Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

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terça-feira, 16 de junho de 2026

John Maynard Keynes: Vida, teoria, principais conceitos e crítica histórica

 “The difficulty lies, not in the new ideas, but in escaping from the old ones, which ramify, for those brought up as most of us have been, into every corner of our minds.”

Tradução para o português:

“A dificuldade não reside nas novas ideias, mas em escapar das antigas, que se ramificam, para aqueles que fomos educados como a maioria de nós, em todos os cantos de nossas mentes.”

John Maynard Keynes, The General Theory of Employment, Interest and Money, 1936, Prefácio.

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

John Maynard Keynes

 

1- Vida

 

John Maynard Keynes, barão de Keynes (1883-1946) nasceu em Cambridge, Inglaterra, Reino Unido e faleceu em Tilton, East Sussex então aos 62 anos de idade. Proveniente de abastada família com fortes vínculos acadêmicos. Seu pai, John Neville Keynes (1852-1949), era economista e lógico, autor de obras respeitadas sobre método em economia política, e mais tarde ocupou cargo administrativo importante na Universidade de Cambridge. Sua mãe, Florence Ada Brown (1861-1958), foi uma das primeiras mulheres a se formar na universidade e chegou a ser a primeira prefeita de Cambridge. Essa origem intelectual privilegiada marcou profundamente a formação de Keynes e sua confiança em intervir nos grandes debates da época.


 

Desde criança, Keynes demonstrou excepcional capacidade intelectual. Educado inicialmente em casa, ingressou com bolsa de estudos no prestigiado Eton College em 1897, onde se destacou em matemática, clássicos e história, conquistando dezenas de prêmios. Em 1902, obteve outra bolsa para o King’s College, em Cambridge, onde se formou em matemática, em 1905, com distinção. Durante os anos universitários, Keynes frequentou o influente círculo dos “Apostles” (Cambridge Apostles), uma sociedade secreta de debates intelectuais que reunia mentes brilhantes como Bertrand Russell, Lytton Strachey e Leonard Woolf. Foi ali que ele absorveu as ideias filosóficas de G. E. Moore, especialmente a ênfase na experiência pessoal, na beleza e nos estados de espírito como critérios últimos de valor, influência esta que jamais abandonaria por completo.

A partir do ano de 1906, Keynes passou a trabalhar no India Office, que era um departamento inglês que tinha como função administrar as colônias do império britânico. Manteve esta atividade até 1908, quando demitiu-se e retornou a Cambridge, ainda no ano de 1908. Após esta breve passagem pelo serviço público no India Office (1906–1908), onde coletou material para seu primeiro livro, Keynes retornou a Cambridge onde inicialmente deu aulas de economia com apoio de Alfred Marshall e Arthur Pigou, enquanto continuava trabalhando em sua dissertação sobre probabilidade. Ele dedicava grande parte de seu tempo à pesquisa em teoria da probabilidade, tema então considerado parte do campo da filosofia e da lógica, e não da economia propriamente dita. Em 1909, foi eleito Fellow de King’s College com base nessa dissertação, consolidando sua posição na universidade.

Paralelamente, desenvolveu intensa atividade financeira: especulava com sucesso no mercado de ações e commodities, acumulando uma fortuna considerável (A fortuna de Keynes foi volátil, teve perdas relevantes antes de conseguir consolidar ganhos) que lhe permitiu viver com conforto e patrocinar as artes. Em 1915, Keynes deixou seu cargo na faculdade para trabalhar no Tesouro Britânico, a pedido do governo. Sua principal função na instituição foi a de preparar a equipe do país que participaria do Tratado de Versalles, referente as indenizações correspondentes aos prejuízos advindos da primeira guerra mundial.

Fez parte do célebre Grupo de Bloomsbury, círculo de escritores, pintores e intelectuais que incluía Virginia Woolf, Vanessa Bell, Duncan Grant e Clive Bell. Keynes manteve relações íntimas com alguns membros do grupo, antes de se casar, em 1925, com a bailarina russa Lydia Lopokova (1892-1981), estrela dos Ballets Russes de Diaghilev. O casal não teve filhos desta relação. O casamento, inicialmente surpreendente para seus amigos, revelou-se feliz e estável, oferecendo-lhe equilíbrio emocional em meio às intensas atividades intelectuais e públicas. Antes deste casamento Keynes teve relacionamentos públicos com homens, dentre os quais se destaca o pintor escocês Duncan Grant (nascido em Inverness, Escócia, mas de família inglesa e criado na Inglaterra) e o escritor Lytton Strachey. Registra-se a partir deste momento grande fluxo de atividade homossexual em sua vida. Keynes participou ativamente do grupo de intelectuais que compunham o grupo de Bloomsbury, no qual predominava a permissividade sexual, indefinição de papéis sexuais de gênero e total respeito à liberdade individual. Este tema biográfico da vida sexual de Keynes foi desenvolvido por Robert Skidelsky (John Maynard Keynes: Hopes Betrayed 1883–1920 - Volume 1, 1983).

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) projetou Keynes para o centro dos acontecimentos mundiais. Trabalhando no Tesouro britânico, ele participou da delegação inglesa nas negociações do Tratado de Versalhes em 1919. Fez, portanto, parte da conferência de Paris como delegado representando a Inglaterra no tocante às reparações devidas pela Alemanha ao final da primeira guerra mundial, mas por discordar do andamento das tratativas, se afastou das discussões, renunciando ao cargo.

Profundamente insatisfeito com as duras reparações impostas à Alemanha, Keynes renunciou ao cargo em protesto. Este envolvimento direto nas discussões sobre as reparações devidas e a paz, gerou reflexões que deram origem a sua obra de 1919, The economic consequences of peace (As consequências econômicas da paz), obra que o tornou famoso internacionalmente. Nela, além de acusar a delegação da França pela inflexibilidade e dureza em relação as reparações devidas pela Alemanha, previu com clareza que as condições do tratado levariam a instabilidade econômica, inflação e ressentimento na Europa, profecia que a história confirmaria tragicamente.

Nos anos seguintes, Keynes alternou ensino em Cambridge, jornalismo influente, especulação financeira e aconselhamento governamental. Criticou o retorno ao padrão-ouro na Grã-Bretanha em 1925, argumentando que ele prejudicaria a indústria e o emprego.

A Grande Depressão, iniciada em 1929, reforçou sua convicção de que os mecanismos automáticos do mercado não bastavam para garantir o pleno emprego. Sua saúde, porém, começou a sofrer: em 1937 sofreu um infarto, o que o obrigou a reduzir o ritmo, embora não tenha interrompido suas atividades.

Em 1942, recebeu o título de Barão Keynes de Tilton, e ingressou na Câmara dos Lordes. Durante a Segunda Guerra Mundial, Keynes voltou ao Tesouro britânico e representou o Reino Unido na Conferência de Bretton Woods (1944), onde ajudou a desenhar as instituições econômicas do pós-guerra (Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial). Keynes teve um papel de destaque na Conferência de Bretton Woods, 1944, que colocou as bases adotadas no sistema monetário internacional no pós-segunda guerra mundial. Embora tenha sido parcialmente sobrepujado pela delegação americana, suas ideias sobre a necessidade de cooperação internacional e de mecanismos para evitar desequilíbrios globais deixaram marca profunda. Em diversos momentos críticos da história, Keynes atuou como conselheiro do governo britânico.

Keynes publicou diversas obras, mas sua mais importante é “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, 1936, uma obra tardia e na qual suas ideias se encontram já bem maduras. Keynes é reconhecido como economista cuja obra afetou a teoria e prática da macroeconomia e as políticas econômicas adotadas pelos governos. Keynes também foi membro do Partido Liberal na Inglaterra.

A obra de Keynes deve ser lida e pensada dentro de seu tempo histórico, que inclui o entre guerras (primeira e segunda guerra mundial) e a crise da bolsa de Nova York gerando a grande recessão mundial. Segundo muitos comentadores, o New Deal proposto pelo governo de Franklin Delano Roosevelt nos EUA após a crise da bolsa, visando superar os efeitos da recessão e o estado de bem-estar social adotado pós-segunda guerra mundial por alguns países europeus, mostram a vitalidade e adoção das ideias de Keynes para a solução prática de problemas macroeconômicos, estes pontos serão, no entanto, aqui debatidos e criticados no transcurso deste artigo.

As ideias de Keynes influenciaram após a segunda guerra mundial e diante da ameaça representada pela URSS com seu suposto governo dentro de um modelo comunista / socialista, a criação do Estado de bem-estar social. Esta proposta foi adotada em particular em alguns países europeus (como Suécia, Noruega, Finlândia e Islândia), sendo que estes ficaram conhecidos como praticantes do keynesianismo nórdico.

Keynes atuou junto a economia política e a teoria da probabilidade. Diversos comentaristas o consideram o precursor do conceito de macroeconomia. Justamente pelo keynesianismo defender a interferência do Estado na economia, visando garantir o equilíbrio econômico e o emprego, é ele tido como oposto ao liberalismo.

Keynes se opõe ao liberalismo, isto é verdade, no entanto há um pequeno problema aqui que deve ser esclarecido. O problema é que “liberalismo” não é uma coisa única, o termo “liberalismo” não designa uma doutrina única e homogênea. É possível distinguir ao menos três níveis: liberalismo clássico, liberalismo político e neoliberalismo. O liberalismo clássico, tal como formulado por autores como Adam Smith e David Ricardo, baseia-se na ideia de que o mercado possui mecanismos autorreguladores capazes de conduzir a economia ao equilíbrio, com mínima necessidade de intervenção estatal. Sustenta, portanto, o princípio do laissez-faire e a autorregulação do mercado. O liberalismo político, característico da tradição inglesa, é centrado na defesa das liberdades individuais, das instituições representativas e da economia de mercado. Já o neoliberalismo contemporâneo, em autores como Friedrich Hayek e Milton Friedman, reforça a crítica ao intervencionismo e defende a limitação do papel do Estado na economia. Embora Keynes tenha sido membro do Partido Liberal inglês e jamais tenha se identificado com o socialismo ou o comunismo, sua teoria econômica se afasta de maneira significativa dos princípios centrais do liberalismo econômico clássico e também das formulações posteriores do neoliberalismo. Keynes rompe claramente com o liberalismo econômico clássico e se opõe a diversos aspectos do neoliberalismo, ao sustentar que o mercado pode falhar de forma estrutural, produzindo desemprego involuntário persistente e crises prolongadas, o que exige a atuação ativa do Estado por meio de políticas fiscais e monetárias. No entanto, ele permanece inserido na tradição do liberalismo político britânico, sendo defensor das instituições liberais e do capitalismo.  Keynes não é anti-liberal, ele é anti-laissez-faire clássico e crítico de certas formas de liberalismo econômico. Nele temos oposição ao liberalismo econômico clássico, crítica ao laissez-faire e divergência com o neoliberalismo contemporâneo. É importante destacar que Keynes era liberal dentro da tradição reinante em seu país, que era inclusive membro do Partido Liberal e publicamente defensor do capitalismo contra o comunismo/socialismo. Assim, ao afirmar que Keynes se opõe ao liberalismo, deve-se compreender essa oposição no plano da teoria econômica (especialmente contra o laissez-faire) e não como rejeição da tradição político-institucional liberal à qual ele próprio pertenceu. Embora permaneça no interior de uma defesa do capitalismo, sua concepção não se insere na doutrina liberal em seu sentido econômico clássico, mas representa uma inflexão decisiva em direção a um modelo no qual o Estado assume papel central na estabilização da economia.

