Textos filosóficos, críticos, comportamentais e sobre arte da escrita, sucesso e auto-ajuda.
Professor Doutor Silvério
Blog: "Comportamento Crítico"
Professor Doutor Silvério
Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.
(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)
E-mails encaminhados para doutorsilveriooliveira@gmail.com serão respondidos e comentados excluindo-se nomes e outros dados informativos de modo a manter o anonimato das pessoas envolvidas. Você é bem vindo!
Bronisław Kasper
Malinowski (1884-1942) nasce na cidade de Cracóvia, Polônia e falece aos 58
anos de idade em New Haven, Connecticut, EUA. Sua família é proveniente da
nobreza local(szlachta,
nobreza polonesa/terratenente, não aristocracia alta). Na época, a cidade na
qual nasceu pertencia ao Império Austro-Húngaro. Filho único do professor
Lucjan Malinowski (1839-1898), renomado filólogo eslavo da Universidade
Jaguelônica, e de Józefa Łącka (1848-1918), proveniente de uma família de
proprietários rurais culta e multilíngue, cresceu em um ambiente acadêmico e
cosmopolita. Desde a infância, porém, a saúde frágil o acompanhou: problemas
respiratórios recorrentes (possivelmente tuberculose) o obrigaram a períodos de
repouso e viagens terapêuticas com a mãe, já viúva, pela região mediterrânea,
Ilhas Canárias, Itália, Ásia Ocidental e Norte da África. A criação de
Malinowski se deu na fé cristã, mas após o falecimento de sua mãe este passa a
adotar uma atitude agnóstica diante de Deus e da vida religiosa.
Após concluir o
ensino médio com distinção no Colégio João III Sobieski de Kraków (1902),
ingressou na Universidade Jaguelônica, inicialmente nos cursos de matemática e
ciências físicas. A doença o levou a mudar o foco para a filosofia e as
ciências sociais. Em 1908, aos 24 anos, obteve o doutorado em filosofia com a
tese “Sobre o princípio da economia do pensamento”, defendida com as mais altas
honras imperiais. Pouco depois, passou três semestres na Universidade de
Leipzig, na Alemanha, onde estudou psicologia e economia, entrando em contato
com as obras de Wilhelm Wundt e Karl Bücher.
Em 1910, decidiu
seguir para Londres. Matriculou-se como pós-graduando na London School of
Economics (LSE), onde foi orientado por Charles Gabriel Seligman e Edvard
Westermarck. Foi ali que a antropologia se tornou sua vocação definitiva. Em
junho de 1914, partiu para a Austrália a fim de participar do encontro da
British Association for the Advancement of Science. O início da Grande Guerra (Primeira
Guerra Mundial) mudou drasticamente seus planos: como súdito austro-húngaro,
corria risco de “internamento”. Graças à intervenção de antropólogos britânicos
e à compreensão das autoridades australianas, recebeu permissão para permanecer
e realizar pesquisas de campo na Nova Guiné, então pertencente a Austrália.
Malinowski havia
feito um trabalho de cerca de seis meses na ilha Mailu, nas costas de Papua,
Nova Guiné, de onde parte para as ilhas Trobriand, nas quais fica inicialmente
por dois anos. Em verdade, ele ficara retido ali em virtude da eclosão da
primeira guerra mundial. Como cidadão do império austro-húngaro, que estava em
guerra contra a Inglaterra, este que se encontrava em território colonial
britânico, teve de ali ficar confinado (teve de permanecer ali, com permissão
especial das autoridades para continuar seu trabalho) até o final da guerra.
Malinowski viveu nas ilhas Trobriand entre 1915 e 1918. Interessante que mais
tarde, quando em 1939 a Alemanha nazista invade a Polônia dando início a segunda
guerra mundial, Malinowski se encontrava nos EUA, para onde tinha viajado em
1938 para uma breve estada, e em virtude do começo do conflito, resolve ali
permanecer seguindo o conselho de alguns amigos. Nesta ocasião aproveita para
realizar pesquisas com os nativos norte-americanos e mexicanos, além de
lecionar na universidade de Yale.
Entre agosto de
1914 e março de 1915, realizou sua primeira incursão etnográfica nas ilhas
Mailu e Woodlark. Em maio de 1915 iniciou o trabalho que marcaria sua vida: a
longa permanência nas Ilhas Trobriand. Permaneceu ali em duas grandes fases (de
maio de 1915 a maio de 1916 e de outubro de 1917 a outubro de 1918), vivendo em
uma tenda no meio das aldeias, aprendendo a língua local e registrando
diariamente a vida cotidiana em seu diário. Esses quase três anos de observação
intensiva foram interrompidos apenas por breves retornos à Austrália. Em 1916,
ainda em campo, recebeu o título de Doutor em Ciências (D.Sc.) da Universidade
de Londres com base nos materiais coletados até então.
Malinowski
exerce grande influência na Antropologia a partir de seus escritos sobre
etnografia, teoria social e pesquisa de campo em populações nativas. Enquanto
outros antropólogos preferiam ficar em seus gabinetes e de suas confortáveis
poltronas escreverem seus trabalhos a partir de relatos de terceiros sobre os
povos nativos, Malinowski se propôs a ir pessoalmente em campo e travar uma
pesquisa participante, na qual vivia por semanas ou mesmo meses dentro do grupo
que estudava, buscando aprender sua língua e costumes. O seu trabalho de campo ocorre
principalmente com os povos das ilhas Trobriand, Nova Guiné e Austrália (Sobre
a Austrália temos análise de literatura que foi publicada em livro em 1913,
antes de sua viagem para trabalho de campo na Nova Guiné, e não um trabalho de
campo participativo).
Ao final da
guerra, em 1919, Malinowski retornou à Europa. Passou mais de um ano em
Tenerife, nas Ilhas Canárias, organizando suas anotações. Chegou a Londres em
1920 e, em 1921, foi nomeado lecturer na LSE. Recusou um convite para voltar à
Universidade Jaguelônica na Polônia e decidiu construir sua carreira na
Inglaterra.
Malinowski
casou-se com Elsie Rosaline Masson (1890-1935) no ano de 1919, na Austrália, e
com ela teve três filhas: Józefa (1920),
Wanda (1922) e Helena (1925). Tendo sua primeira esposa falecido, em 1940
casa-se novamente com Valetta Swann (1904-1973), que conheceu quando estava nos
EUA.
Sua ascensão
acadêmica foi rápida: em 1924 tornou-se reader e, em 1927, o primeiro Professor
de Antropologia Social da LSE, cargo que ocupou até o fim da vida. Em 1931
adquiriu a cidadania britânica. Realizou viagens de pesquisa pela África
Oriental e Austral em 1934 (entre os bemba, kikuyu, maragoli, massai e suazi) e
visitou os hopi nos Estados Unidos em 1926. Em 1939, com o início da Segunda
Guerra Mundial, aceitou um convite para professor visitante na Universidade
Yale, nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, ainda realizou trabalho de campo
entre camponeses mexicanos em Oaxaca (1941). Em 1942, co-fundou e presidiu o
Polish Institute of Arts and Sciences of America.
Bronisław
Malinowski faleceu repentinamente em 16 de maio de 1942, aos 58 anos, em New
Haven, Connecticut, vítima de um derrame cerebral. Foi sepultado no Evergreen
Cemetery da mesma cidade. Apesar de ter vivido grande parte da vida adulta fora
da Polônia, nunca perdeu o vínculo com suas raízes. Com a restauração do Estado
polonês em 1918, Malinowski passou a manter formalmente sua cidadania polonesa,
embora tenha adquirido também a cidadania britânica em 1931. Além disto, nos
últimos anos, dedicou-se ativamente a apoiar a causa polonesa no exílio,
assumindo uma postura política e crítica diante do conflito que ocorria na
Europa no decorrer da segunda guerra mundial, com a invasão da Polônia pela
Alemanha nazista e pela URSS de Stalin.
Décadas após sua
morte, foi publicado o controverso livro “A Diary in the Strict Sense of the
Term” (1967), contendo seus diários pessoais escritos durante o trabalho de
campo. O texto revelou conflitos emocionais e preconceitos que contrastavam com
a imagem idealizada do etnógrafo objetivo, gerando intenso debate na
antropologia sobre a subjetividade do pesquisador.
2- Ideias
Na época em que
se encontra o trabalho inicial de Malinowski, ainda predominava o método então
adotado no transcorrer do século XIX e início do XX na antropologia, de basear
seus trabalhos na coleta de relatos obtidos por meio de viajantes,
missionários, administradores de colônias e outros que tinham tido contato
direto com grupos humanos distintos do europeu. Coube a Malinowski iniciar a
observação participante direta, na qual o pesquisador se encontra presente no
local de sua observação. Ora, isto implica que não mais se faz uso de relatos
obtidos de qualquer pessoa e sim da observação feita por profissionais com
formação e treinamento científico, voltada para a elaboração de um conhecimento
válido e correto sobre a cultura e o humano presente em tais povos. Malinowski
consolidou a antropologia como uma disciplina acadêmica com objeto, método,
teoria e instituições próprios.
É creditado a
Malinowski ser o fundador da Escola Funcionalista na Antropologia. Ele entende
que todos os elementos de uma dada cultura (suas crenças, seus rituais, o que a
mesma produz, etc.) tem uma função e um sentido específicos no interior do
sistema cultural ao qual pertencem.
Malinowski é
reconhecido como um dos fundadores da antropologia moderna, especialmente por
ter revolucionado o estudo das sociedades humanas através do funcionalismo, abordagem
que ele desenvolveu de modo original, distinta da versão estrutural de
contemporâneos como A. R. Radcliffe-Brown. Seu funcionalismo, muitas vezes
chamado de bio-psicológico ou funcionalismo de necessidades, parte da premissa
de que a cultura não é um conjunto aleatório de traços ou resquícios
históricos, mas um sistema integrado de respostas práticas às exigências
concretas da existência humana. Para Malinowski, toda instituição, costume,
crença ou prática cultural existe porque cumpre uma função vital: satisfazer
necessidades universais do indivíduo e, por extensão, garantir a sobrevivência
e o equilíbrio da sociedade.
No cerne dessa
teoria está a ideia de que o ser humano possui um conjunto fixo de necessidades
biológicas básicas, que ele enumerou em sete categorias principais: 1- nutrição
(metabolismo), 2- reprodução, 3- conforto corporal, 4- segurança, 5- movimento,
6- crescimento e 7- saúde. Essas demandas são inatas e compartilhadas por todos
os povos, independentemente da cultura. A cultura surge, então, como um
“aparelho instrumental”, uma ferramenta adaptativa, que transforma essas
necessidades biológicas em respostas organizadas e culturalmente específicas.
Por exemplo, a produção de alimentos atende à nutrição, mas também gera
sistemas econômicos, divisão do trabalho e rituais associados; o casamento e a
família respondem à reprodução, mas criam estruturas de parentesco e educação.
Malinowski
diferenciava essas necessidades biológicas primárias de necessidades derivadas
ou instrumentais, que surgem no nível cultural: organização econômica, controle
social, educação e autoridade política. Essas exigem instituições específicas
para serem atendidas de forma eficaz. Assim, a cultura não é um luxo ou uma
superestrutura derivada unicamente do fator econômico com os meios de produção,
como o quer os trabalhos de Marx e Engels com o Comunismo; ela é essencial para
a vida humana, funcionando como um mecanismo de adaptação que reduz a
ansiedade, coordena o esforço coletivo e proporciona sentido à existência. Ele
insistia que, para compreender qualquer sociedade, o antropólogo deve perguntar
não “de onde veio essa prática?”, mas “qual necessidade ela atende?” e “como
ela se integra ao todo funcional da vida social?”.
Uma das
contribuições mais inovadoras de Malinowski foi elevar o trabalho de campo
intensivo a padrão obrigatório na antropologia. Antes dele, muitos estudos
baseavam-se em relatos de missionários, viajantes ou questionários enviados por
correspondência. Malinowski defendeu que o pesquisador deve viver entre os
nativos por longos períodos (idealmente anos), aprender a língua local,
participar da vida cotidiana (a “observação participante”) e registrar não
apenas fatos isolados, mas o contexto vivo das ações. O objetivo final era
“captar o ponto de vista do nativo, sua relação com a vida, realizar sua visão
de mundo”. Essa imersão permitia descrever a cultura “de dentro”, evitando
projeções etnocêntricas e especulações evolucionistas que dominavam o século
XIX.
Embora não tenha
sido o primeiro a realizar trabalho de campo na antropologia, Bronisław
Malinowski é frequentemente celebrado como o introdutor do método moderno de
observação participante intensiva. De fato, décadas antes dele já existiam
etnógrafos que viveram longos períodos entre os povos estudados e produziram
monografias detalhadas. Joseph Lafitau, no século XVIII, conviveu com os
iroqueses no Canadá; Lewis Henry Morgan, no século XIX, realizou estudos
profundos entre os iroqueses nos Estados Unidos; Franz Boas viveu anos entre os
inuítes e povos da costa noroeste americana a partir de 1883; Frank Hamilton
Cushing passou quase cinco anos entre os zuni no final do século XIX; Alice
Fletcher e James Mooney trabalharam intensamente com povos indígenas
norte-americanos; Elsdon Best realizou pesquisas prolongadas entre os maori na
Nova Zelândia; e a célebre Expedição de Cambridge aos Estreitos de Torres
(1898), liderada por Alfred C. Haddon com a participação de William Rivers e
Charles Seligman (futuro orientador de Malinowski), já praticava observação
sistemática em equipe. Estudos recentes, como o livro Ethnographers Before
Malinowski: Pioneers of Anthropological Fieldwork, 1870-1922 (editado por
Frederico Delgado Rosa e Han F. Vermeulen, 2022), demonstram que, nos cinquenta
anos anteriores à publicação de Argonautas do Pacífico Ocidental (1922),
dezenas de pesquisadores produziram centenas de monografias baseadas em
fieldwork intensivo em diferentes continentes, obras que, no entanto, foram
frequentemente marginalizadas ou esquecidas na narrativa dominante da
disciplina.
A diferença
crucial entre estes antecessores e o trabalho desenvolvido por Malinowski reside
na radicalidade e na sistematização que Malinowski impôs ao método. Antes dele,
era comum a chamada “antropologia da varanda” (veranda anthropology): o
pesquisador permanecia na varanda da casa do administrador colonial ou
missionário, convocava informantes selecionados e registrava relatos sem
participar plenamente da vida cotidiana. Malinowski rompeu com essa prática ao
viver literalmente no centro das aldeias trobriandesas, em uma tenda,
aprendendo a língua, participando de rituais, festas e trabalhos diários
durante quase três anos. Ele não apenas praticou o método de forma exemplar,
mas o codificou em um verdadeiro manifesto metodológico no capítulo
introdutório de “Argonautas”, transformando-o em padrão profissional
obrigatório. Sua influência institucional na London School of Economics, a
popularização do termo “observação participante” e o momento histórico
favorável (pós-Primeira Guerra) consolidaram essa imagem de “fundador”. Hoje,
historiadores da antropologia questionam esse “mito fundador”: Malinowski não
inventou o fieldwork (trabalho de campo), mas o elevou a um nível de rigor,
duração e integração jamais igualado até então, tornando-o o rito de passagem
da disciplina. Essa nuance crítica é essencial para compreendermos que a
história da antropologia não é linear nem heroica, mas construída por escolhas
narrativas e disputas de poder acadêmico.
Outro pilar
importante é sua análise do papel da magia, ciência e religião na vida humana.
Malinowski argumentava que esses três domínios não são estágios evolutivos
(como pensavam os evolucionistas), mas respostas complementares a diferentes
tipos de incerteza. A ciência (ou conhecimento técnico) lida com o previsível e
controlável pelo esforço racional; a magia intervém onde o risco é alto e o
controle limitado (como na pesca em alto mar ou na horticultura dependente de
chuvas), servindo para reduzir a ansiedade e organizar o trabalho coletivo; a
religião oferece consolo diante das crises inevitáveis da vida (nascimento,
morte, doença, etc.), reforçando a coesão social e o sentido existencial. Essa
distinção mostrou que a magia não é “primitiva” ou irracional, mas uma forma
racional de lidar com o imprevisível.
Aqui cabe mencionar
o importante trabalho de Malinowski sobre as trocas que ocorriam nas ilhas
trobriandesas, chamado de Kula (ou Kula ring). O sistema Kula consistia em uma
rede cerimonial de trocas intertribais que abrangia diversas ilhas da região da
Melanésia (Massim), formando um circuito fechado de aproximadamente 300-400 km
de diâmetro. Nele, circulavam permanentemente dois tipos principais de objetos
valiosos: os soulava (ou veigun), colares longos feitos de conchas vermelhas
(discos de spondylus), que viajavam no sentido horário (clockwise); e os mwali,
braceletes brancos de concha (armbands), que circulavam no sentido anti-horário
(counterclockwise). Esses itens não eram mercadorias comuns: não serviam para
consumo imediato, nem funcionavam como moeda ou capital produtivo. Seu valor
residia na história, na beleza, no prestígio acumulado e nas narrativas
associadas a cada peça, muitos objetos famosos tinham nomes próprios e
genealogias conhecidas por gerações.
Os participantes
do Kula (geralmente homens de status elevado, como chefes) estabeleciam
parcerias vitalícias com parceiros em ilhas distantes. Cada homem recebia um
objeto de um parceiro e, após um período (meses ou anos), o repassava a outro
parceiro, recebendo em troca o item oposto. As viagens envolviam expedições
perigosas por mar em canoas ornamentadas, com preparações rituais intensas.
Malinowski destacou que o Kula não era mero comércio utilitário: os nativos o
viam como uma "aventura" de prestígio, onde o sucesso dependia de
carisma, generosidade, habilidade em persuadir e, sobretudo, da magia. Rituais
mágicos eram indispensáveis em todas as fases (desde a construção das canoas
até a chegada segura), para atrair os parceiros, proteger contra perigos e
garantir o fluxo contínuo dos objetos. Assim, o Kula integrava economia, magia,
política e relações sociais em um sistema funcional único.
Para Malinowski,
o Kula exemplificava perfeitamente sua teoria funcionalista: o que à primeira
vista parecia irracional ou "primitivo" (trocar objetos
"inúteis" por longas distâncias arriscadas) na verdade atendia a
necessidades profundas da sociedade trobriandesa. Ele criava alianças políticas
duradouras entre ilhas (reduzindo conflitos), reforçava hierarquias e prestígio
individual (quanto mais parceiros e objetos "nobres" um homem
acumulava temporariamente, maior seu status), promovia reciprocidade e coesão
social, e canalizava energias competitivas para vias pacíficas. O sistema
também permitia trocas secundárias de bens úteis (comida, ferramentas) ao longo
das rotas, mas o cerimonial era o núcleo. Essa análise desmontou visões
evolucionistas que viam sociedades "selvagens" como economicamente
irracionais, mostrando que o Kula era um mecanismo sofisticado de adaptação
cultural.
Em “Sexo e
Repressão na Sociedade Selvagem” (Sex and Repression in Savage Society), 1927,
Malinowski questiona e critica a teoria de Freud sobre a universalidade do
complexo de Édipo, descrita em “Totem e Tabu”, 1913. Trata-se de obra polêmica
e questionada por psicanalistas, dentre os quais Ernest Jones (1879-1958), na
qual Malinowski trabalha tendo em mente leituras efetuadas em Sigmund Freud
(1856-1939) e Havelock Ellis (1859-1939), colocando-as diante de suas próprias
observações de campo e descobertas etnográficas. Nesta obra questiona o dogma
psicanalítico da universalidade do complexo de Édipo. Talvez a intervenção mais
polêmica de Malinowski tenha sido a crítica à psicanálise freudiana,
especialmente à suposta universalidade do complexo de Édipo. Em diálogo direto
com Sigmund Freud, Malinowski examinou as sociedades matrilineares das Ilhas
Trobriand e argumentou que o conflito edípico (centrado na rivalidade sexual
entre filho e pai, com desejo pela mãe) não é uma constante biológica ou
psicológica universal, mas um produto cultural específico de sociedades
patrilineares ocidentais.
Segundo o
pensamento desenvolvido por Malinowski temos que em decorrência das regras da
filiação matrilinear, a configuração emocional da família trobriandesa proporciona
que seja o irmão da mãe, e não o pai, quem assume o lugar de figura autoritária
odiada pelo jovem, cujo desejo incestuoso recai em sua irmã, e não em sua mãe.
Deste modo, enquanto que a Psicanálise fala no “pai” como representante da
lei/autoridade, Malinowski constata ser o “tio”, e enquanto a Psicanálise fala
da “mãe” enquanto objeto de desejo, Malinowski constata ser a “irmã”.
Nas Trobriand,
onde a autoridade familiar recai sobre o tio materno (e não sobre o pai
biológico), os meninos desenvolvem tensões com o tio (detentor do poder e da
herança), enquanto o pai é visto como figura afetuosa e protetora. Os sonhos e
mitos trobriandeses refletiam essa situação, não o tradicional Édipo proposto
por Freud. Malinowski concluiu que os impulsos sexuais e afetivos são moldados
pela estrutura de parentesco e pelas normas culturais, desafiando a ideia de
que o Édipo seria inerente à natureza humana. Essa crítica abriu caminho para
uma antropologia psicológica mais relativista e influenciou debates
interdisciplinares entre antropologia e psicanálise por décadas.
Em síntese, as
ideias de Malinowski representam uma virada paradigmática: da especulação
histórica para a análise funcional sincrônica; do etnocentrismo para a imersão
empática; da visão da cultura como resíduo para sua compreensão como sistema
vivo e adaptativo. Seu legado continua vivo na ênfase contemporânea no contexto
etnográfico, na funcionalidade das práticas e na relativização de teorias
psicológicas universais.
Em termos
analíticos, o pensamento de Malinowski pode ser compreendido a partir de cinco
conceitos centrais que estruturam sua contribuição à antropologia. O primeiro é
o funcionalismo, segundo o qual cada elemento da cultura desempenha uma função
específica na manutenção do sistema social. O segundo é a teoria das
necessidades humanas, que sustenta que as instituições culturais surgem como
respostas organizadas às necessidades biológicas e psicológicas fundamentais do
ser humano. O terceiro é o trabalho de campo intensivo, que Malinowski
transformou em requisito metodológico da disciplina ao defender que o
antropólogo deve viver longos períodos entre os povos estudados, aprender sua
língua e observar diretamente sua vida cotidiana. O quarto é a análise das
trocas cerimoniais e das redes de reciprocidade, exemplificada no estudo do
sistema Kula nas Ilhas Trobriand, que demonstrou como economia, prestígio e
relações sociais se encontram profundamente interligados. Por fim, destaca-se
sua interpretação do papel da magia, da ciência e da religião como formas
complementares de lidar com diferentes dimensões da experiência humana: a
ciência voltada ao controle racional do mundo, a magia como resposta às
situações de incerteza prática e a religião como fonte de sentido diante das
crises inevitáveis da existência. Esses cinco eixos articulados permitem
compreender a cultura, na perspectiva do trabalho desenvolvido por Malinowski,
como um sistema vivo de práticas e instituições que organizam a vida humana em
sociedade. Esses cinco eixos mostram Malinowski como pensador que uniu
empirismo rigoroso a uma visão humanista da cultura.
Além de sua
produção intelectual, Malinowski exerceu enorme influência institucional ao
formar toda uma geração de antropólogos na London School of Economics, entre os
quais Raymond Firth, Audrey Richards, Meyer Fortes e Edmund Leach, que
difundiram o modelo de trabalho de campo intensivo pelo mundo.
3- Algumas das
principais obras de Malinowski
1. The Family among the Australian Aborigines: A
Sociological Study. Título
traduzido para o português: A Família entre os Aborígenes Australianos. Ano da
primeira publicação: 1913.
Baseada em
materiais coletados entre 1909 e 1911, esta é a primeira grande obra de
Malinowski. Nela, o autor analisa a instituição familiar e as estruturas de
parentesco entre os povos aborígenes australianos, demonstrando que a família
nuclear funciona como a unidade básica da organização social, responsável pela
educação, herança e autoridade. Rompendo com as visões evolucionistas da época,
o livro já revela o embrião do método funcionalista que Malinowski
desenvolveria mais tarde.
2. Argonauts of the Western Pacific: An Account of Native
Enterprise and Adventure in the Archipelagoes of Melanesian New Guinea. Título traduzido
para o português: Argonautas do Pacífico Ocidental. Ano da primeira publicação:
1922.
Considerada a
obra-prima de Malinowski e um marco da antropologia moderna, este livro resulta
de sua longa pesquisa de campo nas Ilhas Trobriand. O autor descreve com
riqueza de detalhes o sistema de trocas cerimoniais chamado Kula, revelando
como economia, magia, status social e relações interpessoais se articulam para
manter a coesão da sociedade. Foi aqui que ele consolidou o método de
observação participante intensiva como padrão para a disciplina.
