Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Marcel Mauss: a Dádiva, o Fato Social Total e as Raízes da Antropologia Francesa

 

Le corps est le premier et le plus naturel instrument de l'homme.

O corpo é o principal e mais importante instrumento natural do homem.

Marcel Mauss, Les techniques du corps (1934), comunicação apresentada à Société de Psychologie em 17 de maio de 1934; publicada em Journal de Psychologie, 1936, e posteriormente em Sociologie et anthropologie.

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Marcel Mauss

 

Há pensadores que constroem sistemas; há outros que constroem olhares. Marcel Mauss pertence à segunda espécie. Sobrinho e discípulo de Émile Durkheim, viveu à sombra de um mestre que também foi tio, herdou dele o rigor do fato social, mas recusou-se a fechá-lo em fórmulas definitivas. Preferiu os ensaios densos, os problemas concretos, o material etnográfico deixado falar por si, e, exatamente por isso, tornou-se um dos pensadores mais férteis e mais citados das ciências sociais do século XX.

Marcel Mauss foi um dos mais importantes pensadores da sociologia e da antropologia francesa do século XX, embora sua obra permaneça menos conhecida do grande público do que a de seu tio e mestre intelectual, Émile Durkheim. Mas quem foi Marcel Mauss e por que seu pensamento continua sendo tão importante para compreender a sociedade, a cultura e o próprio humano?

Sob a influência de Durkheim, Mauss participou da formação da sociologia francesa e dedicou-se ao estudo das religiões, da magia, das formas de classificação, da troca, do corpo e da noção de pessoa. Entretanto, sua contribuição ultrapassou a simples continuidade do pensamento durkheimiano. Ao investigar fenômenos aparentemente cotidianos (como dar um presente, receber uma dádiva, retribuir um favor, utilizar o corpo ou assumir uma determinada posição social). Mauss mostrou que por trás desses atos existem relações econômicas, jurídicas, morais, religiosas, políticas e simbólicas profundamente interligadas.

É sobretudo por meio de conceitos como “fato social total”, “dádiva”, “prestação”, “reciprocidade”, “técnicas do corpo” e “noção de pessoa”, que Marcel Mauss desenvolveu uma maneira original de compreender a vida social. Para ele, não podemos compreender adequadamente o humano isolando a economia da moral, o corpo da sociedade ou o indivíduo das relações coletivas.

Este texto percorre a vida de Marcel Mauss, marcada pelo compromisso político, pela devastação de duas guerras mundiais e pela fidelidade a um projeto coletivo de conhecimento. Acompanharemos a vida e o pensamento de Marcel Mauss, sua relação com Émile Durkheim, sua contribuição para a sociologia e a antropologia, suas principais ideias e suas obras mais importantes. E, também, suas ideias centrais: o fato social total, a lógica da dádiva e da prestação, as técnicas do corpo e a construção histórica da noção de pessoa, temas presentes em sua obra e que permanecem fundamentais para compreender não apenas sociedades distantes, mas também aspectos centrais da própria vida social contemporânea. Mais do que um inventário de conceitos, trata-se de compreender por que Marcel Mauss continua importante e atual no contexto contemporâneo.

 

1- Vida

 

Marcel Israël Mauss (1872-1950) nasce em 10 de maio de 1872 em Épinal, Vosges, leste da França, e falece aos 77 anos de idade em Paris, França. Sobrinho de Émile Durkheim (tio materno), de quem sofre influência acadêmica, Mauss é proveniente de uma família judia, mas por volta dos 18 anos de idade deixou as práticas e rituais de sua religião familiar. Seu pai, Gerson Mauss, era comerciante e sua mãe, Rosine Durkheim (irmã de Émile Durkheim), fazia bordados que vendia em uma loja.

O tio, Émile Durkheim, quatorze anos mais velho, não apenas orientou seus primeiros passos intelectuais, mas se tornou a figura central em torno da qual se organizou o projeto coletivo da sociologia francesa. Mauss cresceu num ambiente em que o judaísmo ortodoxo ainda pesava, mas desde cedo se afastou da prática religiosa, sem nunca perder o interesse erudito pelas tradições religiosas em geral.


 

Em vez de seguir o caminho clássico da École Normale Supérieure, Mauss optou, em 1890, por acompanhar o tio na Universidade de Bordeaux. Ali estudou filosofia, ao mesmo tempo em que se aproximava dos círculos socialistas. Em 1894 aderiu ao Parti Ouvrier Français. Em 1895 obteve a agregação em filosofia, classificando-se em terceiro lugar. Em vez de se tornar professor de liceu, como era comum, transferiu-se para Paris e ingressou na École Pratique des Hautes Études. Ali dedicou-se ao estudo das línguas e das religiões: sânscrito, hebraico, história das religiões da Índia e dos povos então chamados “não civilizados”. Entre 1897 e 1898 viajou pela Holanda e pela Inglaterra, onde entrou em contato com a antropologia britânica de Max Müller e James Frazer. Foi nesse período que começou a reunir material para uma tese de doutorado sobre a prece, trabalho que jamais concluirá.

Desde a fundação de L’Année Sociologique, em 1896, Mauss tornou-se um dos colaboradores mais assíduos e disciplinados da revista. Escreveu dezenas de resenhas por ano e participou de trabalhos coletivos que definiram o método da escola. Com Henri Hubert publicou o ensaio sobre o sacrifício (1899) e, depois, o esboço de uma teoria geral da magia. Com o próprio Durkheim elaborou o estudo sobre as formas primitivas de classificação. A colaboração não era apenas intelectual: Mauss internalizou a ética do trabalho em equipe, o “impersonalismo” consciente que o tio defendia, a ideia de que a ciência social se constrói coletivamente e não pela busca individual de originalidade.

No ano de 1901 pela École Pratique des Hautes Études de Paris (Escola Prática de Altos Estudos), foi nomeado para a cátedra de História das religiões dos povos não civilizados. Ali permaneceria durante décadas, formando gerações de pesquisadores. Em 1931 foi eleito o primeiro titular da cátedra de sociologia no Collège de France.

Durante o Caso Dreyfus, ele foi um dreyfusard, defendendo Dreyfus. Aliás, na sua juventude ele não somente atuou politicamente em defesa de Dreyfus, como também em defesa de uma forma de socialismo, mais próxima de Proudhon. Participou do “Groupe des Étudiants Socialistes” e aderiu ao “Parti Ouvrier Français” (POF). Participou também do “Groupe des Étudiants Collectivistes”, que buscava conjuntamente com o ativismo político refletir sobre como deveria ser o socialismo. Também publicou textos de cunho político e resenhas em diversas revistas e jornais socialistas: “Le Devenir Social”, “Le Mouvement Socialiste”, “Notes Critiques”, “Sciences Sociales”, “Action Socialiste” e no jornal “L’Humanité”.

Sua vida política acompanhou a vida acadêmica. Foi dreyfusard ativo, colaborou com jornais socialistas e, em 1904, participou da fundação de L’Humanité. Nunca abandonou o engajamento cooperativista e socialista democrático, embora se mantivesse crítico em relação ao bolchevismo após a Revolução Russa.

Entre 1914 e 1919 serviu no exército como oficial-intérprete no transcurso da primeira guerra mundial. Mauss se alistou voluntariamente e serviu junto a tropas britânicas e australianas, inclusive na linha de frente, período este de sua vida que ele gostou bastante, se identificando com o trabalho. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi crucial no desenvolvimento de Marcel Mauss, pois, ao término da mesma, muitos de seus amigos e colaboradores haviam falecido, inclusive o seu tio, Émile Durkheim. Entre os que faleceram se encontravam os principais representantes da Escola Durkheimiana, inclusive o sucessor e filho de Durkheim, André Durkheim. Mauss, desmobilizado do exército em 1919, viu-se na posição de herdeiro e guardião de uma escola quase destruída. Coube-lhe relançar a revista, publicar os trabalhos inacabados do tio e manter viva a tradição.

