Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

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sábado, 31 de outubro de 2026

Albert Camus: o Absurdo, a Revolta e a Busca por uma Vida com Sentido Sua Vida e Pensamento

 

« Au milieu de l'hiver, j'apprenais enfin qu'il y avait en moi un été invincible. »

“No meio do inverno, eu finalmente aprendia que havia em mim um verão invencível.”

Albert Camus, “Retour à Tipasa”, in L’Été (O verão), 1954.

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Albert Camus

 

Poucos escritores do século XX conseguiram transformar questões filosóficas tão profundas em uma obra literária tão acessível e poderosa quanto Albert Camus. O absurdo da existência, a possibilidade do suicídio, a revolta contra a injustiça, a liberdade, a responsabilidade e a busca por uma maneira digna de viver atravessam seus romances, ensaios, peças de teatro e textos jornalísticos. Camus viveu em uma época marcada por guerras, totalitarismos, violência política e crises profundas de valores, e sua obra nasceu desse confronto entre a necessidade humana de encontrar sentido e um mundo que nem sempre oferece respostas.

Mas reduzir Camus ao “filósofo do absurdo” é deixar de fora justamente uma das partes mais importantes de seu pensamento. O absurdo é, para ele, um ponto de partida, não uma conclusão. A questão decisiva é saber o que fazer depois de reconhecer que não existem garantias últimas capazes de dar sentido à existência. É nesse momento que aparecem a revolta, a liberdade, a solidariedade, a defesa de limites para a ação humana e, finalmente, uma afirmação da própria vida. Conhecer Albert Camus é acompanhar esse percurso: aprender a olhar de frente para o absurdo sem transformar essa lucidez em desespero.

 

1- Vida

 

Albert Camus (1913-1960), de origem franco-argelina, nasceu em 7 de novembro de 1913 em Mondovi (hoje denominada Dréan), na costa da Argélia francesa e morreu, então com 46 anos de idade, em 4 de janeiro de 1960, perto de Villeblevin, França em virtude de um gravíssimo acidente de carro. Voltava então de Lourmarin para Paris no carro dirigido por seu amigo e editor Michel Gallimard, quando sofreu o acidente fatal. No porta-malas do veículo encontrava-se o manuscrito de Le Premier Homme.

O acidente que vitimou Camus de modo fatal gera polêmica, pois, após décadas de sua morte, aventou-se a possibilidade de não ter sido um acidente e sim um assassinato a mando de altas autoridades da URSS em virtude das opiniões expressas pelo autor. Eram no total cinco os integrantes do veículo: Michel Gallimard, proprietário e motorista do veículo, também amigo e editor de Camus. No impacto foi ferido gravemente, internado em hospital e falece cinco dias depois do acidente. Albert Camus, que viajava no banco dianteiro do carona  morreu no momento do acidente em decorrência de múltiplos traumas no pescoço e coluna. Janine Gallimard, esposa de Michel Gallimard e Anne Gallimard, então com 18 anos de idade, filha de um relacionamento anterior de Michel, e enteada de Janine. Ambas as mulheres sobreviveram com ferimentos leves e viajavam no banco traseiro. Floc, cão da raça Skye Terrier pertencente a família Gallimard que desapareceu após o impacto e nunca mais foi encontrado. A mulher (Francine Faure) e os dois filhos de Camus (Jean e Catherine) seguiram de trem para Paris no dia anterior.


 

A tese (que começa a ganhar vulto entre 2011 e 2019) de assassinato pela KGB da URSS a mando de Dmitri Shepilov (Ministro dos Negócios Estrangeiros da URSS, entre 1956 e 1957), surge nos diários do poeta e tradutor tcheco Jan Zábrana (Celý život, que significa "Toda a Vida", é o título original da obra publicada a partir de seus diários e cadernos pessoais) e com a publicação do livro “A Morte de Camus”, do acadêmico italiano Giovanni Catelli. As datas de 2011, 2013 e 2019 referem-se ao momento em que o caso veio à tona para o grande público global através da pesquisa do italiano Giovanni Catelli. A cronologia é a seguinte, o poeta Jan Zábrana falece em 1984, aos 53 anos, sem jamais ter tornado públicas essas anotações. Somente após a queda do regime comunista (a Revolução de Veludo em 1989), a viúva de Zábrana organizou e publicou os diários do marido em 1992, sob o título Celý život (Toda uma Vida). O trecho sobre Camus estava lá, mas passou despercebido pela imprensa internacional. O escritor e acadêmico italiano Giovanni Catelli, ao ler a edição tcheca, descobriu a anotação de Zábrana sobre a KGB. Catelli publicou essa descoberta no jornal italiano Corriere della Sera em 2011. Foi nesse ano que a teoria explodiu na mídia global. Depois veio o livro italiano “Camus deve morire”, também de Catelli, em 2013. Após quase uma década aprofundando a investigação e reunindo novos testemunhos (como o do advogado e escritor Jacques Vergès), Catelli lançou o livro “La fine di Camus” (A morte de Camus), publicado na versão ampliada na França em 2019 (e traduzido para vários idiomas nos anos seguintes).

No entanto, apesar desta nova tese, vale ressaltar que, para a maioria dos biógrafos e historiadores acadêmicos de Camus (como Olivier Todd e Michel Onfray), a tese de conspiração do KGB permanece uma hipótese controversa e não comprovada, mantendo-se a versão oficial do acidente automobilístico por falha mecânica/pista molhada.

Camus é filho de Lucien Auguste Camus (1885-1914) e Catherine Hélène Sintès (1882-1960), ambos nascidos na Argélia, sendo a família de sua mãe de origem minorquina (espanhola). Com a morte do pai em 1914, durante uma batalha no transcorrer da primeira guerra mundial, sua mãe mudou para Argel, vindo a morar na casa da avó materna, localizada no bairro operário de Belcourt, onde Camus cresceu e passou sua infância em condições de pobreza material e de silêncio afetivo. Ali passaram a morar Camus, seu irmão mais velho, Lucien, sua mãe, sua avó materna e um tio. A família vivia em condições simples, para não dizer na pobreza. A mãe de Camus era analfabeta, parcialmente surda e com dificuldades de fala, passou a sustentar a família como empregada doméstica. A figura da mãe se mostrava como silenciosa, resignada, mas presente, somada a ausência do pai, tornaram-se os eixos permanentes de sua imaginação e de sua obra futura.

É lugar comum entre os comentadores da vida de Camus falar sobre a sua infância em Belcourt e como esta foi marcada pelo contraste entre a miséria cotidiana e a intensidade da luz, do mar e do sol mediterrâneos.

Fato interessante e curioso é que sua família se opunha a que Camus seguisse nos estudos, preferindo que este fosse trabalhar com seu tio, fabricando barris e tonéis, o que ajudaria financeiramente a família a mitigar sua condição de pobreza, enquanto que a longa permanência nos estudos afastaria Camus de poder contribuir para o sustento da família.

Seu professor, Louis Germain (1884-1966 - professor da escola primária) foi o primeiro a interceder a favor da continuidade dos estudos de Camus, reconhecendo seu talento e o incentivando a prestar o exame de bolsa para o liceu. Sem essa intervenção, Camus provavelmente não teria tido acesso à educação secundária. Na sequência, na época em que este estudava no que hoje no Brasil chamamos de ensino médio, tivemos Jean Grenier (1898-1971), que o conseguiu atuar para lhe impedir de largar os estudos nesta época. Incentivado por seus professores, se dedicou a concluir seus estudos. Na Universidade de Argel, estudou filosofia e, em 1936, obteve o Diplôme d’études supérieures com o trabalho Métaphysique chrétienne et néoplatonisme: Plotin et Saint Augustin, dedicado à relação entre o pensamento de Plotino e o cristianismo de Agostinho de Hipona.

No Liceu de Argel, destacou-se e, sob a influência do professor de filosofia Jean Grenier, começou a ler os autores que o marcaram: Nietzsche, Dostoiévski, os pré-socráticos, André Gide, Molière e os moralistas franceses. Na Universidade de Argel, estudou filosofia e, em 1936, defendeu a dissertação Métaphysique chrétienne et néoplatonisme. Participou ativamente da vida cultural da cidade: fundou o Théâtre du Travail (depois Théâtre de l’Équipe), escreveu e encenou peças. Nesse mesmo período publicou seus primeiros livros de ensaios: L’Envers et l’Endroit (1937) e Noces (1939), textos ainda fortemente ligados à experiência argelina e à celebração da vida sensível.

Durante um período breve de sua vida esteve filiado ao partido comunista francês, tendo saído por divergências em relação à questão árabe e à disciplina partidária. Camus filiou-se ao Partido Comunista Francês (PCF) em Argel em 1935. O Partido Comunista Argelino foi formalmente constituído em 1936 como uma ramificação/secessão do PCF. Camus participou do partido comunista argeliano e do francês, mas não teve duas filiações separadas; tratou-se do mesmo engajamento inicial (1935-1937).

Desde cedo contraiu tuberculose, alguns comentaristas datam dos 17 anos de idade, doença que o acompanhou no transcorrer de sua vida, limitando seu esforço físico e algumas de suas escolhas, como, por exemplo, de atuar como jogador de futebol (goleiro) ou professor. Ele foi diagnosticado com tuberculose no pulmão direito, doença ainda sem cura e que acabava inevitavelmente levando mais cedo ou mais tarde à morte do paciente. A doença o afastou temporariamente dos estudos e o colocou, de modo definitivo, diante da proximidade da morte. A tuberculose o acompanhou pelo resto da vida, em crises recorrentes, e tornou-se uma das experiências fundadoras de sua reflexão sobre o absurdo e a intensidade da existência. Apesar disto, é comum sua imagem sempre vinculada a prática de fumar cigarros de modo constante.

