Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

Sites na Internet – Doutor Silvério

1- Site: www.doutorsilverio.com

2- Blog 1 “Ser Escritor”: http://www.doutorsilverio.blogspot.com.br

3- Blog 2 “Comportamento Crítico”: http://www.doutorsilverio42.blogspot.com.br

4- Blog 3 “Uma boa idéia! Uma grande viagem!”: http://www.doutorsilverio51.blogspot.com.br

5- Blog 4 “O grande segredo: A história não contada do Brasil”

https://livroograndesegredo.blogspot.com/

6- Perfil no Face Book “Silvério Oliveira”: https://www.facebook.com/silverio.oliveira.10?ref=tn_tnmn

7- Página no Face Book “Dr. Silvério”: https://www.facebook.com/drsilveriodacostaoliveira

8- Página no Face Book “O grande segredo: A história não contada do Brasil”

https://www.facebook.com/O-Grande-Segredo-A-hist%C3%B3ria-n%C3%A3o-contada-do-Brasil-343302726132310/?modal=admin_todo_tour

9- Página de compra dos livros de Silvério: http://www.clubedeautores.com.br/authors/82973

10- Página no You Tube: http://www.youtube.com/user/drsilverio

11- Currículo na plataforma Lattes: http://lattes.cnpq.br/8416787875430721

12- Email: doutorsilveriooliveira@gmail.com


E-mails encaminhados para doutorsilveriooliveira@gmail.com serão respondidos e comentados excluindo-se nomes e outros dados informativos de modo a manter o anonimato das pessoas envolvidas. Você é bem vindo!

terça-feira, 30 de junho de 2026

Walter Benjamin: Vida, Ideias e a Crítica da História, da Arte e da Modernidade

 

“Es gibt kein Dokument der Kultur, das nicht zugleich ein Dokument der Barbarei ist.”

Tradução para o português:

“Não existe documento da cultura que não seja ao mesmo tempo um documento da barbárie.”

(Walter Benjamin, “Sobre o conceito de história”, Tese VII, 1940)

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Walter Benjamin

 

Walter Benjamin é, sem dúvida, uma das figuras mais originais, complexas e influentes do pensamento filosófico e crítico do século XX, em particular junto aos intelectuais da esquerda política. Intelectual judeu-alemão de múltiplos interesses, sua obra não se encaixa facilmente em nenhuma Escola ou corrente única. Benjamin transitou entre a filosofia da linguagem, a teoria da tradução, a crítica literária, a estética, a teoria política e uma concepção muito particular de história, mesclando elementos do romantismo alemão, do messianismo judaico e do materialismo histórico de forma profundamente heterodoxa e criativa. Podemos encontrar o estudo de Benjamin nos mais distintos campos formados por faculdades diversas na vida acadêmica atual.


 

Sua escrita fragmentária, alegórica e repleta de imagens dialéticas desafia o leitor a abandonar as explicações lineares e progressistas da história. Em vez de construir sistemas fechados, Benjamin preferiu constelações de ideias, montagens de citações e “imagens de pensamento” capazes de fazer o passado irromper no presente com força redentora. Embora tenha vivido à margem da academia oficial e morrido tragicamente no exílio, seu pensamento tornou-se, após a Segunda Guerra Mundial, uma referência indispensável para compreender a crise da experiência humana na contemporaneidade, a perda da aura na era da reprodutibilidade técnica, a natureza da violência estatal e as possibilidades de uma revolução que não seja mero avanço linear, mas interrupção salvadora do tempo. No fundo, um autor que mesmo não pertencente à Escola de Frankfurt ou outro movimento semelhante, contribui em particular com a discussão acadêmica dentro da esquerda política e numa linha que prevê, antecipa ou busca esperançosamente a revolução comunista que porá fim ao sofrimento social, como o salto de um tigre na história, rompendo a sua linearidade e quebrando ilusões consensuais.

Neste artigo, buscamos apresentar de forma clara e profunda a vida, as principais obras e as ideias centrais de Walter Benjamin, sempre a partir de sua própria produção intelectual. Longe de pretender esgotar a riqueza de seu pensamento, pretendemos oferecer ao leitor uma visão integrada e fiel da multiplicidade presente no pensamento e obra de Benjamin. Sua obra continua a iluminar, com luz própria e muitas vezes melancólica, as ruínas e as possibilidades de nosso tempo na visão do autor.

 

1- Vida

 

Walter Bendix Schönflies Benjamin (1892-1940), alemão de origem judaica, nasce na cidade de Berlim, na época império alemão, e falece no sul da França, fronteira com a Espanha (faleceu em Portbou, na fronteira franco-espanhola), então com 48 anos de idade. Filho de Emil Benjamin (1856–1926), comerciante e investidor, que manteve entre seus negócios um antiquário, e de Paula Schönflies (1869–1930), uma família intelectualizada e abastada da burguesia judia. Estudou nas universidades de Berlim, Friburgo e Berna. Teve dois irmãos mais novos: Georg (1895-1942), que viria a morrer em um campo de concentração nazista, e Dora (1901-1946).

A infância de Benjamin transcorreu em um ambiente de conforto material, marcado pela monumentalidade da Berlim guilhermina. Ele próprio descreveria mais tarde, em textos autobiográficos como “Infância em Berlim”, por volta de 1900, as impressões profundas deixadas pela cidade em transformação: suas passagens, lojas de departamentos, parques e a sensação de um mundo que se modernizava rapidamente. Desde cedo, demonstrou sensibilidade estética e intelectual aguda, influenciada pelo contato com a arte e os livros do antiquário paterno. Em 1904, devido à saúde frágil, foi enviado a um internato no interior da Turíngia. Lá conheceu o pedagogo reformista Gustav Wyneken (1875-1964), cuja visão antiautoritária da educação o marcou profundamente. Benjamin aderiu ao Movimento da Juventude Alemã, participando ativamente de debates sobre reforma educacional e publicando seus primeiros textos, sob pseudônimo, na revista Der Anfang. Essa experiência juvenil alimentou nele uma crítica precoce às estruturas autoritárias da sociedade burguesa.

Entre 1912 e 1917, Benjamin estudou filosofia, literatura alemã e história da arte nas universidades de Freiburg im Breisgau, Berlim, Munique e Berna (Suíça). Opôs-se à Primeira Guerra Mundial desde o início, recusando-se a servir no exército alemão. Para evitar o alistamento, obteve licença médica e transferiu-se para a Suíça.

Em 1917 casa-se com a militante, jornalista e tradutora, Dora Sophie Pollak, nascida “Kellner” (1890-1964), com quem teve um filho, Stefan. Este casamento durará até 1930, quando então o casal se separa. Benjamin obteve o Doutorado com uma tese sobre a crítica da arte no romantismo alemão. A tese “Der Begriff der Kunstkritik in der deutschen Romantik" (O conceito de crítica de arte no romantismo alemão) foi defendida e aprovada em 1919, na Universidade de Berna, já a publicação ocorreu em 1920. Atuou como ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo. Em 1915, em Berlim, trava contato e forma amizade com Siegfried Kracauer (1889-1966) e em 1923 conhece Theodor Adorno (1903-1969).

Benjamin também estreitou laços com Gershom Scholem (grande amigo desde 1915, futuro estudioso da mística judaica), Siegfried Kracauer e Theodor Adorno, figuras centrais da futura Escola de Frankfurt.

De volta a Berlim em 1920, Benjamin enfrentou dificuldades financeiras crescentes, agravadas pela crise econômica da República de Weimar. Tentou seguir carreira acadêmica, mas o projeto de livre-docência (a tese Origem do drama trágico alemão, publicada em 1928) foi rejeitado pela Universidade de Frankfurt em 1925, por ser considerado excessivamente heterodoxo. Essa frustração acadêmica o levou a dedicar-se integralmente ao trabalho como crítico literário, ensaísta e tradutor. Traduziu obras de Baudelaire e Proust, atividades que aprofundaram sua reflexão sobre linguagem e tradução.

Sua obra começa mais focada no idealismo, mas com o passar da juventude e o amadurecimento, paulatinamente se aproxima do materialismo histórico. Foi no transcorrer de sua vida, influenciado pela tradição judaica, pelo romantismo alemão e pelo marxismo.

Nos anos 1920, sua vida intelectual ganhou novas direções. Em 1924, durante uma estada na ilha de Capri, conheceu a diretora de teatro letã Asja Lacis, militante comunista, por quem se apaixonou. Esse encontro foi decisivo: Lacis o introduziu ao pensamento marxista de forma mais concreta e o conectou a Bertolt Brecht. Sua obra passou a mesclar, de modo original e muitas vezes tensionado, elementos do messianismo judaico, do materialismo histórico e da crítica cultural radical.

Entre as amizades intelectuais que marcaram o período do exílio, a relação com Bertolt Brecht (1898-1956) merece destaque especial. Os dois se encontravam regularmente na Dinamarca, onde Brecht vivia exilado, e mantinham um diálogo intenso sobre teatro, política e técnica. Benjamin dedicou ensaios importantes ao teatro épico brechtiano, reconhecendo nele uma forma artística capaz de romper com a contemplação passiva e despertar no espectador uma consciência crítica e política. Embora os dois divergissem em pontos importantes (Brecht era mais cético em relação ao messianismo e à mística judaica presentes no pensamento de Benjamin) a amizade foi genuína e intelectualmente fecunda para ambos. Benjamin via no teatro de Brecht uma confirmação prática de suas próprias teses sobre o potencial político da arte na era da reprodutibilidade técnica.