3. Crime and Custom in Savage Society. Título traduzido
para o português: Crime e Costume na Sociedade Selvagem. Ano da primeira publicação:
1926.
Neste estudo
inovador, Malinowski examina como a lei e a ordem funcionam em sociedades sem
Estado centralizado. Usando exemplos das Ilhas Trobriand, ele demonstra que a
reciprocidade e o medo da vergonha pública atuam como mecanismos de controle
social tão eficazes quanto as leis escritas. O livro foi fundamental para a
criação da antropologia jurídica e para mostrar que “costume” e “direito” são
inseparáveis na vida tribal.
4. Sex and Repression in Savage Society. Título traduzido
para o português: Sexo e Repressão na Sociedade Selvagem. Ano da primeira
publicação: 1927.
Dialogando
diretamente com Freud, Malinowski analisa a sexualidade e os complexos
psicológicos nas sociedades matrilineares das Trobriand. Ele argumenta que o
complexo de Édipo não é universal, mas culturalmente condicionado, e que na
sociedade trobriandense o conflito principal ocorre entre tio materno e
sobrinho, e não entre pai e filho. A obra abriu caminho para a antropologia
psicológica.
5. The Sexual
Life of Savages in North-Western Melanesia. Título traduzido para o português:
A Vida Sexual dos Selvagens no Noroeste da Melanésia. Ano da primeira
publicação: 1929.
Um dos estudos
etnográficos mais detalhados já escritos sobre sexualidade humana, este livro
descreve cortejo, casamento, vida familiar e práticas sexuais entre os
trobriandeses. Malinowski mostra que a sexualidade não é apenas instinto
biológico, mas está profundamente integrada à magia, à economia e às regras de
parentesco. O trabalho desafiou tabus vitorianos e consolidou sua reputação
internacional.
6. Coral Gardens and Their Magic. Título traduzido
para o português: Jardins de Coral e Sua Magia. Ano da primeira publicação:
1935.
Em dois volumes,
Malinowski analisa o complexo sistema agrícola das Trobriand, onde a
horticultura de inhame se mistura à magia, à tecnologia e às relações de poder.
Ele demonstra que a magia não é superstição, mas uma força prática que organiza
o trabalho coletivo e reduz a ansiedade diante da incerteza da natureza. Esta é
considerada sua análise mais sofisticada do funcionalismo.
7. A Scientific
Theory of Culture and Other Essays. Título traduzido para o português: Uma
Teoria Científica da Cultura e Outros Ensaios. Escrito nos últimos anos de vida
(1940-1942) e publicado postumamente em 1944.
Obra teórica
mais madura de Malinowski, apresenta sua visão sistemática da cultura como um
conjunto integrado de respostas às necessidades humanas básicas (biológicas,
psicológicas e sociais). Ele propõe um modelo científico para estudar qualquer sociedade,
com ênfase no funcionalismo e na análise comparativa. O livro é considerado o
testamento intelectual do autor.
8. Magic,
Science and Religion and Other Essays. Título traduzido para o português:
Magia, Ciência e Religião e Outros Ensaios. Publicado postumamente em 1948
(ensaios escritos entre 1916 e 1942).
Coletânea que
reúne seus textos mais importantes sobre o papel da magia, da ciência e da
religião nas sociedades humanas. Malinowski defende que a magia preenche
lacunas onde a ciência ainda não chega, enquanto a religião oferece sentido à
vida e à morte. O volume sintetiza sua contribuição para a compreensão da mente
humana em diferentes culturas.
Sigmund Freud é
uma das figuras mais influentes do pensamento do século XX e mesmo no atual XXI.
Fundador da Psicanálise, sua obra ultrapassou os limites da medicina e da
psicologia clínica, impactando profundamente áreas como a filosofia, a
sociologia, a antropologia, a literatura e a teoria da cultura. Ao propor a
centralidade do inconsciente na vida psíquica, Freud transformou a maneira como
o humano passou a compreender a si mesmo, suas motivações, conflitos e
sofrimentos.
Ao longo de sua
trajetória intelectual, Freud desenvolveu conceitos fundamentais, como
repressão, pulsões, complexo de Édipo, inconsciente, superego e pulsão de morte,
e ampliou progressivamente o alcance da Psicanálise para além da clínica,
oferecendo interpretações sobre a religião, a moral, a civilização e o
mal-estar cultural. Contudo, ao mesmo tempo em que sua teoria exerceu enorme
influência, ela também suscitou críticas quanto ao seu estatuto científico e
aos seus limites explicativos.
O presente
artigo tem como objetivo apresentar os principais fundamentos da Psicanálise
freudiana, acompanhar sua evolução histórica e examinar criticamente seus
alcances e limites, tanto no campo clínico quanto no âmbito cultural e
filosófico.
1- Vida
Sigmund Freud (1856-1939
- Sigismund Schlomo Freud, segundo alguns autores e fontes, por volta do ano de
1877, Freud mudou seu nome para Sigmund Freud, o certo, no entanto, é que esta
mudança informal de seu nome ocorre após seu ingresso na universidade), de
origem judaica, nasceu em Freiberg in Mähren (atualmente Pribor, na República
Tcheca), Morávia, Império Austríaco, sendo o primogênito de oito filhos
(Sigmund, seguido por Julius, que morreu na infância, Anna, Rosa, Marie,
Adolfine, Paula e Alexander), e faleceu aos 83 anos de idade em Londres,
Inglaterra, Reino Unido. Filho de Jacob Freud (1815–1896) e Amalia Nathansohn Freud
(1835-1930). Jacob era um comerciante de lã cerca de 20 anos mais velho que
Amalia, sua terceira esposa, e já tinha dois filhos adultos de seu primeiro
matrimônio quando se casara com Amalia, a morte dele em 1896 foi um evento
marcante que desencadeou a autoanálise de Freud,processo central para o
desenvolvimento de suas principais teorias.
Em 1859, quando
Freud tinha três anos de idade, sua família mudou-se para Leipzig buscando
melhores condições e oportunidades de trabalho. No ano seguinte a família
estabelece residência definitiva em Viena, então capital do Império
Austro-Húngaro. A cidade de Viena foi importante e teria papel central na vida
intelectual e profissional de Freud. Nela encontramos uma atmosfera excitante e
vibrante em termos culturais e científicos, mas infelizmente, como também
ocorria no restante da Europa, temos já a presença do antissemitismo, que
acabaria com o tempo evoluindo para a tragédia da década de 1930 / 40, com a
perseguição, prisão e morte de vários judeus pelo simples fato de nascerem
judeus.
Freud cresceu em
um bairro judeu, com um ambiente familiar modesto, frequentou inicialmente uma
escola particular e depois, aos nove anos de idade, ingressou no Gymnasium,
onde se destacou em línguas clássicas, literatura e história, graduando-se com
honras em 1873, aos 17 anos. Freud desde cedo demonstrou grande aptidão e
talento nos estudos.
Aos 17 anos de idade,
em 1873, ingressa na Universidade de Viena, inicialmente para estudar Direito,
mas muda para Medicina e se forma em 1881. No decorrer do tempo em que esteve
na faculdade de medicina, conheceu o trabalho de pesquisa de Ernst Wilhelm von Brücke
(1819-1892), em seu laboratório de fisiologia, começando a trabalhar com ele a
partir do ano de 1876. Brücke era um proeminente cientista que pesquisou o
sistema nervoso de peixes e desenvolveu habilidades em histologia. Freud se
dedicou a pesquisa sobre histologia do sistema nervoso. Freud trabalhou também
no Instituto de Anatomia sob a orientação de Theodor Hermann Meynert
(1833-1892). Após a conclusão de seu curso, decide-se pela clínica
especializada em neurologia.
A partir de 1882
passa a se dedicar à clínica psiquiátrica. Ingressou no Hospital Geral de Viena
como residente, especializando-se em neurologia e psiquiatria, e publicou
artigos sobre anatomia cerebral e afasia. Em 1885, obteve uma bolsa para
estudar em Paris com Jean-Martin Charcot (1825-1893), um renomado neurologista
que tratava histeria com hipnose, trabalho e tratamento que este desenvolvia na
Salpêtrière. Charcot entendia que a histeria não
era uma doença unicamente presente nas mulheres, como a comunidade médica então
acreditava, e que havia uma íntima relação entre a histeria e a sexualidade.
Freud toma para si estas ideias e as defende em Viena, mas seus pares a
rejeitam, começando aí um certo isolamento de Freud da comunidade médica que só
iria se agravar nos próximos anos na medida em que desenvolvia suas próprias ideias
e começava a criação da Psicanálise. Essa experiência de seis meses na
Salpêtrière foi transformadora, expondo Freud aos fenômenos inconscientes e ao
tratamento psicológico de sintomas físicos, afastando-o gradualmente da
neurologia pura.
Também no ano de
1882 conhece e fica noivo de sua futura esposa Martha Bernays (1861-1951), com
quem casa em 1886 e com quem teve seis filhos, Mathilde (1887-1938),
Jean-Martin (1889-1967, nomeado em homenagem a Charcot), Oliver (1891-1969),
Ernst (1892-1970), Sophie (1893-1920) e Anna (1895-1982). Este noivado de
quatro anos foi marcado por cartas apaixonadas e ciúmes. Martha Bernays era uma
jovem judia de família ortodoxa de Hamburgo, que ele conhecera no mesmo ano em que
noivara, sendo apresentado por uma de suas irmãs. Martha era culta e dedicada,
abandonando práticas religiosas ortodoxas para se adaptar ao agnosticismo de
Freud. O casal estabeleceu-se em Viena. Anna, a caçula, tornou-se uma
proeminente psicanalista, continuando o legado do pai e cuidando dele em seus
anos finais. A família enfrentou tragédias, como a morte precoce de Sophie por
gripe espanhola em 1920 e de um neto em 1923, eventos que exerceram influência
sobre as reflexões de Freud em relação ao luto e melancolia.
É significativo na
vida de Freud seus estudos sobre os efeitos analgésicos da cocaína. Ele se
dedicara a esta pesquisa antes de 1884, mas não concluiu, entregando-a a dois
colegas de profissão, um destes foi Carl Koller (1857-1944).
Entre 1882 e 1896
Freud faz parceria com o médico Josef Breuer (1842-1925) nos estudos sobre a
histeria. Em 1886, quando Freud retorna de Paris, onde estudara com Charcot,
abre em Viena uma clínica particular como neurologista, focando em distúrbios
nervosos. A partir do ano de 1886 começa sua clínica com pacientes histéricos
fazendo uso da hipnose, mas a partir do método empregado por Josef Breuer, que
no lugar de fazer sugestões hipnóticas, permitia a paciente falar. A par com o
trabalho em sua nova clínica, temos a parceria com Breuer e desta relação surge
a criação do método catártico com o uso da hipnose, no qual o paciente era invitado
a falar sobre sugestão da origem causadora de seus sintomas. Este método
permitiu a ambos pesquisadores vincular a histeria e seus sintomas a traumas
ocorridos na infância. Desta parceria resultou a publicação do livro “Estudos
sobre a histeria”, 1895, obra que introduziu o conceito de trauma psíquico. Mas
esta obra, apesar de toda a sua importância, ainda não marca o início da Psicanálise,
pois, a Psicanálise só irá realmente surgir a partir do momento do abandono
definitivo por parte de Freud, da hipnose e sua substituição pelo método de
Associação Livre. Divergências levaram Freud a desenvolver seu próprio método.
Em 1895, ele
redigiu "Projeto para uma psicologia científica", um texto não
publicado em vida que tentava explicar o psiquismo em termos neurológicos,
precursor de suas teorias sobre o inconsciente. Influenciado por sua
autoanálise, após a morte de seu pai em 1896 e por uma amizade intensa (e
posterior ruptura) com Wilhelm Fliess (1858-1928), Freud abandonou gradualmente
a hipnose em favor da associação livre. O marco derradeiro em termos de
publicação é A interpretação de sonhos, 1900, livro no qual a hipnose cede em
definitivo lugar ao método de associação livre.
Em 1889 estuda com
a Escola de Nancy, rival da de Charcot, que se propõe ao uso da hipnose não
somente para pacientes histéricos, mas para qualquer um.
Aos 24 anos de idade,
em 1880, inicia-se no hábito de fumar, primeiramente cigarros e depois
charutos. Este hábito, do qual gostava, teria como consequência a geração de um
câncer de boca.
Freud conheceu
Franz Brentano (1838-1917), que foi seu professor, além disto, fica patente a
influência em sua obra dos filósofos Schopenhauer (1788-1860) e Nietzsche
(1844-1900), mesmo que este o negue.
O termo “Psicanálise”
foi adotado por Freud no ano de 1886 para designar o trabalho que este vinha
desenvolvendo na clínica com o abandono gradativo do uso da hipnose e sua
substituição pelo método de associação livre e pela interpretação de sonhos. A
publicação do livro “A interpretação de sonhos”, 1900, marca o início formal da
Psicanálise. Seguiram-se publicações chave, como "A psicopatologia da vida
cotidiana", 1901, que explorava atos falhos como manifestações
inconscientes, e "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade", 1905,
que revolucionou o entendimento da libido infantil e do complexo de Édipo
gerando controvérsias. O termo “complexo”, se bem que amplamente adotado hoje
em dia, não é criação de Freud e sim de Bleuler e Jung e com o rompimento com
Jung, Freud não se sente totalmente a vontade com a expressão. Freud adotava a
referência a “Édipo” e ao “romance familiar”, no lugar de “complexo”. Freud
também não adotou o termo “complexo de Electra”, proposto por Jung para se
referir ao mesmo processo com suas variáveis quando ocorrido em meninas.
A partir do ano de
1902 é formada a Sociedade Psicológica das Quartas-feiras, que se reunia na residência
de Freud para discutir trabalhos com pacientes e o método psicanalítico que se
desenvolvia. Esta sociedade era composta por um grupo de médicos convidados por
Freud. Este grupo muda sua denominação para Sociedade Psicanalítica de Viena no
ano de 1908. Deste grupo participaram, dentre outros, Alfred Adler (1870-1937),
Carl Gustav Jung (1875-1961) e Otto Rank (1884-1939), embora cisões posteriores
(Adler em 1911, Jung em 1913) marcassem o movimento.
No desenvolvimento
inicial de seu trabalho clínico, Freud entendeu que os problemas neuróticos
apresentados por seus pacientes eram decorrentes de um trauma infantil gerado
por abusos sexuais na infância, aqui estamos diante da teoria da sedução. Freud
abandona esta formulação inicial para adotar que qualquer cenário infantil
sobre sedução, independente desta ser real ou imaginária, associada a conteúdos
reprimidos, tende a favorecer o surgimento de neuroses. Aqui temos a base para
a formulação do complexo de Édipo.
Em 1909 Freud é
convidado por G. Stanley Hall e aceita participar como conferencista na Clark
University, Worcester, Massachusetts, EUA, por ocasião do 20º aniversário da
instituição, proferindo uma série de palestras sobre o desenvolvimento da Psicanálise.
Freud foi acompanhado por Jung e Sándor Ferenczi (1873-1933), e apresentou
cinco conferências introdutórias à Psicanálise, recebendo um doutorado
honorário. Essa visita marcou o reconhecimento internacional da Psicanálise,
apesar do desconforto de Freud com a cultura americana, que ele via como
superficial e materialista.
No ano de 1910,
durante o segundo congresso internacional de Psicanálise, em Nuremberg, é
criada a "Associação Psicanalítica Internacional".
A Primeira Guerra
Mundial (1914-1918) trouxe desafios: Freud perdeu investimentos, viu filhos
servirem no front e refletiu sobre agressividade humana, influenciando obras
como "Além do princípio do prazer",1920, que introduziu a pulsão de
morte. Nos anos 1920, ele continuou produzindo: "O ego e o id", 1923,
reformulou a estrutura psíquica com id, ego e superego; "O futuro de uma
ilusão", 1927, criticou a religião como ilusão; e "O mal-estar na
civilização", 1929, analisou o conflito entre pulsões e sociedade.
Com a subida ao
poder do nazismo na década de 1930 e após vários atos hostis, temendo o pior,
Freud consegue ir para Londres, Inglaterra, no ano de 1938 visando escapar da
perseguição dos nazistas, mas só o conseguiu com a ajuda da princesa francesa
Marie Bonaparte (1882-1962). Como judeu, Freud enfrentou crescente
antissemitismo na Áustria. Após o Anschluss em março de 1938, quando a Alemanha
anexou a Áustria, nazistas invadiram sua casa e editora, queimando livros e
interrogando sua filha Anna. Com a ajuda de amigos internacionais, incluindo a
princesa Marie Bonaparte (que pagou os resgates), Ernest Jones (1879-1958) e o
embaixador americano William Bullitt (1891-1967), Freud obteve vistos para
fugir. Em junho de 1938, aos 82 anos, ele deixou Viena com Martha, Anna e
outros familiares, passando por Paris antes de se instalar em Londres, na
Inglaterra, onde foi recebido como refugiado e continuou trabalhando.
Infelizmente,
quatro de suas irmãs (Pauline, Adolfine, Marie e Rosa) não tiveram a mesma
sorte e apesar de tentativas para retirá-las da área dominada pelos nazistas,
estas tentativas fracassaram e as mesmas acabaram morrendo em campos de
concentração.
Freud falece em 23
de setembro de 1939, na verdade, foi um suicídio induzido (eutanásia por meio
de injeções de morfina) pelo seu médico, Max Schur (1897-1969), quem mais tarde
iria escrever uma de suas biografias, “Freud: vida e agonia” (Freud: Living and
dying), 1973. Freud lutava contra um câncer de mandíbula diagnosticado em 1923,
causado pelo hábito de fumar charutos, que exigiu mais de 30 cirurgias e
próteses dolorosas, sendo o motivo de perda gradativa de sua voz e dores
intensas que culminaram na decisão final de Freud de por fim a sua própria vida.
Em seus anos
finais, dependia de Max Schur, seu médico pessoal desde 1928, que o acompanhou
na fuga. Em setembro de 1939, com a dor insuportável e o câncer avançado,
Freud, agnóstico e defensor da eutanásia digna, pediu a Schur que acabasse com
seu sofrimento. Após consultar Anna, Schur administrou doses letais de morfina
em 21 e 22 de setembro. Freud morreu em 23 de setembro de 1939, aos 83 anos, em
sua casa em Hampstead, Londres. Seus restos foram cremados, e as cinzas
depositadas em uma urna grega antiga de sua propriedade e coleção. Seu legado,
controverso e influente, fundou a Psicanálise, impactando profundamente a nossa
cultura, e diversos campos do saber, como, por exemplo: a psiquiatria, psicologia,
filosofia, artes, literatura e cinema.
2-
Desenvolvimentos anteriores a 1900 – Jean-Martin Charcot, Josef Breuer, Eugen
Bleuler, hipnose, histeria
Quando Freud
começou a se interessar pelo estudo das neuroses, em particular a histeria, era
comum na comunidade médica o entendimento de tratar-se de uma doença exclusiva
de mulheres, inclusive, o nome do distúrbio é originado da palavra grega
hystera, que significa útero. Coube a Freud e antes dele Charcot e Breuer
desenvolverem estudos que apontavam para a predominância da neurose histérica
tanto em mulheres, como também em homens, portanto, estando presente em ambos
os sexos em proporções semelhantes.
Com Breuer, Freud
escreve e publica diversos trabalhos sobre a clínica, em particular cabe aqui
citar seu livro "Estudos sobre a Histeria", 1895 (1893-1895). Coube a
Breuer criar o “método catártico” pelo qual o paciente iria falar abertamente
de seus problemas em busca da origem e cura dos mesmos. Breuer desenvolveu este
método enquanto cuidava de uma paciente neurótica histérica chamada Bertha
Pappenheim (Anna O.), que começou a adoecer enquanto cuidava de seu pai doente.
Por sua vez, Pappenheim preferia chamar o método
usado por Breuer de “cura pela fala”. Breuer notara que os sintomas histéricos
apresentados pela paciente estavam ligados a memórias traumáticas que haviam sido
esquecidas, mas que com o uso da hipnose era possível serem recuperadas e com
sua recuperação e a partir da consciência que o paciente passava a ter das
mesmas, este apresentava melhora de seu quadro clínico fazendo com que os
sintomas desaparecessem. Ora, este método ainda fazia uso da hipnose, agora sem
uso direto de sugestões sobre os sintomas, mas propiciando um acesso a memórias
esquecidas e a verbalização das mesmas. Breuer compartilhou de suas descobertas
para com Freud, proporcionando que este último, mais tarde, abandonasse o uso
da hipnose, mas mantivesse a fala do paciente sobre seus sintomas buscando a
origem dos mesmos e a consequente melhora ou cura.
Primeiramente Breuer
com o uso da hipnose e, posteriormente, Freud com o método de associação livre,
observaram que, quando os pacientes relatavam os pensamentos que estavam
associados a seu estado doentio (cegueira, paralisia, incapacidade de falar a
língua materna, falta de ar, etc.) no decorrer da terapia, os pacientes
melhoravam de seus sintomas ou mesmo estes deixavam de existir. Esta é a “cura
pela fala”, como foi chamada por Pappenheim e a base sobre a qual será
construído o método terapêutico psicanalítico de Freud.
Antes de 1900
(publicação de “A interpretação de sonhos”), o caminho de Sigmund Freud rumo à Psicanálise
foi marcado por uma transição gradual da neurologia convencional para uma
abordagem que privilegiava o psíquico sobre o orgânico. Nesse período anterior
ao ano de 1900, três figuras e conceitos centrais se destacam: Jean-Martin
Charcot (com sua ênfase na hipnose e na histeria como fenômeno psicológico),
Josef Breuer (com o método catártico e o tratamento de casos histéricos) e, em
menor grau inicial, Eugen Bleuler (cuja influência mais direta viria depois,
mas que já compartilhava interesses em estados alterados de consciência e
psiquiatria dinâmica). Esses elementos formaram o solo fértil para que Freud
abandonasse progressivamente a hipnose e desenvolvesse ideias sobre o
inconsciente, o trauma psíquico e a etiologia psicológica das neuroses.
Jean-Martin
Charcot (1825-1893) foi o primeiro grande catalisador. Em 1885, Freud obteve
uma bolsa de estudos para passar seis meses na Salpêtrière, em Paris, hospital
onde Charcot dirigia o serviço de neurologia. Charcot, um dos neurologistas
mais respeitados da Europa, revolucionara o estudo da histeria ao demonstrar
que seus sintomas (paralisias, contraturas, anestesias, crises convulsivas sem
lesão orgânica evidente) podiam ser reproduzidos e modificados por hipnose. Ele
classificava a histeria como uma neurose funcional, não simulada nem
exclusivamente feminina (embora a maioria de suas pacientes fossem mulheres), e
mostrava que a hipnose induzia estados semelhantes aos sintomas histéricos, o
que ele chamava de "histeria artificial". Para Charcot, a hipnose
revelava uma predisposição neuropática hereditária, mas também permitia
intervenções sugestivas diretas para aliviar sintomas.
Charcot fazia
demonstrações no hospital com pacientes neuróticos histéricos. Ele os
hipnotizava e criava novos sintomas ou fazia desaparecer os sintomas existentes
durante o transe hipnótico e sob sugestão hipnótica, mas, quando os pacientes
saiam do transe retornavam para seus sintomas. A sugestão hipnótica não
resolvia o problema dos sintomas histéricos na vida cotidiana dos pacientes
(homens e mulheres).
Freud ficou
profundamente impressionado. Ele assistiu às demonstrações de Charcot nas
terças-feiras ("Leçons du Mardi"), traduziu obras dele para o alemão
e adotou inicialmente a visão de que a histeria tinha raízes psicológicas, não
apenas uterinas ou orgânicas como se pensava antes. Charcot introduziu Freud à ideia
de que o psiquismo podia produzir sintomas corporais reais sem base anatômica,
e que a hipnose era uma ferramenta para acessar e manipular esses processos. No
entanto, Freud logo percebeu limitações: a hipnose de Charcot era mais
demonstrativa que terapêutica, e a sugestão direta nem sempre resolvia a causa
subjacente. Deste modo, uma paralisia histérica era curada e o paciente sob
transe caminhava normalmente, um paciente que não conseguia falar em seu
próprio idioma, voltava a falar sem apresentar problemas e assim por diante.
Uma vez cessada a sessão hipnótica, na qual os sintomas sumiam sob sugestão
hipnótica, ao acordar do transe, os sintomas reapareciam.
De volta a Viena
em 1886, Freud abriu consultório como neurologista e começou a aplicar hipnose
em pacientes com sintomas nervosos. Em 1889, viajou a Nancy para estudar com
Hippolyte Bernheim (1840-1919) e Ambroise-Auguste Liébault (1823-1904), da
escola rival de Salpêtrière, que enfatizava a hipnose como fenômeno sugestivo
psicológico (não neuropático), aplicável a pessoas normais e não só a
histéricos. Essa experiência reforçou sua crítica à visão organicista de
Charcot e o preparou para questionar a hipnose como técnica definitiva.
