Textos filosóficos, críticos, comportamentais e sobre arte da escrita, sucesso e auto-ajuda.
Professor Doutor Silvério
Blog: "Comportamento Crítico"
Professor Doutor Silvério
Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.
(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)
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Georges Eugène
Sorel (1847-1922) nasceu em Cherbourg, hoje Cherbourg-en-Cotentin, França e
falece aos 74 anos de idade em Boulogne-Billancourt, França. É proveniente de
uma família de classe média ligada ao comércio. Seu pai era um empresário
local. Desde cedo, Sorel demonstrou aptidão para os estudos, o que o levou a se
mudar para Paris em 1864, aos 17 anos, para frequentar o Collège Rollin, uma
instituição preparatória de prestígio. Em 1865, ingressou na renomada École
Polytechnique, onde se formou em engenharia civil. Foi escritor e atuou como teórico
do sindicalismo revolucionário de esquerda ou anarco-sindicalismo.
Após concluir os
estudos, em 1869, Sorel ingressou como engenheiro no Departamento de Obras
Públicas do governo francês, vindo a ocupar o cargo de engenheiro-chefe. Seus
primeiros anos de carreira foram marcados por uma série de atribuições em
regiões periféricas da França e suas colônias. Ele passou um período em Córsega
até 1871, seguido por postos no sul do país, incluindo cidades como Albi, Gap e
Draguignan. Entre 1876 e 1879, serviu em Mostaganem, na Argélia, uma
experiência que o expôs a realidades coloniais e sociais diversificadas. Seus
últimos anos profissionais foram em Perpignan, onde permaneceu até sua aposentadoria
precoce em 1892, aos 45 anos, por escolha pessoal e não motivada por
circunstâncias externas fora de seu controle. Nesse ano, recebeu a condecoração
da Légion d'Honneur por seus serviços. Com uma pensão modesta, Sorel pôde se
dedicar integralmente à reflexão intelectual, mudando-se para
Boulogne-sur-Seine, nos arredores de Paris, onde viveu com sua companheira,
Marie David (nasceu por volta de 1855 e faleceu em 1897), uma mulher de origem
operária que exerceu influência significativa em suas visões sociais e pessoais,
com quem manteve uma relação estável e não convencional para a época. Quando de
seu falecimento, Sorel se viu profundamente afetado e isto o impulsionou ainda
mais para o engajamento com questões sociais.
O ponto de
virada na vida de Sorel ocorreu por volta dos 40 anos, quando ele começou a se
interessar por temas sociais, econômicos e filosóficos, abandonando
gradualmente sua visão conservadora-liberal inicial. Influenciado por
pensadores como Pierre-Joseph Proudhon, Karl Marx, Giambattista Vico, Henri
Bergson e, mais tarde, William James, ele desenvolveu uma abordagem única ao
pensamento político. Bergson, em particular, cujas aulas no Collège de France
Sorel frequentou, inspirou sua ênfase na intuição e na criatividade humana. Em
1893, ele se declarou publicamente marxista e socialista, contribuindo para
jornais e revistas emergentes do movimento, como L’Ère nouvelle e Le Devenir
Social. Entre os anos de 1895 e 1897 atuou como editor da revista francesa “Le
devenir social”. Nesta época sua proposta era de divulgar o que considerava
essencial dentro da teoria marxista.
Participou
ativamente dos debates revisionistas iniciados por Eduard Bernstein,
questionando dogmas marxistas tradicionais. Durante o Caso Dreyfus, no final da
década de 1890, Sorel defendeu o capitão Alfred Dreyfus, alinhando-se com
intelectuais progressistas como seu amigo Charles Péguy, embora mais tarde
expressasse desilusão com os resultados políticos deste episódio, vendo-a como
uma oportunidade perdida para transformação social profunda.
Ao longo da
primeira década do século XX, Sorel evoluiu para o sindicalismo revolucionário,
rejeitando o parlamentarismo e a democracia representativa como compatíveis com
o socialismo verdadeiro. Ele argumentava que o sindicalismo, baseado em
sindicatos operários autônomos, era o caminho para a revolução proletária. Suas
ideias foram publicadas em periódicos italianos e franceses, como Il Divenire
sociale e Mouvement socialiste. Em 1905, começou a publicar por partes o que se
tornaria sua obra mais famosa, "Reflexões sobre a Violência", lançada
como livro em 1908, ao lado de "As Ilusões do Progresso". Nesses
textos, ele defendeu o conceito de "mito" como força mobilizadora das
massas, sugerindo que narrativas épicas, como a greve geral, poderiam inspirar
ação coletiva sem necessidade de planos racionais detalhados. Ele via a
violência proletária não como destruição gratuita, mas como um meio de
preservar a divisão de classes e fomentar a moral revolucionária.
Politicamente,
Sorel apresentou-se como inconstante e eclético. Entre 1909 e 1910, teve uma
breve associação com o grupo monarquista Action Française, de Charles Maurras,
embora discordasse de seu nacionalismo exacerbado. Essa colaboração influenciou
a criação do Cercle Proudhon, um fórum que unia sindicalistas revolucionários e
conservadores radicais. Em 1911, fundou a revista L'Indépendance com colegas
como Édouard Berth e Georges Valois, mas desentendimentos, especialmente sobre
o nacionalismo, levaram ao seu fim em 1913. Durante a Primeira Guerra Mundial
(1914-1918), opôs-se à "União Sagrada" francesa, que unia esquerda e
direita contra a Alemanha. Em 1917, saudou a Revolução Russa, elogiando os
bolcheviques em artigos para publicações soviéticas e italianas, comparando
Lenin a Pedro, o Grande, por sua capacidade de transformação radical. Em seus
anos finais, expressou admiração por Benito Mussolini em 1921, vendo nele um
gênio político, embora criticasse aspectos do fascismo emergente, como sua
desordem. O fascismo italiano deve muito ao trabalho de Sorel, tendo em parte
nele se influenciado.
Sorel passou de
um realismo científico inicial para um anti-positivismo e proto-pragmatismo.
Influenciado por Vico, enfatizou que o conhecimento social surge da ação
coletiva, não de leis deterministas. Seus trabalhos exploraram temas variados,
desde hidrologia e arquitetura em sua fase inicial até filosofia da ciência,
história política e moral. Publicou livros como "Contribuição ao estudo profano
da Bíblia", 1889, "Questões de moral", 1900, "A ruína do mundo
antigo", 1902, e "Materiais para uma teoria do proletariado",
1919. Sua epistemologia evoluiu para abraçar o pragmatismo americano,
culminando em "Da utilidade do Pragmatismo", 1921, onde defendeu uma
teoria do conhecimento vinculada à prática.
Sorel deixou um
legado polêmico. Suas ideias inspiraram a esquerda radical revolucionária, o
fascismo italiano de Benito Mussolini e movimentos sindicalistas. Embora nunca
tenha fundado um movimento próprio, sua ênfase no seu conceito de mito, na
violência transformadora criativa e em debates sobre ideologia e ação política,
apresentam uma contribuição significativa que exerceu profunda influência na formação
de movimentos políticos e nas estratégias ainda adotadas hoje, em particular
pela esquerda política e seu braço mais violento que faz uso natural da
violência em suas manifestações públicas.
2- Ideias e
conceitos
Sua obra marcou
o pensamento político e social do final do século XIX e início do XX,
especialmente por sua abordagem original ao socialismo, sindicalismo
revolucionário e filosofia da ação. Suas ideias, caracterizadas por uma
combinação de marxismo, anti-positivismo, influências de Proudhon, Bergson e
Vico, e mais tarde do Pragmatismo, rejeitavam ortodoxias ideológicas e
propunham uma visão dinâmica da transformação social. Georges Sorel teve
influência e popularidade na França, Itália e nos EUA. Ele pode ser considerado
um marxista heterodoxo que sofreu grande influência de Proudhon, dentre outros.
Suas múltiplas influências teóricas o tornaram polêmico e, por vezes, visto
como eclético.
Ao se fixar na
metáfora da “guerra” para tratar da luta de classes, entende quase de modo
literal esta “guerra”, já que não considera producentes ações democráticas e
parlamentares (socialismo parlamentar; participação dos socialistas no sistema
eleitoral, etc.), buscando ações diretas e violentas. Não se trata aqui,
segundo o autor, do uso da “força”, esta ainda instrumento presente em uma dada
ordem social na qual uma minoria controla uma maioria, mas sim da “violência”,
enquanto meio de destruição completa desta mesma ordem social.
Sorel entende
que o desenvolvimento histórico da sociedade não é algo inevitável ou que siga
regras determinísticas ou mesmo se atenha a uma providência divina. Segundo
Sorel trata-se aqui de um desenvolvimento fruto de uma ação heroica e violenta
que busca de modo constante restaurar a civilização da decadência. O ponto
crucial sempre se encontra junto à ação criadora humana diante da história, por
meio do uso da violência e do sacrifício em busca da conquista de objetivos.
Deste modo, ao contrário dos marxistas que entendiam que a marcha natural da
história levaria de modo determinístico a uma revolução do proletariado e a
criação de uma sociedade comunista, Sorel entendia que era justamente o oposto,
ou seja, que a própria revolução, obtida por meios violentos, fará a história
avançar. Enquanto Marx e Engels apontam a “cientificidade” presente no
comunismo, Sorel recusa esta premissa e se atem ao que entende ser o
espontaneísmo da ação política presente nas massas operárias que levaria em
algum momento a uma greve geral do proletariado que teria como resultado a
abolição definitiva do capitalismo, sem, no entanto, a necessidade disto passar
primeiro pela construção de um partido político revolucionário que tenha como
meta a condução dos trabalhadores para a tomada do poder do Estado.
Influenciado por
Marx, Sorel adotou uma visão materialista da história, mas com nuances
próprias. Ele via as transformações sociais como impulsionadas por conflitos
econômicos e de classe, mas enfatizava a ação dos trabalhadores e a importância
da ação direta, em vez de esperar por determinismos históricos. Em “A Ruína do
mundo antigo”, 1902, Sorel analisa o colapso do Império Romano como resultado de
mudanças nas relações econômicas, como a crise da agricultura escravista. Ele
usa esse exemplo para argumentar que as revoluções contemporâneas dependeriam
de ações proletárias conscientes. Aqui entra a discussão efetuada em seu livro
“Reflexões sobre a violência”, no sentido em que entende que o processo de
evolução social não é determinado por uma dialética, como entenderam Marx e
Engels baseados em uma interpretação de Hegel, nem por outro lado fruto de uma
evolução natural da sociedade que implique uma necessidade, em verdade, esta
evolução social em direção ao socialismo / comunismo deverá ocorrer por meio da
violência.
Em vez de buscar
uma análise das condições (objetivas e subjetivas) presentes no sistema
econômico vigente para obter a sua transformação, busca Sorel uma teoria da
ação revolucionária dentro do contexto da luta de classes. Para isto ser obtido
não é necessário um partido político e sim a organização sindical. Sorel
entende que a mera participação política e representativa nas instituições por
parte do proletariado não é eficiente na luta pela transformação social.
Sorel era
profundamente cético em relação à democracia representativa, que ele via como
uma ferramenta da burguesia para neutralizar o potencial revolucionário do
proletariado. Ele acreditava que os parlamentos e partidos socialistas
reformistas diluíam a luta de classes, integrando os trabalhadores ao sistema
capitalista. Em seus artigos no periódico Mouvement socialiste, Sorel criticava
os socialistas franceses, como Jean Jaurès, que defendiam reformas através do
parlamento. Ele apontava que a participação eleitoral enfraquecia movimentos
como a CGT, desviando a energia dos trabalhadores para negociações com a elite
política, como visto nas alianças socialistas durante o Caso Dreyfus.
Inspirado por
Giambattista Vico, Sorel via a história como um processo criativo, moldado
pelas ações e crenças humanas, em vez de um desenrolar de leis universais. Ele
enfatizava a importância das narrativas culturais e dos mitos na construção da
realidade social. Em “De Aristóteles a Marx” (compilação de escritos publicada
postumamente em 1935), Sorel compara as visões de Vico sobre a história cíclica
com as ideias de Marx sobre luta de classes. Ele sugere que os trabalhadores contemporâneos,
como os antigos romanos descritos por Vico, criam suas próprias instituições
(como sindicatos) para moldar o futuro, em vez de seguir um destino
predeterminado.
A evolução que
venha a permitir este enfrentamento das camadas proletárias contra o sistema
deverá surgir a partir do desenvolvimento da consciência e não meramente de
condições econômicas ou políticas. A mobilização do proletariado se daria de
modo irracional e não a partir de análises racionais sobre as condições de
trabalho e esta consciência coletiva irá se manifestar de modo violento pela
força do mito. Seu sindicalismo revolucionário encontra sua base na ação direta
das massas operárias.
Ao aderir a um
sindicalismo revolucionário adotou como estratégia que a revolução não
ocorreria como os teóricos marxistas apontavam, ou seja, por meio de uma tomada
do Estado pelo proletariado e a subsequente criação de uma ditadura do
proletariado. No lugar desta linha de pensamento, entendia Sorel que deveria
ocorrer a completa eliminação de toda a estrutura do Estado, caso isto não
ocorresse, após a revolução os trabalhadores teriam simplesmente trocado o
comando de um grupo de privilegiados para outro, sem nada efetivamente
conseguir de mudança real.
Sorel rejeitava
a ideia positivista de progresso linear, comum entre liberais e socialistas
reformistas de sua época. Ele argumentava que a crença no progresso inevitável
era uma ilusão burguesa que desmobilizava os trabalhadores, promovendo a
aceitação passiva do status quo. Em vez disso, ele enfatizava a necessidade de
ação direta e ruptura com as estruturas existentes. Em “As ilusões do progresso”,
1908, Sorel critica pensadores como Auguste Comte, que viam a história como um
avanço contínuo rumo à perfeição social. Ele apontava que o progresso técnico,
como a industrialização, frequentemente aprofundava a exploração dos
trabalhadores, como nas condições desumanas das fábricas têxteis francesas do
final do século XIX, em vez de libertá-los.