Em 1926-1927, viajou a Moscou para visitar Asja Lacis, experiência registrada no Diário de Moscou. Em 1928, publicou Rua de Mão Única, livro fragmentário e experimental que sinalizava sua virada para formas de escrita mais políticas e literárias. Viveu um período de intensa produção, mas também de instabilidade pessoal: divorciou-se de Dora em 1930 e enfrentou crescentes dificuldades financeiras.

Com a ascensão de Adolf Hitler ao poder em janeiro de 1933, a situação tornou-se insustentável. Como intelectual judeu e de esquerda, Benjamin viu seus direitos civis suprimidos e seus bens ameaçados. Em março de 1933, exilou-se definitivamente, fixando-se principalmente em Paris. Nos anos seguintes, viveu em condições precárias, sustentando-se com colaborações em revistas, bolsas limitadas (como a do Instituto de Pesquisas Sociais) e ajuda de amigos. Continuou trabalhando no ambicioso Passagens (Passagen-Werk), um vasto projeto inacabado sobre a Paris do século XIX como pré-história da contemporaneidade.

Em virtude do ambiente hostil encontrado nos países comandados pelos nazistas, na década de 1930 viajou ocasionalmente por diferentes países, incluindo visitas à Itália (San Remo - onde morava sua ex-mulher Dora), à Dinamarca (para encontrar Brecht) e a Ibiza, sem fixar residência permanente.

Com a expansão do nazismo, o início dos confrontos da segunda guerra mundial, e a invasão da França em junho de 1940, Benjamin se transladou para o sul da França ocupada, até Marselha. Benjamin pensava em atravessar a fronteira com a Espanha, mas ocorreu de a fronteira estar fechada justamente no dia da tentativa de travessia, e este cometeu suicídio com a ingestão de forte dose de morfina. Interessante que no dia seguinte a fronteira foi reaberta e o grupo que originalmente estava com ele pôde passar sem problemas. A coisa ocorreu assim, Benjamin conseguira um visto americano por intermédio de amigos e tinha como objetivo deixar a França passando pela fronteira com a Espanha e se direcionar aos EUA. Em setembro de 1940, cruzou os Pireneus a pé com um pequeno grupo de refugiados, guiado por Lisa Fittko. Ao chegar à fronteira em Portbou (Catalunha), as autoridades espanholas, seguindo ordens recentes do regime de Franco, recusaram a entrada a quem não possuía visto de saída francês válido. Diante da perspectiva de ser devolvido à França ocupada e entregue à Gestapo, Walter Benjamin, exausto e doente, decidiu pôr fim à própria vida. Na noite de 26 de setembro de 1940 (algumas fontes indicam 27 de setembro), no Hotel de França em Portbou, ele ingeriu uma dose letal de morfina. Tinha 48 anos. Seu corpo foi sepultado no cemitério local, em uma cova que permaneceu anônima por anos. Pouco depois, as mesmas autoridades espanholas permitiram que o restante do grupo prosseguisse viagem, um detalhe que reforça o caráter absurdo e desnecessário daquele ato radical de por fim a própria vida. Cabe ressaltar que a tragédia de sua morte simboliza o destino de tantos outros intelectuais perseguidos pelo nazismo, muitos mortos em pelotões de fuzilamento ou em campos de concentração, unicamente por não estarem em conformidade com os padrões ideológicos sobre o que seja a raça ariana pura ou por nutrirem visões políticas contrárias ao governo nazista.

Um detalhe biográfico de grande significado envolve justamente o texto que viria a ser seu testamento intelectual. Antes de deixar Paris em fuga, Benjamin entregou o manuscrito das Teses sobre o conceito de história à filósofa Hannah Arendt (1906-1975), que conseguiu cruzar o Atlântico e levar o texto aos Estados Unidos, entregando-o a Theodor Adorno. Sem esse gesto, um dos documentos mais importantes do pensamento filosófico do século XX poderia ter se perdido para sempre nas convulsões da guerra. A trajetória daquelas páginas (escritas por um homem em fuga, salvas por uma mulher também perseguida, publicadas postumamente por um amigo exilado) sintetiza, de forma quase alegórica, o próprio pensamento de Benjamin sobre a fragilidade da memória e a responsabilidade dos que sobrevivem diante dos que foram vencidos pela história.

Benjamin se relacionava com membros da Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer – Instituto de Pesquisa Social) sendo considerado por alguns comentadores como membro deste grupo, no entanto, isto não me parece correto em virtude das relações complexas, opiniões contraditórias e embate em diversos temas (como, por exemplo, o papel e valor da música – lembremos da avaliação do jazz e da música popular, que Benjamin tendia a ver com mais simpatia do que Adorno). Os desacordos existentes não o permitem colocá-lo como membro da Escola de Frankfurt.

Benjamin não chega a construir um sistema filosófico, consistindo sua obra em apresentação de intuições e ideias. Busca abordar como tema as obras de arte, ambientes, textos. O ponto central em sua obra é o poder exercido pela linguagem.

Pouco publicou em vida, ficando restrito a ensaios e artigos em periódicos. Coube a Adorno ser o responsável pela edição e publicação póstuma de sua obra. Diversos comentadores consideram Benjamin como um dos mais importantes pensadores contemporâneos, mas em vida sua obra não teve repercussão além de um círculo intelectual muito estreito. Adorno o considerava um filósofo crítico inclusive da própria filosofia. Sua obra se debruçou sobre temas concretos da literatura, arte, técnicas, vida social e outros pontos, podendo facilmente ser considerado um crítico de ideias e fatos.

A vida de Walter Benjamin foi marcada por genialidade intelectual, marginalidade acadêmica, exílio constante e um compromisso profundo com a crítica do mundo contemporâneo. Embora pouco reconhecido em vida, seu pensamento tornou-se, após a Segunda Guerra Mundial, uma das referências mais fecundas da filosofia, da teoria da cultura e da crítica estética do século XX, em particular em pensadores vinculados a esquerda política.

 

2- Ideias

 

Walter Benjamin foi um pensador de extraordinária multiplicidade. Seus textos não seguem um sistema fechado ou uma doutrina única. Em vez disso, constroem constelações de ideias que se entrelaçam através de diferentes períodos e temas. Linguagem, tradução, crítica literária, estética, política, história e teologia aparecem sempre em tensão criativa, muitas vezes mesclando influências do romantismo alemão, do messianismo judaico, do materialismo histórico e de uma sensibilidade aguda para as transformações técnicas e sociais da contemporaneidade. Benjamin não buscava respostas definitivas, mas formas de pensamento capazes de captar o efêmero, o fragmentário e o oprimido da experiência humana. Seu método privilegiava a montagem, a citação, a alegoria e a imagem dialética, técnicas que permitem que o passado irrompa no presente de modo disruptivo, revelando possibilidades redentoras.

Nesse contexto, Benjamin desenvolve também o conceito de fantasmagoria para descrever a forma como a realidade social, especialmente no capitalismo, se apresenta de modo ilusório e encantado. Inspirando-se nas exposições, vitrines e passagens de Paris do século XIX, ele observa que as mercadorias não aparecem apenas como objetos de uso, mas como portadoras de um brilho quase mágico, que encobre as relações sociais de produção. A fantasmagoria é, assim, uma forma de experiência na qual o humano se encontra imerso em um mundo de aparências sedutoras, onde o valor de troca se impõe sobre o valor de uso, e onde a própria realidade se torna espetáculo. Ao revelar esse caráter ilusório, Benjamin aproxima-se de uma crítica radical do capitalismo, mostrando que o encantamento das mercadorias é, ao mesmo tempo, um mecanismo de dominação e alienação.

Associado a esse diagnóstico, Benjamin identifica o papel central do choque (em alemão: Schock) na configuração da experiência na contemporaneidade. A vida nas grandes cidades, marcada pela velocidade, pela multidão, pela técnica e pela constante exposição a estímulos, submete o indivíduo a uma sucessão de impactos sensoriais que dificultam a elaboração de uma experiência duradoura. Diferentemente da experiência tradicional, que se sedimenta e pode ser narrada, o choque fragmenta a percepção e exige respostas imediatas, muitas vezes automáticas. Benjamin encontra na figura do flâneur e nas técnicas artísticas, como o cinema e a montagem, tentativas de lidar com essa condição. O choque não é apenas um empobrecimento da experiência, mas também um novo modo de percepção, que pode, em determinadas circunstâncias, abrir espaço para formas críticas de consciência, desde que seja apreendido e não apenas sofrido passivamente.

Para Benjamin a história não deve ser entendida como um progresso linear, nela temos que cada momento do presente carrega em si a responsabilidade para com os vencidos do passado. Ele entende sua época histórica como fruto da opressão. Segundo ele, devemos olhar o passado histórico não como mero arquivo e sim como campo de luta visando resgatar vozes que foram silenciadas.

Em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, 1936, argumenta sobre o impacto das novas tecnologias, tais como a fotografia e o cinema, na arte moderna. Ao mesmo tempo em que a reprodutibilidade retira a aura da obra de arte, já que esta deixa de ser única, torna-a mais acessível ao povo, podendo se tornar instrumento político de crítica e emancipação.

Sob influência do barroco alemão, entendia a alegoria como uma forma de pensamento que consegue capturar a fragmentação e a crise. No lugar de totalidade, a alegoria revela ruína, sendo cada parte impregnada de história, dor e ambiguidade presente no mundo.