Josef Breuer
(1842-1925), médico vienense respeitado e amigo mais velho de Freud,
representou o passo decisivo para o abandono da hipnose pura. Breuer tratava
pacientes histéricos desde o início dos anos 1880, e seu caso mais famoso foi o
de Bertha Pappenheim (conhecida como "Anna O."), atendida entre 1880
e 1882. Anna O. apresentava sintomas graves: paralisias, distúrbios visuais,
alucinações, tosse nervosa e estados de ausência. Breuer descobriu que, ao
hipnotizá-la e incentivá-la a falar livremente sobre suas lembranças
(especialmente as associadas aos sintomas), ela experimentava uma "catarse
emocional", uma descarga afetiva que aliviava temporariamente os sintomas.
Anna O. chamou isso de "talking cure" (cura pela fala) e
"chimney sweeping" (limpeza da chaminé).
Breuer e Freud
discutiram o caso intensamente a partir de 1882-1883. Freud, impressionado,
começou a aplicar o método catártico em suas pacientes, combinando hipnose com
a evocação de memórias traumáticas. A colaboração culminou na "Comunicação
preliminar sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos", 1893, e
no livro conjunto “Estudos sobre a histeria”, 1895. Nesse trabalho, eles
propuseram que os sintomas histéricos eram "ideógenos", originados de
representações psíquicas traumáticas reprimidas, que não podiam ser
descarregadas normalmente e se convertiam em sintomas somáticos. A hipnose
permitia acessar essas representações reprimidas, e a catarse (ab-reação
afetiva) as neutralizava.
Freud, porém,
começou a notar limitações: nem todos os pacientes entravam em hipnose
profunda, a catarse era temporária se o trauma não fosse plenamente elaborado,
e surgia o fenômeno da transferência (o paciente projetava afetos no terapeuta:
amor ou ódio). O método de Freud consistia em pressionar a testa do paciente
para estimular lembranças ("técnica da pressão"). Gradualmente, Freud
abandonou a hipnose em favor da associação livre. Após o comentário de uma
paciente (Emmy von N., pseudônimo usado por Freud para Fanny Moser, uma viúva
rica de 40 anos na época do tratamento, em 1889) que preferia que Freud parasse
de pressionar sua testa e a deixasse falar livremente, Freud assim procede,
nascendo o método de associação livre. Cabe também mencionar que Freud nunca
fora um bom hipnotizador, motivo pelo qual adotou a técnica de pressão na testa
do paciente e que mais tarde fez com que este abandonasse de vez qualquer
tentativa de hipnotizar o paciente, deixando que este falasse livremente sobre
o que lhe viesse à mente, buscando não exercer controle algum sobre este
conteúdo ou sua exposição. Essa transição marcou o nascimento da Psicanálise
propriamente dita.
Freud relata que
essa reação de sua paciente, Emmy von N., foi decisiva, marcando o início da
transição para a associação livre propriamente dita, onde o paciente fala tudo
o que vem à mente sem censura, direção, pressão física ou qualquer intervenção
ou interrupção do terapeuta. Ele percebeu que interromper ou forçar o paciente
quebrava o fluxo natural e que permitir a fala livre facilitava o acesso ao
material reprimido de forma mais autêntica e eficaz.
Eugen Bleuler
(1857-1939), psiquiatra suíço e diretor do Burghölzli (clínica psiquiátrica de
Zurique) a partir de 1898, teve contato indireto e inicial com Freud antes de
1900, mas sua influência mais forte veio depois. Bleuler interessava-se por
hipnose, introspecção e estados alterados de consciência, e já admirava as ideias
freudianas sobre afetividade e inconsciente. Ele cunharia o termo
"esquizofrenia" em 1908 e introduziria conceitos como
"autismo" e "complexo" (influenciando Jung), mas antes de
1900 sua relação com Freud era periférica, mais uma convergência de interesses
em psiquiatria dinâmica que uma colaboração direta. Bleuler representava a
ponte entre neurologia clássica e abordagens psicológicas, e seu hospital
formaria discípulos como Jung, que mais tarde aproximariam Freud da psiquiatria
acadêmica.
Em resumo, o
período anterior a 1900 foi de transição: Charcot forneceu a hipnose como
ferramenta para demonstrar o elemento psicológico na histeria; Breuer ofereceu
o método catártico e a ideia de trauma psíquico reprimido; Bleuler antecipou
uma psiquiatria mais aberta ao dinâmico. Freud absorveu esses elementos, mas os
superou ao rejeitar a hipnose como técnica adotada no tratamento e ao enfatizar
o inconsciente, a sexualidade e a resistência, preparando o terreno para
"A interpretação de sonhos", 1900, onde a Psicanálise emerge como
teoria autônoma a partir do método de associação livre. Esse ponto é
fundamental para entender que a Psicanálise não surgiu do nada: foi uma síntese
crítica de influências neurológicas e hipnóticas, transformadas por Freud em
uma nova ciência da mente humana e da sociedade.
3- O projeto
(1895)
A questão
principal que podemos inferir de um debate sobre este pequeno trabalho é se é
possível, ou não, deduzir os pressupostos presentes das estruturas mentais
teorizadas pela Psicanálise de uma origem neurológica, biológica e orgânica. O
próprio Freud, autor do “Projeto”, 1895, em diversos momentos de sua obra fala
de modo contraditório sobre este tema, por vezes entendendo não ser possível
buscar as estruturas descritas na Psicanálise em uma base orgânica, física,
neurológica e biológica, já em outros momentos parece apontar justamente para
esta possibilidade, talvez nunca esquecida, que fora aqui nesta obra estudada e
desenvolvida, se bem que somente enquanto rascunho não publicável. Na obra
futura desenvolvida por Freud, é justamente em “A interpretação de sonhos”,
1900, que os temas e ideias desenvolvidas aqui no “Projeto” são em parte
retomadas, isto em particular no capítulo VII desta obra.
No ano de 1895
Freud escreve este trabalho ambicioso. O esboço de um modelo para explicar o
funcionamento da mente humana por meio de uma abordagem científica e
neurológica com base no espírito de sua época, o espírito do tempo, em alemão:
Zeitgeist. Este rascunho, enviado a um amigo (Wilhelm Fliess) por carta e
comentado pessoalmente, foi publicado apenas após sua morte.
Trata-se de um
texto inconcluso e não publicado durante a vida de Freud. O amigo e
correspondente de Freud, Wilhelm Fliess (1858-1928), o recebeu por carta no
formato de rascunho e teve a oportunidade de opinar sobre o mesmo, mas a real
publicação e disponibilização para o grande público só ocorre postumamente, em
1950, quando é publicado pela primeira vez em alemão. Neste texto temos as
origens ainda embrionárias do que mais tarde será a Psicanálise.
O "Projeto
para uma psicologia científica" (originalmente intitulado Entwurf einer
Psychologie), redigido por Sigmund Freud em 1895, marca um ponto importante no
desenvolvimento do pensamento de Freud rumo a Psicanálise. O “Projeto” pode ser
entendido como atuando como ponte entre as bases neurológicas da formação de
Freud para o desenvolvimento da técnica psicanalítica, na qual o estudo da
mente humana se desvincula do neurológico e orgânico para buscar suas bases no
desenvolvimento infantil a partir das fantasias e da sexualidade.
Freud tenta
construir um modelo do funcionamento mental baseado estritamente em princípios
neurofisiológicos, inspirado em sua formação médica e em influências como o
Positivismo de Ernst Brücke (1819-1892) e a física da energia de Hermann von
Helmholtz (1821-1894). O objetivo era explicar fenômenos psíquicos (como
percepção, memória, desejo e defesa) em termos de processos neuronais
quantificáveis, sem recorrer a conceitos metafísicos ou puramente psicológicos.
Embora Freud tenha abandonado esse projeto explícito pouco depois, suas ideias
centrais ecoam ao longo de toda a evolução da Psicanálise, influenciando
conceitos posteriores como a pulsão (Trieb), a repressão e as duas tópicas do
aparelho psíquico.
Freud imagina o
cérebro como uma rede de neurônios que processam uma energia quantitativa (em
obras posteriores parece que Freud faz uso do termo “intensidade” como sinônimo
de “quantidade”, aqui descrita) neutra, chamada de "Q", vinda de
estímulos internos e externos. Ele divide o sistema em três partes principais:
uma para a percepção imediata (Phi - 𝜙), outra para a
memória e os processos inconscientes (Psi – ψ), e uma para a consciência
qualitativa (ômega - ω). Princípios como o de inércia
(que busca eliminar qualquer excitação), constância (para manter um equilíbrio
energético mínimo) e prazer-desprazer (onde o prazer surge da redução de
tensão) guiam o fluxo dessa energia, distinguindo entre formas livres (que
levam a ações impulsivas) e ligadas (que permitem pensamento e adaptação).
Freud introduz aqui a ideia de pulsão como uma força interna dinâmica, não
instintiva, que impulsiona o psíquico em direção à satisfação, antecipando
conceitos centrais da Psicanálise, como repressão e desejo, mas ainda ancorados
em uma visão materialista do cérebro.
Neste modelo
presente no “Projeto”, Freud postula um sistema nervoso composto por neurônios
que operam como condutores de uma energia quantitativa neutra, denominada
simplesmente "Q" (de Quantität, quantidade). Essa energia, derivada
de estímulos internos e externos, circula pelo sistema neuronal e tende a ser
descarregada para manter um equilíbrio. Freud delineia três princípios
fundamentais para o funcionamento desse sistema: o princípio de inércia neuronal,
que impõe aos neurônios a tendência a eliminar completamente qualquer excitação
recebida (mais presente nos neurônios Phi), evitando acúmulo; o princípio de
constância, uma versão modificada do primeiro, que admite a necessidade de
manter um nível mínimo de energia para funções vitais (mais presente nos
neurônios Psi); e o princípio do prazer-desprazer, que associa o prazer à
redução de excitação, e o desprazer ao seu aumento. Esses princípios quantitativos
antecipam diretamente a dualidade pulsional na Psicanálise posterior, onde a
busca por descarga de tensão (prazer) contrasta com retenções necessárias para
a adaptação à realidade (princípio do prazer versus princípio da realidade).
Freud divide o
aparelho neuronal em três subsistemas interconectados: o sistema phi (φ),
responsável pela percepção de estímulos externos, permeável e sem memória
permanente, atuando como uma barreira contra sobrecargas. Se assemelha ao
sistema “percepção-Consciência” (Pcpt.-Cs.) da primeira tópica; o sistema psi
(ψ), central para a memória e o pensamento, onde as excitações deixam traços
permanentes (facilitações ou "bahnungen") e onde ocorrem processos
como a repressão e o desejo. Se pensarmos em relação a primeira tópica,
corresponde principalmente ao inconsciente (Ucs.), mas com sobreposição ao
pré-consciente (Pcs.). Psi é o reservatório de representações duradouras e
conflitos dinâmicos, o lugar das memórias reprimidas, desejos pulsionais e
traços que não acessam diretamente a consciência; e o sistema ômega (ω), ligado
à consciência qualitativa, que transforma quantidades energéticas em sensações
de prazer ou desprazer. Mais próximo do consciente (Cs.) e do pré-consciente
(Pcs.), especialmente o sistema Percepção-Consciência (Pcpt.-Cs.). Ômega é o
ponto onde surge a consciência propriamente dita, ligada a percepções internas
e externas.
Na primeira
tópica, o consciente é o que está acessível agora, e o pré-consciente é o que
pode vir a ser consciente com facilidade, Ômega captura essa transição
qualitativa. Nesse framework, o psíquico surge da interação entre essas
camadas: estímulos internos (como necessidades biológicas) geram excitações
que, se não descarregadas, produzem desejo ou angústia, enquanto defesas como a
repressão bloqueiam caminhos neuronais para evitar desprazer excessivo.
Um aspecto crucial
é a distinção entre energia livre e energia ligada: a primeira flui sem
obstáculos, levando a alucinações ou descargas motoras primitivas (como no bebê
que chora para satisfazer uma necessidade); a segunda é investida em
representações mais complexas, permitindo pensamento e adaptação. Aqui, Freud
introduz precocemente a noção de pulsão (Trieb), entendida não como instinto
biológico fixo (que ele diferencia explicitamente em textos posteriores, como
"As pulsões e suas vicissitudes", de 1915), mas como uma força
interna dinâmica, uma "exigência de trabalho" imposta ao psíquico
pela biologia, impulsionando a busca por objetos de satisfação. Essa concepção
de pulsão como "drive" (em inglês) ou impulso (e não mero instinto
inato) vincula-se diretamente à teoria da libido posterior, onde a energia
sexual (libido) se torna o motor principal das neuroses e do desenvolvimento
psíquico.
Embora o
"Projeto" seja uma tentativa ambiciosa de fundar a psicologia em
bases científicas materialistas, Freud o abandonou por volta de 1896,
reconhecendo limitações: o modelo era excessivamente mecânico, não capturava a
complexidade qualitativa do psíquico e dependia de hipóteses neurológicas
especulativas (como a teoria neuronal da época, anterior à descoberta de
sinapses por Santiago Ramón y Cajal, 1852-1934). No entanto, suas sementes
floresceram na Psicanálise madura. A divisão em sistemas phi, psi e ômega
prefigura a primeira tópica (inconsciente, pré-consciente e consciente) de
1900, onde o inconsciente é um reservatório de representações reprimidas; o
princípio de constância evolui para o princípio do prazer em "A
interpretação de sonhos", 1900, e, posteriormente, para a dualidade pulsão
de vida/pulsão de morte em "Além do princípio do prazer", 1920; e a
repressão neuronal torna-se a repressão psíquica, mecanismo central das
neuroses. Além disso, a ênfase em energia pulsional pavimenta o caminho para a
teoria da sexualidade infantil em "Três ensaios sobre a teoria da
sexualidade”, 1905, onde pulsões parciais se organizam em fases do
desenvolvimento.
Uma análise
crítica valiosa desse texto é oferecida no livro "Freud's Project
Re-Assessed: Preface to Contemporary Cognitive Theory and Neuropsychology",
1976, de Karl H. Pribram (neurocientista) e Merton M. Gill (psicanalista). Os
autores reassessam o "Projeto" à luz da neurociência e psicologia
cognitiva da década de 1970, argumentando que Freud antecipou conceitos
modernos como processamento de informação, feedback neural e sistemas abertos
biológicos. Pribram, em particular, destaca paralelos com modelos holográficos
do cérebro e biologia sistêmica, sugerindo que o "Projeto" não foi um
fracasso, mas um modelo proto-cibernético para o psiquismo, onde energia “Q” se
assemelha a fluxos informacionais. Gill complementa com uma perspectiva
psicanalítica, criticando o reducionismo neurológico de Freud, mas valorizando
como ele abriu caminho para uma metapsicologia dinâmica. Essa releitura crítica
ressalta a relevância atemporal do texto, conectando-o a debates atuais em
neuropsicanálise e ciências cognitivas, e convida a uma visão integrada onde o
biológico e o psíquico não são opostos, mas interdependentes.
O
"Projeto" é fundamental como o embrião teórico da Psicanálise,
revelando as raízes neurológicas das ideias freudianas e influenciando obras
posteriores, como a primeira tópica do inconsciente (inconsciente,
pré-consciente e consciente) e a dualidade pulsional de vida (Eros) e morte
(Thanatos). Sua importância reside em demonstrar como Freud tentou unificar
biologia e psiquismo, pavimentando o caminho para uma ciência da mente que
transcende o puramente orgânico. No entanto, revela uma dubiedade persistente
em Freud: embora ele abandonasse o modelo estritamente neurológico por sua rigidez
especulativa, ecos dessa tensão entre o físico-biológico e o puramente psíquico
permeiam sua obra futura, onde estruturas como o inconsciente ou o ego são
descritas como processos dinâmicos autônomos, mas com sugestões implícitas de
origens neurológicas, deixando aberta a questão de se a Psicanálise precisa ou
não de uma base material para explicar o humano e se um dia seria ou não
possível vincular as descobertas da Psicanálise ao corpo físico, ao orgânico,
ao biológico, ao neurológico.
Em essência, o
"Projeto" de 1895 não é apenas um relicário histórico, mas o embrião
de toda a Psicanálise: uma tentativa de ancorar o subjetivo no material que, ao
fracassar em sua forma original, liberou Freud para explorar o inconsciente
como reino autônomo, pulsional e conflituoso, moldando assim o século XX e o
atual XXI.
4- A descoberta do
inconsciente e o nascimento do método: associação livre, catarse e abandono da
hipnose – Transferência e contratransferência – Narcisismo
A formação de
Freud se deu na medicina e não na filosofia. Ele não sentou em uma cadeira
refletindo sobre a realidade, em seu lugar, sua teoria surge a partir de
atendimentos de pacientes neuróticos em sua clínica. O inconsciente é uma marca
registrada, podemos assim dizer, da Psicanálise, mas esta descoberta não surge
do nada ou de modo isolado. A descoberta por Freud do inconsciente foi algo
gradual que ocorreu a partir de sua prática clínica, em particular entre 1880 e
1900. Nesta época encontramos um Freud de formação em medicina na área de
neurologia que aos poucos muda a forma de tratamento empregada na clínica com
neuróticos. Inicialmente Freud fazia uso do método hipnótico, mas aos poucos
mudou para o método de associação livre e conforme sua experimentação clínica
prosseguia, chegou a conclusão sobre a existência de um inconsciente. A vida
humana cotidiana se dá a partir da realidade provinda deste inconsciente.
O iconsciente
surge a partir do trabalho de Freud e seu contato com o método de hipnose de
Charcot, e o método catártico de Breuer. Aos poucos Freud foi abandonando
técnicas decorrentes da hipnose em favor da associação livre, dando destaque a
outro fenômeno que este observara em seus pacientes: a transferência. Por meio
desta, o paciente passava os seus sentimentos mais profundos de amor e ódio que
nutria com pessoas significativas de suas relações (pai, mãe) para o terapeuta.
Freud também chegou a conclusão que o mecanismo de transferência poderia gerar
no terapeuta uma contratransferência e que o fenômeno da transferência era
totalmente inevitável dentro no tratamento. Outro importante conceito desenvolvido
na esteira do inconsciente foi o de narcisismo, fazendo aqui referência a
história de Narcísio. O narcisismo aparece formalmente em um texto do ano de
1914, mas é uma consequência natural da descoberta do inconsciente e sua
vinculação com a libido e o ego. Este percurso que foi da hipnose para o método
de associação livre, passando pela descoberta do inconsciente e sua relação com
a transferência, contratransferência, libido e ego vem a marcar o surgimento e
desenvolvimento inicial da Psicanálise.
Na prática de
atendimento usada por Freud, o paciente deitava-se em um divã em seu
consultório e falava abertamente sobre o que viesse a sua mente. Esta técnica
surge após Freud abandonar o uso da hipnose e foi chamada de “associação
livre”. Freud também usava esta técnica para analisar os sonhos de seus
pacientes. O uso do divã, com Freud sentado atrás do mesmo, o que colocava
Freud também atrás da cabeça do paciente, com este não podendo encarar Freud,
já que não o via, tendo de olhar para o teto ou para a frente, não foi criado
com a intenção de facilitar o paciente, ou fazê-lo sentir-se mais a vontade,
mas sim para facilitar a vida de Freud e para que este, Freud, se sentisse a
vontade diante do paciente, sem necessidade de ficar olhando-o no rosto e
encarando seus olhos.
O método empregado
na Psicanálise por Freud é um só e se chama “associação livre”. Com o abandono
da hipnose, o paciente fala livremente sobre tudo que lhe vier a mente, seja lá
o que for. Os próprios sonhos são interpretados por meio da associação livre e
o mesmo ocorre com os chistes e a psicopatologia da vida cotidiana. Não há um
método diferente para cada e sim um único método empregado em diversas
situações para que o paciente tome consciência de seus reais motivos e desejos.
Não confundamos a “associação livre” de Freud com a “associação induzida” usada
por Jung junto a sua pesquisa sobre os “complexos”. Na “associação livre” o
paciente fala livremente sobre tudo que lhe vier a mente, já na “associação
induzida” uma lista de palavra previamente escolhidas é dita para o paciente
que deve responder com a primeira palavra que lhe vier a mente.
O termo “Psicanálise”,
criação de Freud, surge a partir do ano de 1886 em artigo publicado, mesmo ano
do falecimento de seu pai. No ano de 1897 Freud abandona a teoria de que os
sintomas neuróticos estariam associados a um trauma ocorrido na infância e de
origem sexual. Em seu lugar passa a elaborar o que se tornaria a teoria do
“édipo” na qual temos o “romance familiar” e os desejos sexuais infantis.
O início do
processo que acabou por criar a Psicanálise se dá ainda com a colaboração entre
Freud e Breuer, que gerou a publicação “Estudos sobre a histeria”. Em
particular aqui pensamos em Anna O., pseudônimo para a paciente Bertha
Pappenheim, uma mulher que sofria de neurose histérica e cujos sintomas eram:
paralisias, amnésias, convulsões sem base orgânica. Com o uso da hipnose,
Breuer pedia que a paciente falasse sobre a origem de seus sintomas, o que
proporcionava não a cura, mas alívio para os mesmos. Havia, no entanto, a
necessidade não meramente de lembrar ou ser informado dos fatos ocorridos, mas
de vivenciá-los com a mesma emoção original. A este reviver de eventos
traumáticos associados aos sintomas foi dado o nome de “catarse”, fazendo
referência a uma descarga afetiva e muito intensa que permitia que a emoção
reprimida fosse ab-reagida, liberando a mente em conflito.
Tendo estudado com
Charcot e trabalhado em parceria com Breuer, inicialmente Freud adotou para si
o método catártico com o uso de hipnose, mas o substituiu primeiramente pela
técnica de pressão na testa no lugar da hipnose e depois pelo método de
associação livre, visando sempre a evocação de memórias com as respectivas
emoções.
Em 1893, Freud e
Breuer publicaram a “Comunicação preliminar sobre o mecanismo psíquico dos
fenômenos histéricos”, afirmando que os sintomas histéricos eram “ideógenos”:
produzidos por representações psíquicas intoleráveis que, não podendo ser
processadas conscientemente, convertem-se em sintomas somáticos. O
inconsciente, aqui, já aparece como um reservatório de afetos e lembranças
traumáticas que pressionam o corpo quando não descarregados.
Freud tinha
problemas com o uso da hipnose, revelando limitações deste método. Nem sempre
conseguia induzir o paciente ao sono profundo e a catarse gerada era por vezes
de efeito temporários sobre os sintomas. Parecia que o trauma inicial não havia
sido devidamente elaborado no transcorrer do processo de hipnose e catarse.
Isto levou Freud a substituir a técnica de hipnose pela técnica de efetuar com
os dedos pressão na testa do paciente (Drucktechnik), colocando ali a mão e
pedindo que este se lembrasse de tudo que ocorrera em determinada situação de
seu passado. Aqui neste momento temos a paciente Emmy von N. (Fanny Moser), que
durante uma sessão de Freud reclamou do uso desta técnica e pediu que Freud
parasse de a interromper pressionando sua testa e a deixasse falar livremente.
Isto levou Freud a perceber que a interrupção do fluxo natural da fala podia
interferir negativamente no acesso ao material inconsciente, nascendo aqui, na
prática clínica, o método de associação livre: o paciente deve dizer tudo o que
lhe vier à mente, sem censura, julgamento ou direção do analista. Essa técnica
permitia que o inconsciente se manifestasse diretamente através de cadeias
associativas, sonhos, lapsos e sintomas, revelando desejos reprimidos e
conflitos internos.
Isto marca uma
enorme mudança, deixando teoricamente o inconsciente de ser apenas um enorme
depósito de traumas histéricos para tornar-se o núcleo dinâmico de todo o
psiquismo. Freud o descreveu como regido pelo processo primário (condensação,
deslocamento, ausência de lógica temporal), em contraste com o processo
secundário do consciente (lógica, realidade, linguagem). A histeria, os atos
falhos e os sonhos passaram a ser vistos como formações de compromisso entre o
desejo inconsciente e a censura do ego.
No transcorrer
deste processo temos também a descoberta da transferência e da
contratransferência, fenômenos naturais e essenciais ao tratamento
psicanalítico. À medida que os pacientes falavam livremente, começavam a
projetar sobre o analista sentimentos, desejos e conflitos oriundos de relações
passadas (especialmente com figuras parentais). Freud inicialmente viu a
transferência como resistência (um obstáculo à análise), mas logo compreendeu
que era o motor da cura: revivendo esses afetos no presente com o analista, o
paciente podia elaborá-los conscientemente pela primeira vez. Em “Estudos sobre
a histeria”, 1895, e especialmente no “O caso Dora - Fragmentos de uma análise
de histeria”, 1905, Freud descreve a transferência como “um novo sintoma”
criado na relação analítica, mas também como oportunidade de reviver e resolver
conflitos antigos. A contratransferência (os sentimentos inconscientes do
analista em resposta ao paciente) foi reconhecida mais tarde, e Freud alertou
para que o analista a analisasse em si mesmo (autoanálise ou supervisão), para
não interferir no processo. Aqui cabe um aparte pensando nos desenvolvimentos
subsequentes da Psicanálise enquanto técnica clínica, a relação terapêutica
normal e esperada é a transferência por parte do paciente e a
contratransferência por parte do analista, mas nada realmente impede e pode,
sim, ocorrer o inverso, ou seja, a transferência por parte do analista e a
contratransferência por parte do paciente. Esta última questão irá gerar,
futuramente, a necessidade de não somente estudos, mas também treinamento e
análise dos futuros analistas.
