assim, uma das figuras centrais da ciência da contemporaneidade e um dos maiores responsáveis pela transformação da visão humana do universo.

 

1- Vida

 

Albert Einstein (1879-1955) nasceu em 14 de março de 1879 em Ulm (cidade ao sul da Alemanha), Reino de Württemberg, Império Alemão (hoje Baden-Württemberg, Alemanha) e falece aos 76 anos de idade em Princeton, Nova Jersey, EUA. Filho de Hermann Einstein, um comerciante de origem judaica que trabalhava com eletrotécnica, e Pauline Koch, uma mulher culta e musical. A família não era religiosa praticante, o que permitiu ao jovem Albert crescer em um ambiente relativamente livre de dogmas, embora marcado pela cultura judaica assimilada. Desde cedo, demonstrou curiosidade intensa pela natureza e pela matemática, influenciado por brinquedos científicos e pela orientação de um tio engenheiro.


 

Einstein demorou um pouco, quando ainda criança, a começar a falar, o que teria preocupado seus pais. Posteriormente, aprendeu a tocar violino e já aos seis anos de idade começara o estudo do instrumento. Durante toda a sua vida adulta participou de concertos junto a amigos, em suas casas e, eventualmente, em algum evento público. Onde quer que fosse, sempre levava “Lina”, nome que, segundo alguns biógrafos, dera ao seu violino.

Existe uma história que circula por vários comentadores de que Einstein era um aluno medíocre, mas tal não corresponde a verdade dos fatos. Einstein era autodidata e se dedicava com mais empenho às disciplinas que mais gostava, o que aliás, é algo comum entre vários alunos, dedicar-se mais ao que se gosta e relegar para um empenho mínimo aquilo de que não se gosta naquele momento de suas vidas. Sua formação educacional desmente o mito popular de que Einstein teria sido um aluno medíocre ou fracassado. Como ocorre frequentemente com indivíduos superdotados, ele dedicava energia plena aos temas que lhe despertavam genuíno interesse (física, matemática e filosofia), enquanto mostrava enfado ou resultados inferiores em disciplinas vistas como mecânicas, lentas ou pouco desafiadoras para seu raciocínio rápido.

Tendo nascido em Ulm em 1879, seus pais mudaram para Munique em 1880 buscando melhores condições de trabalho. Seu pai atuava como vendedor e engenheiro elétrico e possuía uma empresa que fazia uso da corrente contínua. Ocorre que a corrente alternada acabou predominando mundialmente e isto levou a falência da empresa. Buscando melhores negócios, sua família mudou para a Itália (Milão e depois Pavia), mas Einstein continuou em Munique para terminar seus estudos, o que não ocorreu de modo satisfatório. Entrou na escola primária em Munique e, posteriormente, no ginásio Luitpold, onde enfrentou certa rigidez pedagógica.

Em 1894 segue Einstein também para a Itália, Pávia. Em 1895 realiza os exames de admissão para a Escola Politécnica Federal Suíça (hoje a ETH-Zurique), mas apesar das excelentes notas nas disciplinas de exata (física, matemática) não consegue ser admitido.

Entre 1895 e 1896 frequenta a Escola Cantonal em Aarau, Suíça, visando completar seus estudos no ensino secundário. Em Zurique cursou seu Doutorado enquanto trabalhava no Escritório de Patentes (Instituto Federal Suíço de Propriedade Intelectual). Em 28 de janeiro de 1896, com a aprovação de seu pai, renunciou à sua cidadania no Reino de Württemberg, para evitar o serviço militar.

Finalmente, em outubro de 1896 conseguiu a aprovação nos exames finais, então com 17 anos de idade ingressando na prestigiosa Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH), onde se formou em 1900 como professor de matemática e física. Talvez o principal impedimento (para a admissão na ETH) da primeira vez tenha sido a não conclusão do ensino secundário. Em 1901 adquire a nacionalidade suíça. Sua trajetória acadêmica foi marcada por independência intelectual e por relações nem sempre harmoniosas com alguns professores, o que retardou, mas não impediu, o desenvolvimento de seu pensamento revolucionário.

Foi na Escola Politécnica que conheceu sua futura esposa, Mileva Marić (colega de estudos na ETH), com quem se casa em 1903 e tem dois filhos, Hans Albert e Eduard. Em 1987, com a publicação de correspondência até então inédita para o grande público, soube-se que havia uma terceira filha, Lieserl, em verdade, nascida antes do casamento e cujo destino permanece obscuro, tendo provavelmente falecido na infância. Ao que parece o casamento não foi muito bem e quando em 1914 Einstein mudou-se para Berlim, sua esposa preferiu permanecer com os filhos em Zurique, vindo finalmente o casal a se separar em 1919.

O casamento enfrentou dificuldades crescentes. O trabalho que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Física em 1921 (o artigo sobre o efeito fotoelétrico de 1905) teve um papel prático no divórcio, já que Einstein prometeu entregar o valor total do prêmio a Mileva, o que facilitou o consentimento dela para a separação oficializada em 1919. Em verdade, Einstein tinha plena certeza de que receberia o Nobel, mas não talvez deste trabalho específico, já que havia feito outras e grandes contribuições para a física teórica, como a própria teoria da relatividade. Talvez ainda houvesse uma certa descrença por parte de grande número de seus colegas sobre suas teorias revolucionárias no tocante ao que estas se confrontavam com a visão de mundo da física dada por Newton.

Meses depois, casou-se com sua prima-irmã Elsa Löwenthal (Einstein se divorciou de Mileva em 14 de fevereiro de 1919 e casou-se com Elsa em 2 de junho de 1919), viúva com duas filhas e sua prima materna em primeiro grau e paterna em segundo grau. Diferentemente do primeiro matrimônio, Elsa demonstrava maior tolerância em relação às várias amantes que Einstein manteve ao longo da vida, fato documentado em correspondências e biografias sérias e que integra a compreensão plena de sua personalidade complexa, marcada por intensidade intelectual e afetiva. Em 1933 o casal emigra para os EUA e em 1936 Elsa falece por questões de saúde.

Nos anos que antecederam 1905, entre 1901 e 1904, Einstein publicou cinco artigos na Annalen der Physik, dedicados sobretudo à termodinâmica e à mecânica estatística. Esses trabalhos iniciais, embora não tenham alcançado o impacto transformador dos textos do ano milagroso, revelam um pensador em formação, um autodidata que, trabalhando como perito técnico no Escritório de Patentes de Berna, buscava superar as limitações da abordagem puramente termodinâmica por meio da análise estatística dos fenômenos moleculares. Tais esforços constituíram exercícios preparatórios fundamentais, que o capacitaram a enfrentar, com maestria, os grandes problemas da física contemporânea em 1905. Neles já se vislumbra a independência intelectual e a tenacidade que caracterizariam sua trajetória.

Einstein não foi um autor de tratados monumentais como Kant ou Hegel, mas um pensador que revolucionou a física predominantemente através de artigos concisos e inovadores. Embora tenha publicado livros explicativos e de reflexão ao longo da carreira, sua marca indelével reside nos artigos que, em 1905, alteraram os fundamentos da compreensão humana do universo. Essa trajetória evidencia tanto sua originalidade quanto sua capacidade de síntese, traços que marcam sua contribuição para a contemporaneidade científica.

No período que antecedeu seu grande salto criativo, Einstein publicou seu primeiro artigo científico sobre física teórica em 1901, no periódico acadêmico Annalen der Physik, intitulado Folgerungen aus den Capillaritätserscheinungen (Conclusões a partir dos fenômenos de capilaridade), no qual propunha um modelo de atração intermolecular que ele próprio viria a considerar, anos depois, de pouco valor. Quando da publicação deste primeiro artigo, contava com 22 anos de idade. Entre 1901 e 1904, produziu outros poucos trabalhos exploratórios, ainda vinculados a temas da física clássica e estatística.

O ano de 1905 é fundamental para a física e para Einstein, sendo considerado o Ano Milagroso / Ano Milaculoso / Annus Mirabilis,  por vários comentadores, pois, foi neste ano em que Einstein publicou uma série de artigos que vieram a revolucionar a física de sua época. Einstein viveu um surto extraordinário de produtividade neste período. Einstein publicou quatro artigos revolucionários na Annalen der Physik, que irão mudar para sempre a física. São quatro artigos que irão revolucionar a física de então. São eles:

1- Sobre um ponto de vista heurístico relativo à produção e transformação da luz.

Sobre o efeito fotoelétrico (base para o Prêmio Nobel de 1921).

2- Sobre o movimento de pequenas partículas em suspensão dentro de líquidos em repouso, tal como exigido pela teoria cinético-molecular do calor (Über die von der molekularkinetischen Theorie der Wärme geforderte Bewegung von in ruhenden Flüssigkeiten suspendierten Teilchen).

Sobre o movimento browniano (evidência da existência de átomos).

3- Sobre a Eletrodinâmica dos Corpos em Movimento ("Zur Elektrodynamik bewegter Körper").

Sobre a teoria da relatividade especial.

4- A inércia de um corpo depende do seu conteúdo energético?

Sobre a equivalência massa-energia (E=mc², na qual “E” = energia, “m” = massa, c = velocidade da luz e neste caso elevada ao quadrado).