Escritor, filósofo e jornalista. Escreveu ensaios, artigos, peças para o teatro e romances, explorando como tema central o absurdo da condição humana e a revolta diante disto. De sua obra se destacam seus dois romances: O estrangeiro, 1942; A peste, 1947. Em prosa cabe destacar o importantíssimo “O mito de Sísifo”, 1942. Sua obra atravessa temas como a condição humana, a morte, o absurdo, a revolta, a liberdade, a justiça, a solidariedade e a relação entre o ser humano e o mundo sensível.

No ano de 1938 participou da fundação do jornal Alger Républicain, também atuou como editor do jornal Combat e do jornal Paris-Soir. Temos, também, sua participação na resistência francesa, no transcorrer da segunda guerra mundial.

No decorrer de sua vida assumiu uma postura contrária aos totalitarismos políticos, fosse o fascismo, nazismo ou comunismo de Stalin. Manteve uma postura crítica tanto a URSS quanto ao Partido Comunista Francês - PCA, o que o colocou em marcha de colisão com outros intelectuais franceses, dentre os quais Sartre. Na questão da Argélia, buscou uma solução negociada entre a colônia (Argélia) e a metrópole (França), mas pouco conseguiu de fato intervir contra a violência de ambas as partes diante do conflito (1954-1962) que acabou resultando na independência definitiva da Argélia.

Pouco depois, a guerra e a ocupação alemã o levaram a Paris, onde trabalhou como redator em Paris-Soir. Em 1942 publicou L’Étranger e Le Mythe de Sisyphe, obras que o projetaram no cenário literário e filosófico. Isolado da Argélia pelo desembarque aliado no Norte da África, engajou-se na “Resistência francesa” sob o pseudônimo de Beauchard e tornou-se redator e depois redator-chefe do jornal clandestino Combat. Após a Libertação, Combat passou a circular legalmente e Camus adquiriu uma posição de destaque público.

Casou-se duas vezes. Em 1934 casou-se com Simone Hié (1914-1970), uma jovem de Argel dependente de morfina; o casamento durou pouco e terminou em 1940 (a separação de fato ocorre por volta de 1936–37; já o divórcio formal em 20 de fevereiro de 1940), após traições mútuas. Ainda em 1940 casou-se com Francine Faure (1914-1979), pianista e professora de matemática originária de Orã, com quem tem dois filhos (gêmeos), nascidos em 5 de setembro de 1945: Catherine Camus, que dedicou grande parte da vida à gestão e preservação do acervo literário do pai; Jean Camus, que seguiu uma carreira mais reservada, trabalhando como advogado. Já com Simone Hié, seu primeiro casamento, Camus não teve filhos. A relação com Francine foi marcada por crises, inclusive por episódios de depressão grave da esposa, relacionados, em parte, às infidelidades do marido. Também em 1945, iniciou o relacionamento intenso e duradouro com a atriz espanhola Maria Casarès (1922-1996), que se estendeu, com interrupções, até sua morte.

Além dos dois casamentos, Camus teve vários relacionamentos amorosos sexuais com amantes fora dos seus dois casamentos e a par com os mesmos. Eram mulheres famosas, belas e artistas que acabou proporcionando uma vida amorosa muito intensa, turbulenta, não monogâmica e que por vezes fazia Camus precisar registrar em um cronograma minucioso a gestão simultânea destes relacionamentos, para conseguir dividir seu tempo com todas, inclusive a esposa. Dentre as principais amantes de Camus, cabe citar: Maria Casares (Filha de um ex-primeiro-ministro espanhol no exílio e uma das maiores atrizes do teatro e cinema francês da época); Catherine Sellers (Atriz britânica naturalizada francesa que estrelou peças adaptadas por Camus na década de 1950); Mi (Mette Ivers) (pintora e ilustradora francesa de origem dinamarquesa). Wanda Kosakiewicz (Atriz do grupo de teatro de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir).

Entre julho e agosto de 1949 esteve no Brasil (visitando Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador e Porto Alegre) e foi até Iguape (saída de São Paulo dia 5 e ficando até 7 de agosto), onde conheceu a festa do Senhor Bom Jesus de Iguape. Apaixonado desde cedo pelo futebol, ficou positivamente impressionado pela paixão dos brasileiros por este esporte, quando aqui esteve. Algumas de suas falas posteriores a esta visita soaram um tanto quanto preconceituosas e eurocêntricas. A viagem inteira à América do Sul (Brasil, Chile, Uruguai, Argentina) foi entre junho e agosto.

Em 1957, aos 44 anos, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura “pela importante produção literária que, com clareza de visão, ilumina os problemas da consciência humana em nossa época”. O prêmio o surpreendeu e o constrangeu; declarou que preferiria tê-lo visto atribuído a André Malraux. Camus dedicou o discurso do Nobel ao antigo professor Louis Germain e no próprio “Discours de Suède” traz “À M. Louis Germain”. Nos últimos anos comprou uma casa em Lourmarin, na Provença, e dedicou-se à escrita de Le Premier Homme, romance autobiográfico que ficou inacabado.

A publicação de La Peste (1947) consolidou sua reputação internacional. A amizade com Jean-Paul Sartre, iniciada nos anos da ocupação, rompeu-se de forma pública e definitiva em 1952, após a publicação de L’Homme révolté (1951) e a crítica severa aparecida nas páginas de Les temps modernes. A divergência era filosófica e política: Camus rejeitava o uso da violência revolucionária e o apoio ao stalinismo, enquanto Sartre se aproximava do Partido Comunista e justificava certos meios em nome da História. Durante a guerra da Argélia, Camus adotou uma posição intermediária e impopular: condenava tanto a repressão colonial quanto o terrorismo do FLN, defendia uma Argélia plural e a proteção das minorias (incluindo os pieds-noirs), e recusou-se a alinhar-se plenamente a qualquer dos campos. Essa postura lhe valeu críticas de ambos os lados e o isolamento de grande parte da esquerda intelectual francesa.

Interessante sua história com Sartre, a quem conheceu em Paris no ano de 1943 após a publicação de seu livro “O estrangeiro”, 1942, que recebera uma crítica elogiosa de Sartre, e com quem manteve laços de amizade até o ano de 1952, quando a publicação de outro livro, “O homem revoltado”, no qual fazia críticas ao regime de governo então em vigor na URSS e apoiado por Sartre e outros intelectuais franceses, levou ao rompimento da amizade. Um livro começa a amizade e outro a termina. O relacionamento começou a se deteriorar diante das divergências filosóficas e políticas que se aprofundaram no contexto da Guerra Fria. Em 1952, uma crítica de Francis Jeanson a “O homem revoltado”, publicada em “Les temps modernes”, provocou uma resposta de Camus. Sartre interveio pessoalmente na polêmica, em uma carta particularmente dura, e a troca pública marcou o rompimento definitivo entre os dois. A divergência envolvia não apenas a avaliação do comunismo soviético, mas questões sobre revolução, violência, história, liberdade e responsabilidade intelectual.

Politicamente Camus se posicionou contra as ideologias totalitárias (fascismo, nazismo, comunismo), se engajou na resistência francesa e, posteriormente, esteve presente nas discussões sobre a Argélia enquanto ainda colônia francesa, se posicionou de modo a criticar e denunciar os campos de concentração soviéticos (Gulags), condenou o ataques feitos pelos EUA ao Japão com o uso de armamento nuclear (Hiroshima e Nagazaki), foi contrário a prerrogativa dos vetos no Conselho de Segurança da ONU, se posicionou no sentido do absurdo da guerra fria, esteve fortemente engajado na oposição ao governo espanhol de Francisco Franco (1892-1975 – governou a Espanha entre 1936 e 1975). Para Camus, a consciência do absurdo da vida não deve resultar em indiferença mora.

A biografia de Camus é a de um homem marcado desde cedo pela pobreza, pela doença e pela ausência paterna, marcado pelas origens na Argélia, pela luz do sol e pela pobreza da região, engajado na resistência, rompido com as ideologias totalitárias de seu tempo e constantemente tensionado entre a fidelidade à própria origem e a exigência ética de justiça. Sua vida não se separa facilmente de sua obra: a experiência do absurdo, a recusa do suicídio e da resignação, a revolta medida e a busca de uma fraternidade possível são, em larga medida, elaborações de uma existência vivida sob a ameaça permanente da morte e sob a luz intensa do Mediterrâneo de sua terra natal, como vários comentadores não cansam em destacar.

 

2- Ideias

 

A filosofia de Camus é frequentemente denominada “absurdismo”, embora o próprio autor não tenha adotado esse termo para designar seu pensamento nem tenha fundado uma escola filosófica com esse nome. A expressão surgiu posteriormente para caracterizar uma filosofia que tem no absurdo um de seus conceitos centrais. Para Camus, o absurdo nasce do confronto entre a necessidade humana de encontrar sentido, ordem e explicação para a existência e o silêncio de um mundo que não oferece uma resposta definitiva. Mas reconhecer o absurdo não significa concluir que a vida não tem valor ou que nada importa. Ao contrário, Camus procura saber como viver depois dessa descoberta, sem recorrer a falsas certezas, ao suicídio ou a respostas que simplesmente eliminem o problema.