Sorel é mais
conhecido por sua defesa do sindicalismo revolucionário, uma corrente que via
os sindicatos operários como o motor da revolução proletária, em oposição ao
socialismo parlamentar ou reformista. Ele acreditava que os sindicatos,
organizados de forma autônoma pelos trabalhadores, eram o espaço ideal para
desenvolver uma consciência de classe e promover a luta direta contra o
capitalismo. Para Sorel, o sindicalismo deveria rejeitar a integração no
sistema político burguês, como partidos socialistas que buscavam reformas
graduais. Em “Reflexões sobre a violência”, Sorel argumenta que os sindicatos
devem organizar greves e ações diretas para desafiar a ordem capitalista. Ele
via as greves não apenas como demandas econômicas, mas como atos de afirmação
da identidade proletária, capazes de criar uma "moral
revolucionária".
Importante é o
conceito de “mito revolucionário” desenvolvido por Sorel, segundo o qual este
se apresenta como um conjunto de imagens percebidas instantaneamente,
intuições, capazes de evocar com a força do instinto o sentimento de luta.
Neste contexto de “mito” encaixa Sorel o marxismo. A ideia de “mito” em Sorel
está vinculada a algo a semelhança de uma crença irracional e religiosa na
ocorrência de alguma coisa, como uma greve geral ou mesmo uma revolução
socialista. Esta crença presente no mito tende a impelir em direção à ação e
não meramente a uma contemplação ou análise racional dos fatos e do que poderá
ocorrer futuramente. O “mito” para Sorel é algo que é aceito por um grupo
social como sendo verdadeiro, as pessoas acreditam nele e atuam de acordo com
tal crença, independente deste ser realmente verdadeiro ou falso. Neste
tocante, qualquer coisa (teoria, religião, etc.) que faça as pessoas assim se
comportarem deve ser entendida como sendo um “mito”, como tal é o caso do
marxismo e também da religião cristã em suas várias denominações (católicos,
protestantes, etc.).
O conceito de
mito é talvez a contribuição mais original de Sorel ao pensamento político. Ele
definia o mito como uma narrativa poderosa que mobiliza as massas para a ação,
independentemente de sua veracidade ou viabilidade prática. Para Sorel, o que
importava não era se o mito era "verdadeiro" ou "falso",
mas sua capacidade de inspirar crenças profundas e motivar sacrifícios
coletivos. Ele via o mito como uma força intuitiva, quase poética, que transcendia
a racionalidade positivista e dava sentido à luta social. Embora o mito da
greve geral seja o exemplo mais conhecido em sua obra, Sorel aplicava o
conceito a outras narrativas, como o marxismo e o cristianismo primitivo. Ele
argumentava que essas ideologias funcionavam como mitos porque ofereciam visões
épicas de transformação (a revolução socialista ou a salvação espiritual) que
mobilizavam seguidores a agir com fervor, mesmo enfrentando adversidades
extremas. O mito, para Sorel, era uma "imagem de batalha" que
unificava as massas e dava propósito à luta, independentemente de sua
realização literal.
Em “Reflexões
sobre a violência”, Sorel apresenta a greve geral como o mito central do
sindicalismo revolucionário. Ele não a via como um plano concreto a ser
executado, mas como uma visão que inspirava os trabalhadores a se unirem contra
o capitalismo. Segundo Sorel, narrativas épicas, como a ideia de uma greve
geral, não precisam ser racionalmente organizadas ou mesmo factíveis de serem
postas em práticas com êxito, mas funcionam como visões inspiradoras que direcionam
as massas para a ação. O mito, para Sorel, não é uma utopia detalhada, mas uma
imagem poderosa que dá sentido à luta e motiva sacrifícios coletivos. Por
exemplo, ele apontava como as greves gerais na França e na Itália no início do
século XX, mesmo que não derrubassem o capitalismo, fortaleciam a solidariedade
operária e desafiavam a hegemonia burguesa. A crença em uma causa maior,
verdadeira ou não, pode impulsionar ações coletivas, alinhando-se com a visão
de Sorel.
Sorel
desenvolveu os conceitos de “violência” e “mito” como pilares centrais de sua
filosofia política, particularmente em sua obra mais influente, “Reflexões
sobre a violência”. Sorel defende e exalta a violência na luta de classes. Por
meio da violência é possível manter viva a luta de classes, presente entre
burguesia e proletariado, realçando esta divisão e simultaneamente empreendendo
uma reforma moral do proletariado. Mostra-se contrário à conciliação e paz
social, defendendo uma atitude de guerra onde se faça presente a luta de
classes. Segundo Sorel, o proletariado não busca por concessões, mas sim pela
ruína completa de seus adversários, os burgueses. Para Sorel a violência é
entendida como sendo um instrumento libertador das massas proletárias, que são
a maioria, de sua exploração por uma minoria, seja esta a burguesia ou uma
minoria político-partidária.
Sorel entendia a
sociedade burguesa como decadente e buscava o fim do capitalismo por meio da
revolução do proletariado, o que permitiria a superação dos valores decadentes
e a criação de novos valores morais heroicos provenientes da ação vigorosa do
proletariado. Sorel não rejeita os avanços científicos ou industriais, mas sim
o controle dos mesmos pela classe operária por meio de uma revolução onde temos
presente a violência na destruição de valores decadentes e da corrupção moral
burguesa. Sorel busca por tal meio uma renovação moral e espiritual, inspirada
em sua fé cristã (católica), que se encontra com elementos de fé, tais como o
ascetismo presente nas ordens monásticas, a aceitação e busca da pobreza e de
uma vida simples. Isto é o que mais se aproximaria de sua visão de uma futura
sociedade humana socialista.
Sorel via a
violência proletária como um mecanismo essencial para a reformulação da
sociedade, mas sua concepção era distinta de uma apologia à destruição
indiscriminada. Para ele, a violência era um ato criativo e moral, uma
expressão da vitalidade do proletariado contra a opressão capitalista. Ele a
definia como uma força que preservava a divisão de classes, impedindo que os
trabalhadores fossem assimilados pela ideologia burguesa. A violência, nesse
sentido, não buscava apenas conquistar direitos materiais, mas afirmar a identidade
e a dignidade da classe trabalhadora, criando uma "moral
revolucionária" que rejeitava os valores individualistas e conciliatórios
do capitalismo. Sorel defendeu a violência como um instrumento legítimo da luta
de classes, mas com uma interpretação específica: a violência proletária não
era destruição gratuita, mas uma forma de afirmar a identidade e a moral dos
trabalhadores contra a opressão capitalista. Ele a via como um meio de manter a
divisão entre classes, evitando a assimilação do proletariado pela burguesia, e
como uma expressão de vitalidade revolucionária.
Sorel distinguia
a violência proletária da "força" estatal, que ele considerava
opressiva e destinada a manter a ordem burguesa. A violência proletária, por
outro lado, era espontânea, coletiva e orientada por um propósito ético: romper
com a submissão e inspirar a ação revolucionária. Ele argumentava que, sem a
ameaça da violência, os trabalhadores seriam cooptados por reformas paliativas
ou pela democracia parlamentar, que ele via como armadilhas para neutralizar o
potencial revolucionário.
Em “Reflexões
sobre a violência”, Sorel cita as ações diretas dos trabalhadores, como
sabotagens ou confrontos com forças patronais, como formas de violência
criativa. Ele contrastava essa violência com a repressão estatal, que
considerava opressiva. Um exemplo prático seria sua análise das greves
violentas na França, como os confrontos entre trabalhadores e polícia durante
as greves ferroviárias de 1910, que ele via como demonstrações de resistência proletária.Um exemplo
histórico que ele admirava era o movimento dos sindicatos franceses no início
do século XX, como a Confédération Générale du Travail (CGT), que organizava
greves gerais com forte caráter combativo, em que trabalhadores enfrentaram a polícia
e sabotaram infraestruturas. Ele via esses atos como manifestações de
resistência que fortaleciam a solidariedade operária e desafiavam a hegemonia
capitalista. Por exemplo, a destruição de trilhos ou máquinas durante essas
greves não era apenas um protesto econômico, mas um símbolo de recusa à
exploração.
Sorel acreditava
que o proletariado deveria desenvolver uma moral própria, distinta dos valores
burgueses, baseada na solidariedade, na coragem e na luta. Essa moral seria
cultivada nas práticas sindicais e na resistência coletiva, rejeitando tanto o
individualismo liberal quanto o conformismo promovido por instituições estatais
ou religiosas. Em “Materiais para uma teoria do proletariado”, 1919, Sorel
destaca o papel das associações operárias em criar uma ética de classe. Ele
citava os sindicatos italianos do início do século XX, que organizavam
cooperativas e greves, como exemplos de espaços onde os trabalhadores
desenvolviam valores de lealdade e sacrifício coletivo, contrastando com a
ética competitiva do capitalismo.
Nos últimos anos
de sua vida, Sorel abraçou elementos do Pragmatismo, inspirado por William
James, e rejeitou o Positivismo determinista. Ele argumentava que o
conhecimento não é uma verdade absoluta, mas uma construção derivada da ação
prática e da experiência coletiva. Essa visão influenciou sua epistemologia,
que via a história e a sociedade como produtos da criatividade humana, não de
leis universais. Em “Da utilidade do Pragmatismo”, 1921, Sorel analisa como as
ideias revolucionárias surgem da prática, não de teorias abstratas. Ele compara
o desenvolvimento do socialismo às inovações tecnológicas, como a criação de
máquinas a vapor, que emergiram de experimentações práticas, sugerindo que a
luta de classes também se molda por ações concretas, como greves espontâneas.
Sorel é
conhecido por sua trajetória intelectual eclética, flertando com diferentes
correntes, do socialismo ao nacionalismo, sem se fixar em nenhuma. Ele via
méritos em ideias que promovessem ação e ruptura, independentemente de sua
origem ideológica, o que o levou a influenciar tanto a esquerda revolucionária
quanto a direita radical. Entre 1909 e 1910, Sorel colaborou com a Action
Française, de Charles Maurras, atraído por sua crítica à democracia burguesa,
mas rompeu devido a divergências sobre o nacionalismo. Mais tarde, em 1921, ele
elogiou Mussolini por sua capacidade de mobilizar massas, mas criticou a
desordem do fascismo. Esses movimentos refletem sua busca por forças dinâmicas,
como a Revolução Russa de 1917, que ele admirava pela liderança de Lenin.
Para Sorel,
violência e mito eram interdependentes. O mito da greve geral, por exemplo,
inspirava a violência proletária, que, por sua vez, reforçava a narrativa
mítica ao demonstrar a força e a determinação dos trabalhadores. Essa interação
criava um ciclo de mobilização: o mito dava propósito à violência, e a
violência tornava o mito tangível.
3- Influências
contemporâneas
As ideias de
Sorel sobre a violência ecoam em movimentos de esquerda atuais que recorrem a
táticas disruptivas para desafiar regimes capitalistas ou governos
conservadores. Embora muitos desses grupos não citem Sorel diretamente, sua
ênfase na ação direta e na ruptura com a ordem estabelecida ressoa com sua
filosofia. Esses movimentos frequentemente usam táticas como ocupações,
barricadas ou enfrentamentos com forças policiais para desestabilizar sistemas
percebidos como opressivos, refletindo a visão de Sorel de que a violência pode
ser um catalisador para despertar a consciência de classe e mobilizar as
massas. A visão de Sorel sobre a violência é controversa, pois, embora ele a
defendesse, não detalhava os limites éticos da mesma, o que levanta questões
sobre até onde a violência poderia ser justificada sem degenerar em caos ou repressão.
A influência de
Sorel é evidente, mesmo que indireta, em movimentos de esquerda que combinam
narrativas míticas com ações violentas ou disruptivas. Grupos como os Black
Blocs, que emergiram em protestos antiglobalização na década de 1990, utilizam
táticas violentas (como confrontos com a polícia ou destruição de propriedades)
inspirados por visões de ruptura sistêmica, ecoando a ideia de Sorel de que a
violência é um ato de afirmação contra a opressão. Da mesma forma, narrativas
como a luta por justiça social, contra a desigualdade global, contra mudanças
climáticas, etc. funcionam como mitos, mobilizando ativistas a ações que
desafiam a ordem estabelecida, mesmo sem um plano de atuação ou comprovação das
teses defendidas pelo grupo.
No cenário contemporâneo,
essa influência é mais perceptível em grupos como a Antifa e o Black Lives
Matter (BLM), onde a violência surge como resposta a estruturas percebidas como
opressivas (capitalismo, racismo sistêmico ou fascismo). A Antifa (abreviação
de "antifascista"), rede descentralizada de ativistas radicais de
esquerda, incorpora elementos sorelianos por meio de táticas de confronto
direto contra símbolos percebidos como de extrema-direita, polícia e
instituições capitalistas. Sorel via a violência como um "mito
mobilizador" que une as massas em atos de resistência, similar ao que
ocorre na Antifa, onde confrontos físicos (como arremesso de objetos em forças
policiais ou vandalismo de propriedades associadas ao "fascismo") são
justificados como defesa ética contra a opressão estatal. A influência de Sorel
aparece na doutrina da "diversidade de táticas", que permite ações
violentas ao lado de protestos pacíficos, ecoando sua distinção entre violência
criativa (proletária) e força repressiva (estatal). Estudos sobre anarquismo
contemporâneo ligam isso diretamente a Sorel, vendo suas ideias como base
teórica para práticas como o Black Bloc, táticas de anonimato em massa durante
protestos, usadas para sabotar infraestruturas vistas como opressivas. Por
exemplo, Sorel argumentava que a violência proletária "aniquila" o
Estado sem buscar tomá-lo, um eco em ações antifa que visam deslegitimar a
autoridade policial em vez de reformá-la.
