Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

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terça-feira, 29 de setembro de 2026

John Dewey: Filosofia, Pragmatismo, Educação, Experiência e Democracia

 

“Conflict is the gadfly of thought.”

“O conflito é o aguilhão do pensamento.”

John Dewey, Human Nature and Conduct (1922), Parte IV, seção "Morals are human"

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

John Dewey

 

John Dewey foi um dos mais importantes filósofos norte-americanos do século XX e uma das figuras centrais do Pragmatismo. Seu nome é frequentemente associado à educação e à chamada educação progressiva, mas reduzir seu pensamento à pedagogia significa perder de vista a amplitude de sua filosofia. Dewey desenvolveu uma concepção própria da experiência, do conhecimento, da investigação, da ética, da democracia, da arte e da religião, procurando compreender todos esses domínios a partir da relação dinâmica entre o ser humano e o ambiente em que vive. Sua filosofia é, em grande medida, uma tentativa de substituir a busca por certezas absolutas por uma inteligência experimental capaz de enfrentar problemas concretos e reconstruir continuamente a experiência.

A importância de John Dewey está também na maneira como ele procura superar antigas separações que marcaram a tradição filosófica, como aquelas entre teoria e prática, pensamento e ação, indivíduo e sociedade, conhecimento e experiência. Para Dewey, pensar não é simplesmente contemplar uma realidade já pronta, mas investigar situações problemáticas e encontrar, por meio da inteligência, formas mais adequadas de agir. A educação, nesse contexto, deixa de ser apenas transmissão de conhecimentos e preparação para o futuro e passa a constituir uma dimensão fundamental da própria vida humana. Compreender Dewey é, portanto, compreender uma filosofia da experiência, da investigação e da reconstrução, profundamente ligada aos problemas da sociedade, da democracia e da formação humana.

 

1- Vida

 

John Dewey (1859-1952) nasceu em Burlington, Vermont, EUA, em 20 de outubro de 1859 e falece então aos 92 anos de idade (1º de junho de 1952) em Nova York. Filho de Archibald Sprague Dewey e Lucina Artemisia Rich Dewey (o casal teve no total quatro filhos e Dewey foi o terceiro a nascer), família de comerciantes e que assumiam a religião protestante congregacionalista. A família viveu em ambiente de classe média, com forte ênfase religiosa e moral. O pai serviu como intendente na Guerra Civil, o que levou a uma separação temporária da família.


Fez seus estudos básicos em Burlington, Vermont, e ali mesmo cursou uma universidade local (University of Vermont), na qual ingressa em 1875 e se forma em 1879. Em sequência passou a estudar na Johns Hopkins University, em Baltimore. O currículo clássico e a influência do professor Henry A. P. Torrey despertaram seu interesse pela filosofia. Após a graduação, lecionou por dois anos no ensino secundário em Oil City, Pensilvânia (1879-1881), e depois em Charlotte, Vermont. Nesse período começou a afastar-se da ortodoxia religiosa familiar, embora ainda frequentasse a igreja por algum tempo.

 

Neste início de formação foi iniciado ao pensamento dos evolucionistas, do Positivismo de Comte, do Idealismo de Hegel. Sua tese de Doutorado foi sobre a psicologia em Kant, desenvolvida entre 1882 e 1884 na Universidade Johns Hopkins. Entre 1884 e 1894 atuou como instrutor e professor da universidade de Michigan, EUA (Michigan em 1884–1888 e 1889–1894, com Minnesota em 1888–1889). Em seu período posterior à Universidade de Michigan, cabe destacar a influência filosófica de George Sylvester Morris no tocante ao papel exercido pelo idealismo hegeliano nesta fase do pensamento de Dewey. Até o final da década de 1890 sua postura o aproximava de uma visão filosófica neo-hegeliana, mas a partir desta época começa a adotar o Pragmatismo. Em verdade, John Dewey, conjuntamente com Charles Sanders Peirce e William James, são os fundadores do Pragmatismo nos EUA. Em verdade, a maioria dos historiadores da filosofia trata Peirce como o originador (Metaphysical Club, anos 1870), James como o divulgador, e Dewey como a "segunda geração", que sistematiza e desenvolve o movimento décadas depois. Apesar disto, preferia usar no lugar de “Pragmatismo” o termo “Instrumentalismo” para descrever sua própria filosofia. Em sua fase madura, Dewey também utilizou “experimentalismo” e chegou a preferir “cultural naturalism” / naturalismo cultural como caracterização de sua filosofia. Aqui há uma evolução terminológica: pragmatismo → instrumentalismo/experimentalismo → naturalismo cultural. Doutorou-se em 1884 com uma dissertação sobre a psicologia de Kant (perdida). Também ensinou na universidade de Minessota e, em 1894 passa a lecionar na universidade de Chicago, ocupando uma cátedra de pedagogia, onde fica até 1904. Em 1905 passa a lecionar na universidade de Columbia, Nova York, onde fica até o ano de 1930.

Em 1886 John Dewey casa com Harriet Alice Chipman (1858-1927), com quem tem seis filhos. Harriet Alice era uma de suas alunas, oriunda de Fenton, Michigan, órfã criada pelos avós maternos e mulher de forte personalidade, interesses feministas e sensibilidade social. Alice exerceu influência decisiva sobre Dewey, empurrando-o para questões práticas, educacionais e de justiça social, e afastando-o ainda mais da religião institucional. O casal teve seis filhos biológicos e adotou um, a saber: Frederick Archibald (1887); Evelyn Riggs (1889); Morris (nascido por volta de 1893, morreu de difteria em Milão, em 1895, durante viagem da família à Europa); Gordon Chipman (1896, morreu de febre tifoide na Irlanda, em 1904); Lucy Alice (1897); Jane Mary (1900); Sabino Lewis (adotado por volta de 1905, ele nasceu em Veneza em abril de 1898). As mortes de Morris e, especialmente, de Gordon foram golpes profundos. Dewey e Alice nunca se recuperaram plenamente; a perda do segundo filho ocorreu no momento em que a família deixava Chicago, agravando o trauma.

Dewey atuou como psicólogo, filósofo e educador. Como educador fundou e atuou conjuntamente com sua esposa, em escolas experimentais, nas quais adotava um método que buscava integrar a teoria provinda das ciências com a prática cotidiana no transcorrer da aprendizagem dos alunos. Dewey entende ser fundamental na educação o desenvolvimento da capacidade de raciocínio e crítica. As ideias estudadas e desenvolvidas devem estar voltadas para a solução de problemas reais cotidianos. John Dewey defendia a “educação progressiva”, na qual o aluno deve ser entendido como sendo um todo e o objetivo deve ser o desenvolvimento global, que inclui o físico, emocional e intelectual.

Entre 1888 e 1889 Dewey ocupou a cátedra de filosofia na University of Minnesota, retornando logo a Michigan como chefe do departamento após a morte de Morris. Em Michigan consolidou amizades intelectuais duradouras, sobretudo com George Herbert Mead e James Hayden Tufts, e iniciou a transição do idealismo hegeliano para uma filosofia mais experimental e naturalista, influenciada pela psicologia funcional e pelo darwinismo.

Em 1894 aceitou o convite de William Rainey Harper para dirigir o Departamento de Filosofia, Psicologia e Educação da University of Chicago. Ali fundou, em 1896, a University Elementary School (depois conhecida como Laboratory School ou “Dewey School”), experiência pioneira de educação progressiva centrada na atividade, no interesse da criança e na reconstrução da experiência. Alice passou a atuar como principal da escola em 1901. A experiência foi extraordinariamente frutífera do ponto de vista teórico, mas administrativamente turbulenta. Conflitos com o corpo docente (especialmente após a fusão com a escola de Francis W. Parker), críticas à gestão de Alice e pressões do presidente Harper levaram Alice a pedir demissão em 1904. Dewey, solidário e já exausto das funções administrativas, renunciou também e deixou Chicago.