Sua vida reflete a passagem de um intelectual brilhante, pertencente à elite cultural britânica, para um ator central na reconstrução do mundo após duas guerras mundiais. Mais do que um economista técnico, Keynes foi um pensador que combinou rigor matemático, sensibilidade estética (graças ao Grupo de Bloomsbury) e pragmatismo político. Sua trajetória ilustra como ideias nascidas em salas de Cambridge e salões londrinos podiam moldar políticas que afetariam milhões de seres humanos no século da contemporaneidade. Keynes faleceu em 21 de abril de 1946, aos 62 anos, em sua casa de campo em Tilton, East Sussex, vítima de outro ataque cardíaco, logo após retornar de negociações em Washington. Morreu como um dos economistas mais influentes do século XX, tendo revolucionado não apenas a teoria econômica, mas também a forma como governos contemporâneos lidam com crises, desemprego e estabilização da demanda.

 

2- Ideias

 

John Maynard Keynes não foi apenas um economista técnico; foi um pensador que rompeu com os pressupostos centrais da economia clássica e lançou as bases da macroeconomia contemporânea. Sua contribuição principal reside na demonstração de que o desemprego involuntário pode persistir mesmo em condições de equilíbrio de mercado e de que o nível geral de atividade econômica é determinado pela demanda agregada, e não apenas pela oferta. Para ele, o Estado deve atuar ativamente por meio de políticas fiscais e monetárias para estabilizar a economia, combater o desemprego e promover o pleno emprego. Essas ideias representaram uma verdadeira revolução no modo de compreender o funcionamento das economias capitalistas no século XX.

Cabe destaque a sua teoria econômica e também a sua teoria sobre a probabilidade. Antes de revolucionar a macroeconomia, Keynes dedicou-se profundamente à filosofia da probabilidade. Em 1921, publicou A Treatise on Probability (Tratado sobre a Probabilidade), obra que representa uma de suas contribuições mais originais e que exerceu influência silenciosa, mas decisiva, em toda a sua obra posterior.

Diferentemente da visão clássica que reduz a probabilidade a frequências observáveis ou a cálculos puramente matemáticos, Keynes propôs uma interpretação lógica da probabilidade. Para ele, a probabilidade não é um número objetivo extraído de dados repetidos, mas uma relação lógica entre um conjunto de evidências (premissas) e uma hipótese (conclusão). Trata-se de um grau racional de crença que se pode atribuir a uma proposição com base nas informações disponíveis. Nem sempre essa relação pode ser expressa numericamente de forma precisa ou comparável entre diferentes situações.

Keynes introduziu ainda o conceito de peso da evidência (weight of argument). Mesmo quando atribuímos uma probabilidade numérica a um evento, é essencial avaliar quão completa e sólida é a base de conhecimento sobre o qual essa probabilidade se apoia. Um argumento pode ter alta probabilidade, mas baixo peso (pouca evidência confiável), o que reduz sua utilidade prática para a tomada de decisão.

Essa reflexão filosófica sobre a probabilidade e a incerteza foi fundamental para a economia keynesiana. Na Teoria Geral (1936), Keynes distingue claramente entre risco (situações mensuráveis, onde a probabilidade pode ser calculada) e incerteza verdadeira (situações em que não dispomos de base estatística suficiente para atribuir probabilidades confiáveis). É nessa incerteza radical que os “espíritos animais” (impulsos de otimismo ou pessimismo irracional) ganham força, e que a preferência pela liquidez se intensifica. Os investidores não agem como calculadores frios de probabilidades; eles navegam num mundo onde o futuro é, em grande medida, incognoscível.

A teoria da probabilidade revela, portanto, o Keynes mais filosófico: um pensador influenciado pelo ambiente de Cambridge e pelo Grupo de Bloomsbury, que nunca separou completamente a análise econômica da reflexão sobre o conhecimento humano, a racionalidade limitada e os limites da previsão científica. Sem essa base, dificilmente se compreenderia por que ele insistiu tanto na necessidade de intervenção estatal ativa diante de crises que o mercado sozinho não consegue resolver.

Keynes defendia uma política de expansão econômica com a geração e aumento do poder aquisitivo e do nível de vida dos trabalhadores com pleno emprego e aumento da produção. A teoria proposta na obra de Keynes ficou conhecida por seus seguidores como “teoria keynesiana”. Em síntese, Keynes argumentava que o governo das nações tem um importante papel a desempenhar na macroeconomia, visando estabilizar a economia por meio de intervenções fiscais. Neste tocante entra como instrumento os gastos públicos e as políticas monetárias. O governo pode, por meio de suas políticas monetárias, atuar no controle da oferta de moeda e nas taxas de juros adotadas pelo mercado. Deste modo, é papel do governo estimular a demanda agregada visando manter o emprego e prevenir prolongadas recessões.

Keynes prega uma política estatal intervencionista e protecionista atuando por meio de impostos nas importações e equilibrando a balança aduaneira, de modo a eliminar o déficit comercial. Cabe a ressalva, no entanto, que Keynes não era um protecionista sistemático, suas posições variaram ao longo da vida e ele próprio reconhecia tensões entre protecionismo e cooperação internacional (como em Bretton Woods). Keynes faz críticas ao livre comércio e propõe que este seja regularizado. Também buscou a autossuficiência das nações, no tocante ao máximo de produtos possíveis para seu consumo.

Dentre os principais conceitos desenvolvidos na obra de Keynes temos: demanda agregada; intervenção do governo; política monetária; pleno emprego; ciclos econômicos. Ele entendeu que a demanda agregada inclui o consumo privado, o investimento privado, os gastos do governo, as exportações líquidas, sendo o principal determinante do produto nacional e do emprego. Segundo o pensamento de Keynes, durante períodos de recessão temos queda na demanda agregada e isto pode ter como resultado a redução da produção e o aumento do desemprego em larga escala. Keynes defende a intervenção do governo na economia, visando obter estabilidade e promover o crescimento econômico. Segundo suas ideias, o setor privado mostra-se incapaz de conseguir sozinho a recuperação durante períodos de recessão, cabendo ao governo atuar aumentando os gastos públicos, investindo em infraestrutura e programas sociais, bem como, reduzindo os impostos visando estimular a demanda agregada e a revitalização da economia nacional. Keynes também defende que haja uma política monetária na qual temos o controle das taxas de juros pelo banco central. Quando da redução das taxas de juros temos o incentivo para o investimento privado e o estímulo para o crescimento econômico. No tocante ao pleno emprego, entende que devem haver políticas econômicas voltadas para restaurar e manter o emprego em níveis sustentáveis. A economia pode atuar abaixo do pleno emprego em decorrência de falhas no mercado de trabalho, tais como salários rígidos ou ineficiência na correspondência entre oferta e demanda de trabalho. O pensamento desenvolvido por Keynes em sua obra, reconhece a existência de ciclos econômicos de expansão e de contração. Entende que durante períodos de expansão cabe aos governos adotar políticas contracíclicas para evitar o superaquecimento da economia, já durante períodos de recessão, cabe adotar políticas expansionistas visando estimular a atividade econômica dentro da sociedade. Visando combater a inflação e estimular o desenvolvimento da economia, cabe ao Banco Central elevar as taxas de juros quando os preços tiverem tendência a subir e baixá-las quando os preços tiverem tendência para cair. Trata-se do Estado assumir a responsabilidade por garantir o pleno emprego, a qualidade de vida do trabalhador, suas moradias, educação, saúde, lazer e previdência social. Mas claro está, quanto mais intervencionista for o Estado, maior este se torna e maiores são as contribuições obtidas de seus cidadãos por meio de impostos.

Keynes criticava o padrão-ouro, principalmente por sua rigidez. Ele argumentava que atrelar a moeda a uma quantidade fixa de ouro impedia os bancos centrais de ajustarem a oferta monetária conforme as necessidades internas da economia, especialmente para combater desemprego ou deflação. Essa rigidez, segundo ele, agravava crises ao forçar ajustes dolorosos via queda de salários e preços (deflação). O sistema internacional de Bretton Woods (1944), que Keynes ajudou a negociar, criou um padrão-ouro “dólar-centrado” (o dólar era conversível em ouro, e outras moedas em dólar). Esse arranjo durou até 1971, quando o presidente Nixon suspendeu a convertibilidade do dólar em ouro. A partir daí, o mundo passou integralmente para o regime de moedas fiduciárias flutuantes. Essa realidade atual reforça a vitória prática das ideias keynesianas (e de outros defensores de políticas monetárias ativas): desde os anos 1970, os bancos centrais têm liberdade para expandir ou contrair a base monetária conforme as condições econômicas, exatamente o oposto da rigidez que Keynes combatia no padrão-ouro. No entanto, essa flexibilidade também gera debates críticos: inflação persistente, dívida pública elevada e questionamentos sobre o valor “real” das moedas fiduciárias.

As ideias desenvolvidas por Keynes, no tocante à macroeconomia, se colocam a meio termo entre a teoria econômica clássica do Liberalismo de Adam Smith com sua “mão invisível” e a teoria comunista de Karl Marx. Entre o total laissez-faire e laissez-passer com a valorização da propriedade privada por um lado e a total intervenção estatal e a supressão da propriedade privada por outro, temos Keynes defendendo um capitalismo no qual o Estado possa e deva intervir para manter o equilíbrio e estimular a economia.

A obra fundamental de Keynes, “A teoria geral do emprego, do juro e da moeda”, 1936, parte de uma crítica profunda à economia clássica. Os economistas clássicos acreditavam que o mercado, deixado a si mesmo, tenderia naturalmente ao pleno emprego. Segundo eles, qualquer desemprego seria voluntário ou ficcional, resultado de salários excessivos ou de ajustes temporários. Keynes demonstrou que isso não corresponde à realidade. Pode existir desemprego involuntário persistente: seres humanos dispostos a trabalhar pelo salário vigente, mas sem encontrar emprego porque a demanda agregada é insuficiente.

