Textos filosóficos, críticos, comportamentais e sobre arte da escrita, sucesso e auto-ajuda.
Professor Doutor Silvério
Blog: "Comportamento Crítico"
Professor Doutor Silvério
Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.
(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)
E-mails encaminhados para doutorsilveriooliveira@gmail.com serão respondidos e comentados excluindo-se nomes e outros dados informativos de modo a manter o anonimato das pessoas envolvidas. Você é bem vindo!
"Toda verdadeira história é
história contemporânea."
Benedetto Croce, Teoria e storia
della storiografia.
Por: Silvério da Costa Oliveira.
Benedetto Croce
Antes de
examinar os principais conceitos desenvolvidos por Benedetto Croce, convém
observar que seu pensamento constitui um dos sistemas filosóficos mais
abrangentes produzidos pela tradição idealista italiana. Embora profundamente
influenciado por Hegel e por Giambattista Vico, Croce elaborou uma filosofia
original, centrada na compreensão da história como expressão do espírito humano
em permanente desenvolvimento. Sua obra exerceu influência sobre a filosofia, a
historiografia, a crítica literária, a estética e a teoria política, tornando-o
um dos intelectuais italianos mais importantes do século XX.
1- Vida
Benedetto Croce
(1866-1952) nasce em 25 de fevereiro de 1866, em Pescasseroli, na região
montanhosa dos Abruzos, no sul da Itália e falece aos 86 anos em Nápoles,
Itália. Proveniente de uma família rica e influente de proprietários de terras.
Viveu uma infância confortável, marcada inicialmente por uma educação católica
rigorosa.
Seus pais, Pasquale
e Luisa Sipari, bem como sua irmã Maria, morreram de modo trágico em 1883,
durante um terremoto que acometeu a vila de Casamicciola Terme, na ilha de
Ísquia (Ischia), onde a família passava férias. Este incidente, ocorrido quando
Croce tinha 17 anos de idade, irá marcar profundamente a vida de Croce, ele
mesmo, além de perder a família no evento, quase também morreu, tendo sido
soterrado por várias horas à época. O irmão mais novo, Alfonso, também
sobreviveu. Como sobrevivente, herdou a fortuna da família, o que lhe garantiu
independência econômica vitalícia.
Após este
terrível incidente, morou em Roma, na casa de seu tutor, Silvio Spaventa,
importante figura política e intelectual conservadora, primo de seu pai (a mãe
de Silvio, Maria Anna Croce, era tia-avó de Benedetto) até o ano de 1886,
quando retorna para Nápoles. Ainda adolescente, afastou-se da fé religiosa
tradicional, desenvolvendo uma visão espiritual própria, na qual a religião era
compreendida como instituição histórica e expressão da criatividade humana,
perspectiva que manteve ao longo de toda a sua existência.
Croce estudou
Direito formalmente na Universidade de Nápoles, mas não chegou a graduar-se, e,
como autodidata, dedicou-se a outros temas também de seu interesse. Antonio
Labriola o apresentou ao marxismo e também ao filósofo Hegel. Foi o fundador,
conjuntamente com Giovanni Gentile, da revista “La critica”, em 1903, que
exerceu grande influência cultural na Itália, tornando-se uma das mais
influentes publicações culturais italianas do século XX, na qual publicou
extensos ensaios de filosofia, história, crítica literária e política. Sua
residência em Nápoles, o Palazzo Filomarino, tornou-se um importante centro de
vida intelectual.
A tragédia
juvenil parece ter aprofundado nele uma seriedade existencial e uma dedicação
intensa ao trabalho intelectual. A partir de 1893, influenciado especialmente
por Giambattista Vico (de quem chegou a adquirir a antiga residência em Nápoles),
Croce voltou-se de forma decisiva para a filosofia e a história. Seu encontro
com o filósofo Giovanni Gentile foi fundamental, pois, Gentile incentivou-o a aprofundar
os estudos sobre Hegel, autor que Croce analisaria criticamente em obras
posteriores, como “O que está vivo e o que está morto na filosofia de Hegel”
(1907).
Croce casou-se
em 1914 com Adele Rossi, com quem teve cinco filhos no total, quatro filhas
(Elena, Alda, Lidia, Silvia) e um filho, Giulio, falecido ainda na infância.
Antes, manteve uma longa relação com Angelina Zampanelli (falecida em 1913). No
transcorrer de sua vida adulta, atuou como filósofo, historiador e político.
Croce engajou-se
ativamente na vida pública italiana. Fez carreira política, ocupando o cargo de
deputado e sendo nomeado senador vitalício em 1910 e ministro da educação entre
1920 - 1921. Foi ministro sem pasta no gabinete Badoglio, entre abril e junho
de 1944, e no primeiro gabinete Bonomi, entre junho e julho de 1944. Presidiu o
Partido Liberal até 1947 e ocupou a presidência honorária até 1948, além de ter
sido consultor e deputado na Assembleia Constituinte, tornando-se senador
vitalício em 1948. Apesar de inicialmente apoiar o governo de Benito Mussolini,
posteriormente fez oposição ao fascismo. Após a queda do regime participou da
Assembleia Constituinte. Em resposta ao “Manifesto dos Intelectuais Fascistas”
promovido por Giovanni Gentile, Croce redigiu o “Manifesto dos Intelectuais Antifascistas”,
publicado em 1º de maio de 1925.
Em virtude de
suas opiniões políticas, segundo comentadores, esteve constantemente vigiado no
decorrer do governo fascista de Mussolini e no ano de 1943 foi mantido sob
custódia e teve sua liberdade bastante restringida conjuntamente com outras
lideranças antifascistas italianas e mandados para a retaguarda das tropas
alemãs, em Sorrento. Após a batalha de Salermo, na qual as tropas inglesas
venceram, Croce foi libertado e pode retornar ao convívio de sua família e
amigos. Aqui, no entanto, para ser mais exato, Croce já morava em Sorrento
(Villa Tritone) desde dezembro de 1942, tendo se refugiado ali por causa dos
bombardeios aliados a Nápoles, logo não foi "mandado" para lá pelos
alemães como sugerem alguns comentadores. Em setembro de 1943, com o armistício
e o avanço aliado em Salerno, os alemães em retirada planejavam capturá-lo como
refém, justamente por seu prestígio antifascista. Foi então resgatado por um
oficial britânico (tenente Adrian Gallegos) e levado de barco, com parte da
família, para Capri, que já estava em mãos aliadas. Portanto, permaneceu
morando em Sorrento/região até praticamente o fim de 1945.
Sua oposição ao
fascismo de Benito Mussolini foi constante e corajosa. Embora inicialmente
tenha subestimado o movimento, Croce tornou-se uma das vozes mais proeminentes
do antifascismo liberal italiano. Recusou-se a aderir ao regime, assinou o
Manifesto dos Intelectuais Antifascistas (1925), redigido por ele próprio, e
sofreu vigilância, censura e isolamento cultural. Durante a ditadura, suas
obras históricas, como a Storia d’Italia dal 1871 al 1915 (1928), foram lidas
como críticas veladas ao autoritarismo. Em 1944, após a queda do fascismo,
participou ativamente da reconstrução democrática, defendendo o liberalismo e o
historicismo como bases éticas e políticas.
Benedetto Croce
faleceu em Nápoles, em 20 de novembro de 1952, aos 86 anos. Sua vida, marcada
pela tragédia precoce, pela independência material e por um compromisso
inabalável com a liberdade intelectual, reflete-se profundamente em sua obra:
um pensamento que coloca a história, a criatividade humana e a defesa da
liberdade no centro da existência espiritual.
2- Ideias
É considerado um
eminente representante do neohegelianismo e do neoidealismo italiano, mas
também sofre influência da tradição historicista de Vico. Não se pode dizer que
se trata de uma visão hegeliana pura, já que não aceita certas partes da teoria
de Hegel. Sua ênfase em Hegel se direciona mais para a dialética, a primazia do
pensamento para a compreensão da realidade e a ideia do espírito. Croce
desenvolveu uma vasta produção literária e filosófica, passando de 4 mil
títulos de sua autoria, boa parte formada por pequenos textos.
