“L'œil ne voit que ce que l'esprit est prêt à comprendre.”
“O olho só vê aquilo que o espírito está preparado para compreender.”
“La durée est le progrès continu du passé qui ronge l'avenir.”
“A duração é o progresso contínuo do passado que corrói o futuro.”
Henri Bergson
Por: Silvério da Costa Oliveira.
Henri-Louis Bergson
Considerado um dos mais importantes filósofos do final do século XIX e início do século XX, Henri Bergson desenvolveu uma filosofia profundamente original voltada à compreensão do tempo, da consciência e da própria dinâmica da vida. Em oposição às tendências excessivamente mecanicistas e intelectualistas presentes em grande parte do pensamento científico de sua época, Bergson procurou mostrar que a realidade fundamental da vida não pode ser plenamente capturada por conceitos abstratos ou por análises puramente quantitativas. Sua filosofia enfatiza a duração vivida, a intuição como forma de conhecimento e a criatividade inerente ao processo vital. Nos tópicos a seguir serão apresentados alguns dos principais aspectos de sua vida e de seu pensamento filosófico.
1- Vida e Formação de Henri Bergson
Henri-Louis Bergson (1859-1941) nasce em Paris e falece aos 81 anos de idade também na cidade de Paris, França. Atuou como professor, escritor, diplomata, sociólogo e filósofo. Proveniente de uma família judaica. Seu pai, Michał Bergson (ou Bereksohn, nome original polonês. 1820-1898), era um compositor e músico talentoso de ascendência polonesa, que se estabelecera na França após peregrinações pela Europa. A mãe, Katherine Levinson (ou Kate Levinson/Levison. 1831/1834-1928/1929), era uma mulher de origem anglo-irlandesa, o que conferia a Bergson uma identidade híbrida: polonesa pelo pai, inglesa pela mãe, francesa por nascimento e formação. Seus pais eram ambos judeus.
Bergson foi o segundo de sete filhos do casal. Bergson viveu em Londres com os pais até a idade de nove anos, em 1870, quando então foi novamente para Paris conjuntamente com sua família e ali concluiu seus estudos. Estudou no Liceu Fontanes e lá teve a oportunidade de obter o prêmio de primeiro lugar no Concours Gêneral, no qual resolveu satisfatoriamente um problema de matemática proposto por Pascal. Obteve a licenciatura em Letras no ano de 1881 e, posteriormente, atuou como professor em algumas instituições de ensino, dentre as quais o liceu Blaise Pascal, de Clermont-Ferrand.
A infância de Bergson foi marcada por mobilidade e pela influência de uma educação laica e cosmopolita. A família mudou-se brevemente para Londres nos primeiros anos de vida do filósofo, mas retornou a Paris, onde ele frequentou o prestigiado Lycée Condorcet. Desde cedo demonstrou excepcional aptidão para as ciências exatas e para as letras: aos 17 anos, ganhou um prêmio nacional em matemática com um trabalho sobre o método de resolução de problemas geométricos. No entanto, sua vocação filosófica se impôs rapidamente. Em 1878, ingressou na École Normale Supérieure, a elite da formação intelectual francesa, onde estudou filosofia sob a influência de mestres como Émile Boutroux e onde se formou em 1881. Após a graduação, Bergson iniciou uma carreira docente em liceus (ensino médio francês), lecionando em Angers, Clermont-Ferrand e, a partir de 1883, no Lycée Henri-IV em Paris. Essa fase inicial foi marcada por uma reflexão profunda sobre o tempo, a consciência e a liberdade, temas que culminariam em sua tese de doutorado.
Obtém seu doutorado em 1889 pela Universidade de Paris. A sua tese de doutoramento foi escrita em latim e intitulava-se Quid Aristoteles de loco senserit. Em 1889, defendeu Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência (publicada como tese principal) e Quid Aristoteles de loco senserit (tese latina complementar), obtendo o doutorado.
Em 1891, Bergson casou-se com Louise Neuberger, sobrinha do matemático e banqueiro Jacques Reinach e prima do escritor Marcel Proust (que atuou como padrinho na cerimônia). Essa união familiar ampliou seus contatos com a elite intelectual e artística parisiense, incluindo círculos literários onde Proust se destacaria anos depois e a círculos influentes da sociedade parisiense por parte de Jacques Reinach. Juntos tiveram uma filha em 1896, Jeanne Adèle Bergson, que, infelizmente, nasceu surda. Mais tarde, Jeanne se tornaria pianista.
Nos seus estudos e formação, Bergson impressionou positivamente seus professores, demonstrando grande aptidão para as ciências, matemática e área de exatas, mas para desapontamento de seus professores nestas respectivas áreas, Bergson optou por seguir a carreira de humanas, cursando Letras e se voltando para a filosofia.
Bergson ocupou a cátedra de filosofia grega e romana no Collège de France entre 1900 e 1904, vindo posteriormente, a substituir Gabriel Tarde na cátedra de filosofia moderna até o ano de 1920. Nos cursos abertos que ministrava, contava com grande participação do público. Enquanto filósofos hoje já clássicos, como Platão e Descartes, preferiram fundamentar sua filosofia na geometria, Bergson priorizava a Biologia, a Sociologia e a Psicologia.
Bergson foi muito influente ainda em vida e, mesmo hoje em dia, exerce uma influência considerável em vários pensadores importantes no transcurso do século XX e cujo pensamento se faz presente no século XXI, mas podemos listar somente um como seguidor e discípulo, que foi Édouard Le Roy, quem o substituiu na cadeira de filosofia no Collège de France.
A ascensão acadêmica veio em 1898, quando foi nomeado para a École Normale Supérieure, e especialmente em 1900, quando assumiu a cadeira de filosofia grega e latina no Collège de France — uma das instituições mais prestigiosas da França. Ali, suas aulas tornaram-se eventos culturais: atraíam multidões, incluindo intelectuais, artistas e o público elegante de Paris. Bergson falava com uma clareza e elegância raras, e sua filosofia vitalista, centrada na intuição, na duração e na criação contínua, contrastava com o positivismo e o determinismo dominantes na época.