Para dar prosseguimento ao trabalho de seu tio, Mauss assume a direção da revista por ele criada, L’Année Sociologique (fundada em 1896 e com período de publicação efetiva 1898-1913), buscando dar prosseguimento e reconstruir a Escola Sociológica Francesa criada por seu tio, lançando em 1925 o primeiro tomo da segunda série desta revista.

Nos anos 1920 sua atividade se intensificou. Em 1925 publicou o Essai sur le don no primeiro número da nova série de L’Année Sociologique. Atuou como sociólogo e antropólogo e é conhecido como sendo o pai da etnografia francesa, pois, teve papel decisivo na institucionalização da etnologia francesa e na formação de sua primeira geração de pesquisadores de campo, mesmo ele próprio não sendo um pesquisador de campo.

Seguindo pelo caminho já trilhado por Durkheim, funda algumas instituições para a realização de pesquisas, visando preservar o legado de seu tio: l'Institut Français de Sociologie (1924) e o l'Institut d'Ethnologie, em 1925, com Lucien Lévy-Bruhl e Paul Rivet. Além da Sociologia presente nos trabalhos de Durkheim, tais instituições tiveram o papel de ajudar no desenvolvimento da antropologia por meio do estímulo de trabalho de campo feito por jovens acadêmicos. No Instituto de Etnologia ministrou, durante anos, as “instruções de etnografia descritiva” que mais tarde dariam origem ao Manuel d’ethnographie. Formou a primeira geração de etnólogos de campo franceses e contribuiu decisivamente para institucionalizar a disciplina na França.

Em 1931, após três tentativas, chegou a cadeira de Sociologia do Collège de France (foi eleito no final de novembro de 1930 e nomeado professor titular em 3 de fevereiro de 1931), a primeira dessa disciplina na instituição, ele tinha então 59 anos de idade quando chegou ao Collège de France.

Marcel Mauss viveu uma vida de solteiro por boa parte de sua existência, mas então com 62 anos de idade, se casa. Sua esposa, segundo alguns relatos biográficos, anteriormente atuava como sua secretária. Em 1934 casou-se com Marthe Rose Dupret. O casamento foi breve e marcado por dificuldades; a esposa adoeceu gravemente pouco depois. Infelizmente, pouco tempo após o matrimônio, ela sofreu uma grave intoxicação por gás que a deixou inválida e acamada de forma permanente. Mauss cuidou de sua esposa em Paris até o falecimento dela em 1947. O casal não teve filhos.

A Segunda Guerra Mundial trouxe novos sofrimentos. Em 1940, então com 68 anos de idade, com a ocupação da França pelos alemães nazistas e por sua condição de judeu e socialista, teve de mudar de residência, perdeu seus cargos acadêmicos, foi obrigado a se aposentar em 1940 e também perdeu seu apartamento devido às leis antissemitas do regime de Vichy, mas mesmo assim, e correndo riscos a sua integridade física, continuou vivendo em Paris, idoso, doente e com a esposa enferma. Mauss foi reintegrado no Collège de France em 1944 e nomeado professor honorário em 1945. A ocupação, a perseguição e o isolamento intelectual o atingiram profundamente. Nos últimos anos de vida, embora ainda respeitado, viveu um período de retraimento e declínio. Faleceu em Paris em 10 de fevereiro de 1950 (algumas fontes registram 11 de fevereiro), aos 77 anos.

Apesar de seu trabalho como etnólogo, nunca fez trabalho de campo e ele próprio se considerava um “etnólogo de museu”. Todo o seu trabalho baseado em Antropologia se dá a partir das leituras de outros pesquisadores, em particular britânicos, em suas pesquisas de campo. Ele trabalhou com materiais etnográficos, históricos, linguísticos, relatos, documentos etc. Mauss não é um autor de livros e sim de artigos, os quais escreveu abundantemente e sobre os mais diversos temas.

A vida de Mauss não foi a de um teórico de gabinete isolado. Foi a de um homem que conjugou erudição filológica, engajamento político, trabalho coletivo e formação de instituições. Nunca fez trabalho de campo no sentido clássico, mas transformou a etnografia em disciplina científica na França. Carregou sobre os ombros a herança de Durkheim e, ao mesmo tempo, abriu caminhos próprios (o fato social total, a dádiva, as técnicas do corpo, a noção de pessoa) que permitiram à antropologia francesa se constituir como tradição autônoma. Sua biografia é, em grande medida, a biografia da passagem da sociologia durkheimiana para a antropologia social contemporânea.

 

2- Ideias

 

Segundo o pensamento de Marcel Mauss, a Sociologia é distinta da Psicologia, tendo como objeto de estudos as representações coletivas, enquanto a psicologia trataria das representações individuais. As representações coletivas possuem um caráter autônomo e inconsciente diante do indivíduo que as possui. Partindo da distinção durkheimiana entre fenômenos sociais e individuais, Mauss procura compreender como os fenômenos sociais se articulam com dimensões psicológicas e fisiológicas. Mauss valorizava muito os dados empíricos, dando bastante destaque aos fatos.

Mauss entendia que o trabalho desenvolvido pela sociologia deve se basear em fatos sociais concretos. Outra característica importante da Sociologia (e antropologia / etnografia) é que esta se dá necessariamente de modo coletivo, pois, são necessários diversos trabalhos para se poder atuar comparativamente. Ora, não é possível a um pesquisador somente realizar todos os trabalhos de pesquisa que seriam necessários para desenvolver sistematicamente uma metodologia comparativa entre eles. Somente uma grande quantidade de material de pesquisa empreendido por diferentes especialistas irá permitir que fatos observáveis em diversas sociedades possam ser adequadamente comparados. Ele entende que as teorias elaboradas devem se alicerçar em fatos e os modelos resultantes em um trabalho comparativo entre os diversos estudos, só sendo possível obter um vasto material empírico congregando diversos pesquisadores, cada qual em sua respectiva especialidade.

A obra de Marcel Mauss não se organiza como um sistema fechado e dedutivo. Diferentemente de Durkheim, que buscou construir uma arquitetura teórica geral, Mauss trabalhou por ensaios densos, por problemas concretos e por deslocamentos sucessivos. Suas ideias nascem da confrontação com materiais etnográficos e históricos, e só gradualmente revelam uma visão coerente do social. Essa visão se articula em torno de alguns eixos fundamentais: o caráter total dos fatos sociais, a lógica da dádiva, a força das representações coletivas, as técnicas do corpo e a construção histórica da pessoa.

O ponto de partida é a herança durkheimiana. Mauss aceita que os fatos sociais possuem existência própria, exterioridade e força coercitiva. Mas logo aprofunda e transforma essa noção. Em lugar de tratar o fato social como coisa isolada, ele passa a insistir em sua totalidade. O “fato social total” é aquele que mobiliza, de uma só vez, múltiplas dimensões da vida coletiva: econômica, jurídica, religiosa, moral, estética, política e mesmo corporal. Não se trata apenas de um fato que atravessa várias instituições, mas de um fenômeno cuja compreensão exige que se veja a sociedade em movimento, como um todo vivo. O conceito de “fato social total" não significa simplesmente "possuir muitos aspectos". Significa que determinado fenômeno mobiliza e expressa simultaneamente diferentes dimensões da vida social, permitindo apreender a sociedade em sua articulação. Essa noção, anunciada com maior clareza no Ensaio sobre a dádiva, torna-se o fio condutor de grande parte de sua reflexão madura.

Antes de chegar à dádiva propriamente dita, é preciso deter-se na noção de "prestação", central ao vocabulário maussiano e nem sempre explicitada nas exposições correntes de sua obra. Mauss não fala de simples trocas ou presentes isolados, mas de um sistema de prestações totais e de respostas recíprocas: cada dádiva compromete não apenas objetos, mas pessoas, grupos e gerações inteiras, numa cadeia de obrigações que se estende no tempo. A prestação é 'total' porque mobiliza, ao mesmo tempo, a economia, o direito, a moral, a religião, a estética e o parentesco; e, quando envolve uma contraprestação, esta não constitui um simples pagamento, mas uma resposta socialmente esperada, cada dádiva pressupõe, mais cedo ou mais tarde, uma resposta equivalente ou superior, capaz de prolongar ou transformar a relação entre os envolvidos.