O pensamento de
Benedetto Croce constitui uma das últimas grandes sínteses idealistas do século
XX. Herdeiro crítico de Hegel e de Vico, mas também dialogando com o marxismo
(do qual se afastou), o positivismo e o romantismo, Croce elaborou um
historicismo absoluto ancorado na concepção de Espírito como realidade única e
dinâmica. Para ele, não existe nada fora da história: a realidade é história e
o espírito se realiza integralmente no devir histórico.
Segundo o
pensamento de Croce a atividade espiritual se divide em teorética e prática.
Por sua vez, tanto a teorética como a prática possuem cada qual dois graus.
Deste modo, na atividade espiritual teorética temos a intuição ou conhecimento
do individual, e o conceito ou conhecimento do universal. Na atividade
espiritual prática temos o útil ou volição do individual, e o bem moral ou
volição do universal. Deste modo, podemos falar em quatro graus de atividade
espiritual, a saber: 1- arte (intuição), 2- filosofia (conceito). 3- economia
(útil), 4- moral (bem).
O ponto central
dentro do sistema filosófico desenvolvido por Croce se encontra no conceito da
dialética dos distintos, que busca a integração da dialética dos opostos
proposta por Hegel.
A Filosofia do
Espírito
O núcleo de seu
sistema é a Filosofia dello spirito (1902-1917), dividida em quatro momentos ou
“distintos” eternos e irredutíveis:
Estético —
intuição-expressão (arte);
Lógico —
conceito puro (filosofia);
Econômico —
vontade voltada ao útil (economia e direito);
Ético — vontade
voltada ao universal (moral).
Diferentemente
da dialética hegeliana dos opostos, Croce propõe a dialética dos distintos: os
quatro graus são autônomos, mas formam uma unidade orgânica no espírito. Nenhum
deles pode ser reduzido aos outros, embora todos se pressuponham
reciprocamente. Essa autonomia das formas espirituais é um dos traços mais
marcantes e influentes de seu pensamento.
Estética: Arte
como Intuição-Expressão
A contribuição
mais célebre de Croce reside na estética. A arte não é prazer sensível, nem
moralidade disfarçada, nem conceito filosófico, nem imitação da natureza. Ela é
intuição lírica, forma pura e originária de conhecimento. Antes de qualquer
lógica ou conceito, o espírito capta o real como imagem individual e
expressiva. Intuição e expressão são idênticas: não existe intuição sem
expressão, nem expressão autêntica sem intuição.
Essa tese
implica a rejeição dos gêneros literários fixos, dos estilos preestabelecidos e
da separação tradicional entre forma e conteúdo. Toda verdadeira obra de arte é
única e insubstituível, manifestação concreta da universalidade do espírito. A
crítica estética, por sua vez, deve ser reatualização da intuição do artista, e
não aplicação de regras externas.
Lógica e
Historicismo Absoluto
Na Logica come
scienza del concetto puro, Croce distingue o conceito puro (universal concreto)
dos pseudo-conceitos das ciências naturais e empíricas. O conceito puro é
pensamento da realidade em sua historicidade. A filosofia não é, portanto,
sistema abstrato de verdades eternas, mas reflexão sobre a história.
Daí decorre seu
historicismo absoluto: “toda história é história contemporânea”. O passado só
existe enquanto pensado no presente. Não há fatos brutos; o conhecimento
histórico é sempre juízo valorativo e, simultaneamente, autoconhecimento do
espírito. A história não é ciência objetiva nem narrativa neutra, é filosofia
em ato.
Filosofia da
Prática e Liberalismo Ético
Nas esferas
econômica e ética, Croce defende a autonomia do útil (econômico) em relação ao
bem moral. A ação econômica é legítima em si, desde que não pretenda substituir
a moral. No plano ético-político, Croce foi um liberal convicto. A liberdade
não é mero direito formal, mas a própria essência do espírito em sua atividade
criadora. O Estado deve garantir as condições para o pleno desenvolvimento das
distintas atividades espirituais, sem absorvê-las.
Seu antifascismo
não foi apenas político, mas filosófico: o totalitarismo representava a negação
violenta da autonomia dos distintos e da liberdade como processo histórico.
Críticas e
Legado
O pensamento
crociano foi criticado por seu suposto “esteticismo” excessivo, por certo
intelectualismo e por uma visão da história que alguns consideraram
excessivamente idealista e pouco atenta às estruturas materiais. Giovanni
Gentile, seu antigo colaborador, rompeu com ele e desenvolveu um atualismo mais
radical e, posteriormente, alinhado ao fascismo.
Apesar dos
percalços históricos, o legado de Croce permanece vivo. Sua defesa
intransigente da autonomia da cultura, da liberdade intelectual e da
centralidade da história como horizonte de sentido influenciou gerações de
intelectuais italianos e europeus. Em tempos de irracionalismos, dogmatismos e
novas formas de autoritarismo, o historicismo crociano continua a oferecer uma
poderosa ferramenta crítica: a afirmação de que o humano se realiza na história
concreta, pela criação incessante do espírito livre.
3 – Palavras
finais
A influência
exercida por Benedetto Croce ultrapassou amplamente os limites da filosofia.
Seu pensamento marcou profundamente a historiografia, a teoria da arte, a
estética, a crítica literária e o liberalismo italiano do século XX. Sua defesa
da autonomia da cultura, da liberdade intelectual e do estudo histórico
contribuiu decisivamente para a renovação da vida intelectual italiana após o
predomínio do Positivismo no final do século XIX, reafirmando a importância das
dimensões históricas, culturais e espirituais da experiência humana.
Embora tenha
sido um dos mais importantes representantes do idealismo italiano, Croce nunca
se limitou a repetir Hegel. Sua releitura crítica da tradição idealista,
combinada com a influência exercida por Giambattista Vico, deu origem a um
historicismo original, que permaneceu como uma das grandes referências da
filosofia europeia do século XX.
Sua influência
estendeu-se muito além de seus seguidores imediatos. Mesmo pensadores que
divergiam profundamente de suas posições reconheceram sua importância
intelectual. Antonio Gramsci, por exemplo, dedicou numerosas análises críticas
ao pensamento crociano nos Cadernos do Cárcere, considerando-o um dos mais
importantes representantes da cultura italiana de seu tempo. Ainda que
rejeitasse seu idealismo e seu liberalismo, Gramsci reconhecia em Croce um
interlocutor filosófico de primeira grandeza.
No campo da
crítica literária e da estética, sua concepção da arte como intuição e
expressão exerceu enorme influência sobre estudiosos da literatura e da cultura
durante boa parte do século XX, contribuindo para renovar os estudos estéticos
e afastando-os das interpretações excessivamente formalistas ou positivistas.
A repercussão
internacional de sua obra também foi significativa. Seu historicismo dialogou
com autores como R. G. Collingwood, José Ortega y Gasset e Erich Auerbach, além
de influenciar diversos historiadores, filósofos e críticos literários
europeus. Embora muitas de suas teses tenham sido posteriormente revistas ou
criticadas, Benedetto Croce permanece como uma das figuras centrais da
filosofia italiana contemporânea e um dos mais importantes defensores da
liberdade intelectual diante dos totalitarismos do século XX. Seu legado
continua vivo como expressão de um pensamento que procurou compreender a
história não apenas como sucessão de acontecimentos, mas como realização
permanente da criatividade e da liberdade do espírito humano.
4- Algumas das principais
obras de Benedetto Croce
1- Materialismo
storico ed economia marxistica. Título traduzido para o português: Materialismo
Histórico e a Economia Marxista. Ano da primeira publicação: 1900.
Nesta obra
inicial, Croce realiza uma crítica rigorosa ao materialismo histórico de Karl
Marx. Ele rejeita o determinismo econômico como explicação total da história,
defendendo que o marxismo contém elementos válidos como método de
interpretação, mas falha ao transformar-se em filosofia metafísica ou em
doutrina absoluta. O livro marca o afastamento progressivo de Croce do marxismo
e o início de sua elaboração de um historicismo idealista.
2- L’Estetica
come scienza dell’espressione e linguistica generale. Título traduzido para o
português: A Estética como Ciência da Expressão e Linguística Geral. Ano da
primeira publicação: 1902.
Primeira parte
fundamental da Filosofia dello spirito. Croce define a arte como
intuição-expressão, forma pura de conhecimento pré-lógico e pré-conceitual. A
estética identifica-se com a linguística geral porque a expressão artística é
idêntica à criação da linguagem. A obra afirma a autonomia da arte em relação à
moral, à utilidade e à lógica, exercendo enorme influência na crítica literária
e estética do século XX.