Alguns comentadores destacam quatro artigos revolucionários publicados naquele ano; outros incluem também sua tese de doutorado, Eine neue Bestimmung der Moleküldimensionen (Uma nova determinação das dimensões moleculares), defendida em 1905 e publicada em 1906, elevando assim para cinco as grandes contribuições do período. Essa tese, embora mais técnica, reforçava a teoria cinético-molecular ao calcular dimensões moleculares e o número de Avogadro, complementando o célebre artigo sobre o movimento browniano. Foi nesse contexto de intensa atividade intelectual, realizado paralelamente ao emprego no Escritório de Patentes de Berna, que Einstein revolucionou os fundamentos da física.  Com a notoriedade, foi convidado a retornar a Alemanha, pais do qual não gostava e tinha, inclusive, aberto mão de sua nacionalidade. Mesmo assim, aceitou o cargo que lhe fora oferecido e com este também readquiriu sua nacionalidade alemã, passando a atuar como professor da Academia de Ciências de Berlim.

Retornando aos quatro artigos publicados neste ano de 1095, no primeiro ele propôs o quanta de luz, no segundo ele trata sobre o movimento browniano, no terceiro sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento, artigo no qual apresenta a Teoria da Relatividade Restrita (ou especial) e, finalmente, no último, aborda sobre a consequência da sua teoria, a equação que relaciona energia e massa, E = mc².

Além disso, sua tese de doutorado ("Uma Nova Determinação das Dimensões Moleculares") também foi completada e submetida em 1905 (publicada em 1906), o que alguns contam como um quinto trabalho fundamental daquele ano.

Já a teoria da relatividade geral foi desenvolvida por Einstein entre os anos de 1907 e 1915. Esta teoria prevê que a atração gravitacional observada entre massas resulta da curvatura do espaço e do tempo por essas massas.

Podemos remontar várias descobertas ao trabalho desenvolvido por Einstein, como tal é o caso de:

1905      Teoria quântica de luz também conhecida como os quanta de luz.

1905      Teoria especial da relatividade ou da relatividade restrita.

1905      O efeito fotoelétrico.

1905      A dualidade onda-partícula.

1905      O movimento browniano.

1915      A teoria geral da relatividade.

1924      O condensado de Bose-Einstein.

Em 1908 foi nomeado Privatdozent na Universidade de Berna, em 1909 deixa o escritório de patentes e passa a dar aulas na universidade de Zurique, sendo ali nomeado professor adjunto neste mesmo ano. Em 1911 torna-se professor catedrático na Universidade Carolina, em Praga e adota a cidadania austríaca. Entre 1912 e 1914 atua como professor em Zurique, no Instituto Federal de Tecnologia – ETH. Em 1914 é nomeado diretor do instituto Kaiser Guilherme de Física, na Alemanha, e professor da Universidade Humboldt de Berlim, onde fica até 1932.

No ano de 1921 foi agraciado com o prêmio Nobel de física, em virtude de suas descobertas no tocante a lei do efeito fotoelétrico. Atuou como físico teórico, desenvolveu a teoria da relatividade geral, influenciou o surgimento da mecânica quântica. Hoje seu nome está fortemente associado a uma das fórmulas por ele criadas, sua fórmula de equivalência massa-energia, que permitiu os estudos que levaram ao desenvolvimento da bomba atômica. E = mc² nesta equação, Einstein demostrou que a massa inercial (m) multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz (c²) é equivalente a uma quantidade de energia E. Esta equação proporciona, portanto, uma equivalência entre a massa e a energia. Também deixa claro que esta transformação irá gerar uma enorme quantidade de energia.

Algo importante que se deve destacar nos trabalhos desenvolvidos por Einstein, desde seus quatro artigos publicados no ano milaculoso, é que ele proporcionou a modificação de conceitos tidos como fundamentais para a física, ocasionando uma ruptura no modo de pensar sobre tais temas em sua própria época histórica, tal é o caso de conceitos como: massa, energia, espaço e tempo.

Também cabe destacar outras relevantes contribuições posteriores de Einstein, como, em 1917 com a teoria da radiação na qual prevê que a luz ao passar por uma substância estimula a emissão de luz. Esta teoria de 1917 teve atuação junto a elaboração futura do laser. Também e já em 1925, a teoria conhecida como estatística de Bose-Einstein que teve importância junto aos estudos sobre partículas subatômicas, servindo como base nos estudos sobre bósons.

Em 1911, com base na sua teoria da relatividade geral, calculou que a luz de uma estrela se curva ao passar por nosso Sol em virtude da atuação da gravidade, o que seria comprovado em 1919. A confirmação de suas ideias ocorreu simultaneamente em dois lugares: em Sobral, no Ceará, Brasil, e em Príncipe (África).

A curvatura do espaço-tempo proposta por Einstein nos ajuda a entender, por exemplo, a atração gravitacional exercida pelo Sol na Terra. Se fizermos uso de uma metáfora, podemos entender nosso sistema Solar como sendo uma toalha cobrindo uma mesa de jantar, se colocamos uma pedra pesada no meio e levantamos as pontas, qualquer bolinha pequena que seja colocada em suas extremidades tenderá a um movimento em direção ao centro. Ora, estamos diante da curvatura do espaço-tempo. A toalha pode ser entendida como sendo o nosso sistema Solar, a bolinha os planetas nele presentes, como a própria Terra, e a pedra ao centro, o Sol. Foi o eclipse Solar ocorrido em maio de 1919 que confirmou a curvatura da luz anunciada e prevista na teoria de Einstein. Os cientistas mediram a mesma em dois lugares do planeta, sendo um deles o Brasil.

Com a ascensão do nazismo na Alemanha, Einstein, de origem judaica e pacifista declarado, tornou-se alvo de perseguição. Em 1933, durante uma viagem aos Estados Unidos, decidiu não retornar à Europa. Aceitou posição no Institute for Advanced Study, em Princeton, onde permaneceu pelo resto da vida, tornando-se cidadão americano em 1940. Nos anos finais, dedicou-se incansavelmente à busca por uma teoria unificada dos campos, que reconciliasse a relatividade geral com a mecânica quântica, esforço que, apesar de infrutífero, revela sua insatisfação permanente com o estado fragmentado da física contemporânea.

Aconselhado por amigos, também físicos, em 1939 escreve ao presidente Roosevelt alertando-o para a necessidade de iniciar pesquisas visando a construção de um artefato explosivo nuclear antes que os alemães dispusessem do mesmo.

Já nos EUA, desde 1933, Einstein se dedicou até o final de sua vida ao estudo e pesquisa visando desenvolver uma teoria sobre os campos unificados visando explicar a interação de todas as forças presentes na natureza (uma teoria unificada da gravitação e do eletromagnetismo), mas não teve sorte em chegar a um resultado satisfatório.

Apesar da crítica e refutação de alguns pontos teóricos, Einstein sofre influência da leitura de Hume, Kant e Mach.

Para Einstein, os conceitos com os quais trabalha a ciência são criações mentais e não existem na realidade, precisando em seu conjunto serem confirmados ou refutados pela experiência.

Einstein se tornou mundialmente conhecido até os dias de hoje por seus desenvolvimentos dentro da física teórica, em particular a teoria da relatividade restrita ou especial, e a teoria da relatividade geral.

Albert Einstein faleceu em 18 de abril de 1955, em Princeton, aos 76 anos, vítima de um aneurisma da aorta. Seu cérebro foi preservado para estudos científicos, mas sua verdadeira herança reside nas transformações profundas que impôs à compreensão humana do universo, do espaço, do tempo e da matéria.

Um fato pitoresco é que após seu falecimento seu corpo foi cremado, mas seu cérebro foi cuidadosamente retirado (sem autorização) por Thomas Stoltz Harvey e encontra-se com suas partes distribuídas para estudo até os dias atuais.

 

2- Ideias

 

O ano de 1905 marca o ápice inicial da criatividade de Einstein. Em quatro artigos publicados no Annalen der Physik, ele revolucionou a física: explicou o efeito fotoelétrico ao propor que a luz se comporta como pacotes discretos de energia (quanta), fundamentando o desenvolvimento quântico; esclareceu o movimento browniano, fornecendo evidência robusta para a existência de átomos; apresentou a teoria da relatividade especial; e derivou a equivalência massa-energia (E = mc²), que viria a explicar fontes de energia estelar e nuclear. Esses trabalhos, redigidos enquanto trabalhava no Escritório de Patentes, revelam um pensador capaz de questionar pressupostos fundamentais da física clássica.

A teoria da relatividade especial (ou restrita), exposta no artigo “Sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento”, parte de dois postulados: 1- as leis da física são as mesmas em todos os referenciais inerciais, e 2- a velocidade da luz no vácuo é constante, independentemente do movimento da fonte ou do observador. Isso implicou consequências radicais: contração de comprimentos, dilatação temporal e relatividade da simultaneidade. Para confirmar experimentalmente um de seus efeitos (o desvio da luz por campos gravitacionais), Einstein buscou observações astronômicas durante eclipses totais do Sol, quando estrelas próximas ao disco Solar poderiam ser vistas. Para isto pediu publicamente o apoio de astrônomos para que estes medissem a posição relativa das estrelas antes e durante um eclipse total do Sol.