Ainda em 1904 aceitou o cargo de professor de filosofia na Columbia University, em Nova York (iniciando suas atividades em 1905), onde permaneceria até a aposentadoria em 1930 (continuando como professor emérito em residência). Em Columbia consolidou sua reputação internacional, publicou suas obras maduras e manteve intensa atividade pública. Foi presidente da American Psychological Association (1899-1900) e da American Philosophical Association (1905-1906).

Entre 1919 e 1921 realizou a mais importante de suas viagens: Japão e, sobretudo, China (onde permaneceu cerca de dois anos). Em Pequim e outras cidades proferiu centenas de conferências, testemunhou o “Movimento de 4 de Maio” e tornou-se referência para intelectuais chineses (Hu Shih e outros). A experiência reforçou sua fé na democracia como forma de vida e na educação como instrumento de reconstrução social. Em 1924 visitou a Turquia a convite do governo, elaborando um relatório sobre a reforma educacional. Em 1926 esteve no México e, em 1928, na União Soviética, onde observou as experiências educativas pós-revolucionárias com interesse inicial, mas também com reservas crescentes.

Alice Chipman Dewey morreu em 14 de julho de 1927, após anos de saúde frágil (malária contraída na Turquia, problemas cardíacos agravados no México). Dewey ficou viúvo por quase duas décadas. Em 11 de dezembro de 1946, aos 87 anos, casou-se com Roberta Lowitz Grant (viúva, cerca de 42 anos), antiga conhecida. O casal adotou dois irmãos (Lewis, depois chamado John Jr., e Shirley/Adrienne).

Nos últimos anos Dewey continuou a escrever, a intervir publicamente (defesa de direitos civis, crítica ao totalitarismo, participação na Comissão Dewey de investigação das acusações contra Trotsky em 1937) e a receber homenagens. Em novembro de 1951 fraturou o quadril. Em 1º de junho de 1952 morreu de pneumonia em seu apartamento na Fifth Avenue, em Nova York, aos 92 anos. Foi cremado no dia seguinte. O funeral ocorreu na Community Church of New York.

A vida de Dewey atravessou a Guerra Civil americana, a industrialização, as duas guerras mundiais, a Depressão e o início da Guerra Fria. Suas experiências pessoais (a formação religiosa e o abandono gradual dela, o casamento com Alice e a influência desta, as perdas dos filhos, a prática educacional em Chicago, as viagens orientais e o engajamento público) alimentaram diretamente a passagem do idealismo inicial para o naturalismo experimental, a centralidade da experiência, a defesa da democracia como forma de vida e a concepção da educação como reconstrução contínua da experiência.

 

2- Ideias

 

Segundo o pensamento desenvolvido por John Dewey, a complexidade presente em nossas sociedades contemporâneas, em constante e renovado processo de transformação social necessita desenvolver em seus cidadãos desde jovens algumas características que permitam a esta mesma sociedade manter e consolidar uma democracia, se assim não o for, não teremos uma verdadeira democracia e sim, somente uma democracia de nome, mas não real. Caberia, portanto, desenvolver por meio da educação dos jovens, o interesse nos estudos, iniciativa, saber desenvolver reflexões, entender o valor da liberdade e a responsabilidade em relação aos demais membros da sociedade. Para haver democracia real é preciso que haja participação ativa dos cidadãos na vida social. No pensamento de Dewey, democracia não é simplesmente uma instituição política; é uma forma de vida associada que exige hábitos de comunicação, reflexão, cooperação e investigação.

O processo de aprendizagem deve se dar de modo a permitir aos alunos uma experiência ativa e também participativa diante do aprendizado, de modo que estes possam explorar, questionar, refletir e buscar a descoberta de soluções e resultados para problemas. Esta abordagem participativa no tocante a aprendizagem nos lembra os futuros trabalhos de Jean Piaget, que ao partir deste pressuposto, desenvolve todo um trabalho em profundidade tendo como ideia principal que a aprendizagem se faz por meio da ação sobre o meio circundante. Não que Dewey tenha influenciado Piaget, mas sim que seu trabalho segue na mesma linha e anteriormente ao de Piaget.

Para Dewey, o ensino tradicional tende a valorizar a passividade do aluno e se apresenta de modo autoritário, reforçando a memorização e não a solução de problemas. Ele entende que a aprendizagem deva ser ativa e experiencial, sendo o conhecimento construído por meio da interação com o mundo circundante e não absorvido de modo passivo e estático, portanto, a educação deve envolver atividades práticas e experiências reais, gerando contextos que possuam significado real para os alunos. Em verdade, temos que o trabalho filosófico e educacional apresentado por John Dewey traz enorme destaque para a experiência no tocante ao efetivo ensino / aprendizagem.

A filosofia desenvolvida por Dewey busca reconstruir o pensamento humano a partir da experiência concreta, rejeita o dualismo cartesiano e de toda tradição filosófica. Dewey parte de uma crítica radical aos dualismos que atravessam a história da filosofia ocidental: mente e corpo, sujeito e objeto, teoria e prática, fato e valor, indivíduo e sociedade, espírito e matéria. Esses dualismos, segundo ele, não são descobertas metafísicas, mas produtos históricos de condições sociais e intelectuais superadas. A filosofia tradicional, ao buscar certezas absolutas e imutáveis, separou o conhecimento da ação e transformou a experiência em algo privado, mental ou meramente subjetivo.

Para Dewey, a inteligência se localiza no interior da vida biológica, social e histórica dos indivíduos. Dewey não propõe um sistema fechado, mas um método experimental de investigação que se aplica igualmente à ciência, à ética, à educação, à política, à arte e à religião. O núcleo de sua cosmovisão é a continuidade: continuidade entre organismo e ambiente, entre experiência e natureza, entre conhecimento e ação, entre indivíduo e sociedade. Dewey propõe um naturalismo experimental (ou humanismo naturalista) no qual a experiência é compreendida como transação contínua entre organismo e ambiente. Experiência não é algo que acontece “dentro” da mente; é o próprio processo de interação, de fazer e sofrer as consequências do que se faz. A experiência é, ao mesmo tempo, ativa e passiva, e só se torna verdadeiramente educativa ou significativa quando é reconstruída de forma inteligente.

Essa concepção de experiência fundamenta sua teoria da investigação. O pensamento não é contemplação de verdades eternas, mas instrumento de adaptação e transformação de situações problemáticas. Diante de uma situação indeterminada, confusa ou frustrante, o organismo sente a necessidade de investigar. O processo reflexivo envolve a formulação do problema, a elaboração de hipóteses, o raciocínio sobre suas possíveis consequências e a verificação experimental. A verdade, nesse quadro, não é correspondência com uma realidade independente, mas o valor instrumental de uma ideia em resolver o problema e reconstruir a experiência de maneira mais satisfatória e controlada. A lógica, portanto, deixa de ser formal e abstrata para se tornar a teoria da investigação: o estudo dos métodos pelos quais as situações problemáticas são transformadas em situações resolvidas.

Essa lógica da investigação também é aplicada por Dewey à educação, domínio no qual sua influência foi mais ampla e, por vezes, mais deturpada. A educação não é preparação para a vida futura nem transmissão de conteúdos fixos; é o próprio processo de crescimento e de reconstrução contínua da experiência. A escola deve ser uma comunidade embrionária, um ambiente simplificado e ordenado no qual a criança possa viver experiências significativas, partilhar interesses e desenvolver a capacidade de pensar reflexivamente. O interesse da criança não é um ponto de partida espontâneo a ser seguido cegamente, nem um obstáculo a ser superado pelo esforço imposto; é a energia que, quando bem dirigida, permite a organização progressiva do conhecimento.