Seu auge de fama ocorreu entre 1907 (publicação de A Evolução Criadora) e os anos 1920. Em 1914, foi eleito para a Academia Francesa, e em 1927 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, "em reconhecimento às suas ideias ricas e vitalizantes e à brilhante habilidade com que foram apresentadas". O Nobel destacou não só o filósofo, mas o escritor de estilo literário excepcional.
No ano de 1908, quando de uma viagem a Londres, travou conhecimento com o filósofo norte-americano William James. Os dois vieram a se tornar amigos e passaram a estudar mutuamente suas filosofias. James tentou introduzir o pensamento e obra de Bergson nos EUA, mas sua morte em 1910 dificultou um pouco esta empreitada. Apesar deste evento, Bergson foi aos poucos ocupando espaço entre os norte-americanos, que passaram a conhecer a sua obra, ou pelo menos parte da mesma.
Dentre as principais obras de Bergson cabe citar a importância de quatro trabalhos realmente essenciais no desenvolvimento de sua filosofia: 1- Essai sur les données immédiates de la conscience, de 1889, 2- Matière et mémoire, de 1896, 3- L'Évolution créatrice, de 1907, e 4- Les deux source de la morale et de la Religion, de 1932. Na filosofia desenvolvida por Bergson encontramos quatro conceitos que ganham um lugar de destaque: a "intuição", a "durée", a "memória" e o "élan vital. Estes conceitos são fundamentais dentro do pensamento filosófico elaborado por Bergson e estão presentes no transcurso de sua obra. A obra filosófica de Bergson ainda se mostra presente e atual e tem sido objeto de estudo, exercendo influência, em diversas áreas do conhecimento e prática, tais como o cinema, a literatura, a neuropsicologia, a bioética.
Em decorrência da Primeira Guerra Mundial, Bergson atuou como diplomata representando os interesses da França diante dos EUA. Em 1914 torna-se membro da Academia Francesa.
Bergson também se envolveu em questões públicas: presidiu a Comissão de Cooperação Intelectual da Liga das Nações (precursora da UNESCO), defendendo o pacifismo e a cooperação internacional após a Primeira Guerra Mundial. No entanto, sua saúde declinou a partir dos anos 1920, agravada por reumatismo que o impedia de escrever com facilidade.
Bergson elabora em sua obra uma crítica ao Positivismo então reinante em sua época, ao mecanicismo e ao determinismo, sendo paralelamente influenciado pela leitura de Darwin e Spencer e adotando uma postura pautada na teoria da evolução.
Bergson é considerado um filósofo intuicionista, já que privilegia a intuição como recurso para apreensão do conhecimento filosófico. Segundo o filósofo, o conhecimento realmente verdadeiro não é obtido por meio de conceitos abstratos provindos do intelecto de modo racional e sim na apreensão imediata do real por meio da intuição, enquanto experiência interior do sujeito que conhece. Podemos conhecer um mesmo objeto por meio de conceitos ou de nossa intuição. São duas formas distintas de conhecimento. Em uma temos a presença de juízos, silogismos, análise, síntese, dedução, indução formando a estrutura racional pela qual o objeto é por nós conhecido, já em outra temos uma intuição imediata do objeto que nos permite obter um conhecimento intrínseco, concreto e absoluto sobre o mesmo.
Bergson recebeu uma educação ligada à religião judaica. Entretanto, perdeu a sua fé ao entrar em contato com a Teoria da Evolução de Charles Darwin. Já ao final de sua vida, alguns comentadores indicam que ele estava direcionado para converter-se ao cristianismo na versão católica apostólica romana, mas que não o fez em virtude da ocupação da França pelos nazistas e do simbolismo que tal conversão poderia ter diante das perseguições ao seu povo judeu. Quando de seu falecimento e a seu pedido, um sacerdote da Igreja Católica compareceu e proferiu algumas palavras durante seu funeral.
De origem judaica, Bergson nunca abandonou formalmente sua identidade, embora tenha se aproximado do catolicismo nos últimos anos. Segundo relatos (como os de Raïssa Maritain), ele chegou a se converter secretamente ao catolicismo por volta de 1930-1935, atraído pelo misticismo cristão exposto em As Duas Fontes da Moral e da Religião (1932). No entanto, optou por não tornar pública a conversão como gesto de solidariedade com os judeus perseguidos na ascensão do nazismo — uma decisão ética que reflete sua sensibilidade moral.
Durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, Bergson, já idoso e doente, não foi obrigado a se registrar como judeu pelas autoridades nazistas, mas optou por o fazer em dezembro de 1940. Após horas na fila sob o frio parisiense, contraiu pneumonia e faleceu em 4 de janeiro de 1941, aos 81 anos, em sua casa em Paris. Seu testamento expressou o desejo de que nenhum escrito inédito fosse publicado postumamente, desejo parcialmente desrespeitado com a edição de Mélanges em 1972.
Henri Bergson não foi apenas um filósofo: foi um pensador que marcou profundamente a transição do século XIX para o XX, influenciando literatura (Proust, Virginia Woolf), Psicologia, Artes e até a Física (no debate com Einstein). Sua vida reflete a própria filosofia que defendeu: um fluxo contínuo de criação, intuição e vitalidade em meio à rigidez do mundo contemporâneo.
2- A Duração Pura e os Dados Imediatos da Consciência
Aqui o foco ocorre no conceito chave do Essai sur les données immédiates de la conscience (1889): a durée como tempo vivido vs. tempo espacializado. Quando Henri Bergson publicou, em 1889, Essai sur les données immédiates de la conscience (Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência), ele não estava apenas apresentando uma tese de doutorado: estava lançando uma revolução silenciosa na forma como o Ocidente compreende o tempo, a consciência e a liberdade. Esta obra marca o primeiro grande momento de sua filosofia e introduz o conceito que vai atravessar toda a sua produção posterior: a duração pura (durée pure).