Em 1911, Einstein fez uma previsão inicial baseada em uma versão incompleta da teoria. A tentativa de verificação em 1914 fracassou devido à eclosão da Primeira Guerra Mundial. Posteriormente, ao revisar seus cálculos de 1911, percebeu que havia um erro. Neste caso, o fracasso da tentativa de confirmar sua teoria no ano de 1914, que muito chateava Einstein, passou a ser por ele entendida como sendo algo bom, já que a correção posterior (1915-1916) alinhava-se melhor com a teoria final, evitando a impressão de que estaria “chutando” números para ajustar resultados experimentais após os dados obtidos pelo experimento de campo. A versão definitiva da relatividade geral foi publicada em 1916, com os números referentes à posição relativa das estrelas recalculado.

Einstein buscou confirmação observacional do desvio da luz já a partir de previsões preliminares de 1911. Uma primeira tentativa prática ocorreu durante o eclipse Solar de 1914, visível na Crimeia, Ucrânia, na época parte do Império Russo. Mas ocorreram contratempos sérios. A expedição britânica sofreu problemas antes mesmo de chegar ao local. A equipe americana conseguiu chegar ao local e devido aos EUA ainda não terem entrado na guerra, este grupo não teve problemas iniciais decorridos da guerra, mas enfrentou céu nublado, impossibilitando a correta mensuração da posição das estrelas e não permitindo a obtenção de fotografias necessárias do céu para a comprovação ou negação da teoria de Einstein. Para piorar, apesar de poder realizar o experimento, não conseguiu retornar com os equipamentos (caros e sofisticados) usados, ficando retidos na Rússia / Criméia.

Vamos explicar isto melhor. A eclosão da Primeira Guerra Mundial comprometeu profundamente as observações planejadas para 1914. Na Crimeia, equipes científicas de diferentes nacionalidades encontravam-se reunidas para observar o eclipse. Os astrônomos alemães foram presos pelas autoridades russas e tiveram seus equipamentos confiscados, enquanto a expedição britânica (em verdade três expedições distintas, e não necessária e prioritariamente interessadas na comprovação ou refutação da teoria de Einstein) viu seus trabalhos inviabilizados pelas circunstâncias da guerra. A equipe norte-americana, proveniente de um país ainda neutro, conseguiu realizar a observação, mas o céu nublado impediu a obtenção das fotografias necessárias, além de enfrentar posteriormente dificuldades para recuperar parte de seus equipamentos em razão do conflito. No ano de 1914 foram pelo menos 4 tentativas de documentar o eclipse visando testar a teoria de Einstein, comprovando-a ou negando-a.  O eclipse estava marcado para ocorrer na data de 21 de agosto de 1914 e várias equipes buscaram observa-lo.

1- Equipe americana: do Observatório Lick, liderada por William Campbell, teve permissão para ficar, mas foi impedida pelo tempo nublado.

2- Equipe argentina: do Observatório Nacional Argentino, em Córdoba, chefiada pelo astrônomo Charles Dillon Perrine, também chegou ao território russo, mas enfrentou o mesmo problema de mau tempo e não conseguiu resultados satisfatórios.

3- Equipe britânica: astrônomos britânicos, organizados pela Royal Astronomical Society e pela Royal Society, além de um grupo independente de padres jesuítas, teve problemas logísticos e outros decorrentes do início da guerra.

4- Equipe alemã (apoiada por Einstein): liderada por Erwin Finlay-Freundlich foi presa pelos russos na Crimeia, equipamento confiscado / destruído. Quando a Alemanha declarou guerra à Rússia, em 1º de agosto de 1914, Freundlich e sua equipe já estavam em território russo, na Crimeia (A Crimeia e a região de Kiev pertenciam ao Império Russo), se preparando para o eclipse de 21 de agosto. Como a Alemanha havia acabado de se tornar inimiga da Rússia, as autoridades russas prenderam os cientistas alemães como estrangeiros inimigos e confiscaram seus equipamentos. Alguns foram expulsos, outros ficaram detidos como prisioneiros de guerra por algumas semanas.

As tentativas ocorridas em 1914 resultaram em fracasso generalizado, mas por motivos diferentes: os alemães, por motivo político-militar (prisão, confisco e destruição do equipamento); os americanos e argentinos, por causa do clima; os britânicos, por também serem impactos pela guerra e por não ser este o objetivo prioritário dos mesmos. Já a equipe americana, do Observatório Lick (liderada por William Campbell), não era inimiga da Rússia, os Estados Unidos nem sequer haviam entrado na guerra ainda. Por isso, os russos permitiram que os americanos permanecessem e tentassem observar o eclipse. O problema deles foi outro: o tempo nublado impediu qualquer observação útil. Apesar de algumas fontes opinarem de modo diferente, russos, ingleses e (futuramente) americanos eram todos aliados contra a Alemanha. Por isso não faria sentido a Rússia prender os ingleses. Quem foi preso pelos russos foi justamente a equipe alemã, a nação inimiga naquele momento. O caso mais grave de prisão e confisco foi o da equipe alemã pelas autoridades russas. As equipes britânica e americana sofreram principalmente com o clima e com as dificuldades logísticas da guerra.

Somente após os cálculos definitivos de 1915-1916, feitos por Einstein, é que a teoria geral alcançou sua forma madura, sendo testada com sucesso nos eclipses de 1919 e 1922. A grande oportunidade veio no eclipse total de 29 de maio de 1919. Expedições britânicas, lideradas por Arthur Eddington, observaram o fenômeno em Príncipe (África) e Sobral (Brasil). A luz das estrelas sofre um desvio mínimo ao passar perto do Sol (da ordem de 1,75 segundos de arco, um ângulo extremamente pequeno, equivalente a aproximadamente a largura de uma moeda vista a alguns quilômetros de distância). Esse desvio ocorre porque a massa do Sol curva o espaço-tempo, alterando o caminho da luz, o que faz as estrelas parecerem ligeiramente deslocadas de suas posições habituais. Os resultados britânicos confirmaram a previsão de Einstein, enquanto medições americanas a negaram, gerando controvérsia. Em verdade, o equipamento americano de ponta tinha ficado retido em 1914 na Rússia e os americanos tiveram de improvisar com equipamento não totalmente adequado a situação. A confirmação definitiva da teoria de Einstein veio somente em 1922, com observações americanas durante outro eclipse, que resolveram dúvidas e solidificaram à teoria além de qualquer dúvida séria.

É digno de nota que uma das expedições responsáveis pelas observações decisivas de 1919 foi enviada para Sobral, no interior do Ceará. Embora liderada por astrônomos britânicos, a escolha do local contou com contribuições de cientistas brasileiros do Observatório Nacional, que indicaram a região por suas condições favoráveis. As medições realizadas em solo brasileiro forneceram dados valiosos que ajudaram a corroborar a previsão de Einstein, ilustrando como a ciência, mesmo em meio às cicatrizes da Primeira Guerra, se beneficiava de cooperação internacional e de localidades estrategicamente posicionadas no globo. Aliás, a corroboração da teoria de um alemão por ingleses em 1919 teve um impacto social muito positivo diante da guerra que havia terminado em 1918, mostrando que apesar de toda raiva e ódio gerados durante a guerra, ainda era possível cooperação entre povos outrora litigantes.

As estrelas se encontram a anos luz de distância da Terra, sua luz passa pelo nosso Sol (que também é uma estrela), depois pela lua e finalmente chega a Terra. Ao passar pelo Sol, a luz das estrelas sofre a influência da enorme massa do Sol, que altera a malha do tempo / espaço ao seu redor, fazendo com que esta sofra alteração em sua trajetória. As estrelas mais afetadas são justamente aquelas que estão quase atrás de nosso Sol, passando sua luz pela beira do mesmo e não sendo visíveis em virtude da enorme claridade do Sol. Como o experimento funciona? Algum tempo antes, digamos, alguns meses, quando o Sol se encontra em outra parte, o experimentador fotografa as estrelas e marca a sua posição em relação ao observador na Terra. Posteriormente, quando durante um eclipse total do Sol, se fotografa a mesma região do espaço novamente. Ora, durante o eclipse total a lua se coloca entre a Terra e o Sol e, deste modo, a luz do Sol não chega na Terra proporcionando um escurecimento que permite ao observador que se encontra na Terra fotografar o céu com o uso de um telescópio e observar estrelas que se encontram quase que atras do Sol, em sua beirada, não sendo estas antes vistas em virtude da forte luz do Sol. A luz destas estrelas sofre influência da massa do Sol antes de chegar a Terra, massa esta que proporciona a curvatura do tempo / espaço e permite uma alteração de percurso na direção da luz. Ao comparar as fotografias tiradas durante o eclipse total do Sol com outras fotografias tiradas da mesma região do espaço quando o Sol se encontra em outra posição, verificamos uma leve mudança na sua posição aparente, já que quando o Sol se encontra em outra região, tais estrelas não sofrem a mesma deformação decorrente de sua enorme massa que curva o espaço / tempo.

Na relatividade geral, Einstein elevou a descrição a um novo patamar ao tratar a aceleração como invariante (em contraste com Newton, que considerava o tempo absoluto e invariável). Espaço e tempo deixam de ser absolutos e independentes na nova teoria apresentada por Einstein em contraposição a teoria anterior de Newton. Espaço e tempo mesclam-se em uma entidade única (o espaço-tempo) que se curva na presença de massa e energia, como uma teia elástica deformada por um objeto pesado. A gravidade não é mais uma força misteriosa, mas a geometria curvada desse espaço-tempo.