Dewey rejeita tanto o formalismo tradicional quanto o espontaneísmo puro. A educação progressiva, no sentido técnico que ele atribui à expressão, designa precisamente essa tentativa de organizar a escola em torno da experiência ativa, da investigação e da cooperação democrática. É importante distinguir esse uso histórico e pedagógico da palavra “progressiva” do sentido político contemporâneo de “progressista”, frequentemente associado a agendas ideológicas de esquerda. Em Dewey, “progressiva” refere-se a um método experimental de educação e de reconstrução social, não a um programa político partidário. Embora sua filosofia tenha sido acolhida por movimentos de esquerda política, ela se opõe a qualquer tipo de autoritarismo, seja este ideologicamente de direita ou de esquerda, pois sua filosofia privilegia a inteligência coletiva, a experimentação e a comunicação livre em vez de dogmas ou supostas vanguardas iluminadas que tudo sabem. Dewey não pode ser simplesmente identificado com o significado atual de “progressista” como rótulo partidário ou cultural; porém, ele próprio foi um pensador político reformista, liberal e fortemente comprometido com a transformação social.

A democracia, para Dewey, não é primariamente uma forma de governo ou um conjunto de instituições. É uma forma de vida associada, de experiência compartilhada e mutuamente comunicada. Uma sociedade democrática é aquela em que os interesses dos grupos se entrecruzam de maneira ampla e em que a comunicação livre permite a reconstrução contínua dos hábitos e das instituições. A democracia exige, portanto, condições educativas e culturais que formem indivíduos capazes de participar inteligentemente da vida pública. Sem educação democrática, as instituições democráticas degeneram em formalismos ou em manipulação das massas. Dewey combateu tanto o individualismo atomista do liberalismo clássico quanto as formas coletivistas que sacrificam a individualidade em nome de um bem abstrato. Sua defesa da democracia é experimental e histórica: ela se justifica pelos resultados que produz na liberação das potencialidades humanas e na resolução inteligente dos conflitos.

Na ética, Dewey aplica o mesmo método experimental. Não existem princípios morais absolutos e a-históricos. A ação moral surge em situações concretas de conflito de valores. O bem é aquilo que, após investigação, se mostra capaz de harmonizar e enriquecer a experiência. A moralidade é social e histórica; os hábitos morais se formam na interação com o meio cultural e precisam ser constantemente reconstruídos pela inteligência. Dewey rejeita tanto o intuicionismo quanto o utilitarismo hedonista rígido, propondo uma ética da situação e da consequência inteligente.

Sua estética, desenvolvida sobretudo em “Art as Experience”, retoma a ideia de experiência consumatória. A arte não é um domínio separado da vida cotidiana, reservado a objetos especiais em museus. A experiência estética é a forma intensificada e completa da experiência ordinária, na qual o fazer e o sofrer, o instrumental e o final, se unem de maneira harmoniosa. A obra de arte é o produto de um processo de experiência que alcança plenitude e unidade. Ao recuperar a continuidade entre arte e vida, Dewey combate a alienação estética da sociedade industrial e afirma o valor da experiência estética como um dos modos mais elevados de realização humana.

Por fim, na religião, Dewey propõe uma fé naturalista e comum. Em “A Common Faith”, distingue o religioso (qualidade de experiência que unifica e eleva) das religiões históricas (sistemas de crenças sobrenaturais e instituições). A fé autêntica não depende de dogmas nem de realidades transcendentais; é a atitude de dedicação às possibilidades ideais da experiência humana e à cooperação inteligente para realizá-las. Dewey não é ateu no sentido banal, ele é na verdade um naturalista que recusa a oposição entre o sagrado e o secular e busca reintegrar a dimensão religiosa no interior da vida natural e social.

O pensamento de Dewey é, portanto, uma filosofia da reconstrução. Ele não pretende substituir um sistema por outro, mas sim fornecer um método que permita à inteligência humana enfrentar os problemas concretos de seu tempo. Sua confiança na experiência, na investigação e na democracia como forma de vida, dentro de um viés totalmente prático ou mesmo pragmático, permanece um dos legados mais potentes e, ao mesmo tempo, mais exigentes da filosofia contemporânea.

 

3- Palavras finais

 

O percurso de John Dewey (do idealismo hegeliano de juventude ao naturalismo experimental de maturidade) não é uma sucessão de fases desconexas, mas o desdobramento de uma única intuição central: a de que inteligência e experiência não se separam da vida concreta, e que todo problema, seja ele lógico, moral, estético, educacional ou político, se resolve pelo mesmo método de investigação, jamais por apelo a certezas prontas ou princípios imutáveis. É essa continuidade que confere unidade a uma obra tão vasta e aparentemente dispersa entre psicologia, lógica, ética, estética, religião e teoria política. Um século depois, essa filosofia permanece extraordinariamente atual. Os dilemas que Dewey enfrentou (como formar cidadãos capazes de pensar por si mesmos, como sustentar instituições democráticas contra a passividade e a manipulação, como reconciliar ciência e valores) continuam a ser, talvez de forma ainda mais urgente, os dilemas do presente.

Nem por isso sua filosofia deve ser lida sem tensões. A confiança de Dewey na inteligência coletiva e na comunicação livre como bases suficientes para a vida democrática foi posta à prova pela própria história que ele viveu. As décadas de 1920 e 1930, marcadas pela ascensão do fascismo e do stalinismo, revelaram o quanto os hábitos de cooperação racional que ele descrevia podiam ser rapidamente substituídos por dogmatismo e violência organizada, algo que o próprio Dewey precisou enfrentar em obras tardias como Freedom and Culture (1939). Da mesma forma, sua concepção de educação progressiva foi, com frequência, deturpada por seguidores que a reduziram a espontaneísmo sem direção, distorção que o próprio autor sentiu necessidade de corrigir em Experience and Education (1938). Essas tensões não diminuem sua obra; ao contrário, mostram um pensador disposto a submeter as próprias ideias ao mesmo teste experimental que exigia de qualquer outra crença. É por isso que Dewey ocupa um lugar decisivo na história crítica da filosofia: ponte entre o idealismo do século XIX e o naturalismo e o pragmatismo do século XX. Sua obra continua a alimentar debates contemporâneos sobre democracia, educação e o papel da inteligência na reconstrução da vida em comum.

 

4- Algumas das principais obras de John Dewey

 

1- Psychology. Tìtulo traduzido para o português: Psicologia. Ano da primeira publicação: 1887.

Obra de juventude ainda marcada pelo idealismo hegeliano. Apresenta uma psicologia experimental e filosófica que tenta conciliar a ciência positiva com a tradição idealista. Dewey trata da mente, da vontade, da percepção e da ação, já mostrando interesse pela continuidade entre organismo e ambiente. É um dos primeiros livros que o projetam no meio acadêmico americano.

2- Leibniz’s New Essays Concerning the Human Understanding: A Critical Exposition. Título traduzido para o português: Os Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano de Leibniz: Uma Exposição Crítica. Ano da primeira publicação: 1888.

Estudo detalhado da obra de Leibniz, escrito no período em que Dewey ainda se movia dentro do idealismo. Serve tanto como exposição quanto como crítica, revelando sua formação filosófica inicial e seu interesse pela teoria do conhecimento.

3- The Reflex Arc Concept in Psychology. Título traduzido para o português: O Conceito de Arco Reflexo em Psicologia. Ano da primeira publicação: 1896.