O conceito-chave é o de demanda agregada (a soma do consumo, do investimento, dos gastos governamentais e do saldo líquido das exportações). Quando essa demanda é baixa, as empresas reduzem a produção e dispensam trabalhadores. O sistema não se corrige automaticamente, como supunha a tradição clássica. Ao contrário, pode se estabilizar num nível baixo de atividade, com alto desemprego.

Keynes introduziu a propensão marginal a consumir: à medida que a renda aumenta, os humanos consomem mais, mas em proporção decrescente. Parte da renda adicional é poupada. Isso leva ao famoso paradoxo da poupança: se todos tentam poupar mais em tempos de crise, o consumo cai, a demanda agregada diminui e a renda geral também cai, resultando em menos poupança efetiva para a sociedade como um todo.

Outro pilar é o multiplicador. Um gasto inicial (por exemplo, obras públicas financiadas por déficit) aumenta a renda dos trabalhadores, que então consomem parte dessa renda, gerando nova renda para outros, e assim sucessivamente. O efeito total sobre a renda e o emprego é várias vezes maior que o gasto inicial. O tamanho do multiplicador depende da propensão marginal a consumir: quanto maior a parcela consumida, maior o multiplicador. Keynes mostrou que um gasto inicial (seja investimento privado, obras públicas ou qualquer aumento autônomo de demanda) gera um efeito em cadeia muito maior sobre a renda e o emprego na sociedade como um todo. Imagine que o governo gaste uma quantia extra em construção de estradas. Os trabalhadores e empresas que recebem esse dinheiro agora têm mais renda. Eles não guardam tudo: gastam parte dela em consumo (compram comida, roupas, serviços). Esse novo consumo se torna renda para outros seres humanos, que também gastam uma parte, e assim sucessivamente. O efeito inicial se multiplica ao longo da economia. O tamanho desse multiplicador depende da propensão marginal a consumir (a fração da renda adicional que as pessoas tendem a gastar em consumo, em vez de poupar). Quanto maior a parcela que as pessoas consomem de cada unidade extra de renda, maior será o multiplicador. Se, por exemplo, as pessoas consomem 80% da renda adicional, o multiplicador será maior do que se consumissem apenas 50%.

Esse mecanismo está intimamente ligado ao paradoxo da poupança: se todos tentam poupar mais ao mesmo tempo (especialmente numa crise), o consumo cai, a demanda agregada diminui e a renda geral da economia também cai. No final, a sociedade poupa menos do que pretendia, porque há menos renda circulando. O que parece racional para cada indivíduo (poupar mais) torna-se prejudicial para o conjunto.

Por isso, Keynes defendia que, em períodos de baixa demanda, o Estado pode usar gastos públicos (mesmo que temporariamente deficitários) para iniciar esse processo multiplicador, elevando a atividade econômica, gerando empregos e restaurando a confiança. Uma vez recuperada a economia, a própria expansão da renda permite recolher mais impostos e equilibrar as contas públicas ao longo do tempo.

Keynes também revolucionou a compreensão do juro e do investimento. Na teoria clássica, o juro equilibrava poupança e investimento. Para Keynes, o juro é o preço que compensa a preferência pela liquidez (o desejo humano de manter dinheiro em forma líquida por motivos de transação, precaução e especulação). Quando a incerteza é alta, a preferência pela liquidez aumenta, os juros sobem e o investimento privado cai. Mesmo com juros baixos, o investimento pode não se recuperar se as expectativas de lucro (a “eficiência marginal do capital”) forem pessimistas.

Aqui entra o papel central das expectativas e da incerteza. Diferentemente da probabilidade mensurável (tema que Keynes já havia explorado em seu Tratado sobre a Probabilidade, de 1921), a incerteza econômica verdadeira não permite cálculos precisos. Os investidores agem guiados por “espíritos animais”, impulsos irracionais de otimismo ou pessimismo. Em períodos de baixa confiança, nenhum corte de juros consegue estimular suficientemente o investimento privado.

Diante disso, Keynes conclui que a política monetária sozinha (redução de juros ou aumento da oferta de moeda) pode ser insuficiente, especialmente numa “armadilha da liquidez”, quando os humanos preferem guardar dinheiro mesmo com juros muito baixos. A solução mais eficaz é a política fiscal ativa: o Estado deve aumentar seus gastos (mesmo que gere déficit temporário) para elevar diretamente a demanda agregada, criar empregos e restaurar a confiança. Uma vez recuperada a economia, os impostos mais altos sobre a renda elevada podem equilibrar as contas públicas. Aqui, portanto, encontramos um conceito decisivo para compreender a lógica da intervenção estatal em Keynes que é o de “armadilha da liquidez”. Trata-se de uma situação em que as taxas de juros já se encontram tão baixas que os agentes econômicos (famílias, empresas e investidores) preferem reter moeda em forma líquida a aplicá-la em investimentos ou títulos, pois não vislumbram perspectivas de lucro compensadoras. Nesse cenário, mesmo que o banco central expanda a oferta monetária ou reduza ainda mais os juros, o efeito sobre o investimento e o consumo é praticamente nulo: a economia entra em espécie de paralisia, onde a política monetária perde sua eficácia. É exatamente aqui que Keynes rompe de forma mais radical com a tradição clássica: se o mercado e os instrumentos monetários convencionais são incapazes de reativar a economia, cabe ao Estado intervir diretamente por meio do gasto público, mesmo que isso implique déficit temporário. A armadilha da liquidez não é, portanto, uma anomalia ocasional no pensamento keynesiano, é o argumento mais contundente em favor da primazia da política fiscal sobre a política monetária em momentos de crise profunda.

Essas ideias não nascem do vazio. Keynes carregava influências filosóficas profundas, especialmente de George Edward Moore (1873-1958), que enfatizava os estados de espírito e a experiência direta como critérios de valor. Essa sensibilidade estética e psicológica ajudou-o a incorporar elementos comportamentais e irracionais na análise econômica, o que de fato era algo raro na sua época histórica.

Em síntese, a Teoria Geral não é apenas um manual de política anticrise. É uma visão nova do funcionamento das economias contemporâneas: o mercado não é um mecanismo autorregulador perfeito; ele pode gerar equilíbrios ruins, com recursos ociosos e sofrimento humano desnecessário. Cabe ao poder público intervir para corrigir esses desequilíbrios e aproximar a economia do pleno emprego.

 

2.1- Keynes e o New Deal: Um anacronismo na história

 

Uma das associações mais repetidas na divulgação histórica e econômica é a de que o New Deal de Franklin D. Roosevelt (1882-1945) foi uma aplicação prática das ideias keynesianas. Trata-se, porém, de um anacronismo presente na história. Lembramos que por anacronismo entendemos um erro cronológico infelizmente deveras comum, que consiste em situar pessoas, objetos, costumes, conceitos ou ideias fora de sua época correta, analisando o passado com valores do presente.

A principal obra de Keynes, “A teoria geral do emprego, do juro e da moeda”, foi publicada apenas em fevereiro de 1936. Quando Roosevelt assumiu a presidência em março de 1933 e lançou os primeiros programas do New Deal durante os célebres “Cem Dias”, a teoria keynesiana madura ainda não existia. As raízes intervencionistas do New Deal remontam, na verdade, ao governo anterior. Herbert Hoover (1874-1964), presidente norte-americano entre 1929-1933 (foi o 31.º presidente dos Estados Unidos), frequentemente retratado como defensor rígido do laissez-faire, já havia iniciado medidas significativas de intervenção estatal: criou a Reconstruction Finance Corporation (1932) para socorrer bancos e empresas, promoveu obras públicas, apoiou preços agrícolas e aumentou os gastos federais. Roosevelt ampliou e radicalizou esse caminho, mas não o inventou. A continuidade entre Hoover e Roosevelt é maior do que a narrativa política posterior quis admitir.

Ideias semelhantes às que Keynes sistematizaria em 1936 já circulavam na Europa desde o início da década de 1930. A chamada Escola de Estocolmo, formada por economistas suecos como Gunnar Myrdal (1898-1987), Bertil Ohlin (1899-1979) e Erik Lindahl (1891-1960), defendia políticas contracíclicas, obras públicas financiadas por déficit orçamentário, intervenção estatal para elevar a demanda e combate ativo ao desemprego. Publicações importantes dessa Escola datam de 1931 a 1934, antecipando vários elementos da teoria keynesiana. Embora não haja evidência de influência direta sobre a equipe de Roosevelt, a convergência de ideias intervencionistas estava claramente “no ar” em vários países. Ao que parece, o final dos anos da década de 1920 e início da década de 1930 trouxeram para o capitalismo ideias referentes a uma maior intervenção do Estado na Economia e estas circulavam amplamente em vários círculos antes mesmo de serem sistematizadas, organizadas e terem reconhecimento maior a partir da obra de Keynes.

No Brasil, a relação entre Roosevelt e Getúlio Vargas reforça esse quadro de convergência pragmática, e não de aplicação teórica. Os dois presidentes mantiveram uma relação próxima de amizade e reconhecimento mútuo. Encontraram-se pessoalmente em 1943, em Natal (Rio Grande do Norte), e trocaram elogios públicos. Roosevelt chegou a declarar, em tom retórico, durante uma visita ao Rio de Janeiro em novembro de 1936: “Duas pessoas inventaram o New Deal: o Presidente do Brasil e o Presidente dos Estados Unidos.” Vargas admirava o ativismo estatal americano e implementou, no Estado Novo, medidas de intervenção econômica, legislação trabalhista e industrialização que apresentavam paralelos superficiais com o New Deal. Tratava-se, porém, de uma convergência política e diplomática, marcada pelo contexto da Segunda Guerra Mundial e pelos interesses estratégicos bilaterais, e não de uma adoção direta de doutrina econômica. Apesar dos modelos ideológicos de ambos países (um mais democrático e outro mais autoritário) serem diferentes, houve uma aproximação no tocante às ideias referentes à aplicação de um modelo econômico que respondesse as demandas oriundas da crise econômica mundial daquela época histórica.

O próprio encontro pessoal entre Keynes e Roosevelt ilustra bem as distâncias entre teoria e prática. Os dois se viram uma única vez, em 28 de maio de 1934, na Casa Branca. O encontro foi intermediado por Felix Frankfurter e durou cerca de uma hora. As impressões foram educadas em público, mas reservadas em particular. Segundo o relato de Frances Perkins, Secretária do Trabalho, Roosevelt comentou depois: “Vi seu amigo Keynes. Ele me deixou um monte de algarismos confusos. Deve ser mais matemático do que economista político.”

