Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Alfred Adler: Biografia, Ideias Centrais e Contribuições para a Psicologia

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Alfred Adler

 

1- Vida

 

Alfred Adler (1870-1937) nasceu em Rudolfsheim (atual Rudolfsheim-Fünfhaus), Viena, Império Austro-Húngaro e faleceu aos 67 anos de idade em Aberdeen, Escócia. Segundo de sete filhos que teve o casal Leopold, um comerciante de cereais, e Pauline Adler, imigrantes judeus húngaros, de classe social baixa. Quando Adler nasceu, sua família vivia um momento de prosperidade financeira, que posteriormente foi mudado para dificuldades neste setor. A infância de Adler foi marcada pelo raquitismo que o acompanhou desde seu nascimento, o impedindo de correr e brincar normalmente com seus irmãos e outras crianças. Posteriormente, foi acometido por uma forte pneumonia e seu médico chegou a comunicar a seu pai que este não sobreviveria, isto por volta de seus cinco anos de idade. Na adolescência e juventude, Adler demonstrou resiliência ao superar suas limitações físicas, praticando esportes e estudos com determinação.

Tendo vivido sua infância nos arredores da cidade de Viena, após formar-se em medicina pela Universidade de Viena no ano de 1895, começou uma carreira como oftalmologista, mas passou a exercer a clínica geral em consultório privado. Especializou-se em oftalmologia e, posteriormente, em neurologia e psiquiatria. Em 1904 conjuntamente com suas duas filhas, converteu-se ao cristianismo protestante. Detalhe que algumas fontes registram que Adler converteu-se ao protestantismo (1904) com parte da família; há, porém, divergências na bibliografia sobre essa conversão.


 

Apesar das dificuldades, Adler cresceu em um ambiente que valorizava a educação, frequentando escolas locais e desenvolvendo um interesse precoce pela observação do comportamento humano, influenciado pela dinâmica familiar e pela sociedade vienense vibrante, mas cheia de tensões sociais e étnicas. Essa infância marcada por inferioridade orgânica e rivalidade com o irmão mais velho (que morreu jovem, deixando Adler com um senso de ser o "substituto inadequado") serviu como base para suas teorias posteriores sobre compensação criativa.

Adler ingressou na Universidade de Viena em 1888 para estudar medicina, graduando-se em 1895. Inicialmente, especializou-se em oftalmologia, abrindo uma clínica em Viena, mas logo expandiu para psiquiatria, atraído pelos problemas mentais ligados a condições sociais.

Casou-se no ano de 1897 com Raissa Timofeyewna Epstein (1872-1962), com quem teve quatro filhos (Valentine, Alexandra, Kurt e Nelly). Adler conheceu sua futura esposa participando de reuniões de um grupo socialista marxista na Universidade de Viena, quando este ainda era estudante de medicina. Adler comparecia regularmente às reuniões e debates, mas sua participação era mais de ouvinte do que de orador. Esse casamento o introduziu a ideias progressistas, incluindo o socialismo e o feminismo, que influenciaram sua ênfase no interesse social como motor da saúde mental. Nos anos iniciais de carreira, Adler trabalhou em hospitais e clínicas para os pobres, onde observou como desigualdades sociais exacerbavam problemas psicológicos, levando-o a publicar seu primeiro livro significativo em 1907, "Estudo sobre a Inferioridade dos Órgãos", onde introduziu o conceito de que deficiências físicas impulsionam compensações psicológicas criativas.

 

 

Adler era de origem judaica e sua formação foi a medicina com campo de atuação na psiquiatria. Vindo a conhecer Freud, se interessou pela Psicanálise, ocupando cargos elevados dentro do então nascente movimento psicanalítico em Viena, mas em 1911 tem um rompimento turbulento e público com o movimento capitaneado por Freud e funda sua própria Escola.

A associação com Sigmund Freud marcou um período importante na vida de Adler. Em 1902, ele foi convidado para o círculo de Freud após defender publicamente a Psicanálise em um artigo jornalístico, tornando-se um dos membros fundadores da “Sociedade Psicológica de Quarta-Feira”, que evoluiria para a “Sociedade Psicanalítica de Viena”. Adler rapidamente se destacou, tornando-se presidente em 1910, mas divergências ideológicas surgiram.

Essas diferenças culminaram em debates acalorados, e em fevereiro de 1911, Adler renunciou à presidência e deixou o grupo freudiano, uma ruptura formal que isolou Adler do establishment psicanalítico.

Conjuntamente com Freud, Adler foi editor da revista fundada por ambos, Zentralblatt für Psychoanalyse, até o ano de 1911, quando após uma carta de Freud na qual dizia que não seria mais possível ambos serem editores desta revista, em virtude das opiniões divergentes por eles apresentadas no tocante a teoria psicanalítica, Adler renuncia a continuar como editor da revista e também renuncia ao cargo de presidente da “Associação Psicanalítica de Viena”. Na sequência, durante uma das reuniões da “Sociedade Psicológica de Quarta-Feira” e após o anúncio de Freud que qualquer um que desta participasse teria de escolher se frequentava estas reuniões ou outras patrocinadas por Adler, reunião na qual nove membros preferiram deixar de participar das reuniões da sociedade das quartas-feiras. Adler fundou a "Sociedade para Psicologia Livre", 1911, que mais tarde trocou o nome por "Associação para Psicologia Individual" em 1912/1913 (há divergência nas fontes quanto à data). O nome “Psicologia Individual” reflete sua visão holística do indivíduo como unidade indivisível, não se trata de uma "Psicologia do Indivíduo", um erro comum que ignora o adjetivo "individual" como método de análise da totalidade.

Carl Gustav Jung (1875-1961), outro dissidente de Freud, analisou essa ruptura em termos de tipos psicológicos em sua obra de 1921, "Tipos Psicológicos". Jung descreveu Adler como introvertido, cuja energia flui do interior para o exterior, dando-lhe a impressão de que o indivíduo pode controlar o mundo por meio de esforços criativos, alinhando-se à sua teoria de superioridade compensatória. Em contraste, Freud era visto como extrovertido, com energia vindo dos objetos externos para o selbst (si-mesmo ou self), criando a sensação de ser controlado por circunstâncias como o complexo de Édipo ou o romance familiar (teoria psicanalítica). Essa análise de Jung destacou como as personalidades opostas tornaram a separação inevitável, com Adler representando uma psicologia mais otimista e ativa. Após a ruptura, Freud e seus discípulos efetivamente apagaram Adler da narrativa oficial da psicanálise, evitando citá-lo em publicações, o que marginalizou seu trabalho na Europa continental.

A escola fundada por Adler tinha sua maior força em Viena, enquanto a de Freud passou a ter um caráter internacional, o que implicou que com o advento do nazismo, a Escola de Adler sediada em Viena tivesse praticamente um fim súbito, com a perseguição de todos seus membros por parte do nazismo.

Enquanto Freud enfatizava pulsões sexuais e o inconsciente como forças determinantes, Adler via o comportamento humano como impulsionado por sentimentos de inferioridade e esforços para superioridade social, priorizando o consciente e o futuro teleológico sobre o passado causal.