Alguns exemplos
podem ser obtidos e citados a partir do contexto presente neste início de
século. Protestos do G20 em Hamburgo (2017): Grupos antifa, organizados em
Black Blocs, incendiaram veículos e ergueram barricadas contra forças de
segurança, causando danos estimados em milhões de euros. Essa violência foi
interpretada como resistência transnacional ao capitalismo global, alinhada à
visão soreliana de ações que inspiram medo na burguesia e fortalecem a
solidariedade operária. Jornadas de Junho no Brasil (2013): O surgimento de
Black Blocs em protestos contra aumentos de tarifas e corrupção estatal
envolveu vandalismo e confrontos, transformando manifestações em eventos
anarquistas que suspendiam a "legitimidade da ordem legal". Ativistas
viam isso como "propaganda pelo ato" (um conceito anarquista próximo
ao mito soreliano da greve geral), expondo a violência estatal e mobilizando
massas. Protestos nos EUA pós-2020: Durante os levantes contra a brutalidade
policial, a Antifa foi acusada de transformar protestos antes pacíficos, com
ações como a destruição de comissariados e estátuas confederadas. Analistas
libertários ligam isso ao sindicalismo soreliano, onde a violência contra
instituições capitalistas (como bancos ou propriedades privadas) serve para
desestabilizar o sistema, mesmo que resulte em caos. O BLM -Black Lives
Matter, movimento global contra o racismo sistêmico e a violência policial, tem
uma relação mais ambígua com o conceito soreliano. Oficialmente, o BLM enfatiza
protestos não violentos e reformas (como desfinanciamento da polícia), mas
elementos radicais dentro do movimento (especialmente em interseções com
anarquistas ou anticapitalistas) adotam táticas disruptivas que ecoam a
violência como afirmação de dignidade coletiva. Sorel, influenciado por
Proudhon, via a violência como preservadora da divisão de classes;
analogamente, no BLM, atos de revolta contra o "capitalismo racial"
servem para rejeitar a assimilação pacífica à ordem liberal. Levantes de 2020
nos EUA: Após o assassinato de George Floyd, protestos do BLM evoluíram em
cidades como Portland e Minneapolis, com incêndios em comissariados e saques a
lojas de luxo. Grupos como Antifa se uniram, transformando ações em
"sindicalismo marxista", termo usado para descrever violência contra
instituições capitalistas, como a queima de veículos da polícia ou destruição
de propriedades corporativas. Isso pode ser visto como eco de Sorel: uma
"greve geral" urbana que expõe contradições raciais e econômicas,
inspirando solidariedade global. Interseções com Antifa: Em Portland
(2020-2021), blocos autônomos do BLM-Antifa ocuparam zonas autônomas e
confrontaram a Guarda Nacional, justificando a violência como defesa contra
"fascismo policial". Analistas conectam isso à herança soreliana via
diversidade de táticas, onde a violência é um "motor para o socialismo"
contra o Estado opressor. No BLM, porém, a influência é diluída: líderes
centrais condenam a violência, mas facções radicais (como o capítulo de
Portland) adotam posturas mais sorelianas, vendo confrontos como essenciais
para "manter a oposição fundamental" ao racismo capitalista.
A influência de
Sorel em Antifa e BLM é mais genealógica que direta (transmitida via
anarquismo, marxismo herético e teorias de ação direta), promovendo a violência
como ferramenta de empoderamento dos marginalizados contra estruturas opressivas.
Isso explica o uso de táticas disruptivas em protestos globais, de Hamburgo a
Minneapolis, onde o confronto não visa vitórias eleitorais, mas rupturas
simbólicas. A influência aparece na ideia de que a violência não é mero
vandalismo, mas uma resposta moral à opressão histórica, similar à
"violência proletária" de Sorel que canaliza "sentimentos
nobres" da classe oprimida. Embora o BLM não cite Sorel, sua retórica de
"queimar tudo" (em contextos de revolta) reflete o mito soreliano:
narrativas de libertação (como a abolição do racismo estrutural) mobilizam
massas para ações radicais, independentemente de viabilidade imediata. Críticos
argumentam que essa "violência criativa" perpetua ciclos de
destruição sem transformação sustentável, facilitada por líderes locais
relutantes em reprimir. Neste começo de século XXI, com polarização crescente,
o legado de Sorel nos lembra que a violência política pode alienar aliados e
fortalecer narrativas não fundamentadas, levando ao caos e ao oposto de um
autogoverno libertário, cedendo espaço a ditaturas cruéis e sem qualquer
liberdade de expressão, com total repressão em nome do mito, seja este o de uma
sociedade libertária, do comunismo ou do socialismo, dentre outros.
4- ALGUMAS DAS
PRINCIPAIS OBRAS DE GEORGES SOREL
1- Contribution
à l’étude profane de la Bible. Título traduzido: Contribuição ao estudo profano
da Bíblia. Data de publicação: 1889.
Nesta obra
inicial, Sorel explora a Bíblia sob uma perspectiva histórica e sociológica,
desvinculada de interpretações teológicas tradicionais. Ele analisa o contexto
social e cultural dos textos bíblicos, utilizando métodos históricos para
entender como as narrativas moldaram a moral e a organização social. O livro
reflete sua formação inicial como engenheiro e pensador racional, antes de sua
guinada ao socialismo.
2- Le Procès de
Socrate: Examen critique des thèses socratiques. Título traduzido: O processo
de Sócrates: Exame crítico das teses socráticas. Data de publicação: 1889.
Sorel examina o
julgamento e as ideias de Sócrates, questionando a idealização do filósofo na
tradição ocidental. Ele analisa o impacto das teses socráticas na sociedade
ateniense, argumentando que Sócrates desafiou normas estabelecidas, mas também
provocou tensões que culminaram em sua condenação. A obra revela o interesse
precoce de Sorel pela filosofia e pela história das ideias.
3- Essai sur
l’Église et l’État. Título traduzido: Ensaio sobre a Igreja e o Estado. Data de
publicação: 1900.
Este ensaio
investiga as relações históricas entre instituições religiosas e poder
político, com foco na tensão entre autoridade espiritual e secular. Sorel
analisa como a Igreja influenciou estruturas políticas na Europa, especialmente
na França, e questiona o papel do clero na sociedade moderna e contemporânea. O
texto reflete sua transição para questões sociais e políticas mais amplas.
4- La Ruine du
monde antique: Conception matérialiste de l’histoire. Título traduzido: A ruína
do mundo antigo: Concepção materialista da história. Data de publicação: 1902.
Nesta obra,
Sorel adota uma perspectiva materialista para explicar o declínio do Império
Romano, enfatizando fatores econômicos e sociais em vez de narrativas morais ou
religiosas. Ele explora como mudanças nas estruturas produtivas e nas relações
de classe contribuíram para o colapso, antecipando sua adesão ao marxismo e ao
estudo das dinâmicas históricas.
5- Introduction
à l’économie moderne. Título traduzido: Introdução à economia moderna. Data de
publicação: 1903.
Sorel apresenta
uma análise crítica das teorias econômicas de seu tempo, combinando influências
marxistas com reflexões sobre o impacto do capitalismo industrial. O livro
discute a organização do trabalho, a exploração econômica e o papel das classes
trabalhadoras, servindo como base para suas ideias posteriores sobre o
sindicalismo revolucionário.
6- Les Illusions
du progrès. Título traduzido: As ilusões do progresso. Data de publicação: 1908.
Neste texto,
Sorel critica a crença otimista no progresso linear propagada por pensadores
liberais e positivistas. Ele argumenta que a ideia de progresso contínuo
mascara desigualdades sociais e serve aos interesses da burguesia, propondo que
apenas ações coletivas radicais podem gerar mudanças significativas. A obra
reflete seu ceticismo em relação às ideologias dominantes.
7- Réflexions
sur la violence. Título traduzido: Reflexões sobre a violência. Data de
publicação: 1908.
Considerada sua obra
mais influente, este livro defende o sindicalismo revolucionário e o conceito
de "mito" como força mobilizadora. Sorel argumenta que a greve geral,
enquanto mito, inspira a ação proletária, e que a violência operária é um meio
de afirmar a identidade de classe contra a opressão capitalista. O texto
combina filosofia, sociologia e política.
8- Matériaux
d’une théorie du prolétariat. Título traduzido: Materiais para uma teoria do proletariado.
Data de publicação: 1919.
Nesta coleção de
ensaios, Sorel reflete sobre o papel do proletariado na transformação social,
enfatizando a autonomia dos trabalhadores e o potencial revolucionário dos
sindicatos. Ele discute a moral proletária e a necessidade de uma cultura de
classe distinta, consolidando suas ideias sobre o sindicalismo e a ação direta.
9- De l’Utilité
du pragmatisme. Título traduzido: Da utilidade do Pragmatismo. Data de
publicação: 1921.
Em sua última
grande obra, Sorel explora o Pragmatismo, influenciado por William James, como
uma abordagem para compreender o conhecimento e a ação social. Ele defende que
o conhecimento é construído pela prática coletiva, rejeitando visões
positivistas e enfatizando a criatividade humana. O livro marca sua evolução
para uma epistemologia mais flexível.
10- D’Aristote à
Marx (L’ancienne et la nouvelle métaphysique). Título traduzido: De Aristóteles
a Marx (A antiga e a nova metafísica). Data de publicação: Escrito em
1910-1911, publicado postumamente em 1935.
Este trabalho
analisa a evolução do pensamento filosófico de Aristóteles a Marx, com ênfase
nas concepções metafísicas que moldam as visões de mundo. Sorel conecta ideias
clássicas às modernas, destacando como o materialismo histórico de Marx oferece
uma nova compreensão da realidade social e da luta de classes.
David Émile
Durkheim (1858-1917) nasce em Épinal, Alsácia-Lorena, próximo de Estrasburgo, e
falece aos 59 anos de idade na cidade de Paris.
Épinal, na
Alsácia-Lorena, era uma região disputada entre França e Alemanha. Após a Guerra
Franco-Prussiana (1870-1871), a região foi anexada pela Alemanha, o que
influenciou a identidade de Durkheim como francês e seu compromisso com a
unidade nacional.
Proveniente de
uma família judaica adotou para si o agnosticismo. Havia uma tradição de seguir
a atividade de rabino em sua família, tradição da qual Durkheim se afastou, sem,
no entanto, romper os laços com a comunidade judaica, da qual vieram muitos de
seus alunos e discípulos. Ele também se posicionou no Caso Dreyfus (Capitão Alfred
Dreyfus), defendendo a justiça social. Durkheim escreveu e participou
ativamente como “dreyfusard”, defendendo a inocência de Alfred Dreyfus e
criticando o antissemitismo. Isso o colocou em oposição a setores conservadores
da sociedade francesa.
Após os estudos
básicos em sua cidade natal, mudou-se para Paris, onde prosseguiu seus estudos.
Durkheim estudou no Collège d’Épinal e depois ingressou na prestigiada École
Normale Supérieure (ENS) em Paris, em 1879, após ser aprovado no exame de
admissão. Atuou como professor de filosofia em Paris. Entre 1885 e 1886 estudou
na Alemanha e se familiarizou com a obra e trabalho de Wundt. Durkheim passou
cerca de um ano (1885-1886) na Alemanha, onde estudou com Wilhelm Wundt em
Leipzig, mas também foi influenciado por outros acadêmicos, como Gustav
Schmoller e a escola histórica alemã, que impactaram sua visão sobre métodos
científicos. Em 1887 cria a cátedra de sociologia e começa a lecionar na
universidade de Burdeos. Durkheim foi nomeado professor de pedagogia e ciência
social na Universidade de Bordeaux em 1887, mas a cátedra foi inicialmente de
"pedagogia e sociologia", não apenas sociologia. Ele foi pioneiro ao
introduzir a sociologia como disciplina acadêmica. Também em 1887, Durkheim
casou-se com Louise Dreyfus. Eles tiveram dois filhos, Marie e André. Louise
Dreyfus não foi apenas esposa de Durkheim, mas também uma colaboradora
importante, ajudando a organizar suas pesquisas e a gerenciar a correspondência
da L’Année Sociologique.
Na École Normale
Supérieure, Durkheim foi colega de figuras como Jean Jaurès (futuro líder
socialista) e Henri Bergson (filósofo renomado). Esses contatos influenciaram
seu pensamento e o colocaram no centro do debate intelectual francês.
A partir de 1902
passa a ocupar a cátedra de sociologia e pedagogia na universidade de Sorbona. Durkheim
assumiu a cátedra de "Ciência da Educação" na Sorbonne em 1902, que
mais tarde (em 1913) foi renomeada como "Ciência da Educação e
Sociologia". Isso reflete sua influência crescente na institucionalização
da sociologia. Durkheim é o responsável pela fundação e direção da revista
L’Année sociologique, cujo interesse se pautava na sociologia e suas
aplicações. A revista L’Année Sociologique foi fundada em 1896 (primeiro número
publicado em 1898) e continuou até 1913, totalizando a publicação de 12 volumes,
embora tenha sido interrompida durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Durkheim usou a revista para consolidar a sociologia como disciplina e reunir
um grupo de colaboradores, como Marcel Mauss, seu sobrinho. Após sua morte,
Marcel Mauss continuou seu legado ao retomar a L’Année Sociologique, em 1925.
A Primeira
Guerra Mundial (1914-1918) teve um impacto devastador na vida de Durkheim. Seu
filho, André, morreu em combate em 1915, o que abalou profundamente sua saúde e
contribuiu para seu falecimento em 1917. Durante a guerra, Durkheim também se
envolveu em atividades patrióticas, escrevendo panfletos para defender a
França. Durkheim sofreu um derrame em 1916, agravado pela perda do filho e pelo
estresse da guerra, o que levou a sua morte em 1917.
Atuou como
sociólogo, antropólogo, cientista político, psicólogo social e filósofo.
Durkheim, conjuntamente com Augusto Comte, Karl Marx e Max Weber, é considerado
o pai fundador/construtor da moderna ciência social, a sociologia. Cabe, dentro
do pensamento desenvolvido por Durkheim, a sociologia estudar os fenômenos
atribuídos à sociedade como um todo e não se ater especificamente a esfera
individual.
Durkheim sofreu
diversas influências na elaboração de seu trabalho, das quais podemos citar: Auguste
Comte, Herbert Spencer, Rousseau, Montesquieu, Wilhelm Wundt, dentre outros.
Dentre as
principais contribuições de Durkheim para a sociologia temos: o desenvolvimento
de uma noção de “indivíduo” (com a ressalva que sua ênfase sempre foi no
coletivo e não no individual); a análise da sociedade como realidade coletiva; o
estudo do suicídio; o estudo da religião; o estudo da divisão do trabalho
social; o desenvolvimento de um método científico para a sociologia com a
escolha de seu objeto de estudo, o fato social.