Para entender melhor esta questão, que envolve o pensamento desenvolvido por Galileu Galilei, Isaac Newton e Albert Einstein, preciso explicar algo antes, algo básico na física e que nos ajudará a entender tudo isto. Uma das equações mais fundamentais da física clássica relaciona três grandezas essenciais do movimento: a velocidade média (v), a distância percorrida (d) e o tempo gasto (t). Sua forma mais simples é expressa por v = d / t, ou seja, a velocidade média de um móvel corresponde à distância total percorrida dividida pelo tempo total de percurso. Embora o conceito de velocidade seja intuitivo e tenha raízes em observações antigas de astrônomos e filósofos gregos como Aristóteles, e tenha sido refinado por pensadores como Galileu Galilei no estudo do movimento uniformemente acelerado, essa relação algébrica básica tornou-se instrumento essencial na mecânica. Sua grande utilidade reside na possibilidade de resolver qualquer uma das três variáveis quando se conhecem as outras duas. Assim, conhecendo a distância (d) e o tempo (t), calcula-se a velocidade pela fórmula v = d / t. Possuindo a velocidade (v) e o tempo (t), obtém-se a distância através de d = v × t. Por fim, sabendo a velocidade (v) e a distância (d), determina-se o tempo por t = d / v. Essa interconexão demonstra como, a partir de apenas dois elementos conhecidos, é possível determinar com precisão o terceiro, constituindo uma ferramenta elementar, porém poderosa, para a compreensão e a análise do movimento dos corpos.

Um exemplo clássico para entendermos a atuação real da teoria de Einstein é o paradoxo dos gêmeos (ou dos dois bebês). Imagine dois irmãos idênticos e recém nascidos, um é posto em uma nave espacial que viaja próximo a velocidade da luz e outro fica na Terra, ao final de 10 anos medidos na Terra, o irmão que aqui ficou teria quase 17 anos de idade, mas o que viajou teria apenas 10 anos (claro que é um exemplo com idades aproximadas, já que a idade final dependerá da velocidade da nave). Ao retornar a nave, o viajante será mais jovem que o irmão que ficou na Terra, eis o paradoxo.

O tempo flui de modo diferente conforme a velocidade e a aceleração. Para o observador em movimento acelerado, o tempo passa mais devagar. Mas para quem está abordo da nave o tempo passa normalmente. Interessante notar que nada com massa pode atingir a velocidade da luz, pois, conforme a aceleração aumenta, a massa relativística também cresce e, deste modo, exige energia infinita para alcançar a velocidade da luz, já por sua vez, o objeto sofre contração de Lorentz no sentido do movimento, aparecendo menor para um observador externo, no sentido de seu movimento. Apenas partículas sem massa de repouso, como fótons, viajam exatamente à velocidade da luz, que permanece constante para qualquer observador. A velocidade da luz é uma constante de 300 mil Km/s e como tal não varia em qualquer condição, quem varia é a distância e o tempo.

Essa relatividade do movimento evoca, mas supera, o famoso exemplo de Galileu, quando dentro de um navio em movimento uniforme, os fenômenos internos (queda de objetos, voo de aves, movimento de pessoas ou coisas) parecem idênticos aos de um navio parado. Podemos, portanto, pensar em um experimento já feito por Galileu. Imagine uma pedra azul largada da mão de alguém que está dentro de um barco navegando em velocidade constante e linha reta (velocidade inercial), para o observador dentro do barco a pedra azul cai em linha reta, mas para o observador na praia, é somado o movimento do barco, logo, a pedra azul cai em perpendicular na direção do movimento do barco. Uma taça que cai de uma mesa e se quebra no chão do navio irá parecer um movimento em ângulo reto para um observador dentro do navio, mas já para um observador fora do navio teremos um ângulo maior, já que o observador externo irá somar a queda do objeto com a velocidade do navio em determinada direção.

Einstein estende o princípio a referenciais acelerados e a velocidades extremas, revelando que as leis da física são universais, mas as medidas de espaço e tempo são relativas. Para Einstein, se imaginarmos que este barco esteja próximo da velocidade da luz, sendo a luz uma constante, sua velocidade não varia e continua sempre sendo a mesma, no entanto, para o observador na Terra, o objeto deixado cair o fará em uma perpendicular, como em um triângulo retângulo. Neste caso, a hipotenusa, entendida como a distância percorrida pelo objeto até cair no chão, terá uma distância maior e se algo percorre a mesma velocidade uma distância maior, então o tempo aumenta para percorrer este mesmo percurso, logo, temos a dilatação do tempo prevista na teoria de Einstein. Fazendo uso do teorema de Pitágoras e da ideia do triângulo retângulo, pode-se calcular exatamente a diferença de tempo a partir da hipotenusa.

Por fim, cabe uma nota crítica sobre teses que questionam a integridade de Einstein, como as defendidas por Olavo de Carvalho, que o acusava de fraude ou plágio em relação a Poincaré e Lorentz. Tais visões, embora expressem ceticismo legítimo em relação a narrativas heroicas, não resistem ao exame histórico rigoroso. Einstein, em verdade, reconheceu contribuições anteriores, como as de Lorentz, Poincaré e Minkowski, mas integrou-as em um quadro conceitual novo, com postulados claros e derivações originais que previram fenômenos confirmados experimentalmente. Acusações de fraude ignoram o processo coletivo da ciência e o impacto verificável de suas equações, que continuam a ser testadas e corroboradas até hoje. Uma abordagem crítica produtiva examina as limitações reais da teoria, como a dificuldade em unificar com a mecânica quântica.

É inegável que nos quatro trabalhos que marcam o ano milagroso não temos referências diretas a antecessores em uma bibliografia específica, mas isto era algo normal e aceito na época em que o artigo foi publicado, prática comum a outros autores. As coisas mudam de acordo com o tempo histórico e claro está que o mesmo artigo escrito daquela forma não seria aceito hoje em dia por prestigiosas publicações científicas e o autor teria de adaptar o mesmo ao modelo hoje aceito. Apesar de haver antecedentes e outros cientistas trabalhando questões semelhantes, o modelo empregado ainda era pautado em uma base proposta por Newton, era uma outra forma de fazer física, que Einstein veio realmente a revolucionar ao propor um entendimento totalmente diferente dos que estavam já ali debruçados sobre este e outros problemas correlatos. Um dos problemas deixados por Newton sem solução era o que é a força da gravidade e porque esta puxava ao invés de empurrar, havendo uma atração misteriosa e inexplicável no tocante ao modo de atuação desta força no objeto correspondente a sua atração, ora, ao tornar a aceleração constante e o tempo / espaço unificados como uma teia, sendo ambos variáveis, Einstein propõe uma Solução para este problema, retirando a dificuldade de alguma força invisível atuando sobre objetos para puxá-los em determinada direção.

 

3– Palavras finais

 

A importância de Albert Einstein ultrapassa o extraordinário conjunto de descobertas que revolucionaram a física durante o século XX. Sua obra exerceu profunda influência sobre a filosofia da ciência ao demonstrar que conceitos fundamentais, como espaço, tempo, simultaneidade e gravidade, não constituem verdades absolutas, mas construções teóricas cuja validade depende de sua capacidade de explicar a experiência. Embora reconhecesse o papel indispensável da experimentação, Einstein compreendia que as grandes teorias científicas nascem da criatividade intelectual, sendo os conceitos científicos invenções do pensamento destinadas a interpretar o mundo, e não simples reflexos imediatos da realidade.

Ao longo de sua vida, manteve intenso diálogo com a tradição filosófica, especialmente com David Hume, Immanuel Kant e Ernst Mach, cujas reflexões influenciaram sua formação intelectual, ainda que posteriormente tenha se afastado de algumas de suas conclusões. Também se tornou protagonista de um dos debates mais importantes da filosofia da ciência no século XX ao discordar da interpretação probabilística da mecânica quântica defendida por Niels Bohr. Sua célebre afirmação de que "Deus não joga dados com o universo" sintetiza sua convicção de que a natureza deveria possuir uma ordem racional profunda, ainda não completamente compreendida. Embora o desenvolvimento posterior da física tenha fortalecido muitas interpretações probabilísticas da mecânica quântica, os questionamentos levantados por Einstein continuam presentes nas discussões contemporâneas acerca dos fundamentos da realidade física.

Seu legado ultrapassa igualmente a ciência. Einstein tornou-se símbolo da liberdade intelectual, da independência de pensamento e da responsabilidade ética do pesquisador diante das consequências sociais do conhecimento científico. Sua influência alcança áreas tão diversas quanto a cosmologia, a filosofia da física, a epistemologia, a tecnologia contemporânea e até mesmo a cultura popular, fazendo de seu nome um dos mais conhecidos da história. Poucos pensadores conseguiram transformar tão profundamente a compreensão humana do universo. Mais do que formular novas equações, Einstein alterou a própria maneira pela qual o humano passou a conceber a realidade, consolidando-se como uma das figuras intelectuais mais importantes de toda a contemporaneidade.

 

4- Algumas das principais obras de Albert Einstein

 

1 - Über einen die Erzeugung und Verwandlung des Lichtes betreffenden heuristischen Gesichtspunkt. Título em português: Sobre um ponto de vista heurístico acerca da produção e transformação da luz. Data da primeira publicação: 1905 (publicado em 9 de junho no Annalen der Physik).