Nesse sistema, a honra e o prestígio de quem dá dependem diretamente da generosidade e da regularidade da prestação: recusar-se a dar, ou tardar em retribuir, fragiliza o vínculo social e pode configurar, conforme o contexto, uma afronta entre os grupos envolvidos. A aliança entre clãs, famílias ou tribos nasce e se renova por meio dessas prestações recíprocas — casamentos, festas, trocas cerimoniais —, ao passo que a rivalidade, sobretudo nas formas mais agonísticas (competitivas) como o potlatch (exemplo clássico de antagonismo e rivalidade convertidos em rituais de troca), transforma a própria generosidade em instrumento de disputa: dar mais do que se recebeu é também uma forma de vencer o adversário pela dívida que ele não consegue saldar. É dentro dessa estrutura de prestações e contraprestações — tecida por obrigação, honra, aliança, rivalidade e reciprocidade — que a tríplice obrigação de dar, receber e retribuir ganha seu sentido pleno: ela não descreve um gesto isolado de boa vontade, mas o funcionamento de todo um sistema de circulação social.

Importante ressaltar a partir de uma leitura de “Ensaio Sobre a Dádiva: Forma e Razão da Troca nas Sociedades Arcaicas” (1925), a sua noção sobre a “dádiva” e o “intercâmbio”. A “dádiva” ocorre quando algo é dado a outro e, nesta transação, temos presentes diversos elementos, tais como a amizade, o conflito, o interesse, o desinteresse, a obrigação e a liberdade. Pelo “intercâmbio” os grupos sociais trocam aquilo que possuem por aquilo que não possuem, ou seja, cada qual faz uso da parte que possui para obter em troca a que não possui. Esta troca de “metades” presentes e ausentes ocorre em diversos grupos sociais, tais como as “tribos” e tem enorme relevância. Aqui temos a presença das festas, comidas, riquezas e mesmo mulheres e crianças, dentre outros elementos. Quando falamos em “dar” e “receber”, falamos também em competição entre pessoas de prestígio dentro do grupo social, na constituição e também manutenção das relações sociais ali presentes, e isto ocorre em relação a três momentos: “dar”, “receber” e “retribuir”. Estes três momentos carregam em si uma mescla entre por um lado a amizade e por outro o conflito, entre o interesse e o desinteresse, entre a obrigação e a liberdade.

Em 1925, com a publicação do ensaio sobre a dádiva, Mauss defende a dimensão política presente nas trocas em todas as sociedades, entendendo ser um procedimento universal, princípio formal-abstrato e não um fato empírico-concreto, fundamento de toda sociabilidade e comunicação humanas, estando presente em diversas sociedades, sejam estas contemporâneas ou antigas, capitalistas ou não, podendo, no entanto, apresentar nuances próprias a cada sociedade no tocante a sua institucionalização. Segundo o pensamento desenvolvido por Marcel Mauss, o valor das coisas não pode ser superior ao valor da relação. A análise de Mauss permite perceber que, nas relações de dádiva, o valor social da relação frequentemente ultrapassa o valor puramente material do objeto. Outro ponto importante a destacar é que o simbolismo se mostra como sendo fundamental a vida em sociedade.

É no estudo da dádiva que essa perspectiva atinge sua formulação mais potente. Mauss observa, em sociedades da Polinésia, da Melanésia e da costa noroeste da América do Norte, sistemas de troca de presentes que não se reduzem a meras transações econômicas. A dádiva não é um ato livre e desinteressado. Ela implica três obrigações solidárias: a obrigação de dar, a obrigação de receber e a obrigação de retribuir. Quem dá não apenas se desfaz de um objeto; transmite algo de si mesmo. O objeto carrega uma força espiritual (o hau maori, o mana polinésio) que exige retorno. Recusar o presente é recusar a aliança; não retribuir é perder prestígio, honra e, em última instância, a própria posição social. A troca de dádivas, portanto, não é um momento da economia; é o próprio tecido da sociabilidade. Por meio dela se estabelecem e se renovam as relações entre clãs, tribos e grupos. O mercado, quando aparece, é apenas um momento secundário e derivado desse movimento mais amplo de prestações totais.

Essa análise permite a Mauss criticar o utilitarismo e a ideia do homo economicus. O ser humano arcaico e, em larga medida, ainda o contemporâneo, não calcula apenas interesses materiais. Age também por honra, por prestígio, por obrigação moral e por desejo de comunhão. A dádiva revela uma moralidade profunda da troca que as sociedades contemporâneas tendem a esquecer ou a reduzir à esfera do contrato e do direito privado. Mauss sugere que elementos dessa moralidade ainda sobrevivem nas instituições de solidariedade e de proteção social, e que recuperá-los seria um caminho para uma sociedade menos fragmentada.

Paralelamente ao estudo da dádiva, Mauss desenvolve uma teoria das forças coletivas que animam a vida religiosa e mágica. No ensaio sobre o sacrifício, escrito com Henri Hubert (1872-1927), o rito aparece como mecanismo de comunicação entre o sagrado e o profano. No esboço de uma teoria geral da magia, também em colaboração com Hubert, a magia é distinguida da religião não tanto pelo conteúdo quanto pelo modo de operação e pelo caráter mais individual e técnico. O conceito de mana (força impessoal, difusa, ao mesmo tempo material e espiritual) permite compreender como as sociedades arcaicas pensam a eficácia dos ritos, dos objetos e das pessoas. O mana não é uma substância natural; é uma representação coletiva que se objetiva e se torna eficaz.

Outro eixo fundamental de sua reflexão diz respeito ao corpo. Em “As técnicas do corpo”, Mauss formula uma ideia de grande alcance: o corpo humano é o primeiro e mais natural instrumento do ser humano. Antes de qualquer ferramenta externa, há um conjunto de maneiras socialmente aprendidas de usar o próprio corpo (de andar, nadar, dormir, comer, procriar, lutar, dançar). Essas técnicas variam de sociedade para sociedade, de sexo para sexo, de idade para idade. Elas são tradicionais e eficazes; são transmitidas pela educação e pela imitação; e articulam, de modo indissociável, dimensões biológicas, psicológicas e sociais. O “homem total” de Mauss é aquele que só pode ser compreendido na interseção desses três planos. Com essa noção, ele abre o caminho para uma antropologia do corpo e das práticas cotidianas que influenciará decisivamente gerações posteriores.

Ligado a essa preocupação está o ensaio sobre a noção de pessoa. Mauss mostra que a categoria de “pessoa” e de “eu” não é um dado universal e natural. Ela se constrói historicamente. Em muitas sociedades, o indivíduo aparece sobretudo como portador de um personagem social, de um conjunto de papéis e máscaras ritualizadas. A noção que temos hoje de pessoa, com sua ênfase na interioridade psicológica e na responsabilidade individual, é o resultado de um longo processo que passa pelo direito romano, pelo cristianismo e pelo desenvolvimento da filosofia. A pessoa não é apenas um fato psicológico, é uma categoria do espírito humano, uma construção coletiva que organiza a experiência de si e do outro.

Essas ideias se articulam entre si. O fato social total exige que se considere o ser humano em todas as suas dimensões. A dádiva revela a circulação de bens, de prestígio e de pessoas. As técnicas do corpo mostram como o social se inscreve na carne. A noção de pessoa demonstra que até a subjetividade mais íntima é historicamente modelada. Em todos esses casos, Mauss recusa tanto o reducionismo economicista quanto o psicologismo individualista. O social não é um epifenômeno da economia nem um produto da consciência individual, é uma realidade sui generis que se manifesta em prestações, ritos, gestos e categorias mentais.