Mas não para por
aí, pois, logo na sequência, em 1914, temos uma publicação apresentando e
desenvolvendo o conceito de “narcisismo”, naturalmente desenvolvido a partir
dos conceitos anteriores em análise, como o de inconsciente. Em “Sobre o
narcisismo: uma introdução”, Freud introduz a ideia de que a libido não é
apenas objetal (dirigida a outros), mas pode ser investida no próprio ego
(narcisismo primário, no bebê; e no adulto narcisismo secundário, regressivo).
Isso reformula a teoria da libido: o ego não é apenas mediador entre id e realidade,
mas pode ser objeto de investimento pulsional. O narcisismo explica fenômenos
como megalomania, hipocondria, psicose e o ideal do ego (precursor do
superego). Ele surge como resposta clínica à observação de que muitos pacientes
transferiam afetos narcísicos para o analista, e como resposta teórica à necessidade
de explicar o ego antes da segunda tópica. Também é uma resposta as dissidências
de Adler (1911) e Jung (1913), já que ambos questionavam justamente a constante
presença da sexualidade enquanto energia presente no ego e em todos os
processos vinculados à psique do indivíduo.
Em um primeiro
momento das elaborações de Freud, que vem a marcar o começo da Psicanálise,
temos dois princípios em oposição: o princípio do prazer e o princípio da realidade.
Pelo princípio do prazer temos uma motivação incessante e constante pelo
prazer, mas em confronto com a vida social que cerca este indivíduo, surge
outro princípio vital, que é o princípio da realidade, que por vezes retarda a
obtenção do prazer para evitar um desprazer maior. Não é porque desejamos algo
que o podemos tomar para si, há de se obedecer às regras, leis e convenções
sociais. Mais tarde o confronto entre estes dois princípios dará lugar ao
confronto entre o princípio do prazer e as pulsões de morte (thanatos), que
direcionam o indivíduo para a autodestruição, mas Freud nunca abandonará em sua
teoria a concepção de um “princípio de realidade”.
Esse período
pré-1900 e início do século XX representa o nascimento da Psicanálise como
método e teoria: da catarse hipnótica à associação livre, da transferência como
resistência à transferência como cura, e do narcisismo como expansão da libido
para incluir o ego. Tudo isso emerge da prática médica de Freud, que observava
o inconsciente não como abstração filosófica, mas como força dinâmica revelada
na clínica, uma força que, quando acessada pela fala livre, permite ao sujeito
confrontar e transformar seus conflitos mais profundos.
Freud gostava
bastante dos gregos, de suas obras, teatro e mitologia, daí por vezes suas
escolhas para nomear descobertas teóricas na Psicanálise, como, por exemplo, o
“narcisismo”. Penso ser importante contextualizar, já que isto estava presente
na mente de Freud quando este falava e teorizava sobre o narcisismo.
O mito de Narciso
possui duas versões na história, duas variações clássicas e ambas corretas. O
termo “narcisismo”, cunhado por Freud em 1914 no ensaio “Sobre o narcisismo:
uma introdução”, toma emprestado diretamente do mito grego de Narciso, cuja
narrativa mais conhecida vem das “Metamorfoses”, de Ovídio (cerca de 8 d.C.),
mas que possui raízes helenísticas e variações orais mais antigas (século
VIII–IV a.C.). O mito reflete temas eternos de hybris (arrogância humana), eros
(desejo impossível) e punição divina, e serve como alegoria perfeita para o
investimento libidinal no próprio ego.
Na versão mais
difundida (Ovídio, “Metamorfoses”, livro III), Narciso, belo jovem filho do
deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope, rejeita cruelmente todos os pretendentes,
incluindo a ninfa Eco. Eco, amaldiçoada por Hera a repetir apenas as últimas
palavras alheias, persegue Narciso apaixonadamente pelas florestas da Beócia,
mas é rejeitada com frieza. Desesperada, definha até restar apenas sua voz, o
eco que ainda hoje ressoa nas montanhas. Como retribuição pela hybris de
Narciso, a deusa Nêmesis faz com que ele se apaixone por sua própria imagem
refletida em uma fonte cristalina. Incapaz de tocar ou possuir o “outro” que é
ele mesmo, Narciso consome-se de desejo até morrer, transformando-se na flor
narciso, de cabeça pendente, símbolo de vaidade e beleza efêmera.
Em uma variação
menos comum, presente em fragmentos helenísticos e tradições orais, os papéis
se invertem: Narciso é atingido por uma seta de Eros (ou Afrodite) e passa a
perseguir intensamente uma ninfa (geralmente Eco ou outra ninfa do bosque). A
ninfa, aterrorizada, foge e implora ajuda aos deuses (ou a Ártemis, protetora
da castidade). Em resposta, ela é transformada em uma planta ou arbusto que se
esconde no solo, escapando assim do desejo obsessivo de Narciso. Como punição
pela perseguição cruel e pela hybris erótica, Nêmesis, ou Afrodite, condena
Narciso a se apaixonar por seu próprio reflexo na água, novamente um amor
impossível que o leva à morte e à metamorfose na flor narciso.
Em ambas as
versões, o desfecho é idêntico: Narciso morre consumido por um desejo
narcísico, incapaz de sair de si mesmo. Essa dualidade mitológica (perseguidor
ou perseguido) ilustra a ambivalência do desejo: seja rejeitando o outro ou
perseguindo-o, o excesso de hybris leva à autodestruição. Freud, ao introduzir
o narcisismo como investimento libidinal no ego (primário no bebê, secundário
em regressões ou psicoses), encontrou nesse mito uma metáfora precisa para o
ego que se torna objeto de seu próprio amor, isolando-se do mundo externo e
pagando o preço da ilusão. Essa narrativa mitológica, com suas variações, nos
proporciona ampliar a compreensão do narcisismo freudiano como fenômeno ao
mesmo tempo universal e patogênico, ecoando a tensão entre desejo e realidade
que permeia toda a Psicanálise.
5- Primeira tópica
do aparelho psíquico (inconsciente, pré-consciente, consciente) 1900 até 1923
A primeira tópica
do aparelho psíquico foi desenvolvida e adotada na clínica por Freud entre 1900
e 1923, quando tivemos o acréscimo da segunda tópica. Detalhe que a partir de
1923 com a segunda tópica, não temos um abandono ou substituição da primeira,
mas sim um convívio entre ambas, predominando as explicações decorrentes da
segunda tópica.
Aqui temos o
primeiro modelo sistemático do aparelho psíquico apresentado por Freud. Esse
framework, também chamado de "topografia do psiquismo" ou
"teoria dos sistemas", divide a mente em três instâncias
interconectadas: inconsciente, pré-consciente e consciente. Ele surge como uma
evolução natural das descobertas iniciais sobre histeria, sonhos e atos falhos,
permitindo explicar não só as neuroses, mas o funcionamento geral da psique
humana como um campo de forças dinâmicas, conflituosas e energéticas.
Freud introduz
essa tópica de forma mais elaborada em "A interpretação de sonhos",
1900, onde a descreve como uma "geografia" do mental, com barreiras e
fluxos de energia psíquica. Até 1923, quando a segunda tópica (id, ego,
superego) a complementa e reformula, essa estrutura serve como base para a
metapsicologia freudiana, enfatizando o inconsciente como o verdadeiro
protagonista do comportamento, das patologias e da criatividade.
O consciente (Cs.,
ou Bewusstsein em alemão) é a instância mais superficial e acessível do
aparelho psíquico, correspondendo ao que o sujeito percebe e pensa no momento
presente. Freud o compara a uma "sala de recepção" ou ao
"sistema percepção-consciência" (Pcpt.-Cs.), onde estímulos externos
e internos são registrados e processados de forma lógica e adaptada à realidade.
Aqui reina o processo secundário: pensamento racional, linguagem organizada,
consideração do tempo, da negação e das contradições. O consciente não é um
depósito fixo, mas um estado transitório, o que é consciente agora pode não ser
daqui a pouco. Em obras como "A psicopatologia da vida cotidiana",
1901, Freud mostra que mesmo o consciente é permeado por infiltrações
inconscientes, como lapsos verbais ou esquecimentos, revelando que ele é apenas
a ponta visível de um iceberg psíquico. Clinicamente, o consciente é o ponto de
partida da análise: o paciente relata sintomas ou sonhos conscientemente, mas a
cura exige ir além dele.
Logo abaixo, o
pré-consciente (Pcs., ou Vorbewusstes) atua como uma zona intermediária, um
"guarda-roupa" de memórias, conhecimentos e representações que não
estão ativas no momento, mas podem ser acessadas com esforço mínimo, como
lembrar um nome esquecido ou uma fórmula matemática. Esse sistema é regido por
regras semelhantes ao consciente (processo secundário), mas serve como barreira
protetora contra o inconsciente. Freud enfatiza que o pré-consciente contém
conteúdos latentes, prontos para se tornarem conscientes, como vocabulário ou
habilidades aprendidas. Em "Os chistes e sua relação com o
inconsciente", 1905, ele ilustra como o pré-consciente media o humor:
permite a liberação controlada de energia psíquica, transformando desejos
reprimidos em prazer aceitável. O pré-consciente é crucial para a adaptação
social e intelectual, mas também para a resistência: muitos pacientes
"sabem" inconscientemente algo, mas o mantêm pré-consciente para
evitar confronto.
O coração da
primeira tópica é o inconsciente (Ucs., ou Unbewusstes), o sistema mais
profundo e dinâmico, que Freud descreve como um "caldeirão fervente"
de desejos, traumas e representações reprimidas. Regido pelo processo primário,
caracterizado por condensação (fusão de ideias - metáfora), deslocamento
(transferência de afetos - metonímia), ausência de lógica temporal ou negação,
e busca imediata de prazer, o inconsciente é inacessível diretamente, mas se
manifesta indiretamente através de sonhos, sintomas neuróticos, parapraxias e
chistes.
Freud distingue
dois tipos de inconsciente: o descritivo (tudo o que não é consciente) e o
dinâmico (o recalcado ativamente, que exerce pressão constante para retornar).
O recalque (Verdrängung) é o mecanismo chave aqui: representações intoleráveis
(geralmente sexuais ou agressivas) são empurradas para o inconsciente pela
censura (uma "guarda de fronteira" entre pré-consciente e
inconsciente), mas elas não desaparecem, transformam-se em sintomas ou
formações de compromisso. Em "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade",
1905, Freud liga o inconsciente à libido infantil, mostrando que desejos
edípicos reprimidos formam o núcleo das neuroses.
Em Freud, não
existe diferença conceitual substancial entre "repressão" e
"recalque", ambos traduzem o mesmo termo alemão Verdrängung (o
mecanismo central de defesa do psiquismo). A aparente distinção surge quase
exclusivamente da variabilidade nas traduções para o português, e não de uma
oposição teórica no pensamento freudiano. Em alemão: Verdrängung, literalmente
"empurrar para o lado", "desalojar" ou "afastar"
algo incômodo, com conotação de sufocamento ou incômodo que leva o sujeito a
"empurrar" para fora da consciência. Em inglês (Standard Edition,
Strachey): repression (escolha que influenciou as primeiras traduções
brasileiras via inglês). Em português: Recalque (preferido nas traduções mais
recentes e diretas do alemão). Repressão (usado em traduções antigas, ou em
contextos mais gerais). Às vezes recalcamento (variação menos comum, mas
presente em alguns textos para enfatizar o aspecto de "construção" ou
"fundação" do inconsciente). Freud usa Verdrängung de forma
consistente ao longo de sua obra (especialmente nos textos metapsicológicos de
1915, como "O Recalque" / "Die Verdrängung" e "O
Inconsciente"). Ele não faz distinção terminológica entre dois processos
diferentes, o que varia é o tradutor, não Freud. Como os termos são sinônimos
para o mesmo conceito, conteúdo reprimido e conteúdo recalcado significam
exatamente a mesma coisa.
Essa tópica surge
no contexto histórico da virada do século: Freud, influenciado por Charcot e
Breuer, mas superando-os, usa a interpretação dos sonhos como "via
régia" ao inconsciente, argumentando que o conteúdo latente (inconsciente)
se disfarça no manifesto (pré-consciente/consciente) para burlar a censura. Até
1923, ela é aplicada em textos como "Além do princípio do prazer",
1920, onde Freud introduz a pulsão de morte, mas ainda dentro da topografia
inicial. Clinicamente, a primeira tópica orienta a análise: o objetivo é tornar
consciente o inconsciente, através da associação livre e da elaboração de
resistências, liberando energia pulsional presa e aliviando sintomas.
No entanto, Freud
reconhece limitações: a tópica é mais descritiva que estrutural, não explica
bem o ego como instância ativa nem a angústia como sinal de perigo (o que leva
à segunda tópica). Ainda assim, ela permanece fundamental, pois revela o
psiquismo como campo de conflito, onde o inconsciente não é mero caos, mas uma
fonte criativa e patogênica que molda a personalidade. Essa visão revolucionou
a psicologia, filosofia e cultura, mostrando que o sujeito não é senhor em sua
própria casa, o inconsciente governa, e a consciência é apenas um visitante
temporário.
6- Segunda tópica
do aparelho psíquico (id, ego, superego) 1923 em diante
O humano é um ser
em conflito constante e isto se apresenta mesmo na formação de sua estrutura
psíquica. Inicialmente somos todos “id”, ou seja, um polo pulsional desejante e
cujo conteúdo se manifesta independente de convenções sociais sobre o que seja
certo, errado ou socialmente permitido ou proibido, o que causa desgaste e
conflitos internos ao indivíduo. A partir do id, se desenvolve o ego em contato
com o mundo circundante. Enquanto o id é formado por pulsões/impulsos (Trieb),
o ego mostra-se como resultante do contato destas pulsões com o mundo que
rodeia o sujeito. Mediando ambos e a partir da introjeção do pai, que
socialmente é o introdutor da lei, surge o superego. O superego é o “não devo”,
“não posso”, “não quero”, barrando e adaptando o conteúdo proveniente do id em
relação ao social. O sujeito é soma do ego, id e superego, sendo errado
associar o “eu” ao “ego”, já que o “eu” da pessoa é mais amplo que o “ego”,
somente uma de três hipotéticas instâncias psíquicas que compõem o sujeito.
A adoção da
segunda tópica, formada por id, ego e superego (Ich, Es e Überich), não
significou o abandono da primeira tópica, formada por inconsciente,
pré-consciente e consciente, convivendo as duas nos escritos posteriores de
Freud. A segunda tópica freudiana, introduzida principalmente em “O ego e o id”,
1923, e desenvolvida em obras subsequentes como “O problema econômico do
masoquismo”, 1924, “Inibições, sintomas e angústia”, 1926, e as “Novas
conferências introdutórias sobre Psicanálise”, 1933, representa uma
reformulação estrutural mais profunda do aparelho psíquico. Diferentemente da
primeira tópica (inconsciente, pré-consciente e consciente), que era
essencialmente topográfica e funcional, a segunda é estrutural: divide a mente em
três instâncias ou “províncias” (id, ego e superego) que interagem
dinamicamente como agências psíquicas com funções específicas, origens
distintas e conflitos constantes. Essa mudança surge de necessidades clínicas e
teóricas: Freud percebeu que a primeira tópica não explicava bem a resistência
do ego, a angústia como sinal de perigo, nem a origem do sentimento moral e da
culpa. Como médico pragmático, ele não abandonou o inconsciente dinâmico, mas o
reorganizou em termos de forças ativas, herdadas biologicamente e moldadas pela
experiência.
O id (das Es, em
alemão; “o isso”, em português) é a instância mais primitiva e central do
psiquismo. Freud o descreve como o “caldeirão de excitações”, o grande
reservatório de pulsões onde se misturam as pulsões de vida (Eros, ligadas à
sexualidade, conservação e união) e as pulsões de morte (Thanatos, ligadas à
destruição, agressão e retorno ao inorgânico). Freud descreve o id como o
"polo pulsional" do psiquismo (em "O ego e o id", ele o
chama de "grande reservatório de libido", onde pulsões de vida/sexual
[Eros] e de morte/destrutivas [Thanatos] se misturam caoticamente). O id é
anterior à linguagem, à lógica e à realidade: rege-se exclusivamente pelo
processo primário (condensação, deslocamento, ausência de lógica temporal,
negação e contradição), busca satisfação imediata e absoluta (princípio do
prazer absoluto), sem consideração pelo mundo externo. Sempre inconsciente em
sua essência, "o id é o psíquico propriamente dito, desconhecido e
inconsciente" (Freud, 1923).
O id em si é
sempre inconsciente; seus conteúdos propriamente ditos (representações
pulsionais puras) não acessam a consciência. No entanto, derivados do id
(impulsos, desejos, afetos) podem migrar para o ego, tornando-se
pré-conscientes ou conscientes, seja em sonhos, sintomas neuróticos, fantasias
ou escolhas de vida. É exatamente essa passagem que gera neuroses quando o ego
falha em mediar ou recalcar adequadamente esses conteúdos pulsionais. Cabe
diferenciar o id propriamente dito (o polo pulsional, sempre inconsciente) dos
conteúdos oriundos do id, que podem migrar para o pré-consciente e o
consciente. Freud é explícito nisso: o id não é um "depósito selado",
mas uma fonte dinâmica que "envia" representações pulsionais ao ego
para processamento. Em "Novas conferências introdutórias sobre Psicanálise",
1933, ele afirma que "partes do id podem se tornar pré-conscientes ou
conscientes através do ego", especialmente via sonhos, sintomas ou
associações livres, onde o conteúdo pulsional é "domesticado" pela linguagem
e pela realidade. Por exemplo, um desejo sexual do id pode se manifestar como
uma fantasia consciente ou uma neurose obsessiva (onde o ego luta para
contê-lo), influenciando escolhas de vida, como parcerias amorosas regidas pelo
complexo de Édipo ou repetições compulsivas ligadas à pulsão de morte. Como
médico, Freud via isso clinicamente: neuroses surgem quando o ego falha em
mediar esses conteúdos id-ílicos, levando a sintomas somáticos ou
comportamentais (ex.: histeria de conversão, onde uma pulsão sexual recalcada
se converte em paralisia). Isso não contradiz a inconsciência essencial do id;
apenas mostra que seus derivados (representantes pulsionais) podem ser
acessados e trabalhados na análise.
Como médico, Freud
o concebe como uma herança biológica filogenética, ligada ao soma (corpo),
impulsionando o organismo para a satisfação imediata sem mediação cultural ou
racional. Podemos fazer uma analogia com a energia elétrica, imaginando o id
como uma tomada na parede na qual podemos ligar diversos aparelhos elétricos. O
id fornece a "corrente" pulsional bruta, sem forma ou direção, e a
libido é o "combustível" (energia psíquica investida em objetos ou
representações), mas o id em si não é consciente nem linguístico; é instintual,
caótico e impessoal, como uma força natural.
Outra coisa
importante a destacar é que a formação de Freud foi feita em Medicina e não em
Filosofia. Filósofos geralmente são muito meticulosos e específicos com relação
aos termos que usam, seus conceitos, significados, área de atuação e princípios
lógicos, o que não é o caso aqui. Provavelmente um filósofo definiria o id
somente como sendo um polo energético pulsional e que como tal jamais sairia do
inconsciente, justamente por ser anterior a linguagem. Mas este não é o caso
para Freud, que nos fala de conteúdos do id ocupando lugar no pré-consciente e
no consciente. A preocupação de Freud aqui é eminentemente clínica, descritiva,
pragmática, e não filosófica ou lógica. Como Freud era médico e não filósofo, o
id não deve ser entendido como um abismo ontológico ou linguístico
irrepresentável (como em algumas leituras francesas, especialmente lacanianas,
onde o “ça” é o Real traumático fora da simbolização). Pelo contrário, é uma
força biológica dinâmica, uma herança filogenética ligada ao soma (corpo), semelhante
a uma “tomada de energia” bruta abastecida pela libido, uma energia pulsional
quantitativa que impulsiona o organismo para a descarga.
Penso que uma
leitura de Lacan e outros franceses pode ter interpretado mais filosoficamente
alguns conceitos de Freud, em particular penso na segunda tópica. O problema
ocorre se entendo o "id" como polo pulsional anterior a linguagem, pois
então este será sempre inconsciente e nada mais. Um filósofo poderia entender
assim, mas Freud era médico. Nos textos de Freud temos conteúdo do "id"
chegando ao pré-consciente e ao sistema consciente. Então, posso afirmar que o id
enquanto polo pulsional, atua a semelhança da energia elétrica que abastece uma
tomada na qual será ligado algum aparelho elétrico, só que neste caso, a tomada
se encontra no grande reservatório das pulsões sexuais (libido) e destrutivas,
da qual temos o id enquanto um polo pulsional sexual (prazer, sem linguagem,
inconsciente). Mas, enquanto conteúdos oriundos do id, estes podem se tornar
pré-conscientes e mesmo conscientes, sendo inclusive motivo de neuroses e
escolhas de vida da pessoa. Na metáfora por nós aqui utilizada, a energia
elétrica provinda da tomada (Eros, Thanatos) permite fazer funcionar diversos e
distintos aparelhos (sonhos, psicopatologia da vida cotidiana, chistes, escolha
do parceiro afetivo-sexual, escolha da profissão e dos hobbies, desenvolvimento
de neuroses e sintomas específicos, etc.), se bem que não veja a energia da
tomada diretamente, vejo claramente todos os aparelhos que dela dependem para
funcionar.
O id é o
"motor biológico" inconsciente, fornecedor de energia pulsional via
libido, mas seus conteúdos não ficam isolados, eles vazam, se transformam e
impactam o consciente, gerando tanto sofrimento neurótico quanto criatividade
vital. Temos leituras filosóficas como a de Lacan, que enfatizam o id como
abismo linguístico irrepresentável, mas Freud, pragmático, o trata como uma
força tratável na clínica.
O ego (das Ich, “o
eu”) é a instância mediadora, nascida a partir do id, mas modificada pelo
contato com a realidade externa. Freud o compara a um “cavaleiro sobre seu
cavalo” (o id): fraco em energia própria, mas capaz de dirigir as forças
pulsionais para fins adaptativos. O ego é regido pelo princípio da realidade:
adia a satisfação, testa a realidade, considera consequências, usa linguagem e
pensamento lógico (processo secundário). Ele surge do sistema
percepção-consciência da primeira tópica e incorpora partes do pré-consciente.
O ego é parcialmente consciente (o que vulgarmente chamamos de “eu”), mas
também contém defesas inconscientes (recalque, negação, projeção etc.). Sua
função principal é negociar entre as demandas do id (prazer imediato), as
exigências externas (realidade) e as imposições morais do superego. Quando o
ego é fraco ou sobrecarregado, surgem sintomas neuróticos; quando forte,
permite sublimação e criatividade, onde encontramos a saída saudável deste
dilema.
O superego (das
Über-Ich, “o supra-eu”) é a terceira instância, formada pela internalização das
figuras parentais e das normas culturais durante a resolução do complexo de
Édipo (por volta dos 5-6 anos). Freud o descreve como o herdeiro do complexo de
Édipo: o ego introjeta as proibições e ideais parentais, criando uma instância
crítica interna que impõe moralidade, culpa e ideal de ego. O superego é em
grande parte inconsciente e pode ser severo (gerando masoquismo moral,
depressão melancólica) ou idealizado (narcisismo secundário). Ele representa a
cultura dentro do indivíduo, mas também pode ser patogênico quando
excessivamente punitivo. Freud nota que o superego herda traços agressivos do id,
o que explica fenômenos como o sentimento de culpa irracional ou o masoquismo.
A interação entre
as três instâncias é conflituosa: o id pressiona por descarga imediata, o ego
media e adapta, o superego pune ou exalta. A angústia, revisada em 1926, deixa
de ser apenas resultado de libido reprimida (primeira teoria) e passa a ser um
sinal de perigo emitido pelo ego quando percebe ameaça do id, do superego ou da
realidade externa. Essa segunda tópica permite uma compreensão mais integrada
da personalidade: neuroses como conflitos entre ego, id e superego; melancolia
como identificação com objeto perdido no superego; psicose como colapso do ego
frente ao id.