3- Logica come
scienza del concetto puro. Título traduzido para o português: Lógica como
Ciência do Conceito Puro. Ano da primeira publicação: 1905/1909.
Em 1905, Croce
publicou uma versão preliminar ou “Lineamenti di una Logica come scienza del
concetto puro” (esboço ou linhas gerais), apresentada originalmente na
Accademia Pontaniana. A obra completa como livro, Logica come scienza del
concetto puro, foi publicada em 1909 (pela editora Laterza), integrando-se
plenamente à série Filosofia dello spirito. Essa distinção é comum nas
bibliografias especializadas sobre Croce. A data de 1905 refere-se à primeira
formulação pública do conteúdo, enquanto 1909 marca a publicação definitiva da
obra no formato que conhecemos e que faz parte do sistema filosófico.
Segunda parte da
Filosofia dello spirito. Croce distingue o conceito puro (universal concreto)
dos pseudo-conceitos das ciências empíricas. A lógica é a ciência do pensamento
que capta a realidade em sua concreticidade histórica. Ele desenvolve a teoria dos
“distintos” (estético, lógico, econômico e ético) como momentos do espírito,
opondo-se à dialética hegeliana dos opostos e propondo uma dialética dos
distintos.
4- Ciò che è
vivo e ciò che è morto della filosofia di Hegel. Título traduzido para o
português: O que está vivo e o que está morto na filosofia de Hegel. Ano da
primeira publicação: 1907.
Obra importante
de transição no pensamento crociano. Nela, Croce realiza uma crítica seletiva
ao sistema hegeliano, separando o que considera vivo (a dialética como
instrumento de compreensão da história e da realidade concreta) do que
considera morto (o panlogismo, o sistema fechado e a concepção finalista da
história). Essa distinção permitiu a Croce assimilar criticamente o legado
hegeliano, reelaborando-o em sua própria filosofia do espírito e em seu
historicismo absoluto. O livro marca o amadurecimento de sua independência
filosófica em relação a Hegel e influenciou profundamente sua produção
posterior.
5- Filosofia
della pratica, economica ed ética. Título traduzido para o português: Filosofia
da Prática: Econômica e Ética. Ano da primeira publicação: 1909.
Terceira parte
da Filosofia dello spirito. Trata das atividades práticas do espírito: a
econômica (vontade voltada ao útil) e a ética (vontade voltada ao bem
universal). Croce defende a autonomia da economia em relação à ética e elabora
uma concepção liberal do Estado e da ação moral, ancorada na liberdade como
valor supremo.
6- Breviario di
Estetica. Título traduzido para o português: Breviário de Estética. Ano da
primeira publicação: 1913.
Obra de caráter
sintético e introdutório, escrita originalmente a partir de conferências
proferidas na Universidade Rice, nos Estados Unidos. Nela, Croce apresenta de
forma clara e acessível os princípios fundamentais de sua teoria estética,
especialmente a concepção da arte como intuição e expressão. Embora mais breve
que “A Estética como Ciência da Expressão” e “Linguística Geral”, tornou-se uma
das obras mais difundidas do autor e uma importante porta de entrada para a
compreensão de seu pensamento estético, exercendo ampla influência sobre a
crítica literária e a teoria da arte ao longo do século XX.
7- Teoria e
storia della storiografia. Título traduzido para o português: Teoria e História
da Historiografia. Ano da primeira publicação: 1917.
Quarta e última
parte sistemática da Filosofia dello spirito. Croce afirma que “toda história é
história contemporânea” e que a historiografia é, em essência, filosofia.
Rejeita a ideia de história como ciência objetiva ou como filosofia da história
especulativa, propondo o historicismo absoluto: a realidade é história e o
pensamento histórico é o único modo verdadeiro de conhecer o espírito em sua
concretude.
8- Storia
d’Italia dal 1871 al 1915. Título traduzido para o português: História da
Itália de 1871 a 1915. Ano da primeira publicação: 1928.
Uma das obras
historiográficas mais importantes de Croce. Escrita durante o regime fascista,
apresenta uma interpretação liberal da formação do Estado italiano unificado,
destacando o progresso civil e cultural do período. Funcionou como crítica
velada ao fascismo ao valorizar a tradição liberal italiana.
9- Storia
d’Europa nel secolo decimonono. Título traduzido para o português: História da
Europa no Século XIX. Ano da primeira publicação: 1932.
Interpretação
ampla da história europeia do século XIX como a “era da liberdade”. Croce
analisa o triunfo e as crises do liberalismo, opondo-o tanto ao absolutismo
quanto aos totalitarismos emergentes (fascismo e comunismo).
10- La storia
come pensiero e come azione. Título traduzido para o português: A História como
Pensamento e como Ação (ou A História como História da Liberdade). Ano da
primeira publicação: 1938.
Obra madura que
aprofunda o historicismo crociano. A história é simultaneamente pensamento
(conhecimento) e ação (realização da liberdade). Croce defende o “estoricismo
absoluto” contra o irracionalismo, o positivismo e as filosofias da decadência,
reafirmando a liberdade como essência da vida humana e da atividade espiritual.
"Das Schönste, was wir erleben können, ist das Geheimnisvolle. Es
ist das Grundgefühl, das an der Wiege von wahrer Kunst und wahrer Wissenschaft
steht."
"A experiência mais bela que
podemos ter é a do mistério. É o sentimento fundamental que está na origem da
verdadeira arte e da verdadeira ciência."
Albert Einstein
Mein Weltbild (Como Vejo o
Mundo), 1934.
Por: Silvério da Costa Oliveira.
Albert Einstein
Albert Einstein
ocupa um lugar singular na história do pensamento humano. Embora seja lembrado
principalmente como físico, sua influência ultrapassa em muito os limites dessa
disciplina, alcançando a filosofia, a cosmologia, a epistemologia e até mesmo a
reflexão ética sobre a responsabilidade da ciência. Suas teorias alteraram
profundamente a compreensão do espaço, do tempo, da matéria e da energia,
modificando conceitos que durante mais de dois séculos pareciam definitivamente
estabelecidos pela física newtoniana. Ao mesmo tempo, sua postura intelectual
revelou um pensador profundamente comprometido com a busca da verdade, sempre
disposto a revisar pressupostos tradicionais quando estes deixavam de explicar
satisfatoriamente a realidade observável. Einstein representa, assim, uma das
figuras centrais da ciência da contemporaneidade e um dos maiores responsáveis
pela transformação da visão humana do universo.
1- Vida
Albert Einstein
(1879-1955) nasceu em 14 de março de 1879 em Ulm (cidade ao sul da Alemanha), Reino
de Württemberg, Império Alemão (hojeBaden-Württemberg, Alemanha) e falece
aos 76 anos de idade em Princeton, Nova Jersey, EUA. Filho de Hermann Einstein,
um comerciante de origem judaica que trabalhava com eletrotécnica, e Pauline
Koch, uma mulher culta e musical. A família não era religiosa praticante, o que
permitiu ao jovem Albert crescer em um ambiente relativamente livre de dogmas,
embora marcado pela cultura judaica assimilada. Desde cedo, demonstrou
curiosidade intensa pela natureza e pela matemática, influenciado por
brinquedos científicos e pela orientação de um tio engenheiro.
Einstein demorou
um pouco, quando ainda criança, a começar a falar, o que teria preocupado seus
pais. Posteriormente, aprendeu a tocar violino e já aos seis anos de idade começara
o estudo do instrumento. Durante toda a sua vida adulta participou de concertos
junto a amigos, em suas casas e, eventualmente, em algum evento público. Onde
quer que fosse, sempre levava “Lina”, nome que, segundo alguns biógrafos, dera
ao seu violino.
Existe uma
história que circula por vários comentadores de que Einstein era um aluno
medíocre, mas tal não corresponde a verdade dos fatos. Einstein era autodidata
e se dedicava com mais empenho às disciplinas que mais gostava, o que aliás, é
algo comum entre vários alunos, dedicar-se mais ao que se gosta e relegar para
um empenho mínimo aquilo de que não se gosta naquele momento de suas vidas. Sua
formação educacional desmente o mito popular de que Einstein teria sido um
aluno medíocre ou fracassado. Como ocorre frequentemente com indivíduos
superdotados, ele dedicava energia plena aos temas que lhe despertavam genuíno
interesse (física, matemática e filosofia), enquanto mostrava enfado ou
resultados inferiores em disciplinas vistas como mecânicas, lentas ou pouco
desafiadoras para seu raciocínio rápido.