Para entender o impacto dessa ideia, precisamos voltar ao problema central que Bergson identificou na filosofia e na ciência do final do século XIX. A maioria dos pensadores da época (influenciados pelo positivismo e pelo mecanicismo) tratava o tempo como algo mensurável, homogêneo e espacial, exatamente como vemos no relógio ou no calendário. Bergson chamou isso de tempo espacializado: um tempo que dividimos em unidades iguais (segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, etc.), que podemos representar no espaço (uma linha reta, um gráfico) e que, por isso, perde sua essência viva. É um tempo útil para a física e para a vida prática, mas é uma ilusão quando queremos compreender a realidade profunda da consciência. Este suposto tempo já está mesclado com o espaço, não sendo o tempo puro em si mesmo.
Em contraste, Bergson propõe a duração pura como o tempo real, o tempo que realmente vivemos. Ela não é quantitativa, mas qualitativa, contínua, heterogênea e indivisível. Imagine que você não consegue “cortar” a duração como corta um pedaço de pão. Cada instante penetra no seguinte, funde-se com ele, e o todo forma um fluxo único e irrepetível.
Exemplo clássico e simples para sentir a duração: pense numa melodia que você conhece bem. Quando uma pessoa escuta uma música, não escuta as notas como eventos isolados (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si), separadas no espaço do tempo. Você as vive como um todo contínuo, em que cada nota carrega a memória das anteriores e antecipa as seguintes. Se alguém tentasse separar as notas e tocá-las uma a uma, com intervalos iguais, a melodia desapareceria. Essa é a duração pura: um fluxo indivisível em que passado, presente e futuro se interpenetram. Não há separação real para quem percebe este tempo, não há como separar o presente do passado ou do futuro, pois, trata-se de um único fluxo contínuo e não mensurável. Na duração, os momentos do tempo não são unidades separadas, mas dimensões qualitativas de uma experiência que se transforma continuamente.
Outro exemplo cotidiano que Bergson gostava de usar: observe um torrão de açúcar dissolvendo-se num copo d’água. A ciência mede o tempo dessa dissolução em segundos ou minutos (tempo espacializado). Mas, para quem de fato está esperando, esse tempo é vivido como impaciência, expectativa, um “esperar” que não pode ser acelerado ou dividido. O tempo que você sente enquanto o açúcar se dissolve é duração pura, qualitativo, subjetivo, impossível de medir com um relógio. É como dizem, se observamos constantemente uma panela cheia d’água no fogo até esta ferver, o tempo é bem maior que quando não a observamos.
Essa ideia inspirou, inclusive, uma cena memorável em Star Trek: The Next Generation, no episódio “Timescape” (temporada 6, episódio 23), na qual o androide Data fazia este experimento olhando e não olhando a água, mas seu cronômetro interno sempre media o mesmo tempo, ao que foi motivo do comentário do comandante William T. Riker, primeiro oficial, que lhe diz que a essência do problema é justamente não medir o tempo, o que Data mesmo não olhando continua a fazer ao utilizar seu cronômetro interno. O androide Data testa o provérbio fervendo água 62 vezes, sempre medindo exatamente 51,7 segundos com seu cronômetro interno, independentemente de observar ou ignorar a panela. Enquanto humanos sentem a duração se esticar ou encolher pela expectativa, Data permanece preso ao tempo quantitativo e homogêneo, uma ilustração perfeita da distinção bergsoniana.
Bergson afirma que só acessamos essa duração real pela intuição, não pela análise intelectual. A inteligência (a faculdade analítica que usamos na ciência) sempre espacializa e divide para compreender. Já a intuição nos coloca dentro do fluxo da vida. É por isso que, para ele, a verdadeira liberdade humana só existe na duração: quando agimos a partir do nosso “eu profundo”, que é um fluxo contínuo de estados de consciência, e não do “eu superficial” preso às convenções sociais e ao tempo do relógio, em verdade, um tempo espacial (já que mesclado a mensuração do espaço).
Aqui entra o destaque especial que Bergson dá ao tempo, e que mais tarde geraria um dos debates mais famosos da filosofia contemporânea. A duração pura é exatamente o oposto do tempo concebido por Albert Einstein na teoria da relatividade (1905 e 1915). Para Einstein, o tempo é relativo ao observador, pode se dilatar ou contrair conforme a velocidade ou a gravidade, e é tratado como uma quarta dimensão do espaço-tempo. Bergson respeitava a física einsteiniana, mas considerava que ela ainda cometia o mesmo erro de sempre: espacializava o tempo, transformando-o em algo mensurável e homogêneo. Em 1922, durante o famoso debate na Société Française de Philosophie, Bergson argumentou que a relatividade descreve apenas o tempo dos relógios e das coordenadas matemáticas, útil para a ciência, mas incapaz de captar o tempo vivido, a duração pura da consciência humana. Einstein, por sua vez, respondeu que o tempo da física é o único tempo objetivo. Esse confronto (que Bergson aprofundaria em Duração e Simultaneidade, 1922) mostra como sua filosofia não era anti-ciência, mas uma crítica profunda ao cientificismo: a duração é o tempo da vida e da liberdade; o tempo de Einstein é o tempo da medida. Em anos futuros, o próprio Einstein, mesmo mantendo sua posição teórica, irá reconhecer que Bergson havia estudado e conhecia a fundo e corretamente a sua teoria sobre a relatividade do tempo na física.