Em síntese, a
segunda tópica marca a maturidade da teoria freudiana: do médico que observava
sintomas para o pensador que descreve a estrutura interna do sujeito como campo
de forças biológicas, relacionais e culturais. Ela não é uma ruptura com a
primeira tópica (o inconsciente dinâmico permanece), mas uma complementação
estrutural que explica melhor a resistência, a culpa e a angústia. Embora
leituras posteriores (como as lacanianas) tendam a filosofar o id como abismo
linguístico, Freud mantém uma visão pragmática e clínica: o id é uma força
pulsional biológica, seus conteúdos vazam e influenciam a vida consciente, e a
análise visa fortalecer o ego para que ele possa mediar melhor esse conflito
eterno.
“Wo Es war, soll
Ich werden” (“Onde id era, ego deve advir”).
7- A interpretação
de sonhos e sobre os sonhos
Nos sonhos e no
trabalho terapêutico de os interpretar em busca de seu significado oculto,
vinculado ao inconsciente na primeira tópica e a relação entre id, ego e
superego na segunda tópica, temos dez pontos (de “a” à “j”) que se fazem
presentes e cabe aqui explicar.
a- Associação
livre (método de interpretar e decifrar sonhos)
A associação livre
é o método psicanalítico por excelência. Por meio deste método se pode buscar a
interpretação dos sonhos do paciente. Consiste em deixar o paciente narrar o
seu sonho e depois divagar sobre os conteúdos do mesmo, falando aberta e livremente
tudo que lhe vier à mente.
b- Conteúdo
manifesto e latente
Quando o paciente
narra o sonho para o terapeuta, esta narrativa é o conteúdo manifesto, que
esconde o conteúdo latente. Semelhante a narrar um filme que vimos no cinema,
no qual os personagens ali presentes escondem as verdadeiras histórias, dramas,
dores e prazeres dos atores que os representam.
c- Elaboração
onírica ou trabalho do sonho
É por meio da
elaboração onírica ou trabalho do sonho que conteúdos provindos do inconsciente
são mascarados e emaranhados a ponto de não serem facilmente inteligíveis para
a pessoa que teve o sonho. Alguns temas podem ficar sobrepostos e vários temas
vinculados aos desejos inconscientes podem estar presentes em uma única
representação onírica.
d- Realização de
um desejo
Segundo Freud,
todo sonho é a realização de um desejo tido no inconsciente ou mesmo no sistema
consciente-pré-consciente. Alguns desejos são óbvios, quando mais próximos do
consciente, outros, provindos do inconsciente profundo, necessitam de um
processo de análise e interpretação para serem devidamente compreendidos.
e- Guardião do
sono
O sonho nos ajuda
a dormir, permitindo incorporar sensações externas desagradáveis (calor, frio,
picada de mosquito, sons, etc.) ao sonho e, deste modo, manter o sujeito
dormindo.
f- Censura
Nem tudo que há
nos sonhos deve chegar à consciência, pois, há interditos de toda espécie e
certos conteúdos, mesmo se desejos, seriam por demais desagradáveis se
deixassem de ser ocultos, daí a necessidade de uma censura, que, em alguns
casos, pode inclusive levar o sujeito a acordar repentinamente se um conteúdo
indesejado está prestes a se manifestar.
g- Condensação
(metáfora)
Vários temas podem
ser condensados em uma única representação, a semelhança da metáfora. Deste
modo, uma mesma imagem pode ser interpretada corretamente como sendo várias
coisas distintas.
h- Deslocamento
(metonímia)
O processo de
deslocamento faz com que a energia seja desviada de um ponto para outro e nos
lembra nitidamente a metonímia. Posso me referir a parte para fazer alusão ao
todo.
i- Procura do
prazer ocasionada pela libido
A libido é o
grande reservatório das pulsões sexuais, energia que comanda a nossa vida. Por
meio desta energia buscamos constantemente o prazer na realização de desejos
provindos do id em nossos sonhos. Claro que esta busca de prazer, associada ao
princípio do prazer, esbarra por vezes no princípio de realidade, tendo de ser
suspensa ou re-direcionada para outro móvel, evitando assim um desprazer maior.
j- Compulsão à
repetição – Pulsões de morte
A partir do ano de
1920 Freud introduz a ideia de pulsões de morte ou auto-destrutivas, associadas
à compulsão à repetição. Freud teoriza que já que toda a matéria orgânica foi
originada da matéria inorgânica, haveria uma tendência inconsciente de retorno
da matéria orgânica a matéria inorgânica original. O que explicaria
comportamentos auto-destrutivos, como, por exemplo, o suicídio, ou mesmo,
sonhos nos quais não se consegue por meio da análise descobrir qualquer
significado associado ao prazer, às pulsões sexuais e de vida (Eros).
Os livros “A
interpretação de sonhos” e “Sobre os sonhos” são duas obras complementares que
representam o coração da descoberta freudiana do inconsciente e o marco
inaugural da psicanálise como ciência autônoma. Elas surgem no contexto de uma
virada decisiva na vida e na produção intelectual de Freud, entre o final do
século XIX e o início do XX, quando ele abandona definitivamente a hipnose e a
catarse em favor da associação livre, e coloca os sonhos como a “via régia”
para o acesso ao inconsciente.
A obra “A
Interpretação de Sonhos” (Die Traumdeutung, 1900) foi publicada em novembro de
1899, mas datada de 1900 pela editora, a fim de marcar o novo século. “A
Interpretação de Sonhos” é considerada por Freud sua obra mais importante e
original. O livro nasce de um período de intensa autoanálise desencadeada pela
morte do pai, Jacob Freud, em 1896, e pela ruptura com Josef Breuer. Freud
mergulhou em seus próprios sonhos, analisando-os sistematicamente, e percebeu
que eles revelavam desejos inconscientes disfarçados. O contexto era de
isolamento profissional: suas ideias sobre sexualidade infantil e histeria eram
rejeitadas pela comunidade médica vienense, e ele se sentia sozinho em sua
exploração do inconsciente. O livro reflete essa solidão criativa. Freud o
escreveu em grande parte durante noites de insônia, fumando charutos, e o
dedicou à memória do pai.
O conteúdo central
pode ser resumido em três teses revolucionárias: 1- O sonho é a realização
disfarçada de um desejo inconsciente. Freud inverte a visão comum de que os
sonhos são aleatórios ou proféticos: para ele, todo sonho é uma tentativa de
satisfação alucinatória de um desejo reprimido, especialmente sexual ou
agressivo, que não pode ser realizado na vigília. 2- Distinção entre conteúdo
manifesto e conteúdo latente. Conteúdo manifesto: o que o sonhador lembra ao
acordar. É a narrativa aparente, muitas vezes absurda ou fragmentada. Conteúdo
latente: os pensamentos inconscientes verdadeiros, ocultos pela censura. A
transformação do latente em manifesto ocorre pelo “trabalho do sonho”
(Traumarbeit). 3- Mecanismo do trabalho do sonho. Freud descreve quatro
processos principais: A- Condensação: fusão de várias ideias em uma única
imagem. B- Deslocamento: transferência de afeto de uma representação importante
para outra menos ameaçadora. C- Simbolização: uso de símbolos (muitos sexuais)
para representar desejos proibidos. D- Elaboração secundária: organização
racional do sonho para torná-lo coerente ao acordar.
O livro inclui
centenas de sonhos (do próprio Freud e de seus pacientes), analisados em
detalhes, e culmina na famosa frase: “A interpretação dos sonhos é a via régia
para o conhecimento do inconsciente”. Clinicamente, Freud mostra que
interpretar sonhos permite acessar desejos recalcados, conflitos edípicos e traumas,
aliviando neuroses. A recepção inicial foi fria: vendeu apenas 351 cópias nos
primeiros seis anos. No entanto, com o tempo, tornou-se um clássico,
influenciando psicologia, literatura, arte e cinema.
O livro “Sobre os
sonhos” (Über Träume, 1901) foi publicado em 1901 como um texto mais curto e
acessível (cerca de 80 páginas). “Sobre os sonhos” é uma síntese didática das
ideias de “A Interpretação de Sonhos”. Freud o escreveu para um público leigo,
como parte da coleção “Grenzfragen des Nerven- und Seelenlebens” (Questões limítrofes
da vida nervosa e anímica). O contexto era o desejo de popularizar suas
descobertas após o fracasso comercial do livro maior. Ele queria demonstrar que
a teoria dos sonhos não era especulativa, mas baseada em observação clínica e
autoanálise. O editor de “A interpretação de sonhos” não gostou da iniciativa,
já que este “resumo” da obra maior poderia impactar negativamente nas vendas da
primeira obra.
O conteúdo de
“Sobre os sonhos” é mais direto e pedagógico. Resume a tese central: o sonho
como realização de desejo disfarçada. Explica os mecanismos de condensação,
deslocamento, simbolização e censura de forma simplificada, com exemplos
cotidianos. Enfatiza o papel do “guardião do sono” que distorce o desejo para
permitir o sono (a censura) e incorpora elementos internos e externos ao
indivíduo na elaboração do sonho. Aborda a realização de desejos infantis e a
ligação com a sexualidade reprimida. Inclui breves menções à compulsão à repetição
e à pulsão de morte (embora esses conceitos sejam desenvolvidos mais tarde, em
1920, Freud já os antecipa em reflexões sobre sonhos traumáticos).
O livro “Sobre os
sonhos” funciona como uma “introdução amigável” ao universo freudiano: mais
leve que o livro de 1900, mas fiel às ideias centrais. É uma ponte perfeita
para leitores iniciantes, e Freud o usa para reforçar que os sonhos não são
aleatórios, mas revelam o inconsciente de forma estruturada.
Ambas obras surgem
no momento em que Freud consolida a psicanálise como método: após o abandono da
hipnose (por volta de 1896-1899) e a adoção da associação livre. Elas marcam o
abandono definitivo da neurologia especulativa (como no “Projeto”, de 1895) em
favor de uma psicologia do inconsciente dinâmico. Juntas, estabelecem os
pilares da teoria freudiana: a- O inconsciente é ativo e intencional. b- O
desejo (especialmente sexual) é o motor do psiquismo. c- A censura e o disfarce
protegem o sono e a consciência. d- A análise pode tornar consciente o
inconsciente. Essas obras não são apenas teóricas: elas mudaram a forma como o
Ocidente entende a mente, influenciando desde a literatura modernista (no
estilo de Joyce e Kafka) até a terapia contemporânea. Para Freud, os sonhos
eram a prova irrefutável de que o sujeito não é senhor em sua própria casa,
pois, o inconsciente governa, e a interpretação revela suas leis ocultas.
8- Parapraxias,
atos falhos – A psicopatologia da vida cotidiana (1901)
Freud entende que
os esquecimentos corriqueiros, quando não lembramos um nome bem conhecido, ou
um lugar que visitamos, ou algo que deveríamos fazer agora, etc. são
manifestações de nosso inconsciente. Mas isto não ocorre somente com lapsos de
linguagem e sim com diversos outros atos falhos ou mesmo comportamentos tidos
inicialmente como inocentes. Freud narra um encontro entre ele e um casal em um
restaurante, sem ser notado ao chegar no restaurante, notou que o casal já
ocupava a mesa e que o homem havia colocado seu sobretudo na cadeira em que
Freud deveria sentar. Freud entendeu que por seu lugar estar ocupado, sua
presença naquele momento não era bem vinda e este se retirou do estabelecimento
sem se encontrar com o casal.
Nada acontece por
acaso no tocante ao nosso comportamento. Tudo o que fazemos é rigidamente
determinado por mecanismos inconscientes que atuam em nosso psiquismo, desde a
escolha da profissão, do par amoroso-sexual, dos amigos e inimigos, das
escolhas mais importantes e também das mais corriqueiras em nossa vida o
inconsciente está atuando sempre. Quando intencionamos fazer algo
conscientemente e fazemos algo outro “sem o querer”, em verdade, isto que
fizemos foi determinado por mecanismos inconscientes, pelas pulsões provindas
do id e pela atuação dos mecanismos de defesa que nos impedem de ter acesso a
conteúdos que seriam inaceitáveis em nossa vida consciente.
O livro “A
Psicopatologia da Vida Cotidiana” (Zur Psychopathologie des Alltagslebens),
publicado em 1901 (com edições ampliadas nos anos seguintes), é uma das obras
mais acessíveis e populares de Sigmund Freud. Ela surge logo após “A
Interpretação de Sonhos”, 1900, e representa uma aplicação brilhante da teoria
do inconsciente à vida normal, cotidiana, mostrando que o inconsciente não se
manifesta apenas em neuroses graves ou sonhos, mas em falhas aparentemente
triviais do dia a dia. Freud cunha o termo parapraxias (ou “atos falhos”;
Fehlleistungen em alemão) para descrever esses lapsos que, longe de serem erros
aleatórios, revelam desejos, conflitos ou intenções inconscientes. O livro foi
escrito em um momento de consolidação teórica: Freud já havia abandonado a
hipnose, a catarse com indução hipnótica e a técnica de pressão sobre a testa,
adotando como método a associação livre e começava a ver o inconsciente como
uma força ativa em todos os indivíduos, não só nos neuróticos.
Freud escreveu “A psicopatologia
da vida cotidiana” em um período de relativa estabilidade pessoal, após o
sucesso inicial de suas ideias entre um pequeno círculo de discípulos (como
Wilhelm Fliess e os primeiros membros da Sociedade Psicológica das
Quartas-Feiras). O livro nasceu de observações acumuladas em sua prática
clínica com seus pacientes neuróticos e em sua própria vida, já que Freud era
um observador incansável de seus lapsos, esquecimentos, erros, enfim, atos
falhos em geral. Ele o publicou em uma coleção popular, visando demonstrar que
a Psicanálise não era uma teoria esotérica reservada a doentes mentais, mas uma
chave para entender o funcionamento mental de qualquer pessoa. A obra, ao
contrário do que ocorrera com “A interpretação de sonhos”, vendeu bem e
contribuiu muito para a difusão inicial da Psicanálise, pois seus exemplos eram
divertidos, relacionáveis e baseados em situações comuns que as pessoas viviam
corriqueiramente.
As parapraxias, ou
atos falhos, são entendidas por Freud como sendo janelas para o inconsciente,
que nos permitem vislumbrar o conteúdo escondido de nós mesmos, mas que se faz
constantemente presente em nossas vidas diárias. Freud argumenta que os atos
falhos não são meros acidentes, mas “formações de compromisso” entre um impulso
inconsciente e a intenção consciente. Quando o desejo reprimido é forte o
suficiente para romper a censura, ele se expressa em um lapso que parece
inocente, mas carrega um significado oculto.
Os principais
tipos de parapraxias analisados no livro incluem os esquecimentos comuns, os
lapsos verbais, os erros de leitura e escrita, gestos ou comportamentos, perdas
ou extravios.
Esquecimentos
(Vergessen): Freud mostra que esquecemos nomes, compromissos ou objetos
exatamente quando há uma associação desagradável ou conflituosa. Exemplo
clássico: o esquecimento do nome de um pintor (Signorelli) durante uma conversa
sobre a morte e a sexualidade. O nome reprimido era ligado a “Herr” (senhor) e
“Tod” (morte), revelando angústia diante da finitude e da castração.
Lapsos verbais
(Versprechen): Palavras trocadas, frases ditas de modo errado ou trocadilhos
involuntários. Freud coleta centenas de exemplos, como alguém que diz “Eu o
odeio” em vez de “Eu o amo”, revelando hostilidade inconsciente. Outro
clássico: “Eu não consigo pensar em nada” (em vez de “Eu consigo pensar em
tudo”), mostrando resistência à associação livre.
Erros de leitura e
escrita (Lesen und Schreiben Fehlleistungen): Ler errado uma palavra (ex.:
“preço” em vez de “prazo”) ou escrever algo que trai um desejo (ex.: assinar
com o nome de uma ex-namorada).
Ações sintomáticas
(symptomatische Handlungen): Gestos ou comportamentos automáticos que traem
intenções ocultas, como jogar fora um objeto importante ou tocar repetidamente
um anel de casamento durante uma conversa sobre fidelidade.
Perdas e extravios
(Verlieren und Verlegen): Perder chaves, óculos ou presentes justamente quando
há conflito emocional associado ao objeto.
Freud explica
esses fenômenos pelo mesmo mecanismo dos sonhos: o inconsciente aproveita um
momento de enfraquecimento da atenção consciente para “escapar” e realizar um
desejo disfarçado. O ato falho é, assim, uma realização parcial de desejo, o
sujeito diz ou faz algo que queria, mas que a censura impede na forma direta.
Esta obra e
conceito é de suma importância clínica e teórica dentro do arcabouço da
Psicanálise, pois, revela a atuação constante do inconsciente em nossa vida
diária. A obra “A Psicopatologia da Vida Cotidiana” é revolucionária porque
democratiza o inconsciente: ele não é exclusividade de doentes mentais, mas
opera em todos nós, na vida cotidiana. Isso reforça a tese central da Psicanálise
que afirma que o sujeito não é senhor em sua própria casa, e mostra que o
normal e o patológico estão em continuidade. Clinicamente, os atos falhos
servem como material inicial para a análise: o paciente ri de um lapso, mas ao
associar livremente, revela desejos recalcados, conflitos edípicos ou
agressividade reprimida.
O livro também
antecipa temas posteriores: a libido como energia que investe objetos e
representações (perda de um objeto pode simbolizar perda afetiva), e o papel do
prazer na liberação de tensões psíquicas. Ele prepara o terreno para obras como
“Os chistes e sua relação com o inconsciente”, 1905, onde Freud explora o
prazer no ato falho como liberação controlada. Veremos mais a frente como os
chistes (brincadeiras, ditos humorísticos ou mesmo algo cômico como uma piada)
expressam, também, conteúdo reprimido presente em nosso inconsciente e fruto de
desejos por vezes inconfessáveis até mesmo para a própria pessoa que os possui.
Em resumo, “A
Psicopatologia da Vida Cotidiana” é uma obra leve, divertida e profunda: prova
que o inconsciente está sempre presente, infiltrando-se nas pequenas falhas do
dia a dia. Para Freud, esses “erros” são revelações preciosas, testemunhos de
que, mesmo na rotina mais banal, o desejo inconsciente busca expressão, e a Psicanálise
pode decifrá-lo. É um texto que continua atual, pois todos nós cometemos atos
falhos, e neles podemos ver, com um sorriso crítico, o inconsciente em ação. Em
verdade, podemos mesmo dizer tratar-se de uma prova cabal da validade dos
construtos teóricos psicanalíticos no tocante ao inconsciente, desejo, censura,
e outros mais.
9- Os chistes –
piadas, brincadeiras – e o inconsciente (1905)
Pense naqueles
momentos em que diante de uma dada situação somos levados a rir, sim, o humor é
algo importante e nos faz sentir bem, mas há algo mais profundo nisto e Freud
buscou entender e explicar tudo isto. Piadas, brincadeiras, ditos bem
humorados, enfim, tudo que pode levar a uma situação cômica que nos faz rir e
sentirmo-nos bem tem a ver com uma descarga de energia em nosso aparelho
psíquico, onde momentaneamente conteúdos reprimidos vestem roupas e disfarces
que os permitem de modo encoberto virem a luz da consciência. Como é comum ser
dito, “por trás de cada brincadeira há um fundo de verdade”, e Freud nos
explica o quanto esta afirmação é de fato verdadeira.
O livro “Os chistes
e sua relação com o inconsciente” (Der Witz und seine Beziehung zum Unbewussten),
publicado em 1905, é uma das obras mais originais e divertidas de Sigmund
Freud. Ela surge no auge de sua produtividade teórica, logo após “A interpretação
de sonhos”, 1900, e “A psicopatologia da vida cotidiana”, 1901, e antes de “Três
ensaios sobre a teoria da sexualidade”, 1905. Nesse período, Freud já
consolidava a ideia de que o inconsciente se manifesta em diversas formações da
vida psíquica cotidiana, e o chiste (a piada, a brincadeira, o trocadilho, o
gracejo) se revelou para ele um campo privilegiado de estudo. O livro não é
apenas uma análise do humor; é uma extensão da teoria do inconsciente para o
prazer estético e social, mostrando como o riso libera energia psíquica
reprimida.
Freud escreveu “Os
chistes” em um momento de relativa confiança intelectual. Ele já contava com um
pequeno círculo de discípulos, como Otto Rank (1884-1939) e Wilhelm Stekel
(1868-1940), e começava a perceber que suas ideias encontravam eco além da
medicina vienense. O livro nasceu de observações pessoais e coletivas: Freud
era conhecido por seu senso de humor mordaz, colecionava anedotas e
trocadilhos, e analisava piadas contadas por pacientes ou amigos. Ele percebeu
paralelos estruturais entre o chiste, o sonho e o ato falho: todos envolvem o
inconsciente “escorregando” para a consciência de forma prazerosa, burlando a
censura. O texto foi escrito em paralelo à obra “Três Ensaios sobre a teoria da
sexualidade”, e Freud o considerava uma “obra paralela” que aplicava a mesma
economia psíquica (economia de energia) a um fenômeno aparentemente inofensivo.
O conteúdo principal
desta obra se encontra justamente no chiste como liberação de prazer provindo
de material inconsciente vinculado a desejos reprimidos. Freud divide o chiste
em três categorias principais, cada uma revelando um mecanismo diferente de
acesso ao inconsciente: o inocente, o tendencioso e o espirituoso.
1- Chiste inocente (ou de brincadeira): São
piadas puramente verbais ou lúdicas, sem conteúdo sexual ou hostil. Elas
produzem prazer pela técnica (jogo de palavras, absurdo, condensação). Freud
explica que o prazer vem da “economia psíquica”: o pré-consciente gasta menos
energia ao condensar ideias complexas em uma forma simples e surpreendente. O
riso surge da liberação súbita dessa energia poupada.
2- Chiste
tendencioso: Aqui o chiste tem propósito, que é atacar, seduzir ou criticar.
Freud identifica três tipos principais: hostil, cínico e obsceno. a- Hostil
(agressivo): piadas que ridicularizam alguém ou um grupo (ex.: judeus,
autoridades). O riso libera hostilidade reprimida. b- Cínico (contra normas
morais): ataca instituições como casamento, religião ou moral sexual. c- Obsceno
(sexual): libera desejo sexual reprimido através de insinuações ou trocadilhos
eróticos.
3- Chiste de
espírito (Witz proper): O mais sofisticado, combina técnica verbal com
tendência. Freud enfatiza que o prazer do chiste obsceno ou hostil vem da
“liberação de inibição”: a censura (a partir da segunda tópica teremos aqui o
superego) é momentaneamente ludibriada pela técnica engenhosa, permitindo que o
desejo reprimido se expresse de forma aceitável. O ouvinte ri porque “entende”
o sentido oculto sem se sentir culpado, deste modo camuflado o chiste realiza o
desejo de uma forma indireta, mas eficaz.
Existem mecanismos
que são comuns tanto aos sonhos, como a psicopatologia da vida cotidiana e
também com relação aos chistes e seu mecanismo de expressão e Freud estabelece
alguns paralelos bem claros neste tocante. Aqui podemos falar na condensação
(metáfora), no deslocamento (metonímia), no trabalho realizado (pelos sonhos, e
na fabricação dos chistes), na liberação de energia libidinal, etc. Vejamos
alguns destes paralelos comuns para ficar mais claro e compreensível esta nossa
exposição.
Condensação e
deslocamento: o chiste condensa múltiplos sentidos em uma palavra ou frase
curta (trocadilho), desloca o afeto de um tema perigoso para outro neutro.
Trabalho do chiste
(Witzarbeit): semelhante ao trabalho do sonho, distorce o conteúdo latente para
burlar a censura.
Liberação de
energia: no sonho, a energia é liberada no sono; no chiste, no riso. Ambos
evitam desprazer e produzem prazer ao poupar gasto de energia psíquica.
Freud por fim conclui
que o chiste é uma “formação de compromisso” semelhante ao sintoma neurótico ou
ao sonho: permite ao inconsciente se expressar sem violar as normas sociais e
os limites autoimpostos pela sua psique (mais tarde teremos aqui o superego). O
riso é a recompensa pela descarga de tensão psíquica.
Temos de falar
também sobre a grande importância clínica e cultural dos chistes. Clinicamente,
Freud usa o chiste para ilustrar como o inconsciente opera em situações sociais
leves: uma piada “inocente” pode revelar hostilidade latente, desejo sexual ou
conflito edípico. Ele observa que pacientes frequentemente contam piadas que,
analisadas, levam a material reprimido. Culturalmente, o livro antecipa teorias
modernas do humor (Henri Bergson, 1859-1941; Mikhail Bakhtin, 1895-1975) e
mostra que o riso é uma válvula de escape para o reprimido. Freud também
reflete sobre o humor judaico, ele próprio judeu, colecionava anedotas
antissemitas que viravam contra si mesmas, revelando autocrítica e defesa.