Apesar de sua
importância como fundador da sociologia científica, o trabalho de Durkheim
enfrentou críticas significativas. Marxistas argumentavam que sua abordagem
funcionalista (ênfase na coesão e estabilidade social) e o conceito de fato social
negligenciavam conflitos de classe e desigualdades sociais e econômicas como
motores da mudança social, focando excessivamente na integração social, sem
propor transformações e nem apontava os rumos em direção a criação de uma
sociedade melhor, ideal e perfeita,por meio de atuações visando a modificar
a atual sociedade em direção a uma sociedade utópica no futuro. Para estes, ao
mudar os modos de produção, muda-se as relações de trabalho e a estrutura da
sociedade. Houve quem argumentasse que a ideia de se obter um equilíbrio social
era por demais otimista e que ignorava as tensões inerentes às mudanças
sociais. Sociólogos interpretativos, como Max Weber, criticavam a ideia de
tratar fatos sociais como “coisas” em seu método sociológico, alegando que isso
minimizava a subjetividade e a agência individual, especialmente em fenômenos
como religião, onde intenções pessoais são cruciais, entendendo que esta
abordagem poderia ser muito simplista, não vislumbrando toda a complexidade
presente nas interações humanas. Além disso, sua ênfase na consciência coletiva
e na coerção social foi questionada por simplificar a complexidade das
interações humanas, particularmente em contextos de mudança rápida ou
diversidade cultural. Críticos também apontavam que sua análise do suicídio,
embora inovadora, subestimava fatores psicológicos individuais. Apesar dessas
críticas, o rigor científico de Durkheim e sua visão da sociedade como
realidade coletiva consolidaram a sociologia como disciplina, influenciando
debates até hoje.
Dentre os
principais trabalhos escritos e publicados por Durkheim, podemos citar: “Da
divisão do trabalho social”, 1893; “As regras do método sociológico”, 1895; “O
suicídio”, 1897; “As formas elementares da vida religiosa”, 1912.
Além de suas
obras, o impacto de Durkheim continuou a moldar a sociologia. O legado de
Durkheim transcende sua época. Por meio da L’Année Sociologique, ele formou uma
geração de sociólogos, como Marcel Mauss e Maurice Halbwachs, e influenciou
teóricos contemporâneos, como Talcott Parsons e Robert Merton. Suas ideias
sobre coesão social continuam relevantes para entender questões atuais, como
educação, desigualdade e polarização, consolidando-o como um pilar da
sociologia.
A teoria desenvolvida por Durkheim se tornou
conhecida como teoria funcionalista, isto em virtude da analogia que pode ser
feita com as funções presentes no organismo vivo. Trata-se de uma abordagem
sociológica que faz uso da comparação da sociedade com um organismo vivo, deste
modo, as instituições, práticas ou fenômenos sociais, desempenham uma dada e
específica função visando garantir a coesão social, a estabilidade e a
sobrevivência do sistema social.
Durkheim foi aqui inspirado por outros pensadores,
como no caso Augusto Comte, que entendia a sociedade como sendo um todo
orgânico, e Herbert Spencer, que fazia uso de analogias biológicas. No
funcionalismo proposto por Durkheim temos o desenvolvimento de uma abordagem
mais rigorosa e científica, que enfatiza a análise empírica e a interdependência
dos elementos sociais presentes. Durkheim se diferencia destes autores ao
rejeitar o determinismo biológico (Spencer) e propor uma sociologia científica
com base em dados empíricos e na análise das funções sociais. Na obra de
Durkheim também podemos ver a presença de outros pensadores, tais como
Rousseau, que destacava o papel do contrato social na coesão, sendo que
Durkheim adaptou esta ideia para o contexto da sociedade na qual vivia em sua
época histórica, realçando a interdependência presente em sociedades complexas.
Cada parte da sociedade (família, economia, direito,
cultura) oferece a sua contribuição visando a manutenção do equilíbrio social,
deste modo, a ideia do funcionalismo para descrever a sociedade faz analogia
com o corpo de um organismo vivo, no qual os seus diversos órgãos trabalham em
harmonia para proporcionar saúde ao organismo. Segundo o pensamento de
Durkheim, os fenômenos sociais existem com o propósito de atenderem às
necessidades coletivas presentes na sociedade e não apenas os interesses
individuais, a partir deste entendimento, analisou como práticas e instituições
diferentes tendem a reforçar a ordem social existente, atuando de modo a gerar
maior integração e a regular os comportamentos individuais e coletivos.
Este conceito foi desenvolvido por Durkheim em um
momento histórico de profundas mudanças sociais que ocorriam na Europa
(industrialização, urbanização, secularização, abandono do campo pelas massas
sociais em direção as cidades). Enquanto Spencer analisava a sociedade como o
resultado da competição individual, Durkheim segue outro rumo, enfatizando a
primazia da sociedade sobre o indivíduo e rejeitando explicações reducionistas,
que atribuíam os fenômenos sociais a causas individuais (emocionais,
psicológicas), biológicas ou econômicas. Segundo seu pensamento, a sociedade
apresenta uma realidade própria, independente e única, com leis e dinâmicas
específicas.
Era intenção do trabalho desenvolvido por Durkheim a
frente da sociologia, encontrar as funções de cada fenômeno social, qual o
papel desempenhado por tais fenômenos na manutenção da sociedade, bem como,
analisar quando as condições presentes em tais fenômenos podem se mostrar
benéficas ou disfuncionais. Durkheim entendia que mesmo práticas que
aparentemente se mostrem como negativas, podem desempenhar um papel positivo,
ao reforçar normas e práticas sociais. Deste modo, mesmo desvios podem ser
integrados à comunidade ajudando a formar a sua coesão social.
Segundo Durkheim, o funcionalismo se baseia em
alguns (quatro) princípios centrais: a interdependência social; a função
social; a primazia da sociedade; o equilíbrio e a adaptação.
Por interdependência social, Durkheim entende que a
sociedade é um sistema cujas partes que o compõe são interconectadas, de modo
que cada elemento presente desempenha um papel para a estabilidade social, como
tal é o caso das instituições, das normas e dos valores. Pensemos que a família
educa os indivíduos para seguirem as normas sociais, enquanto o sistema
jurídico atua regulando os conflitos e ambos contribuem para a coesão social.
Durkheim entendia que cada fenômeno social possui
uma função, um propósito, que supre uma dada necessidade social. As funções
podem se apresentar de modo manifesto ou latente. Quando manifestas, se mostram
intencionais e são reconhecidas, já quando latentes, estas são não
intencionais, mas ainda assim benéficas. Se pensarmos em uma cerimônia pública,
esta pode ter uma função manifesta de celebrar algo, mas também pode atuar como
função latente, ao proporcionar a união do grupo social.
Segundo o pensamento de Durkheim, a primazia deve
ser dada à sociedade, já que o indivíduo dentro da sociedade é moldado por
forças sociais coletivas, tais como valores e normas sociais, que ultrapassam
as intenções individuais. Ao propor a primazia da sociedade sobre o indivíduo,
Durkheim se afasta de outras concepções, tais como as presentes nos economistas
clássicos ou nos utilitaristas, abordagens estas individualistas.
Para Durkheim a sociedade busca o equilíbrio e a
adaptação diante das rápidas mudanças que a atingem, tais como a saída do homem
do campo em direção as cidades, a maior urbanização e a industrialização.
Mudanças rápidas podem gerar desequilíbrios e para solucioná-los torna-se
necessário a ocorrência de adaptações nas funções das instituições.
Durkheim fez emprego do funcionalismo para analisar
diversos fenômenos sociais em busca do entendimento sobre como estes
contribuiriam para a coesão social e estabilidade na sociedade. Aqui podemos
pensar nos trabalhos elaborados sobre a divisão do trabalho, o suicídio, a
religião, o crime e a educação.
Durkheim entendia as instituições sociais como
mecanismos que propiciam a integração do indivíduo à sociedade, atuando de modo
a fornecer normas e papéis que garantam a ordem social. Aqui temos instituições
tais como a família, o sistema educativo, o sistema jurídico.
As práticas coletivas, tais como rituais,
celebrações e mesmo punições sociais, atuam reforçando os laços entre as
pessoas dentro da sociedade e reafirmando valores compartilhados pelo grupo.
Os desvios sociais, tais como infrações às normas
vigentes, podem atuar de modo a reforçar os limites do aceitável socialmente,
reafirmando as regras sociais.
O funcionalismo teve relevância e exerceu influência
social posterior, influenciando teóricos tais como Talcott Parsons, que veio a
desenvolver a teoria dos sistemas sociais, e Robert Merton, que refinou o
conceito de funções manifestas e latentes. Cotidianamente temos o uso do
funcionalismo na análise de instituições e como estas contribuem para a
sociedade, como é o caso da educação, da saúde e do sistema judicial. Claro que
atualmente o funcionalismo é por vezes associado a outras perspectivas. Mas é
importante que se entenda que o funcionalismo de Durkheim continua relevante
por sua capacidade de explicar como as sociedades complexas conseguem manter a
sua coesão por meio do uso de instituições interdependentes. Com certeza, a
visão de uma sociologia sistemática e científica consolidou a autonomia desta
disciplina e foi capaz de entender as dinâmicas coletivas que moldam a vida
humana em sociedade. O funcionalismo proposto por Durkheim foi inovador,
ofereceu uma base sólida para a sociologia enquanto ciência, permitiu uma
análise sistemática das instituições e das práticas sociais, mas não esteve
isento de críticas diversas.
3- Método
Seu método foi
apresentado em seu livro “As regras do método sociológico”, 1895, cabendo a
este a consolidação da sociologia como uma ciência independente. De Comte
trouxe a influência de entender que as leis sociais devem ser estudadas
empiricamente. Sua busca por uma sociologia científica o fez optar pela
rejeição de especulações de origem metafísica e explicações com origem em
fatores individuais, sejam estes psicológicos ou biológicos. Dentro da
abordagem de Durkheim, a sociologia deve se ater a estudar os fenômenos sociais
enquanto realidades objetivas e com características próprias e distintas das
intenções ou ações individuais.
Durkheim busca
estudar as sociedades por meio do método positivo, inspirado em Comte, Spencer
e Wundt, dentre outros. Segundo seu pensamento, a moral, a religião, a cultura
e as ciências seriam fruto do meio social, tendo suas origens na sociedade. A
sociologia passa a ser uma ciência que tem o social como absoluto (o social
como sendo o foco central), um princípio geral de explicação de tudo que o
humano desenvolveu.
O contexto
social no qual Durkheim desenvolveu seu método sociológico foi marcado por
grandes transformações sociais e intelectuais, tais como a industrialização, a
saída do homem do campo para as cidades, a urbanização, os avanços das ciências
naturais.
Durkheim
entendia que a sociologia é uma ciência que estuda a sociedade buscando as leis
que a regem, por meio do uso de método rigoroso e distinto da filosofia,
evitando, também, abordagens reducionistas e buscando um estudo sistemático de
seu objeto.
Segundo a
concepção de base positivista presente em Durkheim, só nos é possível conhecer
de modo científico os fenômenos e suas leis, eliminando do estudo filosófico
toda metafísica. Deve-se abandonar o estudo abstrato de causas superiores e
buscar as causas presentes nas observações sensíveis.
Segundo
Durkheim, era importante estabelecer regras claras para a observação,
explicação e comparação dos fenômenos sociais, de modo a permitir que a
sociologia possa revelar as reais dinâmicas coletivas que atuam dentro da
sociedade moldando a vida das pessoas nelas presentes. Segundo seu pensamento,
a sociedade possui uma realidade própria e independente dos indivíduos que a
compõem, cabendo a sociologia o estudo dos fenômenos sociais com objetividade,
a mesma presente nos estudos das ciências naturais.
O método de
Durkheim, detalhado em As Regras do Método Sociológico, baseia-se em cinco
princípios fundamentais: tratar os fatos sociais como sendo coisas; eliminar
preconceitos; identificar causas e funções; uso da comparação; análise
empírica.
1- Tratar os
fatos sociais como coisas: Durkheim propôs que os fenômenos sociais, como
normas, valores ou instituições, devem ser tratados como objetos externos ao
pesquisador, observáveis e mensuráveis, em vez de subjetivos ou abstratos. Essa
regra busca garantir a objetividade, eliminando preconceitos ou suposições
pessoais.
2- Eliminar
preconceitos: O sociólogo deve abandonar ideias preconcebidas sobre a
sociedade, baseando suas análises em dados empíricos e observações
sistemáticas, livres de juízos morais ou ideológicos.
3- Identificar
causas e funções: Durkheim distinguia entre as causas que produzem um fenômeno
social e as funções que ele desempenha na sociedade. Por exemplo, uma
instituição pode surgir por fatores históricos (causa) e existir para manter a
coesão social (função). Essa distinção é essencial para evitar confusões entre
origem e propósito.
4- Uso da comparação:
A comparação entre sociedades ou períodos históricos é uma ferramenta central
para identificar leis gerais e variações nos fenômenos sociais. Durkheim usava
métodos comparativos para analisar como diferentes contextos sociais
influenciam fenômenos, como a organização do trabalho ou práticas culturais.
5- Análise
empírica: A sociologia deve se basear em dados concretos, como estatísticas,
observações históricas ou etnográficas, para formular explicações científicas,
em vez de especulações metafísicas sobre causas superiores ou abstratas.
Durkheim
realizou diversas análises sociais nas quais teve a oportunidade de aplicar o
seu método, demonstrando deste modo que a sociologia pode estudar fenômenos
sociais de modo científico. Fez uso de dados empíricos e comparações históricas
para examinar como as instituições ou práticas sociais surgem em determinados
contextos e após seu surgimento, atuam para manter a estabilidade social. O
método adotado por Durkheim enfatiza a necessidade da observação dos fenômenos
coletivos e não das intenções individuais. Os fenômenos coletivos podem ser
estudados tomando como dados, por exemplo, as taxas de criminalidade ou os
padrões de comportamento. Durkheim abordou estes fenômenos em estudos que
conduziu sobre a divisão do trabalho, o suicídio, o crime e a religião.