Keynes, por sua vez, admirou a ousadia das ações de Roosevelt, mas observou com cautela que havia “suposto que o Presidente fosse mais letrado, economicamente falando”. O choque era previsível: Keynes falava em equações, multiplicadores e demanda agregada; Roosevelt governava por instinto político, experimentação (“trial and error”) e coalizões pragmáticas.

Essa discussão revela um ponto central para a compreensão crítica da história das ideias: o New Deal não nasceu da Teoria Geral de 1936, mas de respostas pragmáticas e ecléticas à catástrofe da Grande Depressão. Muitos analistas argumentam, inclusive, que as políticas intervencionistas de Hoover e Roosevelt (rigidez salarial, cartéis agrícolas e industriais, regulamentações excessivas e aumento de impostos) contribuíram para prolongar a depressão em vez de resolvê-la. A recuperação econômica americana só ganhou força consistente a partir de 1938-1939, com os preparativos bélicos, e especialmente durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando o enorme gasto público de guerra elevou a demanda agregada de forma decisiva.

Keynes apoiou o New Deal a partir de 1933 (inclusive com uma “Carta Aberta ao Presidente Roosevelt” publicada no The New York Times), mas atuou mais como observador e torcedor eloquente do que como inspirador original. A narrativa posterior que transforma o New Deal em “aplicação prática do keynesianismo” é, portanto, um retrocesso historiográfico: projeta sobre eventos de 1933 uma teoria que só foi plenamente articulada em 1936. Esse anacronismo ajudou a consolidar o keynesianismo como doutrina oficial do século XX, mas obscurece a complexidade real das origens das políticas intervencionistas contemporâneas.

 

3- Palavras finais

 

A obra de John Maynard Keynes deve ser lida e avaliada com o devido cuidado histórico. Embora tenha exercido enorme influência na macroeconomia contemporânea e tenha servido de base teórica para muitas políticas intervencionistas do século XX, sua teoria não escapou das limitações de seu tempo. Como vimos, a associação direta entre o keynesianismo e o New Deal constitui um anacronismo frequente, e muitas das medidas intervencionistas dos anos 1930 antecederam ou desenvolveram-se paralelamente à formulação madura de suas ideias. Keynes foi, sem dúvida, um pensador brilhante que soube identificar falhas reais do mecanismo de mercado, especialmente a possibilidade de desemprego involuntário persistente e a importância da demanda agregada. No entanto, sua defesa de uma intervenção estatal ativa também abriu caminho para o crescimento desmedido do aparato governamental, para o aumento crônico da dívida pública e para a dependência de estímulos fiscais que, em muitos casos, prolongaram desequilíbrios em vez de resolvê-los. Em última análise, a grande contribuição de Keynes não reside em oferecer soluções definitivas, mas em ter desafiado corajosamente os dogmas da economia clássica e em ter forçado o pensamento econômico a levar em conta a complexidade do comportamento humano, a incerteza radical e os limites da autorregulação do mercado. Cabe a nós, hoje, ler Keynes criticamente: reconhecendo sua genialidade sem transformar suas ideias em uma nova ortodoxia intocável. Menos do que ideias novas e imutáveis, Keynes nos traz uma visão alternativa em relação ao stablishment reinante em sua época, algo sempre saudável para o debate crítico e possível avanço das ideias e do conhecimento humano.

 

4- Algumas das principais obras de Keynes

 

1- Indian Currency and Finance. Título traduzido para o português: Moeda e finanças na Índia. Ano da primeira publicação: 1913.

Nesta sua primeira grande obra, Keynes analisa o sistema monetário e financeiro da Índia sob o domínio britânico. Ele examina os mecanismos de emissão de moeda, as reservas de ouro e prata e os problemas de instabilidade cambial, defendendo reformas que garantissem maior flexibilidade e estabilidade ao sistema colonial. O livro revela já o interesse precoce do autor pela política monetária prática e pela relação entre moeda e desenvolvimento econômico.

2- The Economic Consequences of the Peace. Título traduzido para o português: As consequências econômicas da paz. Ano da primeira publicação: 1919.

Escrito logo após a Primeira Guerra Mundial, o livro é uma crítica devastadora ao Tratado de Versalhes. Keynes argumenta que as reparações impostas à Alemanha eram economicamente insustentáveis e que, ao empobrecerem o principal motor industrial da Europa, condenariam o continente inteiro a um longo período de instabilidade, inflação e desemprego. A obra tornou Keynes famoso mundialmente por sua capacidade de combinar análise técnica com previsão política.

3- A Tract on Monetary Reform. Título traduzido para o português: Tratado sobre a reforma monetária. Ano da primeira publicação: 1923.

Keynes defende uma reforma radical do sistema monetário internacional, criticando o retorno ao padrão-ouro como uma rigidez perigosa. Ele propõe que os bancos centrais priorizem a estabilidade dos preços internos e o pleno emprego, em vez de defender uma paridade fixa com o ouro. É o primeiro texto em que ele articula claramente a ideia de que a política monetária deve ser ativa e flexível para enfrentar choques econômicos.

4- A Treatise on Money. Título traduzido para o português: Tratado sobre a moeda. Ano da primeira publicação: 1930 (dois volumes).

Obra ambiciosa e técnica em dois volumes, o livro aprofunda a teoria monetária. Keynes distingue claramente os conceitos de poupança e investimento, analisa o papel dos bancos na criação de crédito e explora como desequilíbrios entre poupança e investimento podem gerar inflação ou deflação. Embora ainda preso a certos pressupostos clássicos, o Tratado já prepara o terreno para a grande ruptura teórica que viria em 1936.

5- Essays in Persuasion. Título traduzido para o português: Ensaios de persuasão. Ano da primeira publicação: 1931.

Coletânea de artigos e ensaios escritos entre 1919 e 1931, o livro reúne textos acessíveis ao público leigo. Keynes defende, de forma clara e persuasiva, suas ideias sobre a necessidade de intervenção estatal, a crítica ao padrão-ouro e as políticas de estímulo à demanda. É uma das obras mais legíveis do autor e revela seu talento para comunicar ideias complexas ao grande público.

6- The General Theory of Employment, Interest and Money. Título traduzido para o português: A teoria geral do emprego, do juro e da moeda. Ano da primeira publicação: 1936.

Considerada a obra-prima de Keynes e um dos livros mais influentes do século XX, a Teoria Geral rompe definitivamente com a economia clássica. Keynes demonstra que o desemprego involuntário pode ser um fenômeno persistente mesmo em equilíbrio de mercado e que o nível de atividade econômica é determinado pela demanda agregada. Propõe, portanto, que o Estado atue ativamente por meio da política fiscal e monetária para manter o pleno emprego e estabilizar a economia. Esta obra fundou as bases da macroeconomia moderna e do pensamento keynesiano.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua autoria)

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Henri Bergson: Vida, Intuição, Duração e As Duas Fontes da Moral e da Religião

 

“L'œil ne voit que ce que l'esprit est prêt à comprendre.”

“O olho só vê aquilo que o espírito está preparado para compreender.”

“La durée est le progrès continu du passé qui ronge l'avenir.”

“A duração é o progresso contínuo do passado que corrói o futuro.”

Henri Bergson

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Henri-Louis Bergson

 

Considerado um dos mais importantes filósofos do final do século XIX e início do século XX, Henri Bergson desenvolveu uma filosofia profundamente original voltada à compreensão do tempo, da consciência e da própria dinâmica da vida. Em oposição às tendências excessivamente mecanicistas e intelectualistas presentes em grande parte do pensamento científico de sua época, Bergson procurou mostrar que a realidade fundamental da vida não pode ser plenamente capturada por conceitos abstratos ou por análises puramente quantitativas. Sua filosofia enfatiza a duração vivida, a intuição como forma de conhecimento e a criatividade inerente ao processo vital. Nos tópicos a seguir serão apresentados alguns dos principais aspectos de sua vida e de seu pensamento filosófico.

 

1- Vida e Formação de Henri Bergson

 

Henri-Louis Bergson (1859-1941) nasce em Paris e falece aos 81 anos de idade também na cidade de Paris, França. Atuou como professor, escritor, diplomata, sociólogo e filósofo. Proveniente de uma família judaica. Seu pai, Michał Bergson (ou Bereksohn, nome original polonês. 1820-1898), era um compositor e músico talentoso de ascendência polonesa, que se estabelecera na França após peregrinações pela Europa. A mãe, Katherine Levinson (ou Kate Levinson/Levison. 1831/1834-1928/1929), era uma mulher de origem anglo-irlandesa, o que conferia a Bergson uma identidade híbrida: polonesa pelo pai, inglesa pela mãe, francesa por nascimento e formação. Seus pais eram ambos judeus.

Bergson foi o segundo de sete filhos do casal. Bergson viveu em Londres com os pais até a idade de nove anos, em 1870, quando então foi novamente para Paris conjuntamente com sua família e ali concluiu seus estudos. Estudou no Liceu Fontanes e lá teve a oportunidade de obter o prêmio de primeiro lugar no Concours Gêneral, no qual resolveu satisfatoriamente um problema de matemática proposto por Pascal. Obteve a licenciatura em Letras no ano de 1881 e, posteriormente, atuou como professor em algumas instituições de ensino, dentre as quais o liceu Blaise Pascal, de Clermont-Ferrand.


 

A infância de Bergson foi marcada por mobilidade e pela influência de uma educação laica e cosmopolita. A família mudou-se brevemente para Londres nos primeiros anos de vida do filósofo, mas retornou a Paris, onde ele frequentou o prestigiado Lycée Condorcet. Desde cedo demonstrou excepcional aptidão para as ciências exatas e para as letras: aos 17 anos, ganhou um prêmio nacional em matemática com um trabalho sobre o método de resolução de problemas geométricos. No entanto, sua vocação filosófica se impôs rapidamente. Em 1878, ingressou na École Normale Supérieure, a elite da formação intelectual francesa, onde estudou filosofia sob a influência de mestres como Émile Boutroux e onde se formou em 1881. Após a graduação, Bergson iniciou uma carreira docente em liceus (ensino médio francês), lecionando em Angers, Clermont-Ferrand e, a partir de 1883, no Lycée Henri-IV em Paris. Essa fase inicial foi marcada por uma reflexão profunda sobre o tempo, a consciência e a liberdade, temas que culminariam em sua tese de doutorado.

Obtém seu doutorado em 1889 pela Universidade de Paris. A sua tese de doutoramento foi escrita em latim e intitulava-se Quid Aristoteles de loco senserit. Em 1889, defendeu Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência (publicada como tese principal) e Quid Aristoteles de loco senserit (tese latina complementar), obtendo o doutorado.