Esta obra, “Os
Chistes e sua Relação com o Inconsciente”, é um livro genial que demonstra que:
o inconsciente não deve ser entendido apenas como um lugar sombrio ou
patológico; o inconsciente também brinca, ri e se diverte. Freud prova que o
prazer do humor vem da mesma fonte que o prazer do sonho ou do ato falho, que é
a liberação de energia sexual reprimida. Freud nos deixa claro nesta obra que,
mesmo nas piadas mais leves, o desejo inconsciente busca expressão e que a
sexualidade se faz presente sempre. É um texto que convida o leitor a rir de si
mesmo e, ao rir, a se conhecer melhor e reconhecer o quanto somos de fato
dominados por forças das quais em nada temos consciência, vinculadas a esferas
mais profundas de nossa psique e associadas a pulsões sexuais reprimidas.
10- Sexualidade e
romance familiar - Teoria da libido – sexualidade
Teoria da sexualidade
infantil e o complexo de Édipo: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade
(1905).
Todas as pessoas
desde o nascimento passam por cinco fases sexuais: oral, anal, fálica, latência
e genital.
A fase oral se
apresenta no primeiro ano de vida e nela todo o prazer é proveniente da boca. É
pela boca que a criança tem contato com o mundo externo e é pela boca que a
criança se alimenta ao sugar o leite materno.
Por volta dos
dois, três anos temos a fase anal, na qual a criança passa por um processo de
aprendizagem visando controlar os músculos dos esfíncteres. Este controle pode
ser ampliado para o controle dos adultos que cercam a criança com suas
preocupações, gerando prazer na criança.
Em sequência temos
a fase fálica que ocorre por volta dos três aos cinco anos de idade. Nesta fase
a criança masculina descobre seu pênis e temos o começo da masturbação
infantil. A fase fálica somente surge nos escritos de Freud a partir do ano de
1923 (na verdade, o conceito já aparece em textos de 1913-1915, como “Totem e
Tabu”, “Sobre o narcisismo”, mas ganha destaque maior em 1923 com a segunda
tópica e uma formulação mais clara e explícita).
Com receio da
castração, tem início o período de latência, que vai dos seis anos de idade até
a puberdade, na qual as manifestações sexuais tendem a sumir.
Na adolescência
temos o início da fase genital, começo da vida sexual adulta.
** Fases e idade
aproximada
1- Fase oral –
Primeiro ano de vida
2- Fase anal – 2 /
3 anos de idade
3- Fase fálica
(surge no ano de 1923) – 3 / 5 anos de idade
4- Fase de
latência – 6 anos de idade até a puberdade
5- Fase genital –
Tem início na puberdade, marcando o começo da adolescência e prosseguindo no
transcorrer da vida adulta do sujeito.
Precisamos ficar
atentos que as fases sexuais ocorrem na infância (zero a cinco anos de idade),
passando pela latência até a fase genital que é o começo da vida adulta do
indivíduo. No entanto, se ocorrer algum comprometimento em alguma destas fases
o sujeito poderá desenvolver uma personalidade doentia ou com fortes traços
marcantes e característicos em sua origem da fase sexual na qual ocorreu o
comprometimento. Esta estrutura de personalidade com traços fortes em uma dada
direção ou mesmo uma estrutura doentia será chamada de caráter. Deste modo, se
ocorrer um comprometimento na fase oral, teremos um adulto com um caráter oral,
se ocorrer na fase anal, teremos um adulto com caráter anal.
A elaboração do
complexo de Édipo é bem interessante e fundamental à Psicanálise. O termo
“complexo” provém de Jung e não de Freud. Jung utilizou o termo “complexo de
Édipo” para os meninos e “complexo de Electra” para as meninas. No entanto,
Freud não gostava deste termo, pois, na sua visão, tendia a igualar os
processos ocorridos em ambos os sexos e Freud os entendia como muito distintos.
Freud dava preferência somente ao termo “Édipo”, para retratar o processo ocorrido
nos meninos durante seus primeiros seis anos de vida. O menino inicialmente se
sente atraído pela mãe, por quem nutre seus desejos oriundos do id e o pai é
visto como um rival em relação aos amores da mãe. Isto perpassa as fases do
desenvolvimento psicossexual intituladas: oral, anal e fálica. Ao chegar a fase
fálica, o menino manipula seus genitais em busca de prazer e é repreendido
pelos adultos, podendo receber o aviso / ameaça, de que se continuar a tocar em
seu pênis este será cortado (castração) o que não será levado a sério pelo
menino até este se confrontar com uma menina e constatar que esta fora
castrada, já que não possui o pênis. Com o terror da castração, temos o final
da fase fálica e o início da latência. Ora, é neste processo de desejar a mãe e
querer o afastamento do pai, visto como seu rival, que encontramos o Édipo,
numa referência a peça de Sófocles, “Édipo rei”. Já que nesta peça de teatro
grego, um drama, o personagem principal, Édipo, sem o saber de início, mata o
pai e casa com a mãe. Homens adultos podem levar para suas vidas este processo
mal resolvido, estando suas escolhas e problemas emocionais vinculados aos seis
primeiros anos de sua vida e ao desenvolvimento e resolução do Édipo.
Os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”
(Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie), publicados em 1905, constituem uma das
obras mais revolucionárias e controversas de Sigmund Freud. Eles surgem no
mesmo ano de “Os chistes e sua relação com o inconsciente” e marcam o ápice da
fase inicial da Psicanálise, quando Freud já havia estabelecido o inconsciente
como dinâmico, mas ainda precisava explicar o motor principal do psiquismo: a
sexualidade. O livro é uma tentativa sistemática de reformular a teoria da
libido, deslocando a sexualidade do lugar periférico (ou patológico) que
ocupava na medicina da época para o centro da vida psíquica humana, desde a
mais tenra infância.
Freud escreveu o
livro “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” em um período de intensa
produtividade teórica, mas também de isolamento e resistência externa. Suas
ideias sobre histeria e sonhos já eram mal vistas pela comunidade médica
vienense, e a ênfase na sexualidade infantil gerou escândalo imediato. O contexto
era o de uma sociedade vitoriana tardia, onde a infância era vista como
assexuada e inocente, e a sexualidade adulta como reprodutiva e moralmente
regulada. Freud, influenciado por suas análises clínicas de pacientes
histéricos e pela autoanálise, percebeu que muitos sintomas neuróticos
remontavam a desejos e traumas sexuais da infância. O livro foi ampliado em
edições posteriores (até 1924), com Freud adicionando notas e revisões que refletem
a evolução de sua teoria.
A estrutura e
conteúdo do livro “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” nos apresenta
três segmentos altamente polêmicos para a época. O livro, dividido em três
partes principais, cada uma revolucionária por si só, a saber: as perversões
sexuais; a sexualidade infantil; as transformações da puberdade.
1- As perversões
sexuais é o primeiro item analisado nesta obra. Nesta parte Freud começa
desnaturalizando a noção de “perversão” como doença ou anomalia. Ele mostra que
comportamentos considerados “anormais” (homossexualidade, fetichismo, sadismo,
masoquismo, voyeurismo, exibicionismo) são expressões de pulsões parciais que
existem em todos os indivíduos. A sexualidade adulta “normal” (genital e
heterossexual) é apenas uma organização tardia dessas pulsões. Isso derruba a
dicotomia normal/patológico: a perversão é uma fixação em uma fase ou pulsão
infantil, não uma aberração inata.
2- A sexualidade
infantil vem em sequência, esta é a parte mais explosiva. Freud afirma que a
sexualidade não começa na puberdade, mas na infância, e que a criança é
“polimorficamente perversa”: experimenta prazer em zonas erógenas diversas
(oral, anal, fálica), sem objeto fixo. Ele descreve as fases do desenvolvimento
libidinal:
Fase oral (prazer
na sucção e alimentação).
Fase anal (prazer
na retenção/expulsão das fezes).
Fase fálica
(descoberta do pênis/clitóris e masturbação infantil, medo levando ao complexo
de castração e final desta fase).
Fase de latência
(repressão parcial da sexualidade).
Fase genital
(puberdade, organização adulta, manifestação do caráter oral ou anal se houver
algum comprometimento nestas fases).
A libido (energia
sexual) é móvel e investe nessas zonas sucessivamente; fixações ou regressões
levam a neuroses.
Ora, estas fases
levam até a fase genital com as transformações da puberdade e início da
adolescência. Na puberdade, a libido deveria teoricamente se reorganizar em
direção ao objeto heterossexual e genital, mas carrega as marcas das fases
anteriores. Freud introduz aqui o conceito de que a sexualidade adulta é o
resultado de uma história conflituosa, marcada por recalques e sublimações.
Comportamentos homossexuais ou qualquer perversão sexual são oriundos do modo
como o sujeito vivenciou seus primeiros cinco anos de vida e o desenvolvimento
das fases oral, anal e fálica. É neste momento em que o sujeito vivencia também
o que Freud chamava de Édipo e romance familiar.
O complexo de
Édipo e o romance familiar estão, segundo o pensamento de Freud, presentes não
somente em nossa civilização ocidental, mas são universais e se fazem presentes
em qualquer comunidade humana e em qualquer tempo histórico.
Embora o complexo
de Édipo seja mencionado explicitamente apenas em edições posteriores
(especialmente a partir de 1910), sua semente está já presente no livro “Três ensaios
sobre a teoria da sexualidade”, especialmente na fase fálica e no complexo de
castração. Freud descreve o menino que deseja a mãe, vê o pai como rival e teme
a castração; a menina passa por um caminho mais complexo (inveja do pênis,
virada para o pai). O Édipo é o ponto de inflexão: a criança abandona o desejo
incestuoso, internaliza a proibição parental e forma o superego. O “romance
familiar” (Familienroman), mencionado em textos contemporâneos (1909),
complementa isso: a criança fantasia origens nobres ou substitui os pais reais
por figuras idealizadas para lidar com a decepção edípica.
A teoria da libido
surge a partir deste contexto e deste emaranhado de pulsões, repressão e
censura, dentre outros elementos que atuam na psique individual e na sociedade
humana. A libido é a energia psíquica derivada da pulsão sexual (Trieb, não
Instinkt. Freud distingue pulsão dinâmica de instinto biológico fixo). Ela é
quantitativa, móvel, investe em objetos (libido objetal) ou no ego (narcisismo,
desenvolvido em 1914). A sexualidade não é apenas reprodutiva; é o motor do
prazer, do desejo e do conflito psíquico. Neuroses surgem quando a libido é
fixada ou reprimida em fases infantis.
Tudo isto
discutido aqui é muito importante tanto para o sujeito em sua individualidade
quanto também para a cultura e o desenvolvimento social, no entanto, continua
ainda hoje sujeito a controvérsias e polêmicas diversas e por vezes ásperas. A
obra “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” chocou o mundo e a ideia de
sexualidade infantil foi vista como escandalosa, imoral e perigosa. Freud
perdeu pacientes e colegas, mas ganhou adeptos radicais. A obra é um marco na
teoria psicanalítica enquanto teoria dos desejos humanos, mesmo que ocultos ou
negados pela consciência e a sociedade, mostrando que a infância é totalmente sexualizada
e muito conflituosa, e que a maturidade é um compromisso por vezes bem
precário. Esta obra influenciou a psicologia do desenvolvimento, a pedagogia, a
literatura e a crítica cultural.
Em síntese, a obra
“Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” transforma a sexualidade de
instinto biológico em pulsão (Trieb) psíquica central, revela a infância como
palco de desejos intensos e introduz o Édipo como estrutura fundante da
personalidade. Freud, médico pragmático, baseia tudo em observação clínica: a
sexualidade não é opcional nem tardia; ela é o que nos constitui, nos dá prazer
e nos faz sofrer e, quando analisada, pode nos libertar apontando o caminho
para rumos antes não imaginados ou aceitos consciente e socialmente.
A história de
Édipo, que Freud utilizou para ilustrar o conflito central da sexualidade
infantil, deriva da trilogia trágica do dramaturgo grego Sófocles (c. 496–406
a.C.), escrita durante o século V a.C., no auge da Grécia Clássica, na Era de
Péricles, em Atenas. Essas peças eram apresentadas nos concursos teatrais do
Festival de Dionísio (Dionísias Urbanas), um evento anual religioso e cívico em
honra ao deus Dionísio, onde autores competiam com trilogias trágicas seguidas
de uma sátira. Os espetáculos ocorriam em teatros a céu aberto, como o de
Dionísio em Atenas, com atores exclusivamente masculinos usando máscaras para
representar múltiplos papéis (incluindo femininos), acompanhados por um coro
que comentava a ação e um flautista para a música. A primeira peça da trilogia,
Édipo Rei (escrita por volta de 429 a.C., durante a Guerra do Peloponeso e uma
peste em Atenas, que ecoa no enredo), inicia o ciclo; seguida por Édipo em
Colono (401 a.C.) e Antígona (c. 441 a.C., cronologicamente a terceira e última
peça de uma sequência de três tratando de Édipo, ciclo tebano, embora tenha
sido a primeira a ser escrita, cronologicamente é a última na trama).
Na narrativa de
Édipo Rei, o rei Laio de Tebas recebe uma profecia do oráculo de Delfos de que
seu filho o mataria (parricídio) e desposaria a mãe. Para evitar o destino,
Laio e sua esposa Jocasta mandam abandonar o bebê recém-nascido com os pés
perfurados e amarrados (para que morresse exposto), mas o servo encarregado tem
pena e entrega a criança a um pastor, que a leva para Corinto, onde é adotada
pelo rei Pólibo e sua esposa Mérope, que o criam como filho. O nome
"Édipo" deriva do grego oidéō (inchar) e poús (pé), referindo-se aos
pés inchados pela amarração. Quando adulto, Édipo consulta o oráculo de Delfos
e ouve a mesma profecia: “matará o pai e casará com a mãe”. Horrorizado, ele
foge de Corinto (pensando que Pólibo e Mérope são seus pais biológicos verdadeiros,
e não somente adotivos) para evitar o destino. No caminho, em uma encruzilhada,
encontra Laio (sem saber que é seu pai biológico), discute com ele por causa de
uma carruagem. Laio é arrogante, e na briga Édipo o mata em uma luta com
espadas, deixando o corpo na estrada. Chegando a Tebas (sua cidade natal, mas
desconhecida para ele), Édipo se voluntaria para enfrentar a Esfinge, uma
criatura monstruosa que atormentava os andarilhos próximos à cidade. A Esfinge
sempre apresentava um enigma e ameaçava comer a pessoa se esta errasse a
resposta.
Édipo encontra a
esfinge nas imediações da cidade e esta o desafia com um enigma: "O que
anda com quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à tarde?". Ele
responde corretamente "o homem" (criança engatinhando, adulto em duas
pernas, idoso com bengala – Aqui, “homem” no sentido de “humano”, incluindo
homens e mulheres), fazendo a Esfinge se suicidar. Como recompensa, os tebanos
o coroam rei e o casam com a rainha viúva Jocasta (sua mãe biológica). Anos
depois, uma peste assola Tebas, e Édipo consulta o oráculo de Delfos,
descobrindo que a calamidade é punição pelo assassinato impune de Laio e pelo
incesto. Édipo se propõe a matar o responsável, mas eis que descobre investigando
que é ele a a pessoa que procura. Quem diz diretamente a Édipo que ele é o
criminoso responsável pelas desgraças é o profeta cego Tirésias, pressionado
pelo próprio rei Édipo. Deste modo fica ciente da verdade: é o assassino do pai
e marido da mãe. Horrorizado, Jocasta se suicida, e Édipo fura os próprios
olhos com os broches dela, exilando-se como punição. As peças subsequentes
exploram seu exílio (Édipo em Colono) e o destino de seus filhos (Antígona).
Freud preferia
referir-se simplesmente ao “Édipo” para evitar o termo “complexo”, introduzido
por Jung, mas a tradição psicanalítica consagrou “complexo de Édipo” para
descrever o conflito universal da infância: o desejo pela mãe, a rivalidade com
o pai, o medo da castração, a cegueira (furar os olhos) para não ver a verdade
e a resolução pela identificação com o pai nos meninos, formando a base da
personalidade e das neuroses adultas. Esse mito, com sua inevitabilidade
trágica, ilustra para Freud como a sexualidade infantil molda o destino humano,
mesmo quando se tenta fugir ou atuar para evitar. Um detalhe não explorado por
Freud é que o filicídio antecede o parricídio, podendo, inclusive, dar margem à
elaboração de uma crítica a sua concepção teórica.
11- Homossexualidade
no contexto psicanalítico
A homossexualidade
masculina e feminina foi alvo das especulações de Freud, bem como, de outros
psicanalistas no transcorrer da história da Psicanálise. Freud entendia que
aqui era importante destacar a sexualidade infantil dos primeiros cinco anos
completos de vida da pessoa, com suas respectivas fases sexuais e o desfecho do
complexo de Édipo. Ora, se tudo corre bem, o menino após passar pelas fases oral,
anal e fálica, diante da masturbação infantil e do medo da castração, irá se
identificar com o genitor do mesmo sexo e se afastar da mãe, sendo este um
desfecho exitoso do Édipo, no entanto, se as coisas não correrem como deveriam,
então este menino continuará se identificando com a mãe e não com o pai, sendo
esta uma das causas do homossexualismo masculino. Temos também de pensar no
narcisismo, pois, quando o adulto escolhe alguém do mesmo sexo para se
relacionar, é como se este estivesse diante de um espelho escolhendo a si-mesmo
e mostrando seu autoerotismo. Também temos na primeira infância a presença de
uma mãe forte e dominadora, vista pela criança como “castradora” e de um pai
percebido como “fraco ou homossexual”, levando ao desenvolvimento da
homossexualidade na vida adulta.
A
homossexualidade, no pensamento de Sigmund Freud, não é tratada como uma
patologia inata ou uma aberração moral, mas como uma variação do
desenvolvimento libidinal que surge de conflitos e fixações durante a
sexualidade infantil. Freud discute o tema em vários textos, especialmente em
"Três ensaios sobre a teoria da sexualidade", 1905, "Sobre o
narcisismo: uma introdução", 1914, "O pequeno Hans", 1909,
"O homem dos lobos", 1918, e "Uma criança é espancada",
1919, sempre ancorando sua análise na teoria da libido e no complexo de Édipo.
Ele via a sexualidade humana como constitucionalmente bissexual (todo indivíduo
tem tendências homossexuais latentes), mas enfatizava que a manifestação adulta
da homossexualidade depende de experiências infantis, recalques e
identificações. Freud diferenciava a homossexualidade masculina da feminina,
considerando-as assimétricas devido ao papel central do complexo de castração
na fase fálica. Seu enfoque era médico e clínico, baseado em casos observados,
não filosófico ou normativo, embora suas visões reflitam o contexto vitoriano e
tenham sido criticadas por heteronormatividade em contextos ideológicos
contemporâneos que exploram o politicamente correto, ele defendia que a
homossexualidade não é curável nem necessariamente patológica, mas pode gerar
sofrimento se conflituosa.
Vamos
primeiramente para a diferença entre homossexualidade masculina e feminina no
pensamento desenvolvido por Freud, dentro do contexto da teoria psicanalítica. Freud
postulava uma assimetria de gênero na sexualidade devido à anatomia e ao
complexo de castração. Afinal, meninos possuem pênis e meninas, não. Para o
menino, a homossexualidade surge frequentemente como regressão ou fixação na
identificação materna: durante a fase fálica (3-5 anos), ele teme a castração
pelo pai (como punição pelo desejo edípico pela mãe), levando-o a renunciar à
mãe e identificar-se com o pai para resolver o Édipo. Se isso falha, o menino pode
manter a identificação com a mãe, buscando objetos homossexuais como
substitutos narcísicos ou para evitar a castração. Pode ocorrer de o menino ver
o pai como sendo fraco, ausente ou mesmo percebido como homossexual, como
também pode ocorrer de simultaneamente este menino ver a mãe como sendo forte,
dominante e "castradora" (fálica, dominante).
Na
homossexualidade feminina, Freud via uma trajetória mais complexa: a menina, ao
descobrir a "ausência" do pênis (resultando na inveja do pênis), muda
seu objeto, saindo do amor materno para o pai, desejando um filho como
substituto do pênis. Se essa virada falha (por rejeição à castração ou fixação
na mãe), ela pode buscar objetos femininos, regredindo ao narcisismo primário
ou à posição masculina (identificação com o pai). Freud considerava a
homossexualidade feminina menos "rígida" que a masculina, porém mais
ligada à inveja do pênis e ao protesto contra a feminilidade.
Freud descrevia o
desenvolvimento libidinal em fases sexuais, onde a homossexualidade pode se
fixar: oral (prazer na boca, incorporação do objeto), anal (retenção/expulsão,
sadismo) e fálica (foco no falo, masturbação como autoerotismo). A masturbação
infantil é universal e pré-genital, servindo como protótipo de prazer
autoerótico que pode levar à homossexualidade narcísica adulta. Neste caso, o
sujeito busca no parceiro do mesmo sexo um reflexo de si mesmo, como um
"espelho" do ego idealizado. O medo da castração é fundamental nisto
tudo. No menino, o medo da castração impulsiona a resolução edípica pela
identificação com o pai (heterossexualidade); se evitado por regressão, leva à
homossexualidade passiva (identificação materna). Na menina, a
"castração" já "ocorrida" (inveja do pênis) pode fixá-la na
mãe, promovendo homossexualidade ativa (posição fálica).
Freud também ligava
a homossexualidade ao narcisismo. No narcisismo primário (infantil,
autoerótico), a libido investe no ego; no secundário (regressivo), o sujeito
busca objetos semelhantes a si mesmo. Assim, a escolha homossexual é narcísica,
o parceiro é um "espelho" do eu idealizado, repetindo o autoerotismo
infantil. Em casos como o de Leonardo da Vinci (1910), Freud analisava a
homossexualidade como sublimação narcísica de desejos maternos não resolvidos.
Freud enfatizava
dinâmicas familiares, como uma mãe percebida como forte, fálica e castradora
(dominante, absorvente) pode inibir a identificação paterna no menino,
levando-o a manter o laço materno e buscar homens como substitutos. Um pai percebido
como sendo fraco, ausente ou homossexual reforça isso, já que o menino não vê
no pai um rival forte para temer a castração, falhando na resolução edípica. Na
menina, uma mãe castradora pode intensificar a inveja do pênis, levando à
rejeição da feminilidade e à escolha homossexual.
Freud via a
homossexualidade como constitucionalmente bissexual, não curável, mas
potencialmente conflituosa se fixada em fases pré-genitais. No contexto
freudiano, a homossexualidade ilustra como o Édipo molda a orientação, mas não
a determina rigidamente, é uma variação libidinal. Freud rejeitava a ideia de
degeneração moral no tocante à homossexualidade masculina e feminina, mas ainda
a via como desvio do desenvolvimento genital “normal”, ou seja, segundo Freud,
a homossexualidade não deve ser entendida pela Psicanálise como um crime ou
mesmo um pecado. Crimes são da alçada da lei e pecados, da religião. Aqui
estamos na clínica médica, campo bem distinto do ocupado pela lei ou pecado.
Mas a homossexualidade é entendida por Freud como sendo uma fixação/regressão
libidinal.
12- Além do
princípio do prazer (1920)
Em “Além do
princípio do prazer”, 1920, Freud acrescenta a sua teoria um outro princípio.
Até este momento a teoria psicanalítica era basicamente regida por dois grandes
princípios: Princípio do Prazer e Princípio da Realidade. Pelo princípio do
prazer o sujeito busca sempre o prazer em tudo que faz e almeja. Sua energia é
proveniente da libido, de cunho eminentemente sexual, mas de um sexual que nos
lembra em língua portuguesa e aqui no Brasil a palavra “tesão”, com todo seu
sentido e significado implícito e explícito. Não se trata do prazer sexual
genital e sim de algo muito mais amplo que envolve todas as esferas do Ser, e
neste sentido, “tesão” é a palavra certa para descrever esta situação ampliada
e sedutora. Ora, nem tudo podemos ter, mas tudo podemos desejar. Se buscarmos
ter para nós certas coisas, seremos contemplados com enorme desprazer oriundo
de interditos sociais e punições, o que afeta o prazer que gostaríamos de ter
naquilo. Visando evitar um desprazer maior do que o prazer ambicionado, temos
algumas interdições provenientes do princípio da realidade, que por vezes nos
leva a adiar uma satisfação ou mesmo negá-la, evitando com isto um desprazer
maior. Em 1920 Freud acrescenta a estes dois grandes princípios uma força
auto-destrutiva. Contrapondo-se a Eros, passamos a ter Thanatos, o princípio de
morte e auto-destruição, a busca da matéria orgânica para retornar à matéria
inorgânica original. E Freud tenta embasar esta formulação teórica na biologia
e nas descobertas científicas de seu tempo, propondo uma áurea de
cientificidade ao conceito e saindo de uma esfera puramente filosófica,
abstrata ou metafísica.