Sua obra permanece aberta e, em certo sentido, inacabada. Mauss raramente sistematiza até as últimas consequências. Prefere indicar caminhos, sugerir hipóteses e deixar que o material etnográfico fale. Essa incompletude, longe de ser um defeito, é uma das razões de sua fecundidade. Ao recusar tanto o sistema fechado quanto a mera descrição empírica, ele oferece um método de atenção ao concreto que continua a inspirar a antropologia e as ciências sociais.

 

3- Palavras finais

 

Ao final deste percurso, o que fica de Marcel Mauss não é um sistema fechado de conceitos, mas um modo de olhar para a vida social que se recusa a separar o que a contemporaneidade insiste em separar: a economia da moral, o indivíduo do coletivo, o corpo do espírito, o gesto banal do fato de civilização. Foi assim que ele leu a dádiva não como curiosidade etnográfica de povos distantes, mas como espelho crítico das próprias sociedades ocidentais, que se creem regidas pelo cálculo racional e pelo contrato, mas continuam a depender, para se manterem coesas, de gestos de generosidade, obrigação e reciprocidade que a linguagem do mercado não sabe nomear.

Herdeiro de Durkheim e, ao mesmo tempo, autor de um caminho próprio, Mauss deixou uma obra fragmentária na forma, mas unificada no espírito: cada ensaio (sobre o sacrifício, a magia, a dádiva, as técnicas do corpo, a noção de pessoa, etc.) é uma tentativa de flagrar o ser humano total, agindo simultaneamente como corpo, psique e ser social. Essa recusa de reduzir o humano a uma só dimensão é, talvez, seu legado mais duradouro: um convite permanente a pensar a sociedade e o próprio sujeito em sua complexidade indivisível, convite que a antropologia, a sociologia e as ciências humanas em geral ainda não deixaram de responder.

 

4- Algumas das principais obras de Marcel Mauss

 

1- Essai sur la nature et la fonction du sacrifice (com Henri Hubert). Título traduzido para o português: Ensaio sobre a natureza e a função do sacrifício. Data da primeira publicação: 1899 - Publicado em L’Année Sociologique, tomo II (1897-1898), efetivamente 1899.

Análise clássica do sacrifício como rito que estabelece comunicação entre o sagrado e o profano. Hubert e Mauss descrevem a estrutura do sacrifício (entrada no sagrado, imolação, saída), distinguem tipos e mostram sua função social de criar e reforçar vínculos coletivos. Texto fundador da abordagem sociológica dos rituais religiosos.

2- La sociologie: objet et méthode (com Paul Fauconnet). Título traduzido para o português: Sociologia: objeto e método. Artigo publicado na Grande Encyclopédie. Data da primeira publicação: 1901.

Exposição clara e programática do objeto e do método da sociologia durkheimiana, ainda sob forte influência de Durkheim. Define os fatos sociais e a especificidade do olhar sociológico.

3- De quelques formes primitives de classification. Contribution à l’étude des représentations collectives (com Émile Durkheim). Título traduzido para o português: Sobre algumas formas primitivas de classificação. Publicado em L’Année Sociologique. Data da primeira publicação: 1903.

Estudo sobre a origem social das categorias de classificação (espaço, tempo, gêneros etc.). Argumenta que as classificações lógicas têm raiz nas classificações sociais e nas representações coletivas, e não em meras operações mentais individuais.

4- Esquisse d’une théorie générale de la magie (com Henri Hubert). Título traduzido para o português:  Esboço de uma teoria geral da magia. Data da primeira publicação: 1904 (volume de L’Année Sociologique de 1902-1903).

Primeira teoria sociológica sistemática da magia. Distingue magia de religião e de técnica, analisa agentes, ritos e representações mágicas, e introduz a noção de mana como força coletiva impessoal. Texto de grande influência posterior (Evans-Pritchard, Lévi-Strauss etc.).

5- Essai sur les variations saisonnières des sociétés eskimos. Étude de morphologie sociale (com Henri Beuchat). Título traduzido para o português: Ensaio sobre as variações sazonais das sociedades esquimós. Data da primeira publicação: 1906. Publicado em L’Année Sociologique.

Análise de morfologia social: mostra como a densidade e a dispersão demográfica (inverno congregado / verão disperso) determinam profundas transformações na organização social, jurídica e religiosa dos esquimós. Um dos primeiros estudos de ecologia social.

6- Mélanges d’histoire des religions (com Henri Hubert). Título traduzido para o português: Miscelânea de história das religiões. Data da primeira publicação: 1909.

Coletânea que reúne, entre outros, o ensaio sobre o sacrifício, textos sobre a origem dos poderes mágicos e a introdução à análise de alguns fenômenos religiosos. Segunda edição em 1929.

7- La Prière. I. Les origines (espécime / fragmento). Título traduzido para o português: A prece. Data da primeira publicação: 1909.

Início da tese de doutorado que Mauss nunca concluiu. Retirou o texto da impressão. Aborda as origens e as formas da oração como fenômeno social e religioso.

8- Essai sur le don. Forme et raison de l’échange dans les sociétés archaïques. Título traduzido para o português: Ensaio sobre a dádiva (também traduzido como Ensaio sobre o dom). Data da primeira publicação: 1925 (volume de L’Année Sociologique de 1923-1924).

Esta é a obra mais célebre e influente de Mauss, ela analisa sistemas de troca de presentes (kula, potlatch etc.) em sociedades da Polinésia, Melanésia e da costa noroeste da América do Norte. Demonstra que a dádiva não é ato livre e desinteressado, mas implica as três obrigações de dar, receber e retribuir. Introduz o conceito de “fato social total”. Texto fundador dos estudos sobre reciprocidade e troca.

9- Les techniques du corps. Título traduzido para o português: As técnicas do corpo. Data da primeira publicação: 1934 / publicação 1936. Conferência pronunciada em 17 de maio de 1934 perante a Société de Psychologie; publicada no Journal de Psychologie em 1936.

Define as técnicas do corpo como “atos tradicionais eficazes”. O corpo é o primeiro instrumento e o primeiro objeto técnico do ser humano. Classifica técnicas por sexo, idade, rendimento e biografia (do nascimento à morte). Texto seminal para a antropologia do corpo e das técnicas.

10- Une catégorie de l’esprit humain: la notion de personne, celle de « moi ». Título traduzido para o português: Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa, a de “eu”. Data da primeira publicação: 1938. Publicado no Journal of the Royal Anthropological Institute.

História social da categoria de pessoa e de “eu”. Mostra que a noção de pessoa individual não é universal nem natural, mas uma construção histórica e social que se desenvolve de forma distinta em diferentes civilizações.

11- Manuel d’ethnographie. Título traduzido para o português: Manual de etnografia. Data da primeira publicação: 1947. Curso ministrado no Institut d’Ethnologie (a partir de 1926), reunido e publicado por Denise Paulme (com colaboração de Michel Leiris).

Manual prático e teórico de etnografia descritiva. Cobre morfologia social, tecnologia, estética, economia, direito, moral e religião. Ainda hoje útil como guia de observação de campo e como exposição do método maussiano.

12- Sociologie et anthropologie. Título traduzido para o português: Sociologia e antropologia. Data da primeira publicação: 1950 (póstumo).

Coletânea organizada sob a direção de Georges Gurvitch, com a célebre “Introdução à obra de Marcel Mauss” de Claude Lévi-Strauss. Reúne os principais ensaios maduros: o esboço sobre a magia, o Ensaio sobre a dádiva, as técnicas do corpo, a noção de pessoa, as relações entre psicologia e sociologia, o efeito físico da ideia de morte etc. A partir da 3ª edição (1966) inclui também o ensaio sobre as sociedades esquimós. É a edição de referência da obra de Mauss em volume único.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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terça-feira, 29 de setembro de 2026

John Dewey: Filosofia, Pragmatismo, Educação, Experiência e Democracia

 

“Conflict is the gadfly of thought.”