Ensaio fundamental para compreender a transformação da psicologia e da filosofia de Dewey. Nele, Dewey critica a concepção tradicional do arco reflexo como uma sequência mecânica de estímulo, resposta e reação, defendendo uma compreensão integrada da relação entre organismo e ambiente. A experiência não deve ser fragmentada em elementos isolados, pois percepção, ação, situação e finalidade formam uma unidade dinâmica. O texto é particularmente importante para compreender a passagem de Dewey da psicologia funcional para sua concepção posterior de experiência, organismo e ambiente.

4- My Pedagogic Creed. Título traduzido para o português: Meu Credo Pedagógico. Ano da primeira publicação: 1897.

Texto curto, mas de grande importância para compreender a concepção educacional de Dewey. Apresenta de maneira programática suas ideias sobre a natureza da educação, o papel da escola, a relação entre educação e sociedade, a importância da experiência e a função do professor. É particularmente importante porque antecipa princípios que serão desenvolvidos posteriormente em The School and Society e Democracy and Education. A conhecida formulação de Dewey segundo a qual a educação deve ser compreendida como um processo de vida, e não simplesmente como preparação para uma vida futura, encontra aqui uma de suas fontes mais importantes.

5- The School and Society. Título traduzido para o português: A Escola e a Sociedade. Ano da primeira publicação: 1899. (existem edições revisadas posteriores).

Três conferências que se tornaram clássicas. Dewey defende a escola como comunidade embrionária e como instrumento de reconstrução social. Critica a educação tradicional desligada da vida e propõe uma pedagogia centrada na atividade, no trabalho e na cooperação. É um dos textos fundadores da educação progressiva.

6- The Child and the Curriculum. Título traduzido para o português: A Criança e o Programa Escolar (ou A Criança e o Currículo). Ano da primeira publicação: 1902.

Curto e denso ensaio sobre a relação entre os interesses da criança e o conteúdo organizado do currículo. Dewey rejeita tanto o excesso de formalismo quanto o espontaneísmo puro, propondo a mediação inteligente entre a experiência infantil e o conhecimento sistematizado.

7- Studies in Logical Theory. Título traduzido para o português: Estudos de Teoria Lógica. Ano da primeira publicação: 1903.

Coletânea que marca a virada pragmática de Dewey. Desenvolve a ideia de que a lógica não é formal e abstrata, mas o método da investigação a partir de situações problemáticas. Antecipa a lógica experimental que ele elaborará ao longo da vida.

8- Ethics (com James H. Tufts). Título traduzido para o português: Ética. Data da primeira publicação: 1908 (edição revisada em 1932).

Tratado sistemático de ética. Distingue a moral consuetudinária da moral reflexiva e situa a ação moral no contexto social e histórico. A edição de 1932 incorpora amadurecimentos do pragmatismo deweyano.

9- The Influence of Darwinism on Philosophy Título traduzido para o português: A Influência do Darwinismo sobre a Filosofia. Ano da primeira publicação: 1910.

Obra decisiva para compreender a influência do evolucionismo sobre a filosofia de Dewey. O pensamento darwiniano fornece a Dewey um modelo para abandonar concepções fixas e imutáveis da realidade, da natureza humana e dos problemas filosóficos, substituindo-as por uma perspectiva histórica, dinâmica e experimental. Dewey passa a compreender o pensamento, os valores e as instituições como elementos inseridos em processos de transformação. O darwinismo, nesse sentido, contribui decisivamente para sua crítica à busca tradicional por certezas absolutas e para a formação de seu naturalismo experimental.

10- How We Think. Título traduzido para o português: Como Pensamos (ou Como pensamos: como se relaciona o pensamento reflexivo com o processo educativo). Data da primeira publicação: 1910 (edição revisada e ampliada em 1933).

Obra fundamental sobre o pensamento reflexivo. Dewey descreve as fases da investigação (dúvida, formulação do problema, hipótese, raciocínio, verificação) e mostra sua importância para a educação. É um dos textos mais lidos e traduzidos do autor no Brasil.

11- Democracy and Education: An Introduction to the Philosophy of Education. Título traduzido para o português: Democracia e Educação: Introdução à Filosofia da Educação. Data da primeira publicação: 1916.

Provavelmente a obra mais influente de Dewey no campo educacional. Apresenta a educação como processo de crescimento e de reconstrução contínua da experiência, e a democracia como forma de vida associada baseada na comunicação e no intercâmbio de experiências. Integra filosofia, pedagogia e teoria social de maneira sistemática.

12- Essays in Experimental Logic. Título traduzido para o português: Ensaios de Lógica Experimental. Ano da primeira publicação: 1916.

Desenvolvimento da concepção instrumentalista da lógica. O pensamento é instrumento de adaptação e transformação de situações problemáticas. Reforça a ruptura com a lógica formal tradicional.

13- Reconstruction in Philosophy. Título traduzido para o português: Reconstrução em Filosofia (ou A Filosofia em Reconstrução). Data da primeira publicação: 1920.

Conferências proferidas no Japão e na China. Dewey defende a reconstrução da filosofia a partir da ciência experimental e da experiência humana concreta, abandonando dualismos metafísicos herdados da tradição.

14- Human Nature and Conduct: An Introduction to Social Psychology. Título traduzido para o português: A Natureza Humana e a Conduta: Introdução à Psicologia Social. Data da primeira publicação: 1922.

Análise da natureza humana a partir do hábito, do impulso e da inteligência. Dewey rejeita tanto o instintivismo rígido quanto o racionalismo abstrato, situando a conduta no intercâmbio entre organismo e meio social.

15- Experience and Nature. Título traduzido para o português: Experiência e Natureza. Data da primeira publicação: 1925 (edição revisada em 1929).

Obra central da metafísica deweyana. Defende a continuidade entre experiência e natureza, criticando dualismos (mente/corpo, sujeito/objeto, valor/fato). Apresenta o empirismo naturalista ou humanismo naturalista maduro de Dewey. É considerada por muitos sua mais importante obra filosófica.

16- The Public and Its Problems. Título traduzido para o português: O Público e seus Problemas. Data da primeira publicação: 1927.

Reflexão política sobre a democracia. Dewey discute a formação do “público”, o papel da comunicação e da investigação coletiva, e responde a críticas como as de Walter Lippmann. Afirma que a democracia exige condições de experiência compartilhada e inteligência pública.

17- The Quest for Certainty: A Study of the Relation of Knowledge and Action. Título traduzido para o português: A Busca da Certeza: Um Estudo da Relação entre Conhecimento e Ação. Data da primeira publicação: 1929.

Crítica à busca filosófica tradicional de certezas absolutas e imutáveis. Dewey opõe a isso a lógica da investigação experimental e a continuidade entre conhecimento e ação prática.

18- Art as Experience. Título traduzido para o português: A Arte como Experiência. Ano da primeira publicação: 1934.

Principal obra de estética de Dewey. Argumenta que a experiência estética é a forma consumada e intensificada da experiência ordinária. Rejeita a separação entre belas-artes e vida cotidiana e situa a arte no contínuo da experiência humana.

19- A Common Faith. Título traduzido para o português: Uma Fé Comum. Data da primeira publicação: 1934.

Ensaio sobre religião. Dewey propõe uma fé naturalista e humanista, centrada na experiência religiosa como qualidade da experiência, sem necessidade de crenças sobrenaturais ou dogmas.

20- Liberalism and Social Action. Título traduzido para o português: Liberalismo e Ação Social. Data da primeira publicação: 1935.

Defesa de um liberalismo renovado, experimental e social, diante dos desafios do século XX. Critica tanto o individualismo clássico quanto o autoritarismo.

21- Experience and Education. Título traduzido para o português: Experiência e Educação. Data da primeira publicação: 1938.

Texto curto e clarificador em que Dewey responde a distorções da educação progressiva. Distingue experiência educativa de experiência deseducativa e reafirma a necessidade de continuidade, interação e direção inteligente.