O livro “Além do princípio
do prazer” (Jenseits des Lustprinzips), publicado em 1920, é uma das obras mais
profundas e perturbadoras da fase tardia de Freud. Ela surge em um contexto
histórico marcado pelo trauma da Grande Guerra (como era então chamada o que
que hoje em dia chamamos de Primeira Guerra Mundial - 1914-1918), cujas
consequências psíquicas (neuroses traumáticas, sonhos repetitivos de soldados
com ferimentos, compulsão à repetição em civis e soldados) desafiavam a teoria
freudiana dominante até então, pautada na busca do prazer e realização de
desejos a partir de uma libido formada por energia sexual, em contraparte a um
princípio da realidade que busca regular as ações do sujeito em virtude da
obtenção de um prazer maior resultante da soma de todas as variáveis biológicas
e sociais. Até 1920, Freud sustentava que o psiquismo era regido pelo princípio
do prazer (Lustprinzip): busca de satisfação imediata e redução de tensão. No
entanto, fenômenos observados na clínica (sonhos traumáticos que reviviam o
horror em vez de realizarem desejo) e na vida cotidiana (repetições compulsivas
de experiências dolorosas) não se encaixavam nessa elaboração teórica. O livro
representa, portanto, uma revisão radical: Freud introduz a pulsão de morte
(Todestrieb, ou Thanatos) como contraponto à pulsão de vida (Lebenstrieb, ou
Eros), propondo um dualismo pulsional que explica o conflito fundamental do
psiquismo.
Freud escreveu “Além
do Princípio do Prazer” entre 1919 e 1920, em um momento de luto pessoal e
coletivo. Ele perdera a filha Sophie em 1920 (gripe espanhola), viu filhos no
front da guerra e acompanhara pacientes com neuroses de guerra. A guerra expôs
o que Freud chamou de “compulsão à repetição” (Wiederholungszwang): soldados
reviviam em sonhos o trauma da explosão ou da trincheira, não como realização
de desejo, mas como insistência em reviver a dor. Crianças em jogos repetitivos
(ex.: o jogo do “fort-da” do neto de Freud, que jogava um carretel para longe e
o puxava de volta, dizendo “fort”/“da” — “fora”/“aqui”) também mostravam
repetição de experiências desagradáveis. Esses casos forçaram Freud a
questionar se o princípio do prazer era absoluto ou se havia algo “além” dele,
uma força que buscava retornar ao estado inorgânico original de toda matéria
orgânica.
Freud começa
revisitando o princípio do prazer: o psiquismo tende a reduzir excitação ao
mínimo (princípio de constância ou inércia, ecoando a obra “O projeto”, de
1895). No entanto, a compulsão à repetição parece ir contra isso, ela repete
experiências dolorosas sem buscar prazer.
Freud distingue
dois tipos de repetição: 1- Repetição prazerosa (reforço de experiências
satisfatórias); 2- Repetição traumática (revivência compulsiva de dor, sem
ganho aparente). Para explicar isso, ele propõe a existência de duas pulsões
fundamentais: 1- Pulsões de vida (Eros): conservadoras e unificadoras, ligadas
à sexualidade, à reprodução, à ligação de células e organismos. Elas buscam
manter a vida, unir e aumentar a excitação de forma prazerosa. 2- Pulsões de
morte (Thanatos): regressivas e destrutivas, tendem a retornar o organismo ao
estado inorgânico anterior ao nascimento, ou seja, silêncio, imobilidade,
ausência de tensão. Elas operam silenciosamente, mas se manifestam em
agressividade, autodestruição e repetição compulsiva.
Freud não vê as
duas pulsões como opostas absolutas, mas misturadas: Eros une e conserva,
Thanatos desune e destrói, mas frequentemente se fundem, como exemplo podemos
pensar o sadismo, que pode se igualar à agressividade erótica. A compulsão à
repetição é a manifestação mais clara da pulsão de morte: o psiquismo repete o
trauma para tentar dominá-lo retroativamente (tentativa de ligação), mas também
para buscar a descarga final e a volta ao inorgânico de onde toda vida orgânica
proveio.
Muito interessante
também é o exemplo do jogo do fort-da narrado por Freud e também dos sonhos
traumáticos tidos por seus pacientes. Freud ilustra a compulsão à repetição com
o jogo do neto de 18 meses: o menino jogava um carretel para longe (“fort!”) e
o puxava de volta (“da!”), repetindo a angústia da separação da mãe. O jogo
transforma a passividade (o abandono pela mãe) em atividade (controle da
repetição). Nos sonhos traumáticos dos soldados, Freud vê a mesma dinâmica: o
sonho repete o trauma não por desejo, mas por insistência da pulsão de morte em
reviver o momento de ruptura.
O livro “Além do
Princípio do Prazer” marca uma virada na teoria freudiana: do monismo do prazer
para o dualismo pulsional. Ele explica fenômenos antes obscuros (masoquismo
moral, agressividade, repetições compulsivas em neuroses) e pavimenta o caminho
para a segunda tópica (id como reservatório de ambas as pulsões). Clinicamente,
mostra que a análise deve lidar não só com desejos recalcados (Eros), mas com
forças regressivas (Thanatos) que resistem à cura.
Em resumo, a obra
revela o lado sombrio do psiquismo: além do prazer presente nas pulsões sexuais
provindas da libido, há uma pulsão de morte que busca o silêncio absoluto.
Freud, médico pragmático, baseia tudo em observação clínica e cotidiana, mas
admite o caráter especulativo da pulsão de morte, uma força biológica que
explica por que o ser humano repete o sofrimento. É um texto que mudou a
compreensão do conflito humano, mostrando que a vida é uma luta constante entre
união e destruição, prazer e repetição dolorosa. E, deste modo, aos poucos a
Psicanálise criada por Freud vai se afastando de sua origem e prática na
clínica médica, para se apresentar cada vez mais como uma antropologia
filosófica que permite uma crítica cultural exercida sobre a nossa sociedade.
13- Totem e tabu
(1913)
O livro “Totem e
tabu: Algumas concordâncias entre a vida psíquica dos selvagens e dos
neuróticos” (Totem und Tabu – Einige Übereinstimmungen zwischen dem Seelenleben
der Wilden und der Neurotiker), publicado em 1913 (com partes publicadas
previamente em 1912-1913 na revista Imago), é uma das obras mais ousadas e
especulativas de Freud. Ela representa sua primeira grande aplicação da Psicanálise
fora do âmbito clínico individual, estendendo-a à antropologia, à etnologia e à
origem da cultura humana. O livro surge no contexto de um Freud já consolidado
como teórico do inconsciente e da sexualidade, mas ainda buscando possíveis
fundamentos universais para suas descobertas: se o complexo de Édipo e o
recalque são estruturais na psique ocidental, seriam também universais? Para
responder, Freud mergulha em relatos etnográficos da época (James Frazer,
1854-1941; William Robertson Smith, 1846-1894; Wilhelm Wundt, 1832-1920, e
outros) sobre sociedades “primitivas” (termo usado então para povos indígenas,
aborígenes australianos, povos da Polinésia, etc.), comparando-os com sintomas
obsessivos e fobias de pacientes neuróticos.
A estrutura e
conteúdo principal desta obra se apresenta em um livro dividido em quatro
ensaios: 1- o horror ao incesto, 2- o tabu e a ambivalência emocional, 3-
animismo, magia e onipotência das ideias, 4- o retorno do totemismo.
1- O horror ao
incesto: Freud observa que em muitas sociedades ditas “primitivas” existe o
tabu do incesto, muito mais rígido que nas sociedades modernas. Ele compara
isso ao tabu neurótico do paciente obsessivo que evita contato com certos
objetos ou pessoas por medo de contaminação ou punição. Para Freud, o tabu do
incesto é a primeira proibição cultural, que funda a sociedade ao impedir o
desejo direto pela mãe e pela irmã.
2- O tabu e a
ambivalência emocional: Aqui Freud introduz o conceito de ambivalência, no qual
o mesmo objeto ou pessoa pode ser simultaneamente amado e odiado. Nos
“selvagens”, o rei ou o chefe é sagrado (tabu), mas também perigoso (pode ser
morto ritualmente). Isso ecoa a ambivalência do neurótico obsessivo, que ama e
odeia ao mesmo tempo, gerando rituais compulsivos para neutralizar a sua
agressividade.
3- Animismo, magia
e onipotência das ideias: Freud analisa o animismo (crença de que tudo tem
alma) e a magia (simpatética e contagiosa) como projeções da onipotência das
ideias: o primitivo acredita que o pensamento pode influenciar a realidade
diretamente (ex.: vodu). Ele compara isso ao neurótico que acredita que seus
pensamentos ruins podem causar mal (onipotência mágica do pensamento). Para
Freud, isso é resíduo da fase narcísica infantil, onde o ego se sente
todo-poderoso.
4- O retorno do
totemismo: O ensaio mais famoso e especulativo deste livro, no qual Freud
reconstrói uma “horda primitiva” original (inspirada em Charles Darwin,
1809-1882, e James Jasper Atkinson, 1846-1899), onde um pai tirânico
monopolizava as mulheres e era assassinado pelos filhos. Após o parricídio
coletivo, os filhos, tomados por culpa (ambivalência), criam o totem (animal
sagrado que representa o pai morto), proíbem o incesto (exogamia) e instituem o
totemismo como religião primitiva. O totem é comido ritualmente
(totem-refeição) para incorporar o pai morto e expiar o crime. Freud vê nisso a
origem do complexo de Édipo em escala coletiva: o assassinato do pai primordial
é o trauma fundador da cultura, repetido simbolicamente em rituais e neuroses.
Dentre as principais
ideias presentes neste livro, levando-se em conta a sua importância, podemos
falar em: 1- Paralelo entre “selvagens / primitivos” e neuróticos: Freud
equipara o pensamento “primitivo” ao psiquismo infantil e neurótico: ambos
operam com onipotência das ideias, ambivalência, projeção e mecanismos mágicos.
2- Origem da cultura e da moral: A proibição do incesto e do parricídio funda a
sociedade. A culpa pelo assassinato do pai gera o totemismo, a religião e a
moralidade. A cultura nasce da repressão das pulsões. 3- Complexo de Édipo como
sendo algo universal: O mito de Édipo não é apenas individual; é o resíduo
filogenético do trauma primordial da humanidade. Isso reforça a universalidade
do Édipo.
Trata-se de uma
obra altamente especulativa na qual Freud baseia-se basicamente em fontes
etnográficas da época, obtidas por consulta livresca efetuada por Freud. Hoje
em dia tais fontes são sujeitas a diversas críticas, podendo ser consideradas
etnocêntricas e mesmo imprecisas. Antropólogos como Claude Lévi-Strauss (1908-2009)
e Bronisław Malinowski (1884-1942) criticaram a falta de rigor empírico e o
evolucionismo unilinear (indo do primitivo em direção ao civilizado). Em
particular a crítica feita por Bronislaw Malinoviski é bem interessante e
baseada em trabalho de campo, contestando a universalidade do Édipo. A “horda
primitiva” nunca foi realmente comprovada, não passando de uma especulação
teórica, e é criticada hoje em dia como sendo somente um mito freudiano, não realmente
um fato histórico documentado. Ainda assim, a obra influenciou profundamente a
antropologia psicanalítica, a teoria da cultura (ex.: Herbert Marcuse,
1898-1979; Theodor W. Adorno, 1903-1969) e estudos sobre religião e totemismo,
sendo importante até os presentes dias e havendo, inclusive, a possibilidade de
uma releitura crítica de nossa sociedade e cultura por meio de uma visão
psicanalítica a partir desta e outras obras de Freud que seguem por este
caminho.
O livro “Totem e
tabu” é a primeira tentativa ambiciosa de Freud de explicar a origem da cultura
humana a partir da Psicanálise. Freud busca demonstrar que a moral, a religião
e a sociedade não são inatas, mas nascem do conflito pulsional e da culpa
coletiva. Apesar das críticas, a obra permanece um clássico da aplicação da Psicanálise
às ciências humanas e sociais, revelando a ambivalência fundamental do ser
humano: amar e odiar o mesmo objeto, desejar e proibir o mesmo ato, enfim, construir
a cultura sobre o crime primordial.
Em síntese, Totem
e tabu é uma obra visionária e polêmica que estende o Édipo individual ao
destino da humanidade, afirmando que toda cultura é uma resposta ao trauma do
parricídio e do incesto, e que o neurótico contemporâneo repete, em escala menor
e individual, o drama coletivo e histórico dos nossos ancestrais.
14- O futuro de
uma ilusão
O livro “O futuro
de uma ilusão”, 1927, é explicitamente uma crítica à religião, que Freud
apresenta como uma ilusão coletiva nascida de desejos profundos de proteção,
sentido e consolo diante da impotência humana perante a natureza, a morte e o
sofrimento.
Freud divide o
livro em duas partes principais. Na primeira, ele analisa as origens
psicológicas da religião: ela nasce do desamparo infantil do humano perante as
forças da natureza e da sociedade, que evocam o medo primordial da morte e da
solidão. Para lidar com isso, o ser humano cria um deus protetor, um pai
onipotente e benevolente que oferece proteção, justiça e sentido à vida. Na
segunda parte, Freud examina o valor cultural da religião: ela funciona como um
mecanismo de controle das pulsões (especialmente agressivas e sexuais), impõe
proibições morais e promete recompensas no além para compensar as renúncias
impostas pela civilização. Ele reconhece que a religião tem sido historicamente
eficaz para unir as massas e conter a barbárie, mas argumenta que, em uma era
científica, ela se torna obsoleta e prejudicial ao bloquear o pensamento
racional e a maturidade coletiva.
Freud descreve a
religião como uma espécie de neurose obsessiva universal da humanidade: uma
construção psíquica que substitui o pai real por um deus exaltado, oferece
recompensas futuras (vida eterna) e regula as pulsões sexuais e destrutivas
através da culpa e do medo. Freud defende que a maturidade cultural deveria
substituir essa ilusão por uma visão científica e racional da realidade, embora
reconheça que a religião tem uma função adaptativa temporária ao manter a ordem
social e conter pulsões destrutivas.
No entanto, podemos
nos ousar a questionar até que ponto o próprio livro contém uma autocrítica
implícita da Psicanálise enquanto método médico de cura das neuroses e outras
patologias psíquicas. E, mais radicalmente, até que ponto a Psicanálise também
pode ser vista como uma ilusão.
Freud define
ilusão como uma crença motivada por desejo, não necessariamente falsa, mas que
não resiste ao teste da realidade. Ele afirma que a religião é ilusão porque
satisfaz necessidades infantis de segurança e onipotência. Ora, a Psicanálise
também oferece uma narrativa que satisfaz desejos profundos: o desejo de
compreensão total do próprio sofrimento, de encontrar um sentido oculto na
vida, de ser “salvo” do conflito interno por meio da revelação do inconsciente.
O paciente que entra em análise busca uma espécie de redenção: descobrir a
verdade sobre si mesmo, resolver o conflito neurótico, alcançar maior liberdade
psíquica, promessas que, em muitos casos, funcionam mais como consolo e
esperança do que como cura definitiva. Freud mesmo admite, em textos tardios
como “Análise terminável e interminável”, 1937, que a análise frequentemente
não chega a um fim completo, que há resistências biológicas insuperáveis e que
o ego nunca domina totalmente o id. Isso abre espaço para a ideia de que a Psicanálise,
como a religião, oferece uma ilusão funcional: a ilusão de que o sofrimento
pode ser compreendido e superado por meio de um ritual (a sessão analítica), de
uma relação transferencial (o analista como figura paterna ou materna) e de uma
narrativa explicativa (a interpretação).
Além disso, a
estrutura do argumento de Freud contra a religião pode ser voltada contra ele
próprio. Ele critica a religião por ser baseada em autoridade (escrituras,
tradição), por apelar à fé em vez da razão e por prometer recompensas
impossíveis de verificar. Mas a Psicanálise também depende de autoridade (a
palavra do analista), de uma relação de confiança transferencial que pode ser
vista como fé, e de resultados que nem sempre são verificáveis empiricamente (a
“cura” é subjetiva, lenta e incompleta). Quando Freud diz que a religião é uma
neurose coletiva, não está ele próprio propondo uma “neurose terapêutica”
individual, um processo longo, custoso e nem sempre resolutivo, como
alternativa?
Críticas como as
feitas por Oskar Pfister (1873-1956; pastor protestante e amigo de Freud) já
apontaram isso em 1928, em “A ilusão de um futuro”, argumentando que Freud
aplicava à religião critérios que também poderiam atingir a Psicanálise.
Leituras contemporâneas (como as feitas por Kate Schechter, em “Illusions of a
Future”, 2014) vão mais longe: sugerem que Freud, ao prever o declínio da
religião, talvez estivesse, de forma implícita, antecipando também o declínio
da própria Psicanálise como instituição cultural dominante no século XX.
Portanto, sim, “O
futuro de uma ilusão” pode ser lido não só como crítica à religião, mas como
uma autocrítica velada da própria Psicanálise. Freud não o diz explicitamente,
claro, ele se posiciona como o defensor da razão contra a ilusão (um perfeito
Iluminista, pensando no Movimento predominante no século XVIII), mas a lógica
interna do livro permite essa inversão. Se a religião é uma ilusão que consola
o ser humano diante do desamparo, a Psicanálise também pode ser vista como uma
ilusão moderna que consola o indivíduo diante do conflito pulsional e da
finitude. Ambas prometem sentido, redenção e superação do sofrimento; ambas
dependem de uma narrativa que organiza o caos; e ambas, em última análise,
enfrentam a mesma questão: será que o desejo humano de significado pode ser
plenamente satisfeito pela razão ou pela análise, ou isso também é ilusão?
Esta possibilidade
interpretativa do texto nos revela uma ambivalência profunda no próprio Freud:
o homem que desmascara ilusões talvez tenha criado, sem querer, uma nova forma
de ilusão terapêutica contemporânea.
15- O mal estar na
civilização
O livro “O mal-estar
na civilização” (Das Unbehagen in der Kultur), publicado em 1930 (escrito no
final de 1929), é uma das obras mais pessimistas e filosóficas de Freud. Ela
surge no contexto histórico sombrio do entre-guerras: a Europa ainda se
recuperava da Primeira Guerra Mundial, na época conhecida como “A Grande
Guerra”, o comunismo, fascismo e nazismo ganhavam força em toda a Europa, e
Freud, já com 73 anos, enfrentava seu próprio câncer de mandíbula, a morte da
filha Sophie e o exílio iminente. O livro reflete um Freud maduro e
desencantado, que olha para a civilização não mais como progresso inevitável,
mas como um compromisso precário entre pulsões humanas e exigências sociais. É
uma continuação natural de “Além do Princípio do Prazer”, 1920, e de “O futuro
de uma ilusão”, 1927, mas com foco mais amplo: a tensão inevitável entre por um
lado felicidade individual e por outro a ordem coletiva.
Freud começa
respondendo a uma carta de Romain Rolland (1866-1944), que o questionava sobre
o “sentimento oceânico” (uma sensação de unidade com o universo, ligada ao
misticismo). Freud usa isso como ponto de partida para analisar por que a
civilização gera infelicidade. O livro não é dividido em capítulos formais, mas
segue uma progressão lógica: da busca pela felicidade à repressão pulsional, do
papel da culpa e, finalmente, da agressividade como ameaça permanente à cultura
e a civilização.
A busca pela
felicidade possui as suas limitações e estas não são poucas. Freud afirma que o
humano busca prazer (redução de tensão) e evita dor. No entanto, a civilização
impõe três fontes de sofrimento: 1- A natureza (desastres, doenças); 2- O corpo
(envelhecimento, doença); 3- As relações com outros humanos (conflitos sociais
daí resultantes). A civilização tenta minimizar esses sofrimentos, mas ao custo
de sacrificar a liberdade pulsional e restringir o prazer.
A repressão das
pulsões tem um preço pago na nossa cultura e no desenvolvimento social de nossa
civilização. A civilização exige sublimação e repressão das pulsões sexuais e
agressivas para permitir a vida em comum. Freud introduz o conceito de
“mal-estar” (Unbehagen): a cultura proporciona segurança, ordem e conquistas
(ciência, arte, tecnologia), mas cobra um preço alto, a renúncia ao prazer
direto. Quanto mais avançada a civilização, maior a repressão das pulsões,
gerando insatisfação crônica por todos na sociedade.
A agressividade e
a pulsão de morte também estão presentes e desempenham o seu papel. Um dos
pontos mais sombrios: Freud argumenta que a agressividade é uma pulsão primária
(Thanatos), tão forte quanto Eros. A civilização tenta contê-la através da
culpa (superego) e da projeção (inimigo externo). No entanto, a agressividade
não desaparece jamais, ela se volta para dentro (culpa, masoquismo) ou explode
em guerras e violência coletiva. A Grande Guerra (Primeira Guerra Mundial) foi
o exemplo mais expressivo e atual para a época de Freud desta verdadeira falha
civilizacional.
O superego,
internalização das proibições parentais e culturais, torna-se cada vez mais
severo. A culpa surge não só de atos reais, mas de desejos reprimidos. Freud
nota que, paradoxalmente, quanto mais o humano se torna “bom” (civilizado),
mais culpa sente, já que o superego pune até os pensamentos mais íntimos e
secretos. Isso cria um ciclo vicioso no qual a civilização aumenta a culpa, que
por sua vez aumenta a insatisfação.
Freud termina o
texto desta obra com pessimismo cauteloso, entendendo que a civilização é um
experimento muito frágil. As pulsões destrutivas podem superar as construtivas,
levando ao colapso, como frequentemente vemos ocorrer nas guerras. Freud prevê
que o avanço técnico pode aumentar o poder destrutivo do humano, e que a
repressão excessiva pode gerar explosões coletivas. Ainda assim, há um fio de
esperança na razão e na ciência, mais uma vez, um Freud que se mostra vinculado
aos valores Iluministas (século XVIII).
O livro “O
Mal-estar na civilização” é uma das obras mais influentes de Freud fora da
clínica e chega mesmo a antecipar a crítica cultural da Escola de Frankfurt
(Adorno, Horkheimer, Marcuse), a teoria da sociedade repressiva e debates
contemporâneos sobre violência, culpa coletiva e crise ambiental. Freud mostra
que a felicidade não é compatível com a civilização plena e que o preço da
ordem social é o sofrimento psíquico. O livro também revela um Freud tardio,
mais maduro, menos otimista que quando jovem, mais consciente das forças
destrutivas inerentes ao ser humano.
Em síntese, O
mal-estar na civilização é o diagnóstico freudiano da condição humana moderna:
a civilização nos protege, mas nos reprime; nos une, mas nos divide
internamente; nos dá progresso, mas nos cobra infelicidade. É um texto que não
oferece soluções fáceis, mas alerta para o conflito permanente entre desejo e
cultura, Eros e Thanatos, um conflito que, segundo Freud, nunca será resolvido,
apenas administrado.
16. Mecanismos de
defesa
(repressão,
negação, projeção, sublimação, etc.)
Os mecanismos de
defesa são processos psíquicos em grande parte inconscientes que o ego utiliza
para proteger-se da ansiedade e angústia, do conflito interno e de ameaças
externas ou internas. Embora o conceito tenha sido aprofundado e sistematizado
por Anna Freud (filha de Sigmund Freud) em seu livro “O ego e os mecanismos de
defesa”, 1936, a ideia central nasce diretamente do pensamento freudiano,
especialmente na segunda tópica (1923 em diante), onde o ego é descrito como
uma instância mediadora entre: o id, o superego e a realidade. Freud já os
descrevia desde os primórdios da Psicanálise, mas os tratava como operações
específicas do recalque (Verdrängung). Com o tempo, ele e seus seguidores
reconheceram uma variedade maior de mecanismos, todos funcionando para reduzir
a tensão psíquica quando o ego se sente ameaçado por desejos pulsionais
inaceitáveis, culpas superegóicas ou perigos da realidade.
Freud enfatizava
que os mecanismos de defesa são, em sua maioria, inconscientes (o ego não sabe
que os está usando) e automáticos. Eles não são patológicos por si só, e todos
os indivíduos os utilizam, mas tornam-se problemáticos quando excessivos,
rígidos ou desadaptativos, levando a sintomas neuróticos, inibições ou
distorções da personalidade.
Anna Freud
sistematizou a lista em 10 mecanismos principais, mas Freud nunca fez uma
taxonomia rígida. Freud os via como operações dinâmicas do ego, variáveis
conforme a fase do desenvolvimento e o tipo de ameaça. O estudo dos mecanismos
de defesa permanece central na Psicanálise contemporânea, influenciando a
psicoterapia dinâmica, a psicologia do ego e até abordagens cognitivas.
Os principais
mecanismos de defesa destacados por Freud e outros psicanalistas que a ele se
seguiram, são: o recalque (repressão); a negação; a projeção; a sublimação; a
regressão; a racionalização; formação reativa (adotar o comportamento oposto ao
conteúdo reprimido); deslocamento, introjeção; identificação.
Recalque ou
repressão (Verdrängung): Mecanismo fundamental e mais importante na teoria
freudiana. Consiste no afastamento inconsciente de representações (ideias,
desejos, afetos) intoleráveis para o consciente. O recalcado não desaparece,
continua ativo e busca retornar (retorno do recalcado), manifestando-se em
sintomas, sonhos, atos falhos ou chistes. Freud distingue o recalque primário
(originário, que funda o inconsciente) do secundário (manutenção do
afastamento). É o protótipo fundamental de todos os mecanismos de defesa.