“O conflito é o aguilhão do pensamento.”

John Dewey, Human Nature and Conduct (1922), Parte IV, seção "Morals are human"

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

John Dewey

 

John Dewey foi um dos mais importantes filósofos norte-americanos do século XX e uma das figuras centrais do Pragmatismo. Seu nome é frequentemente associado à educação e à chamada educação progressiva, mas reduzir seu pensamento à pedagogia significa perder de vista a amplitude de sua filosofia. Dewey desenvolveu uma concepção própria da experiência, do conhecimento, da investigação, da ética, da democracia, da arte e da religião, procurando compreender todos esses domínios a partir da relação dinâmica entre o ser humano e o ambiente em que vive. Sua filosofia é, em grande medida, uma tentativa de substituir a busca por certezas absolutas por uma inteligência experimental capaz de enfrentar problemas concretos e reconstruir continuamente a experiência.

A importância de John Dewey está também na maneira como ele procura superar antigas separações que marcaram a tradição filosófica, como aquelas entre teoria e prática, pensamento e ação, indivíduo e sociedade, conhecimento e experiência. Para Dewey, pensar não é simplesmente contemplar uma realidade já pronta, mas investigar situações problemáticas e encontrar, por meio da inteligência, formas mais adequadas de agir. A educação, nesse contexto, deixa de ser apenas transmissão de conhecimentos e preparação para o futuro e passa a constituir uma dimensão fundamental da própria vida humana. Compreender Dewey é, portanto, compreender uma filosofia da experiência, da investigação e da reconstrução, profundamente ligada aos problemas da sociedade, da democracia e da formação humana.

 

1- Vida

 

John Dewey (1859-1952) nasceu em Burlington, Vermont, EUA, em 20 de outubro de 1859 e falece então aos 92 anos de idade (1º de junho de 1952) em Nova York. Filho de Archibald Sprague Dewey e Lucina Artemisia Rich Dewey (o casal teve no total quatro filhos e Dewey foi o terceiro a nascer), família de comerciantes e que assumiam a religião protestante congregacionalista. A família viveu em ambiente de classe média, com forte ênfase religiosa e moral. O pai serviu como intendente na Guerra Civil, o que levou a uma separação temporária da família.


Fez seus estudos básicos em Burlington, Vermont, e ali mesmo cursou uma universidade local (University of Vermont), na qual ingressa em 1875 e se forma em 1879. Em sequência passou a estudar na Johns Hopkins University, em Baltimore. O currículo clássico e a influência do professor Henry A. P. Torrey despertaram seu interesse pela filosofia. Após a graduação, lecionou por dois anos no ensino secundário em Oil City, Pensilvânia (1879-1881), e depois em Charlotte, Vermont. Nesse período começou a afastar-se da ortodoxia religiosa familiar, embora ainda frequentasse a igreja por algum tempo.

 

Neste início de formação foi iniciado ao pensamento dos evolucionistas, do Positivismo de Comte, do Idealismo de Hegel. Sua tese de Doutorado foi sobre a psicologia em Kant, desenvolvida entre 1882 e 1884 na Universidade Johns Hopkins. Entre 1884 e 1894 atuou como instrutor e professor da universidade de Michigan, EUA (Michigan em 1884–1888 e 1889–1894, com Minnesota em 1888–1889). Em seu período posterior à Universidade de Michigan, cabe destacar a influência filosófica de George Sylvester Morris no tocante ao papel exercido pelo idealismo hegeliano nesta fase do pensamento de Dewey. Até o final da década de 1890 sua postura o aproximava de uma visão filosófica neo-hegeliana, mas a partir desta época começa a adotar o Pragmatismo. Em verdade, John Dewey, conjuntamente com Charles Sanders Peirce e William James, são os fundadores do Pragmatismo nos EUA. Em verdade, a maioria dos historiadores da filosofia trata Peirce como o originador (Metaphysical Club, anos 1870), James como o divulgador, e Dewey como a "segunda geração", que sistematiza e desenvolve o movimento décadas depois. Apesar disto, preferia usar no lugar de “Pragmatismo” o termo “Instrumentalismo” para descrever sua própria filosofia. Em sua fase madura, Dewey também utilizou “experimentalismo” e chegou a preferir “cultural naturalism” / naturalismo cultural como caracterização de sua filosofia. Aqui há uma evolução terminológica: pragmatismo → instrumentalismo/experimentalismo → naturalismo cultural. Doutorou-se em 1884 com uma dissertação sobre a psicologia de Kant (perdida). Também ensinou na universidade de Minessota e, em 1894 passa a lecionar na universidade de Chicago, ocupando uma cátedra de pedagogia, onde fica até 1904. Em 1905 passa a lecionar na universidade de Columbia, Nova York, onde fica até o ano de 1930.

Em 1886 John Dewey casa com Harriet Alice Chipman (1858-1927), com quem tem seis filhos. Harriet Alice era uma de suas alunas, oriunda de Fenton, Michigan, órfã criada pelos avós maternos e mulher de forte personalidade, interesses feministas e sensibilidade social. Alice exerceu influência decisiva sobre Dewey, empurrando-o para questões práticas, educacionais e de justiça social, e afastando-o ainda mais da religião institucional. O casal teve seis filhos biológicos e adotou um, a saber: Frederick Archibald (1887); Evelyn Riggs (1889); Morris (nascido por volta de 1893, morreu de difteria em Milão, em 1895, durante viagem da família à Europa); Gordon Chipman (1896, morreu de febre tifoide na Irlanda, em 1904); Lucy Alice (1897); Jane Mary (1900); Sabino Lewis (adotado por volta de 1905, ele nasceu em Veneza em abril de 1898). As mortes de Morris e, especialmente, de Gordon foram golpes profundos. Dewey e Alice nunca se recuperaram plenamente; a perda do segundo filho ocorreu no momento em que a família deixava Chicago, agravando o trauma.

Dewey atuou como psicólogo, filósofo e educador. Como educador fundou e atuou conjuntamente com sua esposa, em escolas experimentais, nas quais adotava um método que buscava integrar a teoria provinda das ciências com a prática cotidiana no transcorrer da aprendizagem dos alunos. Dewey entende ser fundamental na educação o desenvolvimento da capacidade de raciocínio e crítica. As ideias estudadas e desenvolvidas devem estar voltadas para a solução de problemas reais cotidianos. John Dewey defendia a “educação progressiva”, na qual o aluno deve ser entendido como sendo um todo e o objetivo deve ser o desenvolvimento global, que inclui o físico, emocional e intelectual.

Entre 1888 e 1889 Dewey ocupou a cátedra de filosofia na University of Minnesota, retornando logo a Michigan como chefe do departamento após a morte de Morris. Em Michigan consolidou amizades intelectuais duradouras, sobretudo com George Herbert Mead e James Hayden Tufts, e iniciou a transição do idealismo hegeliano para uma filosofia mais experimental e naturalista, influenciada pela psicologia funcional e pelo darwinismo.

Em 1894 aceitou o convite de William Rainey Harper para dirigir o Departamento de Filosofia, Psicologia e Educação da University of Chicago. Ali fundou, em 1896, a University Elementary School (depois conhecida como Laboratory School ou “Dewey School”), experiência pioneira de educação progressiva centrada na atividade, no interesse da criança e na reconstrução da experiência. Alice passou a atuar como principal da escola em 1901. A experiência foi extraordinariamente frutífera do ponto de vista teórico, mas administrativamente turbulenta. Conflitos com o corpo docente (especialmente após a fusão com a escola de Francis W. Parker), críticas à gestão de Alice e pressões do presidente Harper levaram Alice a pedir demissão em 1904. Dewey, solidário e já exausto das funções administrativas, renunciou também e deixou Chicago.