Benjamin buscou na Paris do século XIX uma espécie de laboratório social para entender o surgimento da modernidade. Ao estudar sua paisagem arquitetônica (passagens cobertas, grandes boulevards, vitrines de lojas) encontra a figura do flâneur, o caminhante observador da cidade, mas com olhar crítico, buscando captar seus ritmos, ilusões e fantasias. Nela, a cidade, temos algo a decifrar, o capitalismo se mostra presente, mas também temos o surgimento de uma resistência.

2.1- Filosofia da linguagem e da tradução

Desde os escritos juvenis, Benjamin desenvolveu uma concepção original de linguagem. Em textos como “Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem do humano”, 1916, ele via a linguagem não como mero instrumento de comunicação ou signo arbitrário, mas como medium da própria realidade espiritual. Toda criação, segundo ele, participa de uma “linguagem pura” ou “pura linguagem”, uma essência anterior à divisão entre palavras e coisas, que se manifesta na nomeação divina e na poesia.

A tradução, para Benjamin, não consiste em transmitir um significado idêntico de uma língua para outra. Em “A tarefa do tradutor”, 1923, ele argumenta que a tradução deve buscar o “puro idioma” subjacente a todas as línguas, revelando o parentesco entre elas através da literalidade. A tradução não serve ao original de forma servil; ela o faz sobreviver, enriquecendo a língua do tradutor e permitindo que a obra se renove no tempo. Aqui já se anuncia uma ideia central: a sobrevivência das obras não depende da eternidade, mas de sua capacidade de se transformar e de ser resgatada em novas constelações históricas.

2.2- Crítica da violência: mítica e divina

Em “Crítica da violência”, 1921, Benjamin distingue dois tipos fundamentais de violência. A violência mítica é fundadora e conservadora do direito. Ela estabelece e mantém ordens jurídicas baseadas no poder, na culpa e no castigo, como na mitologia antiga ou no monopólio estatal da força. Essa violência é sempre “sanguinária” e vinculada à perpetuação de uma ordem de dominação.

Em oposição surge a violência divina (ou pura), que é “law-destroying” (destruidora do direito). Ela não institui novas leis, mas expia, purifica e interrompe o ciclo de culpa e retribuição. Não é ameaçadora, mas fulminante; não busca poder, mas justiça. Benjamin via nessa distinção uma possibilidade ética e política de romper com as formas míticas de autoridade, abrindo espaço para uma justiça sem mediações violentas do Estado.

2.3- Teoria da alegoria e do drama barroco

No livro “Origem do drama trágico alemão”, 1928, Benjamin contrasta a tragédia clássica com o Trauerspiel (drama de luto) barroco. Enquanto a tragédia grega gira em torno do herói e do destino, o drama barroco apresenta um mundo de ruínas, soberania falida e melancolia. A forma privilegiada desse mundo é a alegoria, oposta ao símbolo romântico.

O símbolo sugere uma unidade orgânica entre aparência e essência. A alegoria, ao contrário, revela a fragmentação: o significado não habita naturalmente o objeto, mas é imposto a ele de fora, como em um emblema. No barroco, o mundo aparece como ruína, cadáver ou cenário vazio, imagem que Benjamin estenderia depois à própria contemporaneidade. A alegoria torna-se, assim, um método de conhecimento: capaz de ler a história como acumulação de destroços, mas também de resgatar, através da montagem, o que foi esquecido ou oprimido.

2.4- A perda da aura e a reprodutibilidade técnica

Um dos conceitos mais célebres de Benjamin é o de aura, desenvolvido especialmente em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, 1936. A aura é a singularidade única de uma obra de arte, sua presença irrepetível no aqui e agora, ligada à tradição, ao culto e à distância. Ela confere à obra um caráter quase cultual.

Com a fotografia, o cinema e as técnicas de reprodução em massa, a aura declina. A obra perde sua autenticidade ritual e torna-se reprodutível infinitamente. Essa perda tem consequências ambivalentes: por um lado, democratiza o acesso à arte e permite uma recepção coletiva e distraída; por outro, abre caminho para a estetização da política pelo fascismo (que transforma a vida em espetáculo). Benjamin, porém, via potencial revolucionário na arte de massa: ela poderia fomentar uma percepção politizada, capaz de despertar o espectador para a transformação social, em vez de mantê-lo na contemplação passiva.

2.5- Experiência em crise: Erlebnis versus Erfahrung

Benjamin diagnosticou uma “crise da experiência” na contemporaneidade. Ele distinguia Erlebnis (experiência vivida, imediata, fragmentária e chocante, típica da vida urbana moderna, do jornalismo e do cinema) de Erfahrung (experiência acumulada, narrável, transmitida pela tradição e pela memória coletiva).

Na contemporaneidade, o choque constante impede a integração das vivências em uma Erfahrung significativa. A narração oral perde espaço para a informação fragmentada. Benjamin via nessa perda não apenas um empobrecimento, mas também a possibilidade de novas formas de percepção, como, por exemplo, a “iluminação profana” do surrealismo ou a montagem cinematográfica.

2.6- O projeto das Passagens e a imagem dialética

O “Passagen-Werk” (Trabalho das Passagens), projeto inacabado ao qual Benjamin dedicou mais de uma década, representa a ambição máxima de seu método. Nele, ele coleta milhares de citações, fragmentos e reflexões sobre as galerias parisienses do século XIX, que hoje em dia podemos ver como precursoras dos shopping centers, espaços de consumo, sonho coletivo e mercantilização da vida.

Benjamin não escreve uma história linear, mas constrói “imagens dialéticas”: constelações em que o passado e o presente se encontram em um “agora de reconhecibilidade”. Nessas imagens, podemos entender conjuntamente com o autor que o sonho da mercadoria (a “fantasmagoria” do capitalismo) é despertado e potencialmente rompido. O método é alegórico e montado: o historiador age como um trapeiro (em alemão: Lumpensammler, catador de trapos/farrapos) ou colecionador, resgatando os detritos da história para revelar seu potencial revolucionário.

2.7- Conceito de história: messianismo e materialismo

Nas “Teses sobre o conceito de história” (escritas em 1940, publicadas postumamente em 1942), Benjamin realiza uma das sínteses mais poderosas de seu pensamento. Ele critica duramente o historicismo progressista, que vê a história como uma marcha linear rumo ao progresso e que sempre escreve do ponto de vista dos vencedores.

Em oposição, propõe um materialismo histórico temperado por uma concepção messiânica. A história não é um continuum vazio, mas uma série de catástrofes. O famoso “anjo da história” (inspirado no quadro Angelus Novus, de Paul Klee) olha para o passado e vê um único monte de ruínas, enquanto o “progresso” o empurra para o futuro. O anjo gostaria de parar, despertar os mortos e recompor o que foi destruído, mas a tempestade do paraíso (chamada “progresso”) o impede.

Contra isso, Benjamin defende a rememoração (Eingedenken) como ato revolucionário. Cada geração carrega uma “fraca força messiânica”: o poder de redimir, no presente, o passado oprimido. A revolução não é o avanço teleológico, mas um “salto do tigre” (em alemão: Tigersprung) que interrompe o tempo homogêneo e faz explodir o continuum da história. O materialismo histórico, assim entendido, deve “escovar a história a contrapelo”, resgatando os vencidos e transformando o agora em porta de entrada para a redenção.

Podemos ter este salto do tigre dado pela moda ou pela dialética da revolução comunista. Quando dado pela moda trata-se de algo controlado, em verdade, um exemplo negativo deste salto. A moda se direciona para o que é atual. Ela “salta” para o passado (como um tigre que pula sobre a presa) e pega qualquer elemento antigo que possa ser usado para parecer novo e moderno no presente. Porém, esse salto acontece dentro da arena controlada pela classe dominante. É um salto que serve ao poder vigente, ele não rompe nada, apenas recicla o passado para reforçar a ordem atual. O verdadeiro salto é o dialético da revolução. Benjamin diz que o mesmo salto, quando feito “no ar livre da história” (ou seja, fora do controle das classes dominantes), torna-se dialético, é assim que Marx entendia a revolução. Esse salto revolucionário não é um avanço linear e progressivo no tempo (o que Benjamin critica como “tempo homogêneo e vazio”). Em vez disso, é um salto brusco, violento e criativo que: “Explode” o continuum da história, rompendo com a ideia de que a história é uma linha reta e inevitável de progresso; puxa o passado para dentro do presente de forma explosiva; carrega o passado oprimido com “agora” (Jetztzeit), que é um tempo saturado de possibilidades revolucionárias; permite que o presente “cite” o passado (como a Revolução Francesa citava a Roma antiga) não para repetir, mas para redimi-lo e interromper a catástrofe contínua. O “salto do tigre” é uma imagem de ação súbita e poderosa que arranca um fragmento do passado e o faz explodir no presente, criando uma interrupção revolucionária. Não é evolução lenta, mas um pulo feroz que faz “o continuum da história explodir”, abrindo espaço para a redenção dos vencidos e para a justiça no “agora”.

Essas ideias propostas por Walter Benjamin não formam um sistema harmônico. Benjamin mantinha em tensão permanente o materialismo e a teologia, o marxismo e o messianismo, a crítica cultural e a esperança revolucionária. Sua força reside exatamente nessa multiplicidade: ele pensava por imagens, fragmentos e constelações, buscando salvar o que a história ameaça esquecer. Em tempos de catástrofe (como os que viveu e como os que ainda vivemos segundo uma interpretação plausível do pensamento do autor), seu pensamento continua oferecendo ferramentas para despertar do sonho da mercadoria e para enxergar, no monte de ruínas do passado, a possibilidade de justiça.