Negação
(Verleugnung): Recusa inconsciente de aceitar uma realidade dolorosa ou
ameaçadora. Diferente da recusa consciente, a negação psíquica permite que o
sujeito “saiba” algo, mas não o aceite emocionalmente (ex.: “Meu pai morreu,
mas ainda falo com ele como se estivesse vivo”). Freud usa o termo
especialmente em casos de fetichismo e psicose.
Projeção: Atribuição
inconsciente de desejos, sentimentos ou impulsos próprios (geralmente
inaceitáveis) a outra pessoa ou ao mundo externo. O que é odiado ou desejado em
si mesmo é visto no outro. Exemplo clássico: o paranoico projeta sua própria
agressividade no outro (“ele quer me matar”), aliviando a culpa interna. Freud
liga a projeção à formação de delírios e à homossexualidade reprimida (projeção
do desejo homossexual como perseguição).
Sublimação: Um dos
poucos mecanismos considerados maduros e adaptativos. Consiste na transformação
de uma pulsão socialmente inaceitável (sexual ou agressiva) em atividade
cultural ou socialmente valorizada (arte, ciência, esporte, caridade). Freud vê
a sublimação como o caminho mais saudável para a descarga pulsional, aqui o
desejo não é recalcado nem satisfeito diretamente, mas desviado para fins
criativos. É o mecanismo que explica a genialidade (ex.: Leonardo da Vinci
sublimando desejos homossexuais em arte, segundo análise feita por Freud).
Regressão: Retorno
a estágios anteriores do desenvolvimento libidinal sob estresse (ex.: adulto
que volta a comportamentos infantis durante crises).
Racionalização:
Justificação lógica posterior para ações motivadas por impulsos inconscientes.
Formação reativa:
Adoção do comportamento oposto ao impulso reprimido (ex.: excesso de gentileza
para ocultar hostilidade).
Deslocamento:
Transferência de afeto de um objeto para outro menos perigoso (comum em fobias
e obsessões).
Introjeção:
Incorporação de objetos ou figuras externas no ego ou superego (base da
formação do superego e da melancolia).
Identificação:
Processo de tornar-se semelhante a outra pessoa (fundamental na resolução do
Édipo e na formação da personalidade).
Os mecanismos de
defesa são o arsenal do ego para manter o equilíbrio psíquico. Em análise, o
terapeuta identifica quais defesas o paciente mais utiliza, pois elas revelam o
tipo de conflito subjacente (ex.: negação em psicose, projeção em paranoia,
sublimação em personalidades criativas). Freud alertava que defesas excessivas
ou primitivas (como projeção maciça) podem levar a patologias graves, enquanto
defesas maduras (sublimação, humor) promovem adaptação e criatividade.
Em síntese, os
mecanismos de defesa mostram o ego como um mediador astuto, mas vulnerável: ele
protege o sujeito do conflito pulsional, mas ao custo de distorções da
realidade. Freud, médico pragmático, os descreve não como falhas morais, mas
como estratégias necessárias, e por vezes custosas, para viver em um mundo onde
desejo e realidade nunca se harmonizam perfeitamente e costumam se apresentar
em ostensiva oposição e combate.
17- Teoria das
neuroses e angústia (histeria, obsessão, fobia + revisão de 1926)
A teoria das
neuroses e da angústia é um dos pilares centrais da obra freudiana, evoluindo
ao longo de décadas e culminando na revisão radical de 1926 em “Inibições,
sintomas e angústia” (Hemmung, Symptom und Angst). Freud dedicou grande parte
de sua carreira a compreender por que o psiquismo gera sofrimento neurótico e
como a angústia (Angst) funciona como sinal de alerta ou consequência do
conflito interno. A teoria passa por duas fases principais: a primeira
(1894-1925), centrada na neurose atual e na angústia como libido reprimida; a
segunda (1926 em diante), que reformula a angústia como sinal de perigo emitido
pelo ego.
Inicialmente e
fugindo um pouco da tese aqui centrada na Psicanálise de Freud, penso que é
importante explicar e distinguir do que estamos de fato falando aqui, para
melhor entendimento por parte do leitor. Há três conceitos essenciais,
semelhantes, mas distintos, aqui, que precisamos analisar, mesmo que de modo
simplificado, já que o texto não trata disto propriamente dito. Me refiro aos
conceitos de: medo, ansiedade e angústia. A princípio podem parecer a mesma
coisa. Três palavras diferentes para nomear a mesma situação, no caso, meros
sinônimos. Mas não é isto. O medo se dá quando diante de um objeto ou situação
de real potencial destrutivo para a pessoa, como, por exemplo, estar diante de
um animal selvagem ou ser abordado por um bandido armado e transtornado. A
ansiedade se dá de modo semelhante, mas sem a presença do estímulo externo com
real potencial agressor. Se uma pessoa ao voltar do trabalho a noite é
assaltada por um ladrão armado ao passar por uma esquina em uma rua deserta
pelo horário em que lá se encontra, ela será inundada pelo medo diante do
agressor e da situação perigosa real ali presente. Se em outro dia, também
retornando tarde do trabalho a mesma pessoa precisa passar pela mesma esquina e
rua deserta, mesmo sem ser abordada por um eventual agressor, sentirá ansiedade
motivada pela situação, mas sem a presença do estímulo externo motivador. Já a
angústia, sentimento muito próximo ao medo e a ansiedade, não faz uso de
estímulos externos e sim internos. Temos aqui o humano diante de sua finitude
existencial, diante da consciência de que um dia irá morrer, pois é um ser
mortal, diante das exigências que sua fé cristã possa fazer perante um Deus
todo poderoso, diante de exigências internas de um ideal do ego que não
conseguem facilmente se concretizar.
Primeira teoria da
angústia (até 1925): Inicialmente, Freud via a angústia como resultado direto
da repressão da libido. Em textos como “Sobre a justificação de destacar da
neurastenia uma síndrome específica denominada ‘neurose de angústia’”, 1895, e
nos “Estudos sobre a histeria”, 1895, ele distinguia a neurose atual ou de
angústia, da neurose psiconeurótica ligada a conflitos específicos.
Neurose atual (ou
neurose de angústia): angústia flutuante, sem objeto, causada por libido não
descarregada sexualmente (ex.: coito interrompido, abstinência prolongada). A
energia sexual não sublimada nem realizada transforma-se em angústia somática. Neurose
psiconeurótica (histeria, neurose obsessiva, fobia): angústia ligada a
conflitos psíquicos específicos, onde a libido reprimida se converte em
sintomas simbólicos.
As principais
neuroses identificadas eram: histeria de conversão, neurose obsessiva, fobia. Histeria
de conversão: conflito sexual reprimido convertido em sintomas corporais
(paralisias, anestesias, dores sem base orgânica). A angústia é descarregada no
corpo. Neurose obsessiva: conflitos entre desejo e proibição geram pensamentos
intrusivos, rituais compulsivos e dúvida patológica. A angústia surge da
ambivalência (amor/ódio simultâneo). Fobia: angústia deslocada para um objeto
ou situação externa (ex.: medo de animais, espaços abertos). O objeto fóbico
simboliza o desejo reprimido ou a ameaça de castração. Nessa fase, Freud
considerava a angústia como produto tóxico da libido não utilizada: quanto mais
libido reprimida, mais angústia.
Com a revisão de
1926, passamos a ter a segunda teoria da angústia. Em “Inibições, sintomas e
angústia”, Freud abandona a ideia de que a angústia é apenas consequência da
repressão e a redefine como sinal de perigo emitido pelo ego. A angústia passa
a ser protetora, não patológica em si. Ele identifica três tipos principais de
angústia: 1- realista, 2- neurótica e 3- moral.
Angústia real
(realistische Angst): reação normal a perigo externo (ex.: medo de um animal
selvagem).
Angústia neurótica
(neurotische Angst): medo de que as pulsões do id escapem do controle do ego
(ex.: medo de perder o controle e agir impulsivamente).
Angústia moral
(moralische Angst): angústia diante do superego (culpa, sentimento de
indignidade).
A angústia surge
quando o ego percebe uma ameaça de: 1- Sobrecarga pulsional (id), 2- Punição do
superego (culpa), 3- Perigo externo real.
A repressão /
recalque não causa angústia; é a angústia que motiva a repressão / recalque. O
ego usa defesas (recalque, negação, projeção etc.) para evitar o desprazer da
angústia. Quando as defesas falham, surge o sintoma neurótico.
Sigamos pela relação
com as neuroses específicas, no caso, neurose histerica, neurose obsessiva e
fobia.
Neurose Histerica:
defesa contra angústia de castração ou desejo edípico por conversão somática (o
corpo “fala” o conflito).
Neurose obsessiva:
defesa contra angústia moral e agressividade (rituais neutralizam a culpa e o
ódio).
Fobia: defesa por
deslocamento (a angústia é projetada em um objeto externo evitável).
A revisão de 1926
marca a maturidade da segunda tópica. O ego não é apenas vítima da repressão,
mas agente ativo que sinaliza perigo e mobiliza defesas. Isso muda a técnica
analítica: o analista deve ajudar o ego a tolerar angústia em vez de evitá-la,
fortalecendo sua capacidade de enfrentar o id e o superego. O livro também
explica por que algumas análises são longas ou intermináveis, apresentando como
causa resistências biológicas e pulsão de morte, já que dificultam a resolução
completa dos problemas apresentados pelo paciente.
Em síntese, a
teoria das neuroses e da angústia mostra o psiquismo como um sistema em
constante alerta: a angústia é o sinal de que o equilíbrio entre desejo, moral
e realidade está ameaçado. Freud, médico pragmático até o fim, vê na angústia
não uma doença, mas um mecanismo adaptativo que, quando mal gerido, gera
sofrimento neurótico. A revisão de 1926 consolida a visão de que a cura não
elimina a angústia, mas ensina o ego a suportá-la e a enfrentá-la com maior
autonomia.
18- Palavras
finais a título de conclusão
Afinal, a Psicanálise
é uma ciência? No sentido mais restrito do termo, a resposta seria negativa, já
que não é possível testar suas hipóteses visando refutá-las. Se o faço, minha
própria tentativa de refutação da teoria será abarcada pela teoria
psicanalítica e dentro dela explicada como uma demonstração de que seus
conceitos são válidos. Algo semelhante ocorre com o comunismo, como apresentado
nas obras de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), onde
qualquer tentativa de refutação de seus postulados fundamentais será analisada
dentro da teoria como mais uma comprovação da mesma e minha tentativa de
refutação será vinculada a questões já explicadas na teoria, questões estas que
motivariam minha tentativa de refutação de seus postulados, sejam estes os
presentes nas obras de Marx e Engels, comunismo, ou os presentes nas obras de
Freud, Psicanálise. No entanto, se a Psicanálise não se encaixa no papel
almejado por uma ciência, como o propõe, por exemplo, Karl Popper (1902-1994),
nem por isto a mesma deixa de ser importante e válida. A Psicanálise
influenciou e ainda influencia toda a cultura posterior a mesma, estando
presente em todos os campos do saber que possamos aqui elencar, dentre os quais
a arte, a filosofia, a linguagem, as ciências, a política, etc. Mas, se a Psicanálise
é assim tão importante e significativa mesmo não sendo uma ciência em sentido
restrito do termo, o que ela de fato é? Entendo que a Psicanálise não é uma
ciência, da mesma forma que a arte ou a filosofia também não são ciência e em
nada perdem de relevo ou importância cultural em seus distintos campos. A
classificação mais adequada para a Psicanálise seria de uma “antropologia
filosófica”, um estudo profundo e detalhado do homem (humano) por meio da
filosofia. Assim definindo, as coisas ficam mais claras e em nada perdem de seu
valor intrínseco e, sem a necessidade de experimentos que venham a comprovar ou
refutar hipóteses, podemos tranquilamente falar em “princípio do prazer”,
“princípio da realidade”, pulsões de morte ou auto-destrutivas (thanatos), um
polo pulsional (id) de prazer (libido) e morte, de romance familiar, de Édipo,
de narcisismo, de inconsciente, etc.
A Psicanálise
surge não como uma nova ciência visando estudar um determinado ramo do saber,
mas sim como uma especialidade médica visando o tratamento e cura de
comportamentos entendidos como decorrentes de uma doença, as neuroses. Teve um
êxito razoável junto às neuroses histéricas, menor junto as neuroses obsessivas
e questionável junto as demais anormalidades psíquicas, como o caso das
psicoses e psicopatias. O tratamento psicanalítico de diversos transtornos
mentais foi um marco em sua época e continua sendo hoje, mas cabe lembrar “O
futuro de uma ilusão”, 1927, e “Análise terminável e interminável”, 1937. Será
que somente a “religião” é uma ilusão, ou será que a própria Psicanálise com
sua audaciosa proposta de cura das neuroses é, ela mesma, uma ilusão? A Psicanálise
que começou falando em um tempo relativamente curto de tratamento e cura, teve
este tempo cada vez mais ampliado diante de seus pacientes até o ponto de nos
caber perguntar se de fato uma análise poderá terminar ou será realmente uma
empreitada interminável? Diante do confessionário religioso, outrora ocupado
por pessoas vinculadas a uma religião cristã e que tinham o poder de perdoar os
pecados, agora temos um outro altar, no qual o paciente deitado em um divã
relata seus pecados, mas sem a recompensa esperada de um perdão diante de
“deus”, o representante do “pai” primordial. Ao que se propôs a Psicanálise
enquanto método de tratamento quando de seu surgimento, hoje em dia temos
outras abordagens teóricas, que desde a Psicoterapia Individual, de Alfred
Adler, se preocupam muito menos com as origens e muito mais com a solução de
comportamentos que gerem problemas na vida social das pessoas (TRE – Terapia
Racional Emotiva; TC – Terapia Cognitiva; TC – Terapia Comportamental; TCC –
Terapia Comportamental Cognitiva; IE – Inteligência Emocional; PNL –
Programação Neurolínguística, etc.). A solução de um problema comportamental
não se encontra mais na Psicanálise e sim em outras abordagens, no entanto,
temos nela um forte método de autoconhecimento interior, de auto-descoberta e
entendimento das razões ocultas para nossas escolhas e comportamentos, mesmo
que isto não signifique a mudança dos mesmos.
Freud, em sua obra
“Uma dificuldade no caminho da Psicanálise”, 1917, e ecoando ideias semelhantes
em “O mal-estar na civilização”, 1930, descreve três grandes "feridas
narcísicas" infligidas à humanidade por descobertas científicas que
abalaram o ego coletivo. Essas ilusões quebradas representam, para ele, golpes
sucessivos no narcisismo humano, que tende a colocar este mesmo humano no
centro do universo como ser privilegiado e racional. A primeira ferida vem de
Nicolau Copérnico (1473-1543), cuja teoria heliocêntrica, exposta em “De
Revolutionibus Orbium Coelestium”, 1543, derrubou a ilusão geocêntrica: a Terra
não é o centro do cosmos, mas um planeta periférico orbitando o Sol, deslocando
o ser humano de sua posição cosmológica privilegiada. Essa descoberta,
consolidada por Galileu Galilei (1564-1642) no século XVII, feriu o orgulho
religioso e antropocêntrico da humanidade, que via o universo criado para si. A
segunda ferida é atribuída a Charles Darwin (1809-1882), com sua teoria da
evolução das espécies em “A Origem das Espécies”, 1859, que quebrou a ilusão de
que o humano é uma criação divina especial, separada dos demais animais. Darwin
mostrou que os seres humanos evoluíram de ancestrais comuns com outros
primatas, através de seleção natural, reduzindo o homem a uma espécie animal
entre outras, sujeita às leis biológicas e sem um "destino divino"
único. Finalmente, Freud se autodenomina responsável pela terceira ferida: a
descoberta do inconsciente, que abala a ilusão de que o humano é mestre de sua
própria mente e ações. Em obras como “A interpretação de sonhos”, 1900, e “O ego
e o id”, 1923, ele demonstra que o consciente é apenas a superfície, enquanto o
inconsciente (regido por desejos pulsionais, recalques e conflitos edípicos)
governa grande parte do comportamento, tornando o ego "não senhor em sua
própria casa". Para Freud, essas feridas representam o progresso
científico: cada uma destrói uma ilusão narcísica, mas permite uma visão mais
realista e madura da humanidade, embora gere resistência e sofrimento. Essa
tríade reflete o pessimismo freudiano tardio, onde o avanço cultural é sempre
pago com o preço da desilusão.
Assim, mais do que
uma ciência no sentido estrito, a Psicanálise permanece como uma das mais
profundas tentativas já elaboradas de compreensão do humano em sua complexidade
pulsional, simbólica e cultural.
Texto acessível
que sintetiza as ideias centrais sobre o funcionamento dos sonhos,
apresentando-os como realização disfarçada de desejos inconscientes, com
exemplos simples do cotidiano e uma introdução aos mecanismos de distorção
onírica. É um resumo de sua obra maior, “A interpretação de sonhos”, 1900.
2- Bruchstück
einer Hysterie-Analyse. Título traduzido: O caso Dora: Análise de fragmentos de
uma histeria. Data da primeira publicação: 1905 (1901).
Relato clínico de
uma jovem paciente com sintomas histéricos, onde Freud explora os conflitos
sexuais inconscientes, a transferência e os sonhos como vias de acesso ao
reprimido, ilustrando os primeiros passos da técnica psicanalítica.
3- Analyse der Phobie eines fünfjährigen Knaben. Título traduzido: O
pequeno Hans: Análise da fobia de um menino de cinco anos. Data da primeira
publicação: 1909.
Estudo de caso
infantil baseado em relatos do pai, que demonstra como medos fóbicos surgem de
complexos sexuais infantis, especialmente o complexo de castração, marcando uma
das primeiras aplicações da Psicanálise à infância.
4- Über
Psychoanalyse: Fünf Vorlesungen. Título traduzido: Cinco lições de Psicanálise.
Data da primeira publicação: 1910 (palestras proferidas em 1909).
Série de
conferências introdutórias proferidas na Clark University (EUA), oferecendo uma
visão panorâmica acessível da Psicanálise: origens com Breuer e histeria,
abandono da hipnose, interpretação dos sonhos, sexualidade infantil, neuroses e
transferência. Escrito de forma narrativa e didática, serve como excelente
síntese inicial para quem entra no universo freudiano.
5- Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse. Título traduzido:
Conferências introdutórias sobre a Psicanálise. Data da primeira publicação:
1915-1917.
Série de palestras
didáticas que expõem os fundamentos da Psicanálise, cobrindo atos falhos,
sonhos, repressão e neuroses, destinadas a um público amplo sem conhecimento
prévio.
6- Neue Folge der Vorlesungen zur Einführung in die
Psychoanalyse. Título
traduzido: Novas conferências introdutórias sobre Psicanálise. Data da primeira
publicação: 1933 (1932).
Continuação das
conferências anteriores, com temas mais avançados como a angústia, o feminino,
a pulsão de morte e visões gerais sobre a visão de mundo psicanalítica.
7- Abriss der
Psychoanalyse. Título traduzido: Esboço de Psicanálise. Data da primeira
publicação: 1940 (1938 - publicado postumamente)
Síntese concisa e
inacabada dos princípios fundamentais da Psicanálise, abordando o aparelho
psíquico, as pulsões, o desenvolvimento e a técnica terapêutica, como um
testamento teórico.
b- Nível
intermediário
8- Die
Traumdeutung. Título traduzido: A interpretação de sonhos. Data da primeira
publicação: 1900 (1899).
Obra fundacional
que estabelece os sonhos como a “via régia” ao inconsciente, detalhando o
conteúdo manifesto e latente, o trabalho do sonho e a realização de desejos
reprimidos.
9- Zur
Psychopathologie des Alltagslebens. Título traduzido: A psicopatologia da vida
cotidiana. Data da primeira publicação: 1901 (com edições ampliadas até 1904).
Análise de atos
falhos, lapsos verbais, esquecimentos e erros cotidianos como expressões de
conflitos inconscientes, mostrando que o inconsciente se manifesta na vida
normal.
10- Der Witz und seine Beziehung zum Unbewussten. Título traduzido: Os
chistes e sua relação com o inconsciente. Data da primeira publicação: 1905
Exploração do
humor como mecanismo de liberação de energia psíquica reprimida, comparando
técnicas do chiste com o trabalho do sonho e revelando processos inconscientes
no prazer cômico.
c- Nível avançado
11- Entwurf einer
Psychologie. Título traduzido: O projeto para uma psicologia científica. Data
da primeira publicação: 1895 (publicado postumamente em 1950).
Tentativa inicial
de fundamentar a psicologia em bases neurológicas, descrevendo o funcionamento
mental como descarga de energia, precursor das ideias de pulsão e repressão.
12- Drei
Abhandlungen zur Sexualtheorie. Título traduzido: Três ensaios sobre a teoria
da sexualidade. Data da primeira publicação: 1905.
Revolucionária
exposição da sexualidade infantil, perversões e fases do desenvolvimento libidinal,
argumentando que a sexualidade é central na formação da personalidade e das
neuroses.
13- Totem und
Tabu. Título traduzido: Totem e tabu. Data da
primeira publicação: 1912/1913.
Aplicação da Psicanálise
à antropologia, propondo origens inconscientes do tabu do incesto e do
totemismo a partir de um parricídio primitivo na horda original.
14- Zur Einführung
des Narzißmus. Título traduzido: Sobre o narcisismo: Uma introdução. Data da
primeira publicação: 1914.
Texto
metapsicológico fundamental que introduz o narcisismo como complemento libidinal
do egoísmo primitivo, distinguindo narcisismo primário (infantil, autoerótico)
e secundário (regressivo). Reformula a teoria da libido ao diferenciar libido
do ego e libido objetal, explora relações com o ideal do ego, psicoses e
autoestima, marcando uma transição crucial para a segunda tópica.
15- Das
Unheimliche. Título traduzido: O inquietante. Data da primeira publicação: 1919.
Investigação
estética e psíquica do sentimento de estranhamento, ligado ao retorno do reprimido,
ao duplo e ao familiar que se torna assustador.
16- Jenseits des
Lustprinzips. Título traduzido: Além do princípio do prazer. Data da primeira
publicação: 1920.
Introdução da
pulsão de morte como contraponto ao princípio do prazer, com conceitos como
compulsão à repetição e dualismo pulsional.
17-
Massenpsychologie und Ich-Analyse. Título traduzido: Psicologia das massas e
análise do ego, ou, Psicologia de grupo. Data da primeira publicação: 1921.
Análise dos
fenômenos coletivos pela identificação e libido, explicando líderes, igrejas e
exércitos como regressões a estruturas primitivas do ego.
18- Das Ich und
das Es. Título traduzido: O ego e o id. Data da primeira publicação: 1923.
Reformulação da
tópica psíquica em id, ego e superego, descrevendo conflitos internos e o papel
mediador do ego frente às pulsões e à realidade.
19- Hemmung,
Symptom und Angst. Título traduzido: Inibições, sintomas e angústia. Data da
primeira publicação: 1926.
Revisão da teoria
da angústia como sinal de perigo, diferenciando inibições, sintomas e
mecanismos de defesa na segunda teoria das neuroses.
20- Die Zukunft
einer Illusion. Título traduzido: O futuro de uma ilusão. Data da primeira
publicação: 1927.
Crítica
psicanalítica à religião como ilusão consoladora frente ao desamparo humano,
prevendo seu declínio com o avanço da ciência.
21- Das Unbehagen in der Kultur. Título traduzido: O
mal-estar na civilização. Data da primeira publicação: 1930 (1929).
Reflexão sobre o
conflito inevitável entre pulsões individuais e exigências culturais, com o
preço da repressão sendo o sofrimento civilizacional.
22- Die endliche und die unendliche Analyse. Título traduzido: Análise
terminável e interminável. Data da primeira publicação: 1937.
Discussão sobre os
limites da cura psicanalítica, fatores como resistência biológica e o “rocha
viva” (biologischer Fels) da castração ("rocha viva da castração" ou
"rochedo da castração" - em inglês, "bedrock of castration",
ponto de resistência fundamental e inalterável na análise: para o homem, o medo
da castração e rejeição da feminilidade como passividade; para a mulher, a
inveja do pênis e aceitação da falta).
23- Konstruktionen
in der Analyse. Título traduzido: Construções em análise. Data da primeira
publicação: 1937.
Exploração da
técnica de reconstruir fragmentos esquecidos da história do paciente,
comparando-a à arqueologia e discutindo sua validação indireta.
24- Der Mann Moses und die monotheistische Religion. Título traduzido:
Moisés e o monoteísmo. Data da primeira publicação: 1939 (redigido entre
1934-1938).
Hipótese
especulativa sobre Moisés como egípcio e o monoteísmo como trauma coletivo, com
retorno do reprimido na história judaica.