Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

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terça-feira, 14 de julho de 2026

Jules Payot: A Educação da Vontade, Disciplina e Formação do Caráter

 

L'éducation de la volonté ne peut ni ne doit être négative et formelle; il faut porter la volonté à son maximum d'énergie.

 

Tradução para o português:

A educação da vontade não pode nem deve ser negativa e formal; é preciso levar a vontade ao seu máximo de energia.

Jules Payot, L'Éducation de la volonté, 1893 (ampliada em 1895).

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Jules Payot

 

1- Vida

 

Jules Payot deve ser entendido dentro do seu contexto histórico-cultural, no qual se apresenta como um pensador e educador que atuou como figura pública presente na Terceira República Francesa.

Jules Payot (1859-1940) nasceu em Chamonix, na região de Haute-Savoie, em verdade, tal nascimento se dá aos pés do imponente Monte Branco, na região dos Alpes franceses.  Essa origem montanhosa não foi mero detalhe geográfico: o contato precoce com a natureza grandiosa e austera dos Alpes marcou profundamente sua sensibilidade e, mais tarde, alimentaria reflexões sobre disciplina, esforço e superação pessoal, temas centrais em sua obra pedagógica. Payot casou-se em 3 de outubro de 1888 com Clémentine Caillet (Clémentine Payot; 1861-1940), com quem teve um filho. Clémentine faleceu em 20 de fevereiro de 1940, poucos dias após o marido (28 de janeiro). Payot vem a falecer aos 80 anos de idade nesta mesma região, em Aix-en-Provence, no sul da França, e as fontes divergem entre 28 ou 30 de janeiro de 1940.  Nestas breves notas biográficas, entendo ser interessante também destacar que Payot demonstrou familiaridade com a psicologia de Théodule-Armand Ribot (1839-1916), referência central em sua época e que alguns comentadores buscam destacar em maior primazia a influência de Ribot sobre Payot.


 

No tocante às fontes que nos chegaram nos dias de hoje, pouco se sabe sobre sua infância e formação inicial, o que torna sua trajetória ainda mais notável. Filho de uma família camponesa modesta da província francesa de Chamonix, segundo algumas fontes seu pai atuava como artesão em madeira. Payot construiu uma carreira sólida por meio de esforço intelectual e dedicação ao magistério, que reforça a meritocracia presente no crescimento pessoal e profissional ocorrido na sua vida. Em 4 de outubro de 1879, iniciou sua vida profissional como professor no colégio de Privas. Nos anos seguintes, lecionou em diferentes estabelecimentos de ensino secundário, como o colégio de Gap (1880) e outros liceus e colégios da França provincial. Essa experiência direta com o ensino médio permitiu-lhe conhecer de perto as dificuldades dos alunos e dos professores, especialmente em contextos afastados dos grandes centros intelectuais de Paris.

Sua carreira prosseguiu naturalmente e com certa rapidez em direção à administração educacional. Payot tornou-se inspetor de academia, cargo que lhe proporcionou uma visão mais ampla do sistema de ensino francês de sua época. O ponto alto de sua trajetória institucional ocorreu, quando foi nomeado reitor das academias de Chambéry (por volta de 1902-1907) e, posteriormente, de Aix-Marseille (com sede em Aix-en-Provence; 1907-1922 aproximadamente). Como reitor, Payot ocupou uma posição de grande influência na estrutura educacional da Terceira República Francesa, período marcado pela consolidação do ensino laico, republicano e obrigatório.

Esta evolução histórica de sua carreira consolida sua sólida formação como educador. Payot destacou-se como uma das principais figuras da educação laica na França. Embora admirasse profundamente a doutrina psicológica e moral presente na Igreja Católica Apostólica Romana, o que transparece em vários de seus escritos, ele defendeu com convicção o ensino público não confessional. Essa posição o colocou no coração dos debates pedagógicos de sua época, defendendo uma moral laica ancorada na razão, na vontade e na solidariedade humana, em oposição tanto ao clericalismo quanto ao materialismo reducionista. Além de atuar como educador/pedagogo, Payot escreveu vários livros sobre educação e filosofia moral. A teoria educacional por ele desenvolvida foca no autoconhecimento e também no desenvolvimento das potencialidades dos indivíduos.

Um episódio curioso e revelador de seu prestígio intelectual ocorreu quando Vladimir Ilitch Lenin (então exilado na Suíça sob o nome de Vladimir Ilitch Oulianov) visitou-o em Chamonix. Lenin (1870-1924) buscava conselhos ou diálogo com Payot, que já era reconhecido como guia intelectual de muitos professores primários franceses. Comentadores também ressaltam a vinculação de Payot com o pensador inglês John Ruskin (1819-1900), que comparava as montanhas a “catedrais da terra”, uma afinidade que reflete o gosto de Payot pela reflexão estética e moral inspirada na natureza. O episódio com Lenin (visita a Chamonix quando este ainda usava o nome Oulianov) é real e documentado em fontes locais de Chamonix, embora não seja o fato mais central da vida de Payot. A ligação com John Ruskin existe principalmente via admiração mútua pelas montanhas e pela iniciativa póstuma de Payot (ou da família) em homenageá-lo com a “Pierre à Ruskin” em 1925. No entanto, não há evidência forte de correspondência direta extensa entre ambos pensadores, mas, podemos sempre afirmar que Payot demonstrava admiração pela obra de Ruskin e que manteve contato indireto com o círculo de admiradores de Ruskin.

Sua vida foi marcada por uma dedicação constante à formação humana. Como professor de filosofia, inspetor e reitor, Payot sempre esteve voltado para a prática educativa real, não apenas para a teoria abstrata. Ele via a educação não como transmissão mecânica de conhecimentos, mas como processo de autoconhecimento, desenvolvimento da vontade e construção de uma moral sólida para o cidadão republicano.

Em termos pessoais, Payot manteve forte ligação com sua região natal. Chamonix representava para ele um ancoradouro afetivo e simbólico: nasceu ali, e o ambiente alpino parece ter reforçado sua visão de que a educação exige esforço, resistência e elevação constante do espírito. Embora tenha atuado em centros universitários do sul da França, nunca se afastou completamente das raízes provincianas que moldaram sua sensibilidade.

Payot chegou a apresentar sua candidatura a uma vaga de professor na École Normale Supérieure (Escola Normal Superior de Paris), na cátedra de pedagogia anteriormente ocupada por Ferdinand Buisson. No entanto, ficou em terceiro lugar, atrás de Malapert e Durkheim, este último que ficou com a vaga.

Payot viveu até o início da Segunda Guerra Mundial, testemunhando as transformações profundas da sociedade francesa desde o final do século XIX até o conturbado início do século XX. Sua morte em 1940 ocorreu em um momento de grande tensão europeia, encerrando uma carreira que influenciou gerações de educadores, especialmente por meio de obras que se tornaram verdadeiros best-sellers pedagógicos da época.

Em relação a tudo que dissemos anteriormente e a título de fechamento, existem aqui alguns elementos que cabe resumir para proporcionar um maior destaque, já que tem importância na sua formação pessoal e profissional. Por exemplo, sua origem humilde em ambiente alpino como fonte de inspiração para temas de vontade e superação. A ascensão por mérito: de professor secundário a reitor universitário. O equilíbrio entre admiração pela tradição presente na tradição da Igreja católica e o compromisso firme com a educação laica republicana. O prestígio que atraiu figuras como Lenin e permitiu diálogo com intelectuais como Ruskin. E, por fim, a longa dedicação prática ao ensino e à administração educacional, longe do isolamento acadêmico puramente teórico. Sua atuação deve ser compreendida no contexto da Terceira República Francesa, marcada pela consolidação do ensino público, laico e obrigatório, em oposição à influência tradicional da Igreja no campo educacional. Disto tudo, nos fica claro que Payot não somente foi um autor de textos sobre educação, mas alguém inserido dentro de seu tempo histórico e que acreditava e vivia aquilo que pregava.

 

2- Ideias

 

Jules Payot construiu uma pedagogia prática e psicológica centrada na formação integral do ser humano, indo muito além da mera transmissão de conhecimentos. Claro que aqui quando me refiro a uma “pedagogia psicológica”, esta antecede (não de modo histórico e cronológico, e sim em relação ao uso das ideias) o desenvolvimento da psicologia profunda de Freud, que nos torna joguetes de pulsões inconscientes, e, portanto, esta visão não se encontra presente na obra de Payot. Para ele, o objetivo maior da educação não era apenas instruir o intelecto, mas fortalecer a vontade como força central da personalidade. Em um período marcado pela consolidação do ensino laico republicano, Payot defendia uma moral independente da religião, ancorada na razão, na solidariedade e no esforço pessoal, uma “moral laica” capaz de formar cidadãos conscientes e autônomos. Para Payot, a educação deve ser entendida como uma possibilidade de autoconhecimento e auto-formação. Também podemos dizer que suas principais contribuições abordam as ações voluntárias e os estados de atividade muscular associados às ações voluntárias e conscientes.