O principal tema desenvolvido na obra de Camus é o absurdo da condição humana e a revolta deste diante do absurdo. Muitos comentaristas o identificam ao “Movimento Existencialista”, isto em virtude dos temas abordados, como, por exemplo, a angústia existencial presente diante do absurdo da vida e a revolta dela resultante, mas o próprio Camus não se considerava um existencialista e chegou a escrever criticando pensadores desta abordagem teórica. No entanto, ele de fato compartilha com os existencialistas várias preocupações: a existência concreta, a morte, a liberdade, a angústia e a ausência de garantias metafísicas.

O pensamento de Albert Camus parte de uma experiência fundamental: o absurdo. Não se trata de uma doutrina elaborada em um sistema fechado, mas de uma descrição rigorosa da condição humana quando confrontada com a ausência de respostas definitivas às suas perguntas mais urgentes e importantes. O absurdo nasce do confronto entre, de um lado, o desejo humano de clareza, de unidade e de sentido e, de outro, o silêncio do mundo. O universo não oferece justificativa última, nem ordem moral garantida, nem finalidade transcendente. Essa dissonância não é uma ideia abstrata: ela se manifesta no cotidiano. Quando alguém pergunta “por que continuo a viver?” e não encontra resposta que não seja provisória; quando a morte de uma pessoa próxima revela a fragilidade de todos os projetos; quando o sol brilha indiferente sobre a injustiça ou o sofrimento, nesses momentos o absurdo se torna concreto. O absurdo surge quando o desejo humano por clareza, unidade e sentido se confronta com um mundo que não oferece uma resposta capaz de satisfazer definitivamente essa exigência.

São características presentes na obra desenvolvida por Camus, a presença de: reflexão sobre a condição humana; valorização das sensações; caráter realista e materialista; absurdo da vida; o humano revoltado; exaltação da natureza; tragicidade; negatividade; ironia.

O absurdo e a revolta, temas presentes na obra do autor, fazem-se mais presentes em “O mito de Sísifo”, no qual teoriza que é justamente da oposição entre a busca por sentido da vida e a falta de respostas claras para questões de fundo existencial, que surge a sensação de absurdo diante da vida. O absurdo é tal que não pode ser explicado meramente pela razão humana. O absurdo não é um enigma que a razão ainda não conseguiu resolver. Ele nasce justamente da constatação de que a exigência humana por uma explicação última encontra um mundo que não oferece essa resposta. Justamente por a vida ser absurda, não é possível falar corretamente em uma providência divina ou em uma moral presente na história. Não se trata aqui de tentar buscar uma explicação para tal e sim de constatar o absurdo da condição humana.

Camus recusa as duas respostas tradicionais à experiência do absurdo. A primeira é o suicídio. Se a vida não tem sentido garantido, por que não interrompê-la? Ele rejeita essa solução porque o suicídio elimina o problema em vez de enfrentá-lo: é uma fuga, não uma resposta. A segunda é o “salto”, seja este o salto religioso (a fé que postula um sentido oculto), seja o salto filosófico (a construção de um sistema que dissolve a contradição). Para Camus, o salto é uma forma de evasão: em vez de permanecer fiel à evidência do absurdo, o indivíduo prefere inventar ou aceitar uma transcendência que o isenta da tensão. Aqui observamos uma crítica endereçada a determinadas respostas de pensadores, como no caso de Kierkegaard, Chestov, Jaspers e Husserl. A atitude legítima, segundo ele, é permanecer no absurdo sem tentar resolvê-lo. É preciso viver com a contradição, sem negá-la.

Dessa lucidez decorrem três consequências práticas que Camus apresenta em “O mito de Sísifo”: a revolta, a liberdade e a paixão. A revolta é a recusa permanente de se resignar ao absurdo. Não se trata de uma revolta que pretende abolir a condição humana, mas de uma afirmação contínua: “eu não aceito o silêncio do mundo como resposta definitiva”. A liberdade surge quando se deixa de esperar um sentido externo; o indivíduo se torna responsável por seus atos sem a justificativa de uma ordem superior. A paixão consiste em viver o maior número possível de experiências com intensidade, não porque a quantidade substitua o sentido, mas porque a consciência lúcida transforma cada instante em valor absoluto. A paixão significa viver intensamente o presente, sem adiar a vida em nome de uma promessa futura ou transcendente. O exemplo de Sísifo ilustra essa posição: condenado a rolar eternamente uma pedra montanha acima, ele encontra a felicidade não na esperança de libertação, mas na consciência plena de seu esforço. “É preciso imaginar Sísifo feliz” significa que a lucidez, mesmo diante do fracasso repetido, pode tornar a existência digna de ser vivida.

O humano vive uma vida absurda e deve aceitar que seja assim, quando falo em “aceitar” não me refiro à resignação e sim a aprendizagem, cabe aprender a conviver com este absurdo mantendo-o sempre diante de si-mesmo e vivendo uma revolta permanente, evitando a tentação de buscar sua solução por meio da fuga. O humano se encontra diante do absurdo e precisa aprender a viver sem negá-lo. O sentido do absurdo está justamente em reconhecê-lo, mas não em consenti-lo. O absurdo não se encontra isolado no humano ou no mundo, mas justamente nesta presença comum a ambos, no contraste que se forma entre o apetite humano por unidade diante da hostilidade mais primitiva presente no mundo que habitamos. Isto faz Camus recusar tanto a solução proposta por ditas filosofias existencialistas, como também o término da vida por escolha voluntária, o suicídio. Camus critica determinadas respostas existencialistas ao absurdo que, em sua interpretação, alguns pensadores propõem na tentativa de escapar da contradição introduzindo uma esperança ou uma transcendência que acaba funcionando como uma solução para aquilo que deveria permanecer sem solução. As filosofias com base no existencialismo buscam uma reconciliação com o absurdo, o que seria um suicídio filosófico, já o suicídio físico busca abolir o absurdo da vida da pessoa abolindo sua própria vida, mas não resolve o absurdo.

Em “O homem revoltado”, 1951, livro que levou a ruptura de Camus com toda a intelectualidade francesa comunista, inclusive Sartre, Camus critica todos os movimentos ditos revolucionários que acabam por transformar a história em um fim em si mesmo e, deste modo, legitimam a violência em nome de ideais políticos ideológicos. O livro provocou uma das mais importantes rupturas da vida intelectual francesa do pós-guerra, especialmente o rompimento público entre Camus e Sartre.

A partir de “O homem revoltado”, Camus amplia a análise da revolta do plano individual para o coletivo e histórico. A revolta metafísica (a recusa do absurdo e da injustiça do mundo) tende a se transformar em revolta histórica. A revolta metafísica nasce da recusa de uma existência marcada pela injustiça, pelo sofrimento e pela condição mortal. O problema surge quando a revolta se converte em revolução total: ao pretender criar um homem novo e uma sociedade definitivamente justa, a revolução justifica o assassinato e o terror em nome do futuro. Camus distingue cuidadosamente a revolta da revolução. A revolta verdadeira afirma um limite, no fundo ela diz: “até aqui, e não além”. Ela reconhece que a dignidade humana não pode ser sacrificada em nome de um fim histórico, por mais elevado que este se apresente. A revolução, ao contrário, quando se torna absoluta, transforma a própria revolta em seu contrário: o assassino se apresenta como juiz, e a justiça se torna pretexto para a opressão. Exemplos históricos abundam (o jacobinismo, o bolchevismo, os totalitarismos do século XX), mas o argumento de Camus não depende de nenhum caso particular: é uma análise da lógica interna da revolta quando ela abandona a medida.

Essa “medida” (mesure) é um conceito central e frequentemente negligenciado. Camus herda de suas origens, do pensamento mediterrâneo e da tradição grega, a ideia de que a excessividade leva à destruição. A revolta legítima é aquela que se mantém dentro de limites: ela luta contra a injustiça sem pretender abolir a condição humana; ela afirma a solidariedade sem exigir a uniformidade; ela busca a liberdade sem sacrificar a vida presente em nome de um paraíso futuro. No plano ético, isso se traduz numa recusa tanto do niilismo quanto do messianismo histórico. Não há absolvição última, mas há responsabilidades concretas. O médico de “A peste” não cura a doença porque acredita num sentido transcendente da epidemia; ele age porque a solidariedade com os que sofrem é a única resposta possível à ausência de sentido. No cotidiano, isso se manifesta quando alguém escolhe ajudar um desconhecido sem esperar recompensa, ou quando se recusa a mentir mesmo sabendo que a mentira seria mais cômoda: a ação não se justifica por uma ordem superior, mas pela afirmação da dignidade compartilhada.