Com a consolidação da Psicologia Individual, Adler dedicou-se a expandi-la globalmente. Em 1914, durante a Primeira Guerra Mundial, serviu como médico militar, aplicando suas teorias em tratamentos de soldados traumatizados, o que reforçou sua crença na educação como prevenção de neuroses. Nos anos 1920, ele fundou clínicas de orientação infantil em Viena, envolvendo educadores e pais em abordagens cooperativas, e publicou obras como "Conhecimento do Homem" (1927), que popularizaram suas ideias para leigos. Adler viajou extensivamente, palestrando na Europa e nos Estados Unidos, onde ganhou popularidade entre educadores e psicólogos.

Sua ênfase na comunidade e na coragem social contrastava com o individualismo crescente, influenciando movimentos educacionais progressistas. Adler morreu subitamente em 28 de maio de 1937, em Aberdeen, Escócia, durante uma turnê de palestras, aos 67 anos, de um ataque cardíaco.

Com o crescimento do nazismo na Europa, por volta de 1934, Adler emigra com a família para os EUA. Adler lecionou na Long Island College of Medicine e continuou consultorias. Entre os anos de 1929 e 1937 atuou como professor na Universidade de Columbia. A partir de 1932, passou a atuar como professor convidado de psicologia médica na universidade de Long Island.

Com a separação de Freud suas ideias migraram para os Estados Unidos por meio de imigrantes e influenciaram terapias modernas sem crédito explícito, como a “TC - Terapia Cognitiva” de Albert Ellis, a “TRE - Racional-Emotiva”, a familiar e a de grupo, com figuras como Karen Horney e Erich Fromm adotando conceitos como o complexo de inferioridade e o interesse social. Essa apropriação continuou até o ressurgimento de Freud na década de 1960, impulsionado por Jacques Lacan, que restaurou uma psicanálise "pura" e determinista, contrastando com o legado prático e humanista de Adler. Seu legado, embora inicialmente ofuscado, persiste na psicologia humanista, na educação inclusiva e em terapias que priorizam o potencial criativo humano, provando que, apesar do apagamento histórico, suas ideias moldaram silenciosamente o século XX.

Em retrospectiva, a vida de Adler revela um paradoxo histórico fascinante. Carl Jung, ao analisar a ruptura de 1911 em termos de tipos psicológicos, capturou a essência: Adler, introvertido, projetava energia criativa para o exterior, acreditando no poder do indivíduo de moldar o mundo; Freud, extrovertido, sentia-se determinado por forças externas, como pulsões e traumas. Freud, vitorioso no establishment, apagou Adler da narrativa oficial da Psicanálise, evitando citá-lo e incentivando discípulos a fazerem o mesmo. No entanto, as ideias adlerianas migraram silenciosamente para os Estados Unidos, influenciando terapias cognitivas, racional-emotivas, familiares e de grupo, com figuras como Karen Horney e Erich Fromm adotando o complexo de inferioridade e o interesse social sem sempre creditar a fonte original. Essa apropriação perdurou até os anos 1960, quando Jacques Lacan restaurou uma psicanálise freudiana "pura" e determinista na Europa. Adler, o fantasma vencedor, perdeu a guerra da historiografia, mas moldou o século XX de forma invisível: suas concepções de coragem social e compensação criativa persistem na psicologia humanista e na educação inclusiva, provando que, apesar do exílio e do esquecimento imposto, ele foi o arquiteto silencioso de uma visão mais otimista do potencial humano.

 

2- Ideias

 

Enquanto para Freud as experiências vividas na primeira infância e a sexualidade infantil determinavam a formação da personalidade do adulto e suas possíveis neuroses, para Adler temos um destaque não para o passado ou para o inconsciente e sim para o futuro e para o ego. Há realmente uma real ruptura com as ideias de Freud, deslocando o foco principal do o inconsciente / desejos / sexualidade, para o consciente. Saímos de um inconsciente determinista da vida, presente em Freud, para um consciente criativo que apresenta um futuro numa relação teleológica com o indivíduo dentro da sociedade na qual vive.

Enquanto Freud via o ser humano como prisioneiro de pulsões reprimidas do passado, Adler entendia a personalidade como uma construção ativa, orientada por metas que o sujeito cria para navegar pela vida. Essa abordagem otimista parte da premissa de que todo comportamento humano tem uma finalidade: não se trata de ser impulsionado cegamente por forças internas, mas de dirigir-se conscientemente para objetivos que dão sentido à existência. Adler rejeitava o reducionismo sexual de Freud e enfatizava o papel da interação social, da coragem e da cooperação como chaves para a saúde mental.

Segundo Adler o “princípio condutor de todas as neuroses” ou a “ficção condutora” (guiding fiction ou Leitfaden/Leitillusionse) se dá pelo pensamento “Eu quero ser um homem completo”. Todos os impulsos e perversões sexuais se mostram subordinados a este princípio fundamental. Conceitos iniciais que Adler refinou ao longo da carreira, priorizando o social sobre o gênero. Adler evoluiu para Gemeinschaftsgefühl (sentido ou sentimento de comunidade).

Existe uma “meta masculina” para o qual o neurótico se direciona a partir de profundos sentimentos de inferioridade e da necessidade de superar tais sentimentos, neutralizando-os e, deste modo, tornando para o neurótico a vida algo suportável.

O conceito de “sentimento de comunidade”, Gemeinschaftsgefühl, um dos principais conceitos desenvolvidos por Adler, foi construído a partir da própria vivência do autor, diante de seus problemas, de seu ambiente familiar, de seus colegas de rua e de escola, bem como posteriormente, com as relações estabelecidas com seus colegas de trabalho e pacientes. Adler nutriu a preocupação com a reconstrução social da educação em seu país a partir da construção e desenvolvimento deste conceito. Somente pelo sentimento de comunidade o indivíduo pode perceber o mundo ao seu redor a partir de seu referencial interno, formar laços afetivos e relações íntimas e duradouras necessárias à formação da personalidade.

No cerne de tudo está o sentimento (ou sentido) de comunidade (Gemeinschaftsgefühl), o critério último de saúde mental. O indivíduo saudável sente-se parte integrante da humanidade, orientando seu esforço para superioridade de forma útil aos outros. Sem esse sentimento, o esforço torna-se egoísta ou destrutivo, gerando neuroses ou criminalidade. O estilo de vida, por sua vez, é a expressão única dessa orientação: um padrão criativo que integra inferioridade, compensação e metas sociais.

As dificuldades que o sujeito neurótico enfrenta são decorrentes de uma inferioridade constitucional, ou seja, a inferioridade percebida de algum órgão ou sistema de órgãos. Esta percepção de inferioridade há de se manifestar em vários campos da vida da pessoa: vocação, profissão, sonhos, atividades artísticas, etc. A inferioridade do órgão pode ser dividida em dois grupos: morfológico e funcional.