Ainda em 1904 aceitou o cargo de professor de filosofia na Columbia University, em Nova York (iniciando suas atividades em 1905), onde permaneceria até a aposentadoria em 1930 (continuando como professor emérito em residência). Em Columbia consolidou sua reputação internacional, publicou suas obras maduras e manteve intensa atividade pública. Foi presidente da American Psychological Association (1899-1900) e da American Philosophical Association (1905-1906).

Entre 1919 e 1921 realizou a mais importante de suas viagens: Japão e, sobretudo, China (onde permaneceu cerca de dois anos). Em Pequim e outras cidades proferiu centenas de conferências, testemunhou o “Movimento de 4 de Maio” e tornou-se referência para intelectuais chineses (Hu Shih e outros). A experiência reforçou sua fé na democracia como forma de vida e na educação como instrumento de reconstrução social. Em 1924 visitou a Turquia a convite do governo, elaborando um relatório sobre a reforma educacional. Em 1926 esteve no México e, em 1928, na União Soviética, onde observou as experiências educativas pós-revolucionárias com interesse inicial, mas também com reservas crescentes.

Alice Chipman Dewey morreu em 14 de julho de 1927, após anos de saúde frágil (malária contraída na Turquia, problemas cardíacos agravados no México). Dewey ficou viúvo por quase duas décadas. Em 11 de dezembro de 1946, aos 87 anos, casou-se com Roberta Lowitz Grant (viúva, cerca de 42 anos), antiga conhecida. O casal adotou dois irmãos (Lewis, depois chamado John Jr., e Shirley/Adrienne).

Nos últimos anos Dewey continuou a escrever, a intervir publicamente (defesa de direitos civis, crítica ao totalitarismo, participação na Comissão Dewey de investigação das acusações contra Trotsky em 1937) e a receber homenagens. Em novembro de 1951 fraturou o quadril. Em 1º de junho de 1952 morreu de pneumonia em seu apartamento na Fifth Avenue, em Nova York, aos 92 anos. Foi cremado no dia seguinte. O funeral ocorreu na Community Church of New York.

A vida de Dewey atravessou a Guerra Civil americana, a industrialização, as duas guerras mundiais, a Depressão e o início da Guerra Fria. Suas experiências pessoais (a formação religiosa e o abandono gradual dela, o casamento com Alice e a influência desta, as perdas dos filhos, a prática educacional em Chicago, as viagens orientais e o engajamento público) alimentaram diretamente a passagem do idealismo inicial para o naturalismo experimental, a centralidade da experiência, a defesa da democracia como forma de vida e a concepção da educação como reconstrução contínua da experiência.

 

2- Ideias

 

Segundo o pensamento desenvolvido por John Dewey, a complexidade presente em nossas sociedades contemporâneas, em constante e renovado processo de transformação social necessita desenvolver em seus cidadãos desde jovens algumas características que permitam a esta mesma sociedade manter e consolidar uma democracia, se assim não o for, não teremos uma verdadeira democracia e sim, somente uma democracia de nome, mas não real. Caberia, portanto, desenvolver por meio da educação dos jovens, o interesse nos estudos, iniciativa, saber desenvolver reflexões, entender o valor da liberdade e a responsabilidade em relação aos demais membros da sociedade. Para haver democracia real é preciso que haja participação ativa dos cidadãos na vida social. No pensamento de Dewey, democracia não é simplesmente uma instituição política; é uma forma de vida associada que exige hábitos de comunicação, reflexão, cooperação e investigação.

O processo de aprendizagem deve se dar de modo a permitir aos alunos uma experiência ativa e também participativa diante do aprendizado, de modo que estes possam explorar, questionar, refletir e buscar a descoberta de soluções e resultados para problemas. Esta abordagem participativa no tocante a aprendizagem nos lembra os futuros trabalhos de Jean Piaget, que ao partir deste pressuposto, desenvolve todo um trabalho em profundidade tendo como ideia principal que a aprendizagem se faz por meio da ação sobre o meio circundante. Não que Dewey tenha influenciado Piaget, mas sim que seu trabalho segue na mesma linha e anteriormente ao de Piaget.

Para Dewey, o ensino tradicional tende a valorizar a passividade do aluno e se apresenta de modo autoritário, reforçando a memorização e não a solução de problemas. Ele entende que a aprendizagem deva ser ativa e experiencial, sendo o conhecimento construído por meio da interação com o mundo circundante e não absorvido de modo passivo e estático, portanto, a educação deve envolver atividades práticas e experiências reais, gerando contextos que possuam significado real para os alunos. Em verdade, temos que o trabalho filosófico e educacional apresentado por John Dewey traz enorme destaque para a experiência no tocante ao efetivo ensino / aprendizagem.

A filosofia desenvolvida por Dewey busca reconstruir o pensamento humano a partir da experiência concreta, rejeita o dualismo cartesiano e de toda tradição filosófica. Dewey parte de uma crítica radical aos dualismos que atravessam a história da filosofia ocidental: mente e corpo, sujeito e objeto, teoria e prática, fato e valor, indivíduo e sociedade, espírito e matéria. Esses dualismos, segundo ele, não são descobertas metafísicas, mas produtos históricos de condições sociais e intelectuais superadas. A filosofia tradicional, ao buscar certezas absolutas e imutáveis, separou o conhecimento da ação e transformou a experiência em algo privado, mental ou meramente subjetivo.

Para Dewey, a inteligência se localiza no interior da vida biológica, social e histórica dos indivíduos. Dewey não propõe um sistema fechado, mas um método experimental de investigação que se aplica igualmente à ciência, à ética, à educação, à política, à arte e à religião. O núcleo de sua cosmovisão é a continuidade: continuidade entre organismo e ambiente, entre experiência e natureza, entre conhecimento e ação, entre indivíduo e sociedade. Dewey propõe um naturalismo experimental (ou humanismo naturalista) no qual a experiência é compreendida como transação contínua entre organismo e ambiente. Experiência não é algo que acontece “dentro” da mente; é o próprio processo de interação, de fazer e sofrer as consequências do que se faz. A experiência é, ao mesmo tempo, ativa e passiva, e só se torna verdadeiramente educativa ou significativa quando é reconstruída de forma inteligente.

Essa concepção de experiência fundamenta sua teoria da investigação. O pensamento não é contemplação de verdades eternas, mas instrumento de adaptação e transformação de situações problemáticas. Diante de uma situação indeterminada, confusa ou frustrante, o organismo sente a necessidade de investigar. O processo reflexivo envolve a formulação do problema, a elaboração de hipóteses, o raciocínio sobre suas possíveis consequências e a verificação experimental. A verdade, nesse quadro, não é correspondência com uma realidade independente, mas o valor instrumental de uma ideia em resolver o problema e reconstruir a experiência de maneira mais satisfatória e controlada. A lógica, portanto, deixa de ser formal e abstrata para se tornar a teoria da investigação: o estudo dos métodos pelos quais as situações problemáticas são transformadas em situações resolvidas.

Essa lógica da investigação também é aplicada por Dewey à educação, domínio no qual sua influência foi mais ampla e, por vezes, mais deturpada. A educação não é preparação para a vida futura nem transmissão de conteúdos fixos; é o próprio processo de crescimento e de reconstrução contínua da experiência. A escola deve ser uma comunidade embrionária, um ambiente simplificado e ordenado no qual a criança possa viver experiências significativas, partilhar interesses e desenvolver a capacidade de pensar reflexivamente. O interesse da criança não é um ponto de partida espontâneo a ser seguido cegamente, nem um obstáculo a ser superado pelo esforço imposto; é a energia que, quando bem dirigida, permite a organização progressiva do conhecimento.