Em sua época
histórica, sua abordagem metodológica foi revolucionária em virtude de sua
originalidade, diferenciando a sociologia de outras disciplinas com seus campos
de estudo particulares, como tal é o caso da psicologia e da economia. Deste
modo, fenômenos sociais deixam de ser reduzidos a motivações individuais ou
fatores materiais e econômicos. Os fatos sociais não devem ser explicados
baseados em motivações pessoais, estados mentais (emoções), determinismos
econômicos (Marx) ou biológicos (Spencer). A sociedade possui leis próprias que
podem e devem ser estudadas objetivamente. Se diferenciando do Positivismo
adotado por Comte, adota forte ênfase na comparação e na análise empírica,
sendo menos teórico que Comte. Também se afasta da abordagem filosófica
empreendida por Rousseau, adotando uma abordagem mais científica.
O método
proposto por Durkheim teve e tem ainda, grande relevância. Mesmo nos dias
atuais continua exercendo influência na sociologia. A defesa que fez na
objetividade e na análise empírica dos dados se faz presente em atuais estudos
quantitativos, nos quais temos pesquisas estatísticas sobre o comportamento
social, também vemos sua abordagem influenciando em análises comparativas,
dentre as quais os estudos sobre diferenças culturais entre grupos sociais de
países distintos.
Sociólogos
contemporâneos aplicam suas ideias para investigar questões como desigualdade,
educação ou mudanças sociais, muitas vezes combinando o método de Durkheim com
outras perspectivas. A obra As Regras do Método Sociológico permanece um marco,
ensinando que a sociedade pode ser estudada com o mesmo rigor das ciências
naturais, consolidando a autonomia da sociologia como disciplina.
Apesar de ter
recebido algumas críticas, o método de Durkheim foi fundamental para firmar a
sociologia como uma ciência, proporcionando todo o arcabouço rigoroso
necessário em pesquisa social.
4- Fato social
Outra ideia
importante por ele desenvolvida é a de “fato social”, pela qual podemos entender
aquilo que é geral e comum dentro de dada sociedade, e aquilo que tem uma
existência social própria, independente de manifestações individuais. O fato
social possui um caráter universal que lhe é intrínseco, tornando-o externo aos
indivíduos e exercendo um poder imperativo de coação sobre todos dentro da
sociedade. Trata-se de um modo de fazer algo que se impõe ao indivíduo de modo
coercitivo pelo social. Temos as leis que obrigam determinado comportamento sob
pena de sanções legais, temos as sanções morais impostas pela opinião pública,
temos a educação desde criança ensinando como é mais adequado socialmente
comer, vestir-se e comportar-se de acordo com as regras sociais vigentes. Os
fatos sociais são exteriores às pessoas e podem ser observados por meio da
experiência sensível. Durkheim elege como princípio e primeira regra de seu
método sociológico considerar o fato social como sendo uma coisa.
Este conceito,
central em sua obra, foi apresentado em “As regras do método sociológico”,
1895. Trata-se do objeto de estudo da sociologia, por meio do qual esta é
distinguida de outras ciências. O fato social é um dos pilares que proporcionam
a sociologia ser uma ciência autônoma, distinta da psicologia e da economia. O
fato social se apresenta como a forma de agir, pensar e sentir, externa ao
indivíduo, e que exerce alguma coerção social sobre esta pessoa. O fato social
possui uma existência própria, independentemente de qualquer consciência
individual. Por meio da análise dos fatos sociais pode-se descobrir a
consciência coletiva de uma dada sociedade.
Podemos entender
o fato social como se apresentando na forma de se comportar, pensar e sentir
demonstrada pelas pessoas em sociedade, mas provenientes de uma consciência coletiva
externa ao indivíduo. O fato social é externo, geral e coercitivo, pois,
antecede a vida do indivíduo, já que quando este nasce, já se encontram
presentes diversas condições que irão marcar sua existência e suas escolhas na
vida, como tal écaso do sistema
educacional e de crenças no qual será inserido, das práticas religiosas
presentes em sua sociedade, da linguagem da qual faz uso, da história de sua
comunidade, da estrutura de trabalho desenvolvida e em vigor na sociedade, das
relações comerciais e econômicas, das práticas presentes na profissão que este
indivíduo adotar em sua vida, etc. Tudo isto ocorre sempre de modo independente
de qualquer uso que o indivíduo possa delas fazer.
Os fatos sociais
possuem realidade objetiva e portanto podem ser estudados pela ciência. O fato
social possui três características essenciais: generalidade, externalidade e
coercitividade.
Os fatos sociais
são divididos em normais e patológicos. Os fatos sociais normais reforçam os
laços sociais dentro de uma dada sociedade. Os fatos sociais patológicos atuam
contrários a esta mesma sociedade, negando-a. Aqui temos os atos puramente
egoístas e o suicídio como exemplo.
Durkheim
entendia que os fatos sociais possuem existência própria e independente da vida
cognitiva e emocional de cada pessoa em particular. Um fato social é uma coisa
dada. O fato social está vinculado a formas de pensar e agir coletivas.
O conceito de
fato social foi desenvolvido em um contexto de consolidação da sociologia como
ciência, no final do século XIX, período marcado por transformações como a
industrialização e a urbanização. Durkheim buscava diferenciar a sociologia de
disciplinas que explicavam o comportamento humano por fatores individuais, como
a psicologia (emoções, intenções) ou a biologia (instintos). Ele argumentava
que a sociedade possui uma realidade própria, com leis e dinâmicas que
transcendem o indivíduo, e que os fatos sociais são a chave para entender essas
dinâmicas.
Ao propor os
fatos sociais como objeto de estudo, Durkheim estabeleceu que a sociologia
deveria analisar fenômenos coletivos, como normas, valores, instituições ou
práticas, usando métodos científicos, como observação empírica e comparação.
Isso reforça sua abordagem apresentada em “As regras do método sociológico”,
onde ele defende tratar os fatos sociais como “coisas” (objetos externos e
mensuráveis).
Para Durkheim o
fato social é qualquer padrão de comportamento ou pensamento que seja geral em
uma dada sociedade, externo ao indivíduo e possuindo um poder coercitivo, sendo
estas as suas principais três características, ou seja: generalidade;
exterioridade; coerção.
Por generalidade
Durkheim entende serem os fatos sociais coletivos e compartilhados pela maior
parte dos membros da sociedade, como tal é o caso das normas de cortesia, que
são praticadas pelo grupo social em sua grande maioria.
Por
exterioridade Durkheim entende serem os fatos sociais externos ao indivíduo,
existindo fora deste, enquanto produtos do meio social e sendo independentes
das vontades pessoais. Quando o indivíduo nasce, ele o faz dentro de
determinado meio social que já possui normas, regras, valores e mesmo
instituições diversas previamente estabelecidas.
Por coerção
Durkheim entende serem os fatos sociais coercitivos, exercendo pressão sobre os
indivíduos, de modo a compelir as pessoas a segui-los, sob pena de sanções
sociais. Quando o indivíduo não cumpre a lei local, está sujeito a punições, do
mesmo modo, ignorar regras de etiqueta pode levar à desaprovação social.
Podemos pensar a
“linguagem” como exemplo. Quando a pessoa nasce em dada sociedade a linguagem
já existe e esta deve aprende-la, começando tal processo já nas primeiras
interações sociais, ainda bebê. A linguagem é geral, usada por toda uma
comunidade, é externa, o indivíduo não a cria e sim a aprende, é coercitiva, já
que quem não segue as regras não é compreendido e, portanto, é excluído.
Durkheim fez uso
e aplicação deste conceito em diversas análises por ele empreendidas,
demonstrando como fenômenos coletivos moldam o comportamento individual.
Existem diversos
exemplos possíveis, tais como as normas sociais (regras de comportamento tais
como cumprimentar outras pessoas, respeitar filas), instituições (a família, o
sistema educativo, o sistema jurídico), práticas coletivas (rituais religiosos,
celebrações públicas), dentre outros.
Trata-se de
conceito inovador que coloca a sociedade como sendo uma realidade distinta, com
propriedades que são irredutíveis a fatores individuais (psicologia, biologia).
Por meio deste conceito Durkheim enfatiza a primazia do coletivo.
Este conceito
continua sendo importante na atual sociologia, sendo usado para analisar como
normas, regras, valores e instituições moldam comportamentos em distintos
contextos. Podemos ver os fatos sociais diante das atuais redes sociais e seu
impacto na formação da opinião pública, bem como, no emprego das leis visando
regular conflitos.
A ideia presente
no conceito "coerção" foi perdendo importância para Durkheim e
aparece com menos frequência em textos posteriores e mais maduros. Em obras
mais tardias, como “Da divisão do trabalho social”, 1893, (revisada em edições
posteriores) e especialmente “As formas elementares da vida religiosa”, 1912,
Durkheim suaviza a ênfase na coerção e dá maior destaque à interiorização dos
fatos sociais pelos indivíduos. Ele começa a explorar como normas, valores e
crenças são assimilados de forma natural, por meio da socialização (ex.:
educação, rituais religiosos), tornando a coerção menos explícita. A ideia de
coerção permanece, mas é complementada pela noção de que os indivíduos
internalizam os fatos sociais, aceitando-os como naturais ou desejáveis, o que
reduz a percepção de coerção externa. Durkheim percebeu que a coerção, embora
importante, não explica completamente a adesão aos fatos sociais. A
socialização (ex.: educação, família) faz com que normas e valores sejam
internalizados desde a infância, tornando a coerção menos visível em sociedades
complexas.
Sociólogos
contemporâneos aplicam a ideia de Durkheim para estudar questões como
desigualdade social, globalização e mudanças culturais, muitas vezes
combinando-a com outras perspectivas. A noção de que a sociedade exerce uma
força coercitiva sobre os indivíduos ajuda a entender fenômenos como a pressão
por conformidade em grupos ou a resistência a mudanças estruturais.
O conceito de
fato social consolida a visão de Durkheim de que a sociedade é mais do que a
soma de seus indivíduos. Ele oferece uma lente poderosa para compreender como
as dinâmicas coletivas moldam a vida humana, reforçando a importância da
sociologia como ciência. Os fatos sociais mostram como a sociedade nos guia,
mesmo sem percebermos. Durkheim nos deu uma lente para entender isso.
5- Consciência
coletiva
Introduzido em “Da
Divisão do Trabalho Social”, 1893, a consciência coletiva reflete a força do
coletivo sobre o indivíduo, funcionando como um fato social que une a sociedade
e regula o comportamento. Ela é a base da solidariedade social, garantindo que
os indivíduos se sintam parte de um todo maior.
O conhecimento
dos fatos sociais se dá por meio da “consciência coletiva” presente na
sociedade. É esta consciência coletiva que gera, modifica e impõe tais fatos
sociais nas vidas individuais das pessoas.
Por consciência
coletiva Durkheim entendia a soma cultural de ideias morais e normativas, deste
modo, o mundo social existe a parte do mundo psicológico individual. Ora, a
consciência coletiva mostra-se como sendo composta pelo conjunto de crenças e
sentimentos comuns à média dos integrantes de uma dada sociedade, formando um
sistema determinado e independente.
Cada pessoa
possui a sua própria consciência individual, seu próprio modo de se comportar e
interpretar a vida que vive, no entanto, em todas as sociedades existem formas
de comportamento padronizadas e compartilhadas por todos os indivíduos que
compõem esta mesma sociedade, afetando seu modo de pensar e sentir diante dos
acontecimentos, aqui estamos diante da consciência coletiva.
O fenômeno para
ser coletivo, se encontra presente se não em todos os membros da sociedade, em
grande parte dos mesmos, sendo algo comum ao grupo. Não é, no entanto, por
estar presente individualmente em cada um do grupo que o fenômeno se torna
geral e sim justamente o contrário, ou seja, por fazer parte do grupo, cada um
individualmente expressa o fenômeno. Trata-se de um estado presente no grupo
social que é aprendido e repetido em cada membro individualmente, sendo imposto
pela educação aos seus membros. O fenômeno está em cada parte porque
primeiramente está no todo. Deste modo, o indivíduo se submete à sociedade da
qual faz parte, se comportando, pensando, sentindo, dentro de determinados
padrões aceitos e estimulados socialmente. Esta sociedade protege o indivíduo,
trazendo-lhe conforto por fazê-lo sentir-se como parte integrante de um grupo
coeso e estruturado.
A sociedade se
apresenta como sendo uma realidade nova e distinta das partes que a compõem, ou
seja, os diversos indivíduos ali presentes. A sociologia também se mostra
distinta da psicologia, pois, a sociologia se atém ao estudo do fato social e
da consciência coletiva, que é diferente dos processos subjetivos individuais
presente nas pessoas. Enquanto os processos subjetivos se originam de dentro do
indivíduo, o fato social e a consciência coletiva provêm de fora, do meio
externo ao indivíduo.
O conceito
elaborado por Durkheim de “consciência coletiva” se mostra como fundamental na
ciência da sociologia que este funda. A consciência coletiva se apresenta como
sendo o somatório das crenças, valores e sentimentos compartilhados pelo grupo
social, moldando a sua coesão e identidade.
Trata-se do
conjunto de crenças e sentimentos comuns à média dos integrantes da sociedade,
formando um sistema determinado com vida própria e independente. Não se trata
da mera soma das consciências individuais, mas sim de uma nova realidade,
distinta, que emerge das interações sociais e se bem que precise dos indivíduos
para ser criada e mantida, existe de modo independente destes.
Suas principais
características incluem: ser comum ao grupo; ser externa aos indivíduos;
exercer coerção moral. Comunalidade: A consciência coletiva é compartilhada
pela maioria dos membros de uma sociedade, como valores morais, normas éticas
ou crenças religiosas. Exterioridade: Existe fora dos indivíduos, sendo
transmitida por meio da socialização (ex.: educação, família, rituais) e
moldando suas ações e pensamentos. Coerção moral: Embora menos enfatizada em
textos posteriores, a consciência coletiva exerce uma pressão moral sobre os
indivíduos, incentivando a conformidade com os valores coletivos.
Se pensarmos em
uma comunidade religiosa, suas crenças e rituais fazem parte da consciência
coletiva deste grupo, proporcionando união entre os membros e uma orientação
para o comportamento a ser adotado, isto mesmo que alguns possam questionar de
algum modo.