No grupo funcional temos que a partir de um defeito funcional passamos a descoberta de alguma anomalia funcional. Aqui passamos a ter uma insuficiência, seja esta quantitativa ou qualitativa, demonstrada no trabalho em relação e eficiência buscada. O organismo busca compensar esta deficiência percebida utilizando mais intensamente outro órgão ou exercitando aquele que é percebido como de algum modo prejudicado. Mesmo as pessoas mais brilhantes de uma sociedade podem, em verdade, estarem compensando uma incapacidade percebida por elas em seu cérebro ou inteligência. Deste modo, pode ocorrer algo a semelhança de um indivíduo que se percebe como sendo muito fraco e fisicamente sub-desenvolvido, que passa grande parte de seu tempo de vida em academias exercitando seu corpo, de modo que, com o passar do tempo, passa a possuir um corpo muito mais bem desenvolvido do que a média das pessoas. O gago Demóstenes transformou-se no maior orador da Grécia antiga, compensando uma inferioridade por ele percebida em si.

A posse de um órgão tido como inferior pode resultar em baixa auto-estima e neuroses, gerando incertezas emocionais e cognitivas no indivíduo. Isto também pode resultar em uma luta por auto-afirmação, visando superar a baixa auto-estima. Segundo o pensamento de Adler, a neurose é um ato criador e não a regressão a modos infantis de sua vida.

A condição humana se caracteriza por uma eterna luta do menos para o mais, do menor para o maior, pela presença constante de um sentimento de inferioridade que o pressiona em direção à superação e conquista, segurança e uma situação melhor que a atual, numa verdadeira rebelião contra a natureza em busca do desenvolvimento e superação.

Um dos pilares centrais da obra de Adler é o complexo de inferioridade. Adler observava que todo ser humano nasce em um estado de dependência e limitação (física, emocional ou social) que gera um sentimento universal de inferioridade. Longe de ser patológico em si mesmo, esse sentimento é o motor do desenvolvimento: ele impulsiona o indivíduo a buscar compensações. Quando bem direcionada, essa compensação torna-se criativa e construtiva, levando a realizações extraordinárias. Exemplos clássicos citados pelo próprio Adler incluem Demóstenes, que superou a gagueira para tornar-se o maior orador da Grécia Antiga; Beethoven, que compôs obras-primas apesar da surdez progressiva; Franklin Roosevelt, que, acometido pela poliomielite, chegou à presidência dos Estados Unidos por quatro mandatos; e Helen Keller, cega e surda, que se transformou em autora e ativista mundialmente reconhecida. Esses casos ilustram como a inferioridade pode ser transmutada em força quando o esforço é canalizado para metas úteis à sociedade.

O sentimento de inferioridade, ao impulsionar a compensação, dá origem ao que Adler denominou esforço para superioridade (Streben nach Überlegenheit), um conceito central e eminentemente positivo em sua teoria. Trata-se de uma força motriz universal, criativa e construtiva, que impulsiona o indivíduo a superar limitações e buscar realização. Quando direcionado de forma saudável, esse esforço integra-se ao sentido (sentimento) de comunidade, transformando a energia pessoal em contribuições valiosas para o coletivo. Adler via nesse movimento ascendente não uma busca patológica por domínio, mas a essência do desenvolvimento humano: uma aspiração corajosa à excelência que beneficia tanto o indivíduo quanto a sociedade.

Detalhe, não existe o assim chamado “complexo de superioridade”, trata-se de um erro motivado por uma leitura e interpretação errônea da obra de Adler e continuadores. Muitos confundem o conceito adleriano com um suposto “complexo de superioridade”, mas Adler nunca empregou esse termo. O que parece arrogância ou vaidade excessiva não é um complexo autônomo, mas uma fachada neurótica: uma tentativa defensiva de mascarar sentimentos profundos de inferioridade. O indivíduo neurótico exibe superioridade aparente para evitar o confronto com sua insegurança, desviando o esforço natural para caminhos destrutivos ou evasivos.

Aqui reside uma das críticas recorrentes à distorção popular: o mito de que Napoleão Bonaparte teria compensado uma pretensa baixa estatura com ambições imperiais. Na realidade, Napoleão media cerca de 1,68 metro (acima da média francesa da época, que girava em torno de 1,65 metro) e sua trajetória reflete mais uma compensação criativa a partir de inferioridades reais, como origem corsa em um contexto francês dominador e pobreza familiar inicial. Adler nunca citou Napoleão como exemplo negativo; seus casos positivos sempre destacavam a transformação construtiva.

Outro conceito fundamental é a ordem de nascimento e sua influência na formação do estilo de vida. Adler foi pioneiro ao observar que a posição na sequência familiar molda expectativas e estratégias psicológicas precoces. Segundo Adler, a ordem de nascimento dos filhos afeta o comportamento e personalidade destes. O filho mais velho, frequentemente mimado inicialmente, pode desenvolver insegurança ao ser “destronado” pelo nascimento de irmãos, tornando-se conservador ou ressentido. O segundo filho tende a ser mais competitivo, impulsionado pelo desejo de superar o primogênito (o próprio Adler, segundo filho da família, identificava-se nessa posição). O terceiro, ou filhos intermediários, muitas vezes se tornam mediadores habilidosos, enquanto o caçula pode permanecer mimado ou rebelde. Essas tendências não são deterministas, mas oferecem pistas valiosas para compreender como o indivíduo constrói seu estilo de vida único, um padrão criativo de respostas aos desafios existenciais, forjado na infância e mantido ao longo da vida.

A civilização ocidental ao valorizar o poder social exercido pelo macho da espécie proporciona para os meninos e as meninas a criação de um “ideal masculino” a ser alcançado. As mulheres tendem a demonstrar descontentamento com sua condição feminina dentro da sociedade, gerando um forte sentimento de inferioridade dentro de um mundo dominado por homens. Em verdade, a superioridade masculina é um dogma social que não precisa ser assim e pode mudar. Caso tenha ocorrido sociedades matriarcais no passado histórico isto só mostraria que não se trata de algo imodificável.

Adler entende como errada a etiologia sexual em Freud motivando os comportamentos doentios e as demais ações da pessoa no decorrer de sua vida, para Adler não é o sexo ou a sexualidade e sim a luta pelo objetivo masculino imaginário que determina o surgimento das neuroses. O prazer se mostra como secundário para o neurótico. No neurótico o sexo e qualquer outra coisa mais, se desenvolve enquanto meio para atingir um dado fim, que é o objetivo masculino imaginário, única e total finalidade do comportamento da pessoa no decorrer de sua vida desde a infância. As relações sexuais mantidas pela pessoa têm como objetivo estabelecer quem manda.

O que começou com a inferioridade do órgão evoluiu no pensamento de Adler para um sentimento humano universal de inferioridade cujas origens se encontram na própria infância, diante do sentimento de ser pequeno, indefeso, desamparado e mesmo, por vezes, no tratamento dado pelos pais, demonstrando atitudes de falta de carinho, negligência e de ridicularizar comportamentos ou situações que envolvam a criança. Diante deste sentimento de inferioridade a criança se desenvolve buscando ampliar seu domínio sobre o próprio eu e as pessoas e ambiente ao seu redor de modo a sentir-se superior, apesar de sua mais profunda inferioridade sentida.

Diante de uma sociedade que valoriza o macho e desvaloriza a fêmea da espécie, surge o “protesto masculino” que é a luta do menos para o mais, do inferior para o superior. Uma tendência social para lutar para atingir o ideal masculino. Impulso este mais presente nas mulheres em virtude de sua posição social, mas também presente em todas as pessoas consideradas fracas.