22- Logic: The Theory of Inquiry. Título traduzido para o português: Lógica: A Teoria da Investigação. Data da primeira publicação: 1938.

Obra maior de lógica. Apresenta a lógica como teoria da investigação controlada. O pensamento é o método pelo qual situações problemáticas são transformadas em situações resolvidas. É o coroamento de décadas de reflexão lógica.

23- Freedom and Culture. Título traduzido para o português: Liberdade e Cultura. Data da primeira publicação: 1939.

Análise das condições culturais da liberdade democrática, com atenção aos desafios do totalitarismo e à importância da inteligência científica na vida pública.

24- Knowing and the Known (com Arthur F. Bentley). Título traduzido para o português: O Conhecedor e o Conhecido. Data da primeira publicação: 1949.

Última grande obra filosófica. Desenvolve uma teoria transacional do conhecimento, superando dualismos residualmente presentes em formulações anteriores.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Charles Maurras: vida, ideias, obras e a filosofia do nacionalismo integral

 

"Le civilisé, parce qu'il est civilisé, a beaucoup plus d'obligations envers la société que celle-ci ne saurait en avoir jamais envers lui. Il a, en d'autres termes, bien plus de devoirs que de droits."

"O civilizado, por ser civilizado, tem muito mais obrigações para com a sociedade do que esta jamais poderia ter para com ele. Tem, em outros termos, muito mais deveres do que direitos."

Charles Maurras, Principes, em Œuvres capitales, vol. II, Paris, Flammarion, 1954.

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Charles Maurras

 

Charles Maurras ocupa um lugar singular na história do pensamento político francês. Admirado por alguns como um dos mais brilhantes teóricos do nacionalismo e da tradição monárquica, e duramente criticado por outros em razão de seu autoritarismo, antissemitismo e oposição à democracia liberal, tornou-se uma das figuras intelectuais mais controversas da Europa do século XX. Sua obra continua despertando interesse não apenas por suas posições políticas, mas também pela sofisticação de seu sistema de pensamento, que procura fundamentar racionalmente uma concepção orgânica da sociedade e do Estado.

Mais do que um simples militante monarquista, Maurras elaborou uma filosofia política abrangente, articulando história, sociologia, literatura, estética e estratégia política. Sua defesa da monarquia hereditária, do nacionalismo integral e do papel civilizador das tradições nasceu menos de um apego romântico ao passado do que da convicção de que as instituições políticas deveriam resultar da experiência histórica acumulada pelos povos e não de princípios abstratos formulados por filósofos ou revolucionários, como no caso da Revolução Francesa de 1789.

Sua influência ultrapassou amplamente as fronteiras francesas. Durante a primeira metade do século XX, suas ideias repercutiram em diversos movimentos conservadores e nacionalistas europeus e latino-americanos, tornando-o uma das principais referências intelectuais da direita contrarrevolucionária contemporânea. Ao mesmo tempo, sua atuação durante o Caso Dreyfus, seu antissemitismo e seu apoio ao regime de Vichy fizeram de sua trajetória um permanente objeto de debates históricos, morais e políticos.

Compreender Charles Maurras exige, portanto, distinguir análise histórica de concordância ideológica. Seu pensamento pode ser criticado em diversos aspectos, mas dificilmente pode ser ignorado por quem deseja compreender a evolução do conservadorismo, do nacionalismo e das críticas à democracia liberal na Europa contemporânea. Estudar Maurras significa compreender uma das mais importantes matrizes intelectuais que influenciaram parte significativa do pensamento político ocidental ao longo do século XX.

 

1- Vida

 

Charles-Marie-Photius Maurras (1868-1952) nasce em 20 de abril de 1868, em Martigues, em Bocas do Ródano (francês: Bouches-du-Rhône) na região Provença-Alpes-Costa Azul, França, e falece aos oitenta e quatro anos de idade em Saint-Symphorien. Seus pais


foram Marie-Pélagie Maurras e Aristide Maurras. Maurras foi o terceiro dos três filhos do casal, nesta ordem, o primogênito, Romain, que morreu aos dois anos de idade, na sequência temos Joseph e depois Maurras. A região na qual nasceu marcaria profundamente sua sensibilidade cultural e política. Proveniente de uma família modesta, seu pai era funcionário público secular e a sua mãe se apresentava como católica e monarquista. Seu pai morreu em 1874, quando Maurras tinha apenas seis anos incompletos.

Em 1882 (alguns comentadores situam este episódio em 1880), então com cerca de 14 anos de idade (mais cedo segundo alguns comentadores), começou a sofrer de um sério problema de surdez que, inclusive, o afastou do colégio no qual estudava. Uma curiosidade é que este argumentava, quando ainda estudante, que detestava o inglês e a considerava como sendo uma língua bárbara.

 

Maurras viveu desde cedo experiências formativas dolorosas, uma vez que se tornou órfão de pai e veio a sofrer de perda auditiva, situação esta que o afastou do sonho de carreira naval e o isolou socialmente, aguçando sua introspecção e sua aversão ao mundo contemporâneo percebido como caótico e dissolvente. Ele não se tornou completamente surdo, mas teve realmente uma forte perda desta capacidade.

Em 1876, sua mãe mudou-se com a família para Aix-en-Provence e Maurras passou a estudar no Colégio Sacré Coeur. Em 1885 sua família mudou novamente, passando agora a residir em Paris e neste mesmo ano foi reprovado no seu "Baccalauréat". Mudando-se para Paris ainda jovem, Maurras ingressou no ambiente literário como crítico e poeta, associando-se inicialmente ao grupo da école romane, que defendia o retorno aos ideais clássicos contra o simbolismo e o romantismo decadente. Sua formação intelectual combinava erudição humanística, influência positivista de Augusto Comte e um nacionalismo originado e enraizado a partir da derrota da França em 1870 contra a Prússia.

Por volta de 1890 se declara agnóstico. Apesar de sua rejeição a um Deus pessoal e também a metafísica na Filosofia, manteve uma relação de aceitação e estudos com relação a ciências ocultas. No transcorrer de sua vida adulta veio a se interessar de modo mais profundo pelo filósofo e sociólogo francês Augusto Comte e pela Sociologia. Apesar de seu envolvimento com o Catolicismo, em obras juvenis temos a defesa de conceitos contrários a Igreja e consta que este somente se confessou quando estava para falecer.

Atuou como escritor, poeta de tendência monarquista, crítico literário e jornalista. A Ação Dreyfus (1894-1906) representou o grande ponto de virada: Maurras alinhou-se vigorosamente ao campo antidreyfusardo, enxergando no caso não apenas uma questão judicial, mas a manifestação de forças “anti-França”, judeus, protestantes, maçons e metecos (estrangeiros naturalizados) que ameaçavam a unidade nacional francesa. Seu nome ganha destaque diante do caso Dreyfus, estando a frente do movimento anti-Dreyfusard, no qual tomou posição apaixonada contra Dreyfus e a favor do exército francês. Maurras, à época chamou de mártir o Coronel Henri, autor da famosa falsificação de um documento, para incriminar Dreyfus e salvar o exército, e que se matou ao ser descoberta a fraude.

Podemos entender que em termos de prioridade nos escritos e na vida de Maurras, primeiro se encontra a nação francesa, depois a razão, a política, a economia, a religião, etc. Para Maurras o pior mal presente no século XX não estava junto ao comunismo, nazismo ou fascismo e sim junto à democracia liberal. Em verdade, menos que um governo monárquico, Maurras defendia um governo forte, autoritário e talvez mesmo ditatorial se formos pensar nos moldes atuais. O Estado e não o indivíduo é o que deveria predominar.