Por que isso importa tanto hoje, na história das ideias? Porque quase todo o pensamento contemporâneo (da literatura de Proust e Virginia Woolf à psicologia da consciência, do cinema à gestão do tempo nas empresas) bebeu dessa distinção bergsoniana. Quando você sente que “o tempo voou” num momento feliz ou que “o tempo parou” num momento de sofrimento, não está usando o relógio: está vivendo a duração pura. Bergson nos lembra que, sem compreender isso, várias ideias contemporâneas sobre liberdade, criatividade e até saúde mental permanecem incompletas e isto, mesmo hoje em dia, é fundamental para entendermos a nós mesmos dentro da civilização que criamos e na qual vivemos nossas vidas.
Esta primeira grande obra de 1889, portanto, não é apenas um livro: é o alicerce de toda a filosofia bergsoniana. A duração pura será o fio condutor que reaparecerá, enriquecida e aprofundada, em Matéria e Memória (1896), na Evolução Criadora (1907) e nas obras posteriores. Sem ela, não entendemos como Bergson conseguiu libertar a filosofia do determinismo mecanicista e abrir espaço para uma visão vitalista e criadora do ser humano.
Em resumo, o grande insight de Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência (1889) é este: o tempo que realmente vivemos não é o tempo do relógio. O tempo do relógio (que Bergson chama de tempo espacializado) é uma convenção social útil para organizar a vida prática e a ciência, mas é uma ilusão que divide, mede e homogeneíza aquilo que, na consciência, é indivisível e qualitativo. O tempo verdadeiro, a duração pura, é um fluxo contínuo em que cada momento carrega todo o passado e já antecipa o futuro, como uma melodia que só existe enquanto as notas se fundem umas nas outras. Se você tentar “cortar” uma melodia em pedaços isolados, ela deixa de ser música; da mesma forma, se tentar dividir a duração real em instantes iguais, ela desaparece. Só a intuição (e não o intelecto analítico) nos permite mergulhar nesse fluxo vivo. A essência do intelecto analítico é justamente dividir para analisar individualmente todas as partes que compõe o todo, já a intuição não divide, ela abarca o todo tal como este se apresenta ao percebedor, a nossa consciência. E é exatamente nessa duração indivisível que reside a nossa liberdade mais profunda: agir não como marionetes de causas externas ou de um eu superficial, mas como seres criadores que inventam seu próprio caminho no tempo real da consciência. Sem essa distinção radical entre tempo vivido e tempo medido, toda a filosofia posterior de Bergson (e boa parte da compreensão moderna do ser humano) simplesmente não existiria.
3- Matéria, Memória e a Relação entre Corpo e Espírito
Aqui iremos dar destaque ao cerne de Matière et mémoire (1896): memória-hábito vs. memória pura, independência do espírito. Também inclui discussões sobre percepção e o cérebro, que dialogam com sua formação em psicologia. Publicada em 1896, Matière et mémoire: Essai sur la relation du corps à l’esprit (Matéria e memória: Ensaio sobre a relação do corpo com o espírito) representa o segundo grande momento na trajetória bergsoniana. Se o “Ensaio sobre os dados imediatos da consciência” (1889) libertou o tempo da espacialização científica, esta obra avança para o problema clássico da filosofia: a relação entre corpo e espírito (ou mente). Bergson não aceita nem o materialismo (que reduz o espírito ao cérebro) nem o idealismo (que dissolve a matéria na consciência). Ele propõe uma visão original: o corpo é um instrumento de ação no mundo material, enquanto o espírito conserva uma independência radical, especialmente através da memória.
O cerne da obra está na distinção entre dois tipos de memória, uma divisão que revolucionou a psicologia e a filosofia da mente: 1- memória hábito e, 2- memória pura.
Memória-hábito (ou memória motora, memória-corpo): É a memória automática, repetitiva e corporal. Trata-se de hábitos adquiridos por repetição, que se manifestam em ações motoras sem esforço consciente. Exemplos clássicos: saber andar de bicicleta, tocar piano ou dirigir um carro. Quando você dirige para o trabalho todos os dias, não precisa “lembrar” conscientemente cada curva ou pedalada, seu corpo age por si só, como um mecanismo treinado. Essa memória é espacializada, mecânica e ligada ao cérebro: lesões cerebrais podem apagá-la (como na amnésia anterógrada ou em casos de Parkinson). Ela serve à ação imediata no presente e é útil para a sobrevivência.
Memória pura (ou memória-espírito, memória integral): Aqui é o oposto. Trata-se da conservação total e virtual de todo o passado vivido, sem degradação nem esquecimento. Não é uma “lembrança” que evocamos conscientemente, mas um reservatório espiritual onde todo o nosso passado subsiste em sua duração pura, intacto e indivisível. Quando reconhecemos algo familiar (como, por exemplo: o cheiro da casa da mãe ou da avó que nos transporta instantaneamente para a infância), não é o cérebro que “armazena” imagens; é o espírito que, pela intuição, seleciona do passado puro o que é útil ao presente. Essa memória não tem localização cerebral: o cérebro não a “guarda”, mas apenas a filtra para a ação. Bergson usa casos clínicos (como afasia ou amnésia) para argumentar: mesmo quando o cérebro está danificado e a memória-hábito desaparece, o reconhecimento intuitivo do passado pode persistir, provando a independência do espírito.
Bergson rejeita o paralelismo psicofísico (ideia de que todo estado mental tem um correlato cerebral exato). Para ele, o cérebro não é um “depósito” de memórias, mas um órgão de atenção à vida, um filtro que seleciona, do vasto campo da memória pura, apenas as imagens úteis para a ação presente. O cérebro “inibe” a maior parte do passado para evitar sobrecarga; ele não cria memórias, mas as limita. Isso dialoga diretamente com questões psicológicas modernas: pense na memória traumática (que “escapa” ao filtro e invade o presente) ou na terapia cognitivo-comportamental (que treina hábitos para substituir padrões automáticos). Bergson antecipa debates atuais sobre neuroplasticidade e consciência: o cérebro é ferramenta de adaptação biológica, mas o espírito transcende-o.