 

3- Palavras finais

 

O pensamento de Walter Benjamin permanece como uma das mais instigantes e desafiadoras tentativas de compreender a condição do humano na contemporaneidade. Recusando os sistemas fechados e as explicações simplificadoras, Benjamin nos oferece uma filosofia construída por fragmentos, imagens e tensões, na qual história, linguagem, arte e política se entrelaçam de forma inseparável.

A crítica de Benjamin ao progresso linear e ao historicismo dominante nos obriga a reconsiderar a própria ideia de tempo histórico. Ao insistir que cada geração carrega consigo a responsabilidade diante dos vencidos do passado, Benjamin desloca o eixo da reflexão histórica: não se trata apenas de conhecer o passado, mas de resgatá-lo, de redimi-lo no presente. A história deixa de ser um relato dos vencedores e passa a ser um campo de disputa, onde memória e esquecimento possuem consequências éticas e políticas profundas.

Ao mesmo tempo, sua análise da reprodutibilidade técnica e da perda da aura revela as transformações radicais da experiência estética e da percepção humana em um mundo marcado pela técnica e pela massificação. Longe de uma simples nostalgia, Benjamin identifica nessas mudanças tanto riscos quanto possibilidades: se por um lado a técnica pode ser instrumentalizada pela dominação, por outro, ela pode abrir caminhos para novas formas de consciência e ação coletiva.

A tensão permanente entre materialismo histórico e messianismo, longe de ser uma fraqueza, constitui o núcleo vital de seu pensamento. É justamente nessa tensão que se encontra a possibilidade de ruptura com a ordem estabelecida, não como continuidade do progresso, mas como interrupção crítica do curso da história. A revolução, nesse sentido, não é avanço gradual, mas gesto decisivo que rompe com o tempo homogêneo e resgata o passado oprimido.

Em um mundo que ainda se apresenta como um acúmulo de ruínas (marcado por crises, desigualdades e ilusões de progresso), o pensamento de Benjamin permanece atual e necessário. Ele nos convida a despertar do conformismo histórico, a desconfiar das narrativas dominantes e a reconhecer, no presente, as possibilidades ainda abertas de transformação. Pensar com Benjamin é, em última instância, recusar a passividade diante da história e assumir a responsabilidade crítica pelo tempo em que se vive.

 

4- Algumas das principais obras de Walter Benjamin

 

1- Zur Kritik der Gewalt. Título traduzido para o português: Crítica da Violência (ou Para a Crítica da Violência). Ano da primeira publicação: 1921.

Neste ensaio pioneiro, Benjamin realiza uma análise radical do conceito de violência no âmbito do direito e do Estado. Ele distingue a violência mítica (fundadora e conservadora de ordens jurídicas baseadas na culpa e no poder) da violência divina ou pura (que rompe com o ciclo mítico e instaura justiça sem mediações). O texto questiona a legitimidade intrínseca do monopólio estatal da violência e abre caminho para uma crítica ética e política que influenciou profundamente debates sobre direito, soberania e revolução no século XX.

2- Die Aufgabe des Übersetzers. Título traduzido para o português: A Tarefa do Tradutor. Ano da primeira publicação: 1923.

Escrito como prefácio à tradução de poemas de Baudelaire, o ensaio propõe uma teoria revolucionária da tradução. Benjamin rejeita a ideia de mera transferência de sentido e defende que a tradução deve buscar o “puro idioma” subjacente a todas as línguas — uma forma de parentesco entre elas que se revela pela literalidade e pela fidelidade ao original. Longe de ser um ato secundário, a tradução enriquece a própria língua do tradutor e permite que a obra sobreviva e se transforme ao longo do tempo.

3- Ursprung des deutschen Trauerspiels. Título traduzido para o português: Origem do drama trágico alemão (também conhecido como Origem do drama barroco alemão). Ano da primeira publicação: 1928.

Baseado em sua tese de livre-docência, o livro examina o drama barroco alemão do século XVII (Trauerspiel) como forma distinta da tragédia clássica. Benjamin desenvolve uma teoria da alegoria como modo de representação da história marcada pela melancolia, pela soberania falida e pela visão do mundo como ruína. O texto é ao mesmo tempo uma análise literária profunda e uma reflexão filosófica sobre o tempo, a culpa e a modernidade, influenciando fortemente a teoria da alegoria e da crítica cultural.

4- Einbahnstraße. Título traduzido para o português: Rua de Mão Única. Ano da primeira publicação: 1928.

Obra fragmentária e experimental, composta por aforismos, reflexões curtas, imagens de pensamento e observações urbanas, o livro marca a passagem de Benjamin para um estilo mais literário e político. Misturando crítica cultural, filosofia e impressões de viagem (dedicado a Asja Lacis), ele critica a burguesia, o progresso ilusório e a mercantilização da vida, ao mesmo tempo em que explora temas como a infância, a técnica e a revolução. Seu formato de “rua de mão única” antecipa o método de montagem que Benjamin desenvolveria depois.

5- Kleine Geschichte der Photographie. Título traduzido para o português: Pequena história da fotografia. Ano da primeira publicação: 1931.

Publicado originalmente em três partes na revista Die literarische Welt, este ensaio representa um passo decisivo no desenvolvimento do pensamento benjaminiano sobre a técnica e a arte. Nele, Benjamin analisa o surgimento e a evolução da fotografia desde seus pioneiros (Daguerre, Nadar, Atget) até sua consolidação como medium de massa. É aqui que o conceito de aura aparece de forma ainda embrionária, associado à presença singular e ao "aqui e agora" da imagem fotográfica primitiva, em contraste com a reprodutibilidade crescente que caracterizaria a fotografia comercial e jornalística. O ensaio antecipa diretamente as teses desenvolvidas cinco anos depois em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” e constitui leitura indispensável para compreender a gênese daquele que seria um dos conceitos mais influentes de Benjamin.

6- Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit. Título traduzido para o português: A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica. Ano da primeira publicação: 1936.

Um dos ensaios mais célebres de Benjamin, o texto investiga como a reprodutibilidade técnica (fotografia, cinema, gravação) transforma radicalmente a obra de arte. Ele introduz o conceito de “aura” — a singularidade e distância cultual da obra única — e mostra como sua perda abre caminho para uma recepção coletiva, distraída e politizada. Benjamin analisa as implicações estéticas, sociais e políticas dessa mudança, defendendo o potencial revolucionário da arte de massa contra a estetização fascista da política.

7- Der Erzähler. Betrachtungen zum Werk Nikolai Lesskows (Leskov em português). Título traduzido para o português: O Narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. Ano da primeira publicação: 1936.

Publicado no mesmo ano que “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, este ensaio é complementar àquele e igualmente fundamental. Partindo da obra do escritor russo Nikolai Leskov (1831-1895), Benjamin desenvolve uma reflexão profunda sobre a crise da narrativa e da experiência na contemporaneidade. Ele distingue a narração oral tradicional (forma de transmissão coletiva da experiência acumulada, Erfahrung, sedimentada pelo tempo e pela sabedoria prática) da informação jornalística, fragmentária, imediata e descartável, típica da modernidade. O narrador tradicional, seja o camponês sedentário ou o marinheiro viajante, transmite experiência vivida que carrega conselho, sentido e memória coletiva. Com a ascensão do romance e, sobretudo, do jornalismo e da informação de massa, essa forma de narração entra em declínio irreversível. O ensaio articula-se diretamente com a distinção benjaminiana entre Erfahrung e Erlebnis e com sua crítica mais ampla ao empobrecimento da experiência humana na contemporaneidade.

8- Über den Begriff der Geschichte. Título traduzido para o português: Sobre o conceito de história (ou Teses sobre o conceito de história). Ano da primeira publicação: 1942 (Escrita na primavera de 1940 e publicada postumamente).

Composto por 18 teses e mais dois apêndices (algumas edições os numeram como teses A e B e aí passamos a ter 20 e não 18 teses), este texto tardio é uma das sínteses mais poderosas do pensamento benjaminiano. Critica o historicismo progressista e linear, propondo em seu lugar uma concepção materialista e messiânica da história. Com a famosa imagem do “anjo da história” (inspirada em Paul Klee), Benjamin defende a rememoração do passado oprimido como ato revolucionário no presente. As teses articulam teologia, marxismo e messianismo judaico para pensar a redenção possível em tempos de catástrofe.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua autoria)

terça-feira, 16 de junho de 2026

John Maynard Keynes: Vida, teoria, principais conceitos e crítica histórica

 “The difficulty lies, not in the new ideas, but in escaping from the old ones, which ramify, for those brought up as most of us have been, into every corner of our minds.”

Tradução para o português:

“A dificuldade não reside nas novas ideias, mas em escapar das antigas, que se ramificam, para aqueles que fomos educados como a maioria de nós, em todos os cantos de nossas mentes.”

John Maynard Keynes, The General Theory of Employment, Interest and Money, 1936, Prefácio.

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

John Maynard Keynes

 

1- Vida

 

John Maynard Keynes, barão de Keynes (1883-1946) nasceu em Cambridge, Inglaterra, Reino Unido e faleceu em Tilton, East Sussex então aos 62 anos de idade. Proveniente de abastada família com fortes vínculos acadêmicos. Seu pai, John Neville Keynes (1852-1949), era economista e lógico, autor de obras respeitadas sobre método em economia política, e mais tarde ocupou cargo administrativo importante na Universidade de Cambridge. Sua mãe, Florence Ada Brown (1861-1958), foi uma das primeiras mulheres a se formar na universidade e chegou a ser a primeira prefeita de Cambridge. Essa origem intelectual privilegiada marcou profundamente a formação de Keynes e sua confiança em intervir nos grandes debates da época.