Neste artigo pioneiro, Einstein propõe que a luz se comporta não apenas como onda, mas também como pacotes discretos de energia (quanta). Ao explicar o efeito fotoelétrico, ele demonstrou que a energia luminosa é absorvida ou emitida em porções definidas, dependendo da frequência, o que resolveu discrepâncias experimentais e lançou as bases da teoria quântica, contribuindo decisivamente para o Prêmio Nobel de Física que receberia em 1921.

2 - Über die von der molekularkinetischen Theorie der Wärme geforderte Bewegung von in ruhenden Flüssigkeiten suspendierten Teilchen. Título em português: Sobre o movimento de partículas suspensas em líquidos em repouso, exigido pela teoria cinético-molecular do calor. Data da primeira publicação: 1905 (publicado em 18 de julho no Annalen der Physik)

Einstein analisou o movimento browniano, o deslocamento aleatório de partículas microscópicas em fluidos, fornecendo uma explicação teórica baseada na existência de átomos e moléculas. Usando estatística, ele calculou dimensões moleculares e o número de Avogadro, oferecendo uma das primeiras provas empíricas convincentes da teoria atômica, fortalecendo a física estatística e conectando observações microscópicas à macroscópica.

3 - Zur Elektrodynamik bewegter Körper. Título em português: Sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento. Data da primeira publicação: 1905 (publicado em 26 de setembro no Annalen der Physik).

Este é o artigo fundador da teoria da relatividade especial. Einstein reconciliou as equações de Maxwell com a mecânica clássica ao postular que as leis da física são as mesmas em todos os referenciais inerciais e que a velocidade da luz no vácuo é constante. Isso levou à contração de comprimentos, dilatação temporal e à relatividade da simultaneidade, revolucionando conceitos de espaço e tempo, eliminando a necessidade do éter luminífero.

4 - Ist die Trägheit eines Körpers von seinem Energieinhalt abhängig? Título em português: A inércia de um corpo depende de seu conteúdo de energia? Data da primeira publicação: 1905 (publicado em 21 de novembro no Annalen der Physik)

Como extensão da relatividade especial, Einstein deriva a equivalência massa-energia, expressa na famosa equação E = mc². Demonstra que a massa de um corpo está relacionada à sua energia interna, abrindo caminho para a compreensão da energia nuclear, das reações de fusão nas estrelas e para tecnologias que liberam quantidades enormes de energia a partir de pequenas massas.

5 - Die Grundlage der allgemeinen Relativitätstheorie. Título em português: Os fundamentos da teoria da relatividade geral. Data da primeira publicação: 1916 (publicado no Annalen der Physik).

Nesta obra monumental, Einstein expande a relatividade para referenciais acelerados, incorporando a gravitação como curvatura do espaço-tempo causada pela massa e energia. Usando geometria não-euclidiana (tensores de Riemann), ele reformula a lei da gravidade, prevendo fenômenos como o desvio da luz por campos gravitacionais, a precessão do periélio de Mercúrio e ondas gravitacionais, consolidando uma nova visão cosmológica do universo.

6 - Über die spezielle und die allgemeine Relativitätstheorie (Gemeinverständlich). Título em português: Sobre a teoria da relatividade especial e geral (Exposição acessível). Data da primeira publicação: 1917 (livro popular; edições subsequentes ampliadas). Algumas fontes secundárias mencionam 1916, porque Einstein finalizou o manuscrito ou fez referências preliminares nesse ano, mas a primeira publicação efetiva (data oficial da edição) é de 1917.

Escrito para o público leigo, Einstein explica de forma clara e sem equações complexas os princípios da relatividade especial e geral. Aborda conceitos como simultaneidade, curvatura do espaço e implicações filosóficas, tornando acessíveis ideias revolucionárias e ampliando o alcance de suas teorias para além da comunidade científica.

7 - The Evolution of Physics (com Leopold Infeld). Título em português: A evolução da física. Data da primeira publicação: 1938.

Neste livro colaborativo, Einstein e Infeld traçam a história da física desde os conceitos mecânicos de Galileu e Newton até as teorias relativísticas e quânticas contemporâneas. Com linguagem acessível, discutem as transformações conceituais, os desafios da unificação das forças e as limitações do conhecimento humano, incentivando uma visão crítica e contínua do progresso científico.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua autoria)

terça-feira, 14 de julho de 2026

Jules Payot: A Educação da Vontade, Disciplina e Formação do Caráter

 

L'éducation de la volonté ne peut ni ne doit être négative et formelle; il faut porter la volonté à son maximum d'énergie.

 

Tradução para o português:

A educação da vontade não pode nem deve ser negativa e formal; é preciso levar a vontade ao seu máximo de energia.

Jules Payot, L'Éducation de la volonté, 1893 (ampliada em 1895).

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Jules Payot

 

1- Vida

 

Jules Payot deve ser entendido dentro do seu contexto histórico-cultural, no qual se apresenta como um pensador e educador que atuou como figura pública presente na Terceira República Francesa.

Jules Payot (1859-1940) nasceu em Chamonix, na região de Haute-Savoie, em verdade, tal nascimento se dá aos pés do imponente Monte Branco, na região dos Alpes franceses.  Essa origem montanhosa não foi mero detalhe geográfico: o contato precoce com a natureza grandiosa e austera dos Alpes marcou profundamente sua sensibilidade e, mais tarde, alimentaria reflexões sobre disciplina, esforço e superação pessoal, temas centrais em sua obra pedagógica. Payot casou-se em 3 de outubro de 1888 com Clémentine Caillet (Clémentine Payot; 1861-1940), com quem teve um filho. Clémentine faleceu em 20 de fevereiro de 1940, poucos dias após o marido (28 de janeiro). Payot vem a falecer aos 80 anos de idade nesta mesma região, em Aix-en-Provence, no sul da França, e as fontes divergem entre 28 ou 30 de janeiro de 1940.  Nestas breves notas biográficas, entendo ser interessante também destacar que Payot demonstrou familiaridade com a psicologia de Théodule-Armand Ribot (1839-1916), referência central em sua época e que alguns comentadores buscam destacar em maior primazia a influência de Ribot sobre Payot.


 

No tocante às fontes que nos chegaram nos dias de hoje, pouco se sabe sobre sua infância e formação inicial, o que torna sua trajetória ainda mais notável. Filho de uma família camponesa modesta da província francesa de Chamonix, segundo algumas fontes seu pai atuava como artesão em madeira. Payot construiu uma carreira sólida por meio de esforço intelectual e dedicação ao magistério, que reforça a meritocracia presente no crescimento pessoal e profissional ocorrido na sua vida. Em 4 de outubro de 1879, iniciou sua vida profissional como professor no colégio de Privas. Nos anos seguintes, lecionou em diferentes estabelecimentos de ensino secundário, como o colégio de Gap (1880) e outros liceus e colégios da França provincial. Essa experiência direta com o ensino médio permitiu-lhe conhecer de perto as dificuldades dos alunos e dos professores, especialmente em contextos afastados dos grandes centros intelectuais de Paris.

Sua carreira prosseguiu naturalmente e com certa rapidez em direção à administração educacional. Payot tornou-se inspetor de academia, cargo que lhe proporcionou uma visão mais ampla do sistema de ensino francês de sua época. O ponto alto de sua trajetória institucional ocorreu, quando foi nomeado reitor das academias de Chambéry (por volta de 1902-1907) e, posteriormente, de Aix-Marseille (com sede em Aix-en-Provence; 1907-1922 aproximadamente). Como reitor, Payot ocupou uma posição de grande influência na estrutura educacional da Terceira República Francesa, período marcado pela consolidação do ensino laico, republicano e obrigatório.

Esta evolução histórica de sua carreira consolida sua sólida formação como educador. Payot destacou-se como uma das principais figuras da educação laica na França. Embora admirasse profundamente a doutrina psicológica e moral presente na Igreja Católica Apostólica Romana, o que transparece em vários de seus escritos, ele defendeu com convicção o ensino público não confessional. Essa posição o colocou no coração dos debates pedagógicos de sua época, defendendo uma moral laica ancorada na razão, na vontade e na solidariedade humana, em oposição tanto ao clericalismo quanto ao materialismo reducionista. Além de atuar como educador/pedagogo, Payot escreveu vários livros sobre educação e filosofia moral. A teoria educacional por ele desenvolvida foca no autoconhecimento e também no desenvolvimento das potencialidades dos indivíduos.

Um episódio curioso e revelador de seu prestígio intelectual ocorreu quando Vladimir Ilitch Lenin (então exilado na Suíça sob o nome de Vladimir Ilitch Oulianov) visitou-o em Chamonix. Lenin (1870-1924) buscava conselhos ou diálogo com Payot, que já era reconhecido como guia intelectual de muitos professores primários franceses. Comentadores também ressaltam a vinculação de Payot com o pensador inglês John Ruskin (1819-1900), que comparava as montanhas a “catedrais da terra”, uma afinidade que reflete o gosto de Payot pela reflexão estética e moral inspirada na natureza. O episódio com Lenin (visita a Chamonix quando este ainda usava o nome Oulianov) é real e documentado em fontes locais de Chamonix, embora não seja o fato mais central da vida de Payot. A ligação com John Ruskin existe principalmente via admiração mútua pelas montanhas e pela iniciativa póstuma de Payot (ou da família) em homenageá-lo com a “Pierre à Ruskin” em 1925. No entanto, não há evidência forte de correspondência direta extensa entre ambos pensadores, mas, podemos sempre afirmar que Payot demonstrava admiração pela obra de Ruskin e que manteve contato indireto com o círculo de admiradores de Ruskin.