Dewey rejeita tanto o formalismo tradicional quanto o espontaneísmo puro. A educação progressiva, no sentido técnico que ele atribui à expressão, designa precisamente essa tentativa de organizar a escola em torno da experiência ativa, da investigação e da cooperação democrática. É importante distinguir esse uso histórico e pedagógico da palavra “progressiva” do sentido político contemporâneo de “progressista”, frequentemente associado a agendas ideológicas de esquerda. Em Dewey, “progressiva” refere-se a um método experimental de educação e de reconstrução social, não a um programa político partidário. Embora sua filosofia tenha sido acolhida por movimentos de esquerda política, ela se opõe a qualquer tipo de autoritarismo, seja este ideologicamente de direita ou de esquerda, pois sua filosofia privilegia a inteligência coletiva, a experimentação e a comunicação livre em vez de dogmas ou supostas vanguardas iluminadas que tudo sabem. Dewey não pode ser simplesmente identificado com o significado atual de “progressista” como rótulo partidário ou cultural; porém, ele próprio foi um pensador político reformista, liberal e fortemente comprometido com a transformação social.

A democracia, para Dewey, não é primariamente uma forma de governo ou um conjunto de instituições. É uma forma de vida associada, de experiência compartilhada e mutuamente comunicada. Uma sociedade democrática é aquela em que os interesses dos grupos se entrecruzam de maneira ampla e em que a comunicação livre permite a reconstrução contínua dos hábitos e das instituições. A democracia exige, portanto, condições educativas e culturais que formem indivíduos capazes de participar inteligentemente da vida pública. Sem educação democrática, as instituições democráticas degeneram em formalismos ou em manipulação das massas. Dewey combateu tanto o individualismo atomista do liberalismo clássico quanto as formas coletivistas que sacrificam a individualidade em nome de um bem abstrato. Sua defesa da democracia é experimental e histórica: ela se justifica pelos resultados que produz na liberação das potencialidades humanas e na resolução inteligente dos conflitos.

Na ética, Dewey aplica o mesmo método experimental. Não existem princípios morais absolutos e a-históricos. A ação moral surge em situações concretas de conflito de valores. O bem é aquilo que, após investigação, se mostra capaz de harmonizar e enriquecer a experiência. A moralidade é social e histórica; os hábitos morais se formam na interação com o meio cultural e precisam ser constantemente reconstruídos pela inteligência. Dewey rejeita tanto o intuicionismo quanto o utilitarismo hedonista rígido, propondo uma ética da situação e da consequência inteligente.

Sua estética, desenvolvida sobretudo em “Art as Experience”, retoma a ideia de experiência consumatória. A arte não é um domínio separado da vida cotidiana, reservado a objetos especiais em museus. A experiência estética é a forma intensificada e completa da experiência ordinária, na qual o fazer e o sofrer, o instrumental e o final, se unem de maneira harmoniosa. A obra de arte é o produto de um processo de experiência que alcança plenitude e unidade. Ao recuperar a continuidade entre arte e vida, Dewey combate a alienação estética da sociedade industrial e afirma o valor da experiência estética como um dos modos mais elevados de realização humana.

Por fim, na religião, Dewey propõe uma fé naturalista e comum. Em “A Common Faith”, distingue o religioso (qualidade de experiência que unifica e eleva) das religiões históricas (sistemas de crenças sobrenaturais e instituições). A fé autêntica não depende de dogmas nem de realidades transcendentais; é a atitude de dedicação às possibilidades ideais da experiência humana e à cooperação inteligente para realizá-las. Dewey não é ateu no sentido banal, ele é na verdade um naturalista que recusa a oposição entre o sagrado e o secular e busca reintegrar a dimensão religiosa no interior da vida natural e social.

O pensamento de Dewey é, portanto, uma filosofia da reconstrução. Ele não pretende substituir um sistema por outro, mas sim fornecer um método que permita à inteligência humana enfrentar os problemas concretos de seu tempo. Sua confiança na experiência, na investigação e na democracia como forma de vida, dentro de um viés totalmente prático ou mesmo pragmático, permanece um dos legados mais potentes e, ao mesmo tempo, mais exigentes da filosofia contemporânea.

 

3- Palavras finais

 

O percurso de John Dewey (do idealismo hegeliano de juventude ao naturalismo experimental de maturidade) não é uma sucessão de fases desconexas, mas o desdobramento de uma única intuição central: a de que inteligência e experiência não se separam da vida concreta, e que todo problema, seja ele lógico, moral, estético, educacional ou político, se resolve pelo mesmo método de investigação, jamais por apelo a certezas prontas ou princípios imutáveis. É essa continuidade que confere unidade a uma obra tão vasta e aparentemente dispersa entre psicologia, lógica, ética, estética, religião e teoria política. Um século depois, essa filosofia permanece extraordinariamente atual. Os dilemas que Dewey enfrentou (como formar cidadãos capazes de pensar por si mesmos, como sustentar instituições democráticas contra a passividade e a manipulação, como reconciliar ciência e valores) continuam a ser, talvez de forma ainda mais urgente, os dilemas do presente.

Nem por isso sua filosofia deve ser lida sem tensões. A confiança de Dewey na inteligência coletiva e na comunicação livre como bases suficientes para a vida democrática foi posta à prova pela própria história que ele viveu. As décadas de 1920 e 1930, marcadas pela ascensão do fascismo e do stalinismo, revelaram o quanto os hábitos de cooperação racional que ele descrevia podiam ser rapidamente substituídos por dogmatismo e violência organizada, algo que o próprio Dewey precisou enfrentar em obras tardias como Freedom and Culture (1939). Da mesma forma, sua concepção de educação progressiva foi, com frequência, deturpada por seguidores que a reduziram a espontaneísmo sem direção, distorção que o próprio autor sentiu necessidade de corrigir em Experience and Education (1938). Essas tensões não diminuem sua obra; ao contrário, mostram um pensador disposto a submeter as próprias ideias ao mesmo teste experimental que exigia de qualquer outra crença. É por isso que Dewey ocupa um lugar decisivo na história crítica da filosofia: ponte entre o idealismo do século XIX e o naturalismo e o pragmatismo do século XX. Sua obra continua a alimentar debates contemporâneos sobre democracia, educação e o papel da inteligência na reconstrução da vida em comum.

 

4- Algumas das principais obras de John Dewey

 

1- Psychology. Tìtulo traduzido para o português: Psicologia. Ano da primeira publicação: 1887.

Obra de juventude ainda marcada pelo idealismo hegeliano. Apresenta uma psicologia experimental e filosófica que tenta conciliar a ciência positiva com a tradição idealista. Dewey trata da mente, da vontade, da percepção e da ação, já mostrando interesse pela continuidade entre organismo e ambiente. É um dos primeiros livros que o projetam no meio acadêmico americano.

2- Leibniz’s New Essays Concerning the Human Understanding: A Critical Exposition. Título traduzido para o português: Os Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano de Leibniz: Uma Exposição Crítica. Ano da primeira publicação: 1888.

Estudo detalhado da obra de Leibniz, escrito no período em que Dewey ainda se movia dentro do idealismo. Serve tanto como exposição quanto como crítica, revelando sua formação filosófica inicial e seu interesse pela teoria do conhecimento.

3- The Reflex Arc Concept in Psychology. Título traduzido para o português: O Conceito de Arco Reflexo em Psicologia. Ano da primeira publicação: 1896.

Ensaio fundamental para compreender a transformação da psicologia e da filosofia de Dewey. Nele, Dewey critica a concepção tradicional do arco reflexo como uma sequência mecânica de estímulo, resposta e reação, defendendo uma compreensão integrada da relação entre organismo e ambiente. A experiência não deve ser fragmentada em elementos isolados, pois percepção, ação, situação e finalidade formam uma unidade dinâmica. O texto é particularmente importante para compreender a passagem de Dewey da psicologia funcional para sua concepção posterior de experiência, organismo e ambiente.

4- My Pedagogic Creed. Título traduzido para o português: Meu Credo Pedagógico. Ano da primeira publicação: 1897.