 

Desde criança, Keynes demonstrou excepcional capacidade intelectual. Educado inicialmente em casa, ingressou com bolsa de estudos no prestigiado Eton College em 1897, onde se destacou em matemática, clássicos e história, conquistando dezenas de prêmios. Em 1902, obteve outra bolsa para o King’s College, em Cambridge, onde se formou em matemática, em 1905, com distinção. Durante os anos universitários, Keynes frequentou o influente círculo dos “Apostles” (Cambridge Apostles), uma sociedade secreta de debates intelectuais que reunia mentes brilhantes como Bertrand Russell, Lytton Strachey e Leonard Woolf. Foi ali que ele absorveu as ideias filosóficas de G. E. Moore, especialmente a ênfase na experiência pessoal, na beleza e nos estados de espírito como critérios últimos de valor, influência esta que jamais abandonaria por completo.

A partir do ano de 1906, Keynes passou a trabalhar no India Office, que era um departamento inglês que tinha como função administrar as colônias do império britânico. Manteve esta atividade até 1908, quando demitiu-se e retornou a Cambridge, ainda no ano de 1908. Após esta breve passagem pelo serviço público no India Office (1906–1908), onde coletou material para seu primeiro livro, Keynes retornou a Cambridge onde inicialmente deu aulas de economia com apoio de Alfred Marshall e Arthur Pigou, enquanto continuava trabalhando em sua dissertação sobre probabilidade. Ele dedicava grande parte de seu tempo à pesquisa em teoria da probabilidade, tema então considerado parte do campo da filosofia e da lógica, e não da economia propriamente dita. Em 1909, foi eleito Fellow de King’s College com base nessa dissertação, consolidando sua posição na universidade.

Paralelamente, desenvolveu intensa atividade financeira: especulava com sucesso no mercado de ações e commodities, acumulando uma fortuna considerável (A fortuna de Keynes foi volátil, teve perdas relevantes antes de conseguir consolidar ganhos) que lhe permitiu viver com conforto e patrocinar as artes. Em 1915, Keynes deixou seu cargo na faculdade para trabalhar no Tesouro Britânico, a pedido do governo. Sua principal função na instituição foi a de preparar a equipe do país que participaria do Tratado de Versalles, referente as indenizações correspondentes aos prejuízos advindos da primeira guerra mundial.

Fez parte do célebre Grupo de Bloomsbury, círculo de escritores, pintores e intelectuais que incluía Virginia Woolf, Vanessa Bell, Duncan Grant e Clive Bell. Keynes manteve relações íntimas com alguns membros do grupo, antes de se casar, em 1925, com a bailarina russa Lydia Lopokova (1892-1981), estrela dos Ballets Russes de Diaghilev. O casal não teve filhos desta relação. O casamento, inicialmente surpreendente para seus amigos, revelou-se feliz e estável, oferecendo-lhe equilíbrio emocional em meio às intensas atividades intelectuais e públicas. Antes deste casamento Keynes teve relacionamentos públicos com homens, dentre os quais se destaca o pintor escocês Duncan Grant (nascido em Inverness, Escócia, mas de família inglesa e criado na Inglaterra) e o escritor Lytton Strachey. Registra-se a partir deste momento grande fluxo de atividade homossexual em sua vida. Keynes participou ativamente do grupo de intelectuais que compunham o grupo de Bloomsbury, no qual predominava a permissividade sexual, indefinição de papéis sexuais de gênero e total respeito à liberdade individual. Este tema biográfico da vida sexual de Keynes foi desenvolvido por Robert Skidelsky (John Maynard Keynes: Hopes Betrayed 1883–1920 - Volume 1, 1983).

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) projetou Keynes para o centro dos acontecimentos mundiais. Trabalhando no Tesouro britânico, ele participou da delegação inglesa nas negociações do Tratado de Versalhes em 1919. Fez, portanto, parte da conferência de Paris como delegado representando a Inglaterra no tocante às reparações devidas pela Alemanha ao final da primeira guerra mundial, mas por discordar do andamento das tratativas, se afastou das discussões, renunciando ao cargo.

Profundamente insatisfeito com as duras reparações impostas à Alemanha, Keynes renunciou ao cargo em protesto. Este envolvimento direto nas discussões sobre as reparações devidas e a paz, gerou reflexões que deram origem a sua obra de 1919, The economic consequences of peace (As consequências econômicas da paz), obra que o tornou famoso internacionalmente. Nela, além de acusar a delegação da França pela inflexibilidade e dureza em relação as reparações devidas pela Alemanha, previu com clareza que as condições do tratado levariam a instabilidade econômica, inflação e ressentimento na Europa, profecia que a história confirmaria tragicamente.

Nos anos seguintes, Keynes alternou ensino em Cambridge, jornalismo influente, especulação financeira e aconselhamento governamental. Criticou o retorno ao padrão-ouro na Grã-Bretanha em 1925, argumentando que ele prejudicaria a indústria e o emprego.

A Grande Depressão, iniciada em 1929, reforçou sua convicção de que os mecanismos automáticos do mercado não bastavam para garantir o pleno emprego. Sua saúde, porém, começou a sofrer: em 1937 sofreu um infarto, o que o obrigou a reduzir o ritmo, embora não tenha interrompido suas atividades.

Em 1942, recebeu o título de Barão Keynes de Tilton, e ingressou na Câmara dos Lordes. Durante a Segunda Guerra Mundial, Keynes voltou ao Tesouro britânico e representou o Reino Unido na Conferência de Bretton Woods (1944), onde ajudou a desenhar as instituições econômicas do pós-guerra (Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial). Keynes teve um papel de destaque na Conferência de Bretton Woods, 1944, que colocou as bases adotadas no sistema monetário internacional no pós-segunda guerra mundial. Embora tenha sido parcialmente sobrepujado pela delegação americana, suas ideias sobre a necessidade de cooperação internacional e de mecanismos para evitar desequilíbrios globais deixaram marca profunda. Em diversos momentos críticos da história, Keynes atuou como conselheiro do governo britânico.

Keynes publicou diversas obras, mas sua mais importante é “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, 1936, uma obra tardia e na qual suas ideias se encontram já bem maduras. Keynes é reconhecido como economista cuja obra afetou a teoria e prática da macroeconomia e as políticas econômicas adotadas pelos governos. Keynes também foi membro do Partido Liberal na Inglaterra.

A obra de Keynes deve ser lida e pensada dentro de seu tempo histórico, que inclui o entre guerras (primeira e segunda guerra mundial) e a crise da bolsa de Nova York gerando a grande recessão mundial. Segundo muitos comentadores, o New Deal proposto pelo governo de Franklin Delano Roosevelt nos EUA após a crise da bolsa, visando superar os efeitos da recessão e o estado de bem-estar social adotado pós-segunda guerra mundial por alguns países europeus, mostram a vitalidade e adoção das ideias de Keynes para a solução prática de problemas macroeconômicos, estes pontos serão, no entanto, aqui debatidos e criticados no transcurso deste artigo.

As ideias de Keynes influenciaram após a segunda guerra mundial e diante da ameaça representada pela URSS com seu suposto governo dentro de um modelo comunista / socialista, a criação do Estado de bem-estar social. Esta proposta foi adotada em particular em alguns países europeus (como Suécia, Noruega, Finlândia e Islândia), sendo que estes ficaram conhecidos como praticantes do keynesianismo nórdico.

Keynes atuou junto a economia política e a teoria da probabilidade. Diversos comentaristas o consideram o precursor do conceito de macroeconomia. Justamente pelo keynesianismo defender a interferência do Estado na economia, visando garantir o equilíbrio econômico e o emprego, é ele tido como oposto ao liberalismo.

Keynes se opõe ao liberalismo, isto é verdade, no entanto há um pequeno problema aqui que deve ser esclarecido. O problema é que “liberalismo” não é uma coisa única, o termo “liberalismo” não designa uma doutrina única e homogênea. É possível distinguir ao menos três níveis: liberalismo clássico, liberalismo político e neoliberalismo. O liberalismo clássico, tal como formulado por autores como Adam Smith e David Ricardo, baseia-se na ideia de que o mercado possui mecanismos autorreguladores capazes de conduzir a economia ao equilíbrio, com mínima necessidade de intervenção estatal. Sustenta, portanto, o princípio do laissez-faire e a autorregulação do mercado. O liberalismo político, característico da tradição inglesa, é centrado na defesa das liberdades individuais, das instituições representativas e da economia de mercado. Já o neoliberalismo contemporâneo, em autores como Friedrich Hayek e Milton Friedman, reforça a crítica ao intervencionismo e defende a limitação do papel do Estado na economia. Embora Keynes tenha sido membro do Partido Liberal inglês e jamais tenha se identificado com o socialismo ou o comunismo, sua teoria econômica se afasta de maneira significativa dos princípios centrais do liberalismo econômico clássico e também das formulações posteriores do neoliberalismo. Keynes rompe claramente com o liberalismo econômico clássico e se opõe a diversos aspectos do neoliberalismo, ao sustentar que o mercado pode falhar de forma estrutural, produzindo desemprego involuntário persistente e crises prolongadas, o que exige a atuação ativa do Estado por meio de políticas fiscais e monetárias. No entanto, ele permanece inserido na tradição do liberalismo político britânico, sendo defensor das instituições liberais e do capitalismo.  Keynes não é anti-liberal, ele é anti-laissez-faire clássico e crítico de certas formas de liberalismo econômico. Nele temos oposição ao liberalismo econômico clássico, crítica ao laissez-faire e divergência com o neoliberalismo contemporâneo. É importante destacar que Keynes era liberal dentro da tradição reinante em seu país, que era inclusive membro do Partido Liberal e publicamente defensor do capitalismo contra o comunismo/socialismo. Assim, ao afirmar que Keynes se opõe ao liberalismo, deve-se compreender essa oposição no plano da teoria econômica (especialmente contra o laissez-faire) e não como rejeição da tradição político-institucional liberal à qual ele próprio pertenceu. Embora permaneça no interior de uma defesa do capitalismo, sua concepção não se insere na doutrina liberal em seu sentido econômico clássico, mas representa uma inflexão decisiva em direção a um modelo no qual o Estado assume papel central na estabilização da economia.