A revolta, portanto, não encontra seu fundamento apenas na oposição individual ao absurdo. A revolta mostra que o ser humano não existe isoladamente. Ela revela que os seres humanos compartilham uma condição comum e, justamente por isso, possuem uma dignidade que não pode ser sacrificada em nome de qualquer projeto histórico.  Quando alguém se revolta contra uma injustiça, não está simplesmente afirmando “eu” contra o mundo; não está apenas defendendo a própria liberdade, está dizendo, implicitamente, que existe algo em nós que merece ser respeitado. É nesse ponto que a revolta deixa de ser apenas negativa e passa a adquirir um fundamento de solidariedade. Revoltar-se contra a opressão significa reconhecer no outro a mesma dignidade que se reivindica para si. É por isso que Camus aproxima a revolta da solidariedade: dizer “não” à opressão implica afirmar, ao mesmo tempo, um valor que compartilhamos com os outros. A revolta estabelece, assim, uma exigência de limite. Se aquele que se revolta passa a considerar legítimo destruir qualquer pessoa em nome de sua causa, ele acaba reproduzindo a mesma lógica contra a qual se levantou. Liberdade, justiça e dignidade precisam permanecer ligadas, porque nenhuma delas pode ser transformada em justificativa para negar as outras.

Essa perspectiva explica por que Camus desconfia tanto das ideologias que prometem uma sociedade perfeita quanto do individualismo que transforma a liberdade em simples ausência de limites. A revolta estabelece um vínculo entre liberdade e responsabilidade: posso resistir à injustiça, mas não posso transformar minha própria revolta em autorização para destruir o outro. Há valores compartilhados que antecedem qualquer projeto político e que devem impor limites à ação. A solidariedade nasce precisamente dessa consciência de que ninguém enfrenta sozinho a condição humana. Por isso, em Camus, a revolta não conduz necessariamente ao ódio: ela pode ser uma forma de dizer não à injustiça justamente porque se afirma um sim à vida, à dignidade e à convivência entre os seres humanos.

Há uma frase marcante na obra de Camus e muito citada, se bem que na maioria das vezes em tradução livre, a frase correta é: "Au milieu de l'hiver, j'apprenais enfin qu'il y avait en moi un été invincible", em francês, que pode ser traduzida para o português como: "No meio do inverno, eu aprendia finalmente que havia em mim um verão invencível". Esta frase se encontra no ensaio “Retour à Tipasa” (Regresso a Tipasa), que foi escrito por Camus no ano de 1952 e incluído no livro de ensaios “L’été” (O verão), publicado em 1954. O contexto se dá ao entendermos ser Tipasa uma cidade no litoral da Argélia, lugar cheio de ruínas do antigo império romano. Além da Argélia ser o berço do nascimento de Camus, este havia visitado Tipasa quando ainda jovem e retornou a ela novamente no ano de 1952. Aqui, “inverno” e “verão” são metáforas com significado filosófico existencial na obra de Camus. O “inverno” nos remete ao absurdo da vida, na qual temos a época contemporânea de Camus duas guerras mundiais e a guerra fria. Neste período da primeira metade do século XX nos deparamos com diversos governos totalitários, com a destruição da Europa e outras partes do mundo. Isto gerou um sentimento de desespero e também uma sensação de absurdo quando diante da vida e tal esteve presente em toda a intelectualidade da época de Camus, caracterizando, inclusive, o surgimento do movimento filosófico “Existencialismo”. Já “verão” nos remete a força vital e a possibilidade de réplica da vida diante dos fatos e contra a destruição. O verão além de ser uma estação do ano, também mostra-se como a luz do sol constantemente presente no mediterrâneo, faz uma referência à beleza da natureza, ao amor pela vida e à dignidade humana. Dentro da filosofia de Camus o “verão” é sempre invencível, já que núcleo de resiliência e paixão pela vida. Mesmo quando tudo parece inverno, ou seja, sem qualquer sentido dentro de uma violência inexplicável pela razão humana, podemos encontrar luz e força no verão, para resistir, criar e também amar. A verdadeira revolta não surge do ódio e sim do amor à vida e é justamente a memória que mantemos do verão que nos concede forças para enfrentar o inverno no qual temos lutas políticas e ideológicas que mascaram e encobrem a verdadeira beleza da vida e do mundo.

Camus nunca pretendeu construir um sistema filosófico fechado. Seu pensamento é deliberadamente incompleto, aberto à experiência e refratário às totalizações. Ele rejeitou o rótulo de existencialista, embora compartilhasse com esse movimento a centralidade da existência concreta. Sua originalidade está em ter mantido, até o fim, a tensão entre a lucidez do absurdo e a exigência de uma ética da solidariedade e da medida. Em um mundo que frequentemente oscila entre a resignação cínica e a paixão revolucionária destrutiva, a posição de Camus continua a interpelar: viver sem ilusão, mas sem se render; revoltar-se sem se tornar algoz; amar a vida mesmo sabendo que ela não oferece garantias. Em Albert Camus temos a presença do absurdo, a recusa do salto de fé teológico ou metafísico, a fidelidade ao "verão invencível" e metaforicamente a dimensão corporal e sensível do Mediterrâneo.

 

3- Palavras finais

 

Chegamos, assim, ao final desse percurso pelo pensamento de Albert Camus, e é hora de retomar a frase que abriu este texto. O verão invencível que Camus descobriu em si mesmo, em meio ao inverno de Tipasa, não é uma metáfora isolada: é a síntese de tudo o que sua vida e sua obra ensinam. Uma pessoa marcada desde cedo pela pobreza, pela tuberculose, pela ausência do pai e pela violência de duas guerras mundiais e de uma guerra colonial encontrou, mesmo assim, razões para afirmar a vida sem recorrer a nenhuma promessa de salvação. Essa é, talvez, a lição mais difícil de Camus: reconhecer o absurdo sem se entregar a ele, e resistir sem se tornar aquilo que se combate.

O mito de Sísifo, texto central dessa filosofia, não se esgota na imagem do herói condenado a rolar eternamente sua pedra. Camus também descreve, ao longo do ensaio, outras figuras que chama de tipos absurdos: “Don Juan”, que multiplica os amores sem se prender a nenhum deles; “o ator”, que vive intensamente cada personagem sabendo que nenhum é definitivo; “o conquistador”, que se lança à ação histórica sem esperar dela uma justificativa última. Estes tipos absurdos são exemplos de vidas que assumem a paixão e a quantidade de experiência sem buscar sentido último. Cada um, a seu modo, ilustra a paixão de que Camus fala: viver o maior número possível de experiências com lucidez, sem transformar a ausência de sentido em desculpa para a indiferença. Sísifo continua sendo o mais célebre desses tipos porque resume, na sua repetição infinita, a condição de qualquer humano que precisa recomeçar todos os dias sem garantia de que o esforço será, ao fim, recompensado.

Há um episódio da vida de Camus que resume, talvez melhor do que qualquer definição abstrata, o que ele entendia por revolta com medida. Em dezembro de 1957, dias depois de receber o Prêmio Nobel, Camus enfrentou em Estocolmo um jovem argelino que o acusava de silêncio diante da guerra de independência. "Entre a justiça e minha mãe, escolho minha mãe" (frase dita durante entrevista coletiva por ocasião do Nobel, não no discurso oficial, mas amplamente associada a ele). Sua resposta, frequentemente citada de forma incompleta e distorcida, não foi uma escolha sentimental da família contra a justiça: Camus lembrava que atentados terroristas atingiam então os bondes de Argel, que sua própria mãe poderia estar em um deles, e que, se a isso chamavam de justiça, ele preferia sua mãe. Não se tratava de negar a justiça, mas de recusar que ela fosse confundida com um terrorismo cego contra inocentes. É exatamente a mesma lógica de "O homem revoltado": toda causa, por mais legítima que pareça, encontra um limite intransponível quando passa a justificar a morte de quem nada tem a ver com ela.

É por isso que Camus continua sendo lido, mais de sessenta anos depois de sua morte. Vivemos, como ele, em um tempo de extremos, de discursos que prometem soluções totais e de violências justificadas por causas supostamente superiores. A obra de Camus não oferece consolo fácil nem sistema fechado; oferece, isso sim, uma disciplina de lucidez: reconhecer o absurdo, recusar tanto o suicídio quanto o salto para falsas certezas, revoltar-se contra a injustiça sem se tornar o algoz que se combate, e guardar, mesmo em meio ao inverno mais rigoroso, a memória de um verão invencível. Essa é, em síntese, a herança que Albert Camus deixou não apenas à filosofia e à literatura do século XX, mas a qualquer pessoa disposta a viver de olhos abertos.

 

4- Algumas das principais obras de Albert Camus

 

1. Título original: L’envers et l’endroit. Título em português: O avesso e o direito. Ano da primeira publicação: 1937.

Coleção de ensaios curtos e fortemente autobiográficos em que Camus revisita a infância pobre em Argel (capital da Argélia), a figura da mãe silenciosa, a avó autoritária e as primeiras percepções de contraste entre beleza e miséria. O texto já revela a tensão entre o amor à vida sensível e a consciência da morte, traço que atravessará toda a sua obra.

2. Título original: Noces. Título em português: Núpcias. Ano da primeira publicação: 1939.

Quatro ensaios líricos ambientados na Argélia (Tipasa, Djémila, Argel e o deserto) que celebram a união intensa entre o corpo e a natureza mediterrânea. Camus exalta o sol, o mar e a sensualidade como afirmação da existência contra qualquer transcendência, esboçando já uma ética da felicidade terrestre.

3. Título original: L’Étranger. Título em português: O estrangeiro. Ano da primeira publicação: 1942.

Romance narrado em primeira pessoa por Meursault, um jovem de Argel que se recusa a fingir emoções que não sente. Após o enterro da mãe e um assassinato sob o sol ofuscante, ele é julgado menos pelo crime do que pela sua indiferença às convenções sociais. A obra cristaliza a experiência do absurdo: a dissonância entre a busca humana de sentido e o silêncio do mundo.