O conceito de
consciência coletiva foi desenvolvido por Durkheim no contexto do final do
século XIX, marcado pela industrialização, urbanização e mudanças sociais
rápidas. Ele buscava entender como as sociedades mantêm sua coesão em meio a
transformações, especialmente com o aumento da divisão do trabalho. A
consciência coletiva é central para explicar a solidariedade social, um tema
que Durkheim explora em “Da divisão do trabalho social”. Em sociedades
tradicionais, ela é forte e homogênea, promovendo a solidariedade mecânica
(baseada na semelhança entre indivíduos). Em sociedades atuais, com maior
divisão do trabalho, ela se torna mais abstrata, contribuindo para a
solidariedade orgânica (baseada na interdependência).
A consciência
coletiva conecta-se ao conceito de fato social, pois crenças e valores
compartilhados são exemplos de fatos sociais que moldam o comportamento. Ela
também reforça o método sociológico de Durkheim, sendo estudada como uma
“coisa” observável por meio de práticas coletivas, como rituais ou normas.
Durkheim aplicou a consciência coletiva em análises de fenômenos sociais,
mostrando como ela integra os indivíduos à sociedade.
A consciência
coletiva se mostra presente nas normas e valores morais, nos códigos éticos
adotados pelo grupo. Tal é o caso da valorização da honestidade e do respeito
por outras pessoas. Na religião as crenças religiosas refletem a consciência
coletiva, reforçando a união social por meio de rituais compartilhados. Na
educação o sistema educacional atua na sustentação da coesão social
transmitindo as novas gerações o ensino de valores e normas pautadas na
consciência coletiva. Celebrações públicas, tais como feriados e dias que
homenageiam uma data, fato ou pessoa, fortalecem o sentimento de pertencimento
a sociedade, emanado destas práticas coletivas.
O conceito de
consciência coletiva é inovador por enfatizar a sociedade como uma realidade
distinta, com uma “vida própria” que transcende os indivíduos. Diferentemente
de abordagens psicológicas, que focam nas mentes individuais, ou econômicas,
que priorizam interesses materiais, Durkheim destacou a força dos valores e
crenças coletivas.
A consciência
coletiva permanece relevante na sociologia, ajudando a entender como valores
compartilhados moldam as sociedades atuais. Por exemplo, nas redes sociais,
opiniões e tendências refletem uma consciência coletiva contemporânea,
influenciando comportamentos. O conceito também é usado para analisar questões
como identidade nacional, polarização política ou movimentos culturais, onde
valores comuns unem ou dividem grupos. Sociólogos contemporâneos aplicam a
ideia de Durkheim para estudar como a globalização ou a tecnologia afetam a
coesão social, muitas vezes combinando-a com outras perspectivas.
A consciência
coletiva consolida a visão de Durkheim de que a sociedade é um sistema de
forças coletivas que dão sentido à vida humana. Ela oferece uma lente essencial
para compreender como crenças e valores compartilhados criam laços sociais,
reforçando a importância da sociologia como ciência.
6- Divisão do
trabalho e Solidariedade (mecânica e orgânica)
O conceito de
divisão do trabalho e sua relação com a solidariedade social é central na
sociologia de Émile Durkheim, especialmente em sua obra “Da divisão do trabalho
social”, 1893. Durkheim analisa como a divisão do trabalho, ou seja, a
especialização de funções e ocupações em uma sociedade, influencia a coesão
social.
Durkheim defende
que a divisão do trabalho em uma sociedade é a origem de sua organização, bem
como, dos modos de vida social ali presentes. A divisão do trabalho refere-se à
especialização de tarefas e papéis sociais, como a diferenciação entre
profissões (ex.: agricultores, artesãos, médicos) ou funções sociais. Para
Durkheim, ela não é apenas uma questão econômica, mas um fenômeno social que
molda a estrutura da sociedade.
Diferentemente
das sociedades pré-capitalistas, a atual sociedade é caracterizada pela divisão
do trabalho, a qual ocorre de modo complexo e é fator de coesão social,
promovendo a interdependência dos indivíduos. Nas sociedades pré-capitalistas
temos um tipo de solidariedade mecânica, que se baseia na comunidade de crenças
e na intensidade do consenso expresso na consciência coletiva, já na atual
sociedade capitalista temos uma solidariedade orgânica.
O conceito de
solidariedade está vinculado às ideias de coesão social e integração social.
Durkheim divide a solidariedade em mecânica e orgânica. A solidariedade
mecânica vincula-se as sociedades tradicionais pré-capitalistas. Por meio dela
os indivíduos se identificam com a família, a religião, as tradições e os
costumes. Trata-se de uma sociedade com forte coesão social na qual os
indivíduos ainda não se diferenciam do meio social, reconhecendo e adotando os
valores provindos deste meio. É o meio social no qual está inserido o indivíduo
que lhe proporciona os valores, os sentimentos, os objetos sagrados, todos
pertencentes à sociedade da qual o indivíduo faz parte integrante. Já na
solidariedade orgânica, temos que esta surge nas sociedades mais complexas e
onde existe a divisão do trabalho. Nestas sociedades temos uma maior
individualidade e autonomia do indivíduo em relação à consciência coletiva. A
divisão do trabalho social torna os indivíduos interdependentes, o que garante
a união social, mas não necessariamente os costumes e tradições compartilhadas
pelo grupo. Além do aumento de produtividade, a divisão do trabalho produz uma
maior solidariedade entre as pessoas dentro da sociedade atual.
A solidariedade
social se dá quando o indivíduo atua em prol dos interesses do grupo ao qual
faz parte, seja por enaltecer a honra ou outro motivo. A solidariedade social é
o vínculo que une os indivíduos ao grupo, mantendo a sociedade unida, baseado
na consciência coletiva, que engloba crenças e valores compartilhados. Ele
propõe que a solidariedade social pode ser de dois tipos: mecânica, típica de
sociedades tradicionais, e orgânica, característica de sociedades industrializadas
contemporâneas. Esses conceitos explicam como as sociedades mantêm sua unidade
em diferentes contextos históricos. Durkheim usou a divisão do trabalho e a
solidariedade para analisar como as sociedades evoluem e se mantêm coesas.
Solidariedade
mecânica: Predomina em sociedades tradicionais, onde há pouca divisão do
trabalho e os indivíduos têm papéis semelhantes (ex.: todos são agricultores).
A coesão vem da semelhança entre os indivíduos, que compartilham crenças,
valores e modos de vida homogêneos. A consciência coletiva é forte, com normas
rígidas e pouca diferenciação, reforçando a união por meio da conformidade. Em
comunidades agrárias ou tribais, a solidariedade mecânica prevalece. Por
exemplo, em uma vila onde todos compartilham a mesma religião e ocupação, a
coesão vem da semelhança cultural e moral.
Solidariedade
orgânica: Caracteriza sociedades atuais, com alta divisão do trabalho e
especialização (ex.: existência de diversas profissões). A coesão vem da
interdependência entre indivíduos com funções complementares, semelhante a
órgãos em um organismo vivo. A consciência coletiva é mais abstrata, permitindo
maior individualidade, mas mantendo a sociedade unida pela necessidade mútua. Em
cidades industriais, a solidariedade orgânica é dominante. Por exemplo,
médicos, professores e engenheiros dependem uns dos outros para o funcionamento
da sociedade, criando laços de interdependência.
A divisão do
trabalho influencia instituições como a educação, que prepara indivíduos para
papéis especializados, e o sistema jurídico, que regula as interações em
sociedades complexas. A divisão do trabalho está ligada à consciência coletiva,
pois ela determina o tipo de solidariedade predominante. Em sociedades com
solidariedade mecânica, a consciência coletiva é homogênea, enquanto na
solidariedade orgânica, ela é mais diversa, refletindo a complexidade social.
Como um fato social, a divisão do trabalho é externa aos indivíduos, moldando
seus papéis por meio de normas e instituições. O método sociológico de Durkheim
é aplicado ao estudar a divisão do trabalho como uma “coisa” observável, por
meio de indicadores como taxas de ocupação ou organização social.
O conceito de
divisão do trabalho e solidariedade é inovador por oferecer uma explicação
sociológica para a coesão social, distinta de abordagens econômicas ou
individualistas. Os conceitos de divisão do trabalho e solidariedade permanecem
relevantes na sociologia. Em um mundo globalizado, a interdependência
característica da solidariedade orgânica é evidente nas cadeias produtivas,
onde países e profissões dependem uns dos outros.
Podemos pensar
que atualmente a tecnologia conecta desenvolvedores, fabricantes e consumidores
em uma rede complexa. A solidariedade mecânica ainda é observada em comunidades
locais ou grupos culturais que valorizam a semelhança, como em movimentos
identitários ou pequenos grupos tribais. Sociólogos contemporâneos usam as
ideias de Durkheim para analisar questões como desigualdade no mercado de
trabalho, impactos da automação ou coesão em sociedades multiculturais,
combinando-as com outras perspectivas.
Diferentemente
de Adam Smith, que via a divisão do trabalho como um mecanismo de eficiência
econômica, Durkheim a analisou como um fenômeno social que gera solidariedade.
Comparado ao Positivismo de Auguste Comte, que era mais teórico, Durkheim usou
dados empíricos, como padrões de ocupação, para estudar a transição de
sociedades tradicionais para as atuais. Sua analogia com um organismo vivo
(solidariedade orgânica) também se diferencia da visão filosófica de Rousseau,
que enfatizava a “vontade geral”.
A divisão do
trabalho e os conceitos de solidariedade mecânica e orgânica consolidam a visão
de Durkheim de que a sociedade é um sistema de forças coletivas que mantêm a
coesão social.
7- Anomia
O conceito de
anomia, desenvolvido por Émile Durkheim, é um dos pilares de sua sociologia,
descrevendo um estado de desregulação social em que as normas e valores que
guiam o comportamento coletivo enfraquecem ou desaparecem, levando à
desintegração social e à perda de coesão. Introduzido em “Da divisão do trabalho
social”, 1893, e aprofundado em “O suicídio”, 1897, a anomia reflete a ausência
de regras claras em períodos de rápidas mudanças sociais, impactando a relação
entre indivíduos e sociedade.
A anomia (“a-nomos”
- ausência do nomos, das leis, das regras) se dá diante de uma situação social
de “falta de leis” na qual os sistemas sociais mostram-se incapazes de manter a
coesão social, ou seja, neste momento a consciência coletiva unitária deixa de
atuar como deveria, havendo uma fragmentação social. A ausência de normas e
regras presente na anomia leva a desintegração social.
Durkheim define
a anomia como um estado de desordem social causado pela falta de normas
reguladoras ou pela incapacidade das normas existentes de orientar o
comportamento em contextos de transformação. A anomia surge quando a
consciência coletiva enfraquece, deixando os indivíduos sem direção moral ou
social.
A anomia se
mostra como a contraparte da solidariedade social, pois, enquanto esta se
apresenta como um estado de integração ideológica coletiva, a anomia se mostra
diante de um estado de confusão e decadência da consciência coletiva.
No final do
século XIX, durante a industrialização e urbanização, Durkheim observou que
mudanças rápidas, como o aumento da divisão do trabalho, podiam romper os laços
de solidariedade social, criando condições para a anomia. Ele via a anomia como
uma patologia social, distinta do funcionamento normal das sociedades, que
dependem de normas para manter a coesão. A anomia está ligada à divisão do
trabalho, especialmente em sociedades modernas com solidariedade orgânica, onde
a interdependência exige normas para regular as interações entre papéis
especializados. Quando essas normas não acompanham as mudanças sociais, como em
crises econômicas ou transições rápidas, a anomia emerge, gerando incerteza e
desorientação.
A anomia
apresenta características específicas: Ausência ou enfraquecimento de normas; desintegração
social; impacto individual. Ausência ou enfraquecimento de normas: As regras
que orientam o comportamento social tornam-se insuficientes ou confusas,
deixando os indivíduos sem referência clara. Desintegração social: A falta de
normas enfraquece os laços de solidariedade, reduzindo o senso de pertencimento
à sociedade. Impacto individual: Sem normas coletivas, os indivíduos podem
sentir desorientação, isolamento ou insatisfação, pois suas aspirações não são
reguladas pelo grupo. Como exemplo podemos pensar em crises econômicas, como a
ocorrida com a quebra da bolsa de valores no ano de 1929, que levou a uma
recessão de caráter mundial. Neste caso, as normas que regulam o mercado de
trabalho tendem a também entrar em colapso, levando os trabalhadores ao
sentimento de desamparo e de estarem desconectados da sociedade.
A anomia está
intrinsecamente ligada à consciência coletiva, pois seu enfraquecimento é a
raiz do problema. Como um fato social, a anomia é um fenômeno externo aos
indivíduos, observável em taxas de divórcio, criminalidade ou outros indicadores
de desregulação. O método sociológico de Durkheim permite estudá-la como uma
“coisa”, analisando dados empíricos, como estatísticas sociais. Na divisão do
trabalho, a anomia surge quando a especialização não é acompanhada por normas
adequadas, prejudicando a solidariedade orgânica.
Durkheim aplicou
o conceito de anomia em análises de fenômenos sociais, especialmente em
contextos de mudança: Crises econômicas; transições sociais; comportamentos
sociais. Crises econômicas: Flutuações rápidas, como booms ou recessões, podem
desestabilizar normas, levando à anomia. Por exemplo, um desemprego em massa
pode romper as expectativas de estabilidade profissional. Transições sociais:
Durante a industrialização, a rápida urbanização enfraqueceu normas tradicionais,
criando um vácuo regulatório. Comportamentos sociais: A anomia está associada a
comportamentos como aumento de conflitos trabalhistas ou desintegração
familiar, quando as normas não conseguem regular as interações.
O conceito de
anomia é inovador por identificar a desregulação social como uma causa de
problemas coletivos, distinta de explicações individualistas. Diferentemente de
abordagens psicológicas, que atribuem comportamentos desviantes a fatores
internos, Durkheim enfatizou a origem social da anomia, decorrente do
enfraquecimento da consciência coletiva.
Comparado ao Positivismo
de Auguste Comte, que focava na ordem social, Durkheim analisou as disfunções,
usando dados empíricos para estudar fenômenos como taxas de criminalidade. Sua
abordagem também se diferencia de visões econômicas, como a de Karl Marx, que
priorizavam conflitos de classe, ao destacar a regulação normativa como
essencial para a coesão.