A doença também pode ser uma forma de infringir o mando a outras pessoas. Ao se refugiar em uma doença psíquica a pessoa pode conseguir aumentar o seu poder sobre outros, dominando por meio de sua impotência e, deste modo, forçando os demais a se comprometerem com comportamentos que se vinculam à impotência ocasionada pela doença da primeira pessoa. Trata-se aqui de um ganho real da pessoa por estar doente.

Adler entendia que o indivíduo deva ser estudado em sua totalidade e integrado à sociedade. Segundo seu pensamento, as pessoas são motivadas por questões oriundas do meio social e atuam por meio de promoção e cooperação em atividades que envolvam relações com outras pessoas, deste modo, cabe priorizar o bem estar social como estando acima dos interesses egoístas do indivíduo isolado.

Segundo a teoria da personalidade (que este chamava por estilo de vida) de Adler as pessoas possuem um natural sentimento de inferioridade que buscam compensar. Chamou a este sentimento e seu desenvolvimento no indivíduo de “complexo de inferioridade”. Na tentativa de compensar esta inferioridade percebida, a pessoa entra em atividades compensatórias e na busca do poder, domínio, superioridade. Tal comportamento pode se dar por meio de atividades de interesse social no bem comum. A criança quando nasce e nos primeiros anos de vida, quando comparada com adultos maiores e mais hábeis, tende a desenvolver um sentimento de inferioridade, cuja superação será sua principal meta na vida.

Adler também classificou quatro tipos principais de estilo de vida, baseados na atitude perante os desafios da existência: o tipo socialmente útil, que coopera e contribui; o tipo dominante, que busca poder sobre os outros; o tipo que adquire ou aprende, orientado para obter benefícios; e o tipo que evita, que foge das responsabilidades por medo do fracasso. Esses padrões, embora não rígidos, ilustram como o indivíduo organiza sua relação com o mundo. Em resumo, segundo Adler, existem quatro tipos de personalidade, com base no estilo de vida adotado pela pessoa, a saber: 1- O tipo socialmente útil, 2- O tipo dominante, 3- O tipo que adquire ou aprende, 4- O tipo que evita.

A abordagem psicoterapêutica desenvolvida por Adler era intervencionista e educacional, bem como, de curta duração. O foco se dava na condução do paciente para a percepção do seu “estilo de vida” (um padrão de respostas a situações / personalidade) e a orientação visando a resolução de seus problemas e melhora em sua vida. Neste tocante, a ênfase se dá no ego e não no inconsciente. O terapeuta incentivava ações por parte do paciente visando superar seu sentimento de inferioridade. Exemplo: Imaginemos um paciente que se sinta muito inferiorizado por ter de usar óculos. Este poderia ser orientado a trocar seus óculos por lentes de contato.

Adler entende que a personalidade humana se desenvolve enquanto processo ativo e criativo. As pessoas atribuem significado às experiências de sua vida, não sendo meras vítimas passivas dos acontecimentos, da hereditariedade e do ambiente no qual vivem. As pessoas atuam como construtores e interpretes ativos daquilo que vivem em sua realidade. O indivíduo se relaciona com o mundo externo a sua volta sempre por meio de sua própria interpretação de si-mesmo e dos problemas que está vivenciando no momento, nunca como se fosse algo predeterminado e imodificável. A herança genética e biológica, bem como social e familiar, proporciona ao indivíduo as capacidades, mas cabe ao modo individual de cada pessoa como lidará com isto, sua atitude perante a vida, isto que determinará sua relação com o mundo circundante. Cada indivíduo é único e capaz de produzir significados próprios e agir de modo singular, de onde provém seu próprio desenvolvimento.

Podemos falar em uma perspectiva teleológica para o comportamento na obra de Adler, já que este entende que o comportamento humano é orientado para objetivos ou propósitos específicos, que as ações são motivadas pelas expectativas, desejos e objetivos da pessoa. Por sua vez, os objetivos que uma pessoa possui são decorrentes de sua vivência, de sua história de vida e do desenvolvimento de sua personalidade.

Talvez o aspecto mais revolucionário seja a visão de Adler sobre psicoterapia como educação reorientadora. Para ele, curar e educar são processos idênticos: ambos visam encorajar o indivíduo a substituir metas inadequadas por objetivos construtivos, alinhados ao bem-estar social. A neurose não é uma doença misteriosa, mas um erro de direção, fruto de educação deficiente na infância (autoritária ou superprotetora) que inibe a coragem e o sentido de comunidade. A terapia adleriana, portanto, é breve e prática: identifica o estilo de vida, interpreta lembranças precoces como indicadores de metas fictícias e estimula o paciente a desenvolver coragem para contribuir com a sociedade. Essa ênfase educacional levou Adler a fundar clínicas de orientação infantil em Viena, onde professores e pais eram treinados para fomentar cooperação em vez de competição destrutiva. Talvez o aspecto mais revolucionário da contribuição adleriana seja a concepção de que psicoterapia e educação são processos essencialmente idênticos. Adler insistia que curar uma neurose nada mais é do que reeducar o indivíduo, orientando-o para substituir metas fictícias e inadequadas por objetivos construtivos e socialmente úteis. Essa abordagem preventiva e interventiva via educação marca uma ruptura profunda com a psicanálise freudiana, que escavava o passado em sessões longas e introspectivas. Para Adler, a terapia é breve, prática e encorajadora: identifica erros de direção no estilo de vida, interpreta lembranças precoces como pistas de metas errôneas e estimula a coragem necessária para a cooperação. Essa visão levou-o a fundar clínicas de orientação infantil em Viena nos anos 1920, onde pais e professores eram treinados para fomentar ambientes de encorajamento mútuo, prevenindo neuroses por meio da educação cooperativa em vez de autoritária ou superprotetora. Assim, a Psicologia Individual não se limita à clínica, mas propõe uma reforma social pela educação, tornando-a instrumento de saúde mental coletiva.

A comparação com Freud revela abismos profundos. Na primeira tópica freudiana (1900-1923), o inconsciente reina supremo; Adler, ao contrário, trabalha quase exclusivamente no nível do consciente, onde o indivíduo conhece suas metas, ainda que as mascare. Com a segunda tópica (a partir de 1923), Freud prioriza o Id como reservatório de pulsões (Trieb); Adler centra-se no Ego como força criativa, capaz de direcionar o esforço (Streben) para fins escolhidos. A abordagem freudiana é eminentemente causal (a neurose surge de traumas passados reprimidos), enquanto a adleriana é teleológica: os sintomas servem a uma finalidade atual, geralmente evasiva, como evitar responsabilidades ou manter uma posição de superioridade fictícia. Pergunta freudiana: “Por quê isso aconteceu?”; pergunta adleriana: “Para quê isso serve agora?”.