4. Título original: Le mythe de Sisyphe. Título em português: O mito de Sísifo. Ano da primeira publicação: 1942.

Ensaio filosófico que define o absurdo como o encontro entre o desejo humano de clareza e o universo indiferente. Camus analisa o suicídio, a revolta e a liberdade, concluindo que a resposta legítima não é a fuga (física ou metafísica), mas a lucidez que assume a condição absurda e a transforma em intensidade de viver. O mito de Sísifo serve de metáfora central: é preciso imaginar Sísifo feliz.

5. Título original: Caligula. Título em português: Calígula. Ano da primeira publicação: 1944 (escrita iniciada em 1938; estreia teatral em 1945).

Peça em quatro atos que apresenta o imperador romano após a morte da irmã-amante. Calígula descobre a impossibilidade de ser livre e feliz e decide exercer o poder absoluto para forçar os outros a enfrentar a mesma verdade. A peça dramatiza a lógica destrutiva do absurdo levado às últimas consequências.

6. Título original: Le malentendu. Título em português: O mal-entendido. Ano da primeira publicação: 1944.

Drama em três atos ambientado em uma hospedaria de uma região pobre da Europa Central. Uma mãe e uma filha assassinam hóspedes para conseguir dinheiro e partir para um lugar melhor; por um equívoco trágico, matam o próprio filho e irmão que retornara sem se identificar. A peça aprofunda o tema da incomunicação e do absurdo no seio das relações humanas.

7. Título original: Lettres à un ami allemand. Título em português: Cartas a um amigo alemão. Ano da primeira publicação: 1945.

Conjunto de quatro cartas escritas entre 1943 e 1944 e publicadas na França em 1945. Dirigidas a um interlocutor alemão imaginário, as cartas refletem sobre a guerra, a resistência e a diferença entre a força e o direito. Camus procura mostrar que combater o nazismo não significa odiar o povo alemão, mas defender uma concepção de justiça, liberdade e dignidade humana. A obra é importante para compreender sua posição diante da violência política e sua tentativa de estabelecer limites morais mesmo em situações de guerra.

8. Título original: La peste. Título em português: A peste. Ano da primeira publicação: 1947.

Romance ambientado em Orã, na Argélia, durante um surto de peste bubônica. Narrado principalmente pelo médico Bernard Rieux, o livro acompanha diferentes respostas humanas à epidemia: solidariedade, egoísmo, idealismo, religião e resignação. Funciona como alegoria da ocupação nazista e, ao mesmo tempo, como meditação sobre a revolta coletiva e a responsabilidade ética diante do sofrimento, e como uma reflexão mais ampla sobre o sofrimento, a morte, a solidariedade e a responsabilidade humana diante do mal.

9. Título original: L’état de siège. Título em português: O estado de sítio. Ano da primeira publicação: 1948.

Espetáculo teatral em três partes que dramatiza a chegada da peste personificada a uma cidade espanhola. A peça denuncia o totalitarismo e a burocracia que se instalam em nome da ordem, mostrando como o medo e a colaboração tornam possível a opressão.

10. Título original: Les justes. Título em português: Os justos. Ano da primeira publicação: 1950 (estreia teatral em 1949).

Peça em cinco atos baseada no atentado real de 1905 contra o grão-duque Sérgio da Rússia. Um grupo de revolucionários debate os limites éticos do assassinato político: é legítimo matar inocentes em nome de um ideal de justiça? A obra examina a tensão entre pureza moral e eficácia revolucionária.

11. Título original: L’homme révolté. Título em português: O homem revoltado. Ano da primeira publicação: 1951.

Ensaio longo que analisa a revolta metafísica, histórica e artística desde o marquês de Sade até o niilismo contemporâneo e os totalitarismos do século XX. Camus distingue a revolta legítima (que afirma um limite e uma solidariedade) da revolução que, ao pretender criar um homem novo, termina no assassinato em massa. O livro provocou a ruptura pública com Sartre.

12. Título original: L’été. Título em português: O verão. Ano da primeira publicação: 1954.

Coleção de oito ensaios escritos entre 1939 e 1953, em grande parte centrados na Argélia e no Mediterrâneo. Camus retoma a celebração da luz, do mar e da beleza sensível, contrastando-a com o exílio interior e a crise da civilização europeia.

13. Título original: La chute. Título em português: A queda. Ano da primeira publicação: 1956.

Romance monológico em que Jean-Baptiste Clamence, antigo advogado de sucesso em Paris, confessa-se a um interlocutor anônimo em um bar de Amsterdã. Através de uma longa confissão irônica, ele desmascara a hipocrisia da boa consciência burguesa e contemporânea, revelando a culpa universal e a impossibilidade de inocência.

14. Título original: Réflexions sur la guillotine. Título em português: Reflexões sobre a guilhotina. Ano da primeira publicação: 1957.

Ensaio em que Camus desenvolve uma crítica à pena de morte e, particularmente, à execução por guilhotina. Partindo também da experiência pessoal de seu pai diante de uma execução pública, Camus questiona a legitimidade de um Estado que reivindica o direito de matar em nome da justiça. A obra retoma temas centrais de seu pensamento, como a dignidade humana, os limites da violência e a recusa de justificar a morte de uma pessoa em nome de um princípio abstrato ou de uma suposta finalidade social.

15. Título original: L’exil et le royaume. Título em português: O exílio e o reino. Ano da primeira publicação: 1957.

Volume de seis contos que exploram situações de solidão, incomunicação e busca de sentido em diferentes geografias (Argélia, Brasil, Paris, etc.). Cada narrativa apresenta um personagem em exílio (geográfico, social ou existencial) e a possibilidade precária de um “reino” de comunhão ou lucidez.

16. Título original: La mort heureuse. Título em português: A morte feliz. Ano da primeira publicação: 1971 (escrita entre 1936 e 1938; publicação póstuma).

Romance abandonado por Camus, que depois se tornou o material preparatório de “O estrangeiro”. O protagonista Patrice Mersault busca deliberadamente a felicidade, inclusive através de um assassinato, e vive uma existência intensa e sensível até a morte. A obra antecipa temas do absurdo e da recusa de qualquer justificativa transcendental.

17. Título original: Le premier homme. Título em português: O primeiro homem. Ano da primeira publicação: 1994 (manuscrito inacabado encontrado no local do acidente fatal de 1960; publicação póstuma).

Romance autobiográfico incompleto em que Camus reconstitui a infância do menino Jacques Cormery na Argélia colonial, a figura do pai morto na Primeira Guerra e a mãe analfabeta e silenciosa. O texto é uma busca das origens e um tributo à pobreza e à luz mediterrânea que formaram o escritor. O manuscrito encontrado no acidente tinha 144 páginas e permaneceu inédito por décadas até a sua publicação a partir do manuscrito e da primeira transcrição preparada por Francine Camus.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua autoria)

terça-feira, 13 de outubro de 2026

René Guénon: Tradição, Metafísica e a Crise do Mundo Contemporâneo

 

La métaphysique est essentiellement la connaissance de l’Universel.

A metafísica é essencialmente o conhecimento do Universal.

René Guénon. L’Homme et son devenir selon le Vêdânta.

 

C’est sur cette rupture avec la tradition que nous devons encore insister, puisque c’est d’elle qu’est né le monde moderne, dont tous les caractères propres pourraient être résumés en un seul, l’opposition à l’esprit traditionnel.

É sobre essa ruptura com a tradição que devemos ainda insistir, pois foi dela que nasceu o mundo moderno, cujas características próprias poderiam ser resumidas em uma só: a oposição ao espírito tradicional.

René Guénon. La Crise du monde moderne.

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

René Guénon

 

René Guénon foi um dos mais radicais críticos da civilização ocidental do século XX. Sua obra questionou não apenas os valores do mundo contemporâneo, mas também aquilo que considerava os fundamentos intelectuais de sua crise: o racionalismo, o individualismo, o materialismo, a redução da realidade à quantidade e o abandono daquilo que chamava de “Tradição”. Em seu lugar, Guénon defendia uma concepção metafísica segundo a qual, por trás das diferentes tradições religiosas autênticas, existe uma unidade de princípios que o humano contemporâneo teria progressivamente perdido de vista e esquecido.

Mas quem foi René Guénon e por que sua obra continua despertando interesse, controvérsia e influência? Matemático de formação, escritor, estudioso das religiões, do simbolismo e do esoterismo, Guénon percorreu um caminho intelectual singular, que o levou dos meios ocultistas franceses ao estudo das doutrinas orientais e, posteriormente, à adoção do Islã e à vida no Egito. Compreender sua trajetória é importante, porém, sobretudo para compreender suas ideias: a Tradição, a metafísica, a iniciação, o simbolismo, a relação entre Oriente e Ocidente e sua célebre crítica ao chamado “mundo moderno”.

 

1- Vida

 

René Jean-Marie-Joseph Guénon – René Guénon (1886-1951) nasce em Blois, Loir-et-Cher, centro da França, e falece aos 64 anos de idade no Cairo, Egito. Filho de Jean-Baptiste Guénon, um arquiteto, e Anna-Léontine Jolly. Católico Apostólico Romano por parte da família, quando adulto converteu-se ao islamismo (seu nome islâmico: ʿAbd al-Wāḥid Yaḥyā ou, simplificado, Abd Wahd Yahia – servo do único). Francês por nascimento, em 1949 Guénon obteve a cidadania egípcia.