A anomia
permanece um conceito relevante na sociologia atual, ajudando a entender
fenômenos presentes em sociedades complexas. Em contextos de globalização, por
exemplo, mudanças tecnológicas rápidas, como a automação, podem desestabilizar
normas trabalhistas, gerando desemprego e desorientação. Sociólogos
contemporâneos usam o conceito para analisar questões como desigualdade social,
crise de identidade em comunidades multiculturais ou impactos de crises
econômicas globais, combinando-o com outras perspectivas.
O conceito de
anomia consolida a visão de Durkheim de que a sociedade depende de normas para
manter a coesão. Ele oferece uma lente poderosa para compreender como a
desregulação social afeta indivíduos e coletividades, reforçando a importância
da sociologia como ciência.
8- Educação
O conceito de
educação na sociologia de Émile Durkheim, desenvolvido especialmente em
“Educação e sociologia”, 1922 (póstumo), e “A educação moral”, 1925 (póstumo),
é central para entender como as sociedades transmitem valores e normas às novas
gerações, garantindo a coesão social. Durkheim via a educação como um processo
social essencial, que não apenas instrui, mas socializa os indivíduos,
integrando-os à consciência coletiva e preparando-os para a vida em sociedade.
Sua abordagem destaca o papel da educação na reprodução cultural e na
manutenção da solidariedade social.
Na educação de
cada pessoa há um componente individual que podemos atribuir a psicologia, e um
componente social, que podemos atribuir a sociologia. A construção de um novo
ser, de uma nova pessoa dentro da sociedade por meio da educação se dá com a
constante assimilação de valores e normas sociais que irão reger o
comportamento desta pessoa. O humano é produto da sociedade na qual vive e seu
comportamento visa se adequar aos princípios morais e éticos do grupo.
Durkheim define
a educação como “a ação exercida pelas gerações adultas sobre as gerações que
ainda não estão maduras para a vida social, tendo por objetivo desenvolver no
indivíduo um certo número de estados físicos, intelectuais e morais exigidos
pela sociedade”. Ele a considera um fato social, externo aos indivíduos,
moldado pela consciência coletiva e influenciado pelas condições sociais, como
a divisão do trabalho. No final do século XIX, na Idade Contemporânea, durante
a industrialização e a consolidação dos sistemas educacionais nacionais,
Durkheim analisou a educação na França, enfatizando seu papel em promover a
solidariedade em uma sociedade em transição para a solidariedade orgânica.
Se pensarmos na
função Social da Educação, temos que Durkheim argumenta que a educação tem
funções sociais fundamentais: socialização, preparar os indivíduos para a
divisão presente no mercado de trabalho, atuar na manutenção da coesão social.
Socialização: Transmite normas, valores e crenças da consciência coletiva,
integrando os indivíduos à sociedade. Por exemplo, ensinar respeito às leis
fortalece a coesão social. Preparação para a divisão do trabalho: Prepara os
indivíduos para desempenhar papéis específicos em sociedades contemporâneas
complexas, promovendo a solidariedade orgânica. Manutenção da coesão social:
Contraria a anomia ao reforçar normas morais e cívicas, evitando a desregulação
social.
A educação está
intrinsecamente ligada a outros conceitos de Durkheim. Como fato social, é
externa e coercitiva, observável em sistemas educacionais e currículos. A
consciência coletiva determina o conteúdo da educação, definindo os valores a
serem transmitidos. A divisão do trabalho influencia o tipo de educação, com
sociedades de solidariedade mecânica enfatizando valores homogêneos e
sociedades de solidariedade orgânica priorizando habilidades especializadas. O
método sociológico é aplicado ao estudar a educação como um fenômeno social,
analisando sistemas escolares e sua evolução. Diferentemente do crime, que
reforça normas por meio da punição, ou do suicídio, que reflete desequilíbrios,
a educação promove a coesão de forma preventiva, moldando os indivíduos.
Durkheim aplicou
o conceito de educação para explicar fenômenos sociais, tais como: a
transmissão cultural, a formação cívica e moral, a adaptação às mudanças.
Transmissão cultural: A educação transmite valores históricos e culturais, como
o laicismo na França do século XIX, fortalecendo a identidade coletiva.
Formação cívica e moral: Ensina normas éticas e cívicas, como o respeito à
autoridade e à diversidade, promovendo a solidariedade. Adaptação às mudanças
sociais: Prepara os indivíduos para transformações, como a industrialização, ao
ensinar habilidades técnicas e sociais.
O conceito de
educação em Durkheim é inovador por tratá-la como um processo social, e não
apenas individual ou pedagógico. Diferentemente de abordagens que focavam a
instrução técnica ou intelectual, Durkheim enfatizou a socialização e a
moralidade como funções centrais.
Comparado ao Positivismo
de Auguste Comte, quevia a educação
como um meio de obter ordem, Durkheim destacou seu papel na coesão e na
adaptação às mudanças sociais. Sua abordagem se diferencia de visões
econômicas, como a de Karl Marx, ao priorizar a coesão social em vez de
conflitos de classe.
O conceito de
educação permanece relevante na sociologia atual. Ele é usado para analisar
como sistemas educacionais moldam identidades em contextos de globalização e
diversidade cultural. Por exemplo, currículos que promovem inclusão contrariam
a anomia em sociedades contemporâneas multiculturais. A educação também é
estudada em relação à desigualdade social, como o acesso desigual a escolas de
qualidade, que pode agravar a desregulação social. Sociólogos contemporâneos
aplicam as ideias de Durkheim para avaliar políticas educacionais, como
programas de educação cívica, e para entender o papel da educação na redução de
comportamentos desviantes, como o crime.
O conceito de
educação consolida a visão de Durkheim de que a sociedade molda os indivíduos
por meio de processos coletivos. Ele oferece uma lente poderosa para
compreender como a educação fortalece a coesão social e prepara as gerações
para os desafios da vida em sociedade, reforçando a importância da sociologia
como ciência.
9- O suicídio
O estudo do
suicídio, desenvolvido por Émile Durkheim em sua obra “O suicídio”, 1897, é uma
das contribuições mais marcantes da sociologia, demonstrando que um ato
aparentemente individual é influenciado por forças sociais. Durkheim analisou o
suicídio como um fato social, examinando suas causas coletivas e propondo uma
tipologia com quatro formas principais. Sua abordagem pioneira reforça a
sociologia como ciência, ao usar dados empíricos para revelar como a sociedade
molda comportamentos individuais.
Durkheim estudou
o suicídio como uma manifestação social e não meramente individual, como tal,
entendia o suicídio como sendo um fato social presente em todas as sociedades,
variando em número de ocorrências e formas pelas quais é praticado. Para
Durkheim o suicídio é toda morte resultante de um ato realizado pela própria
pessoa objetivando este fim, seja um ato positivo (empreender uma ação para tal
fim), ou negativo (deixar de fazer algo para obter este fim). Para haver
suicídio, deve antes haver a intenção da pessoa de provocar a própria morte,
deste modo, casos acidentais ou provocados por imprudência não são
considerados. Os suicídios tendem a variar de acordo com o local e tempo
histórico.
Durkheim define
o suicídio como “todo caso de morte que resulte direta ou indiretamente de um
ato positivo ou negativo, realizado pela própria vítima, sabendo que produziria
esse resultado”. Ele o estudou como um fato social, externo aos indivíduos,
influenciado pela consciência coletiva e pelas condições sociais, como a
divisão do trabalho e a anomia. No final do século XIX, durante a industrialização,
Durkheim usou estatísticas de taxas de suicídio em diferentes países para
investigar como fatores sociais, e não apenas psicológicos, determinam esse
fenômeno. Sua análise desafiou visões individualistas, mostrando que o suicídio
reflete o grau de integração e regulação social.
Segundo o
pensamento de Durkheim, podemos definir a existência de quatro tipos distintos
de suicídio: o egoísta, o altruísta, o anômico e o fatalista. Estes quatro
tipos de suicídio, são baseados em dois eixos: integração social (o quanto o
indivíduo está ligado ao grupo) e regulação social (o quanto as normas
controlam o comportamento).
Suicídio
egoísta: Ocorre quando há baixa integração social, ou seja, o indivíduo se
sente desconectado da sociedade. Exemplo: pessoas isoladas, como solteiros ou
protestantes (que, segundo Durkheim, tinham laços comunitários mais fracos que
católicos), têm taxas de suicídio mais altas. No suicídio egoísta a pessoa
sobrepõe seu eu ao social, pois, ao não suportar a vida e não encontrando
motivos na sociedade para continuar vivendo, escolhe por fim a própria vida.
Suicídio
altruísta: Resulta de uma integração social excessiva, onde o indivíduo
sacrifica a própria vida pelo grupo. Exemplo: soldados que morrem por honra ou
membros de comunidades tradicionais que se suicidam por dever coletivo. No
suicídio altruísta temos que o social se apresenta maior que o eu individual e
o sujeito põe fim a sua vida em prol de uma causa maior, vinculada ao benefício
da sociedade na qual vive. Um bom exemplo aqui temos na segunda guerra mundial
com os pilotos kamikazes japoneses, que faziam seus próprios aviões de arma
contra os americanos ao chocarem-se propositalmente com seus navios de guerra.
Suicídio
anômico: Está ligado à baixa regulação social, associada à anomia, quando
normas enfraquecem em períodos de crise. O suicídio anômico ocorre quando temos
uma situação de anomia social na qual predomina a desordem e o caos na ausência
de leis e regras sociais. Está presente em situações de crise, guerra e
mudanças sociais abruptas que proporcionem uma situação entendida pelo sujeito
individual como sendo de caos social. Exemplo: durante crises econômicas, como
a de 1929, a desregulação aumenta as taxas de suicídio.
Suicídio
fatalista: Ocorre em situações de regulação social excessiva, onde normas
opressivas limitam a liberdade individual. Exemplo: escravos ou prisioneiros em
condições extremas. Este tipo é menos enfatizado por Durkheim, mas completa a
tipologia. No suicídio fatalista a pessoa sucumbe ao excesso de controle e
restrições sociais (escravidão, prisão, invalidez física, etc.).
O suicídio está
intrinsecamente ligado a outros conceitos de Durkheim. Como fato social, é
externo e coercitivo, observável em estatísticas sociais. A consciência
coletiva determina o grau de integração, enquanto a anomia explica o suicídio
anômico, causado pela falta de normas. A divisão do trabalho influencia a
regulação social, especialmente em sociedades modernas com solidariedade
orgânica, onde a anomia pode surgir. O método sociológico é central, pois
Durkheim usou dados empíricos, como taxas de suicídio por religião, profissão e
estado civil, para testar hipóteses e estabelecer causalidade social.
Durkheim aplicou
o estudo do suicídio para compreender fenômenos sociais, tais como: integração
social, mudanças sociais, instituições sociais.
Integração
social: Mostrou que grupos com forte coesão, como católicos ou famílias
numerosas, têm taxas de suicídio menores, enquanto grupos menos integrados,
como protestantes ou indivíduos solteiros, apresentam taxas mais altas.
Mudanças
sociais: Analisou como crises econômicas ou transições rápidas, como a
industrialização, aumentam a anomia e, consequentemente, o suicídio anômico.
Instituições
sociais: Destacou o papel de instituições, como a família e a religião, em
promover integração e reduzir taxas de suicídio.
O estudo do
suicídio é inovador por tratar um ato individual como um fenômeno social,
desafiando explicações psicológicas predominantes na época. Diferentemente de
abordagens que focavam em motivações pessoais, Durkheim usou estatísticas para
mostrar que fatores sociais, como integração e regulação, determinam as taxas
de suicídio.
Comparado ao
Positivismo de Auguste Comte, que era mais teórico, Durkheim aplicou um rigor
empírico, analisando dados quantitativos. Sua abordagem se diferencia de visões
econômicas, como a de Karl Marx, ao priorizar a coesão social em vez de
conflitos de classe.
O estudo do
suicídio permanece relevante na sociologia atual. Ele é usado para analisar
questões como saúde mental em contextos de globalização, onde a desregulação
social (anomia) pode aumentar taxas de suicídio, como em períodos de desemprego
em massa. Nas redes sociais, a baixa integração social, como o isolamento
digital, pode ser associada ao suicídio egoísta. Sociólogos contemporâneos
aplicam a tipologia de Durkheim para estudar fenômenos como suicídios em
comunidades marginalizadas ou em situações de crise, combinando-a com
perspectivas psicológicas e culturais. O foco de Durkheim na integração e
regulação também inspira políticas públicas, como programas de apoio
comunitário para prevenir o suicídio.
O estudo do
suicídio consolida a visão de Durkheim de que a sociedade molda até os
comportamentos mais individuais. Ele oferece uma lente poderosa para
compreender como forças sociais influenciam a vida humana, reforçando a
importância da sociologia como ciência.
10- O crime
O conceito de
crime na sociologia de Émile Durkheim, especialmente desenvolvido em “As regras
do método sociológico”, 1895, e “Da divisão do trabalho social”, 1893, é uma
contribuição fundamental para entender a função social dos comportamentos
desviantes. Durkheim argumenta que o crime não é apenas uma violação das
normas, mas um fenômeno normal e necessário nas sociedades, pois reforça a
consciência coletiva e promove a coesão social. Sua abordagem desafia visões
que consideram o crime apenas como uma patologia, destacando seu papel na
manutenção e evolução das sociedades.
Durkheim define
o crime como um ato que ofende a consciência coletiva, ou seja, os valores e
crenças compartilhados por uma sociedade, sendo punido por meio de sanções
formais, como leis, ou informais, como reprovação social. Ele o considera um
fato social, externo aos indivíduos, observável nas taxas de criminalidade e
nas respostas coletivas ao crime. No contexto do final do século XIX, durante a
industrialização e mudanças sociais rápidas, Durkheim analisou o crime para
entender como as sociedades mantêm a coesão diante de transformações,
conectando-o à divisão do trabalho e à anomia.