Em 1891, Bergson casou-se com Louise Neuberger, sobrinha do matemático e banqueiro Jacques Reinach e prima do escritor Marcel Proust (que atuou como padrinho na cerimônia). Essa união familiar ampliou seus contatos com a elite intelectual e artística parisiense, incluindo círculos literários onde Proust se destacaria anos depois e a círculos influentes da sociedade parisiense por parte de Jacques Reinach. Juntos tiveram uma filha em 1896, Jeanne Adèle Bergson, que, infelizmente, nasceu surda. Mais tarde, Jeanne se tornaria pianista.

Nos seus estudos e formação, Bergson impressionou positivamente seus professores, demonstrando grande aptidão para as ciências, matemática e área de exatas, mas para desapontamento de seus professores nestas respectivas áreas, Bergson optou por seguir a carreira de humanas, cursando Letras e se voltando para a filosofia.

Bergson ocupou a cátedra de filosofia grega e romana no Collège de France entre 1900 e 1904, vindo posteriormente, a substituir Gabriel Tarde na cátedra de filosofia moderna até o ano de 1920. Nos cursos abertos que ministrava, contava com grande participação do público. Enquanto filósofos hoje já clássicos, como Platão e Descartes, preferiram fundamentar sua filosofia na geometria, Bergson priorizava a Biologia, a Sociologia e a Psicologia.

Bergson foi muito influente ainda em vida e, mesmo hoje em dia, exerce uma influência considerável em vários pensadores importantes no transcurso do século XX e cujo pensamento se faz presente no século XXI, mas podemos listar somente um como seguidor e discípulo, que foi Édouard Le Roy, quem o substituiu na cadeira de filosofia no Collège de France.

A ascensão acadêmica veio em 1898, quando foi nomeado para a École Normale Supérieure, e especialmente em 1900, quando assumiu a cadeira de filosofia grega e latina no Collège de France — uma das instituições mais prestigiosas da França. Ali, suas aulas tornaram-se eventos culturais: atraíam multidões, incluindo intelectuais, artistas e o público elegante de Paris. Bergson falava com uma clareza e elegância raras, e sua filosofia vitalista, centrada na intuição, na duração e na criação contínua, contrastava com o positivismo e o determinismo dominantes na época.

Seu auge de fama ocorreu entre 1907 (publicação de A Evolução Criadora) e os anos 1920. Em 1914, foi eleito para a Academia Francesa, e em 1927 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, "em reconhecimento às suas ideias ricas e vitalizantes e à brilhante habilidade com que foram apresentadas". O Nobel destacou não só o filósofo, mas o escritor de estilo literário excepcional.

No ano de 1908, quando de uma viagem a Londres, travou conhecimento com o filósofo norte-americano William James. Os dois vieram a se tornar amigos e passaram a estudar mutuamente suas filosofias. James tentou introduzir o pensamento e obra de Bergson nos EUA, mas sua morte em 1910 dificultou um pouco esta empreitada. Apesar deste evento, Bergson foi aos poucos ocupando espaço entre os norte-americanos, que passaram a conhecer a sua obra, ou pelo menos parte da mesma.

Dentre as principais obras de Bergson cabe citar a importância de quatro trabalhos realmente essenciais no desenvolvimento de sua filosofia: 1- Essai sur les données immédiates de la conscience, de 1889, 2- Matière et mémoire, de 1896, 3- L'Évolution créatrice, de 1907, e 4- Les deux source de la morale et de la Religion, de 1932. Na filosofia desenvolvida por Bergson encontramos quatro conceitos que ganham um lugar de destaque: a "intuição", a "durée", a "memória" e o "élan vital. Estes conceitos são fundamentais dentro do pensamento filosófico elaborado por Bergson e estão presentes no transcurso de sua obra. A obra filosófica de Bergson ainda se mostra presente e atual e tem sido objeto de estudo, exercendo influência, em diversas áreas do conhecimento e prática, tais como o cinema, a literatura, a neuropsicologia, a bioética.

Em decorrência da Primeira Guerra Mundial, Bergson atuou como diplomata representando os interesses da França diante dos EUA. Em 1914 torna-se membro da Academia Francesa.

Bergson também se envolveu em questões públicas: presidiu a Comissão de Cooperação Intelectual da Liga das Nações (precursora da UNESCO), defendendo o pacifismo e a cooperação internacional após a Primeira Guerra Mundial. No entanto, sua saúde declinou a partir dos anos 1920, agravada por reumatismo que o impedia de escrever com facilidade.

Bergson elabora em sua obra uma crítica ao Positivismo então reinante em sua época, ao mecanicismo e ao determinismo, sendo paralelamente influenciado pela leitura de Darwin e Spencer e adotando uma postura pautada na teoria da evolução.

Bergson é considerado um filósofo intuicionista, já que privilegia a intuição como recurso para apreensão do conhecimento filosófico. Segundo o filósofo, o conhecimento realmente verdadeiro não é obtido por meio de conceitos abstratos provindos do intelecto de modo racional e sim na apreensão imediata do real por meio da intuição, enquanto experiência interior do sujeito que conhece. Podemos conhecer um mesmo objeto por meio de conceitos ou de nossa intuição. São duas formas distintas de conhecimento. Em uma temos a presença de juízos, silogismos, análise, síntese, dedução, indução formando a estrutura racional pela qual o objeto é por nós conhecido, já em outra temos uma intuição imediata do objeto que nos permite obter um conhecimento intrínseco, concreto e absoluto sobre o mesmo.

Bergson recebeu uma educação ligada à religião judaica. Entretanto, perdeu a sua fé ao entrar em contato com a Teoria da Evolução de Charles Darwin. Já ao final de sua vida, alguns comentadores indicam que ele estava direcionado para converter-se ao cristianismo na versão católica apostólica romana, mas que não o fez em virtude da ocupação da França pelos nazistas e do simbolismo que tal conversão poderia ter diante das perseguições ao seu povo judeu. Quando de seu falecimento e a seu pedido, um sacerdote da Igreja Católica compareceu e proferiu algumas palavras durante seu funeral.

De origem judaica, Bergson nunca abandonou formalmente sua identidade, embora tenha se aproximado do catolicismo nos últimos anos. Segundo relatos (como os de Raïssa Maritain), ele chegou a se converter secretamente ao catolicismo por volta de 1930-1935, atraído pelo misticismo cristão exposto em As Duas Fontes da Moral e da Religião (1932). No entanto, optou por não tornar pública a conversão como gesto de solidariedade com os judeus perseguidos na ascensão do nazismo — uma decisão ética que reflete sua sensibilidade moral.

Durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, Bergson, já idoso e doente, não foi obrigado a se registrar como judeu pelas autoridades nazistas, mas optou por o fazer em dezembro de 1940. Após horas na fila sob o frio parisiense, contraiu pneumonia e faleceu em 4 de janeiro de 1941, aos 81 anos, em sua casa em Paris. Seu testamento expressou o desejo de que nenhum escrito inédito fosse publicado postumamente, desejo parcialmente desrespeitado com a edição de Mélanges em 1972.

Henri Bergson não foi apenas um filósofo: foi um pensador que marcou profundamente a transição do século XIX para o XX, influenciando literatura (Proust, Virginia Woolf), Psicologia, Artes e até a Física (no debate com Einstein). Sua vida reflete a própria filosofia que defendeu: um fluxo contínuo de criação, intuição e vitalidade em meio à rigidez do mundo contemporâneo.

 

2- A Duração Pura e os Dados Imediatos da Consciência

 

Aqui o foco ocorre no conceito chave do Essai sur les données immédiates de la conscience (1889): a durée como tempo vivido vs. tempo espacializado. Quando Henri Bergson publicou, em 1889, Essai sur les données immédiates de la conscience (Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência), ele não estava apenas apresentando uma tese de doutorado: estava lançando uma revolução silenciosa na forma como o Ocidente compreende o tempo, a consciência e a liberdade. Esta obra marca o primeiro grande momento de sua filosofia e introduz o conceito que vai atravessar toda a sua produção posterior: a duração pura (durée pure).

Para entender o impacto dessa ideia, precisamos voltar ao problema central que Bergson identificou na filosofia e na ciência do final do século XIX. A maioria dos pensadores da época (influenciados pelo positivismo e pelo mecanicismo) tratava o tempo como algo mensurável, homogêneo e espacial, exatamente como vemos no relógio ou no calendário. Bergson chamou isso de tempo espacializado: um tempo que dividimos em unidades iguais (segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, etc.), que podemos representar no espaço (uma linha reta, um gráfico) e que, por isso, perde sua essência viva. É um tempo útil para a física e para a vida prática, mas é uma ilusão quando queremos compreender a realidade profunda da consciência. Este suposto tempo já está mesclado com o espaço, não sendo o tempo puro em si mesmo.

Em contraste, Bergson propõe a duração pura como o tempo real, o tempo que realmente vivemos. Ela não é quantitativa, mas qualitativa, contínua, heterogênea e indivisível. Imagine que você não consegue “cortar” a duração como corta um pedaço de pão. Cada instante penetra no seguinte, funde-se com ele, e o todo forma um fluxo único e irrepetível.

Exemplo clássico e simples para sentir a duração: pense numa melodia que você conhece bem. Quando uma pessoa escuta uma música, não escuta as notas como eventos isolados (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si), separadas no espaço do tempo. Você as vive como um todo contínuo, em que cada nota carrega a memória das anteriores e antecipa as seguintes. Se alguém tentasse separar as notas e tocá-las uma a uma, com intervalos iguais, a melodia desapareceria. Essa é a duração pura: um fluxo indivisível em que passado, presente e futuro se interpenetram. Não há separação real para quem percebe este tempo, não há como separar o presente do passado ou do futuro, pois, trata-se de um único fluxo contínuo e não mensurável. Na duração, os momentos do tempo não são unidades separadas, mas dimensões qualitativas de uma experiência que se transforma continuamente.

Outro exemplo cotidiano que Bergson gostava de usar: observe um torrão de açúcar dissolvendo-se num copo d’água. A ciência mede o tempo dessa dissolução em segundos ou minutos (tempo espacializado). Mas, para quem de fato está esperando, esse tempo é vivido como impaciência, expectativa, um “esperar” que não pode ser acelerado ou dividido. O tempo que você sente enquanto o açúcar se dissolve é duração pura, qualitativo, subjetivo, impossível de medir com um relógio. É como dizem, se observamos constantemente uma panela cheia d’água no fogo até esta ferver, o tempo é bem maior que quando não a observamos.