Tendo nascido em
Ulm em 1879, seus pais mudaram para Munique em 1880 buscando melhores condições
de trabalho. Seu pai atuava como vendedor e engenheiro elétrico e possuía uma
empresa que fazia uso da corrente contínua. Ocorre que a corrente alternada
acabou predominando mundialmente e isto levou a falência da empresa. Buscando
melhores negócios, sua família mudou para a Itália (Milão e depois Pavia), mas
Einstein continuou em Munique para terminar seus estudos, o que não ocorreu de
modo satisfatório. Entrou na escola primária em Munique e, posteriormente, no
ginásio Luitpold, onde enfrentou certa rigidez pedagógica.
Em 1894 segue
Einstein também para a Itália, Pávia. Em 1895 realiza os exames de admissão
para a Escola Politécnica Federal Suíça (hoje a ETH-Zurique), mas apesar das
excelentes notas nas disciplinas de exata (física, matemática) não consegue ser
admitido.
Entre 1895 e
1896 frequenta a Escola Cantonal em Aarau, Suíça, visando completar seus
estudos no ensino secundário. Em Zurique cursou seu Doutorado enquanto
trabalhava no Escritório de Patentes (Instituto Federal Suíço de Propriedade
Intelectual). Em 28 de janeiro de 1896, com a aprovação de seu pai, renunciou à
sua cidadania no Reino de Württemberg, para evitar o serviço militar.
Finalmente, em
outubro de 1896 conseguiu a aprovação nos exames finais, então com 17 anos de
idade ingressando na prestigiosa Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH),
onde se formou em 1900 como professor de matemática e física. Talvez o
principal impedimento (para a admissão na ETH) da primeira vez tenha sido a não
conclusão do ensino secundário. Em 1901 adquire a nacionalidade suíça. Sua
trajetória acadêmica foi marcada por independência intelectual e por relações
nem sempre harmoniosas com alguns professores, o que retardou, mas não impediu,
o desenvolvimento de seu pensamento revolucionário.
Foi na Escola
Politécnica que conheceu sua futura esposa, Mileva Marić (colega de estudos na
ETH), com quem se casa em 1903 e tem dois filhos, Hans Albert e Eduard. Em
1987, com a publicação de correspondência até então inédita para o grande
público, soube-se que havia uma terceira filha, Lieserl, em verdade, nascida
antes do casamento e cujo destino permanece obscuro, tendo provavelmente
falecido na infância. Ao que parece o casamento não foi muito bem e quando em
1914 Einstein mudou-se para Berlim, sua esposa preferiu permanecer com os
filhos em Zurique, vindo finalmente o casal a se separar em 1919.
O casamento
enfrentou dificuldades crescentes. O trabalho que lhe rendeu o Prêmio Nobel de
Física em 1921 (o artigo sobre o efeito fotoelétrico de 1905) teve um papel
prático no divórcio, já que Einstein prometeu entregar o valor total do prêmio
a Mileva, o que facilitou o consentimento dela para a separação oficializada em
1919. Em verdade, Einstein tinha plena certeza de que receberia o Nobel, mas
não talvez deste trabalho específico, já que havia feito outras e grandes
contribuições para a física teórica, como a própria teoria da relatividade.
Talvez ainda houvesse uma certa descrença por parte de grande número de seus
colegas sobre suas teorias revolucionárias no tocante ao que estas se
confrontavam com a visão de mundo da física dada por Newton.
Meses depois,
casou-se com sua prima-irmã Elsa Löwenthal (Einstein se divorciou de Mileva em
14 de fevereiro de 1919 e casou-se com Elsa em 2 de junho de 1919), viúva com
duas filhas e sua prima materna em primeiro grau e paterna em segundo grau.
Diferentemente do primeiro matrimônio, Elsa demonstrava maior tolerância em
relação às várias amantes que Einstein manteve ao longo da vida, fato
documentado em correspondências e biografias sérias e que integra a compreensão
plena de sua personalidade complexa, marcada por intensidade intelectual e
afetiva. Em 1933 o casal emigra para os EUA e em 1936 Elsa falece por questões
de saúde.
Nos anos que
antecederam 1905, entre 1901 e 1904, Einstein publicou cinco artigos na Annalen
der Physik, dedicados sobretudo à termodinâmica e à mecânica estatística. Esses
trabalhos iniciais, embora não tenham alcançado o impacto transformador dos
textos do ano milagroso, revelam um pensador em formação, um autodidata que,
trabalhando como perito técnico no Escritório de Patentes de Berna, buscava
superar as limitações da abordagem puramente termodinâmica por meio da análise
estatística dos fenômenos moleculares. Tais esforços constituíram exercícios preparatórios
fundamentais, que o capacitaram a enfrentar, com maestria, os grandes problemas
da física contemporânea em 1905. Neles já se vislumbra a independência
intelectual e a tenacidade que caracterizariam sua trajetória.
Einstein não foi
um autor de tratados monumentais como Kant ou Hegel, mas um pensador que
revolucionou a física predominantemente através de artigos concisos e
inovadores. Embora tenha publicado livros explicativos e de reflexão ao longo
da carreira, sua marca indelével reside nos artigos que, em 1905, alteraram os
fundamentos da compreensão humana do universo. Essa trajetória evidencia tanto
sua originalidade quanto sua capacidade de síntese, traços que marcam sua
contribuição para a contemporaneidade científica.
No período que
antecedeu seu grande salto criativo, Einstein publicou seu primeiro artigo
científico sobre física teórica em 1901, no periódico acadêmico Annalen der
Physik, intitulado Folgerungen aus den Capillaritätserscheinungen (Conclusões a
partir dos fenômenos de capilaridade), no qual propunha um modelo de atração
intermolecular que ele próprio viria a considerar, anos depois, de pouco valor.
Quando da publicação deste primeiro artigo, contava com 22 anos de idade. Entre
1901 e 1904, produziu outros poucos trabalhos exploratórios, ainda vinculados a
temas da física clássica e estatística.
O ano de 1905é
fundamental para a física e para Einstein, sendo considerado o Ano Milagroso / Ano
Milaculoso / Annus Mirabilis,por vários
comentadores, pois, foi neste ano em que Einstein publicou uma série de artigos
que vieram a revolucionar a física de sua época.Einstein viveu um surto
extraordinário de produtividade neste período.Einstein publicou quatro artigos
revolucionários na Annalen der Physik, que irão mudar para sempre a física. São
quatro artigos que irão revolucionar a física de então. São eles:
1- Sobre um
ponto de vista heurístico relativo à produção e transformação da luz.
Sobre o efeito
fotoelétrico (base para o Prêmio Nobel de 1921).
2- Sobre o
movimento de pequenas partículas em suspensão dentro de líquidos em repouso,
tal como exigido pela teoria cinético-molecular do calor (Über die von der
molekularkinetischen Theorie der Wärme geforderte Bewegung von in ruhenden
Flüssigkeiten suspendierten Teilchen).
Sobre o
movimento browniano (evidência da existência de átomos).
3- Sobre a
Eletrodinâmica dos Corpos em Movimento ("Zur Elektrodynamik bewegter
Körper").
Sobre a teoria
da relatividade especial.
4- A inércia de
um corpo depende do seu conteúdo energético?
Sobre a
equivalência massa-energia (E=mc², na qual “E” = energia, “m” = massa, c =
velocidade da luz e neste caso elevada ao quadrado).