Em 1899, Maurras tornou-se o principal teórico e animador da Action Française, movimento que transformou o jornalismo monarquista em uma força política organizada, combativa e doutrinariamente coesa. Sob sua liderança, a Action Française (os cofundadores formais da Action Française foram Henri Vaugeois e Maurice Pujo, já que Maurras "tornou-se" o teórico principal, mas não a fundou sozinho)  evoluiu de uma revista de ideias para um jornal diário (a partir de 1908), com ligas de ação, camelots du roi (jovens militantes de rua) e uma influência que se estendeu por círculos intelectuais, militares e católicos. Maurras defendia um nacionalismo integral: monarquia hereditária, descentralização regionalista, primado do interesse nacional, hierarquia social e combate intransigente ao liberalismo, à democracia parlamentar e ao socialismo. Sua ação combinava alta cultura com militância de rua, tornando o movimento uma das principais expressões da direita contrarrevolucionária francesa na primeira metade do século XX.

Sua relação com a Igreja Católica foi complexa e marcada por ambiguidades. Maurras, agnóstico pessoalmente, valorizava o catolicismo como instituição de ordem, disciplina e unidade nacional (“a religião dos nossos pais”), mas subordinava-o politicamente ao interesse da França. O Papa São Pio X demonstrou simpatia pessoal por Maurras e pela Action Française, vendo no movimento um baluarte contra o modernismo teológico e o republicanismo laicista e em virtude desta postura do papa, a condenação que se esperava foi evitada durante seu pontificado. Já o Papa Pio XI, preocupado com o crescente nacionalismo exacerbado e com a instrumentalização política da fé, condenou a Action Française em 1926. Com a condenação, vários livros de Maurras foram colocados no Index Librorum Prohibitorum e o jornal foi proibido aos fiéis católicos. A medida enfraqueceu significativamente o movimento, privando-o de grande parte do apoio clerical. Somente em 1939, o Papa Pio XII revogou a condenação, restituindo aos católicos a liberdade de aderir à Action Française, num gesto interpretado como reconhecimento tardio do anticomunismo maurrassiano em face das ameaças totalitárias da época.

Adotou uma postura contrária ao socialismo e ao fascismo/nazismo, apesar de ter colaborado com o governo francês de Vichy. No Brasil e em Portugal exerceu influência sobre o movimento Integralista. Maurras é conhecido por sua atuação como líder do movimento monarquista e nacionalista Action Française (Ação Francesa – AF). Seu trabalho tem presente um forte conservadorismo, antidemocracia e antissemitismo. Maurras defendeu em sua vida e obra um regime autoritário e a restauração da monarquia na França, exercendo uma influência considerável no pensamento político conservador de direita no início do século XX.

Durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, Maurras apoiou o regime de Vichy e o Marechal Philippe Pétain, a quem via como o salvador possível da França diante da derrota. Considerou a queda da Terceira República uma “divina surpresa” que abria caminho para a restauração dos valores tradicionais. Embora mantivesse posições anti-germânicas históricas e não tenha sido um colaboracionista entusiasta dos nazistas (opondo-se inclusive a alguns aspectos do nacional-socialismo), seu apoio público ao governo de Vichy, o antissemitismo doutrinário e os artigos no jornal Action Française comprometeram-no irreversivelmente aos olhos da Resistência e das novas autoridades gaullistas. Após a Segunda Guerra Mundial, Maurras foi acusado oficialmente dentre outras coisas de colaboracionista com a ocupação alemã e condenado a prisão perpétua.

Ao final da guerra, em setembro de 1944, Maurras foi preso em Lyon. Julgado em janeiro de 1945 pela Corte de Justiça do Ródano sob a acusação de “inteligência com o inimigo” e alta traição, foi condenado à prisão perpétua e à degradação nacional. Durante o processo, surdo e idoso, leu uma longa defesa escrita, reafirmando seu patriotismo e acusando os juízes de promoverem “a vingança de Dreyfus”. Expulso da Academia Francesa (da qual fora eleito em 1938), cumpriu parte da pena na prisão de Clairvaux em condições difíceis. Liberado por motivos de saúde em 1952, Maurras passou seus últimos meses em uma clínica em Saint-Symphorien, perto de Tours. Reconciliou-se com a Igreja Católica antes de morrer, em 16 de novembro de 1952, aos 84 anos. Suas últimas produções incluem reflexões poéticas (La Balance intérieure) e um tributo a São Pio X, a quem admirava profundamente como “salvador da França”.

A vida de Charles Maurras encarna as contradições de um intelectual apaixonado pela França eterna: erudição clássica aliada a combatividade política radical, defesa intransigente da tradição contra a modernidade democrática e um destino marcado pela glória intelectual seguida de ostracismo e condenação. Seus anos finais sintetizam o drama de um pensador que, fiel aos seus princípios até o fim, pagou o preço de ter escolhido um lado na tragédia da França dividida do século XX.

 

2- Ideias

 

Estamos aqui diante de um autor difícil por ser polêmico, e polêmico por ser contraditório. Iremos encontrar comentadores que irão defendê-lo e outros que irão atacá-lo pelos mesmos motivos, mas com direções diametralmente opostas, já que seus escritos e sua atitude política navegam em distintas e opostas direções e tradições. Seus próprios escritos tornam difícil afirmar convictamente suas posições e teremos, portanto, aqueles que farão um uso instrumental de suas ideias a favor ou contra os mesmos posicionamentos.

Apesar disto, o pensamento de Charles Maurras constitui um dos sistemas políticos e filosóficos mais elaborados e coerentes da direita contrarrevolucionária francesa do século XX. Centralizado no conceito de nacionalismo integral, sua doutrina busca restaurar a unidade orgânica da França por meio da recuperação de tradições históricas, rejeitando os princípios abstratos da Revolução de 1789. Diferentemente de um conservadorismo moderado ou de um liberalismo de direita, Maurras representa uma posição de ultradireita autoritária, hierárquica e antimoderna, que exerceu influência duradoura em movimentos nacionalistas ao redor do mundo.

Em seu pensamento temos a forte defesa do nacionalismo e de uma sociedade organizada. Defendia o regime monárquico e a Igreja Católica Apostólica Romana. Possuía uma visão negativa sobre a Revolução Francesa de 1789, associada à decadência da sociedade.

Maurras culpou esta decadência que gerou o fim da monarquia ao que chamou de “Anti-França”, que este definiu como sendo “os quatro estados confederados de protestantes, judeus, mações e metecos”. Ele os via a todos como estrangeiros em solo francês. Além do anti-semitismo e do anti-protestantismo, entendia que movimentos como a Reforma Protestante, o Iluminismo no século XVIII e mesmo a Revolução Francesa proporcionaram que os indivíduos isolados fossem priorizados em relação à nação francesa, com sérios e prejudiciais efeitos. Também se posicionava contrário ao governo democrático e ao sistema econômico liberal.

Maurras distinguia cuidadosamente entre o povo judeu, cuja existência histórica respeitava, e a presença judaica na França, que considerava incompatível com a unidade nacional. Os judeus, junto com protestantes, maçons e metecos (estrangeiros naturalizados), formariam os “quatro estados confederados” que, segundo ele, conspiravam contra a tradição francesa. Seu antissemitismo era, portanto, político e cultural, não meramente racial no sentido biológico nazista: tratava-se de combater a influência percebida como dissolvente sobre as instituições, a imprensa e a economia francesas. Seu antissemitismo era sobretudo político, cultural e nacionalista.