Essa ideia inspirou, inclusive, uma cena memorável em Star Trek: The Next Generation, no episódio “Timescape” (temporada 6, episódio 23), na qual o androide Data fazia este experimento olhando e não olhando a água, mas seu cronômetro interno sempre media o mesmo tempo, ao que foi motivo do comentário do comandante William T. Riker, primeiro oficial, que lhe diz que a essência do problema é justamente não medir o tempo, o que Data mesmo não olhando continua a fazer ao utilizar seu cronômetro interno. O androide Data testa o provérbio fervendo água 62 vezes, sempre medindo exatamente 51,7 segundos com seu cronômetro interno, independentemente de observar ou ignorar a panela. Enquanto humanos sentem a duração se esticar ou encolher pela expectativa, Data permanece preso ao tempo quantitativo e homogêneo, uma ilustração perfeita da distinção bergsoniana.

Bergson afirma que só acessamos essa duração real pela intuição, não pela análise intelectual. A inteligência (a faculdade analítica que usamos na ciência) sempre espacializa e divide para compreender. Já a intuição nos coloca dentro do fluxo da vida. É por isso que, para ele, a verdadeira liberdade humana só existe na duração: quando agimos a partir do nosso “eu profundo”, que é um fluxo contínuo de estados de consciência, e não do “eu superficial” preso às convenções sociais e ao tempo do relógio, em verdade, um tempo espacial (já que mesclado a mensuração do espaço).

Aqui entra o destaque especial que Bergson dá ao tempo, e que mais tarde geraria um dos debates mais famosos da filosofia contemporânea. A duração pura é exatamente o oposto do tempo concebido por Albert Einstein na teoria da relatividade (1905 e 1915). Para Einstein, o tempo é relativo ao observador, pode se dilatar ou contrair conforme a velocidade ou a gravidade, e é tratado como uma quarta dimensão do espaço-tempo. Bergson respeitava a física einsteiniana, mas considerava que ela ainda cometia o mesmo erro de sempre: espacializava o tempo, transformando-o em algo mensurável e homogêneo. Em 1922, durante o famoso debate na Société Française de Philosophie, Bergson argumentou que a relatividade descreve apenas o tempo dos relógios e das coordenadas matemáticas, útil para a ciência, mas incapaz de captar o tempo vivido, a duração pura da consciência humana. Einstein, por sua vez, respondeu que o tempo da física é o único tempo objetivo. Esse confronto (que Bergson aprofundaria em Duração e Simultaneidade, 1922) mostra como sua filosofia não era anti-ciência, mas uma crítica profunda ao cientificismo: a duração é o tempo da vida e da liberdade; o tempo de Einstein é o tempo da medida. Em anos futuros, o próprio Einstein, mesmo mantendo sua posição teórica, irá reconhecer que Bergson havia estudado e conhecia a fundo e corretamente a sua teoria sobre a relatividade do tempo na física.

Por que isso importa tanto hoje, na história das ideias? Porque quase todo o pensamento contemporâneo (da literatura de Proust e Virginia Woolf à psicologia da consciência, do cinema à gestão do tempo nas empresas) bebeu dessa distinção bergsoniana. Quando você sente que “o tempo voou” num momento feliz ou que “o tempo parou” num momento de sofrimento, não está usando o relógio: está vivendo a duração pura. Bergson nos lembra que, sem compreender isso, várias ideias contemporâneas sobre liberdade, criatividade e até saúde mental permanecem incompletas e isto, mesmo hoje em dia, é fundamental para entendermos a nós mesmos dentro da civilização que criamos e na qual vivemos nossas vidas.

Esta primeira grande obra de 1889, portanto, não é apenas um livro: é o alicerce de toda a filosofia bergsoniana. A duração pura será o fio condutor que reaparecerá, enriquecida e aprofundada, em Matéria e Memória (1896), na Evolução Criadora (1907) e nas obras posteriores. Sem ela, não entendemos como Bergson conseguiu libertar a filosofia do determinismo mecanicista e abrir espaço para uma visão vitalista e criadora do ser humano.

Em resumo, o grande insight de Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência (1889) é este: o tempo que realmente vivemos não é o tempo do relógio. O tempo do relógio (que Bergson chama de tempo espacializado) é uma convenção social útil para organizar a vida prática e a ciência, mas é uma ilusão que divide, mede e homogeneíza aquilo que, na consciência, é indivisível e qualitativo. O tempo verdadeiro, a duração pura, é um fluxo contínuo em que cada momento carrega todo o passado e já antecipa o futuro, como uma melodia que só existe enquanto as notas se fundem umas nas outras. Se você tentar “cortar” uma melodia em pedaços isolados, ela deixa de ser música; da mesma forma, se tentar dividir a duração real em instantes iguais, ela desaparece. Só a intuição (e não o intelecto analítico) nos permite mergulhar nesse fluxo vivo. A essência do intelecto analítico é justamente dividir para analisar individualmente todas as partes que compõe o todo, já a intuição não divide, ela abarca o todo tal como este se apresenta ao percebedor, a nossa consciência. E é exatamente nessa duração indivisível que reside a nossa liberdade mais profunda: agir não como marionetes de causas externas ou de um eu superficial, mas como seres criadores que inventam seu próprio caminho no tempo real da consciência. Sem essa distinção radical entre tempo vivido e tempo medido, toda a filosofia posterior de Bergson (e boa parte da compreensão moderna do ser humano) simplesmente não existiria.

 

3- Matéria, Memória e a Relação entre Corpo e Espírito

 

Aqui iremos dar destaque ao cerne de Matière et mémoire (1896): memória-hábito vs. memória pura, independência do espírito. Também inclui discussões sobre percepção e o cérebro, que dialogam com sua formação em psicologia. Publicada em 1896, Matière et mémoire: Essai sur la relation du corps à l’esprit (Matéria e memória: Ensaio sobre a relação do corpo com o espírito) representa o segundo grande momento na trajetória bergsoniana. Se o “Ensaio sobre os dados imediatos da consciência” (1889) libertou o tempo da espacialização científica, esta obra avança para o problema clássico da filosofia: a relação entre corpo e espírito (ou mente). Bergson não aceita nem o materialismo (que reduz o espírito ao cérebro) nem o idealismo (que dissolve a matéria na consciência). Ele propõe uma visão original: o corpo é um instrumento de ação no mundo material, enquanto o espírito conserva uma independência radical, especialmente através da memória.

O cerne da obra está na distinção entre dois tipos de memória, uma divisão que revolucionou a psicologia e a filosofia da mente: 1- memória hábito e, 2- memória pura.

Memória-hábito (ou memória motora, memória-corpo): É a memória automática, repetitiva e corporal. Trata-se de hábitos adquiridos por repetição, que se manifestam em ações motoras sem esforço consciente. Exemplos clássicos: saber andar de bicicleta, tocar piano ou dirigir um carro. Quando você dirige para o trabalho todos os dias, não precisa “lembrar” conscientemente cada curva ou pedalada, seu corpo age por si só, como um mecanismo treinado. Essa memória é espacializada, mecânica e ligada ao cérebro: lesões cerebrais podem apagá-la (como na amnésia anterógrada ou em casos de Parkinson). Ela serve à ação imediata no presente e é útil para a sobrevivência.

Memória pura (ou memória-espírito, memória integral): Aqui é o oposto. Trata-se da conservação total e virtual de todo o passado vivido, sem degradação nem esquecimento. Não é uma “lembrança” que evocamos conscientemente, mas um reservatório espiritual onde todo o nosso passado subsiste em sua duração pura, intacto e indivisível. Quando reconhecemos algo familiar (como, por exemplo: o cheiro da casa da mãe ou da avó que nos transporta instantaneamente para a infância), não é o cérebro que “armazena” imagens; é o espírito que, pela intuição, seleciona do passado puro o que é útil ao presente. Essa memória não tem localização cerebral: o cérebro não a “guarda”, mas apenas a filtra para a ação. Bergson usa casos clínicos (como afasia ou amnésia) para argumentar: mesmo quando o cérebro está danificado e a memória-hábito desaparece, o reconhecimento intuitivo do passado pode persistir, provando a independência do espírito.

Bergson rejeita o paralelismo psicofísico (ideia de que todo estado mental tem um correlato cerebral exato). Para ele, o cérebro não é um “depósito” de memórias, mas um órgão de atenção à vida, um filtro que seleciona, do vasto campo da memória pura, apenas as imagens úteis para a ação presente. O cérebro “inibe” a maior parte do passado para evitar sobrecarga; ele não cria memórias, mas as limita. Isso dialoga diretamente com questões psicológicas modernas: pense na memória traumática (que “escapa” ao filtro e invade o presente) ou na terapia cognitivo-comportamental (que treina hábitos para substituir padrões automáticos). Bergson antecipa debates atuais sobre neuroplasticidade e consciência: o cérebro é ferramenta de adaptação biológica, mas o espírito transcende-o.

Sobre a percepção: Bergson define a percepção pura como uma apreensão direta das “imagens” do universo (matéria como conjunto de imagens em movimento). Não é representação mental, mas contato imediato com o real. A percepção cotidiana, porém, é sempre impregnada de memória: vemos o mundo não como ele é “em si”, mas tingido pelo passado útil à ação. Exemplo: ao ver um amigo, você não percebe apenas formas visuais; reconhece-o instantaneamente porque a memória pura fornece o contexto afetivo e histórico. Sem memória, a percepção seria abstrata e inútil; com ela, torna-se ação orientada.

O grande ensinamento de Matéria e Memória (1896) é este: o corpo e o cérebro são instrumentos de ação no presente material, treinam hábitos automáticos (memória-hábito) e filtram o que é útil para sobreviver e agir. Mas o espírito é outra coisa: ele conserva o passado inteiro na memória pura, um reservatório virtual e imaterial onde nada se perde. Imagine um filme inteiro da sua vida gravado em duração pura: o cérebro é como o controle remoto que pausa, rebobina e seleciona apenas os frames necessários para o agora; sem o controle remoto, o filme continua rodando intacto no espírito. Quando você reconhece um cheiro da infância sem esforço consciente, não é o cérebro “lembrando”; é o espírito acessando o passado integral. Essa independência do espírito em relação ao corpo resolve o dualismo mente-corpo sem reducionismos: a matéria (corpo) existe, o espírito (memória pura) existe, e a relação é de ação e seleção, não de causalidade mecânica. Sem essa visão, a psicologia contemporânea (da memória explícita/implícita à consciência estendida) perderia um de seus pilares mais profundos.