Em conclusão, as ideias de Adler ecoam surpreendentemente a filosofia de Friedrich Nietzsche, mas de forma prática e suavizada. A “vontade de potência” nietzschiana transforma-se no esforço para superioridade; o Übermensch surge na compensação criativa que eleva o indivíduo e a comunidade; o eterno retorno reflete o estilo de vida como escolha consciente e repetível. Não por acaso, após a ruptura com Freud, intelectuais influenciados por Nietzsche (como Stekel e Rank) migraram para Adler, reconhecendo nele o pensador que tornava acessível a criação de valores próprios em contexto social. Enquanto Freud escarava o passado pulsional, Adler (fiel ao espírito nietzschiano terapêutico) construía pontes para um futuro de coragem cooperativa. Suas ideias não apenas anteciparam a psicologia humanista, mas ofereceram uma visão otimista do ser humano como arquiteto consciente de seu destino em sociedade.

Para aprofundar-se verdadeiramente na Psicologia Individual, três obras revelam-se indispensáveis, formando o núcleo teórico e prático do pensamento adleriano: “Sobre o caráter neurótico”, 1912, onde Adler delineia os fundamentos da teoria, incluindo o estilo de vida e a compensação; “Prática e teoria da psicologia individual”, 1920, um manual clínico que sistematiza técnicas terapêuticas e a análise teleológica; e “O que a vida deveria significar para você”, 1931, síntese acessível e filosófica que enfatiza o sentimento (sentido) de comunidade como propósito existencial. Essas obras não apenas condensam décadas de evolução conceitual, mas oferecem ao leitor ferramentas práticas para compreender e aplicar a visão otimista de Adler sobre o potencial humano.

 

3- Algumas das principais obras de Adler

 

1- Título original: Studie über Minderwertigkeit von Organen. Título traduzido para o português: Estudo sobre a inferioridade dos órgãos. Data da primeira publicação: 1907.

Nesta obra inicial, Adler examina as compensações psicológicas decorrentes de deficiências orgânicas, introduzindo o conceito de "inferioridade orgânica" como motor do desenvolvimento humano, onde o indivíduo busca superar limitações físicas por meio de esforços criativos e adaptações mentais.

2- Título original: Über den nervösen Charakter. Título traduzido para o português: Sobre o caráter neurótico. Data da primeira publicação: 1909 (edição revisada em 1912 como Über den nervösen Charakter: Grundzüge einer vergleichenden Individualpsychologie).

Adler delineia os fundamentos da Psicologia Individual, descrevendo a neurose como uma estratégia de vida defeituosa para lidar com sentimentos de inferioridade, enfatizando o estilo de vida único de cada pessoa e a importância da interação social no tratamento.

3- Título original: Heilen und Bilden. Título traduzido para o português: Curar e educar. Data da primeira publicação: 1914.

Focada na educação como forma de prevenção e cura, a obra defende a intervenção precoce na infância para corrigir erros no estilo de vida, integrando psicologia e pedagogia para promover o desenvolvimento saudável e a cooperação social.

4- Título original: Praxis und Theorie der Individualpsychologie. Título traduzido para o português: Prática e teoria da psicologia individual. Data da primeira publicação: 1920 (compilação de ensaios).

Coleção de textos que sistematiza a teoria e a prática clínica, detalhando técnicas como a análise do estilo de vida, o uso de sonhos e a reeducação da personalidade para superar neuroses e fomentar a "utilidade social".

5- Título original: Menschenkenntnis. Título traduzido para o português: Conhecimento do homem. Data da primeira publicação: 1927.

Uma síntese acessível da Psicologia Individual para o público leigo, Adler explica conceitos como complexo de inferioridade, esforço para a superioridade e o papel da ficção social, ilustrando como compreender o comportamento humano para melhorar relações interpessoais.

6- Título original: Probleme der Homosexualität. Título traduzido para o português: Problemas da homossexualidade. Data da primeira publicação: 1927.

Adler interpreta a homossexualidade como uma variação do estilo de vida influenciada por experiências infantis de inferioridade e rejeição masculina, defendendo uma abordagem terapêutica não punitiva que visa a adaptação social e o autoconhecimento.

7- Título original: Individualpsychologie in der Schulpraxis. Título traduzido para o português: Psicologia individual na prática escolar. Data da primeira publicação: 1929.

Aplicação prática da teoria adleriana na educação escolar, com orientações para professores identificarem e corrigirem padrões de inferioridade nos alunos, promovendo ambientes de cooperação e incentivando o desenvolvimento de metas sociais construtivas.

8- Título original: The Science of Living. Título traduzido para o português: A ciência de viver. Data da primeira publicação: 1929 (publicada originalmente em inglês).

Introdução popular à Psicologia individual, Adler enfatiza o "sentimento (sentido) de comunidade" como base para uma vida saudável, oferecendo conselhos práticos para superar inseguranças e cultivar coragem em contextos cotidianos.

9- Título original: The Education of Children. Título traduzido para o português: A educação das crianças. Data da primeira publicação: 1930 (publicada originalmente em inglês).

Guia para pais e educadores, criticando métodos autoritários e propondo uma educação baseada em encorajamento, cooperação e compreensão das metas infantis, para prevenir o desenvolvimento de estilos de vida neuróticos.

10- Título original: The Pattern of Life. Título traduzido para o português: O padrão da vida. Data da primeira publicação: 1930 (publicada originalmente em inglês).

Exploração do "padrão criativo" do estilo de vida, Adler mostra como escolhas precoces moldam a personalidade adulta, incentivando a reorientação consciente para uma vida orientada ao social e ao progresso coletivo.

11- Título original: What Life Should Mean to You. Título traduzido para o português: O que a vida deveria significar para você. Data da primeira publicação: 1931 (publicada originalmente em inglês).

Uma das obras mais influentes e acessíveis, Adler discute o propósito da vida como serviço à comunidade, abordando temas como amor, trabalho, amizade e inferioridade, com exemplos práticos para uma existência corajosa e significativa.

12- Título original: The Technique of Individual Psychology (posthumous, based on lectures). Título traduzido para o português: A técnica da Psicologia Individual. Data da primeira publicação: 1947 (póstuma, compilação de palestras).

Compilação de aulas sobre métodos terapêuticos, incluindo interpretação de movimentos corporais, ordem de nascimento e lembranças iniciais, servindo como manual prático para formar analistas adlerianos.

13- Título original: Problems of Neurosis (posthumous). Título traduzido para o português: Problemas da neurose. Data da primeira publicação: 1964 (póstuma, compilação de ensaios).

Análise profunda das neuroses como expressões de metas inadequadas, Adler oferece insights sobre terapia breve e reeducação, destacando a importância da atividade imediata para superar padrões de evasão e desânimo. Nesse contexto, discute quatro tipos de personalidade baseados no estilo de vida (o socialmente útil, o dominante, o que adquire ou aprende, e o que evita), e como a ordem de nascimento dos filhos afeta o comportamento e a personalidade, ilustrando esses elementos por meio de casos clínicos.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Edmund Husserl: O Fundador da Fenomenologia Transcendental

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Edmund Husserl

 

1- Vida

 

Edmund Gustav Albrecht Husserl (1859-1938) nasceu em Prossnitz, Moravia, no então Império Austríaco, e hoje Prostejov, na República Tcheca, em 8 de abril de 1859 e faleceu em 27 de abril de 1938, em Freiburg im Breisgau, na Alemanha.