Sobre a percepção: Bergson define a percepção pura como uma apreensão direta das “imagens” do universo (matéria como conjunto de imagens em movimento). Não é representação mental, mas contato imediato com o real. A percepção cotidiana, porém, é sempre impregnada de memória: vemos o mundo não como ele é “em si”, mas tingido pelo passado útil à ação. Exemplo: ao ver um amigo, você não percebe apenas formas visuais; reconhece-o instantaneamente porque a memória pura fornece o contexto afetivo e histórico. Sem memória, a percepção seria abstrata e inútil; com ela, torna-se ação orientada.
O grande ensinamento de Matéria e Memória (1896) é este: o corpo e o cérebro são instrumentos de ação no presente material, treinam hábitos automáticos (memória-hábito) e filtram o que é útil para sobreviver e agir. Mas o espírito é outra coisa: ele conserva o passado inteiro na memória pura, um reservatório virtual e imaterial onde nada se perde. Imagine um filme inteiro da sua vida gravado em duração pura: o cérebro é como o controle remoto que pausa, rebobina e seleciona apenas os frames necessários para o agora; sem o controle remoto, o filme continua rodando intacto no espírito. Quando você reconhece um cheiro da infância sem esforço consciente, não é o cérebro “lembrando”; é o espírito acessando o passado integral. Essa independência do espírito em relação ao corpo resolve o dualismo mente-corpo sem reducionismos: a matéria (corpo) existe, o espírito (memória pura) existe, e a relação é de ação e seleção, não de causalidade mecânica. Sem essa visão, a psicologia contemporânea (da memória explícita/implícita à consciência estendida) perderia um de seus pilares mais profundos.
No entanto, esta solução bergsoniana revela aqui sua maior fragilidade. Se a memória pura não está localizada no cérebro, não é criada pelo intelecto e subsiste integralmente mesmo quando o corpo e o cérebro sofrem danos graves, de onde ela realmente vem e como se sustenta? Bergson responde que o passado “subsiste por si mesmo” na duração pura, sem precisar de um depósito material ou de uma alma pré-existente. Mas esta resposta, por mais elegante que pareça, acaba sendo mais uma afirmação metafísica do que uma demonstração racional. Diferentemente do platonismo, que oferece uma alma imortal com origem clara nas ideias eternas, ou do cristianismo, que fundamenta a imortalidade na criação divina e no juízo final, Bergson deixa o leitor diante de um mistério: um passado que simplesmente “continua existindo” no espírito, sem origem definida, sem localização e sem prova empírica de sua independência. É como se o filósofo, depois de destruir com maestria o materialismo e o idealismo, acabasse por propor uma terceira via que, no fundo, exige do leitor um ato de fé na duração pura. Essa é, sem dúvida, a parte mais vulnerável de sua filosofia da memória, e o ponto onde muitos críticos consideraram que Bergson abandonou a rigorosa argumentação racional para se apoiar numa intuição quase religiosa, sem conseguir fundamentá-la de modo plenamente convincente. De fato, é nossa opinião que tanto a filosofia de Platão com a alma imortal habitando o mundo das ideias, como o cristianismo com sua leitura platônica somada a um mito religioso judaico na qual temos uma alma imortal criada por Deus Javé e independente do corpo, mostram-se ambas versões mais coerentes e embasadas teoricamente do que a de Bergson, sendo esta última dificilmente defensável, por esta razão mesma, motivo de fortes ataques por parte de muitos pensadores, mesmo quando ainda em vida de Bergson.
Em resumo, o grande ensinamento de Matéria e Memória (1896) é este: o corpo e o cérebro não são o depósito ou a origem das nossas memórias, mas instrumentos práticos de ação no mundo material. A memória-hábito (aquela que nos permite andar de bicicleta, digitar sem olhar ou repetir um gesto automático) é corporal, repetitiva e localizada no cérebro; perde-se com lesões neurológicas porque serve apenas ao presente imediato e à sobrevivência. Já a memória pura é espiritual, imaterial e indivisível: conserva intacto todo o passado vivido, como um filme completo da nossa existência que nunca se apaga nem se degrada. O cérebro funciona como um filtro ou um “guarda de trânsito” que seleciona, do vasto reservatório da memória pura, apenas as imagens úteis para o agora, inibindo o resto para evitar sobrecarga e permitir ação eficaz. Quando você reconhece instantaneamente o cheiro da casa da infância ou sente um déjà-vu sem esforço consciente, não é o cérebro “recuperando” um arquivo; é o espírito acessando diretamente o passado integral, que sempre esteve lá. Essa distinção radical prova a independência relativa do espírito em relação ao corpo: a matéria existe e age, o espírito subsiste e transcende. Sem compreender essa visão, a psicologia contemporânea (da memória explícita e implícita à consciência estendida, passando pelos estudos sobre trauma e neuroplasticidade) perde um de seus alicerces mais profundos e libertadores.
4- O Élan Vital e a Evolução Criadora da Vida
Aqui iremos abordar o tema presente em L'Évolution créatrice (1907), com o impulso vital como força inventiva. Uma crítica ao mecanicismo e finalismo, que nos permite ligar a biologia com a história. No transcurso da evolução temos que a estrada evolutiva se divide em três, dando origem a imobilidade vegetal, ao instinto animal e a inteligência humana. Inicialmente unidos, tais elementos se separam no transcurso da evolução, mas todos presentes no impulso vital, comum a toda vida. A vida é entendida por Bergson como sendo um processo contínuo e infinito de criação e evolução que não pode ser apropriadamente compreendida se separarmos seus aspectos presentes e observados nos vegetais (imobilidade), animais (instintos) e humanos (inteligência). Para que possamos intuir e mesmo compreender a totalidade da vida, não basta uma única destas vertentes / caminhos. Nem todas as verdades nos são possíveis de serem alcançadas somente por meio da inteligência, mas o instinto animal pode nos ajudar nesta busca, apesar de ele, o instinto, não ter qualquer interesse em buscar encontrar tais verdades. O élan vital não deve ser entendido como uma força material específica ou mensurável, mas como um princípio filosófico que busca expressar o caráter criador e imprevisível da evolução da vida.