No entanto, esta solução bergsoniana revela aqui sua maior fragilidade. Se a memória pura não está localizada no cérebro, não é criada pelo intelecto e subsiste integralmente mesmo quando o corpo e o cérebro sofrem danos graves, de onde ela realmente vem e como se sustenta? Bergson responde que o passado “subsiste por si mesmo” na duração pura, sem precisar de um depósito material ou de uma alma pré-existente. Mas esta resposta, por mais elegante que pareça, acaba sendo mais uma afirmação metafísica do que uma demonstração racional. Diferentemente do platonismo, que oferece uma alma imortal com origem clara nas ideias eternas, ou do cristianismo, que fundamenta a imortalidade na criação divina e no juízo final, Bergson deixa o leitor diante de um mistério: um passado que simplesmente “continua existindo” no espírito, sem origem definida, sem localização e sem prova empírica de sua independência. É como se o filósofo, depois de destruir com maestria o materialismo e o idealismo, acabasse por propor uma terceira via que, no fundo, exige do leitor um ato de fé na duração pura. Essa é, sem dúvida, a parte mais vulnerável de sua filosofia da memória, e o ponto onde muitos críticos consideraram que Bergson abandonou a rigorosa argumentação racional para se apoiar numa intuição quase religiosa, sem conseguir fundamentá-la de modo plenamente convincente. De fato, é nossa opinião que tanto a filosofia de Platão com a alma imortal habitando o mundo das ideias, como o cristianismo com sua leitura platônica somada a um mito religioso judaico na qual temos uma alma imortal criada por Deus Javé e independente do corpo, mostram-se ambas versões mais coerentes e embasadas teoricamente do que a de Bergson, sendo esta última dificilmente defensável, por esta razão mesma, motivo de fortes ataques por parte de muitos pensadores, mesmo quando ainda em vida de Bergson.

Em resumo, o grande ensinamento de Matéria e Memória (1896) é este: o corpo e o cérebro não são o depósito ou a origem das nossas memórias, mas instrumentos práticos de ação no mundo material. A memória-hábito (aquela que nos permite andar de bicicleta, digitar sem olhar ou repetir um gesto automático) é corporal, repetitiva e localizada no cérebro; perde-se com lesões neurológicas porque serve apenas ao presente imediato e à sobrevivência. Já a memória pura é espiritual, imaterial e indivisível: conserva intacto todo o passado vivido, como um filme completo da nossa existência que nunca se apaga nem se degrada. O cérebro funciona como um filtro ou um “guarda de trânsito” que seleciona, do vasto reservatório da memória pura, apenas as imagens úteis para o agora, inibindo o resto para evitar sobrecarga e permitir ação eficaz. Quando você reconhece instantaneamente o cheiro da casa da infância ou sente um déjà-vu sem esforço consciente, não é o cérebro “recuperando” um arquivo; é o espírito acessando diretamente o passado integral, que sempre esteve lá. Essa distinção radical prova a independência relativa do espírito em relação ao corpo: a matéria existe e age, o espírito subsiste e transcende. Sem compreender essa visão, a psicologia contemporânea (da memória explícita e implícita à consciência estendida, passando pelos estudos sobre trauma e neuroplasticidade) perde um de seus alicerces mais profundos e libertadores.

 

4- O Élan Vital e a Evolução Criadora da Vida

 

Aqui iremos abordar o tema presente em L'Évolution créatrice (1907), com o impulso vital como força inventiva. Uma crítica ao mecanicismo e finalismo, que nos permite ligar a biologia com a história. No transcurso da evolução temos que a estrada evolutiva se divide em três, dando origem a imobilidade vegetal, ao instinto animal e a inteligência humana. Inicialmente unidos, tais elementos se separam no transcurso da evolução, mas todos presentes no impulso vital, comum a toda vida. A vida é entendida por Bergson como sendo um processo contínuo e infinito de criação e evolução que não pode ser apropriadamente compreendida se separarmos seus aspectos presentes e observados nos vegetais (imobilidade), animais (instintos) e humanos (inteligência). Para que possamos intuir e mesmo compreender a totalidade da vida, não basta uma única destas vertentes / caminhos. Nem todas as verdades nos são possíveis de serem alcançadas somente por meio da inteligência, mas o instinto animal pode nos ajudar nesta busca, apesar de ele, o instinto, não ter qualquer interesse em buscar encontrar tais verdades. O élan vital não deve ser entendido como uma força material específica ou mensurável, mas como um princípio filosófico que busca expressar o caráter criador e imprevisível da evolução da vida.

Publicada em 1907, L'Évolution créatrice (A evolução criadora) representa o terceiro e talvez o mais famoso momento da trajetória bergsoniana. Foi esta obra que consolidou Bergson como figura pública na França e no mundo, atraindo multidões às suas aulas no Collège de France e inspirando artistas, escritores e cientistas da contemporaneidade. Aqui, Bergson aplica sua filosofia da duração e da intuição ao problema central da biologia e da história: como explicar a evolução das espécies sem cair nos extremos do mecanicismo ou do finalismo? Bergson critica duas visões dominantes da época: 1- mecanicismo e, 2- finalismo.

Mecanicismo (ou darwinismo estrito, spenceriano): A evolução seria um processo puramente mecânico, resultado de variações aleatórias e seleção natural cega. Tudo seria explicável por causas físicas eficientes, sem direção nem novidade real, como uma máquina que se ajusta sozinha. Para Bergson, isso ignora a imprevisibilidade e a criatividade da vida: se tudo fosse apenas mecanismo, não haveria salto qualitativo entre matéria inerte e consciência, nem invenção genuína.

Finalismo (ou teleologia clássica, como em Lamarck ou em visões religiosas): A evolução teria um fim predeterminado, uma finalidade inteligente que guia o processo desde o início. Bergson rejeita isso também: o finalismo é apenas o mecanicismo invertido, em vez de causas cegas no passado, coloca causas finais no futuro, mas ainda espacializa o tempo e elimina a verdadeira novidade.

Em vez disso, Bergson propõe o élan vital (impulso vital): uma força criadora, imprevisível e indivisível que impulsiona a evolução como um fluxo contínuo de invenção. O élan vital não é uma “energia” física mensurável, nem um plano divino pré-estabelecido. É a própria vida em ato, manifestando-se como tendência a criar formas cada vez mais complexas e imprevisíveis, rompendo com a inércia da matéria. Ele se ramifica, diverge, inventa soluções novas, às vezes em linhas que se extinguem (espécies mortas), às vezes em linhas que ascendem à consciência (o humano).

Exemplo cotidiano para sentir o élan vital: pense na invenção da roda. Não foi uma variação aleatória selecionada mecanicamente, nem o cumprimento de um plano final. Foi um salto criativo imprevisível: alguém, em um momento de duração pura, viu a possibilidade de transformar fricção em movimento rotativo. Essa novidade não estava pré-contida na matéria nem guiada por um fim inevitável, foi uma explosão de invenção, como o élan vital que cria olhos, nervos, inteligência. Outro exemplo: a diferença entre planta e animal. A planta “desce” na matéria (fixa-se, acumula energia lentamente); o animal “sobe” (mobilidade, ação). O homem, com a inteligência, representa um novo ramo: a capacidade de fabricar ferramentas e refletir sobre si mesmo. Mas o élan vital não para aí, ele continua inventando, e a história humana é a continuação dessa criação imprevisível.

Essa visão permite ligar biologia e história de modo profundo: a evolução biológica é criação contínua de novidade (não mero ajuste adaptativo), e a história humana é o prolongamento dessa mesma força vital. A duração pura, que já apareceu na consciência individual, reaparece na escala das espécies e das sociedades. A história não é determinismo mecânico (marxismo materialista) nem progresso inevitável (hegelianismo finalista), é invenção imprevisível, onde o élan vital cria rupturas, saltos e liberdade.

Em resumo, o grande ensinamento de A Evolução Criadora (1907) é este: a vida não é uma máquina que se ajusta nem um plano que se cumpre, é um impulso criador, o élan vital, que inventa incessantemente formas novas e imprevisíveis. Imagine uma fonte que jorra sem parar: às vezes o jato se divide em ramos que secam, às vezes explode em cascatas inesperadas. Esse jato é o élan vital, uma força indivisível que rompe com a inércia da matéria e cria novidade qualitativa, desde a primeira célula até a consciência humana. O mecanicismo explica a repetição e a adaptação, mas perde a invenção; o finalismo explica a direção, mas perde a liberdade. Bergson nos mostra que a evolução é criação contínua, e que a história humana, com suas revoluções, artes e ideias, é a continuação dessa mesma explosão vital. Sem compreender o élan vital, a biologia contemporânea permanece presa ao determinismo, e a história, à ilusão do progresso linear, perdendo a visão de uma vida que inventa seu próprio caminho no fluxo imprevisível da duração.

 

5- As Duas Fontes da Moral e da Religião: Estática e Dinâmica

 

Aqui nosso foco se dá em Les Deux Sources de la morale et de la religion (1932): sociedades fechadas/abertas, moral estática vs. dinâmica, misticismo como força aberta. Iremos nesta parte de nosso artigo abordar o aspecto ético-religioso, que dialoga com o comportamento crítico.

Bergson aqui trata dos fundamentos da vida moral e religiosa. Trata-se de uma obra tardia na qual Bergson busca compreender como se formam as normas morais e as crenças religiosas que estruturam a vida em coletividade. Bergson começa afirmando que a moral e a religião não possuem origem única, mas sim, são provenientes de duas fontes distintas: 1- a moral estática e a religião estática e, 2- a moral dinâmica e a religião dinâmica. Estas duas fontes correspondem, por sua vez, a dois modos distintos de organização da vida humana e social.

Comecemos falando sobre a moral estática e a sociedade fechada. Segundo o pensamento de Bergson, a moral estática surge a partir da necessidade de conservação da própria sociedade. Aqui temos uma moral que é fundada na pressão social, no conjunto de obrigações que a coletividade exerce sobre as pessoas isoladamente, visando garantir a estabilidade social. O comportamento moral não é o resultado de uma escolha livre e criadora e sim de um hábito social baseado na tradição. A pessoa entende que deve se comportar de determinado modo porque assim foi educado para fazer, sendo isto que a sociedade espera que faça. É uma moral que baseia-se na obrigação, visa a manutenção da ordem social, depende da pressão do grupo, é conservadora e repetitiva,  está associada a uma sociedade que Bergson chama de “fechada”.

A organização da sociedade fechada se dá visando preservar sua coesão interna. Esta sociedade estabelece limites claros entre quem é e quem não é membro da mesma, entre o cidadão e o estrangeiro, entre o “nós” e os “outros”. A moral aqui se apresenta como sendo um sistema de normas destinadas a proteção e sobrevivência do grupo.

A moral estática possui uma função basicamente biológica e social, que é garantir a continuidade da comunidade, a semelhança de alguns instintos que buscam garantir a sobrevivência de outros animais. Associada a esta moral estática, temos uma religião também estática. Ao falar em religião estática, Bergson chama a atenção para formas de religiosidade que surgem como sendo um prolongamento de necessidades psicológicas presentes na sociedade, desempenhando uma função eminentemente de estabilização desta mesma sociedade.