Sua vida reflete a passagem de um intelectual brilhante, pertencente à elite cultural britânica, para um ator central na reconstrução do mundo após duas guerras mundiais. Mais do que um economista técnico, Keynes foi um pensador que combinou rigor matemático, sensibilidade estética (graças ao Grupo de Bloomsbury) e pragmatismo político. Sua trajetória ilustra como ideias nascidas em salas de Cambridge e salões londrinos podiam moldar políticas que afetariam milhões de seres humanos no século da contemporaneidade. Keynes faleceu em 21 de abril de 1946, aos 62 anos, em sua casa de campo em Tilton, East Sussex, vítima de outro ataque cardíaco, logo após retornar de negociações em Washington. Morreu como um dos economistas mais influentes do século XX, tendo revolucionado não apenas a teoria econômica, mas também a forma como governos contemporâneos lidam com crises, desemprego e estabilização da demanda.

 

2- Ideias

 

John Maynard Keynes não foi apenas um economista técnico; foi um pensador que rompeu com os pressupostos centrais da economia clássica e lançou as bases da macroeconomia contemporânea. Sua contribuição principal reside na demonstração de que o desemprego involuntário pode persistir mesmo em condições de equilíbrio de mercado e de que o nível geral de atividade econômica é determinado pela demanda agregada, e não apenas pela oferta. Para ele, o Estado deve atuar ativamente por meio de políticas fiscais e monetárias para estabilizar a economia, combater o desemprego e promover o pleno emprego. Essas ideias representaram uma verdadeira revolução no modo de compreender o funcionamento das economias capitalistas no século XX.

Cabe destaque a sua teoria econômica e também a sua teoria sobre a probabilidade. Antes de revolucionar a macroeconomia, Keynes dedicou-se profundamente à filosofia da probabilidade. Em 1921, publicou A Treatise on Probability (Tratado sobre a Probabilidade), obra que representa uma de suas contribuições mais originais e que exerceu influência silenciosa, mas decisiva, em toda a sua obra posterior.

Diferentemente da visão clássica que reduz a probabilidade a frequências observáveis ou a cálculos puramente matemáticos, Keynes propôs uma interpretação lógica da probabilidade. Para ele, a probabilidade não é um número objetivo extraído de dados repetidos, mas uma relação lógica entre um conjunto de evidências (premissas) e uma hipótese (conclusão). Trata-se de um grau racional de crença que se pode atribuir a uma proposição com base nas informações disponíveis. Nem sempre essa relação pode ser expressa numericamente de forma precisa ou comparável entre diferentes situações.

Keynes introduziu ainda o conceito de peso da evidência (weight of argument). Mesmo quando atribuímos uma probabilidade numérica a um evento, é essencial avaliar quão completa e sólida é a base de conhecimento sobre o qual essa probabilidade se apoia. Um argumento pode ter alta probabilidade, mas baixo peso (pouca evidência confiável), o que reduz sua utilidade prática para a tomada de decisão.

Essa reflexão filosófica sobre a probabilidade e a incerteza foi fundamental para a economia keynesiana. Na Teoria Geral (1936), Keynes distingue claramente entre risco (situações mensuráveis, onde a probabilidade pode ser calculada) e incerteza verdadeira (situações em que não dispomos de base estatística suficiente para atribuir probabilidades confiáveis). É nessa incerteza radical que os “espíritos animais” (impulsos de otimismo ou pessimismo irracional) ganham força, e que a preferência pela liquidez se intensifica. Os investidores não agem como calculadores frios de probabilidades; eles navegam num mundo onde o futuro é, em grande medida, incognoscível.

A teoria da probabilidade revela, portanto, o Keynes mais filosófico: um pensador influenciado pelo ambiente de Cambridge e pelo Grupo de Bloomsbury, que nunca separou completamente a análise econômica da reflexão sobre o conhecimento humano, a racionalidade limitada e os limites da previsão científica. Sem essa base, dificilmente se compreenderia por que ele insistiu tanto na necessidade de intervenção estatal ativa diante de crises que o mercado sozinho não consegue resolver.

Keynes defendia uma política de expansão econômica com a geração e aumento do poder aquisitivo e do nível de vida dos trabalhadores com pleno emprego e aumento da produção. A teoria proposta na obra de Keynes ficou conhecida por seus seguidores como “teoria keynesiana”. Em síntese, Keynes argumentava que o governo das nações tem um importante papel a desempenhar na macroeconomia, visando estabilizar a economia por meio de intervenções fiscais. Neste tocante entra como instrumento os gastos públicos e as políticas monetárias. O governo pode, por meio de suas políticas monetárias, atuar no controle da oferta de moeda e nas taxas de juros adotadas pelo mercado. Deste modo, é papel do governo estimular a demanda agregada visando manter o emprego e prevenir prolongadas recessões.

Keynes prega uma política estatal intervencionista e protecionista atuando por meio de impostos nas importações e equilibrando a balança aduaneira, de modo a eliminar o déficit comercial. Cabe a ressalva, no entanto, que Keynes não era um protecionista sistemático, suas posições variaram ao longo da vida e ele próprio reconhecia tensões entre protecionismo e cooperação internacional (como em Bretton Woods). Keynes faz críticas ao livre comércio e propõe que este seja regularizado. Também buscou a autossuficiência das nações, no tocante ao máximo de produtos possíveis para seu consumo.

Dentre os principais conceitos desenvolvidos na obra de Keynes temos: demanda agregada; intervenção do governo; política monetária; pleno emprego; ciclos econômicos. Ele entendeu que a demanda agregada inclui o consumo privado, o investimento privado, os gastos do governo, as exportações líquidas, sendo o principal determinante do produto nacional e do emprego. Segundo o pensamento de Keynes, durante períodos de recessão temos queda na demanda agregada e isto pode ter como resultado a redução da produção e o aumento do desemprego em larga escala. Keynes defende a intervenção do governo na economia, visando obter estabilidade e promover o crescimento econômico. Segundo suas ideias, o setor privado mostra-se incapaz de conseguir sozinho a recuperação durante períodos de recessão, cabendo ao governo atuar aumentando os gastos públicos, investindo em infraestrutura e programas sociais, bem como, reduzindo os impostos visando estimular a demanda agregada e a revitalização da economia nacional. Keynes também defende que haja uma política monetária na qual temos o controle das taxas de juros pelo banco central. Quando da redução das taxas de juros temos o incentivo para o investimento privado e o estímulo para o crescimento econômico. No tocante ao pleno emprego, entende que devem haver políticas econômicas voltadas para restaurar e manter o emprego em níveis sustentáveis. A economia pode atuar abaixo do pleno emprego em decorrência de falhas no mercado de trabalho, tais como salários rígidos ou ineficiência na correspondência entre oferta e demanda de trabalho. O pensamento desenvolvido por Keynes em sua obra, reconhece a existência de ciclos econômicos de expansão e de contração. Entende que durante períodos de expansão cabe aos governos adotar políticas contracíclicas para evitar o superaquecimento da economia, já durante períodos de recessão, cabe adotar políticas expansionistas visando estimular a atividade econômica dentro da sociedade. Visando combater a inflação e estimular o desenvolvimento da economia, cabe ao Banco Central elevar as taxas de juros quando os preços tiverem tendência a subir e baixá-las quando os preços tiverem tendência para cair. Trata-se do Estado assumir a responsabilidade por garantir o pleno emprego, a qualidade de vida do trabalhador, suas moradias, educação, saúde, lazer e previdência social. Mas claro está, quanto mais intervencionista for o Estado, maior este se torna e maiores são as contribuições obtidas de seus cidadãos por meio de impostos.

Keynes criticava o padrão-ouro, principalmente por sua rigidez. Ele argumentava que atrelar a moeda a uma quantidade fixa de ouro impedia os bancos centrais de ajustarem a oferta monetária conforme as necessidades internas da economia, especialmente para combater desemprego ou deflação. Essa rigidez, segundo ele, agravava crises ao forçar ajustes dolorosos via queda de salários e preços (deflação). O sistema internacional de Bretton Woods (1944), que Keynes ajudou a negociar, criou um padrão-ouro “dólar-centrado” (o dólar era conversível em ouro, e outras moedas em dólar). Esse arranjo durou até 1971, quando o presidente Nixon suspendeu a convertibilidade do dólar em ouro. A partir daí, o mundo passou integralmente para o regime de moedas fiduciárias flutuantes. Essa realidade atual reforça a vitória prática das ideias keynesianas (e de outros defensores de políticas monetárias ativas): desde os anos 1970, os bancos centrais têm liberdade para expandir ou contrair a base monetária conforme as condições econômicas, exatamente o oposto da rigidez que Keynes combatia no padrão-ouro. No entanto, essa flexibilidade também gera debates críticos: inflação persistente, dívida pública elevada e questionamentos sobre o valor “real” das moedas fiduciárias.