No centro de seu sistema encontra-se o primado absoluto da nação francesa. Para Maurras, a França não é uma ideia contratual ou uma coleção de indivíduos portadores de direitos universais, mas uma realidade histórica concreta, viva e orgânica, formada pela terra, pelo sangue, pela língua, pela religião e pelas instituições acumuladas ao longo dos séculos. O patriotismo não é um sentimento opcional, mas o princípio ordenador de toda a vida coletiva. Daí decorre seu germanofobismo visceral, enraizado na humilhação de 1870. A Alemanha, para Maurras, representava a ameaça existencial ao gênio latino e mediterrâneo francês, encarnando o espírito bárbaro, protestante e estatista contra o qual a França devia se defender permanentemente. Embora o nacional-socialismo de Hitler compartilhasse com Maurras traços como autoritarismo, anticomunismo e rejeição ao liberalismo, o pensador provençal manteve distância crítica e via no nazismo uma forma de nacionalismo pagão e totalitário que, a longo prazo, também ameaçava a soberania francesa.

Apesar de compartilhar diversos elementos autoritários posteriormente presentes no fascismo europeu, Maurras nunca aderiu plenamente nem ao fascismo italiano nem ao nacional-socialismo alemão, sobretudo por seu nacionalismo estritamente francês e por seu antigo antigermanismo, mas, no entanto, Maurras poderia facilmente ser classificado como um dos precursores intelectuais do fascismo europeu.

Sua crítica à democracia liberal e parlamentar era radical. Maurras via na República um regime contra a natureza. Um regime baseado na soberania popular abstrata, no individualismo, na igualdade jurídica e na instabilidade ministerial. A democracia liberal, segundo o pensamento de Maurras, dissolvia as comunidades naturais (família, corporação, região, nação) e entregava o poder a interesses privados e financeiros. Em oposição, propunha a monarquia tradicional, hereditária, descentralizada e temperada por corpos intermediários. O rei seria o árbitro supremo acima dos partidos, garantindo continuidade, autoridade e o bem comum. Curiosamente, o pretendente orleanista ao trono da época (o conde de Paris) distanciou-se publicamente da Action Française, considerando que Maurras deformava o verdadeiro espírito da monarquia francesa, tornando-a excessivamente autoritária e doutrinária. Maurras, por sua vez, mantinha que sua doutrina recuperava o sentido profundo da realeza capetíngia contra as degenerescências posteriores.

Apesar de ferrenho defensor do catolicismo e de uma política pautada nesta religião, assumia uma atitude controversa e mesmo um tanto quanto bizarra, ao buscar um catolicismo sem cristandade, digamos assim. Afinal, ele entendia que os quatro evangelhos que compõem o Novo Testamento foram escritos por judeus e por tal motivo desconfiava destes escritos, aliás, elogiava a Igreja Católica por ter conseguido por um bom tempo esconder ensinamentos ali contidos, que este considerava deveras perigosos. Também nutria uma atitude na qual predominava o agnosticismo.

Sua postura e ideias acabou gerando insatisfação e desconforto na alta hierarquia da Igreja Católica, apesar de possuir apoio considerável entre o sacerdócio na França. No ano de 1926 Maurras teve alguns de seus livros incluídos no Index Librorum Prohibitorum pelo Papa Pio XI, tendo sofrido nesta época algo que em sua totalidade (condenação da Action Française; colocação de obras no Index; proibição aos católicos de lerem o jornal; proibição de receberem sacramentos enquanto permanecessem ligados ao movimento) alguns comentadores chamam de excomunhão, apesar de tecnicamente Maurras não ter sido excomungado.

Religiosamente, Maurras era agnóstico pessoal, mas defendia com vigor a Igreja Católica Apostólica Romana como elemento indispensável da identidade francesa. Não era a fé cristã subjetiva ou o Evangelho em sua pureza que o interessavam, mas a Igreja enquanto instituição de ordem, hierarquia, continuidade e civilização. O catolicismo romano havia moldado a monarquia capetíngia, a cultura clássica francesa e o equilíbrio social; por isso, devia ser protegido como bem nacional, mesmo que subordinado politicamente ao interesse supremo da pátria. Essa primazia do político sobre o religioso gerou tensões com Roma, como visto na condenação ocorrida em 1926.

Valores como hierarquia, autoridade, disciplina, enraizamento e ordem orgânica permeiam toda sua visão. Rejeitava o romantismo sentimental, o progresso indefinido e o humanitarismo universalista, defendendo em seu lugar um classicismo político: medida, razão, forma e realismo. A célebre substituição do lema republicano “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” pelo lema de Vichy “Trabalho, Família, Pátria” durante a ocupação alemã ecoava diretamente muitos de seus princípios: valorização do trabalho concreto, da célula familiar como base da sociedade e da pátria como valor supremo.

Um dos conceitos mais originais do pensamento de Maurras é o chamado empirismo organizador (empirisme organisateur). Segundo essa concepção, a organização política de um povo não deve ser construída a partir de teorias abstratas ou de princípios universais elaborados pela filosofia política, mas da observação das instituições que, ao longo da história, demonstraram sua capacidade de garantir estabilidade, continuidade e prosperidade. A experiência histórica funciona como um verdadeiro laboratório político. Assim, em vez de perguntar qual seria o regime ideal em teoria, Maurras procurava identificar qual regime havia produzido, concretamente, os melhores resultados para a França. Daí sua defesa da monarquia hereditária, não como consequência de um direito divino ou de um ideal romântico, mas como resultado de uma análise histórica que, segundo entendia, demonstrava sua superioridade em relação ao parlamentarismo republicano.

Seu classicismo também ultrapassa amplamente o campo da literatura e das artes. Para Maurras, a civilização clássica representava um ideal permanente de equilíbrio entre razão, ordem, beleza, autoridade e medida. O espírito clássico ensinava que a liberdade somente poderia florescer dentro de limites estabelecidos pela tradição e pelas instituições. Em oposição ao romantismo, que associava ao subjetivismo, ao sentimentalismo e à exaltação do indivíduo, via na herança greco-romana e na formação histórica da França um modelo civilizacional capaz de harmonizar autoridade e cultura. O classicismo tornava-se, assim, não apenas uma preferência estética, mas um verdadeiro princípio organizador da vida política, moral e social.

A influência de Maurras ultrapassou largamente sua atuação na Action Française. Seu pensamento exerceu impacto sobre diversos intelectuais, escritores e movimentos políticos da primeira metade do século XX, ainda que muitos deles posteriormente tenham se afastado de suas posições mais radicais. Autores como Jacques Maritain e Georges Bernanos passaram, em diferentes momentos de suas juventudes, pela órbita intelectual do maurrassismo antes de desenvolverem perspectivas próprias. Suas ideias também repercutiram no integralismo português, no integralismo brasileiro, em setores do nacionalismo espanhol e em diversos movimentos conservadores europeus. Ainda que frequentemente rejeitado por suas conclusões políticas, Maurras permanece como uma referência incontornável para o estudo das origens intelectuais do nacionalismo autoritário contemporâneo.

Em síntese, o maurrassismo é um pensamento de reação total contra a modernidade individualista e igualitária. Coloca a França em primeiro lugar (sua história, sua tradição, sua grandeza) e subordina a tudo o mais, inclusive a religião Católica Apostólica Romana, a essa exigência vital. Sua força residiu na capacidade de articular erudição clássica, análise geopolítica perspicaz, estética rigorosa e militância política. Suas limitações e perigos manifestaram-se na rigidez doutrinária, no antissemitismo institucionalizado e na incapacidade de adaptar-se plenamente às tragédias do século XX sem comprometer os próprios princípios de soberania nacional.

As ideias de Maurras permanecem como um dos diagnósticos mais agudos, e também controversos, sobre as patologias e deformações da democracia contemporânea e sobre as condições necessárias para a sobrevivência de uma civilização e cultura nacional enraizada.