Seu conceito fundamental aparece já no título de sua obra mais influente e famosa, “L'Éducation de la volonté”, 1893 (ampliada em 1895). Payot entendia a vontade não como um dom inato ou um “livre-arbítrio” abstrato e metafísico, mas como uma capacidade que se educa e se fortalece por meio de hábitos, atenção concentrada e domínio dos impulsos.

Vamos prosseguir, portanto, dando um destaque maior a sua principal obra, “A educação da vontade”, que se apresenta como um conceito central de toda a sua pedagogia. No coração do pensamento pedagógico de Jules Payot encontra-se a ideia de que a educação da vontade constitui a tarefa mais elevada e urgente da formação humana. Para ele, não basta instruir o intelecto com conhecimentos; é preciso forjar um caráter capaz de dominar impulsos, perseverar no esforço e direcionar a vida para fins elevados. A vontade não é um dom inato ou um livre-arbítrio metafísico absoluto, mas uma potência que se constrói progressivamente por meio de treinamento sistemático, como um músculo que se fortalece com o uso repetido e consciente.

A educação da vontade se encontra na base da formação humana. Payot argumentava que o trabalho intelectual prolongado e exigente é o melhor campo de treinamento da vontade. Ele observava que muitos jovens fracassam não por falta de inteligência, mas por incapacidade de manter a atenção e perseverar no esforço.

Payot dividia a vida psíquica em três elementos interdependentes: ideias, estados afetivos (emoções e sentimentos) e ações. E analisava como cada um pode servir ou sabotar a vontade.

Payot organizava seus métodos, sobre a educação da vontade, em torno de alguns pilares interligados: reflexão meditativa, domínio da atenção, formação de hábitos pela ação repetida e cultivo dos estados afetivos / emocionais, sempre apoiados no cuidado com o corpo e na alternância entre esforço e repouso.

A inteligência deve reinar como árbitro supremo, mas não como tirana isolada. Payot defendia que a reflexão meditativa (um momento de calma interior para examinar motivos e objetivos) prepara o terreno, mas é insuficiente sozinha. A verdadeira educação ocorre na ação: só o esforço repetido transforma intenções em hábitos enraizados. Ele enfatizava o trabalho intelectual como campo privilegiado. Amar o esforço sustentado no mesmo sentido gera unidade interior e liberta o humano de tendências dispersivas. As ideias claras e elevadas atuam como faróis que orientam a ação. No entanto, Payot alertava que o simples conhecimento intelectual tem pouca força contra a inércia ou a sensualidade. Uma ideia só se torna eficaz quando penetra profundamente na consciência e se associa a hábitos.

Já no tocante à formação de hábitos, temos que para Payot a vontade não se manifesta apenas em grandes decisões heroicas, mas na construção cotidiana de rotinas. A formação de hábitos se dá pela ação repetida.

Payot insistia que a vontade se cristaliza em hábitos. Ele comparava o ser humano a um “contador incorruptível” do caráter. Cada ato de esforço ou de fuga ao esforço fica registrado no caráter, na personalidade da pessoa, cada nova pequena vitória ou derrota fica ali anotada. Com o tempo, ações inicialmente penosas e desagradáveis (levantar cedo para estudar, resistir a impulsos, etc.) tornam-se, com a constante repetição, comportamentos quase automáticos e até necessários à existência do sujeito. Por exemplo, um jovem estudante que decide estudar todas as manhãs por duas horas, das 6h. às 8h., sem interrupção, mesmo sentindo preguiça e sem ter vontade inicialmente, no final acaba transformando essa disciplina em parte de sua identidade pessoal. Ele pode saber que o estudo sistemático é necessário para o sucesso, mas isso não o impede de procrastinar se a ideia permanecer superficial. A educação da vontade exige transformar ideias abstratas em forças motrizes internas. O sujeito pode escolher uma ação inicialmente penosa (levantar-se cedo para estudar, resistir a um prazer imediato) e repeti-la diariamente no mesmo horário. Pode começar devagar para evitar desistência, em vez de estudar 4 horas seguidas, comprometer-se com 1 hora fixa todos os dias, por exemplo. Aos poucos irá transformar o esforço em necessidade. Após algumas semanas de repetição, a ação torna-se quase automática e até prazerosa, porque o caráter se reorganiza em torno dela.

A preguiça, para Payot, não é ausência de vontade, mas vontade mal direcionada, e pode ser vencida pela construção lenta de rotinas positivas. Payot recomenda a reflexão meditativa combinada com ação. A meditação solitária e silenciosa ajuda a clarificar objetivos e fortalecer resoluções, mas deve ser seguida imediatamente de ação concreta. Payot alertava: “A reflexão meditativa é indispensável, mas por si só é impotente.” Só a combinação de introspecção e esforço real forma hábitos sólidos.

Também é importante cuidar do suporte físico, como a saúde corporal, repouso consciente, alternância entre períodos de tensão (esforço) e relaxamento. Uma boa higiene de vida (sono regular, alimentação equilibrada, exercício) é indispensável, pois o corpo cansado sabota a vontade. Por exemplo, após uma caminhada vigorosa nos Alpes (Payot recorria frequentemente à sua experiência nas montanhas), o indivíduo retorna com maior clareza mental e energia afetiva para enfrentar tarefas intelectuais. Neste tocante, cabe o combate aos males principais que podem se apresentar, tais como a preguiça disfarçada de liberdade, a sensualidade excessiva, a vaidade e a dispersão.

Payot insistia que toda educação da vontade começa com um momento de calma interior e exame de consciência. A “reflexão meditativa” não é devaneio passivo, mas um exercício ativo de clarificação. O humano deve isolar-se, em silêncio, para examinar seus motivos, objetivos e obstáculos reais. Antes de iniciar uma sessão de estudo, por exemplo, o jovem senta-se por dez ou quinze minutos e formula claramente: “Qual é o objetivo desta tarefa? Quais são as resistências internas que vou enfrentar (tédio, desejo de distração)? Como vou superá-las?”. Essa reflexão ajuda a criar uma resolução firme (o “fiat” enérgico), que Payot considerava essencial. Sem ela, as ações tornam-se impulsivas e passageiras. No entanto, ele alertava que a reflexão sozinha é impotente se não for seguida imediatamente de ação concreta.

Para Payot a atenção não é algo espontâneo; ela exige esforço voluntário contra as distrações internas e externas. Para combater a dispersão mental típica da juventude, Payot recomendava exercícios sistemáticos, tais como, escolher um tema difícil e fixar nele o pensamento por períodos cada vez mais longos, combatendo distrações internas (devaneios) e externas, típicas da juventude. Com o tempo, a capacidade de concentração se fortalece, tornando o trabalho intelectual menos penoso. A atenção voluntária é o fundamento.

Segundo o pensamento de Payot, é na juventude que temos o período decisivo. Entre os 18 e os 30 anos, o humano pode moldar seu destino por meio de um trabalho silencioso, solitário, perseverante e entusiástico.

É nos estados afetivos que Payot via um dos maiores recursos e também perigos. Emoções fortes (entusiasmo, amor pela justiça, admiração pela beleza) podem impulsionar a vontade com uma energia que a razão sozinha raramente alcança. Ele citava experiências pessoais, como superar o medo durante uma caminhada perigosa nos Alpes, para mostrar como um estado afetivo intenso pode gerar um “fiat” (decisão enérgica) capaz de vencer obstáculos. Por outro lado, afetos negativos ou passageiros (tédio, vaidade, desejo de prazer imediato, etc.) sabotam a perseverança. O segredo está em cultivar sentimentos nobres e duradouros, que sirvam de combustível constante.

Payot não ignorava o lado emocional, ele dava grande importância às emoções e aos sentimentos nobres.  Uma sensibilidade cultivada serve como poderoso combustível para a vontade. Sentimentos nobres (admiração pela beleza, amor pela justiça, entusiasmo pelo conhecimento) geram energia que a razão pura raramente alcança. Como método recomenda cultivar paixões elevadas por meio da leitura de grandes autores, contato com a natureza ou reflexão sobre ideais humanos. Associar ideias elevadas a emoções positivas para que penetrem mais profundamente. Ele também recomendava evitar excessos de sensualidade ou vaidade, que dispersam a energia vital. Ele citava que uma paixão elevada pode vencer a inércia mais facilmente do que a razão sozinha. No entanto, alertava: sem direção racional, os afetos podem levar ao entusiasmo passageiro e à instabilidade. Daí a necessidade de se trabalhar conjuntamente a paixão e a razão.