Para Durkheim, o
crime é “normal” porque está presente em todas as sociedades, independentemente
de seu grau de desenvolvimento. Ele não é apenas inevitável, mas funcional,
pois a reação coletiva ao crime, tais como punições, fortalece as normas e
valores comuns, reforçando a solidariedade social. No entanto, em situações de
anomia, o aumento desregulado do crime pode indicar uma crise nas normas
sociais.
O crime
apresenta uma função social, atuando de modo positivo no reforço da consciência
coletiva e na promoção da mudança social. Reforço da consciência coletiva: Ao
violar normas, o crime provoca uma reação coletiva (ex.: indignação, punição)
que reafirma os valores compartilhados. Como exemplo podemos pensar na punição
de um roubo, que reforça a importância da propriedade privada. Promoção da
mudança social: O crime pode desafiar normas ultrapassadas, permitindo a
evolução social. Como exemplo podemos pensar em atos considerados criminosos no
passado, como dissidência política, que impulsionaram mudanças em normas hoje
consideradas opressivas. Limite da normalidade: O crime é normal quando ocorre
em níveis moderados, mas pode se tornar patológico se excessivo, indicando
anomia ou desregulação social.
O crime está
intrinsecamente ligado a outros conceitos de Durkheim. Como fato social, é
externo e coercitivo, observável em estatísticas de criminalidade. A
consciência coletiva define o que é considerado crime, pois atos que a ofendem
são punidos. A divisão do trabalho influencia o tipo de crime, com sociedades
de solidariedade mecânica punindo atos que violam valores homogêneos e
sociedades de solidariedade orgânica enfrentando crimes ligados à anomia. O
método sociológico é aplicado ao estudar o crime como uma “coisa”, usando dados
empíricos, como taxas de criminalidade, para analisar sua normalidade e função.
Embora relacionado ao suicídio, o crime se distingue por sua função de reforçar
normas, enquanto o suicídio reflete desequilíbrios na integração ou regulação.
Durkheim aplicou
o conceito de crime para explicar fenômenos sociais, tais como: coesão social,
mudanças sociais, anomia. Coesão social: Em sociedades tradicionais, crimes
como blasfêmia reforçam valores religiosos compartilhados. Em sociedades
contemporâneas, crimes como fraude financeira destacam a importância de normas
econômicas. Mudanças sociais: Atos considerados criminosos, como protestos por
direitos civis, podem questionar normas e promover reformas. Indicadores de
anomia: Taxas elevadas de criminalidade, como em períodos de crise econômica,
sinalizam desregulação social, conectando o crime à anomia.
O conceito de
crime em Durkheim é inovador por considerar o desvio como normal e funcional,
desafiando visões que o viam apenas como uma ameaça social. Diferentemente de
abordagens jurídicas ou morais, que focavam na punição individual, Durkheim
analisou o crime como um fenômeno social que fortalece a coesão.
Comparado ao
Positivismo de Auguste Comte, que enfatizava a ordem, Durkheim destacou tanto a
normalidade quanto as disfunções do crime, usando dados empíricos. Sua
abordagem também se diferencia de perspectivas econômicas, como a de Karl Marx,
ao priorizar a função normativa do crime em vez de conflitos de classe.
O conceito de
crime permanece relevante na sociologia atual. Ele é usado para analisar como a
sociedade define e reage a comportamentos desviantes, como crimes cibernéticos
em um mundo digitalizado. Altas taxas de criminalidade em contextos de
desigualdade ou crise econômica refletem anomia, enquanto movimentos sociais
que desafiam leis (ex.: protestos por justiça social) ecoam a função de mudança
social do crime. Sociólogos contemporâneos aplicam as ideias de Durkheim para
estudar políticas de justiça criminal, como a reintegração de ex-detentos, ou
para entender como a mídia amplifica reações coletivas a crimes, reforçando
valores sociais.
O conceito de
crime consolida a visão de Durkheim de que até comportamentos desviantes têm um
papel na coesão social. Ele oferece uma lente poderosa para compreender como as
sociedades definem, punem e se transformam por meio do crime, reforçando a
importância da sociologia como ciência.
11- Religião
No estudo da
religião Durkheim argumenta que a religião é um fenômeno social existente em
todas as sociedades, não havendo uma religião que seja verdadeira em oposição a
outra que seja falsa. A função da religião na sociedade é de unir as pessoas
que a compõem formando um grupo coeso e uma comunidade moral.
O conceito de
religião na sociologia de Émile Durkheim, desenvolvido especialmente em “As
formas elementares da vida religiosa”, 1912, é uma contribuição essencial para
entender como as crenças e práticas religiosas unem as sociedades. Durkheim via
a religião como um fenômeno social que expressa e reforça a consciência coletiva,
promovendo a coesão social por meio de ritos e símbolos compartilhados. Sua
abordagem sociológica desafia visões teológicas ou individuais, destacando o
papel da religião na criação e manutenção dos laços sociais.
Durkheim define
a religião como “um sistema solidário de crenças e práticas relativas a coisas
sagradas, isto é, coisas separadas e proibidas, que unem em uma mesma
comunidade moral, chamada igreja, todos aqueles que a ela aderem”. Ele a
considera um fato social, externo aos indivíduos, moldado pela consciência
coletiva e influenciado pelas condições sociais, como a divisão do trabalho. No
início do século XX, na Idade Contemporânea, Durkheim analisou religiões
totêmicas de povos indígenas australianos para entender os fundamentos da vida
religiosa, aplicando essas ideias às sociedades contemporâneas. Sua análise
enfatiza que a religião não é apenas crença espiritual, mas um mecanismo social
que fortalece a unidade coletiva.
Durkheim
argumenta que a religião desempenha funções sociais fundamentais, tais como:
reforço da consciência coletiva, criação de identidade coletiva, regulação
social. Reforço da consciência coletiva: Ritos e símbolos religiosos, como
cerimônias ou totens, expressam os valores compartilhados da sociedade, unindo
os indivíduos. Por exemplo, celebrações religiosas reforçam a solidariedade em
comunidades. Criação de identidade coletiva: A religião define a comunidade
moral, distinguindo o sagrado do profano, e fortalece a coesão social. Por
exemplo, rituais coletivos criam um senso de pertencimento. Regulação social:
As práticas religiosas contrariam a anomia ao estabelecer normas morais que
guiam o comportamento, como preceitos éticos em religiões tradicionais.
A religião está
intrinsecamente ligada a outros conceitos de Durkheim. Como fato social, é
externa e coercitiva, observável em rituais e instituições religiosas. A
consciência coletiva determina o conteúdo do sagrado, definindo o que une a
comunidade. A divisão do trabalho influencia o tipo de religião, com sociedades
de solidariedade mecânica tendo religiões homogêneas e sociedades de
solidariedade orgânica desenvolvendo crenças mais diversificadas. O método
sociológico é aplicado ao estudar a religião como um fenômeno social,
analisando práticas totêmicas e sistemas religiosos históricos. Diferentemente
do crime, que reforça normas por meio da punição, ou da educação, que socializa
preventivamente, a religião une a sociedade por meio de símbolos e ritos
compartilhados. Em relação ao suicídio, a religião promove integração social,
reduzindo taxas de suicídio egoísta.
Durkheim aplicou
o conceito de religião para explicar fenômenos sociais, como tal é o caso:
coesão social, definição do sagrado, resistência à anomia. Coesão social: Em
sociedades tradicionais, rituais religiosos, como cerimônias totêmicas,
fortalecem os laços comunitários. Em sociedades contemporâneas, celebrações
como o Natal reforçam valores coletivos. Definição do sagrado: A religião
estabelece distinções entre sagrado e profano, moldando normas morais, como a
santidade da vida em muitas crenças. Resistência à anomia: Instituições
religiosas, como igrejas, promovem normas éticas que contrariam a desregulação
social em períodos de crise.
O conceito de
religião em Durkheim é inovador por analisá-la como um fenômeno social, e não
teológico ou individual. Diferentemente de abordagens que focavam a crença em
divindades, Durkheim destacou o papel da religião na coesão social, com o
sagrado como uma representação da sociedade.
Comparado ao Positivismo
de Auguste Comte, que via a religião como um estágio inicial do conhecimento,
Durkheim enfatizou sua função social permanente. Sua abordagem também se
diferencia de perspectivas econômicas, como a de Karl Marx, que via a religião
como um instrumento de dominação, ao priorizar sua capacidade de unir a
comunidade.
O conceito de
religião permanece relevante na sociologia atual. Ele é usado para analisar
como práticas religiosas ou seculares, como o culto a símbolos nacionais,
promovem a coesão em sociedades contemporâneas. Em contextos de diversidade
cultural, a religião pode tanto unir comunidades quanto gerar conflitos,
refletindo tensões na consciência coletiva. Sociólogos contemporâneos aplicam
as ideias de Durkheim para estudar fenômenos como o secularismo, onde valores seculares
assumem funções religiosas, ou o papel de religiões em comunidades
marginalizadas, que contrariam a anomia. O foco na coesão social inspira
políticas que promovem diálogo inter-religioso para reduzir conflitos.
O conceito de
religião consolida à visão de Durkheim de que os fenômenos sociais, mesmo os
espirituais, são expressões da sociedade. Ele oferece uma lente poderosa para
compreender como crenças e ritos unem comunidades, reforçando a importância da
sociologia como ciência.
12- Conclusão
A sociologia de
Émile Durkheim, desenvolvida em um período de intensas transformações sociais
pós Revolução Francesa, oferece uma perspectiva poderosa para compreender como
as sociedades se organizam, se mantêm coesas e enfrentam desafios. Por meio de
conceitos como fato social, consciência coletiva, divisão do trabalho, anomia,
suicídio, crime, educação e religião, Durkheim demonstrou que os fenômenos
sociais, mesmo os mais individuais, são moldados por forças coletivas. Sua
abordagem funcionalista e seu método sociológico rigoroso estabeleceram a
sociologia como ciência, analisando desde a coesão em sociedades tradicionais
até os desafios da desregulação em contextos contemporâneos. A originalidade de
Durkheim reside em tratar comportamentos como crime e suicídio, instituições
como educação e religião, e dinâmicas como a divisão do trabalho não como
eventos isolados, mas como expressões da sociedade que promovem ou desafiam a
solidariedade social.
Na atualidade,
suas ideias continuam relevantes, iluminando questões como desigualdade,
isolamento digital, diversidade cultural e políticas públicas. Seja na análise
de taxas de suicídio, na função social do crime, no papel da educação na
socialização ou na capacidade da religião de unir comunidades, Durkheim nos ensina
que a sociedade é maior que a soma de seus indivíduos. Seu legado inspira
sociólogos a estudar como valores coletivos e normas moldam nossas vidas,
oferecendo ferramentas para construir sociedades mais coesas e equilibradas.
Assim, o pensamento de Durkheim permanece uma base fundamental para a
sociologia, reforçando sua importância como ciência que decifra os laços
invisíveis que sustentam a vida em sociedade.
ALGUMAS DE SUAS PRINCIPAIS OBRAS
1- De la division du travail
social. Título em Português: Da Divisão do Trabalho Social. Ano da Primeira
Publicação: 1893.
O autor empreende uma análise da
divisão do trabalho, enquanto fenômeno social que estrutura as sociedades.
Distingue entre (1) solidariedade mecânica, característica presente em
sociedades tradicionais, com forte coesão baseada em semelhanças, de (2)
solidariedade orgânica, típica de sociedades mais complexas, nas quais
predomina a interdependência surgida a partir da diferenciação de funções a
serem exercidas por seus integrantes. Segundo Durkheim, a divisão do trabalho
contribui para a coesão social, mas pode também geral anomia quando não
regulada corretamente.
2- Les Règles de la méthode
sociologique. Título em Português: As Regras do Método Sociológico. Ano da
Primeira Publicação: 1895.
Nesta obra Durkheim estabelece os
fundamentos da sociologia enquanto ciência. Entende que os “fatos sociais”
devem ser abordados enquanto coisas, como realidade objetivas externas ao
indivíduo. Apresenta regras metodológicas voltadas para o estudo científico das
sociedades por meio da ciência sociologia. Entende ser importante observar os
fenômenos sociais com imparcialidade e buscar identificar as causas e funções
dos mesmos.
3- Le Suicide: Étude de
sociologie. Título em Português: O Suicídio: Estudo de Sociologia. Ano da
Primeira Publicação: 1897.
Neste trabalho Durkheim apresenta
uma investigação social sobre o suicídio utilizando o método proposto em “Les
Règles de la méthode sociologique”. Aborda o suicídio como sendo um fato
social, se propondo a analisar suas causas presentes em fatores coletivos, tal
o caso da integração social e a religião. Identifica quatro tipos distintos de
suicídio: egoísta, altruísta, anômico e fatalista. Chega como resultado de sua
pesquisa que as taxas de suicídio variam conforme o grau de coesão social e as
normas que regulam o comportamento individual.
4- Les Formes élémentaires de la
vie religieuse. Título em Português: As Formas Elementares da Vida Religiosa. Ano
da Primeira Publicação: 1912.
Um exame da religião enquanto fenômeno
social. Durkheim fez uso de estudos sobre os aborígenes australianos visando
analisar as formas mais básicas de religião. Argumenta que a religião se mostra
como sendo uma expressão social, atuando de modo a reforçar a coesão social por
meio do uso de símbolos e rituais diversos. Esta obra aprofunda o conceito de
“consciência coletiva” e também desenvolve uma discussão sobre a origem das
categorias fundamentais presentes no pensamento humano.
5- Éducation et Sociologie.
Título em português: Educação e Sociologia. Ano da primeira publicação: 1922).
Publicado postumamente.
Esta obra aborda como a educação atua
enquanto um processo social essencial para a transmissão de valores e normas da
consciência coletiva. Analisa como a educação socializa indivíduos, prepara-os
para a divisão do trabalho e promove a coesão social, com ênfase no sistema
educacional francês do final do século XIX.
6- L’Éducation Morale. Título em
português: A Educação Moral. Ano da primeira publicação: 1925. Publicado
postumamente.
Aborda a educação moral como
mecanismo para transmitir normas éticas e cívicas, se opondo a anomia. Durkheim
destaca a importância de formar indivíduos para a vida em sociedade, promovendo
valores coletivos e a solidariedade social em contextos de mudanças rápidas.