A educação inicial seguiu o padrão rigoroso das instituições religiosas da época. Frequentou escolas católicas, primeiro em Blois e, depois em Paris, onde se transferiu por volta de 1904 para preparar-se para as grandes escolas, com ênfase em matemática e filosofia, visando dar prosseguimentos aos estudos universitários. Neste ano, agora em Paris, ingressou no Colégio Rollin para estudar matemática. A saúde frágil acompanhou-o desde a juventude e o afastou, em parte, de uma carreira acadêmica convencional.


 

Em 1905 começa a se dedicar ao estudo do ocultismo e frequentar grupos que se dedicavam a este estudo. Também se filiou a Maçonaria (1905-1908), e, mais tarde, em 1912, ao Sufismo. Buscando aderir a uma obediência maçônica regular, Guénon passa a ser membro da Thebah Loge da Grande Loge de France, que seguia o Rito Escocês Antigo e Aceito.

Entre 1906 e 1912, Guénon circulou por organizações martinistas, pela Igreja Gnóstica de França (sob o nome Tau Palingenius), por lojas maçônicas e por ambientes próximos à teosofia. No ano de 1908, enquanto participava de um congresso promovido por maçons e espíritas, conheceu o Conde Georges-Albert Puyou de Pouvourville, o Matgioi (1861–1939), considerado na época um dos maiores especialistas em língua chinesa, além de ser bispo da Igreja Gnóstica. Por intermédio do conde Pouvourville, no ano de 1909, René Guénon foi elevado ao posto de bispo da Igreja Gnóstica, assumindo o nome de Palingenius (do grego “renascer”). Foi nesse período que fundou e dirigiu a revista La Gnose (1909-1912), onde já se anunciavam, ainda de forma dispersa, as preocupações que marcariam toda a sua obra. A revista “La Gnose” abordava questões voltadas para o ocultismo, esoterismo, gnose e doutrinas orientais. Também contribuiu com artigos para a revista até o ano de 1922. A experiência nesses meios, porém, foi decisiva precisamente porque lhe mostrou, de dentro, o que ele viria a chamar de “pseudo-tradições” e “contra-iniciações”. O ocultismo europeu da Belle Époque, com suas misturas ecléticas e suas pretensões de renovação espiritual, revelou-se lhe insuficiente e, em muitos casos, algo perigoso.

Foi também nesses anos que ocorreu o encontro decisivo com o hinduísmo. Por volta de 1906-1909, Guénon entrou em contato com representantes da tradição advaita-vedānta, muito provavelmente ligados a uma linha shivaíta. Ele mesmo afirmava, ao longo da vida, que suas certezas metafísicas mais profundas se fundavam nas comunicações recebidas de um mestre hindu do Vedānta. Essa transmissão oral e direta, e não a simples leitura de textos, marcou a viragem. O hinduísmo ofereceu-lhe o que o catolicismo contemporâneo e o ocultismo europeu não conseguiam fornecer: uma metafísica pura, não-dual, centrada no conhecimento do Si (Ātman) e na hierarquia dos estados do ser. A partir daí, o Vedānta tornou-se a medida com a qual Guénon avaliaria todas as outras formas tradicionais. Não se tratava, para ele, de “converter-se” ao hinduísmo no sentido religioso ordinário, mas de reconhecer nele a expressão mais completa e explícita da Tradição primordial. Aliás, diga-se de passagem, ao contrário do Islã e do cristianismo, no qual o fiel pode se converter, a religião hindu traz a necessidade de nascer naquele povo, de forma análoga a religião judaica, isto segundo a visão tradicional e a leitura do próprio Guénon.

Em 1912 casa-se com Berthe Loury. Com o falecimento de sua esposa muda-se para o Cairo, Egito, em 1930 e casa-se novamente em 1934. Em 1912, no mesmo ano em que se casou civil e religiosamente com Berthe Loury, Guénon recebeu a iniciação no islamismo, através do sueco Ivan Aguéli (Abdul Hādi), representante do sheikh egípcio ʿAbd al-Raḥmān ʿIllaysh al-Kabīr, da tarīqa shādhilī. Adotou o nome ʿAbd al-Wāḥid Yaḥyā. Essa adesão não significou, imediatamente, uma ruptura pública com o meio católico nem uma mudança completa de hábitos exteriores. Durante os anos 1910 e 1920, Guénon ainda circulou em ambientes intelectuais franceses, publicou seus primeiros livros, ensinou filosofia em colégios e manteve uma aparência de intelectual católico ou, pelo menos, de homem reconciliado com a ordem religiosa ocidental. O islamismo, no entanto, já se apresentava a ele como a forma tradicional mais acessível e mais completa, em termos iniciáticos, para o homem ocidental do século XX. O hinduísmo permanecia a referência metafísica superior, mas a prática regular e a transmissão iniciática efetiva encontravam no Sufismo um veículo vivo e ortodoxo.

Vale destacar um episódio decisivo para compreender a relação de Guénon com o mundo acadêmico, e que lança luz sobre boa parte de sua obra posterior. Dispensado do serviço militar durante a Primeira Guerra Mundial em razão da saúde frágil, Guénon retomou os estudos de filosofia na Sorbonne e, em 1917, lecionou por um ano em Sétif, na Argélia. De volta a Paris, submeteu à universidade uma tese de doutorado fundamentada no estudo das doutrinas hindus, na esperança de obter reconhecimento acadêmico para sua interpretação metafísica da tradição oriental. A tese, contudo, foi recusada em 1921 pelo indólogo Sylvain Lévi, importante professor da Sorbonne, por não se adequar aos critérios de neutralidade científica e ao método histórico-filológico então dominantes nos estudos orientalistas. Longe de abandonar suas teses, Guénon publicou o texto recusado, ainda em 1921, através de uma editora católica, sob o título “Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindus”, seu primeiro livro. O episódio não é um detalhe biográfico menor: inaugura, de modo concreto, o embate entre Guénon e o orientalismo universitário que atravessaria toda a sua obra, e explica, em parte, por que optou definitivamente por uma via de exposição doutrinária alheia às instituições acadêmicas, ainda que seu pensamento viesse a influenciá-las por vias indiretas, como se verá adiante.

A morte da primeira esposa, em janeiro de 1928, e a subsequente perda da tia que o havia apoiado, precipitaram a ruptura definitiva com a Europa. Em março de 1930, Guénon embarcou para o Cairo com o pretexto de pesquisar e traduzir textos esotéricos islâmicos. Nunca mais voltou. Instalou-se nos bairros tradicionais próximos à mesquita de al-Azhar e à universidade, viveu modestamente, adotou o traje egípcio e a vida de muçulmano praticante. Em 1934 casou-se com Fāṭima, filha do sheikh Muḥammad Ibrāhīm, com quem teve quatro filhos. Tornou-se cidadão egípcio em 1949. Os últimos vinte anos de sua existência foram de discreta permanência no Islã, de correspondência intensa com discípulos e leitores do Ocidente, e de uma produção intelectual que, embora escrita em francês, se alimentava da quietude e da regularidade da vida tradicional muçulmana. Normalmente evitava receber visitas do ocidente, mantendo um certo isolamento em sua vida.

A personalidade que se revela desde cedo em sua vida é a de um espírito austero, reservado, de inteligência aguda e exigente. Guénon não era homem de sociabilidade fácil nem de concessões. Preferia o isolamento intelectual à vida de salão. Sua busca religiosa, no entanto, não se contentou com a formação católica recebida. Embora tenha crescido dentro da Igreja e, em certos momentos da vida adulta, tenha mantido relações cordiais com meios católicos (inclusive correspondências com figuras como Jacques Maritain), o catolicismo de sua juventude e de sua maturidade intermediária parece ter sido mais um ponto de partida cultural do que uma adesão profunda aos grandes mestres medievais da Igreja. Não se encontram em sua trajetória sinais de um estudo prolongado e sistemático de Tomás de Aquino, de Bernardo de Claraval (além do breve ensaio que lhe dedicou) ou da grande escolástica. A Igreja aparecia-lhe, cada vez mais, como uma instituição que havia perdido o vínculo vivo com a dimensão iniciática e metafísica da Tradição. Essa insatisfação foi um dos motivos que o levou, ainda jovem, a explorar os círculos ocultistas de Paris no início do século XX.

A personalidade de Guénon, no período final de sua vida, confirma o traço que já se anunciava na juventude: um homem de extrema reserva, quase austero, pouco dado a confidências pessoais, concentrado na transmissão de princípios e não na construção de uma escola ou de um movimento. Evitava fotografias, recusava o culto à personalidade e insistia em que sua função era apenas a de transmitir, com a maior exatidão possível, o que havia recebido das fontes tradicionais. A busca religiosa que o levou do catolicismo provincial, passando pela crítica dos círculos ocultistas, pelo encontro decisivo com o Vedānta e pela adesão definitiva ao Islã, não foi uma sucessão de “conversões” sentimentais, mas o caminho de alguém que buscava, acima de tudo, a continuidade iniciática e a pureza de um conhecimento mais profundo. No Cairo, esse caminho finalmente encontrou sua forma exterior estável. Guénon morreu em 7 de janeiro de 1951, na capital egípcia, deixando uma obra que, embora escrita em língua ocidental, se pretende apenas o eco de uma tradição que ele considerava universal e supra-histórica, o Islã.