A atenção voluntária constitui, para Payot, o fundamento da vontade superior. Ele observava que a maioria dos fracassos intelectuais não decorre de falta de inteligência, mas da incapacidade de manter o foco contra distrações internas (devaneios, associações aleatórias) e externas. Como método para resolver esta situação ele recomenda começar com tarefas curtas e difíceis, como, por exemplo, escolher um texto complexo ou um problema matemático e fixar nele a atenção por 10 ou 15 minutos sem interrupção. Depois ir aumentando gradualmente a duração. Passar para 30 minutos, depois 1 hora, sempre combatendo o “espalhamento mental”. Técnica contra distrações: quando o pensamento divagar, trazer gentilmente a atenção de volta ao objeto, sem irritação ou autocrítica excessiva. Com a repetição, a capacidade de concentração fortalece-se como um músculo. Um estudante que se força a ler um capítulo de filosofia difícil, por exemplo, anotando apenas os pontos principais sem consultar as redes sociais no celular ou permitir devaneios, está treinando a atenção voluntária. Payot comparava esse exercício ao treinamento físico: o desconforto inicial transforma-se, com o tempo, em facilidade.

Aqui podemos buscar um exemplo no próprio Payot. O contraste entre o “herói do primeiro movimento” (aquele que age por impulso generoso, mas logo desiste) e o “herói da perseverança” (aquele que, mesmo sem entusiasmo inicial, mantém o esforço graças à vontade treinada).

Ele rejeitava duas visões extremas: a que via o caráter como um bloco imutável (hereditariedade fatalista) e a que exagerava o livre-arbítrio como algo absoluto, sem necessidade de treinamento. Payot não aceitava visões fatalistas que atribuíam o caráter exclusivamente à hereditariedade ou ao ambiente, assim como teorias românticas que exageravam o poder espontâneo da motivação. Ele propunha uma via intermediária e prática: a vontade superior surge quando o humano consegue submeter as tendências naturais (preguiça, dispersão mental, paixões, sensualidade, busca imediata de prazer) ao império de ideias claras, sentimentos nobres e ações repetidas. Para Payot, a vontade superior consiste em submeter as tendências naturais ao império de ideias claras e elevadas. Essa educação não visa criar heróis excepcionais, mas formar cidadãos republicanos sólidos, capazes de resistir às fraquezas cotidianas e contribuir para o progresso coletivo.

Payot oferecia ferramentas concretas, dirigidas especialmente a jovens, estudantes e professores, buscando atingir um método prático para a educação da vontade, tais como domínio da atenção; formação de hábitos pela ação repetida; reflexão meditativa combinada com ação; cuidado com o corpo, combate a alguns males tidos por Payot como principais.

Esses métodos práticos não eram neutros, eles serviam ao projeto republicano de Payot de, por meio da escola laica, formar cidadãos autônomos, solidários, responsáveis, capazes de viver segundo uma moral ancorada na razão e na solidariedade humana, sem depender da autoridade religiosa. Ele defendia métodos ativos que envolvessem o aluno na construção do conhecimento, em oposição ao ensino passivo e mecânico.

Payot admirava aspectos da psicologia moral católica (como em São Francisco de Sales), mas insistia que a escola pública devia oferecer ferramentas acessíveis para a “maestria de si-mesmo”, a escola precisava oferecer uma doutrina moral alta, acessível aos mestres, aos alunos e às famílias, sem recorrer à autoridade divina. Essa posição gerou forte oposição clerical e até levou alguns de seus manuais a serem colocados no Index pelo Vaticano.

Na época de Payot, marcada pela industrialização, pela urbanização e pela consolidação da Terceira República, ele via perigos como o hedonismo superficial e a falta de persistência. Sua proposta era um antídoto: transformar o trabalho intelectual em via de elevação pessoal e coletiva.

Do ponto de vista crítico, a educação da vontade de Payot revela um otimismo republicano característico de seu tempo: confiança no esforço individual e na razão como forças quase ilimitadas. Isto funciona bem para indivíduos com certa estabilidade emocional e apoio ambiental, mas tais ideias podem subestimar determinações sociais, econômicas ou inconscientes mais profundas que limitam a autonomia individual. No entanto, acertava ao colocar o autocontrole, a perseverança cotidiana e o treinamento gradual no centro da formação social humana, temas que ressoam fortemente hoje, em discussões sobre resiliência, hábitos e desenvolvimento pessoal. Payot oferece ferramentas concretas para quem busca maestria de si em meio às distrações da contemporaneidade.

Enquanto muitos pensadores da época limitavam-se a discussões teóricas sobre a vontade, Jules Payot distinguiu-se por oferecer métodos concretos, acessíveis e progressivos, dirigidos especialmente a jovens estudantes, trabalhadores intelectuais e educadores. Ele via a educação da vontade não como exercício abstrato de ginástica mental, mas como treinamento cotidiano aplicado ao trabalho intelectual prolongado. O objetivo era transformar intenções frágeis em hábitos enraizados, superando a preguiça, a dispersão e os impulsos imediatos.

Em “La Morale à l'école”, 1907, Payot radicalizou sua proposta pedagógica. Como defensor da laicidade militante, ele propunha uma moral escolar independente da doutrina religiosa, mas não materialista ou niilista. Essa moral baseava-se em: 1- solidariedade humana; 2- dever e responsabilidade pessoal; 3- métodos ativos. Solidariedade humana: O reconhecimento de que somos parte de uma humanidade que avança por esforço coletivo, superando heranças “bárbaras” de egoísmo e violência. Dever e responsabilidade pessoal: Cada criança deve “escolher sua destinação” por meio de atos voluntários, libertando-se progressivamente da ignorância, da feiura moral e da injustiça. Métodos ativos: Payot criticava o ensino passivo e defendia práticas que envolvessem o aluno na construção do conhecimento e na formação do caráter.

Para Payot, o trabalho intelectual se apresenta como sendo uma via de elevação. Em obras complementares, como “Le Travail intellectuel et la volonté”, Payot aprofundava a ideia de que o verdadeiro progresso intelectual exige amar o trabalho e saber trabalhá-lo. Ele criticava o diletantismo e a dispersão mental, propondo técnicas concretas: alternar períodos de esforço intenso com repouso consciente, cultivar a “reflexão meditativa” (não como fim em si, mas como preparação para a ação) e transformar o estudo em hábito enraizado. Payot via na educação da vontade um antídoto contra os males da contemporaneidade: a preguiça disfarçada de liberdade, o hedonismo superficial e a falta de persistência. Seu otimismo republicano inicial foi abalado pela Primeira Guerra Mundial, levando-o, na maturidade, a um certo ceticismo quanto à capacidade das instituições de reformar profundamente o ser humano, embora nunca tenha abandonado a crença no esforço pessoal.

As ideias de Payot representam uma síntese original entre a nascente psicologia experimental, a filosofia moral e a pedagogia prática. Diferentemente de autores mais teóricos, ele escrevia para professores, estudantes e pais, oferecendo ferramentas concretas para a “maestria de si”. Sua ênfase na vontade como conquista diária ecoa em abordagens contemporâneas sobre autocontrole, resiliência e formação de hábitos, embora sua visão laica e republicana carregue o selo de seu tempo.

Esses métodos práticos transformam a educação da vontade em um projeto acessível e cotidiano, longe de romantismos ou fatalismos. Payot escrevia para ser aplicado: sua obra destinava-se a estudantes com “velléités chancelantes” (vontades vacilantes), oferecendo um guia psicológico realista para forjar caráter por meio do trabalho intelectual.

Do ponto de vista crítico, Payot pode ser visto como um otimista da razão e do esforço individual em uma época de grandes esperanças republicanas. Ele subestimava, talvez, outros aspectos também importantes, como as determinações psicológicas, sociais e econômicas mais profundas, mas acertava ao colocar a educação da vontade no centro da formação humana, um tema que continua relevante para quem busca compreender por que tantos talentos se perdem por falta de perseverança e por que a verdadeira liberdade exige disciplina interior.