Sua vida foi marcada por uma dedicação constante à formação humana. Como professor de filosofia, inspetor e reitor, Payot sempre esteve voltado para a prática educativa real, não apenas para a teoria abstrata. Ele via a educação não como transmissão mecânica de conhecimentos, mas como processo de autoconhecimento, desenvolvimento da vontade e construção de uma moral sólida para o cidadão republicano.

Em termos pessoais, Payot manteve forte ligação com sua região natal. Chamonix representava para ele um ancoradouro afetivo e simbólico: nasceu ali, e o ambiente alpino parece ter reforçado sua visão de que a educação exige esforço, resistência e elevação constante do espírito. Embora tenha atuado em centros universitários do sul da França, nunca se afastou completamente das raízes provincianas que moldaram sua sensibilidade.

Payot chegou a apresentar sua candidatura a uma vaga de professor na École Normale Supérieure (Escola Normal Superior de Paris), na cátedra de pedagogia anteriormente ocupada por Ferdinand Buisson. No entanto, ficou em terceiro lugar, atrás de Malapert e Durkheim, este último que ficou com a vaga.

Payot viveu até o início da Segunda Guerra Mundial, testemunhando as transformações profundas da sociedade francesa desde o final do século XIX até o conturbado início do século XX. Sua morte em 1940 ocorreu em um momento de grande tensão europeia, encerrando uma carreira que influenciou gerações de educadores, especialmente por meio de obras que se tornaram verdadeiros best-sellers pedagógicos da época.

Em relação a tudo que dissemos anteriormente e a título de fechamento, existem aqui alguns elementos que cabe resumir para proporcionar um maior destaque, já que tem importância na sua formação pessoal e profissional. Por exemplo, sua origem humilde em ambiente alpino como fonte de inspiração para temas de vontade e superação. A ascensão por mérito: de professor secundário a reitor universitário. O equilíbrio entre admiração pela tradição presente na tradição da Igreja católica e o compromisso firme com a educação laica republicana. O prestígio que atraiu figuras como Lenin e permitiu diálogo com intelectuais como Ruskin. E, por fim, a longa dedicação prática ao ensino e à administração educacional, longe do isolamento acadêmico puramente teórico. Sua atuação deve ser compreendida no contexto da Terceira República Francesa, marcada pela consolidação do ensino público, laico e obrigatório, em oposição à influência tradicional da Igreja no campo educacional. Disto tudo, nos fica claro que Payot não somente foi um autor de textos sobre educação, mas alguém inserido dentro de seu tempo histórico e que acreditava e vivia aquilo que pregava.

 

2- Ideias

 

Jules Payot construiu uma pedagogia prática e psicológica centrada na formação integral do ser humano, indo muito além da mera transmissão de conhecimentos. Claro que aqui quando me refiro a uma “pedagogia psicológica”, esta antecede (não de modo histórico e cronológico, e sim em relação ao uso das ideias) o desenvolvimento da psicologia profunda de Freud, que nos torna joguetes de pulsões inconscientes, e, portanto, esta visão não se encontra presente na obra de Payot. Para ele, o objetivo maior da educação não era apenas instruir o intelecto, mas fortalecer a vontade como força central da personalidade. Em um período marcado pela consolidação do ensino laico republicano, Payot defendia uma moral independente da religião, ancorada na razão, na solidariedade e no esforço pessoal, uma “moral laica” capaz de formar cidadãos conscientes e autônomos. Para Payot, a educação deve ser entendida como uma possibilidade de autoconhecimento e auto-formação. Também podemos dizer que suas principais contribuições abordam as ações voluntárias e os estados de atividade muscular associados às ações voluntárias e conscientes.

Seu conceito fundamental aparece já no título de sua obra mais influente e famosa, “L'Éducation de la volonté”, 1893 (ampliada em 1895). Payot entendia a vontade não como um dom inato ou um “livre-arbítrio” abstrato e metafísico, mas como uma capacidade que se educa e se fortalece por meio de hábitos, atenção concentrada e domínio dos impulsos.

Vamos prosseguir, portanto, dando um destaque maior a sua principal obra, “A educação da vontade”, que se apresenta como um conceito central de toda a sua pedagogia. No coração do pensamento pedagógico de Jules Payot encontra-se a ideia de que a educação da vontade constitui a tarefa mais elevada e urgente da formação humana. Para ele, não basta instruir o intelecto com conhecimentos; é preciso forjar um caráter capaz de dominar impulsos, perseverar no esforço e direcionar a vida para fins elevados. A vontade não é um dom inato ou um livre-arbítrio metafísico absoluto, mas uma potência que se constrói progressivamente por meio de treinamento sistemático, como um músculo que se fortalece com o uso repetido e consciente.

A educação da vontade se encontra na base da formação humana. Payot argumentava que o trabalho intelectual prolongado e exigente é o melhor campo de treinamento da vontade. Ele observava que muitos jovens fracassam não por falta de inteligência, mas por incapacidade de manter a atenção e perseverar no esforço.

Payot dividia a vida psíquica em três elementos interdependentes: ideias, estados afetivos (emoções e sentimentos) e ações. E analisava como cada um pode servir ou sabotar a vontade.

Payot organizava seus métodos, sobre a educação da vontade, em torno de alguns pilares interligados: reflexão meditativa, domínio da atenção, formação de hábitos pela ação repetida e cultivo dos estados afetivos / emocionais, sempre apoiados no cuidado com o corpo e na alternância entre esforço e repouso.

A inteligência deve reinar como árbitro supremo, mas não como tirana isolada. Payot defendia que a reflexão meditativa (um momento de calma interior para examinar motivos e objetivos) prepara o terreno, mas é insuficiente sozinha. A verdadeira educação ocorre na ação: só o esforço repetido transforma intenções em hábitos enraizados. Ele enfatizava o trabalho intelectual como campo privilegiado. Amar o esforço sustentado no mesmo sentido gera unidade interior e liberta o humano de tendências dispersivas. As ideias claras e elevadas atuam como faróis que orientam a ação. No entanto, Payot alertava que o simples conhecimento intelectual tem pouca força contra a inércia ou a sensualidade. Uma ideia só se torna eficaz quando penetra profundamente na consciência e se associa a hábitos.

Já no tocante à formação de hábitos, temos que para Payot a vontade não se manifesta apenas em grandes decisões heroicas, mas na construção cotidiana de rotinas. A formação de hábitos se dá pela ação repetida.

Payot insistia que a vontade se cristaliza em hábitos. Ele comparava o ser humano a um “contador incorruptível” do caráter. Cada ato de esforço ou de fuga ao esforço fica registrado no caráter, na personalidade da pessoa, cada nova pequena vitória ou derrota fica ali anotada. Com o tempo, ações inicialmente penosas e desagradáveis (levantar cedo para estudar, resistir a impulsos, etc.) tornam-se, com a constante repetição, comportamentos quase automáticos e até necessários à existência do sujeito. Por exemplo, um jovem estudante que decide estudar todas as manhãs por duas horas, das 6h. às 8h., sem interrupção, mesmo sentindo preguiça e sem ter vontade inicialmente, no final acaba transformando essa disciplina em parte de sua identidade pessoal. Ele pode saber que o estudo sistemático é necessário para o sucesso, mas isso não o impede de procrastinar se a ideia permanecer superficial. A educação da vontade exige transformar ideias abstratas em forças motrizes internas. O sujeito pode escolher uma ação inicialmente penosa (levantar-se cedo para estudar, resistir a um prazer imediato) e repeti-la diariamente no mesmo horário. Pode começar devagar para evitar desistência, em vez de estudar 4 horas seguidas, comprometer-se com 1 hora fixa todos os dias, por exemplo. Aos poucos irá transformar o esforço em necessidade. Após algumas semanas de repetição, a ação torna-se quase automática e até prazerosa, porque o caráter se reorganiza em torno dela.

A preguiça, para Payot, não é ausência de vontade, mas vontade mal direcionada, e pode ser vencida pela construção lenta de rotinas positivas. Payot recomenda a reflexão meditativa combinada com ação. A meditação solitária e silenciosa ajuda a clarificar objetivos e fortalecer resoluções, mas deve ser seguida imediatamente de ação concreta. Payot alertava: “A reflexão meditativa é indispensável, mas por si só é impotente.” Só a combinação de introspecção e esforço real forma hábitos sólidos.

Também é importante cuidar do suporte físico, como a saúde corporal, repouso consciente, alternância entre períodos de tensão (esforço) e relaxamento. Uma boa higiene de vida (sono regular, alimentação equilibrada, exercício) é indispensável, pois o corpo cansado sabota a vontade. Por exemplo, após uma caminhada vigorosa nos Alpes (Payot recorria frequentemente à sua experiência nas montanhas), o indivíduo retorna com maior clareza mental e energia afetiva para enfrentar tarefas intelectuais. Neste tocante, cabe o combate aos males principais que podem se apresentar, tais como a preguiça disfarçada de liberdade, a sensualidade excessiva, a vaidade e a dispersão.