René Guénon atuou como filósofo, matemático e escritor. Ele foi um pensador formado inicialmente em matemática e conhecido principalmente por seus trabalhos nos campos da metafísica e religiões comparadas. Ao longo de sua produção, tratou de temas tão diversos quanto a religião, a filosofia, o simbolismo, a alquimia e o esoterismo, sempre orientado pela busca daquilo que chamava de tradição perene. A importância de seu pensamento e obra não deve ser subestimada, pois, mesmo não mencionada explicitamente, encontra-se presente em grande parte da intelectualidade que trabalha questões semelhantes a que ele mesmo desenvolveu em sua vida.

 

2- Ideias

 

René Guénon entendia que há uma verdadeira metafísica e uma tradição primordial, espiritual e iniciática, sob todas as religiões e tradições filosóficas verdadeiras. Todas estas tradições compartilhariam de uma fonte comum de conhecimento ancestral. Diagnosticava no Ocidente uma perda progressiva do vínculo com os valores tradicionais, e via nas doutrinas antigas um patrimônio de sabedoria a ser resgatado e devidamente compreendido. Situava o ponto de partida dessa decadência ocidental num episódio histórico preciso: a extinção da Ordem dos Templários, consumada em 1314. Guénon realmente atribui grande importância à destruição da Ordem do Templo como marco da perda do esoterismo cristão no Ocidente, mas também fala do fim da Idade Média e do Renascimento.

Sua obra trata de questões esotéricas e espirituais de um modo amplo. Guénon busca investigar as dimensões mais profundas de diversas tradições religiosas. Coube a ele inspirar o estudo comparativo entre tradições religiosas ao mesmo tempo que resgata o interesse pelo esoterismo. Seu estudo hoje perpassa diversos campos, dentre os quais a religião, o esoterismo, a filosofia, a história, a cultura, de modo a atrair estudiosos e se tornar presente ao debate contemporâneo.

O pensamento de René Guénon organiza-se em torno de um núcleo central: a noção de “tradição”, entendida não como costume ou herança histórica, mas como o conjunto de princípios metafísicos de origem supra-humana, transmitidos de forma ininterrupta através das formas tradicionais ortodoxas. Essa Tradição primordial (ou Sophia perennis) é una em sua essência e múltipla em suas expressões. O Oriente, segundo Guénon, preservou-a de modo mais completo e consciente; o Ocidente, a partir de certo ponto da Idade Média e sobretudo após o Renascimento, afastou-se progressivamente dela.

A crítica ao mundo contemporâneo ocupa lugar de destaque. Guénon vê a nossa civilização como a fase terminal de um ciclo cósmico (o Kali-Yuga hindu), caracterizada pela predominância da quantidade sobre a qualidade, pela solidificação e posterior dissolução de todas as formas. O individualismo, o racionalismo, o materialismo e a crença no “progresso” são, para ele, sintomas de uma decadência espiritual profunda. A ciência contemporânea e a filosofia ocidental posterior à Idade Média não passam de conhecimentos limitados ao domínio da individualidade e da manifestação, incapazes de atingir o conhecimento metafísico propriamente dito. Em obras como “A Crise do Mundo Moderno” e “O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos”, essa denúncia é desenvolvida com rigor sistemático.

A metafísica, no sentido guenoniano, não se confunde com a ontologia filosófica ocidental. Trata-se do conhecimento do Infinito, da possibilidade universal e dos estados múltiplos do ser. O estado humano é apenas um entre uma indefinição de estados; a realização metafísica consiste em transcender a individualidade e atingir a identidade com o Si (Ātman no Vedānta). Guénon toma como referência principal o Advaita Vedānta de Śaṅkara, mas insiste que a mesma verdade se encontra, sob formas diferentes, em todas as tradições ortodoxas. As três obras que considera centrais nesse domínio (O Homem e seu Devir segundo o Vedānta, O Simbolismo da Cruz e Os Estados Múltiplos do Ser) formam um conjunto coerente de exposição da doutrina dos estados do ser e da realização espiritual.

A distinção entre esoterismo e exoterismo é outro pilar. Toda tradição autêntica possui uma dimensão exterior (rito, dogma, lei) e uma dimensão interior (conhecimento iniciático e realização metafísica). O esoterismo não é “secreto” no sentido de ocultação arbitrária, mas de acesso reservado àqueles que possuem a qualificação e a filiação iniciática legítima. A iniciação, por sua vez, não é um sentimento ou uma experiência psicológica: é a transmissão efetiva de uma influência espiritual a partir de uma cadeia ininterrupta. Guénon dedica páginas extensas a denunciar as pseudo-iniciações contemporâneas (espiritismo, teosofia, ocultismo eclético) e a esclarecer as condições reais da iniciação verdadeira, especialmente em “Considerações sobre a Iniciação”.

O simbolismo ocupa lugar central. Os símbolos não são alegorias convencionais, mas expressões naturais de realidades superiores. A geometria sagrada, os números, os animais, as plantas, a arquitetura e os mitos tradicionais são lidos como suporte de conhecimento metafísico. Guénon insiste na universalidade dos símbolos fundamentais e na necessidade de restaurar a capacidade de lê-los de modo tradicional, e não psicológico ou historicista.

A hierarquia entre autoridade espiritual e poder temporal é tratada com clareza. Nas sociedades tradicionais, o poder espiritual (brahmânico ou sacerdotal) deve prevalecer sobre o poder temporal (régio ou guerreiro). A inversão dessa relação é um dos sinais mais evidentes da decadência atual. O Ocidente, ao submeter o espiritual ao temporal e depois ao econômico, perdeu a possibilidade de uma restauração a partir de dentro. Daí a importância que Guénon atribui às formas orientais ainda intactas (especialmente o hinduísmo como referência metafísica e o islamismo, em sua dimensão sufi) como veículo iniciático ainda acessível ao ocidental.

Guénon não se apresenta como fundador de uma Escola nem como inovador. Insiste repetidamente que sua função é apenas a de transmitir, com a maior fidelidade possível, o que recebeu de representantes autorizados das tradições orientais. A “filosofia perene” ou “tradicionalismo” que se formou a partir de sua obra é, em grande medida, uma construção posterior de leitores e discípulos. Ele próprio recusou o papel de mestre e evitou qualquer organização formal em torno de sua pessoa.

No que se refere à presença de Guénon no meio acadêmico ocidental, Olavo de Carvalho sustentou, em diversas ocasiões, que ele teria sido o principal introdutor intelectual de uma perspectiva islâmica (ou, mais amplamente, oriental-tradicional) no pensamento ocidental do século XX, e que muitas universidades europeias se aproveitaram de suas ideias sem reconhecê-lo explicitamente. Em particular, Olavo mencionou Mircea Eliade e que haveriam relatos que este recomendava a seus alunos de pós-graduação a leitura de toda a obra de Guénon, mas que nunca deveriam citá-lo explicitamente. Mas isto não se encontra somente em Olavo de Carvalho, a influência de Guénon sobre Eliade é documentada. Há testemunhos contemporâneos (incluindo cartas e depoimentos de figuras próximas, como Mihai Vâlsan) de que Eliade utilizava amplamente as análises simbólicas de Guénon e evitava citá-lo por razões de carreira acadêmica. Julius Evola também se queixou publicamente dessa omissão. Em verdade, o padrão de uso sem citação, contudo, é reconhecido por diversos estudiosos da relação entre os dois autores.

 

3- Palavras finais

 

Ao final desta jornada, é possível reunir os fios que atravessam a vida e a obra de René Guénon em um só argumento: a denúncia da ruptura moderna com a tradição e a proposta de um caminho de retorno através do conhecimento metafísico. Sua trajetória pessoal (do catolicismo provincial de Blois aos círculos ocultistas parisienses, do encontro com o Vedānta à adesão definitiva ao Islã sufi no Cairo) não deve ser lida como uma sucessão de conversões erráticas, mas como a busca coerente, ainda que sinuosa, de uma continuidade iniciática que ele considerava perdida no Ocidente. Dessa busca nasceram os grandes temas que estruturam seu pensamento: a distinção entre metafísica e filosofia profana, a unidade essencial e a multiplicidade formal da Tradição primordial, a crítica ao Kali-Yuga do mundo contemporâneo (quantitativo, individualista, dessacralizado), a hierarquia entre autoridade espiritual e poder temporal, e a leitura tradicional do símbolo como suporte de um conhecimento que a modernidade  racionalista (termo usado por Guénon) se tornou incapaz de decifrar.

A importância de Guénon, contudo, não se esgota no círculo relativamente restrito de seus leitores devotos. Sua influência penetrou, por vias muitas vezes discretas, no próprio mundo acadêmico que ele tanto criticou. O caso de Mircea Eliade (que, segundo testemunhos de discípulos próximos como Mihai Vâlsan e segundo a leitura defendida por Olavo de Carvalho, teria se apropriado de categorias e análises simbólicas guenonianas sem citá-las abertamente) não é um episódio isolado nem apenas uma tese ensaística: o historiador britânico Mark Sedgwick, em seu estudo de referência sobre o Tradicionalismo, “Against the Modern World” (2004), documenta com rigor acadêmico como as ideias de Guénon irrigaram, direta ou indiretamente, o trabalho de figuras como Ananda Coomaraswamy, o próprio Eliade e, já em nossos dias, Seyyed Hossein Nasr (professor de estudos islâmicos e um dos mais respeitados historiadores da filosofia islâmica em atividade no mundo ocidental). Por essa via indireta, mas seguramente identificável, Guénon segue presente nos departamentos de história das religiões, mesmo quando seu nome não figura nas notas de rodapé.