A pedagogia de Payot aproxima-se de uma tradição clássica da filosofia moral (presente, por exemplo, no estoicismo), na qual a liberdade não é concebida como espontaneidade, mas como domínio de si adquirido por exercício. Suas ideias antecipam, em muitos aspectos, abordagens contemporâneas de psicologia e ciência do comportamento, embora com uma dimensão moral e pedagógica mais explícita. Para Payot, a verdadeira liberdade não é ausência de constrangimento, mas a capacidade conquistada de dirigir a própria vida rumo a fins que possam ser considerados dignos.

 

3- Algumas das principais obras de Jules Payot

 

1. L'éducation de la volonté. Título em português: A educação da vontade. Data da primeira publicação: 1893.

Obra central e mais importante de Payot, considerada sua contribuição definitiva ao pensamento pedagógico e filosófico. O próprio autor data o prefácio de Chamonix, 8 de agosto de 1893, deixando claro o momento de conclusão da obra. Nela, Payot parte do diagnóstico de que a fraqueza da vontade é a raiz da maioria dos fracassos humanos, e propõe um método sistemático para o desenvolvimento da capacidade volitiva, especialmente voltado ao trabalho intelectual prolongado. O livro investiga as causas da preguiça, da dispersão da atenção e da fraqueza moral, apresentando um método eficaz para se alcançar atenção aos estudos e concentração em si. Para Payot a vontade não é um dado inato, mas uma conquista gradual, sustentada pela disciplina dos sentimentos, pela criação de hábitos saudáveis e pela educação do caráter. A obra tornou-se um clássico da pedagogia republicana francesa. Em 1931, L'Éducation de la volonté já havia chegado à sua 44ª edição, com cerca de 60.000 exemplares vendidos, tendo sido traduzida para quinze línguas.

2. L'éducation de la démocratie. Título em português: A educação da democracia. Data da primeira publicação: 1895.

Nesta obra, Payot desloca o foco da formação individual para a dimensão coletiva e política da educação. Ele examina os fundamentos filosóficos e morais necessários para a consolidação de uma sociedade democrática e laica, argumentando que a democracia não se sustenta apenas por estruturas institucionais, mas exige cidadãos com vontade formada, capacidade crítica e comprometimento com o bem comum. O livro é uma expressão direta de seu engajamento como pensador da Terceira República Francesa, conectando sua teoria da vontade às exigências da vida pública e ao ideal republicano de progresso social.

3. De la croyance: sa nature, son mécanisme, son éducation. Título traduzido para o português: Da crença. Data da primeira publicação: 1896.

Obra de natureza filosófica, dedicada à análise psicológica e epistemológica do fenômeno da crença. Payot examina como as crenças se formam, quais mecanismos psíquicos as sustentam e como podem ser educadas ou transformadas. A questão da crença é tratada em diálogo com a tradição positivista e com a psicologia da época, revelando a preocupação de Payot com os fundamentos racionais da vida moral em um contexto de enfraquecimento das certezas religiosas.

4. Avant d'entrer dans la vie: aux instituteurs et aux institutrices, conseils et directions pratiques. Título traduzido para o português: Antes de entrar na vida: aos professores e professoras, conselhos e orientações práticas. Data da primeira publicação: 1897.

Dirigida diretamente ao corpo docente, esta obra é um manual de formação moral e intelectual para educadores. Trata-se de um livro de conselhos aos professores, voltado para orientar a conduta profissional e a formação das convicções morais e cívicas dos professores do ensino primário. Payot acreditava que o educador precisava, antes de qualquer coisa, ter formado em si mesmo a vontade e o caráter que desejava cultivar nos alunos. A obra integra sua série de publicações voltadas à renovação do ensino laico republicano.

5. Cours de morale. Título traduzido para o português: Curso de moral. Ano da primeira publicação: 1904.

Manual de filosofia moral destinado ao uso em instituições de ensino. Payot organiza aqui de forma didática e sistemática os fundamentos da ética laica que defendia ao longo de toda a sua carreira. A obra aborda deveres individuais e sociais, a formação do caráter, a relação entre liberdade e determinismo, e os fundamentos racionais da conduta moral, sem recurso a qualquer fundamento religioso. Payot era um defensor de uma educação renovada que, além dos saberes, deveria formar uma vontade razoável, e esta obra é a expressão mais sistemática desse projeto no plano da ética.

6. La morale à l'école. Título traduzido para o português: A moral na escola. Data da primeira publicação: 1907.

Manual de educação moral para o ensino primário, que se tornou uma das obras mais polêmicas de Payot. Sua publicação desencadeou numerosas tensões, sendo o livro parte de um conjunto de treze obras proibidas que motivaram uma carta pastoral dos cardinais, arcebispos e bispos da França, que justificava a recusa dos sacramentos aos pais cujos filhos utilizassem tais livros. A obra defendia uma formação moral inteiramente laica para crianças, afastada de qualquer tutela religiosa, em consonância com os princípios da República Francesa.

7. L'apprentissage de l'art d'écrire.  Título traduzido para o português: O aprendizado da arte de escrever. Ano da primeira publicação: 1913.

Obra dedicada ao desenvolvimento das habilidades de expressão escrita, com ênfase pedagógica. Payot trata a escrita não apenas como técnica, mas como exercício de pensamento e de autodomínio, conectando o ato de escrever bem à formação mais ampla da inteligência e da vontade. A obra integra seu projeto de renovação das práticas pedagógicas, buscando métodos ativos em contraposição ao ensino enciclopédico e passivo que criticava sistematicamente.

8. Le travail intellectuel et la volonté. Título traduzido para o português: O trabalho intelectual e a vontade. 1919–1920 (primeiras edições registradas em 1919 e 1920, com edição definitiva em 1921).

Sequência direta de L'éducation de la volonté, à qual o próprio Payot a nomeou como continuação. Payot escreveu diversos livros sobre filosofia moral e educação dedicados aos professores, sendo Le travail intellectuel et la volonté um dos mais relevantes nessa linha. A obra aprofunda a reflexão sobre as condições concretas do trabalho da inteligência (concentração, método, uso do tempo, combate à dispersão) e sobre a relação indissociável entre esforço intelectual e disciplina da vontade. Também foi traduzida para o português no Brasil, com o título O trabalho intelectual e a vontade.

9. La conquête du bonheur. Título traduzido para o português: A conquista da felicidade. Ano da primeira publicação: 1921.

Obra de caráter filosófico-prático, voltada para uma reflexão sobre as condições morais e psicológicas da felicidade humana. Da obra provém a célebre frase de Payot: "A multidão só é acessível às emoções; é incapaz de uma atitude mental objetiva." Payot argumenta que a felicidade não é um estado passivo a ser encontrado, mas uma conquista ativa, resultado de esforço, autodomínio e cultivo das melhores potencialidades humanas. O livro sintetiza muitas das teses desenvolvidas ao longo de sua carreira, agora em um registro mais reflexivo e voltado ao público em geral.

10. La faillite de l'enseignement. Título traduzido para o português: A falência do ensino. Data da primeira publicação: 1937.

Último grande livro publicado em vida por Payot, quando já contava 78 anos. Nesta obra, Payot elabora com amargura um diagnóstico de fracasso da instituição escolar à qual havia dedicado toda a sua vida. O tom é o de um balanço crítico e desencantado: o sistema de ensino francês, em sua avaliação, havia traído os ideais republicanos que ele e sua geração abraçaram. Critica a centralização excessiva, a mediocridade promovida pelas estruturas burocráticas, a ausência de formação real da vontade nos jovens e o predomínio do verbalismo sobre a experiência concreta. Da obra provém outra frase marcante: "A maioria das pessoas adquire uma opinião como se pega o sarampo, por contágio."

 

Silvério da Costa Oliveira.

 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua autoria)

terça-feira, 30 de junho de 2026

Walter Benjamin: Vida, Ideias e a Crítica da História, da Arte e da Modernidade

 

“Es gibt kein Dokument der Kultur, das nicht zugleich ein Dokument der Barbarei ist.”

Tradução para o português:

“Não existe documento da cultura que não seja ao mesmo tempo um documento da barbárie.”

(Walter Benjamin, “Sobre o conceito de história”, Tese VII, 1940)

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Walter Benjamin

 

Walter Benjamin é, sem dúvida, uma das figuras mais originais, complexas e influentes do pensamento filosófico e crítico do século XX, em particular junto aos intelectuais da esquerda política. Intelectual judeu-alemão de múltiplos interesses, sua obra não se encaixa facilmente em nenhuma Escola ou corrente única. Benjamin transitou entre a filosofia da linguagem, a teoria da tradução, a crítica literária, a estética, a teoria política e uma concepção muito particular de história, mesclando elementos do romantismo alemão, do messianismo judaico e do materialismo histórico de forma profundamente heterodoxa e criativa. Podemos encontrar o estudo de Benjamin nos mais distintos campos formados por faculdades diversas na vida acadêmica atual.