Alguns
comentadores destacam quatro artigos revolucionários publicados naquele ano;
outros incluem também sua tese de doutorado, Eine neue Bestimmung der
Moleküldimensionen (Uma nova determinação das dimensões moleculares), defendida
em 1905 e publicada em 1906, elevando assim para cinco as grandes contribuições
do período. Essa tese, embora mais técnica, reforçava a teoria
cinético-molecular ao calcular dimensões moleculares e o número de Avogadro,
complementando o célebre artigo sobre o movimento browniano. Foi nesse contexto
de intensa atividade intelectual, realizado paralelamente ao emprego no
Escritório de Patentes de Berna, que Einstein revolucionou os fundamentos da
física. Com a notoriedade, foi convidado
a retornar a Alemanha, pais do qual não gostava e tinha, inclusive, aberto mão
de sua nacionalidade. Mesmo assim, aceitou o cargo que lhe fora oferecido e com
este também readquiriu sua nacionalidade alemã, passando a atuar como professor
da Academia de Ciências de Berlim.
Retornando aos
quatro artigos publicados neste ano de 1095, no primeiro ele propôs o quanta de
luz, no segundo ele trata sobre o movimento browniano, no terceiro sobre a
eletrodinâmica dos corpos em movimento, artigo no qual apresenta a Teoria da
Relatividade Restrita (ou especial) e, finalmente, no último, aborda sobre a
consequência da sua teoria, a equação que relaciona energia e massa, E = mc².
Além disso, sua
tese de doutorado ("Uma Nova Determinação das Dimensões Moleculares")
também foi completada e submetida em 1905 (publicada em 1906), o que alguns contam
como um quinto trabalho fundamental daquele ano.
Já a teoria da
relatividade geral foi desenvolvida por Einstein entre os anos de 1907 e 1915.
Esta teoria prevê que a atração gravitacional observada entre massas resulta da
curvatura do espaço e do tempo por essas massas.
Podemos remontar
várias descobertas ao trabalho desenvolvido por Einstein, como tal é o caso de:
1905Teoria quântica de luz também conhecida
como os quanta de luz.
1905Teoria especial da relatividade ou da
relatividade restrita.
1905O efeito fotoelétrico.
1905A dualidade onda-partícula.
1905O movimento browniano.
1915A teoria geral da relatividade.
1924O condensado de Bose-Einstein.
Em 1908 foi
nomeado Privatdozent na Universidade de Berna, em 1909 deixa o escritório de
patentes e passa a dar aulas na universidade de Zurique, sendo ali nomeado
professor adjunto neste mesmo ano. Em 1911 torna-se professor catedrático na
Universidade Carolina, em Praga e adota a cidadania austríaca. Entre 1912 e
1914 atua como professor em Zurique, no Instituto Federal de Tecnologia – ETH.
Em 1914 é nomeado diretor do instituto Kaiser Guilherme de Física, na Alemanha,
e professor da Universidade Humboldt de Berlim, onde fica até 1932.
No ano de 1921
foi agraciado com o prêmio Nobel de física, em virtude de suas descobertas no
tocante a lei do efeito fotoelétrico. Atuou como físico teórico, desenvolveu a
teoria da relatividade geral, influenciou o surgimento da mecânica quântica.
Hoje seu nome está fortemente associado a uma das fórmulas por ele criadas, sua
fórmula de equivalência massa-energia, que permitiu os estudos que levaram ao
desenvolvimento da bomba atômica. E = mc² nesta equação, Einstein demostrou que
a massa inercial (m) multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz (c²) é
equivalente a uma quantidade de energia E. Esta equação proporciona, portanto,
uma equivalência entre a massa e a energia. Também deixa claro que esta
transformação irá gerar uma enorme quantidade de energia.
Algo importante
que se deve destacar nos trabalhos desenvolvidos por Einstein, desde seus
quatro artigos publicados no ano milaculoso, é que ele proporcionou a
modificação de conceitos tidos como fundamentais para a física, ocasionando uma
ruptura no modo de pensar sobre tais temas em sua própria época histórica, tal
é o caso de conceitos como: massa, energia, espaço e tempo.
Também cabe
destacar outras relevantes contribuições posteriores de Einstein, como, em 1917
com a teoria da radiação na qual prevê que a luz ao passar por uma substância
estimula a emissão de luz. Esta teoria de 1917 teve atuação junto a elaboração
futura do laser. Também e já em 1925, a teoria conhecida como estatística de
Bose-Einstein que teve importância junto aos estudos sobre partículas
subatômicas, servindo como base nos estudos sobre bósons.
Em 1911, com
base na sua teoria da relatividade geral, calculou que a luz de uma estrela se
curva ao passar por nosso Sol em virtude da atuação da gravidade, o que seria
comprovado em 1919. A confirmação de suas ideias ocorreu simultaneamente em
dois lugares: em Sobral, no Ceará, Brasil, e em Príncipe (África).
A curvatura do
espaço-tempo proposta por Einstein nos ajuda a entender, por exemplo, a atração
gravitacional exercida pelo Sol na Terra. Se fizermos uso de uma metáfora,
podemos entender nosso sistema Solar como sendo uma toalha cobrindo uma mesa de
jantar, se colocamos uma pedra pesada no meio e levantamos as pontas, qualquer
bolinha pequena que seja colocada em suas extremidades tenderá a um movimento
em direção ao centro. Ora, estamos diante da curvatura do espaço-tempo. A
toalha pode ser entendida como sendo o nosso sistema Solar, a bolinha os
planetas nele presentes, como a própria Terra, e a pedra ao centro, o Sol. Foi
o eclipse Solar ocorrido em maio de 1919 que confirmou a curvatura da luz
anunciada e prevista na teoria de Einstein. Os cientistas mediram a mesma em
dois lugares do planeta, sendo um deles o Brasil.
Com a ascensão
do nazismo na Alemanha, Einstein, de origem judaica e pacifista declarado,
tornou-se alvo de perseguição. Em 1933, durante uma viagem aos Estados Unidos,
decidiu não retornar à Europa. Aceitou posição no Institute for Advanced Study,
em Princeton, onde permaneceu pelo resto da vida, tornando-se cidadão americano
em 1940. Nos anos finais, dedicou-se incansavelmente à busca por uma teoria
unificada dos campos, que reconciliasse a relatividade geral com a mecânica
quântica, esforço que, apesar de infrutífero, revela sua insatisfação
permanente com o estado fragmentado da física contemporânea.
Aconselhado por
amigos, também físicos, em 1939 escreve ao presidente Roosevelt alertando-o
para a necessidade de iniciar pesquisas visando a construção de um artefato
explosivo nuclear antes que os alemães dispusessem do mesmo.
Já nos EUA,
desde 1933, Einstein se dedicou até o final de sua vida ao estudo e pesquisa
visando desenvolver uma teoria sobre os campos unificados visando explicar a
interação de todas as forças presentes na natureza (uma teoria unificada da
gravitação e do eletromagnetismo), mas não teve sorte em chegar a um resultado
satisfatório.
Apesar da
crítica e refutação de alguns pontos teóricos, Einstein sofre influência da
leitura de Hume, Kant e Mach.
Para Einstein,
os conceitos com os quais trabalha a ciência são criações mentais e não existem
na realidade, precisando em seu conjunto serem confirmados ou refutados pela
experiência.
Einstein se
tornou mundialmente conhecido até os dias de hoje por seus desenvolvimentos
dentro da física teórica, em particular a teoria da relatividade restrita ou
especial, e a teoria da relatividade geral.
Albert Einstein
faleceu em 18 de abril de 1955, em Princeton, aos 76 anos, vítima de um
aneurisma da aorta. Seu cérebro foi preservado para estudos científicos, mas
sua verdadeira herança reside nas transformações profundas que impôs à
compreensão humana do universo, do espaço, do tempo e da matéria.
Um fato
pitoresco é que após seu falecimento seu corpo foi cremado, mas seu cérebro foi
cuidadosamente retirado (sem autorização) por Thomas Stoltz Harvey e
encontra-se com suas partes distribuídas para estudo até os dias atuais.
2- Ideias
O ano de 1905
marca o ápice inicial da criatividade de Einstein. Em quatro artigos publicados
no Annalen der Physik, ele revolucionou a física: explicou o efeito
fotoelétrico ao propor que a luz se comporta como pacotes discretos de energia
(quanta), fundamentando o desenvolvimento quântico; esclareceu o movimento
browniano, fornecendo evidência robusta para a existência de átomos; apresentou
a teoria da relatividade especial; e derivou a equivalência massa-energia (E =
mc²), que viria a explicar fontes de energia estelar e nuclear. Esses
trabalhos, redigidos enquanto trabalhava no Escritório de Patentes, revelam um
pensador capaz de questionar pressupostos fundamentais da física clássica.