O filósofo Husserl teve uma formação inicial profundamente matemática e lógica, desenvolvendo sua filosofia a partir deste ponto. Husserl é considerado o fundador da Fenomenologia. Proveniente de uma família judaica, foi batizado na Igreja protestante luterana no ano de 1886. Seus pais estavam envolvidos no comércio têxtil e sua família era de classe média, valorizando a educação formal. Durante sua infância e adolescência a e educação religiosa esteve presente, mas ao final de seus estudos básicos já demonstrava interesse e aptidão para as ciências e o raciocínio lógico-matemático. No ano de 1887, casou-se com Malvine Steinschneider (1861-1950), filha de um professor do ensino secundário de Prossnitz, de origem judia e convertida ao protestantismo, com quem teve três filhos: Elisabeth, Gerhart e Wolfgang. Essa união proporcionou estabilidade pessoal, permitindo que Husserl se dedicasse à academia, enquanto Malvine gerenciava o lar e, mais tarde, preservaria parte de seu legado intelectual.


 

Husserl sofre influência em seus estudos da abordagem em matemática de Karl Weierstrass (1815-1897) e Leo Königsberger (1837-1921) e em filosofia, das ideias de Franz Brentano (1838-1917) e Carl Stumpf (1848-1936). Os estudos em matemática começaram na Universidade de Leipzig, 1876, onde estudou matemática, física e astronomia por dois anos, e depois em Berlim, 1878, onde aprofunda seus estudos em análise matemática e teoria dos números, refinando sua habilidade em lidar com conceitos abstratos. A partir de 1881 começa a estudar em Viena e obtém seu doutorado em 1883 com a tese Beiträge zur Variationsrechnung ("Contribuições ao cálculo das variações").

A virada decisiva para a filosofia ocorreu entre 1884 e 1886, quando Husserl frequentou as palestras de Franz Brentano em Viena, um filósofo que enfatizava a intencionalidade da consciência e a distinção funcional entre atos mentais e objetos. Brentano, com sua abordagem descritiva da psicologia, inspirou Husserl a abandonar uma carreira puramente matemática e explorar as fundações lógicas do conhecimento.

Em 1884, passa a dedicar-se mais intensamente à filosofia, frequentando as aulas de Brentano e Stumpf. Em 1886, indicado por Brentano e sob tutoria de Carl Stumpf se prepara para a habilitação na Universidade de Halle. Ali Husserl desenvolve e escreve Über den Begriff der Zahl ("Sobre o Conceito do Número", 1887) que lhe fornecerá a base para a elaboração de sua importante obra Philosophie der Arithmetik ("Filosofia da Aritmética", 1891). Em 1887 atuou como Privatdozent na Universidade de Halle-Wittenberg. Posteriormente, em 1901 foi professor na Universidade de Göttingen e em 1916 na Universidade de Friburgo, na qual ficou até 1928, quando se aposentou. Após sua aposentadoria dedicou-se a palestras que se tornaram célebres (Paris, 1929 – Praga, 1935). A partir de 1933 sofreu a perda de seus privilégios acadêmicos em virtude da ascensão do nazismo na Alemanha. Morre em Friburgo no ano de 1938.

Os anos finais de Husserl foram assombrados pelo contexto político da Alemanha nazista. Em 1933, devido às leis antissemitas do regime, apesar de sua conversão e do serviço militar de seu filho durante a Primeira Guerra Mundial (Husserl perdeu um filho, Wolfgang, em 1916, durante o conflito), Husserl foi proibido de usar a biblioteca universitária e de participar de eventos acadêmicos oficiais por sua origem judia. Aposentado compulsoriamente, ele continuou a trabalhar em particular, produzindo obras como "Lógica Formal e Transcendental",1929, "Meditações Cartesianas", 1931, e "A Crise das Ciências Europeias", 1936, na qual diagnosticava a perda de sentido na racionalidade ocidental. Sua saúde declinou, e em 27 de abril de 1938, aos 79 anos, Husserl faleceu em Freiburg de pleurisia, deixando um vasto arquivo de manuscritos inéditos. Sua esposa Malvine e assistentes como Ludwig Landgrebe preservaram parte desse material, mas muitos foram ameaçados pela Gestapo; felizmente, o franciscano Herman Leo Van Breda os transportou para Louvain, na Bélgica, fundando o Arquivo Husserl, que garantiu a perpetuação de seu legado.

Influências como as de Gottlob Frege, cuja obra o alertou para os perigos do psicologismo, e de Wilhelm Dilthey, com sua ênfase na historicidade, enriqueceram seu pensamento, embora Husserl mantivesse uma postura crítica em relação ao historicismo e ao relativismo. Sua pesquisa e análises desenvolvidas no correr de sua obra filosófica foram críticas ao Positivismo e ao Nominalismo e se colocaram em um diálogo crítico com as ideias e a obra de Kant.

A vida de Husserl reflete uma jornada de busca incansável pela clareza e rigor no pensamento, influenciando gerações de filósofos na tradição continental. Seu compromisso com a fenomenologia como ciência rigorosa das essências transcendentes não apenas exerceu forte influência na filosofia que a ele se seguiu, mas também ecoou em campos como a psicologia, a sociologia e a hermenêutica, apesar dos desafios pessoais e históricos que enfrentou. Sua vida, marcada pela transição de matemático a filósofo, exemplifica a tensão existente entre o idealismo lógico e as contingências presentes na existência humana. Husserl marca o desenvolvimento do pensamento humano, e proporciona um impacto duradouro que continua a ser explorado na filosofia mesmo nos dias atuais.

 

2- Ideias

 

O pensamento de Edmund Husserl representa uma das contribuições mais fundamentais para a filosofia do século XX, marcando a transição de uma abordagem lógico-matemática para uma fenomenologia transcendental que busca as estruturas essenciais da consciência e do mundo vivido.

A filosofia de Husserl evolui para o que este chama de um “idealismo fenomenológico transcendental”. Não há um pensamento único em uma evolução unidirecional e sim o que temos é um pensador que pode ser chamado de “inquieto”, que ao buscar criar sua filosofia evolui ao ponto de podermos falar em “primeiro”, “segundo”, etc. Husserl. Husserl começa seus estudos imerso na matemática, segue caminho progressivamente para a lógica, dali para o estudo do significado intencional, passa a análise dos fatos da consciência, segue para a concepção de uma consciência imanente na qual se encerra todo o mundo da objetividade, continua sua evolução filosófica admitindo a realidade de um mundo espiritual. Mas durante todo este trajeto se manteve presente em sua análise das estruturas lógicas enquanto fios condutores da estruturação das essências objetivas. De fato, não temos aqui um pensador sistemático ou um sistema filosófico único e sim questionamentos filosóficos e suas respostas, por vezes partindo de distintas posições.

Em suas obras iniciais, como a "Filosofia da Aritmética" (1891), ele explorava as origens psicológicas dos conceitos numéricos, propondo que números não são meras abstrações mentais, mas resultam de atos coletivos de contagem intuitiva. No entanto, essa fase inicial ainda carregava traços de psicologismo, uma doutrina que reduz as leis lógicas a processos psicológicos empíricos, o que Husserl viria a rejeitar veementemente, reconhecendo que tal redução compromete a universalidade e a objetividade do conhecimento. A virada veio com as "Investigações Lógicas" (1900-1901), onde Husserl estabelece a lógica como uma ciência ideal, independente da psicologia. Aqui, ele distingue entre o conteúdo psicológico de um ato mental e o significado ideal que transcende o indivíduo, introduzindo o conceito de intencionalidade como a característica essencial da consciência: todo ato consciente é dirigido a um objeto, seja ele real ou ideal.