As ideias desenvolvidas por Keynes, no tocante à macroeconomia, se colocam a meio termo entre a teoria econômica clássica do Liberalismo de Adam Smith com sua “mão invisível” e a teoria comunista de Karl Marx. Entre o total laissez-faire e laissez-passer com a valorização da propriedade privada por um lado e a total intervenção estatal e a supressão da propriedade privada por outro, temos Keynes defendendo um capitalismo no qual o Estado possa e deva intervir para manter o equilíbrio e estimular a economia.

A obra fundamental de Keynes, “A teoria geral do emprego, do juro e da moeda”, 1936, parte de uma crítica profunda à economia clássica. Os economistas clássicos acreditavam que o mercado, deixado a si mesmo, tenderia naturalmente ao pleno emprego. Segundo eles, qualquer desemprego seria voluntário ou ficcional, resultado de salários excessivos ou de ajustes temporários. Keynes demonstrou que isso não corresponde à realidade. Pode existir desemprego involuntário persistente: seres humanos dispostos a trabalhar pelo salário vigente, mas sem encontrar emprego porque a demanda agregada é insuficiente.

O conceito-chave é o de demanda agregada (a soma do consumo, do investimento, dos gastos governamentais e do saldo líquido das exportações). Quando essa demanda é baixa, as empresas reduzem a produção e dispensam trabalhadores. O sistema não se corrige automaticamente, como supunha a tradição clássica. Ao contrário, pode se estabilizar num nível baixo de atividade, com alto desemprego.

Keynes introduziu a propensão marginal a consumir: à medida que a renda aumenta, os humanos consomem mais, mas em proporção decrescente. Parte da renda adicional é poupada. Isso leva ao famoso paradoxo da poupança: se todos tentam poupar mais em tempos de crise, o consumo cai, a demanda agregada diminui e a renda geral também cai, resultando em menos poupança efetiva para a sociedade como um todo.

Outro pilar é o multiplicador. Um gasto inicial (por exemplo, obras públicas financiadas por déficit) aumenta a renda dos trabalhadores, que então consomem parte dessa renda, gerando nova renda para outros, e assim sucessivamente. O efeito total sobre a renda e o emprego é várias vezes maior que o gasto inicial. O tamanho do multiplicador depende da propensão marginal a consumir: quanto maior a parcela consumida, maior o multiplicador. Keynes mostrou que um gasto inicial (seja investimento privado, obras públicas ou qualquer aumento autônomo de demanda) gera um efeito em cadeia muito maior sobre a renda e o emprego na sociedade como um todo. Imagine que o governo gaste uma quantia extra em construção de estradas. Os trabalhadores e empresas que recebem esse dinheiro agora têm mais renda. Eles não guardam tudo: gastam parte dela em consumo (compram comida, roupas, serviços). Esse novo consumo se torna renda para outros seres humanos, que também gastam uma parte, e assim sucessivamente. O efeito inicial se multiplica ao longo da economia. O tamanho desse multiplicador depende da propensão marginal a consumir (a fração da renda adicional que as pessoas tendem a gastar em consumo, em vez de poupar). Quanto maior a parcela que as pessoas consomem de cada unidade extra de renda, maior será o multiplicador. Se, por exemplo, as pessoas consomem 80% da renda adicional, o multiplicador será maior do que se consumissem apenas 50%.

Esse mecanismo está intimamente ligado ao paradoxo da poupança: se todos tentam poupar mais ao mesmo tempo (especialmente numa crise), o consumo cai, a demanda agregada diminui e a renda geral da economia também cai. No final, a sociedade poupa menos do que pretendia, porque há menos renda circulando. O que parece racional para cada indivíduo (poupar mais) torna-se prejudicial para o conjunto.

Por isso, Keynes defendia que, em períodos de baixa demanda, o Estado pode usar gastos públicos (mesmo que temporariamente deficitários) para iniciar esse processo multiplicador, elevando a atividade econômica, gerando empregos e restaurando a confiança. Uma vez recuperada a economia, a própria expansão da renda permite recolher mais impostos e equilibrar as contas públicas ao longo do tempo.

Keynes também revolucionou a compreensão do juro e do investimento. Na teoria clássica, o juro equilibrava poupança e investimento. Para Keynes, o juro é o preço que compensa a preferência pela liquidez (o desejo humano de manter dinheiro em forma líquida por motivos de transação, precaução e especulação). Quando a incerteza é alta, a preferência pela liquidez aumenta, os juros sobem e o investimento privado cai. Mesmo com juros baixos, o investimento pode não se recuperar se as expectativas de lucro (a “eficiência marginal do capital”) forem pessimistas.

Aqui entra o papel central das expectativas e da incerteza. Diferentemente da probabilidade mensurável (tema que Keynes já havia explorado em seu Tratado sobre a Probabilidade, de 1921), a incerteza econômica verdadeira não permite cálculos precisos. Os investidores agem guiados por “espíritos animais”, impulsos irracionais de otimismo ou pessimismo. Em períodos de baixa confiança, nenhum corte de juros consegue estimular suficientemente o investimento privado.

Diante disso, Keynes conclui que a política monetária sozinha (redução de juros ou aumento da oferta de moeda) pode ser insuficiente, especialmente numa “armadilha da liquidez”, quando os humanos preferem guardar dinheiro mesmo com juros muito baixos. A solução mais eficaz é a política fiscal ativa: o Estado deve aumentar seus gastos (mesmo que gere déficit temporário) para elevar diretamente a demanda agregada, criar empregos e restaurar a confiança. Uma vez recuperada a economia, os impostos mais altos sobre a renda elevada podem equilibrar as contas públicas. Aqui, portanto, encontramos um conceito decisivo para compreender a lógica da intervenção estatal em Keynes que é o de “armadilha da liquidez”. Trata-se de uma situação em que as taxas de juros já se encontram tão baixas que os agentes econômicos (famílias, empresas e investidores) preferem reter moeda em forma líquida a aplicá-la em investimentos ou títulos, pois não vislumbram perspectivas de lucro compensadoras. Nesse cenário, mesmo que o banco central expanda a oferta monetária ou reduza ainda mais os juros, o efeito sobre o investimento e o consumo é praticamente nulo: a economia entra em espécie de paralisia, onde a política monetária perde sua eficácia. É exatamente aqui que Keynes rompe de forma mais radical com a tradição clássica: se o mercado e os instrumentos monetários convencionais são incapazes de reativar a economia, cabe ao Estado intervir diretamente por meio do gasto público, mesmo que isso implique déficit temporário. A armadilha da liquidez não é, portanto, uma anomalia ocasional no pensamento keynesiano, é o argumento mais contundente em favor da primazia da política fiscal sobre a política monetária em momentos de crise profunda.

Essas ideias não nascem do vazio. Keynes carregava influências filosóficas profundas, especialmente de George Edward Moore (1873-1958), que enfatizava os estados de espírito e a experiência direta como critérios de valor. Essa sensibilidade estética e psicológica ajudou-o a incorporar elementos comportamentais e irracionais na análise econômica, o que de fato era algo raro na sua época histórica.

Em síntese, a Teoria Geral não é apenas um manual de política anticrise. É uma visão nova do funcionamento das economias contemporâneas: o mercado não é um mecanismo autorregulador perfeito; ele pode gerar equilíbrios ruins, com recursos ociosos e sofrimento humano desnecessário. Cabe ao poder público intervir para corrigir esses desequilíbrios e aproximar a economia do pleno emprego.

 

2.1- Keynes e o New Deal: Um anacronismo na história

 

Uma das associações mais repetidas na divulgação histórica e econômica é a de que o New Deal de Franklin D. Roosevelt (1882-1945) foi uma aplicação prática das ideias keynesianas. Trata-se, porém, de um anacronismo presente na história. Lembramos que por anacronismo entendemos um erro cronológico infelizmente deveras comum, que consiste em situar pessoas, objetos, costumes, conceitos ou ideias fora de sua época correta, analisando o passado com valores do presente.

A principal obra de Keynes, “A teoria geral do emprego, do juro e da moeda”, foi publicada apenas em fevereiro de 1936. Quando Roosevelt assumiu a presidência em março de 1933 e lançou os primeiros programas do New Deal durante os célebres “Cem Dias”, a teoria keynesiana madura ainda não existia. As raízes intervencionistas do New Deal remontam, na verdade, ao governo anterior. Herbert Hoover (1874-1964), presidente norte-americano entre 1929-1933 (foi o 31.º presidente dos Estados Unidos), frequentemente retratado como defensor rígido do laissez-faire, já havia iniciado medidas significativas de intervenção estatal: criou a Reconstruction Finance Corporation (1932) para socorrer bancos e empresas, promoveu obras públicas, apoiou preços agrícolas e aumentou os gastos federais. Roosevelt ampliou e radicalizou esse caminho, mas não o inventou. A continuidade entre Hoover e Roosevelt é maior do que a narrativa política posterior quis admitir.