Publicada em 1907, L'Évolution créatrice (A evolução criadora) representa o terceiro e talvez o mais famoso momento da trajetória bergsoniana. Foi esta obra que consolidou Bergson como figura pública na França e no mundo, atraindo multidões às suas aulas no Collège de France e inspirando artistas, escritores e cientistas da contemporaneidade. Aqui, Bergson aplica sua filosofia da duração e da intuição ao problema central da biologia e da história: como explicar a evolução das espécies sem cair nos extremos do mecanicismo ou do finalismo? Bergson critica duas visões dominantes da época: 1- mecanicismo e, 2- finalismo.
Mecanicismo (ou darwinismo estrito, spenceriano): A evolução seria um processo puramente mecânico, resultado de variações aleatórias e seleção natural cega. Tudo seria explicável por causas físicas eficientes, sem direção nem novidade real, como uma máquina que se ajusta sozinha. Para Bergson, isso ignora a imprevisibilidade e a criatividade da vida: se tudo fosse apenas mecanismo, não haveria salto qualitativo entre matéria inerte e consciência, nem invenção genuína.
Finalismo (ou teleologia clássica, como em Lamarck ou em visões religiosas): A evolução teria um fim predeterminado, uma finalidade inteligente que guia o processo desde o início. Bergson rejeita isso também: o finalismo é apenas o mecanicismo invertido, em vez de causas cegas no passado, coloca causas finais no futuro, mas ainda espacializa o tempo e elimina a verdadeira novidade.
Em vez disso, Bergson propõe o élan vital (impulso vital): uma força criadora, imprevisível e indivisível que impulsiona a evolução como um fluxo contínuo de invenção. O élan vital não é uma “energia” física mensurável, nem um plano divino pré-estabelecido. É a própria vida em ato, manifestando-se como tendência a criar formas cada vez mais complexas e imprevisíveis, rompendo com a inércia da matéria. Ele se ramifica, diverge, inventa soluções novas, às vezes em linhas que se extinguem (espécies mortas), às vezes em linhas que ascendem à consciência (o humano).
Exemplo cotidiano para sentir o élan vital: pense na invenção da roda. Não foi uma variação aleatória selecionada mecanicamente, nem o cumprimento de um plano final. Foi um salto criativo imprevisível: alguém, em um momento de duração pura, viu a possibilidade de transformar fricção em movimento rotativo. Essa novidade não estava pré-contida na matéria nem guiada por um fim inevitável, foi uma explosão de invenção, como o élan vital que cria olhos, nervos, inteligência. Outro exemplo: a diferença entre planta e animal. A planta “desce” na matéria (fixa-se, acumula energia lentamente); o animal “sobe” (mobilidade, ação). O homem, com a inteligência, representa um novo ramo: a capacidade de fabricar ferramentas e refletir sobre si mesmo. Mas o élan vital não para aí, ele continua inventando, e a história humana é a continuação dessa criação imprevisível.
Essa visão permite ligar biologia e história de modo profundo: a evolução biológica é criação contínua de novidade (não mero ajuste adaptativo), e a história humana é o prolongamento dessa mesma força vital. A duração pura, que já apareceu na consciência individual, reaparece na escala das espécies e das sociedades. A história não é determinismo mecânico (marxismo materialista) nem progresso inevitável (hegelianismo finalista), é invenção imprevisível, onde o élan vital cria rupturas, saltos e liberdade.
Em resumo, o grande ensinamento de A Evolução Criadora (1907) é este: a vida não é uma máquina que se ajusta nem um plano que se cumpre, é um impulso criador, o élan vital, que inventa incessantemente formas novas e imprevisíveis. Imagine uma fonte que jorra sem parar: às vezes o jato se divide em ramos que secam, às vezes explode em cascatas inesperadas. Esse jato é o élan vital, uma força indivisível que rompe com a inércia da matéria e cria novidade qualitativa, desde a primeira célula até a consciência humana. O mecanicismo explica a repetição e a adaptação, mas perde a invenção; o finalismo explica a direção, mas perde a liberdade. Bergson nos mostra que a evolução é criação contínua, e que a história humana, com suas revoluções, artes e ideias, é a continuação dessa mesma explosão vital. Sem compreender o élan vital, a biologia contemporânea permanece presa ao determinismo, e a história, à ilusão do progresso linear, perdendo a visão de uma vida que inventa seu próprio caminho no fluxo imprevisível da duração.
5- As Duas Fontes da Moral e da Religião: Estática e Dinâmica
Aqui nosso foco se dá em Les Deux Sources de la morale et de la religion (1932): sociedades fechadas/abertas, moral estática vs. dinâmica, misticismo como força aberta. Iremos nesta parte de nosso artigo abordar o aspecto ético-religioso, que dialoga com o comportamento crítico.
Bergson aqui trata dos fundamentos da vida moral e religiosa. Trata-se de uma obra tardia na qual Bergson busca compreender como se formam as normas morais e as crenças religiosas que estruturam a vida em coletividade. Bergson começa afirmando que a moral e a religião não possuem origem única, mas sim, são provenientes de duas fontes distintas: 1- a moral estática e a religião estática e, 2- a moral dinâmica e a religião dinâmica. Estas duas fontes correspondem, por sua vez, a dois modos distintos de organização da vida humana e social.
Comecemos falando sobre a moral estática e a sociedade fechada. Segundo o pensamento de Bergson, a moral estática surge a partir da necessidade de conservação da própria sociedade. Aqui temos uma moral que é fundada na pressão social, no conjunto de obrigações que a coletividade exerce sobre as pessoas isoladamente, visando garantir a estabilidade social. O comportamento moral não é o resultado de uma escolha livre e criadora e sim de um hábito social baseado na tradição. A pessoa entende que deve se comportar de determinado modo porque assim foi educado para fazer, sendo isto que a sociedade espera que faça. É uma moral que baseia-se na obrigação, visa a manutenção da ordem social, depende da pressão do grupo, é conservadora e repetitiva, está associada a uma sociedade que Bergson chama de “fechada”.