Payot insistia que toda educação da vontade começa com um momento de calma interior e exame de consciência. A “reflexão meditativa” não é devaneio passivo, mas um exercício ativo de clarificação. O humano deve isolar-se, em silêncio, para examinar seus motivos, objetivos e obstáculos reais. Antes de iniciar uma sessão de estudo, por exemplo, o jovem senta-se por dez ou quinze minutos e formula claramente: “Qual é o objetivo desta tarefa? Quais são as resistências internas que vou enfrentar (tédio, desejo de distração)? Como vou superá-las?”. Essa reflexão ajuda a criar uma resolução firme (o “fiat” enérgico), que Payot considerava essencial. Sem ela, as ações tornam-se impulsivas e passageiras. No entanto, ele alertava que a reflexão sozinha é impotente se não for seguida imediatamente de ação concreta.

Para Payot a atenção não é algo espontâneo; ela exige esforço voluntário contra as distrações internas e externas. Para combater a dispersão mental típica da juventude, Payot recomendava exercícios sistemáticos, tais como, escolher um tema difícil e fixar nele o pensamento por períodos cada vez mais longos, combatendo distrações internas (devaneios) e externas, típicas da juventude. Com o tempo, a capacidade de concentração se fortalece, tornando o trabalho intelectual menos penoso. A atenção voluntária é o fundamento.

Segundo o pensamento de Payot, é na juventude que temos o período decisivo. Entre os 18 e os 30 anos, o humano pode moldar seu destino por meio de um trabalho silencioso, solitário, perseverante e entusiástico.

É nos estados afetivos que Payot via um dos maiores recursos e também perigos. Emoções fortes (entusiasmo, amor pela justiça, admiração pela beleza) podem impulsionar a vontade com uma energia que a razão sozinha raramente alcança. Ele citava experiências pessoais, como superar o medo durante uma caminhada perigosa nos Alpes, para mostrar como um estado afetivo intenso pode gerar um “fiat” (decisão enérgica) capaz de vencer obstáculos. Por outro lado, afetos negativos ou passageiros (tédio, vaidade, desejo de prazer imediato, etc.) sabotam a perseverança. O segredo está em cultivar sentimentos nobres e duradouros, que sirvam de combustível constante.

Payot não ignorava o lado emocional, ele dava grande importância às emoções e aos sentimentos nobres.  Uma sensibilidade cultivada serve como poderoso combustível para a vontade. Sentimentos nobres (admiração pela beleza, amor pela justiça, entusiasmo pelo conhecimento) geram energia que a razão pura raramente alcança. Como método recomenda cultivar paixões elevadas por meio da leitura de grandes autores, contato com a natureza ou reflexão sobre ideais humanos. Associar ideias elevadas a emoções positivas para que penetrem mais profundamente. Ele também recomendava evitar excessos de sensualidade ou vaidade, que dispersam a energia vital. Ele citava que uma paixão elevada pode vencer a inércia mais facilmente do que a razão sozinha. No entanto, alertava: sem direção racional, os afetos podem levar ao entusiasmo passageiro e à instabilidade. Daí a necessidade de se trabalhar conjuntamente a paixão e a razão.

A atenção voluntária constitui, para Payot, o fundamento da vontade superior. Ele observava que a maioria dos fracassos intelectuais não decorre de falta de inteligência, mas da incapacidade de manter o foco contra distrações internas (devaneios, associações aleatórias) e externas. Como método para resolver esta situação ele recomenda começar com tarefas curtas e difíceis, como, por exemplo, escolher um texto complexo ou um problema matemático e fixar nele a atenção por 10 ou 15 minutos sem interrupção. Depois ir aumentando gradualmente a duração. Passar para 30 minutos, depois 1 hora, sempre combatendo o “espalhamento mental”. Técnica contra distrações: quando o pensamento divagar, trazer gentilmente a atenção de volta ao objeto, sem irritação ou autocrítica excessiva. Com a repetição, a capacidade de concentração fortalece-se como um músculo. Um estudante que se força a ler um capítulo de filosofia difícil, por exemplo, anotando apenas os pontos principais sem consultar as redes sociais no celular ou permitir devaneios, está treinando a atenção voluntária. Payot comparava esse exercício ao treinamento físico: o desconforto inicial transforma-se, com o tempo, em facilidade.

Aqui podemos buscar um exemplo no próprio Payot. O contraste entre o “herói do primeiro movimento” (aquele que age por impulso generoso, mas logo desiste) e o “herói da perseverança” (aquele que, mesmo sem entusiasmo inicial, mantém o esforço graças à vontade treinada).

Ele rejeitava duas visões extremas: a que via o caráter como um bloco imutável (hereditariedade fatalista) e a que exagerava o livre-arbítrio como algo absoluto, sem necessidade de treinamento. Payot não aceitava visões fatalistas que atribuíam o caráter exclusivamente à hereditariedade ou ao ambiente, assim como teorias românticas que exageravam o poder espontâneo da motivação. Ele propunha uma via intermediária e prática: a vontade superior surge quando o humano consegue submeter as tendências naturais (preguiça, dispersão mental, paixões, sensualidade, busca imediata de prazer) ao império de ideias claras, sentimentos nobres e ações repetidas. Para Payot, a vontade superior consiste em submeter as tendências naturais ao império de ideias claras e elevadas. Essa educação não visa criar heróis excepcionais, mas formar cidadãos republicanos sólidos, capazes de resistir às fraquezas cotidianas e contribuir para o progresso coletivo.

Payot oferecia ferramentas concretas, dirigidas especialmente a jovens, estudantes e professores, buscando atingir um método prático para a educação da vontade, tais como domínio da atenção; formação de hábitos pela ação repetida; reflexão meditativa combinada com ação; cuidado com o corpo, combate a alguns males tidos por Payot como principais.

Esses métodos práticos não eram neutros, eles serviam ao projeto republicano de Payot de, por meio da escola laica, formar cidadãos autônomos, solidários, responsáveis, capazes de viver segundo uma moral ancorada na razão e na solidariedade humana, sem depender da autoridade religiosa. Ele defendia métodos ativos que envolvessem o aluno na construção do conhecimento, em oposição ao ensino passivo e mecânico.

Payot admirava aspectos da psicologia moral católica (como em São Francisco de Sales), mas insistia que a escola pública devia oferecer ferramentas acessíveis para a “maestria de si-mesmo”, a escola precisava oferecer uma doutrina moral alta, acessível aos mestres, aos alunos e às famílias, sem recorrer à autoridade divina. Essa posição gerou forte oposição clerical e até levou alguns de seus manuais a serem colocados no Index pelo Vaticano.

Na época de Payot, marcada pela industrialização, pela urbanização e pela consolidação da Terceira República, ele via perigos como o hedonismo superficial e a falta de persistência. Sua proposta era um antídoto: transformar o trabalho intelectual em via de elevação pessoal e coletiva.

Do ponto de vista crítico, a educação da vontade de Payot revela um otimismo republicano característico de seu tempo: confiança no esforço individual e na razão como forças quase ilimitadas. Isto funciona bem para indivíduos com certa estabilidade emocional e apoio ambiental, mas tais ideias podem subestimar determinações sociais, econômicas ou inconscientes mais profundas que limitam a autonomia individual. No entanto, acertava ao colocar o autocontrole, a perseverança cotidiana e o treinamento gradual no centro da formação social humana, temas que ressoam fortemente hoje, em discussões sobre resiliência, hábitos e desenvolvimento pessoal. Payot oferece ferramentas concretas para quem busca maestria de si em meio às distrações da contemporaneidade.

Enquanto muitos pensadores da época limitavam-se a discussões teóricas sobre a vontade, Jules Payot distinguiu-se por oferecer métodos concretos, acessíveis e progressivos, dirigidos especialmente a jovens estudantes, trabalhadores intelectuais e educadores. Ele via a educação da vontade não como exercício abstrato de ginástica mental, mas como treinamento cotidiano aplicado ao trabalho intelectual prolongado. O objetivo era transformar intenções frágeis em hábitos enraizados, superando a preguiça, a dispersão e os impulsos imediatos.

Em “La Morale à l'école”, 1907, Payot radicalizou sua proposta pedagógica. Como defensor da laicidade militante, ele propunha uma moral escolar independente da doutrina religiosa, mas não materialista ou niilista. Essa moral baseava-se em: 1- solidariedade humana; 2- dever e responsabilidade pessoal; 3- métodos ativos. Solidariedade humana: O reconhecimento de que somos parte de uma humanidade que avança por esforço coletivo, superando heranças “bárbaras” de egoísmo e violência. Dever e responsabilidade pessoal: Cada criança deve “escolher sua destinação” por meio de atos voluntários, libertando-se progressivamente da ignorância, da feiura moral e da injustiça. Métodos ativos: Payot criticava o ensino passivo e defendia práticas que envolvessem o aluno na construção do conhecimento e na formação do caráter.

Para Payot, o trabalho intelectual se apresenta como sendo uma via de elevação. Em obras complementares, como “Le Travail intellectuel et la volonté”, Payot aprofundava a ideia de que o verdadeiro progresso intelectual exige amar o trabalho e saber trabalhá-lo. Ele criticava o diletantismo e a dispersão mental, propondo técnicas concretas: alternar períodos de esforço intenso com repouso consciente, cultivar a “reflexão meditativa” (não como fim em si, mas como preparação para a ação) e transformar o estudo em hábito enraizado. Payot via na educação da vontade um antídoto contra os males da contemporaneidade: a preguiça disfarçada de liberdade, o hedonismo superficial e a falta de persistência. Seu otimismo republicano inicial foi abalado pela Primeira Guerra Mundial, levando-o, na maturidade, a um certo ceticismo quanto à capacidade das instituições de reformar profundamente o ser humano, embora nunca tenha abandonado a crença no esforço pessoal.