 

Sua escrita fragmentária, alegórica e repleta de imagens dialéticas desafia o leitor a abandonar as explicações lineares e progressistas da história. Em vez de construir sistemas fechados, Benjamin preferiu constelações de ideias, montagens de citações e “imagens de pensamento” capazes de fazer o passado irromper no presente com força redentora. Embora tenha vivido à margem da academia oficial e morrido tragicamente no exílio, seu pensamento tornou-se, após a Segunda Guerra Mundial, uma referência indispensável para compreender a crise da experiência humana na contemporaneidade, a perda da aura na era da reprodutibilidade técnica, a natureza da violência estatal e as possibilidades de uma revolução que não seja mero avanço linear, mas interrupção salvadora do tempo. No fundo, um autor que mesmo não pertencente à Escola de Frankfurt ou outro movimento semelhante, contribui em particular com a discussão acadêmica dentro da esquerda política e numa linha que prevê, antecipa ou busca esperançosamente a revolução comunista que porá fim ao sofrimento social, como o salto de um tigre na história, rompendo a sua linearidade e quebrando ilusões consensuais.

Neste artigo, buscamos apresentar de forma clara e profunda a vida, as principais obras e as ideias centrais de Walter Benjamin, sempre a partir de sua própria produção intelectual. Longe de pretender esgotar a riqueza de seu pensamento, pretendemos oferecer ao leitor uma visão integrada e fiel da multiplicidade presente no pensamento e obra de Benjamin. Sua obra continua a iluminar, com luz própria e muitas vezes melancólica, as ruínas e as possibilidades de nosso tempo na visão do autor.

 

1- Vida

 

Walter Bendix Schönflies Benjamin (1892-1940), alemão de origem judaica, nasce na cidade de Berlim, na época império alemão, e falece no sul da França, fronteira com a Espanha (faleceu em Portbou, na fronteira franco-espanhola), então com 48 anos de idade. Filho de Emil Benjamin (1856–1926), comerciante e investidor, que manteve entre seus negócios um antiquário, e de Paula Schönflies (1869–1930), uma família intelectualizada e abastada da burguesia judia. Estudou nas universidades de Berlim, Friburgo e Berna. Teve dois irmãos mais novos: Georg (1895-1942), que viria a morrer em um campo de concentração nazista, e Dora (1901-1946).

A infância de Benjamin transcorreu em um ambiente de conforto material, marcado pela monumentalidade da Berlim guilhermina. Ele próprio descreveria mais tarde, em textos autobiográficos como “Infância em Berlim”, por volta de 1900, as impressões profundas deixadas pela cidade em transformação: suas passagens, lojas de departamentos, parques e a sensação de um mundo que se modernizava rapidamente. Desde cedo, demonstrou sensibilidade estética e intelectual aguda, influenciada pelo contato com a arte e os livros do antiquário paterno. Em 1904, devido à saúde frágil, foi enviado a um internato no interior da Turíngia. Lá conheceu o pedagogo reformista Gustav Wyneken (1875-1964), cuja visão antiautoritária da educação o marcou profundamente. Benjamin aderiu ao Movimento da Juventude Alemã, participando ativamente de debates sobre reforma educacional e publicando seus primeiros textos, sob pseudônimo, na revista Der Anfang. Essa experiência juvenil alimentou nele uma crítica precoce às estruturas autoritárias da sociedade burguesa.

Entre 1912 e 1917, Benjamin estudou filosofia, literatura alemã e história da arte nas universidades de Freiburg im Breisgau, Berlim, Munique e Berna (Suíça). Opôs-se à Primeira Guerra Mundial desde o início, recusando-se a servir no exército alemão. Para evitar o alistamento, obteve licença médica e transferiu-se para a Suíça.

Em 1917 casa-se com a militante, jornalista e tradutora, Dora Sophie Pollak, nascida “Kellner” (1890-1964), com quem teve um filho, Stefan. Este casamento durará até 1930, quando então o casal se separa. Benjamin obteve o Doutorado com uma tese sobre a crítica da arte no romantismo alemão. A tese “Der Begriff der Kunstkritik in der deutschen Romantik" (O conceito de crítica de arte no romantismo alemão) foi defendida e aprovada em 1919, na Universidade de Berna, já a publicação ocorreu em 1920. Atuou como ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo. Em 1915, em Berlim, trava contato e forma amizade com Siegfried Kracauer (1889-1966) e em 1923 conhece Theodor Adorno (1903-1969).

Benjamin também estreitou laços com Gershom Scholem (grande amigo desde 1915, futuro estudioso da mística judaica), Siegfried Kracauer e Theodor Adorno, figuras centrais da futura Escola de Frankfurt.

De volta a Berlim em 1920, Benjamin enfrentou dificuldades financeiras crescentes, agravadas pela crise econômica da República de Weimar. Tentou seguir carreira acadêmica, mas o projeto de livre-docência (a tese Origem do drama trágico alemão, publicada em 1928) foi rejeitado pela Universidade de Frankfurt em 1925, por ser considerado excessivamente heterodoxo. Essa frustração acadêmica o levou a dedicar-se integralmente ao trabalho como crítico literário, ensaísta e tradutor. Traduziu obras de Baudelaire e Proust, atividades que aprofundaram sua reflexão sobre linguagem e tradução.

Sua obra começa mais focada no idealismo, mas com o passar da juventude e o amadurecimento, paulatinamente se aproxima do materialismo histórico. Foi no transcorrer de sua vida, influenciado pela tradição judaica, pelo romantismo alemão e pelo marxismo.

Nos anos 1920, sua vida intelectual ganhou novas direções. Em 1924, durante uma estada na ilha de Capri, conheceu a diretora de teatro letã Asja Lacis, militante comunista, por quem se apaixonou. Esse encontro foi decisivo: Lacis o introduziu ao pensamento marxista de forma mais concreta e o conectou a Bertolt Brecht. Sua obra passou a mesclar, de modo original e muitas vezes tensionado, elementos do messianismo judaico, do materialismo histórico e da crítica cultural radical.

Entre as amizades intelectuais que marcaram o período do exílio, a relação com Bertolt Brecht (1898-1956) merece destaque especial. Os dois se encontravam regularmente na Dinamarca, onde Brecht vivia exilado, e mantinham um diálogo intenso sobre teatro, política e técnica. Benjamin dedicou ensaios importantes ao teatro épico brechtiano, reconhecendo nele uma forma artística capaz de romper com a contemplação passiva e despertar no espectador uma consciência crítica e política. Embora os dois divergissem em pontos importantes (Brecht era mais cético em relação ao messianismo e à mística judaica presentes no pensamento de Benjamin) a amizade foi genuína e intelectualmente fecunda para ambos. Benjamin via no teatro de Brecht uma confirmação prática de suas próprias teses sobre o potencial político da arte na era da reprodutibilidade técnica.

Em 1926-1927, viajou a Moscou para visitar Asja Lacis, experiência registrada no Diário de Moscou. Em 1928, publicou Rua de Mão Única, livro fragmentário e experimental que sinalizava sua virada para formas de escrita mais políticas e literárias. Viveu um período de intensa produção, mas também de instabilidade pessoal: divorciou-se de Dora em 1930 e enfrentou crescentes dificuldades financeiras.

Com a ascensão de Adolf Hitler ao poder em janeiro de 1933, a situação tornou-se insustentável. Como intelectual judeu e de esquerda, Benjamin viu seus direitos civis suprimidos e seus bens ameaçados. Em março de 1933, exilou-se definitivamente, fixando-se principalmente em Paris. Nos anos seguintes, viveu em condições precárias, sustentando-se com colaborações em revistas, bolsas limitadas (como a do Instituto de Pesquisas Sociais) e ajuda de amigos. Continuou trabalhando no ambicioso Passagens (Passagen-Werk), um vasto projeto inacabado sobre a Paris do século XIX como pré-história da contemporaneidade.

Em virtude do ambiente hostil encontrado nos países comandados pelos nazistas, na década de 1930 viajou ocasionalmente por diferentes países, incluindo visitas à Itália (San Remo - onde morava sua ex-mulher Dora), à Dinamarca (para encontrar Brecht) e a Ibiza, sem fixar residência permanente.