Há ainda um segundo legado, talvez menos comentado, mas igualmente decisivo: coube a Guénon um papel pioneiro na introdução intelectual do Islã, e em particular do sufismo, ao pensamento ocidental do século XX. Antes dele, o Islã era, para a maior parte dos europeus cultos, ou uma curiosidade orientalista de gabinete, ou um objeto de estudo puramente filológico e histórico, despido de qualquer pretensão de verdade metafísica. Guénon, ao contrário, apresentou o Islã, e sobretudo sua dimensão esotérica, como uma via iniciática viva e intelectualmente respeitável, abrindo caminho para gerações posteriores de estudiosos e praticantes ocidentais do sufismo.

Por tudo isso, René Guénon permanece uma referência incontornável, não apenas para quem se interessa por esoterismo, simbolismo ou religiões comparadas, mas para qualquer leitor disposto a levar a sério a pergunta que atravessa toda a sua obra: o que se perdeu, e o que ainda pode ser recuperado, quando uma civilização decide romper com sua própria tradição?

 

4- Algumas das principais obras de René Guénon

 

1- Introduction générale à l’étude des doctrines hindoues. Título traduzido para o português: Introdução geral ao estudo das doutrinas hindus. Data da primeira publicação: 1921 (edição revista em 1952).

Primeiro livro. Expõe o conceito de Tradição (no sentido metafísico e supra-histórico), critica o orientalismo oficial, a “ciência das religiões”, o teosofismo e as interpretações ocidentalizadas do Vedānta. Serve de introdução geral a toda a obra posterior de Guénon.

2- Le Théosophisme, histoire d’une pseudo-religion. Título traduzido para o português: O Teosofismo: história de uma pseudo-religião. Data da primeira publicação: 1921 (edição aumentada em 1928).

Análise histórica e crítica da Sociedade Teosófica (Blavatsky, Leadbeater, Besant etc.). Guénon a classifica como uma contra-tradição e uma falsificação moderna de doutrinas orientais.

3- L’Erreur spirite. Título traduzido para o português: O Erro Espírita. Data da primeira publicação: 1923.

Crítica detalhada do espiritismo (Allan Kardec e variantes). Argumenta que se trata de um fenômeno psíquico inferior e perigoso, sem qualquer relação com a verdadeira comunicação espiritual ou com a metafísica tradicional.

4- Orient et Occident. Título traduzido para o português: Oriente e Ocidente. Data da primeira publicação: 1924 (edição revista em 1948).

Contraste entre a mentalidade tradicional oriental e a mentalidade moderna ocidental. Propõe as condições para uma eventual restauração da elite intelectual no Ocidente e a necessidade de uma abertura real às doutrinas orientais.

5- L’Ésotérisme de Dante. Título traduzido para o português: O Esoterismo de Dante. Data da primeira publicação: 1925 (edição revista em 1949).

Interpretação da Divina Comédia à luz do simbolismo iniciático e da Tradição. Identifica elementos de esoterismo cristão e de influências templárias e islâmicas na obra dantesca.

6- L’Homme et son devenir selon le Vêdânta. Título traduzido para o português: O Homem e seu devir segundo o Vedānta. Data da primeira publicação: 1925 (edição revista em 1947).

Exposição da doutrina do Ātman e dos estados do ser a partir do Advaita Vedānta de Śaṅkara. Uma das três obras centrais de metafísica pura de Guénon (junto com O Simbolismo da Cruz e Os Estados Múltiplos do Ser).

7- Le Roi du monde. Título traduzido para o português: O Rei do Mundo. Data da primeira publicação: 1927 (edição revista em 1950).

Estudo do mito do “Rei do Mundo” (ligado a Agarttha, ao Quṭb islâmico e a figuras paralelas em várias tradições). Trata da hierarquia espiritual invisível e do centro espiritual da humanidade.

8- La Crise du monde moderne. Título traduzido para o português: A Crise do Mundo Moderno. Data da primeira publicação: 1927 (edição revista em 1946).

Diagnóstico da civilização contemporânea como fase terminal do Kali-Yuga. Critica o individualismo, o racionalismo, o materialismo e a perda do sentido da hierarquia espiritual.

9- Saint Bernard. Título traduzido para o português: São Bernardo. Data da primeira publicação: 1929.

Breve estudo biográfico e espiritual sobre São Bernardo de Claraval, destacando sua função dentro da Tradição cristã e sua relação com a Cavalaria e com a Ordem do Templo.

10- Autorité spirituelle et pouvoir temporel. Título traduzido para o português: Autoridade espiritual e poder temporal. Data da primeira publicação: 1929 (edição revista em 1947).

Análise das relações entre o poder espiritual (brahmânico/sacerdotal) e o poder temporal (régio/guerreiro) nas sociedades tradicionais, e da inversão moderna dessa hierarquia.

11- Le Symbolisme de la Croix. Título traduzido para o português: O Simbolismo da Cruz. Data da primeira publicação: 1931.

Desenvolvimento da doutrina dos estados múltiplos do ser a partir do simbolismo da cruz (vertical e horizontal). Segunda das três grandes obras de metafísica pura.

12- Les États multiples de l’être. Título traduzido para o português: Os Estados Múltiplos do Ser. Data da primeira publicação: 1932.

Completa a trilogia metafísica. Expõe a teoria dos estados de existência, a relação entre o Infinito, a Possibilidade universal, o Ser e o Não-Ser, e a realização do “Si” (Ātman).

13- La Métaphysique orientale. Título traduzido para o português: A Metafísica Oriental. Data da primeira publicação: 1939.

Texto curto, originado de uma conferência na Sorbonne (1925). Síntese densa dos princípios da metafísica tradicional e da distinção entre conhecimento racional e conhecimento intuitivo/intelectual.

14- Le Règne de la Quantité et les Signes des Temps. Título traduzido para o português: O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos. Data da primeira publicação: 1945.

Análise mais profunda e técnica da decadência moderna: a redução de tudo à quantidade, a solidificação e a dissolução do mundo, os “sinais dos tempos” e a proximidade do fim de ciclo.

15- Les Principes du calcul infinitesimal. Título traduzido para o português: Os Princípios do Cálculo Infinitesimal. Data da primeira publicação: 1946.

Estudo dos fundamentos metafísicos do cálculo infinitesimal, contrastando a noção tradicional de infinito com as concepções modernas de infinito matemático.

16- Aperçus sur l’initiation. Título traduzido para o português: Considerações sobre a Iniciação (ou Aperçus sobre a iniciação). Data da primeira publicação: 1946.

Exposição sistemática da natureza da iniciação verdadeira, das condições necessárias, da diferença entre iniciação e misticismo, e da crítica às pseudo-iniciações modernas.

17- La Grande Triade. Título traduzido para o português: A Grande Tríade. Data da primeira publicação: 1946.

Estudo do simbolismo da Tríade (Céu-Homem-Terra) principalmente a partir da tradição extremo-oriental (chinesa), com correspondências em outras formas tradicionais.

18- Initiation et réalisation spirituelle. Título traduzido para o português: Iniciação e realização espiritual. Data da primeira publicação: 1952 (obra póstuma).

Continuação e aprofundamento de Aperçus sur l’initiation, com artigos sobre a via iniciática e a realização metafísica.

19- Aperçus sur l’ésotérisme Chrétien. Título traduzido para o português: Considerações sobre o esoterismo cristão. Data da primeira publicação: 1954 (obra póstuma).

Artigos sobre aspectos esotéricos do cristianismo, incluindo Templários, Graal e simbolismo cristão.

20- Symboles de la Science sacrée (ou Symboles fondamentaux de la Science sacrée). Título traduzido para o português: Símbolos da Ciência Sagrada / Símbolos fundamentais da Ciência Sagrada. Data da primeira publicação: 1962 (obra póstuma).

Ampla coletânea de artigos sobre simbolismo tradicional (geometria sagrada, números, animais, plantas, arquitetura etc.).

21- Études sur la Franc-Maçonnerie et le Compagnonnage. Título traduzido para o português: Estudos sobre a Franco-Maçonaria e o Companheirismo. Data da primeira publicação: 1964, em dois tomos (obra póstuma).

Artigos sobre a Maçonaria regular, o Companheirismo e as possibilidades de restauração iniciática no Ocidente.

22- Études sur l’Hindouisme. Título traduzido para o português: Estudos sobre o Hinduísmo. Data da primeira publicação: 1968 (obra póstuma).

Artigos complementares sobre doutrinas e simbolismo hindus.

23- Formes traditionnelles et cycles cosmiques. Título traduzido para o português: Formas tradicionais e ciclos cósmicos. Data da primeira publicação: 1970 (obra póstuma).

Textos sobre os ciclos históricos e cósmicos e sobre diversas formas tradicionais.

24- Aperçus sur l’ésotérisme islamique et le taoïsme. Título traduzido para o português: Considerações sobre o esoterismo islâmico e o taoísmo. Data da primeira publicação: 1973 (obra póstuma).

Artigos sobre o Sufismo e sobre a tradição taoísta.

 

*** Estas são as obras principais que costumam ser citadas e reeditadas. Guénon publicou dezessete livros em vida; os demais títulos são recolhimentos de artigos organizados após sua morte (1951).

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

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