Texto curto, mas de grande importância para compreender a concepção educacional de Dewey. Apresenta de maneira programática suas ideias sobre a natureza da educação, o papel da escola, a relação entre educação e sociedade, a importância da experiência e a função do professor. É particularmente importante porque antecipa princípios que serão desenvolvidos posteriormente em The School and Society e Democracy and Education. A conhecida formulação de Dewey segundo a qual a educação deve ser compreendida como um processo de vida, e não simplesmente como preparação para uma vida futura, encontra aqui uma de suas fontes mais importantes.

5- The School and Society. Título traduzido para o português: A Escola e a Sociedade. Ano da primeira publicação: 1899. (existem edições revisadas posteriores).

Três conferências que se tornaram clássicas. Dewey defende a escola como comunidade embrionária e como instrumento de reconstrução social. Critica a educação tradicional desligada da vida e propõe uma pedagogia centrada na atividade, no trabalho e na cooperação. É um dos textos fundadores da educação progressiva.

6- The Child and the Curriculum. Título traduzido para o português: A Criança e o Programa Escolar (ou A Criança e o Currículo). Ano da primeira publicação: 1902.

Curto e denso ensaio sobre a relação entre os interesses da criança e o conteúdo organizado do currículo. Dewey rejeita tanto o excesso de formalismo quanto o espontaneísmo puro, propondo a mediação inteligente entre a experiência infantil e o conhecimento sistematizado.

7- Studies in Logical Theory. Título traduzido para o português: Estudos de Teoria Lógica. Ano da primeira publicação: 1903.

Coletânea que marca a virada pragmática de Dewey. Desenvolve a ideia de que a lógica não é formal e abstrata, mas o método da investigação a partir de situações problemáticas. Antecipa a lógica experimental que ele elaborará ao longo da vida.

8- Ethics (com James H. Tufts). Título traduzido para o português: Ética. Data da primeira publicação: 1908 (edição revisada em 1932).

Tratado sistemático de ética. Distingue a moral consuetudinária da moral reflexiva e situa a ação moral no contexto social e histórico. A edição de 1932 incorpora amadurecimentos do pragmatismo deweyano.

9- The Influence of Darwinism on Philosophy Título traduzido para o português: A Influência do Darwinismo sobre a Filosofia. Ano da primeira publicação: 1910.

Obra decisiva para compreender a influência do evolucionismo sobre a filosofia de Dewey. O pensamento darwiniano fornece a Dewey um modelo para abandonar concepções fixas e imutáveis da realidade, da natureza humana e dos problemas filosóficos, substituindo-as por uma perspectiva histórica, dinâmica e experimental. Dewey passa a compreender o pensamento, os valores e as instituições como elementos inseridos em processos de transformação. O darwinismo, nesse sentido, contribui decisivamente para sua crítica à busca tradicional por certezas absolutas e para a formação de seu naturalismo experimental.

10- How We Think. Título traduzido para o português: Como Pensamos (ou Como pensamos: como se relaciona o pensamento reflexivo com o processo educativo). Data da primeira publicação: 1910 (edição revisada e ampliada em 1933).

Obra fundamental sobre o pensamento reflexivo. Dewey descreve as fases da investigação (dúvida, formulação do problema, hipótese, raciocínio, verificação) e mostra sua importância para a educação. É um dos textos mais lidos e traduzidos do autor no Brasil.

11- Democracy and Education: An Introduction to the Philosophy of Education. Título traduzido para o português: Democracia e Educação: Introdução à Filosofia da Educação. Data da primeira publicação: 1916.

Provavelmente a obra mais influente de Dewey no campo educacional. Apresenta a educação como processo de crescimento e de reconstrução contínua da experiência, e a democracia como forma de vida associada baseada na comunicação e no intercâmbio de experiências. Integra filosofia, pedagogia e teoria social de maneira sistemática.

12- Essays in Experimental Logic. Título traduzido para o português: Ensaios de Lógica Experimental. Ano da primeira publicação: 1916.

Desenvolvimento da concepção instrumentalista da lógica. O pensamento é instrumento de adaptação e transformação de situações problemáticas. Reforça a ruptura com a lógica formal tradicional.

13- Reconstruction in Philosophy. Título traduzido para o português: Reconstrução em Filosofia (ou A Filosofia em Reconstrução). Data da primeira publicação: 1920.

Conferências proferidas no Japão e na China. Dewey defende a reconstrução da filosofia a partir da ciência experimental e da experiência humana concreta, abandonando dualismos metafísicos herdados da tradição.

14- Human Nature and Conduct: An Introduction to Social Psychology. Título traduzido para o português: A Natureza Humana e a Conduta: Introdução à Psicologia Social. Data da primeira publicação: 1922.

Análise da natureza humana a partir do hábito, do impulso e da inteligência. Dewey rejeita tanto o instintivismo rígido quanto o racionalismo abstrato, situando a conduta no intercâmbio entre organismo e meio social.

15- Experience and Nature. Título traduzido para o português: Experiência e Natureza. Data da primeira publicação: 1925 (edição revisada em 1929).

Obra central da metafísica deweyana. Defende a continuidade entre experiência e natureza, criticando dualismos (mente/corpo, sujeito/objeto, valor/fato). Apresenta o empirismo naturalista ou humanismo naturalista maduro de Dewey. É considerada por muitos sua mais importante obra filosófica.

16- The Public and Its Problems. Título traduzido para o português: O Público e seus Problemas. Data da primeira publicação: 1927.

Reflexão política sobre a democracia. Dewey discute a formação do “público”, o papel da comunicação e da investigação coletiva, e responde a críticas como as de Walter Lippmann. Afirma que a democracia exige condições de experiência compartilhada e inteligência pública.

17- The Quest for Certainty: A Study of the Relation of Knowledge and Action. Título traduzido para o português: A Busca da Certeza: Um Estudo da Relação entre Conhecimento e Ação. Data da primeira publicação: 1929.

Crítica à busca filosófica tradicional de certezas absolutas e imutáveis. Dewey opõe a isso a lógica da investigação experimental e a continuidade entre conhecimento e ação prática.

18- Art as Experience. Título traduzido para o português: A Arte como Experiência. Ano da primeira publicação: 1934.

Principal obra de estética de Dewey. Argumenta que a experiência estética é a forma consumada e intensificada da experiência ordinária. Rejeita a separação entre belas-artes e vida cotidiana e situa a arte no contínuo da experiência humana.

19- A Common Faith. Título traduzido para o português: Uma Fé Comum. Data da primeira publicação: 1934.

Ensaio sobre religião. Dewey propõe uma fé naturalista e humanista, centrada na experiência religiosa como qualidade da experiência, sem necessidade de crenças sobrenaturais ou dogmas.

20- Liberalism and Social Action. Título traduzido para o português: Liberalismo e Ação Social. Data da primeira publicação: 1935.

Defesa de um liberalismo renovado, experimental e social, diante dos desafios do século XX. Critica tanto o individualismo clássico quanto o autoritarismo.

21- Experience and Education. Título traduzido para o português: Experiência e Educação. Data da primeira publicação: 1938.

Texto curto e clarificador em que Dewey responde a distorções da educação progressiva. Distingue experiência educativa de experiência deseducativa e reafirma a necessidade de continuidade, interação e direção inteligente.

22- Logic: The Theory of Inquiry. Título traduzido para o português: Lógica: A Teoria da Investigação. Data da primeira publicação: 1938.

Obra maior de lógica. Apresenta a lógica como teoria da investigação controlada. O pensamento é o método pelo qual situações problemáticas são transformadas em situações resolvidas. É o coroamento de décadas de reflexão lógica.

23- Freedom and Culture. Título traduzido para o português: Liberdade e Cultura. Data da primeira publicação: 1939.

Análise das condições culturais da liberdade democrática, com atenção aos desafios do totalitarismo e à importância da inteligência científica na vida pública.

24- Knowing and the Known (com Arthur F. Bentley). Título traduzido para o português: O Conhecedor e o Conhecido. Data da primeira publicação: 1949.

Última grande obra filosófica. Desenvolve uma teoria transacional do conhecimento, superando dualismos residualmente presentes em formulações anteriores.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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