A inteligência humana se desenvolveu e se afastou da dos demais animais, mas isto trouxe também alguns perigos à vida em coletividade. Nossa inteligência nos permite refletir, duvidar, questionar. Mas isto enfraquece a disciplina presente na sociedade. A natureza, visando neutralizar este perigo, cria um mecanismo compensatório: a função fabuladora. Por meio desta função fabuladora o humano consegue produzir mitos, narrativas e crenças religiosas que visam reforçar a coesão social. Estas crenças consolam diante da morte, reforçam o respeito às normas, sustentam a confiança na ordem e estabilidade do mundo. A religião estática tende a ser um instrumento psicológico e social que proporciona estabilidade e ajuda a manter a disciplina moral necessária a sobrevivência da comunidade.

Mas não temos somente a moral estática, temos também a moral dinâmica. Diferente da primeira, a moral dinâmica surge de um impulso criador interior. Não se fundamenta na pressão social, mas sim na inspiração que se encontra na observação de grandes personalidades no âmbito moral. No decorrer da história humana temos o surgimento de indivíduos realmente extraordinários, sejam estes santos, profetas, reformadores morais ou outros. A vida de tais pessoas demonstra um amor profundo por toda a humanidade. Tais pessoas não se limitam a obedecer às normas existentes na sociedade, expandindo o horizonte moral presente. Esta moral dinâmica possui características que são opostas a moral estática. Ela não se baseia na obrigação e sim na inspiração, ela não se limita à conservação social, mas em seu lugar promove a transformação social, ela não se restringe ao grupo fechado, mas se propõe a apresentar um caráter universal. A moral estática busca organizar a disciplina da sociedade, já a moral dinâmica nos permite abrir novas possibilidades éticas e deste modo ampliar de modo progressivo o campo da solidariedade humana.

Esta moral dinâmica, por sua vez, corresponde a uma sociedade aberta. Quando Bergson nos fala em sociedade aberta, ele pensa em uma sociedade que não se define por fronteiras rígidas entre grupos, mas sim pela expansão da solidariedade para além das limitações deste grupo (tribais, nacionais, culturais, etc.). O amor moral se direciona para toda a humanidade e não para um determinado grupo.

A história moral é entendida por Bergson como um movimento progressivo no qual impulsos criadores provindos de indivíduos excepcionais buscam ampliar de modo contínuo os limites da moral social. Enquanto a sociedade fechada é organizada pela obrigação e defesa do grupo, a sociedade aberta se orienta por um princípio bem mais amplo, o amor criador que não encontra fronteiras sociais.

A moral dinâmica encontra sua maior expressão na religião dinâmica, tendo aqui um papel deveras importante o misticismo, em particular o cristão, católico apostólico romano. Nesta forma de religiosidade, o seu fundamento não se encontra em mitos ou instituições estabilizadoras, mas sim em uma experiência individual e espiritual direta que normalmente é associada ao misticismo.

Os grandes místicos, segundo Bergson, representam o equivalente religioso dos grandes reformadores morais. Estes místicos experimentam uma relação intensa e imediata com o princípio criador da realidade, ou seja, ao dinamismo da própria vida. Por meio de tal experiência mística é desenvolvido um amor universal que transborda por meio da ação moral. O místico não se limita a contemplar o divino, mas se transforma em uma força espiritual e ética no mundo que gera mudanças. Deste modo, o misticismo representa uma abertura à fonte criadora da vida, uma superação das formas rígidas da religião institucional, uma força espiritual capaz de expandir a moral humana de seu tempo histórico.

A diferença entre uma moral estática e outra dinâmica apresenta um aspecto central presente no pensamento filosófico desenvolvido por Bergson: a vida humana oscila entre conservação por um lado e criação por outro.

Há necessidade da existência da moral estática, já que sem a mesma a sociedade não poderia se manter, não haveria ordem. No entanto, esta moral estática tende a repetição e ao fechamento. Já, por sua vez, a moral dinâmica fornece a história humana um princípio de inovação ética que tem o potencial de transformar as estruturas sociais então existentes em novas e mais aprimoradas dentro de uma visão universal sobre a ética e moral. Segundo Bergson, a evolução moral da sociedade humana se apresenta como sendo um processo no qual impulsos criadores provindos de indivíduos excepcionais rompem de tempos em tempos com os limites impostos pela sociedade fechada, criando algo novo ou transformando algo existente e limitado em algo mais universal.

Esta reflexão de Bergson apresenta grande relevância para a ética e a crítica filosófica. Segundo o pensamento do autor, grande parte das normas morais sociais que organizam e regulam o comportamento humano tem suas origens em mecanismos sociais destinados à preservação da ordem coletiva. A história da humanidade no decorrer dos séculos e eras nos mostra que o progresso moral depende de indivíduos capazes de questionar estas mesmas normas quando as mesmas começam a se tornarem por demais estreitas e injustas. O pensamento de Bergson aponta para uma tensão permanente entre por um lado a disciplina social necessária à estabilidade coletiva e, por outro lado, a criatividade moral que amplia os horizontes da humanidade. Esta tensão relatada por Bergson tende a constituir um elemento fundamental em qualquer reflexão crítica sobre a moral, a religião e mesmo as transformações sociais.

Em síntese, na obra Les Deux Sources de la morale et de la religion, Henri Bergson procura mostrar que a vida moral e religiosa do humano nasce de duas forças distintas e complementares. De um lado, encontramos a moral e a religião estáticas, ligadas à necessidade de conservação da sociedade, baseadas na obrigação, na tradição e na pressão do grupo, características próprias das chamadas sociedades fechadas. De outro lado, encontramos a moral e a religião dinâmicas, que emergem de impulsos criadores presentes em grandes personalidades espirituais e morais (como místicos, santos ou reformadores) capazes de ampliar o horizonte ético da humanidade e orientar a sociedade para uma forma aberta, universal e solidária. Assim, enquanto a primeira fonte garante a estabilidade e continuidade da vida coletiva, a segunda introduz na história humana um princípio de renovação moral que rompe limites estabelecidos e expande o amor e a solidariedade para além de fronteiras culturais, religiosas ou nacionais. Desse modo, Bergson interpreta o desenvolvimento moral da humanidade como uma tensão permanente entre conservação e criação, entre disciplina social e impulso espiritual transformador, tensão esta que explica tanto a permanência das instituições quanto os momentos decisivos de renovação ética que marcam a história humana.

 

6- Palavras finais

 

O pensamento de Bergson exerceu profunda influência na filosofia do século XX, dialogando com diversos campos do saber, como a psicologia, a biologia, a ética e a filosofia da religião. Sua tentativa de compreender a realidade a partir da experiência concreta do tempo e do dinamismo criador da vida marcou profundamente o debate filosófico contemporâneo. Ao destacar a importância da intuição, da criatividade e da liberdade no desenvolvimento da vida humana e social, Bergson ofereceu uma perspectiva filosófica que continua a inspirar reflexões sobre a natureza da consciência, da moral e da própria evolução cultural da humanidade.

 

7- Algumas das Principais Obras de Bergson

 

1- Essai sur les données immédiates de la conscience. Título em português: Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência. Ano da primeira publicação: 1889.

Esta obra inaugural apresenta o conceito fundamental de “duração” (durée), o tempo real vivido pela consciência como fluxo qualitativo, contínuo e heterogêneo, em oposição ao tempo espacializado e quantitativo da ciência e do senso comum. Bergson defende que apenas pela intuição podemos acessar o eu profundo e verdadeiro, fundamento da liberdade humana.

2- Matière et mémoire: Essai sur la relation du corps à l’esprit. Título em português: Matéria e Memória: Ensaio sobre a Relação do Corpo com o Espírito. Ano da primeira publicação: 1896.

Nesta obra, Bergson investiga a relação entre corpo e espírito através de uma análise inovadora da percepção e da memória. Distingue a memória-hábito (corporal, repetitiva) da memória pura (espiritual, conservação integral do passado), afirmando a independência relativa do espírito em relação ao cérebro.

3- Le Rire: Essai sur la signification du comique. Título em português: O Riso: Ensaio sobre a Significação do Cômico. Ano da primeira publicação: 1900.

Bergson aplica seu método ao fenômeno do riso e do cômico. Argumenta que o riso surge quando percebemos uma rigidez mecânica sobreposta à flexibilidade da vida, funcionando como mecanismo social de correção contra o automatismo e a estereotipia.

4- L’Évolution créatrice. Título em português: A Evolução Criadora. Ano da primeira publicação: 1907.

Considerada sua obra-prima, propõe o conceito de “élan vital” (impulso vital) como força criadora e imprevisível por trás da evolução das espécies. Critica tanto o mecanicismo quanto o finalismo, afirmando que a vida é contínua invenção e criação de novidade.

5- L’Énergie spirituelle. Título em português: A Energia Espiritual. Ano da primeira publicação: 1919.

Coletânea de ensaios que aprofundam temas como consciência, memória, sonho e a natureza da vida mental, reforçando a realidade e a potência do espírito.

6- Durée et simultanéité. Título em português: Duração e Simultaneidade. Ano da primeira publicação: 1922.

Bergson dialoga diretamente com a teoria da relatividade de Einstein, defendendo a primazia filosófica de sua concepção de duração pura frente às implicações temporais da física relativista.

7- Les Deux Sources de la morale et de la religion. Título em português: As Duas Fontes da Moral e da Religião. Ano da primeira publicação: 1932.

Última grande obra, distingue sociedades fechadas (moral estática, religião estática) de sociedades abertas (moral dinâmica, misticismo). O amor e o misticismo aparecem como forças criadoras capazes de impulsionar a humanidade para além do instinto e da inteligência.

8- La Pensée et le mouvant. Título em português: O Pensamento e o Movente. Ano da primeira publicação: 1934.

Reunião de conferências e artigos que sintetizam e esclarecem os principais conceitos de sua filosofia, com ênfase no método intuitivo e na mobilidade do real.

9- Mélanges. Título em português: Miscelâneas. Ano da primeira publicação: 1972 (publicação póstuma; compilação de textos escritos entre 1870 e 1941, incluindo inéditos e correspondências).

Coletânea abrangente organizada por André Robinet, reunindo artigos dispersos, conferências, correspondências (notadamente com Einstein sobre relatividade), prefácios, discursos e fragmentos inéditos que Bergson preferia não publicar. Apesar do testamento do filósofo proibindo edições póstumas de inéditos, o volume foi autorizado e tornou-se referência indispensável para o estudo completo de sua evolução intelectual, complementando as obras principais com materiais contextuais e polêmicos.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 


 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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