A teoria da
relatividade especial (ou restrita), exposta no artigo “Sobre a eletrodinâmica
dos corpos em movimento”, parte de dois postulados: 1- as leis da física são as
mesmas em todos os referenciais inerciais, e 2- a velocidade da luz no vácuo é
constante, independentemente do movimento da fonte ou do observador. Isso
implicou consequências radicais: contração de comprimentos, dilatação temporal
e relatividade da simultaneidade. Para confirmar experimentalmente um de seus
efeitos (o desvio da luz por campos gravitacionais), Einstein buscou
observações astronômicas durante eclipses totais do Sol, quando estrelas
próximas ao disco Solar poderiam ser vistas. Para isto pediu publicamente o
apoio de astrônomos para que estes medissem a posição relativa das estrelas
antes e durante um eclipse total do Sol.
Em 1911,
Einstein fez uma previsão inicial baseada em uma versão incompleta da teoria. A
tentativa de verificação em 1914 fracassou devido à eclosão da Primeira Guerra
Mundial. Posteriormente, ao revisar seus cálculos de 1911, percebeu que havia
um erro. Neste caso, o fracasso da tentativa de confirmar sua teoria no ano de
1914, que muito chateava Einstein, passou a ser por ele entendida como sendo algo
bom, já que a correção posterior (1915-1916) alinhava-se melhor com a teoria
final, evitando a impressão de que estaria “chutando” números para ajustar
resultados experimentais após os dados obtidos pelo experimento de campo. A
versão definitiva da relatividade geral foi publicada em 1916, com os números
referentes à posição relativa das estrelas recalculado.
Einstein buscou
confirmação observacional do desvio da luz já a partir de previsões
preliminares de 1911. Uma primeira tentativa prática ocorreu durante o eclipse
Solar de 1914, visível na Crimeia, Ucrânia, na época parte do Império Russo.
Mas ocorreram contratempos sérios. A expedição britânica sofreu problemas antes
mesmo de chegar ao local. A equipe americana conseguiu chegar ao local e devido
aos EUA ainda não terem entrado na guerra, este grupo não teve problemas
iniciais decorridos da guerra, mas enfrentou céu nublado, impossibilitando a
correta mensuração da posição das estrelas e não permitindo a obtenção de
fotografias necessárias do céu para a comprovação ou negação da teoria de
Einstein. Para piorar, apesar de poder realizar o experimento, não conseguiu
retornar com os equipamentos (caros e sofisticados) usados, ficando retidos na
Rússia / Criméia.
Vamos explicar
isto melhor. A eclosão da Primeira Guerra Mundial comprometeu profundamente as
observações planejadas para 1914. Na Crimeia, equipes científicas de diferentes
nacionalidades encontravam-se reunidas para observar o eclipse. Os astrônomos
alemães foram presos pelas autoridades russas e tiveram seus equipamentos
confiscados, enquanto a expedição britânica (em verdade três expedições
distintas, e não necessária e prioritariamente interessadas na comprovação ou
refutação da teoria de Einstein) viu seus trabalhos inviabilizados pelas
circunstâncias da guerra. A equipe norte-americana, proveniente de um país
ainda neutro, conseguiu realizar a observação, mas o céu nublado impediu a
obtenção das fotografias necessárias, além de enfrentar posteriormente
dificuldades para recuperar parte de seus equipamentos em razão do conflito. No
ano de 1914 foram pelo menos 4 tentativas de documentar o eclipse visando
testar a teoria de Einstein, comprovando-a ou negando-a.O eclipse estava marcado para ocorrer na data
de 21 de agosto de 1914 e várias equipes buscaram observa-lo.
1- Equipe
americana: do Observatório Lick, liderada por William Campbell, teve permissão
para ficar, mas foi impedida pelo tempo nublado.
2- Equipe
argentina: do Observatório Nacional Argentino, em Córdoba, chefiada pelo
astrônomo Charles Dillon Perrine, também chegou ao território russo, mas
enfrentou o mesmo problema de mau tempo e não conseguiu resultados
satisfatórios.
3- Equipe
britânica: astrônomos britânicos, organizados pela Royal Astronomical Society e
pela Royal Society, além de um grupo independente de padres jesuítas, teve
problemas logísticos e outros decorrentes do início da guerra.
4- Equipe alemã (apoiada
por Einstein): liderada por Erwin Finlay-Freundlich foi presa pelos russos na
Crimeia, equipamento confiscado / destruído. Quando a Alemanha declarou guerra
à Rússia, em 1º de agosto de 1914, Freundlich e sua equipe já estavam em
território russo, na Crimeia (A Crimeia e a região de Kiev pertenciam ao
Império Russo), se preparando para o eclipse de 21 de agosto. Como a Alemanha
havia acabado de se tornar inimiga da Rússia, as autoridades russas prenderam
os cientistas alemães como estrangeiros inimigos e confiscaram seus
equipamentos. Alguns foram expulsos, outros ficaram detidos como prisioneiros
de guerra por algumas semanas.
As tentativas
ocorridas em 1914 resultaram em fracasso generalizado, mas por motivos
diferentes: os alemães, por motivo político-militar (prisão, confisco e
destruição do equipamento); os americanos e argentinos, por causa do clima; os
britânicos, por também serem impactos pela guerra e por não ser este o objetivo
prioritário dos mesmos. Já a equipe americana, do Observatório Lick (liderada
por William Campbell), não era inimiga da Rússia, os Estados Unidos nem sequer
haviam entrado na guerra ainda. Por isso, os russos permitiram que os
americanos permanecessem e tentassem observar o eclipse. O problema deles foi
outro: o tempo nublado impediu qualquer observação útil. Apesar de algumas
fontes opinarem de modo diferente, russos, ingleses e (futuramente) americanos
eram todos aliados contra a Alemanha. Por isso não faria sentido a Rússia
prender os ingleses. Quem foi preso pelos russos foi justamente a equipe alemã,
a nação inimiga naquele momento. O caso mais grave de prisão e confisco foi o
da equipe alemã pelas autoridades russas. As equipes britânica e americana
sofreram principalmente com o clima e com as dificuldades logísticas da guerra.
Somente após os
cálculos definitivos de 1915-1916, feitos por Einstein, é que a teoria geral
alcançou sua forma madura, sendo testada com sucesso nos eclipses de 1919 e
1922. A grande oportunidade veio no eclipse total de 29 de maio de 1919.
Expedições britânicas, lideradas por Arthur Eddington, observaram o fenômeno em
Príncipe (África) e Sobral (Brasil). A luz das
estrelas sofre um desvio mínimo ao passar perto do Sol (da ordem de 1,75
segundos de arco, um ângulo extremamente pequeno, equivalente a aproximadamente
a largura de uma moeda vista a alguns quilômetros de distância). Esse desvio
ocorre porque a massa do Sol curva o espaço-tempo, alterando o caminho da luz,
o que faz as estrelas parecerem ligeiramente deslocadas de suas posições
habituais. Os resultados britânicos confirmaram a previsão de Einstein,
enquanto medições americanas a negaram, gerando controvérsia. Em verdade, o
equipamento americano de ponta tinha ficado retido em 1914 na Rússia e os
americanos tiveram de improvisar com equipamento não totalmente adequado a
situação. A confirmação definitiva da teoria de Einstein veio somente em 1922,
com observações americanas durante outro eclipse, que resolveram dúvidas e solidificaram
à teoria além de qualquer dúvida séria.
É digno de nota
que uma das expedições responsáveis pelas observações decisivas de 1919 foi
enviada para Sobral, no interior do Ceará. Embora liderada por astrônomos
britânicos, a escolha do local contou com contribuições de cientistas
brasileiros do Observatório Nacional, que indicaram a região por suas condições
favoráveis. As medições realizadas em solo brasileiro forneceram dados valiosos
que ajudaram a corroborar a previsão de Einstein, ilustrando como a ciência,
mesmo em meio às cicatrizes da Primeira Guerra, se beneficiava de cooperação
internacional e de localidades estrategicamente posicionadas no globo. Aliás, a
corroboração da teoria de um alemão por ingleses em 1919 teve um impacto social
muito positivo diante da guerra que havia terminado em 1918, mostrando que
apesar de toda raiva e ódio gerados durante a guerra, ainda era possível
cooperação entre povos outrora litigantes.