Com a expansão do nazismo, o início dos confrontos da segunda guerra mundial, e a invasão da França em junho de 1940, Benjamin se transladou para o sul da França ocupada, até Marselha. Benjamin pensava em atravessar a fronteira com a Espanha, mas ocorreu de a fronteira estar fechada justamente no dia da tentativa de travessia, e este cometeu suicídio com a ingestão de forte dose de morfina. Interessante que no dia seguinte a fronteira foi reaberta e o grupo que originalmente estava com ele pôde passar sem problemas. A coisa ocorreu assim, Benjamin conseguira um visto americano por intermédio de amigos e tinha como objetivo deixar a França passando pela fronteira com a Espanha e se direcionar aos EUA. Em setembro de 1940, cruzou os Pireneus a pé com um pequeno grupo de refugiados, guiado por Lisa Fittko. Ao chegar à fronteira em Portbou (Catalunha), as autoridades espanholas, seguindo ordens recentes do regime de Franco, recusaram a entrada a quem não possuía visto de saída francês válido. Diante da perspectiva de ser devolvido à França ocupada e entregue à Gestapo, Walter Benjamin, exausto e doente, decidiu pôr fim à própria vida. Na noite de 26 de setembro de 1940 (algumas fontes indicam 27 de setembro), no Hotel de França em Portbou, ele ingeriu uma dose letal de morfina. Tinha 48 anos. Seu corpo foi sepultado no cemitério local, em uma cova que permaneceu anônima por anos. Pouco depois, as mesmas autoridades espanholas permitiram que o restante do grupo prosseguisse viagem, um detalhe que reforça o caráter absurdo e desnecessário daquele ato radical de por fim a própria vida. Cabe ressaltar que a tragédia de sua morte simboliza o destino de tantos outros intelectuais perseguidos pelo nazismo, muitos mortos em pelotões de fuzilamento ou em campos de concentração, unicamente por não estarem em conformidade com os padrões ideológicos sobre o que seja a raça ariana pura ou por nutrirem visões políticas contrárias ao governo nazista.

Um detalhe biográfico de grande significado envolve justamente o texto que viria a ser seu testamento intelectual. Antes de deixar Paris em fuga, Benjamin entregou o manuscrito das Teses sobre o conceito de história à filósofa Hannah Arendt (1906-1975), que conseguiu cruzar o Atlântico e levar o texto aos Estados Unidos, entregando-o a Theodor Adorno. Sem esse gesto, um dos documentos mais importantes do pensamento filosófico do século XX poderia ter se perdido para sempre nas convulsões da guerra. A trajetória daquelas páginas (escritas por um homem em fuga, salvas por uma mulher também perseguida, publicadas postumamente por um amigo exilado) sintetiza, de forma quase alegórica, o próprio pensamento de Benjamin sobre a fragilidade da memória e a responsabilidade dos que sobrevivem diante dos que foram vencidos pela história.

Benjamin se relacionava com membros da Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer – Instituto de Pesquisa Social) sendo considerado por alguns comentadores como membro deste grupo, no entanto, isto não me parece correto em virtude das relações complexas, opiniões contraditórias e embate em diversos temas (como, por exemplo, o papel e valor da música – lembremos da avaliação do jazz e da música popular, que Benjamin tendia a ver com mais simpatia do que Adorno). Os desacordos existentes não o permitem colocá-lo como membro da Escola de Frankfurt.

Benjamin não chega a construir um sistema filosófico, consistindo sua obra em apresentação de intuições e ideias. Busca abordar como tema as obras de arte, ambientes, textos. O ponto central em sua obra é o poder exercido pela linguagem.

Pouco publicou em vida, ficando restrito a ensaios e artigos em periódicos. Coube a Adorno ser o responsável pela edição e publicação póstuma de sua obra. Diversos comentadores consideram Benjamin como um dos mais importantes pensadores contemporâneos, mas em vida sua obra não teve repercussão além de um círculo intelectual muito estreito. Adorno o considerava um filósofo crítico inclusive da própria filosofia. Sua obra se debruçou sobre temas concretos da literatura, arte, técnicas, vida social e outros pontos, podendo facilmente ser considerado um crítico de ideias e fatos.

A vida de Walter Benjamin foi marcada por genialidade intelectual, marginalidade acadêmica, exílio constante e um compromisso profundo com a crítica do mundo contemporâneo. Embora pouco reconhecido em vida, seu pensamento tornou-se, após a Segunda Guerra Mundial, uma das referências mais fecundas da filosofia, da teoria da cultura e da crítica estética do século XX, em particular em pensadores vinculados a esquerda política.

 

2- Ideias

 

Walter Benjamin foi um pensador de extraordinária multiplicidade. Seus textos não seguem um sistema fechado ou uma doutrina única. Em vez disso, constroem constelações de ideias que se entrelaçam através de diferentes períodos e temas. Linguagem, tradução, crítica literária, estética, política, história e teologia aparecem sempre em tensão criativa, muitas vezes mesclando influências do romantismo alemão, do messianismo judaico, do materialismo histórico e de uma sensibilidade aguda para as transformações técnicas e sociais da contemporaneidade. Benjamin não buscava respostas definitivas, mas formas de pensamento capazes de captar o efêmero, o fragmentário e o oprimido da experiência humana. Seu método privilegiava a montagem, a citação, a alegoria e a imagem dialética, técnicas que permitem que o passado irrompa no presente de modo disruptivo, revelando possibilidades redentoras.

Nesse contexto, Benjamin desenvolve também o conceito de fantasmagoria para descrever a forma como a realidade social, especialmente no capitalismo, se apresenta de modo ilusório e encantado. Inspirando-se nas exposições, vitrines e passagens de Paris do século XIX, ele observa que as mercadorias não aparecem apenas como objetos de uso, mas como portadoras de um brilho quase mágico, que encobre as relações sociais de produção. A fantasmagoria é, assim, uma forma de experiência na qual o humano se encontra imerso em um mundo de aparências sedutoras, onde o valor de troca se impõe sobre o valor de uso, e onde a própria realidade se torna espetáculo. Ao revelar esse caráter ilusório, Benjamin aproxima-se de uma crítica radical do capitalismo, mostrando que o encantamento das mercadorias é, ao mesmo tempo, um mecanismo de dominação e alienação.

Associado a esse diagnóstico, Benjamin identifica o papel central do choque (em alemão: Schock) na configuração da experiência na contemporaneidade. A vida nas grandes cidades, marcada pela velocidade, pela multidão, pela técnica e pela constante exposição a estímulos, submete o indivíduo a uma sucessão de impactos sensoriais que dificultam a elaboração de uma experiência duradoura. Diferentemente da experiência tradicional, que se sedimenta e pode ser narrada, o choque fragmenta a percepção e exige respostas imediatas, muitas vezes automáticas. Benjamin encontra na figura do flâneur e nas técnicas artísticas, como o cinema e a montagem, tentativas de lidar com essa condição. O choque não é apenas um empobrecimento da experiência, mas também um novo modo de percepção, que pode, em determinadas circunstâncias, abrir espaço para formas críticas de consciência, desde que seja apreendido e não apenas sofrido passivamente.

Para Benjamin a história não deve ser entendida como um progresso linear, nela temos que cada momento do presente carrega em si a responsabilidade para com os vencidos do passado. Ele entende sua época histórica como fruto da opressão. Segundo ele, devemos olhar o passado histórico não como mero arquivo e sim como campo de luta visando resgatar vozes que foram silenciadas.

Em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, 1936, argumenta sobre o impacto das novas tecnologias, tais como a fotografia e o cinema, na arte moderna. Ao mesmo tempo em que a reprodutibilidade retira a aura da obra de arte, já que esta deixa de ser única, torna-a mais acessível ao povo, podendo se tornar instrumento político de crítica e emancipação.

Sob influência do barroco alemão, entendia a alegoria como uma forma de pensamento que consegue capturar a fragmentação e a crise. No lugar de totalidade, a alegoria revela ruína, sendo cada parte impregnada de história, dor e ambiguidade presente no mundo.

Benjamin buscou na Paris do século XIX uma espécie de laboratório social para entender o surgimento da modernidade. Ao estudar sua paisagem arquitetônica (passagens cobertas, grandes boulevards, vitrines de lojas) encontra a figura do flâneur, o caminhante observador da cidade, mas com olhar crítico, buscando captar seus ritmos, ilusões e fantasias. Nela, a cidade, temos algo a decifrar, o capitalismo se mostra presente, mas também temos o surgimento de uma resistência.

2.1- Filosofia da linguagem e da tradução

Desde os escritos juvenis, Benjamin desenvolveu uma concepção original de linguagem. Em textos como “Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem do humano”, 1916, ele via a linguagem não como mero instrumento de comunicação ou signo arbitrário, mas como medium da própria realidade espiritual. Toda criação, segundo ele, participa de uma “linguagem pura” ou “pura linguagem”, uma essência anterior à divisão entre palavras e coisas, que se manifesta na nomeação divina e na poesia.