 

3- Palavras finais

 

Maurras pode ser corretamente classificado como Ultra Direita em termos políticos. Ele defendia um total nacionalismo e patriotismo, que se opunha a Alemanha por causas históricas, se bem que o governo de Hitler e o nazismo mostram muitos pontos comuns com suas próprias ideias, se posiciona abertamente contrário não ao povo judeu, mas sim a presença de judeus na França, também contrário ao protestantismo e defende não a fé cristã, mas sim a Igreja Católica Apostólica Romana, por esta fazer parte da tradição francesa. Maurras coloca a França em primeiro lugar e depois a religião. Quando da ocupação, o lema da França "Liberdade, fraternidade e igualdade" foi trocado por "trabalho, família, pátria", que se mostra de acordo com as ideias de Maurras. Defendia a monarquia, mas o herdeiro do trono à época negou que a ação francesa falasse corretamente ou que defendesse o verdadeiro papel histórico da monarquia francesa. Segundo o monarca herdeiro, aquilo que Maurras propunha e defendia não era a monarquia francesa como esta se mostrou historicamente.

A trajetória de Charles Maurras demonstra como um sistema filosófico e político pode combinar elevada sofisticação intelectual com posições profundamente controversas. Seu pensamento permanece inseparável das circunstâncias históricas em que foi produzido: a derrota francesa para a Prússia, as crises da Terceira República, o Caso Dreyfus, as transformações sociais provocadas pela industrialização e, finalmente, as convulsões das duas guerras mundiais. Grande parte de suas propostas nasceu como resposta a esse contexto específico, embora muitas delas tenham adquirido projeção muito além de seu tempo histórico.

Atualmente, observa-se um renovado interesse acadêmico pela obra de Maurras. Esse retorno, entretanto, não decorre de uma reabilitação política de suas ideias, mas do reconhecimento de que poucos autores exerceram influência tão significativa sobre a formação da direita nacionalista europeia. Historiadores, filósofos e cientistas políticos voltaram a estudar seus escritos para compreender melhor as origens intelectuais do conservadorismo autoritário, do nacionalismo integral e das críticas dirigidas à democracia liberal ao longo do século XX.

A leitura de Maurras exige permanente espírito crítico. Algumas de suas análises sobre o papel das tradições, da continuidade histórica e da estabilidade institucional continuam despertando interesse entre estudiosos da filosofia política. Em contrapartida, seu antissemitismo, sua rejeição aos princípios democráticos e seu apoio ao regime de Vichy permanecem como aspectos criticados e incompatíveis com os fundamentos das democracias constitucionais.

Independentemente do juízo que se possa formular sobre sua obra e vida, Charles Maurras ocupa uma posição de destaque na história das ideias políticas. Seu pensamento permanece como uma das mais elaboradas formulações do nacionalismo contrarrevolucionário europeu, razão pela qual continua sendo objeto de estudo para todos aqueles que desejam compreender a evolução das correntes conservadoras e nacionalistas na Europa dos séculos XIX e XX.

 

4- Algumas das principais obras de Charles Maurras

 

1- Le Chemin de Paradis, mythes et fabliaux. Título em português: O Caminho do Paraíso, mitos e fábulas. Ano da primeira publicação: 1895.

Nesta coletânea de contos filosóficos e fabulações, Maurras explora temas estéticos e morais com uma sensibilidade clássica, contrapondo a ordem, a beleza e a disciplina à desordem romântica e individualista. A obra revela já os germes de sua crítica à modernidade liberal, defendendo uma visão hierárquica e harmoniosa da existência humana ancorada na tradição mediterrânea. É um texto de juventude que estabelece sua reputação como prosador refinado e pensador antipositivista em matéria de arte e sensibilidade.

2- Enquête sur la monarchie. Título em português: Inquérito sobre a monarquia. Ano da primeira publicação: 1900 (publicado inicialmente em fascículos na Gazette de France).

Texto fundador do maurrassismo político, resulta de uma série de entrevistas e reflexões sobre a possibilidade de restauração monárquica na França. Maurras argumenta que a monarquia hereditária, descentralizada e tradicional é o regime mais adaptado ao gênio francês, capaz de garantir continuidade histórica, autoridade e unidade nacional contra os males da República parlamentar: instabilidade, facciosismo e subordinação aos interesses privados. A obra marca sua adesão definitiva ao realismo político e ao nacionalismo integral, influenciando toda a doutrina da Action Française.

3- Anthinéa: d’Athènes à Florence. Título em português: Anthinéa: de Atenas a Florença. Ano da primeira publicação: 1901.

Narrativa de viagem e reflexão estética, o livro celebra a civilização clássica greco-romana como fonte perene de equilíbrio e excelência. Maurras contrasta a herança mediterrânea, marcada pela razão, pela medida e pela forma, com as tendências dissolventes do Norte europeu e do romantismo. A obra reforça seu classicismo militante e serve como fundamento cultural para o nacionalismo integral, apresentando a tradição latina como antídoto contra o individualismo e o relativismo contemporâneos.

4- L’Avenir de l’intelligence. Título em português: O Futuro da inteligência. Ano da primeira publicação: 1905.

Ensaio crítico sobre a situação da cultura e do pensamento na sociedade democrática. Maurras denuncia a decadência da inteligência francesa sob o impacto do romantismo, do positivismo materialista e da imprensa de massa, que favorecem o sentimentalismo e o igualitarismo em detrimento da hierarquia natural dos espíritos. Propõe a salvação pela restauração de uma ordem clássica, onde a elite intelectual se alie à tradição monárquica para preservar a civilização contra as forças dissolventes da contemporaneidade. É uma das peças mais representativas de seu combate cultural.

5- Kiel et Tanger. Título em português: Kiel e Tânger. Ano: Escrito principalmente em 1905; primeira publicação em volume: 1910.

Análise geopolítica e crítica da política externa francesa entre 1895 e 1905, tomando como marcos os encontros navais em Kiel e o incidente de Tânger. Maurras demonstra a incapacidade estrutural da República em conduzir uma diplomacia coerente e vigorosa, vítima de mudanças ministeriais constantes e de paixões internas. Defende que somente uma monarquia forte poderia garantir uma política nacional contínua, prevendo com acuidade os perigos alemães. A obra consolida sua reputação como pensador estratégico e reforça o argumento monarquista pela via da razão de Estado.

6- Mes idées politiques. Título em português: Minhas ideias políticas. Ano da primeira publicação: 1937.

Compilação e sistematização madura do pensamento político de Maurras. Reúne os princípios do nacionalismo integral: primado do nacional sobre o individual, organicismo social, antiparlamentarismo, descentralização regionalista e defesa da monarquia como síntese de autoridade e tradição. O livro funciona como uma espécie de testamento doutrinário, apresentando de forma organizada as bases teóricas que sustentaram décadas de militância na Action Française.

7- Devant l'Allemagne éternelle, Gaulois, Germains, Latins. Título em português: Diante da Alemanha eterna, Gauleses, Germanos, Latinos. Ano da primeira publicação: 1937.

Composta durante o período em que Maurras esteve detido na prisão da Santé, entre outubro de 1936 e julho de 1937, por ameaças proferidas contra Léon Blum, a obra reúne textos escritos ao longo de quarenta anos sobre a Alemanha, o pangermanismo e a influência germânica na cultura e na política francesas. Maurras defende uma germanofobia de caráter essencialista, sustentando que os traços culturais do povo germânico seriam constantes ao longo de sua história, configurando uma ameaça permanente à unidade latina e ao gênio francês. Historiadores apontam que esse alarme germanofóbico já convivia, na própria época do livro, com uma postura de conciliação diplomática por parte de Maurras, tensão que se tornaria ainda mais evidente após 1940, quando seu apoio ao regime de Vichy foi lido como um contraste com décadas de retórica antigermânica. Trata-se de um dos textos mais representativos de seu combate intelectual contra o que considerava o perigo histórico e cultural representado pela Alemanha, e dialoga diretamente com seu nacionalismo integral e seu apego à tradição latina e mediterrânea.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 

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