As estrelas se
encontram a anos luz de distância da Terra, sua luz passa pelo nosso Sol (que
também é uma estrela), depois pela lua e finalmente chega a Terra. Ao passar
pelo Sol, a luz das estrelas sofre a influência da enorme massa do Sol, que
altera a malha do tempo / espaço ao seu redor, fazendo com que esta sofra
alteração em sua trajetória. As estrelas mais afetadas são justamente aquelas
que estão quase atrás de nosso Sol, passando sua luz pela beira do mesmo e não
sendo visíveis em virtude da enorme claridade do Sol. Como o experimento
funciona? Algum tempo antes, digamos, alguns meses, quando o Sol se encontra em
outra parte, o experimentador fotografa as estrelas e marca a sua posição em
relação ao observador na Terra. Posteriormente, quando durante um eclipse total
do Sol, se fotografa a mesma região do espaço novamente. Ora, durante o eclipse
total a lua se coloca entre a Terra e o Sol e, deste modo, a luz do Sol não
chega na Terra proporcionando um escurecimento que permite ao observador que se
encontra na Terra fotografar o céu com o uso de um telescópio e observar
estrelas que se encontram quase que atras do Sol, em sua beirada, não sendo
estas antes vistas em virtude da forte luz do Sol. A luz destas estrelas sofre
influência da massa do Sol antes de chegar a Terra, massa esta que proporciona
a curvatura do tempo / espaço e permite uma alteração de percurso na direção da
luz. Ao comparar as fotografias tiradas durante o eclipse total do Sol com
outras fotografias tiradas da mesma região do espaço quando o Sol se encontra
em outra posição, verificamos uma leve mudança na sua posição aparente, já que
quando o Sol se encontra em outra região, tais estrelas não sofrem a mesma
deformação decorrente de sua enorme massa que curva o espaço / tempo.
Na relatividade
geral, Einstein elevou a descrição a um novo patamar ao tratar a aceleração
como invariante (em contraste com Newton, que considerava o tempo absoluto e
invariável). Espaço e tempo deixam de ser absolutos e independentes na nova
teoria apresentada por Einstein em contraposição a teoria anterior de Newton.
Espaço e tempo mesclam-se em uma entidade única (o espaço-tempo) que se curva
na presença de massa e energia, como uma teia elástica deformada por um objeto
pesado. A gravidade não é mais uma força misteriosa, mas a geometria curvada
desse espaço-tempo.
Para entender
melhor esta questão, que envolve o pensamento desenvolvido por Galileu Galilei,
Isaac Newton e Albert Einstein, preciso explicar algo antes, algo básico na
física e que nos ajudará a entender tudo isto. Uma das equações mais
fundamentais da física clássica relaciona três grandezas essenciais do
movimento: a velocidade média (v), a distância percorrida (d) e o tempo gasto
(t). Sua forma mais simples é expressa por v = d / t, ou seja, a velocidade
média de um móvel corresponde à distância total percorrida dividida pelo tempo
total de percurso. Embora o conceito de velocidade seja intuitivo e tenha
raízes em observações antigas de astrônomos e filósofos gregos como
Aristóteles, e tenha sido refinado por pensadores como Galileu Galilei no
estudo do movimento uniformemente acelerado, essa relação algébrica básica
tornou-se instrumento essencial na mecânica. Sua grande utilidade reside na
possibilidade de resolver qualquer uma das três variáveis quando se conhecem as
outras duas. Assim, conhecendo a distância (d) e o tempo (t), calcula-se a
velocidade pela fórmula v = d / t. Possuindo a velocidade (v) e o tempo (t),
obtém-se a distância através de d = v × t. Por fim, sabendo a velocidade (v) e
a distância (d), determina-se o tempo por t = d / v. Essa interconexão
demonstra como, a partir de apenas dois elementos conhecidos, é possível
determinar com precisão o terceiro, constituindo uma ferramenta elementar,
porém poderosa, para a compreensão e a análise do movimento dos corpos.
Um exemplo
clássico para entendermos a atuação real da teoria de Einstein é o paradoxo dos
gêmeos (ou dos dois bebês). Imagine dois irmãos idênticos e recém nascidos, um
é posto em uma nave espacial que viaja próximo a velocidade da luz e outro fica
na Terra, ao final de 10 anos medidos na Terra, o irmão que aqui ficou teria
quase 17 anos de idade, mas o que viajou teria apenas 10 anos (claro que é um
exemplo com idades aproximadas, já que a idade final dependerá da velocidade da
nave).Ao
retornar a nave, o viajante será mais jovem que o irmão que ficou na Terra, eis
o paradoxo.
O tempo flui de
modo diferente conforme a velocidade e a aceleração. Para o observador em
movimento acelerado, o tempo passa mais devagar. Mas para quem está abordo da
nave o tempo passa normalmente. Interessante notar que nada com massa pode
atingir a velocidade da luz, pois, conforme a aceleração aumenta, a massa
relativística também cresce e, deste modo, exige energia infinita para alcançar
a velocidade da luz, já por sua vez, o objeto sofre contração de Lorentz no
sentido do movimento, aparecendo menor para um observador externo, no sentido
de seu movimento. Apenas partículas sem massa de repouso, como fótons, viajam
exatamente à velocidade da luz, que permanece constante para qualquer
observador. A velocidade da luz é uma constante de 300 mil Km/s e como tal não
varia em qualquer condição, quem varia é a distância e o tempo.
Essa
relatividade do movimento evoca, mas supera, o famoso exemplo de Galileu,
quando dentro de um navio em movimento uniforme, os fenômenos internos (queda
de objetos, voo de aves, movimento de pessoas ou coisas) parecem idênticos aos
de um navio parado. Podemos, portanto, pensar em um experimento já feito por
Galileu. Imagine uma pedra azul largada da mão de alguém que está dentro de um
barco navegando em velocidade constante e linha reta (velocidade inercial),
para o observador dentro do barco a pedra azul cai em linha reta, mas para o
observador na praia, é somado o movimento do barco, logo, a pedra azul cai em
perpendicular na direção do movimento do barco.Uma taça que cai de uma mesa e se
quebra no chão do navio irá parecer um movimento em ângulo reto para um
observador dentro do navio, mas já para um observador fora do navio teremos um
ângulo maior, já que o observador externo irá somar a queda do objeto com a
velocidade do navio em determinada direção.
Einstein estende
o princípio a referenciais acelerados e a velocidades extremas, revelando que
as leis da física são universais, mas as medidas de espaço e tempo são
relativas. Para Einstein, se imaginarmos que este barco esteja próximo da
velocidade da luz, sendo a luz uma constante, sua velocidade não varia e
continua sempre sendo a mesma, no entanto, para o observador na Terra, o objeto
deixado cair o fará em uma perpendicular, como em um triângulo retângulo. Neste
caso, a hipotenusa, entendida como a distância percorrida pelo objeto até cair
no chão, terá uma distância maior e se algo percorre a mesma velocidade uma
distância maior, então o tempo aumenta para percorrer este mesmo percurso,
logo, temos a dilatação do tempo prevista na teoria de Einstein. Fazendo uso do
teorema de Pitágoras e da ideia do triângulo retângulo, pode-se calcular
exatamente a diferença de tempo a partir da hipotenusa.
Por fim, cabe
uma nota crítica sobre teses que questionam a integridade de Einstein, como as
defendidas por Olavo de Carvalho, que o acusava de fraude ou plágio em relação
a Poincaré e Lorentz. Tais visões, embora expressem ceticismo legítimo em
relação a narrativas heroicas, não resistem ao exame histórico rigoroso. Einstein,
em verdade, reconheceu contribuições anteriores, como as de Lorentz, Poincaré e
Minkowski, mas integrou-as em um quadro conceitual novo, com postulados claros
e derivações originais que previram fenômenos confirmados experimentalmente. Acusações
de fraude ignoram o processo coletivo da ciência e o impacto verificável de
suas equações, que continuam a ser testadas e corroboradas até hoje. Uma
abordagem crítica produtiva examina as limitações reais da teoria, como a
dificuldade em unificar com a mecânica quântica.