Percebemos em suas discussões e elaborações de seus problemas filosóficos a presença de uma leitura atenta da obra dos idealistas alemães, como, por exemplo, Hegel, do idealismo transcendental de Kant, da escola filosófica do Racionalismo inaugurada por Descartes, na qual se faz presente também a discussão sobre Monadologia em Leibniz, bem como, temos presente a Escola Empirista com Locke, Berkeley e Hume, dando rumos a elaboração dos questionamentos presentes no pensamento filosófico desenvolvido por Husserl.

Husserl apresenta uma crítica ao psicologismo, que tenta derivar a lógica do pensamento. Propõe Husserl uma clara delimitação da esfera da lógica. Segundo Husserl, as leis psicológicas são empíricas, vagas, limitadas à verossimilhança e a comprovação por meio de fatos, já as leis lógicas são diferentes. Estas são precisas, exatas, certas, normativas, ideais.

Husserl nos apresenta como método da fenomenologia buscar a essência do objeto, seu “eidos”, captando-o diretamente. A redução eidética permite abstrair das particularidades empíricas para captar as essências universais (eidos), através da variação imaginativa: ao imaginar variações de um objeto, identificamos o invariante que define sua essência. Já a redução transcendental aprofunda isso, reduzindo o ego empírico ao ego transcendental, um polo puro de consciência que constitui não apenas objetos, mas também o tempo, o espaço e a intersubjetividade. Husserl enfatiza que o mundo não é dado independentemente da consciência, mas é fenomenologicamente constituído, invertendo o realismo ingênuo sem cair no idealismo subjetivo presente na filosofia desenvolvida por Berkeley. Husserl busca por conexões essenciais, é puramente descritivo, buscando descrever a essência da coisa. Seu método não se propõe a explicar mediante leis ou a deduzir a partir de princípios. Cabe distinguir entre o ver em geral do ver meramente sensível e experimental, distinção esta que, por não ser feita pelos Positivistas, gera erro. Husserl não adota a dúvida cartesiana como método, embora se inspire nela para fundamentar a “epoché”. Para a fenomenologia de Husserl não cabe o método da dúvida cartesiana, mas na busca do “eidos” cabe adotar uma atitude de ausência de juízo, “epoché”, objetivando livrar-se de preconceitos filosóficos, científicos ou mesmo opinativos. A “epoché” consiste em colocar entre parênteses o mundo natural e suas crenças cotidianas, não para negá-lo, mas para examiná-lo em sua constituição pela consciência. Essa suspensão revela a consciência como transcendental, pura e intencional, capaz de constituir o sentido do mundo. Para a fenomenologia de Husserl, todas as demais fontes de informação devem ser colocadas entre parênteses, focando somente na essência.

Propõe Husserl uma teoria da redução e da intencionalidade, esta última herdada de seu mestre, Brentano. Por meio desta redução se tem acesso a consciência, ou dito de outra forma, a vivências que se destacam por serem vivências de um dado objeto, “vivências intencionais ” (intentionale Erlebnisse). Estamos diante de consciências de alguma coisa (amor, apreciação, etc.) em uma relação intencional com esta mesma coisa. Ao aplicar a redução fenomenológica a estas vivências intencionais obtemos a consciência enquanto puro centro de referência e intencionalidade. Deste modo, o objeto intencional é dado a consciência e passa a não ter outra existência que a dada intencionalmente a este mesmo objeto por este sujeito em particular. A Fenomenologia torna-se uma ciência da essência das vivências puras, pois, depois da redução ocorrida, a existência passa unicamente a ser vinculada à intencionalidade do sujeito.

Para Husserl nossa compreensão do mundo circundante só é possível a partir do modo como este mundo se manifesta para nós enquanto consciência. Não é possível falar de um mundo em si mesmo, sem a passagem por nossa consciência, do mesmo modo, não é possível falar de uma consciência em si mesma. Cabe à consciência a responsabilidade por dar sentido a todas as coisas. Quando falamos em “fenômeno” na filosofia de Husserl, falamos em como uma dada coisa qualquer aparece ou manifesta-se para um determinado sujeito, ou seja, falamos da aparência das coisas e não das coisas em si mesmas. Deste modo, todo conhecimento na medida em que se inicia nos fenômenos relacionados as coisas, deve ser entendido como conhecimento fenomenológico. Deste modo, Husserl destaca o protagonismo do sujeito diante do objeto. É a consciência intencional que atribui sentido ao objeto e consciência é sempre consciência de algo, não possuindo por si só uma existência independente do objeto que percebe. Os fenômenos são, em verdade, a manifestação da consciência. Sujeito conhecedor e objeto conhecido se fundem, formando algo único. Para ser mais preciso, sujeito e objeto mantêm distinção, mas encontram-se em correlação intencional estruturante. Lembremos aqui que o termo “fenômeno” na filosofia significa tudo que aparece, tudo que é observável, tudo que possui uma aparição. Sua origem provém do grego “phainomenon”, aquilo que aparece.

Importantíssima a distinção feita por Husserl entre “noesis” e “noema”. A primeira, noesis, faz referência ao pensamento pensado e intencional, já que nossa consciência é intencional. Noesis é o ato intencional (apreender, julgar, recordar...). O segundo, noema, faz referência ao conteúdo deste pensamento presente em nossa consciência.

Nas obras posteriores, como "Lógica Formal e Transcendental" (1929) e "Meditações Cartesianas" (1931), Husserl aprofunda a dimensão transcendental, integrando-a à lógica e à epistemologia. Ele distingue a lógica formal (puramente analítica) da transcendental (fundada na subjetividade constituinte), argumentando que toda verdade lógica pressupõe uma evidência subjetiva, mas universalizável pela intersubjetividade. A noção de monadologia fenomenológica surge aqui: cada ego transcendental é uma mônada, mas conectada a outras através da empatia e da comunidade, formando uma harmonia pré-estabelecida de perspectivas. Husserl critica o solipsismo aparente de sua fenomenologia, afirmando que o outro é constituído na consciência própria como alter ego. Essa intersubjetividade garante a objetividade do mundo compartilhado, estendendo a fenomenologia a campos como a ética e a ontologia regional (estudo de essências em domínios específicos, como a matemática ou a arte).

Também muito importante é o conceito de Lebenswelt (traduzido como mundo da vida, mundo vivido ou mundo vital) é uma das contribuições mais originais e influentes da fase tardia do pensamento de Edmund Husserl, desenvolvida especialmente em sua obra A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental (1936). Ele surge como resposta a uma crise profunda que Husserl diagnostica na racionalidade ocidental moderna: as ciências, com seu enfoque objetivista e matematizante, perderam o contato com o solo originário de onde emergem todos os sentidos e significados, levando a uma perda de relevância para as questões humanas essenciais.