A organização da sociedade fechada se dá visando preservar sua coesão interna. Esta sociedade estabelece limites claros entre quem é e quem não é membro da mesma, entre o cidadão e o estrangeiro, entre o “nós” e os “outros”. A moral aqui se apresenta como sendo um sistema de normas destinadas a proteção e sobrevivência do grupo.
A moral estática possui uma função basicamente biológica e social, que é garantir a continuidade da comunidade, a semelhança de alguns instintos que buscam garantir a sobrevivência de outros animais. Associada a esta moral estática, temos uma religião também estática. Ao falar em religião estática, Bergson chama a atenção para formas de religiosidade que surgem como sendo um prolongamento de necessidades psicológicas presentes na sociedade, desempenhando uma função eminentemente de estabilização desta mesma sociedade.
A inteligência humana se desenvolveu e se afastou da dos demais animais, mas isto trouxe também alguns perigos à vida em coletividade. Nossa inteligência nos permite refletir, duvidar, questionar. Mas isto enfraquece a disciplina presente na sociedade. A natureza, visando neutralizar este perigo, cria um mecanismo compensatório: a função fabuladora. Por meio desta função fabuladora o humano consegue produzir mitos, narrativas e crenças religiosas que visam reforçar a coesão social. Estas crenças consolam diante da morte, reforçam o respeito às normas, sustentam a confiança na ordem e estabilidade do mundo. A religião estática tende a ser um instrumento psicológico e social que proporciona estabilidade e ajuda a manter a disciplina moral necessária a sobrevivência da comunidade.
Mas não temos somente a moral estática, temos também a moral dinâmica. Diferente da primeira, a moral dinâmica surge de um impulso criador interior. Não se fundamenta na pressão social, mas sim na inspiração que se encontra na observação de grandes personalidades no âmbito moral. No decorrer da história humana temos o surgimento de indivíduos realmente extraordinários, sejam estes santos, profetas, reformadores morais ou outros. A vida de tais pessoas demonstra um amor profundo por toda a humanidade. Tais pessoas não se limitam a obedecer às normas existentes na sociedade, expandindo o horizonte moral presente. Esta moral dinâmica possui características que são opostas a moral estática. Ela não se baseia na obrigação e sim na inspiração, ela não se limita à conservação social, mas em seu lugar promove a transformação social, ela não se restringe ao grupo fechado, mas se propõe a apresentar um caráter universal. A moral estática busca organizar a disciplina da sociedade, já a moral dinâmica nos permite abrir novas possibilidades éticas e deste modo ampliar de modo progressivo o campo da solidariedade humana.
Esta moral dinâmica, por sua vez, corresponde a uma sociedade aberta. Quando Bergson nos fala em sociedade aberta, ele pensa em uma sociedade que não se define por fronteiras rígidas entre grupos, mas sim pela expansão da solidariedade para além das limitações deste grupo (tribais, nacionais, culturais, etc.). O amor moral se direciona para toda a humanidade e não para um determinado grupo.
A história moral é entendida por Bergson como um movimento progressivo no qual impulsos criadores provindos de indivíduos excepcionais buscam ampliar de modo contínuo os limites da moral social. Enquanto a sociedade fechada é organizada pela obrigação e defesa do grupo, a sociedade aberta se orienta por um princípio bem mais amplo, o amor criador que não encontra fronteiras sociais.
A moral dinâmica encontra sua maior expressão na religião dinâmica, tendo aqui um papel deveras importante o misticismo, em particular o cristão, católico apostólico romano. Nesta forma de religiosidade, o seu fundamento não se encontra em mitos ou instituições estabilizadoras, mas sim em uma experiência individual e espiritual direta que normalmente é associada ao misticismo.
Os grandes místicos, segundo Bergson, representam o equivalente religioso dos grandes reformadores morais. Estes místicos experimentam uma relação intensa e imediata com o princípio criador da realidade, ou seja, ao dinamismo da própria vida. Por meio de tal experiência mística é desenvolvido um amor universal que transborda por meio da ação moral. O místico não se limita a contemplar o divino, mas se transforma em uma força espiritual e ética no mundo que gera mudanças. Deste modo, o misticismo representa uma abertura à fonte criadora da vida, uma superação das formas rígidas da religião institucional, uma força espiritual capaz de expandir a moral humana de seu tempo histórico.
A diferença entre uma moral estática e outra dinâmica apresenta um aspecto central presente no pensamento filosófico desenvolvido por Bergson: a vida humana oscila entre conservação por um lado e criação por outro.
Há necessidade da existência da moral estática, já que sem a mesma a sociedade não poderia se manter, não haveria ordem. No entanto, esta moral estática tende a repetição e ao fechamento. Já, por sua vez, a moral dinâmica fornece a história humana um princípio de inovação ética que tem o potencial de transformar as estruturas sociais então existentes em novas e mais aprimoradas dentro de uma visão universal sobre a ética e moral. Segundo Bergson, a evolução moral da sociedade humana se apresenta como sendo um processo no qual impulsos criadores provindos de indivíduos excepcionais rompem de tempos em tempos com os limites impostos pela sociedade fechada, criando algo novo ou transformando algo existente e limitado em algo mais universal.
Esta reflexão de Bergson apresenta grande relevância para a ética e a crítica filosófica. Segundo o pensamento do autor, grande parte das normas morais sociais que organizam e regulam o comportamento humano tem suas origens em mecanismos sociais destinados à preservação da ordem coletiva. A história da humanidade no decorrer dos séculos e eras nos mostra que o progresso moral depende de indivíduos capazes de questionar estas mesmas normas quando as mesmas começam a se tornarem por demais estreitas e injustas. O pensamento de Bergson aponta para uma tensão permanente entre por um lado a disciplina social necessária à estabilidade coletiva e, por outro lado, a criatividade moral que amplia os horizontes da humanidade. Esta tensão relatada por Bergson tende a constituir um elemento fundamental em qualquer reflexão crítica sobre a moral, a religião e mesmo as transformações sociais.