É inegável que
nos quatro trabalhos que marcam o ano milagroso não temos referências diretas a
antecessores em uma bibliografia específica, mas isto era algo normal e aceito
na época em que o artigo foi publicado, prática comum a outros autores. As
coisas mudam de acordo com o tempo histórico e claro está que o mesmo artigo
escrito daquela forma não seria aceito hoje em dia por prestigiosas publicações
científicas e o autor teria de adaptar o mesmo ao modelo hoje aceito. Apesar de
haver antecedentes e outros cientistas trabalhando questões semelhantes, o
modelo empregado ainda era pautado em uma base proposta por Newton, era uma
outra forma de fazer física, que Einstein veio realmente a revolucionar ao
propor um entendimento totalmente diferente dos que estavam já ali debruçados
sobre este e outros problemas correlatos. Um dos problemas deixados por Newton
sem solução era o que é a força da gravidade e porque esta puxava ao invés de
empurrar, havendo uma atração misteriosa e inexplicável no tocante ao modo de
atuação desta força no objeto correspondente a sua atração, ora, ao tornar a
aceleração constante e o tempo / espaço unificados como uma teia, sendo ambos
variáveis, Einstein propõe uma Solução para este problema, retirando a
dificuldade de alguma força invisível atuando sobre objetos para puxá-los em
determinada direção.
3– Palavras
finais
A importância de
Albert Einstein ultrapassa o extraordinário conjunto de descobertas que
revolucionaram a física durante o século XX. Sua obra exerceu profunda
influência sobre a filosofia da ciência ao demonstrar que conceitos
fundamentais, como espaço, tempo, simultaneidade e gravidade, não constituem
verdades absolutas, mas construções teóricas cuja validade depende de sua
capacidade de explicar a experiência. Embora reconhecesse o papel indispensável
da experimentação, Einstein compreendia que as grandes teorias científicas
nascem da criatividade intelectual, sendo os conceitos científicos invenções do
pensamento destinadas a interpretar o mundo, e não simples reflexos imediatos
da realidade.
Ao longo de sua
vida, manteve intenso diálogo com a tradição filosófica, especialmente com
David Hume, Immanuel Kant e Ernst Mach, cujas reflexões influenciaram sua
formação intelectual, ainda que posteriormente tenha se afastado de algumas de
suas conclusões. Também se tornou protagonista de um dos debates mais
importantes da filosofia da ciência no século XX ao discordar da interpretação
probabilística da mecânica quântica defendida por Niels Bohr. Sua célebre
afirmação de que "Deus não joga dados com o universo" sintetiza sua
convicção de que a natureza deveria possuir uma ordem racional profunda, ainda
não completamente compreendida. Embora o desenvolvimento posterior da física
tenha fortalecido muitas interpretações probabilísticas da mecânica quântica,
os questionamentos levantados por Einstein continuam presentes nas discussões
contemporâneas acerca dos fundamentos da realidade física.
Seu legado
ultrapassa igualmente a ciência. Einstein tornou-se símbolo da liberdade
intelectual, da independência de pensamento e da responsabilidade ética do
pesquisador diante das consequências sociais do conhecimento científico. Sua
influência alcança áreas tão diversas quanto a cosmologia, a filosofia da
física, a epistemologia, a tecnologia contemporânea e até mesmo a cultura
popular, fazendo de seu nome um dos mais conhecidos da história. Poucos
pensadores conseguiram transformar tão profundamente a compreensão humana do universo.
Mais do que formular novas equações, Einstein alterou a própria maneira pela
qual o humano passou a conceber a realidade, consolidando-se como uma das
figuras intelectuais mais importantes de toda a contemporaneidade.
4- Algumas das
principais obras de Albert Einstein
1 - Über einen die Erzeugung und Verwandlung des
Lichtes betreffenden heuristischen Gesichtspunkt. Título em
português: Sobre um ponto de vista heurístico acerca da produção e
transformação da luz. Data da primeira publicação: 1905 (publicado em 9 de
junho no Annalen der Physik).
Neste artigo
pioneiro, Einstein propõe que a luz se comporta não apenas como onda, mas
também como pacotes discretos de energia (quanta). Ao explicar o efeito
fotoelétrico, ele demonstrou que a energia luminosa é absorvida ou emitida em
porções definidas, dependendo da frequência, o que resolveu discrepâncias
experimentais e lançou as bases da teoria quântica, contribuindo decisivamente
para o Prêmio Nobel de Física que receberia em 1921.
2 - Über die von der molekularkinetischen Theorie der
Wärme geforderte Bewegung von in ruhenden Flüssigkeiten suspendierten Teilchen.
Título
em português: Sobre o movimento de partículas suspensas em líquidos em repouso,
exigido pela teoria cinético-molecular do calor. Data da primeira publicação:
1905 (publicado em 18 de julho no Annalen der Physik)
Einstein
analisou o movimento browniano, o deslocamento aleatório de partículas
microscópicas em fluidos, fornecendo uma explicação teórica baseada na
existência de átomos e moléculas. Usando estatística, ele calculou dimensões
moleculares e o número de Avogadro, oferecendo uma das primeiras provas
empíricas convincentes da teoria atômica, fortalecendo a física estatística e
conectando observações microscópicas à macroscópica.
3 - Zur
Elektrodynamik bewegter Körper. Título em português: Sobre a eletrodinâmica dos
corpos em movimento. Data da primeira publicação: 1905 (publicado em 26 de
setembro no Annalen der Physik).
Este é o artigo
fundador da teoria da relatividade especial. Einstein reconciliou as equações
de Maxwell com a mecânica clássica ao postular que as leis da física são as
mesmas em todos os referenciais inerciais e que a velocidade da luz no vácuo é
constante. Isso levou à contração de comprimentos, dilatação temporal e à
relatividade da simultaneidade, revolucionando conceitos de espaço e tempo,
eliminando a necessidade do éter luminífero.
4 - Ist die
Trägheit eines Körpers von seinem Energieinhalt abhängig? Título em português:
A inércia de um corpo depende de seu conteúdo de energia? Data da primeira
publicação: 1905 (publicado em 21 de novembro no Annalen der Physik)
Como extensão da
relatividade especial, Einstein deriva a equivalência massa-energia, expressa
na famosa equação E = mc². Demonstra que a massa de um corpo está relacionada à
sua energia interna, abrindo caminho para a compreensão da energia nuclear, das
reações de fusão nas estrelas e para tecnologias que liberam quantidades
enormes de energia a partir de pequenas massas.
5 - Die Grundlage der allgemeinen Relativitätstheorie.
Título
em português: Os fundamentos da teoria da relatividade geral. Data da primeira
publicação: 1916 (publicado no Annalen der Physik).
Nesta obra
monumental, Einstein expande a relatividade para referenciais acelerados,
incorporando a gravitação como curvatura do espaço-tempo causada pela massa e
energia. Usando geometria não-euclidiana (tensores de Riemann), ele reformula a
lei da gravidade, prevendo fenômenos como o desvio da luz por campos
gravitacionais, a precessão do periélio de Mercúrio e ondas gravitacionais, consolidando
uma nova visão cosmológica do universo.
6 - Über die spezielle und die allgemeine
Relativitätstheorie (Gemeinverständlich). Título em português: Sobre a teoria da
relatividade especial e geral (Exposição acessível). Data da primeira
publicação: 1917 (livro popular; edições subsequentes ampliadas). Algumas
fontes secundárias mencionam 1916, porque Einstein finalizou o manuscrito ou
fez referências preliminares nesse ano, mas a primeira publicação efetiva (data
oficial da edição) é de 1917.
Escrito para o
público leigo, Einstein explica de forma clara e sem equações complexas os
princípios da relatividade especial e geral. Aborda conceitos como
simultaneidade, curvatura do espaço e implicações filosóficas, tornando
acessíveis ideias revolucionárias e ampliando o alcance de suas teorias para
além da comunidade científica.
7 - The Evolution of Physics (com Leopold Infeld). Título em
português: A evolução da física. Data da primeira publicação: 1938.
Neste livro
colaborativo, Einstein e Infeld traçam a história da física desde os conceitos
mecânicos de Galileu e Newton até as teorias relativísticas e quânticas
contemporâneas. Com linguagem acessível, discutem as transformações
conceituais, os desafios da unificação das forças e as limitações do
conhecimento humano, incentivando uma visão crítica e contínua do progresso
científico.