A tradução, para Benjamin, não consiste em transmitir um significado idêntico de uma língua para outra. Em “A tarefa do tradutor”, 1923, ele argumenta que a tradução deve buscar o “puro idioma” subjacente a todas as línguas, revelando o parentesco entre elas através da literalidade. A tradução não serve ao original de forma servil; ela o faz sobreviver, enriquecendo a língua do tradutor e permitindo que a obra se renove no tempo. Aqui já se anuncia uma ideia central: a sobrevivência das obras não depende da eternidade, mas de sua capacidade de se transformar e de ser resgatada em novas constelações históricas.

2.2- Crítica da violência: mítica e divina

Em “Crítica da violência”, 1921, Benjamin distingue dois tipos fundamentais de violência. A violência mítica é fundadora e conservadora do direito. Ela estabelece e mantém ordens jurídicas baseadas no poder, na culpa e no castigo, como na mitologia antiga ou no monopólio estatal da força. Essa violência é sempre “sanguinária” e vinculada à perpetuação de uma ordem de dominação.

Em oposição surge a violência divina (ou pura), que é “law-destroying” (destruidora do direito). Ela não institui novas leis, mas expia, purifica e interrompe o ciclo de culpa e retribuição. Não é ameaçadora, mas fulminante; não busca poder, mas justiça. Benjamin via nessa distinção uma possibilidade ética e política de romper com as formas míticas de autoridade, abrindo espaço para uma justiça sem mediações violentas do Estado.

2.3- Teoria da alegoria e do drama barroco

No livro “Origem do drama trágico alemão”, 1928, Benjamin contrasta a tragédia clássica com o Trauerspiel (drama de luto) barroco. Enquanto a tragédia grega gira em torno do herói e do destino, o drama barroco apresenta um mundo de ruínas, soberania falida e melancolia. A forma privilegiada desse mundo é a alegoria, oposta ao símbolo romântico.

O símbolo sugere uma unidade orgânica entre aparência e essência. A alegoria, ao contrário, revela a fragmentação: o significado não habita naturalmente o objeto, mas é imposto a ele de fora, como em um emblema. No barroco, o mundo aparece como ruína, cadáver ou cenário vazio, imagem que Benjamin estenderia depois à própria contemporaneidade. A alegoria torna-se, assim, um método de conhecimento: capaz de ler a história como acumulação de destroços, mas também de resgatar, através da montagem, o que foi esquecido ou oprimido.

2.4- A perda da aura e a reprodutibilidade técnica

Um dos conceitos mais célebres de Benjamin é o de aura, desenvolvido especialmente em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, 1936. A aura é a singularidade única de uma obra de arte, sua presença irrepetível no aqui e agora, ligada à tradição, ao culto e à distância. Ela confere à obra um caráter quase cultual.

Com a fotografia, o cinema e as técnicas de reprodução em massa, a aura declina. A obra perde sua autenticidade ritual e torna-se reprodutível infinitamente. Essa perda tem consequências ambivalentes: por um lado, democratiza o acesso à arte e permite uma recepção coletiva e distraída; por outro, abre caminho para a estetização da política pelo fascismo (que transforma a vida em espetáculo). Benjamin, porém, via potencial revolucionário na arte de massa: ela poderia fomentar uma percepção politizada, capaz de despertar o espectador para a transformação social, em vez de mantê-lo na contemplação passiva.

2.5- Experiência em crise: Erlebnis versus Erfahrung

Benjamin diagnosticou uma “crise da experiência” na contemporaneidade. Ele distinguia Erlebnis (experiência vivida, imediata, fragmentária e chocante, típica da vida urbana moderna, do jornalismo e do cinema) de Erfahrung (experiência acumulada, narrável, transmitida pela tradição e pela memória coletiva).

Na contemporaneidade, o choque constante impede a integração das vivências em uma Erfahrung significativa. A narração oral perde espaço para a informação fragmentada. Benjamin via nessa perda não apenas um empobrecimento, mas também a possibilidade de novas formas de percepção, como, por exemplo, a “iluminação profana” do surrealismo ou a montagem cinematográfica.

2.6- O projeto das Passagens e a imagem dialética

O “Passagen-Werk” (Trabalho das Passagens), projeto inacabado ao qual Benjamin dedicou mais de uma década, representa a ambição máxima de seu método. Nele, ele coleta milhares de citações, fragmentos e reflexões sobre as galerias parisienses do século XIX, que hoje em dia podemos ver como precursoras dos shopping centers, espaços de consumo, sonho coletivo e mercantilização da vida.

Benjamin não escreve uma história linear, mas constrói “imagens dialéticas”: constelações em que o passado e o presente se encontram em um “agora de reconhecibilidade”. Nessas imagens, podemos entender conjuntamente com o autor que o sonho da mercadoria (a “fantasmagoria” do capitalismo) é despertado e potencialmente rompido. O método é alegórico e montado: o historiador age como um trapeiro (em alemão: Lumpensammler, catador de trapos/farrapos) ou colecionador, resgatando os detritos da história para revelar seu potencial revolucionário.

2.7- Conceito de história: messianismo e materialismo

Nas “Teses sobre o conceito de história” (escritas em 1940, publicadas postumamente em 1942), Benjamin realiza uma das sínteses mais poderosas de seu pensamento. Ele critica duramente o historicismo progressista, que vê a história como uma marcha linear rumo ao progresso e que sempre escreve do ponto de vista dos vencedores.

Em oposição, propõe um materialismo histórico temperado por uma concepção messiânica. A história não é um continuum vazio, mas uma série de catástrofes. O famoso “anjo da história” (inspirado no quadro Angelus Novus, de Paul Klee) olha para o passado e vê um único monte de ruínas, enquanto o “progresso” o empurra para o futuro. O anjo gostaria de parar, despertar os mortos e recompor o que foi destruído, mas a tempestade do paraíso (chamada “progresso”) o impede.

Contra isso, Benjamin defende a rememoração (Eingedenken) como ato revolucionário. Cada geração carrega uma “fraca força messiânica”: o poder de redimir, no presente, o passado oprimido. A revolução não é o avanço teleológico, mas um “salto do tigre” (em alemão: Tigersprung) que interrompe o tempo homogêneo e faz explodir o continuum da história. O materialismo histórico, assim entendido, deve “escovar a história a contrapelo”, resgatando os vencidos e transformando o agora em porta de entrada para a redenção.

Podemos ter este salto do tigre dado pela moda ou pela dialética da revolução comunista. Quando dado pela moda trata-se de algo controlado, em verdade, um exemplo negativo deste salto. A moda se direciona para o que é atual. Ela “salta” para o passado (como um tigre que pula sobre a presa) e pega qualquer elemento antigo que possa ser usado para parecer novo e moderno no presente. Porém, esse salto acontece dentro da arena controlada pela classe dominante. É um salto que serve ao poder vigente, ele não rompe nada, apenas recicla o passado para reforçar a ordem atual. O verdadeiro salto é o dialético da revolução. Benjamin diz que o mesmo salto, quando feito “no ar livre da história” (ou seja, fora do controle das classes dominantes), torna-se dialético, é assim que Marx entendia a revolução. Esse salto revolucionário não é um avanço linear e progressivo no tempo (o que Benjamin critica como “tempo homogêneo e vazio”). Em vez disso, é um salto brusco, violento e criativo que: “Explode” o continuum da história, rompendo com a ideia de que a história é uma linha reta e inevitável de progresso; puxa o passado para dentro do presente de forma explosiva; carrega o passado oprimido com “agora” (Jetztzeit), que é um tempo saturado de possibilidades revolucionárias; permite que o presente “cite” o passado (como a Revolução Francesa citava a Roma antiga) não para repetir, mas para redimi-lo e interromper a catástrofe contínua. O “salto do tigre” é uma imagem de ação súbita e poderosa que arranca um fragmento do passado e o faz explodir no presente, criando uma interrupção revolucionária. Não é evolução lenta, mas um pulo feroz que faz “o continuum da história explodir”, abrindo espaço para a redenção dos vencidos e para a justiça no “agora”.

Essas ideias propostas por Walter Benjamin não formam um sistema harmônico. Benjamin mantinha em tensão permanente o materialismo e a teologia, o marxismo e o messianismo, a crítica cultural e a esperança revolucionária. Sua força reside exatamente nessa multiplicidade: ele pensava por imagens, fragmentos e constelações, buscando salvar o que a história ameaça esquecer. Em tempos de catástrofe (como os que viveu e como os que ainda vivemos segundo uma interpretação plausível do pensamento do autor), seu pensamento continua oferecendo ferramentas para despertar do sonho da mercadoria e para enxergar, no monte de ruínas do passado, a possibilidade de justiça.