Em síntese, na obra Les Deux Sources de la morale et de la religion, Henri Bergson procura mostrar que a vida moral e religiosa do humano nasce de duas forças distintas e complementares. De um lado, encontramos a moral e a religião estáticas, ligadas à necessidade de conservação da sociedade, baseadas na obrigação, na tradição e na pressão do grupo, características próprias das chamadas sociedades fechadas. De outro lado, encontramos a moral e a religião dinâmicas, que emergem de impulsos criadores presentes em grandes personalidades espirituais e morais (como místicos, santos ou reformadores) capazes de ampliar o horizonte ético da humanidade e orientar a sociedade para uma forma aberta, universal e solidária. Assim, enquanto a primeira fonte garante a estabilidade e continuidade da vida coletiva, a segunda introduz na história humana um princípio de renovação moral que rompe limites estabelecidos e expande o amor e a solidariedade para além de fronteiras culturais, religiosas ou nacionais. Desse modo, Bergson interpreta o desenvolvimento moral da humanidade como uma tensão permanente entre conservação e criação, entre disciplina social e impulso espiritual transformador, tensão esta que explica tanto a permanência das instituições quanto os momentos decisivos de renovação ética que marcam a história humana.
6- Palavras finais
O pensamento de Bergson exerceu profunda influência na filosofia do século XX, dialogando com diversos campos do saber, como a psicologia, a biologia, a ética e a filosofia da religião. Sua tentativa de compreender a realidade a partir da experiência concreta do tempo e do dinamismo criador da vida marcou profundamente o debate filosófico contemporâneo. Ao destacar a importância da intuição, da criatividade e da liberdade no desenvolvimento da vida humana e social, Bergson ofereceu uma perspectiva filosófica que continua a inspirar reflexões sobre a natureza da consciência, da moral e da própria evolução cultural da humanidade.
7- Algumas das Principais Obras de Bergson
1- Essai sur les données immédiates de la conscience. Título em português: Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência. Ano da primeira publicação: 1889.
Esta obra inaugural apresenta o conceito fundamental de “duração” (durée), o tempo real vivido pela consciência como fluxo qualitativo, contínuo e heterogêneo, em oposição ao tempo espacializado e quantitativo da ciência e do senso comum. Bergson defende que apenas pela intuição podemos acessar o eu profundo e verdadeiro, fundamento da liberdade humana.
2- Matière et mémoire: Essai sur la relation du corps à l’esprit. Título em português: Matéria e Memória: Ensaio sobre a Relação do Corpo com o Espírito. Ano da primeira publicação: 1896.
Nesta obra, Bergson investiga a relação entre corpo e espírito através de uma análise inovadora da percepção e da memória. Distingue a memória-hábito (corporal, repetitiva) da memória pura (espiritual, conservação integral do passado), afirmando a independência relativa do espírito em relação ao cérebro.
3- Le Rire: Essai sur la signification du comique. Título em português: O Riso: Ensaio sobre a Significação do Cômico. Ano da primeira publicação: 1900.
Bergson aplica seu método ao fenômeno do riso e do cômico. Argumenta que o riso surge quando percebemos uma rigidez mecânica sobreposta à flexibilidade da vida, funcionando como mecanismo social de correção contra o automatismo e a estereotipia.
4- L’Évolution créatrice. Título em português: A Evolução Criadora. Ano da primeira publicação: 1907.
Considerada sua obra-prima, propõe o conceito de “élan vital” (impulso vital) como força criadora e imprevisível por trás da evolução das espécies. Critica tanto o mecanicismo quanto o finalismo, afirmando que a vida é contínua invenção e criação de novidade.
5- L’Énergie spirituelle. Título em português: A Energia Espiritual. Ano da primeira publicação: 1919.
Coletânea de ensaios que aprofundam temas como consciência, memória, sonho e a natureza da vida mental, reforçando a realidade e a potência do espírito.
6- Durée et simultanéité. Título em português: Duração e Simultaneidade. Ano da primeira publicação: 1922.
Bergson dialoga diretamente com a teoria da relatividade de Einstein, defendendo a primazia filosófica de sua concepção de duração pura frente às implicações temporais da física relativista.
7- Les Deux Sources de la morale et de la religion. Título em português: As Duas Fontes da Moral e da Religião. Ano da primeira publicação: 1932.
Última grande obra, distingue sociedades fechadas (moral estática, religião estática) de sociedades abertas (moral dinâmica, misticismo). O amor e o misticismo aparecem como forças criadoras capazes de impulsionar a humanidade para além do instinto e da inteligência.
8- La Pensée et le mouvant. Título em português: O Pensamento e o Movente. Ano da primeira publicação: 1934.
Reunião de conferências e artigos que sintetizam e esclarecem os principais conceitos de sua filosofia, com ênfase no método intuitivo e na mobilidade do real.
9- Mélanges. Título em português: Miscelâneas. Ano da primeira publicação: 1972 (publicação póstuma; compilação de textos escritos entre 1870 e 1941, incluindo inéditos e correspondências).
Coletânea abrangente organizada por André Robinet, reunindo artigos dispersos, conferências, correspondências (notadamente com Einstein sobre relatividade), prefácios, discursos e fragmentos inéditos que Bergson preferia não publicar. Apesar do testamento do filósofo proibindo edições póstumas de inéditos, o volume foi autorizado e tornou-se referência indispensável para o estudo completo de sua evolução intelectual, complementando as obras principais com materiais contextuais e polêmicos.
Silvério da Costa Oliveira.
Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.
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