Ideias semelhantes às que Keynes sistematizaria em 1936 já circulavam na Europa desde o início da década de 1930. A chamada Escola de Estocolmo, formada por economistas suecos como Gunnar Myrdal (1898-1987), Bertil Ohlin (1899-1979) e Erik Lindahl (1891-1960), defendia políticas contracíclicas, obras públicas financiadas por déficit orçamentário, intervenção estatal para elevar a demanda e combate ativo ao desemprego. Publicações importantes dessa Escola datam de 1931 a 1934, antecipando vários elementos da teoria keynesiana. Embora não haja evidência de influência direta sobre a equipe de Roosevelt, a convergência de ideias intervencionistas estava claramente “no ar” em vários países. Ao que parece, o final dos anos da década de 1920 e início da década de 1930 trouxeram para o capitalismo ideias referentes a uma maior intervenção do Estado na Economia e estas circulavam amplamente em vários círculos antes mesmo de serem sistematizadas, organizadas e terem reconhecimento maior a partir da obra de Keynes.

No Brasil, a relação entre Roosevelt e Getúlio Vargas reforça esse quadro de convergência pragmática, e não de aplicação teórica. Os dois presidentes mantiveram uma relação próxima de amizade e reconhecimento mútuo. Encontraram-se pessoalmente em 1943, em Natal (Rio Grande do Norte), e trocaram elogios públicos. Roosevelt chegou a declarar, em tom retórico, durante uma visita ao Rio de Janeiro em novembro de 1936: “Duas pessoas inventaram o New Deal: o Presidente do Brasil e o Presidente dos Estados Unidos.” Vargas admirava o ativismo estatal americano e implementou, no Estado Novo, medidas de intervenção econômica, legislação trabalhista e industrialização que apresentavam paralelos superficiais com o New Deal. Tratava-se, porém, de uma convergência política e diplomática, marcada pelo contexto da Segunda Guerra Mundial e pelos interesses estratégicos bilaterais, e não de uma adoção direta de doutrina econômica. Apesar dos modelos ideológicos de ambos países (um mais democrático e outro mais autoritário) serem diferentes, houve uma aproximação no tocante às ideias referentes à aplicação de um modelo econômico que respondesse as demandas oriundas da crise econômica mundial daquela época histórica.

O próprio encontro pessoal entre Keynes e Roosevelt ilustra bem as distâncias entre teoria e prática. Os dois se viram uma única vez, em 28 de maio de 1934, na Casa Branca. O encontro foi intermediado por Felix Frankfurter e durou cerca de uma hora. As impressões foram educadas em público, mas reservadas em particular. Segundo o relato de Frances Perkins, Secretária do Trabalho, Roosevelt comentou depois: “Vi seu amigo Keynes. Ele me deixou um monte de algarismos confusos. Deve ser mais matemático do que economista político.”

Keynes, por sua vez, admirou a ousadia das ações de Roosevelt, mas observou com cautela que havia “suposto que o Presidente fosse mais letrado, economicamente falando”. O choque era previsível: Keynes falava em equações, multiplicadores e demanda agregada; Roosevelt governava por instinto político, experimentação (“trial and error”) e coalizões pragmáticas.

Essa discussão revela um ponto central para a compreensão crítica da história das ideias: o New Deal não nasceu da Teoria Geral de 1936, mas de respostas pragmáticas e ecléticas à catástrofe da Grande Depressão. Muitos analistas argumentam, inclusive, que as políticas intervencionistas de Hoover e Roosevelt (rigidez salarial, cartéis agrícolas e industriais, regulamentações excessivas e aumento de impostos) contribuíram para prolongar a depressão em vez de resolvê-la. A recuperação econômica americana só ganhou força consistente a partir de 1938-1939, com os preparativos bélicos, e especialmente durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando o enorme gasto público de guerra elevou a demanda agregada de forma decisiva.

Keynes apoiou o New Deal a partir de 1933 (inclusive com uma “Carta Aberta ao Presidente Roosevelt” publicada no The New York Times), mas atuou mais como observador e torcedor eloquente do que como inspirador original. A narrativa posterior que transforma o New Deal em “aplicação prática do keynesianismo” é, portanto, um retrocesso historiográfico: projeta sobre eventos de 1933 uma teoria que só foi plenamente articulada em 1936. Esse anacronismo ajudou a consolidar o keynesianismo como doutrina oficial do século XX, mas obscurece a complexidade real das origens das políticas intervencionistas contemporâneas.

 

3- Palavras finais

 

A obra de John Maynard Keynes deve ser lida e avaliada com o devido cuidado histórico. Embora tenha exercido enorme influência na macroeconomia contemporânea e tenha servido de base teórica para muitas políticas intervencionistas do século XX, sua teoria não escapou das limitações de seu tempo. Como vimos, a associação direta entre o keynesianismo e o New Deal constitui um anacronismo frequente, e muitas das medidas intervencionistas dos anos 1930 antecederam ou desenvolveram-se paralelamente à formulação madura de suas ideias. Keynes foi, sem dúvida, um pensador brilhante que soube identificar falhas reais do mecanismo de mercado, especialmente a possibilidade de desemprego involuntário persistente e a importância da demanda agregada. No entanto, sua defesa de uma intervenção estatal ativa também abriu caminho para o crescimento desmedido do aparato governamental, para o aumento crônico da dívida pública e para a dependência de estímulos fiscais que, em muitos casos, prolongaram desequilíbrios em vez de resolvê-los. Em última análise, a grande contribuição de Keynes não reside em oferecer soluções definitivas, mas em ter desafiado corajosamente os dogmas da economia clássica e em ter forçado o pensamento econômico a levar em conta a complexidade do comportamento humano, a incerteza radical e os limites da autorregulação do mercado. Cabe a nós, hoje, ler Keynes criticamente: reconhecendo sua genialidade sem transformar suas ideias em uma nova ortodoxia intocável. Menos do que ideias novas e imutáveis, Keynes nos traz uma visão alternativa em relação ao stablishment reinante em sua época, algo sempre saudável para o debate crítico e possível avanço das ideias e do conhecimento humano.

 

4- Algumas das principais obras de Keynes

 

1- Indian Currency and Finance. Título traduzido para o português: Moeda e finanças na Índia. Ano da primeira publicação: 1913.

Nesta sua primeira grande obra, Keynes analisa o sistema monetário e financeiro da Índia sob o domínio britânico. Ele examina os mecanismos de emissão de moeda, as reservas de ouro e prata e os problemas de instabilidade cambial, defendendo reformas que garantissem maior flexibilidade e estabilidade ao sistema colonial. O livro revela já o interesse precoce do autor pela política monetária prática e pela relação entre moeda e desenvolvimento econômico.

2- The Economic Consequences of the Peace. Título traduzido para o português: As consequências econômicas da paz. Ano da primeira publicação: 1919.

Escrito logo após a Primeira Guerra Mundial, o livro é uma crítica devastadora ao Tratado de Versalhes. Keynes argumenta que as reparações impostas à Alemanha eram economicamente insustentáveis e que, ao empobrecerem o principal motor industrial da Europa, condenariam o continente inteiro a um longo período de instabilidade, inflação e desemprego. A obra tornou Keynes famoso mundialmente por sua capacidade de combinar análise técnica com previsão política.

3- A Tract on Monetary Reform. Título traduzido para o português: Tratado sobre a reforma monetária. Ano da primeira publicação: 1923.

Keynes defende uma reforma radical do sistema monetário internacional, criticando o retorno ao padrão-ouro como uma rigidez perigosa. Ele propõe que os bancos centrais priorizem a estabilidade dos preços internos e o pleno emprego, em vez de defender uma paridade fixa com o ouro. É o primeiro texto em que ele articula claramente a ideia de que a política monetária deve ser ativa e flexível para enfrentar choques econômicos.

4- A Treatise on Money. Título traduzido para o português: Tratado sobre a moeda. Ano da primeira publicação: 1930 (dois volumes).

Obra ambiciosa e técnica em dois volumes, o livro aprofunda a teoria monetária. Keynes distingue claramente os conceitos de poupança e investimento, analisa o papel dos bancos na criação de crédito e explora como desequilíbrios entre poupança e investimento podem gerar inflação ou deflação. Embora ainda preso a certos pressupostos clássicos, o Tratado já prepara o terreno para a grande ruptura teórica que viria em 1936.

5- Essays in Persuasion. Título traduzido para o português: Ensaios de persuasão. Ano da primeira publicação: 1931.

Coletânea de artigos e ensaios escritos entre 1919 e 1931, o livro reúne textos acessíveis ao público leigo. Keynes defende, de forma clara e persuasiva, suas ideias sobre a necessidade de intervenção estatal, a crítica ao padrão-ouro e as políticas de estímulo à demanda. É uma das obras mais legíveis do autor e revela seu talento para comunicar ideias complexas ao grande público.

6- The General Theory of Employment, Interest and Money. Título traduzido para o português: A teoria geral do emprego, do juro e da moeda. Ano da primeira publicação: 1936.

Considerada a obra-prima de Keynes e um dos livros mais influentes do século XX, a Teoria Geral rompe definitivamente com a economia clássica. Keynes demonstra que o desemprego involuntário pode ser um fenômeno persistente mesmo em equilíbrio de mercado e que o nível de atividade econômica é determinado pela demanda agregada. Propõe, portanto, que o Estado atue ativamente por meio da política fiscal e monetária para manter o pleno emprego e estabilizar a economia. Esta obra fundou as bases da macroeconomia moderna e do pensamento keynesiano.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua autoria)