 

3- Palavras finais

 

O pensamento de Walter Benjamin permanece como uma das mais instigantes e desafiadoras tentativas de compreender a condição do humano na contemporaneidade. Recusando os sistemas fechados e as explicações simplificadoras, Benjamin nos oferece uma filosofia construída por fragmentos, imagens e tensões, na qual história, linguagem, arte e política se entrelaçam de forma inseparável.

A crítica de Benjamin ao progresso linear e ao historicismo dominante nos obriga a reconsiderar a própria ideia de tempo histórico. Ao insistir que cada geração carrega consigo a responsabilidade diante dos vencidos do passado, Benjamin desloca o eixo da reflexão histórica: não se trata apenas de conhecer o passado, mas de resgatá-lo, de redimi-lo no presente. A história deixa de ser um relato dos vencedores e passa a ser um campo de disputa, onde memória e esquecimento possuem consequências éticas e políticas profundas.

Ao mesmo tempo, sua análise da reprodutibilidade técnica e da perda da aura revela as transformações radicais da experiência estética e da percepção humana em um mundo marcado pela técnica e pela massificação. Longe de uma simples nostalgia, Benjamin identifica nessas mudanças tanto riscos quanto possibilidades: se por um lado a técnica pode ser instrumentalizada pela dominação, por outro, ela pode abrir caminhos para novas formas de consciência e ação coletiva.

A tensão permanente entre materialismo histórico e messianismo, longe de ser uma fraqueza, constitui o núcleo vital de seu pensamento. É justamente nessa tensão que se encontra a possibilidade de ruptura com a ordem estabelecida, não como continuidade do progresso, mas como interrupção crítica do curso da história. A revolução, nesse sentido, não é avanço gradual, mas gesto decisivo que rompe com o tempo homogêneo e resgata o passado oprimido.

Em um mundo que ainda se apresenta como um acúmulo de ruínas (marcado por crises, desigualdades e ilusões de progresso), o pensamento de Benjamin permanece atual e necessário. Ele nos convida a despertar do conformismo histórico, a desconfiar das narrativas dominantes e a reconhecer, no presente, as possibilidades ainda abertas de transformação. Pensar com Benjamin é, em última instância, recusar a passividade diante da história e assumir a responsabilidade crítica pelo tempo em que se vive.

 

4- Algumas das principais obras de Walter Benjamin

 

1- Zur Kritik der Gewalt. Título traduzido para o português: Crítica da Violência (ou Para a Crítica da Violência). Ano da primeira publicação: 1921.

Neste ensaio pioneiro, Benjamin realiza uma análise radical do conceito de violência no âmbito do direito e do Estado. Ele distingue a violência mítica (fundadora e conservadora de ordens jurídicas baseadas na culpa e no poder) da violência divina ou pura (que rompe com o ciclo mítico e instaura justiça sem mediações). O texto questiona a legitimidade intrínseca do monopólio estatal da violência e abre caminho para uma crítica ética e política que influenciou profundamente debates sobre direito, soberania e revolução no século XX.

2- Die Aufgabe des Übersetzers. Título traduzido para o português: A Tarefa do Tradutor. Ano da primeira publicação: 1923.

Escrito como prefácio à tradução de poemas de Baudelaire, o ensaio propõe uma teoria revolucionária da tradução. Benjamin rejeita a ideia de mera transferência de sentido e defende que a tradução deve buscar o “puro idioma” subjacente a todas as línguas — uma forma de parentesco entre elas que se revela pela literalidade e pela fidelidade ao original. Longe de ser um ato secundário, a tradução enriquece a própria língua do tradutor e permite que a obra sobreviva e se transforme ao longo do tempo.

3- Ursprung des deutschen Trauerspiels. Título traduzido para o português: Origem do drama trágico alemão (também conhecido como Origem do drama barroco alemão). Ano da primeira publicação: 1928.

Baseado em sua tese de livre-docência, o livro examina o drama barroco alemão do século XVII (Trauerspiel) como forma distinta da tragédia clássica. Benjamin desenvolve uma teoria da alegoria como modo de representação da história marcada pela melancolia, pela soberania falida e pela visão do mundo como ruína. O texto é ao mesmo tempo uma análise literária profunda e uma reflexão filosófica sobre o tempo, a culpa e a modernidade, influenciando fortemente a teoria da alegoria e da crítica cultural.

4- Einbahnstraße. Título traduzido para o português: Rua de Mão Única. Ano da primeira publicação: 1928.

Obra fragmentária e experimental, composta por aforismos, reflexões curtas, imagens de pensamento e observações urbanas, o livro marca a passagem de Benjamin para um estilo mais literário e político. Misturando crítica cultural, filosofia e impressões de viagem (dedicado a Asja Lacis), ele critica a burguesia, o progresso ilusório e a mercantilização da vida, ao mesmo tempo em que explora temas como a infância, a técnica e a revolução. Seu formato de “rua de mão única” antecipa o método de montagem que Benjamin desenvolveria depois.

5- Kleine Geschichte der Photographie. Título traduzido para o português: Pequena história da fotografia. Ano da primeira publicação: 1931.

Publicado originalmente em três partes na revista Die literarische Welt, este ensaio representa um passo decisivo no desenvolvimento do pensamento benjaminiano sobre a técnica e a arte. Nele, Benjamin analisa o surgimento e a evolução da fotografia desde seus pioneiros (Daguerre, Nadar, Atget) até sua consolidação como medium de massa. É aqui que o conceito de aura aparece de forma ainda embrionária, associado à presença singular e ao "aqui e agora" da imagem fotográfica primitiva, em contraste com a reprodutibilidade crescente que caracterizaria a fotografia comercial e jornalística. O ensaio antecipa diretamente as teses desenvolvidas cinco anos depois em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” e constitui leitura indispensável para compreender a gênese daquele que seria um dos conceitos mais influentes de Benjamin.

6- Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit. Título traduzido para o português: A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica. Ano da primeira publicação: 1936.

Um dos ensaios mais célebres de Benjamin, o texto investiga como a reprodutibilidade técnica (fotografia, cinema, gravação) transforma radicalmente a obra de arte. Ele introduz o conceito de “aura” — a singularidade e distância cultual da obra única — e mostra como sua perda abre caminho para uma recepção coletiva, distraída e politizada. Benjamin analisa as implicações estéticas, sociais e políticas dessa mudança, defendendo o potencial revolucionário da arte de massa contra a estetização fascista da política.

7- Der Erzähler. Betrachtungen zum Werk Nikolai Lesskows (Leskov em português). Título traduzido para o português: O Narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. Ano da primeira publicação: 1936.

Publicado no mesmo ano que “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, este ensaio é complementar àquele e igualmente fundamental. Partindo da obra do escritor russo Nikolai Leskov (1831-1895), Benjamin desenvolve uma reflexão profunda sobre a crise da narrativa e da experiência na contemporaneidade. Ele distingue a narração oral tradicional (forma de transmissão coletiva da experiência acumulada, Erfahrung, sedimentada pelo tempo e pela sabedoria prática) da informação jornalística, fragmentária, imediata e descartável, típica da modernidade. O narrador tradicional, seja o camponês sedentário ou o marinheiro viajante, transmite experiência vivida que carrega conselho, sentido e memória coletiva. Com a ascensão do romance e, sobretudo, do jornalismo e da informação de massa, essa forma de narração entra em declínio irreversível. O ensaio articula-se diretamente com a distinção benjaminiana entre Erfahrung e Erlebnis e com sua crítica mais ampla ao empobrecimento da experiência humana na contemporaneidade.

8- Über den Begriff der Geschichte. Título traduzido para o português: Sobre o conceito de história (ou Teses sobre o conceito de história). Ano da primeira publicação: 1942 (Escrita na primavera de 1940 e publicada postumamente).

Composto por 18 teses e mais dois apêndices (algumas edições os numeram como teses A e B e aí passamos a ter 20 e não 18 teses), este texto tardio é uma das sínteses mais poderosas do pensamento benjaminiano. Critica o historicismo progressista e linear, propondo em seu lugar uma concepção materialista e messiânica da história. Com a famosa imagem do “anjo da história” (inspirada em Paul Klee), Benjamin defende a rememoração do passado oprimido como ato revolucionário no presente. As teses articulam teologia, marxismo e messianismo judaico para pensar a redenção possível em tempos de catástrofe.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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