Em termos simples, o Lebenswelt refere-se ao mundo pré-científico, cotidiano e intuitivo que experimentamos de forma imediata e compartilhada antes de qualquer reflexão teórica ou abstração científica. É o horizonte de vivências concretas onde vivemos, atuamos e nos relacionamos intersubjetivamente: o mundo das percepções sensíveis, das práticas cotidianas, das tradições culturais, das evidências intuitivas e dos valores vividos. Não se trata de um mundo "subjetivo" no sentido psicológico individual, nem de um mundo "objetivo" no sentido das ciências exatas, mas de um domínio primordial, sempre já dado, que serve de fundamento para toda construção teórica posterior.

Husserl descreve o Lebenswelt como o "reino das evidências originárias": tudo o que percebemos diretamente (como o solo sob nossos pés, o céu acima, as relações com os outros, os objetos úteis no dia a dia) possui uma validade intuitiva imediata, anterior a qualquer idealização matemática ou formal. Por exemplo, na vida cotidiana, não vemos "partículas físicas" ou "equações geométricas", mas mesas, cadeiras, pessoas e paisagens que têm sentido prático e afetivo para nós. Esse mundo é intersubjetivo: compartilhado por uma comunidade de sujeitos, constituído historicamente e culturalmente, e marcado por uma relatividade relativa (não absoluta), pois varia entre culturas, mas mantém uma estrutura essencial universal acessível pela redução fenomenológica.

Em sua fase final, representada por "A Crise das Ciências Europeias" (1936), Husserl diagnostica uma crise na racionalidade ocidental, atribuída à matematização galileana que abstrai o mundo vivido (Lebenswelt) em favor de idealizações formais. O Lebenswelt, ou mundo da vida cotidiana, é o horizonte pré-científico e histórico onde se enraízam todas as ciências, mas que foi esquecido em prol de uma técnica objetivista. Husserl propõe a fenomenologia como terapia filosófica. Conceitos como a teleologia da consciência e a crise do sentido destacam sua preocupação com a humanidade: a filosofia deve restaurar o significado ético e vital da ciência, combatendo o niilismo e o relativismo. Essa obra reflete influências de Dilthey e da historicidade, mas Husserl mantém a primazia do transcendental sobre o empírico.

O legado das ideias de Husserl transcende a fenomenologia, influenciando Heidegger (com sua ontologia existencial), Sartre (no existencialismo), Merleau-Ponty (na fenomenologia do corpo) e até a psicologia gestáltica e a hermenêutica. Seus conceitos chave (intencionalidade, redução, essências e Lebenswelt) oferecem ferramentas para uma filosofia rigorosa que equilibra o subjetivo e o objetivo, convidando a uma reflexão contínua sobre como o mundo se apresenta à consciência. Apesar de críticas por suposto subjetivismo ou abstração excessiva, o pensamento husserliano permanece essencial para compreender a constituição do sentido em um mundo cada vez mais técnico e fragmentado, promovendo uma volta à experiência viva como fundamento do saber.

 

A seguir, apresento uma seleção das obras mais influentes de Edmund Husserl, organizadas cronologicamente pela data de primeira publicação. Escolhi aquelas que definem os pilares de sua fenomenologia transcendental, priorizando completude sem exaustão. Cada entrada inclui: (1) título original, (2) título traduzido para o português, (3) data da primeira publicação e (4) resumo original e conciso, redigido para destacar a contribuição central da obra, com rigor acadêmico e acessibilidade ao leitor interessado em filosofia. Essas obras representam o arco evolutivo do pensamento husserliano: do logicismo anti-psicologista às Investigações Lógicas, passando pela fenomenologia transcendental em Ideias, até a crítica cultural em A Crise. Elas formam o núcleo indispensável para compreender sua influência em Heidegger, Sartre e a filosofia continental.

 

3- Algumas das principais obras de Husserl

 

1- Título original: Philosophie der Arithmetik. Psychologische und logische Untersuchungen. Título traduzido: Filosofia da Aritmética: Investigações Psicológicas e Lógicas. Data da primeira publicação: 1891

Nesta obra inicial, Husserl examina as origens das representações numéricas, distinguindo entre conteúdo psicológico intuitivo e leis lógicas universais. Ele critica o psicologismo de pensadores como Mill e outros autores, propondo que a aritmética se funda em atos de coletividade abstrata, lançando as bases para sua virada ao idealismo lógico, embora ainda mantenha elementos psicologistas que Frege viria a criticar.

2- Título original: Logische Untersuchungen (2 volumes). Título traduzido: Investigações Lógicas. Data da primeira publicação: 1900–1901 (1º volume); 1901 (2º volume). A obra foi revisada em 1913.

Dividida em prólogos e seis investigações, esta é a obra fundacional da fenomenologia. Husserl refuta o psicologismo, estabelecendo a lógica como ciência ideal e a-phenomênica, e introduz conceitos como intuição categorial, significação e outros. Defende que o conhecimento se constrói por evidência intuitiva, não por associações empíricas.

3- Título original: Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie. Erstes Buch: Allgemeine Einführung in die reine Phänomenologie. Título traduzido: Ideias para uma Fenomenologia Pura e Filosofia Fenomenológica: Livro Primeiro – Introdução Geral à Fenomenologia Pura. Data da primeira publicação: 1913.

Aqui, Husserl radicaliza seu método com a epoché ou suspensão do juízo natural, acessando a consciência transcendental. Apresenta a redução eidética e fenomenológica, definindo a fenomenologia como ciência rigorosa das essências (Wesensschau), onde o mundo é constituído na intencionalidade pura, livre de pressupostos realistas.

4- Título original: Formale und transzendentale Logik: Versuch einer Kritik der logischen Vernunft. Título traduzido: Lógica Formal e Transcendental: Ensaio de uma Crítica da Razão Lógica. Data da primeira publicação: 1929.

Husserl aprofunda a crítica à lógica formal, distinguindo-a da transcendental ao revelar sua origem na subjetividade constituinte. Analisa evidência, verdade e apodicticidade, mostrando como a lógica pessoal (subjetiva) se universaliza na intersubjetividade, combatendo o objetivismo e o subjetivismo extremos.

5- Título original: Cartesianische Meditationen und Pariser Vorträge. Título traduzido: Meditações Cartesianas e Palestras de Paris. Data da primeira publicação: 1931 (conferências proferidas em 1929).

Inspiradas em Descartes, estas cinco meditações delineiam o método fenomenológico como via para a filosofia como ciência rigorosa. Husserl descreve a epoché, a redução transcendental e a constituição do mundo e do ego, enfatizando a intersubjetividade como base para a comunidade de mônadas e a ética universal.

6- Título original: Die Krisis der europäischen Wissenschaften und die transzendentale Phänomenologie. Título traduzido: A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental. Data da primeira publicação: 1936 (publicado parcialmente; edição completa póstuma em 1954).

Obra póstuma e culminante, Husserl diagnostica a crise da racionalidade ocidental pela perda do sentido teleológico da ciência, reduzida a técnica formal. Propõe a fenomenologia como restauração da vida (Lebenswelt), unindo subjetividade histórica e transcendental para recuperar a humanidade europeia em sua vocação filosófica.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua autoria)