As ideias de Payot representam uma síntese original entre a nascente psicologia experimental, a filosofia moral e a pedagogia prática. Diferentemente de autores mais teóricos, ele escrevia para professores, estudantes e pais, oferecendo ferramentas concretas para a “maestria de si”. Sua ênfase na vontade como conquista diária ecoa em abordagens contemporâneas sobre autocontrole, resiliência e formação de hábitos, embora sua visão laica e republicana carregue o selo de seu tempo.

Esses métodos práticos transformam a educação da vontade em um projeto acessível e cotidiano, longe de romantismos ou fatalismos. Payot escrevia para ser aplicado: sua obra destinava-se a estudantes com “velléités chancelantes” (vontades vacilantes), oferecendo um guia psicológico realista para forjar caráter por meio do trabalho intelectual.

Do ponto de vista crítico, Payot pode ser visto como um otimista da razão e do esforço individual em uma época de grandes esperanças republicanas. Ele subestimava, talvez, outros aspectos também importantes, como as determinações psicológicas, sociais e econômicas mais profundas, mas acertava ao colocar a educação da vontade no centro da formação humana, um tema que continua relevante para quem busca compreender por que tantos talentos se perdem por falta de perseverança e por que a verdadeira liberdade exige disciplina interior.

A pedagogia de Payot aproxima-se de uma tradição clássica da filosofia moral (presente, por exemplo, no estoicismo), na qual a liberdade não é concebida como espontaneidade, mas como domínio de si adquirido por exercício. Suas ideias antecipam, em muitos aspectos, abordagens contemporâneas de psicologia e ciência do comportamento, embora com uma dimensão moral e pedagógica mais explícita. Para Payot, a verdadeira liberdade não é ausência de constrangimento, mas a capacidade conquistada de dirigir a própria vida rumo a fins que possam ser considerados dignos.

 

3- Algumas das principais obras de Jules Payot

 

1. L'éducation de la volonté. Título em português: A educação da vontade. Data da primeira publicação: 1893.

Obra central e mais importante de Payot, considerada sua contribuição definitiva ao pensamento pedagógico e filosófico. O próprio autor data o prefácio de Chamonix, 8 de agosto de 1893, deixando claro o momento de conclusão da obra. Nela, Payot parte do diagnóstico de que a fraqueza da vontade é a raiz da maioria dos fracassos humanos, e propõe um método sistemático para o desenvolvimento da capacidade volitiva, especialmente voltado ao trabalho intelectual prolongado. O livro investiga as causas da preguiça, da dispersão da atenção e da fraqueza moral, apresentando um método eficaz para se alcançar atenção aos estudos e concentração em si. Para Payot a vontade não é um dado inato, mas uma conquista gradual, sustentada pela disciplina dos sentimentos, pela criação de hábitos saudáveis e pela educação do caráter. A obra tornou-se um clássico da pedagogia republicana francesa. Em 1931, L'Éducation de la volonté já havia chegado à sua 44ª edição, com cerca de 60.000 exemplares vendidos, tendo sido traduzida para quinze línguas.

2. L'éducation de la démocratie. Título em português: A educação da democracia. Data da primeira publicação: 1895.

Nesta obra, Payot desloca o foco da formação individual para a dimensão coletiva e política da educação. Ele examina os fundamentos filosóficos e morais necessários para a consolidação de uma sociedade democrática e laica, argumentando que a democracia não se sustenta apenas por estruturas institucionais, mas exige cidadãos com vontade formada, capacidade crítica e comprometimento com o bem comum. O livro é uma expressão direta de seu engajamento como pensador da Terceira República Francesa, conectando sua teoria da vontade às exigências da vida pública e ao ideal republicano de progresso social.

3. De la croyance: sa nature, son mécanisme, son éducation. Título traduzido para o português: Da crença. Data da primeira publicação: 1896.

Obra de natureza filosófica, dedicada à análise psicológica e epistemológica do fenômeno da crença. Payot examina como as crenças se formam, quais mecanismos psíquicos as sustentam e como podem ser educadas ou transformadas. A questão da crença é tratada em diálogo com a tradição positivista e com a psicologia da época, revelando a preocupação de Payot com os fundamentos racionais da vida moral em um contexto de enfraquecimento das certezas religiosas.

4. Avant d'entrer dans la vie: aux instituteurs et aux institutrices, conseils et directions pratiques. Título traduzido para o português: Antes de entrar na vida: aos professores e professoras, conselhos e orientações práticas. Data da primeira publicação: 1897.

Dirigida diretamente ao corpo docente, esta obra é um manual de formação moral e intelectual para educadores. Trata-se de um livro de conselhos aos professores, voltado para orientar a conduta profissional e a formação das convicções morais e cívicas dos professores do ensino primário. Payot acreditava que o educador precisava, antes de qualquer coisa, ter formado em si mesmo a vontade e o caráter que desejava cultivar nos alunos. A obra integra sua série de publicações voltadas à renovação do ensino laico republicano.

5. Cours de morale. Título traduzido para o português: Curso de moral. Ano da primeira publicação: 1904.

Manual de filosofia moral destinado ao uso em instituições de ensino. Payot organiza aqui de forma didática e sistemática os fundamentos da ética laica que defendia ao longo de toda a sua carreira. A obra aborda deveres individuais e sociais, a formação do caráter, a relação entre liberdade e determinismo, e os fundamentos racionais da conduta moral, sem recurso a qualquer fundamento religioso. Payot era um defensor de uma educação renovada que, além dos saberes, deveria formar uma vontade razoável, e esta obra é a expressão mais sistemática desse projeto no plano da ética.

6. La morale à l'école. Título traduzido para o português: A moral na escola. Data da primeira publicação: 1907.

Manual de educação moral para o ensino primário, que se tornou uma das obras mais polêmicas de Payot. Sua publicação desencadeou numerosas tensões, sendo o livro parte de um conjunto de treze obras proibidas que motivaram uma carta pastoral dos cardinais, arcebispos e bispos da França, que justificava a recusa dos sacramentos aos pais cujos filhos utilizassem tais livros. A obra defendia uma formação moral inteiramente laica para crianças, afastada de qualquer tutela religiosa, em consonância com os princípios da República Francesa.

7. L'apprentissage de l'art d'écrire.  Título traduzido para o português: O aprendizado da arte de escrever. Ano da primeira publicação: 1913.

Obra dedicada ao desenvolvimento das habilidades de expressão escrita, com ênfase pedagógica. Payot trata a escrita não apenas como técnica, mas como exercício de pensamento e de autodomínio, conectando o ato de escrever bem à formação mais ampla da inteligência e da vontade. A obra integra seu projeto de renovação das práticas pedagógicas, buscando métodos ativos em contraposição ao ensino enciclopédico e passivo que criticava sistematicamente.

8. Le travail intellectuel et la volonté. Título traduzido para o português: O trabalho intelectual e a vontade. 1919–1920 (primeiras edições registradas em 1919 e 1920, com edição definitiva em 1921).

Sequência direta de L'éducation de la volonté, à qual o próprio Payot a nomeou como continuação. Payot escreveu diversos livros sobre filosofia moral e educação dedicados aos professores, sendo Le travail intellectuel et la volonté um dos mais relevantes nessa linha. A obra aprofunda a reflexão sobre as condições concretas do trabalho da inteligência (concentração, método, uso do tempo, combate à dispersão) e sobre a relação indissociável entre esforço intelectual e disciplina da vontade. Também foi traduzida para o português no Brasil, com o título O trabalho intelectual e a vontade.

9. La conquête du bonheur. Título traduzido para o português: A conquista da felicidade. Ano da primeira publicação: 1921.

Obra de caráter filosófico-prático, voltada para uma reflexão sobre as condições morais e psicológicas da felicidade humana. Da obra provém a célebre frase de Payot: "A multidão só é acessível às emoções; é incapaz de uma atitude mental objetiva." Payot argumenta que a felicidade não é um estado passivo a ser encontrado, mas uma conquista ativa, resultado de esforço, autodomínio e cultivo das melhores potencialidades humanas. O livro sintetiza muitas das teses desenvolvidas ao longo de sua carreira, agora em um registro mais reflexivo e voltado ao público em geral.

10. La faillite de l'enseignement. Título traduzido para o português: A falência do ensino. Data da primeira publicação: 1937.

Último grande livro publicado em vida por Payot, quando já contava 78 anos. Nesta obra, Payot elabora com amargura um diagnóstico de fracasso da instituição escolar à qual havia dedicado toda a sua vida. O tom é o de um balanço crítico e desencantado: o sistema de ensino francês, em sua avaliação, havia traído os ideais republicanos que ele e sua geração abraçaram. Critica a centralização excessiva, a mediocridade promovida pelas estruturas burocráticas, a ausência de formação real da vontade nos jovens e o predomínio do verbalismo sobre a experiência concreta. Da obra provém outra frase marcante: "A maioria das pessoas adquire uma opinião como se pega o sarampo, por contágio."

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 


 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

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