Textos filosóficos, críticos, comportamentais e sobre arte da escrita, sucesso e auto-ajuda.
Professor Doutor Silvério
Blog: "Comportamento Crítico"
Professor Doutor Silvério
Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.
(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)
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Girolamo
Savonarola (1452-1498), nasce em Ferrara, Itália. Seus estudos iniciais foram
em medicina, objetivando seguir a carreira do pai, mas muda seus objetivos,
optando pela vida religiosa. Em 1474 ingressa na Ordem dos Predicadores, se
tornando frade dominicano. Atuou como pregador na cidade de Florença, na época
do Renascimento italiano.
Sofre influência
de Aristóteles por intermédio de Alberto Magno e Tomás de Aquino, bem como de
Platão e do neoplatonismo por intermédio da Academia platônica de Florença,
destacando-se neste caso a influência de Marsílio Ficino. Também sofre
influência de Agostinho de Hipona e de Boaventura de Bagnoregio. Por todas
estas influências filosóficas, provenientes de tão distintas tradições, temos
em Savonarola um pensador eclético. Como religioso cristão, no entanto, todas
estas doutrinas filosóficas ficam subordinadas a sua crença religiosa.
A partir de
agosto de 1490 começa no púlpito da igreja de São Marcos, em Florença, sermões
nos quais apresentava sua interpretação do Apocalipse. Estes sermões tiveram
grande sucesso entre o povo da cidade.
Savonarola
defendeu a reforma da Igreja, da fé e dos costumes então vigentes na sociedade
e nas pessoas individualmente. Entendia que o papel da filosofia seria educar
para que as pessoas pudessem ter uma vida mais próxima de Deus.
Savonarola se via
como profeta e assim atuava em seus escritos e discursos. Vinculou a corrupção
então presente na Igreja aos pecados e modo de vida libertino. Entendia o então
rei da França, Carlos VIII, como um tipo de libertador bíblico, tal o caso do
rei Ciro, o grande. Quando Carlos VIII
invadiu a Itália, ameaçando a cidade de Florença, em 1494, conseguiu apoio para
retirar do poder a família Médici, passando a formar um governo que assumia que
Jesus era o rei, um tipo misto entre teocracia e democracia.
Se tornou conhecido
por suas profecias, bem como, pela destruição de objetos de arte em eventos que
ficaram conhecidos por “fogueira da vaidade”, nos quais tais obras eram
queimadas, sendo a mais conhecida a fogueira de 7 de fevereiro de 1497.
Nestas
fogueiras, objetos tidos como vinculados ao luxo e à vaidade pessoal, podendo
levar as pessoas ao pecado, eram sumariamente queimados. A lista de tais
objetos era bem grande e podia incluir desde espelhos, cosméticos, roupas
finas, baralhos de cartas, instrumentos musicais, até mesmo obras de arte
(pinturas, esculturas) e livros que pudessem ser acusados de imorais.
Savonarola proibiu
o jogo, a bebida e as festas, e de certo modo, atuou como um elemento de
oposição ao contexto social econômico político e artístico que configurava a
Renascença italiana então presente na cidade de Florença, maior foco
renascentista da época.
Atuou como
reformador da Igreja e por tal motivo acabou ao final sendo condenado a morte
acusado de heresia. No final, Samonarola foi excomungado em 13 de maio de 1497
e em 23 de maio de 1498, foi executado, sendo primeiramente enforcado e depois
queimado em praça pública, conjuntamente com outros dois monges de seu mosteiro,
por ordem do papa Alexandre VI, com o qual Savonarola havia se indisposto desde
1495.As
suas cinzas foram dispersas no rio Arno.
A história o
julgou de modos distintos e diversos. Para o posterior Iluminismo, no século
XVIII, foi visto como um impostor, louco e fanático medieval, alguém que se
esforçou para ir e levar consigo a sociedade, em sentido contrário ao do
progresso e desenvolvimento. Já para alguns do povo da cidade de Florença, logo
após sua morte, foi considerado um homem santo. No ano de 1523, Martinho Lutero
confere a Savonarola o título de mártir e precursor do protestantismo. Niccolò Machiavelli
(Nicolau Maquiavel) o chamará de “profeta desarmado”, argumentando no seu livro
“O príncipe”, que a história registra que todos os profetas armados venceram e
os desarmados fracassaram.
Thomas More (1478/1480-1535),
nasce em Londres, Inglaterra, santo pela Igreja Católica Apostólica Romana e
também pela Igreja Anglicana, beatificado pelo papa Leão XIII em 1866 e
canonizado pelo Papa Pio XI em 1935.
Estudou Direito
e as línguas latim e grego, filósofo, ocupou diversos cargos públicos na
Inglaterra, atuou como diplomata, escritor, advogado e homem de leis. Vários
comentadores e estudiosos de sua obra o consideram um dos grandes humanistas do
Renascimento.
Em sua época
histórica não era comum para as mulheres estudarem, mas More quebrou este
paradigma fornecendo uma excelente e clássica educação para todos os seus
filhos, não separando os homens das mulheres neste quesito.
Insere-se dentro
do movimento humanista de sua época. Sofre influência de Aristóteles, Tomás de
Aquino e da Escolástica. Seu livro mais famoso é “Utopia” (“...do melhor estado
de uma república e sobre a nova ilha de Utopia...”), 1516.Em 1518,
escreveu outra obra importante, “A História de Ricardo III”, considerada a
primeira obra-prima da historiografia inglesa e que há de influenciar obra
análoga de William Shakespeare.
Em 1521
tornou-se cavaleiro (Knight). Dentre os vários cargos nos quais atuou quando no
governo, cabe destaque o cargo de Lorde Chanceler do Selo Real, 1529 até 1532. Quando
estava a serviço do rei da Inglaterra, Henrique VIII, entre 1529 e 1533,
negou-se a firmar a ata da supremacia que objetivava questionar a autoridade
papal, tornando o rei da Inglaterra a frente da Igreja em seu país, bem como,
reconhecendo a separação do rei de sua esposa Catarina de Aragão e este casar-se
novamente, com Ana Bolena, bem como, o reconhecimento da legitimidade dos
filhos nascidos deste novo casamento, e por tal motivo, por negar tal
juramento, More demitiu-se de seu cargo de chanceler e se afastou da corte, mas
não adiantou, pois, passado algum tempo, foi preso e posteriormente decapitado.
Homem religioso,
mantinha suas orações e devoção a Deus presente em sua vida. Como homem de
Estado, mantinha seu comportamento ético de base cristã, não aceitando subornos
e atuando do melhor modo possível dentro das funções de seu cargo. Após sua
morte, ficamos sabendo que fazia penitência usando uma camisa de tecido
desconfortável junto a sua pele, provocando incômodo e desconforto. O tecido de
cilício usado por More por baixo de sua camisa de seda usada na corte do rei, normalmente
é feito de crina ou pêlo de cabra e deve ficar junto a pele visando a
mortificação ou penitência, trata-se de tecido áspero e grosseiro.
Thomas More foi
um crítico da reforma protestante na Europa, se opunha a Lutero e defendia que
o direito canônico estava acima do direito comum. No período em que foi
chanceler da Inglaterra, 1529-1532, atuou de modo a perseguir e punir os que se
afastavam da religião católica. Sua perseguição aos hereges e às heresias, bem
como sua oposição a Lutero e à reforma protestante, nos traz um paradoxo quanto
a sua vida, pois, enquanto assim atuava a frente do governo, por meio de seus
escritos vemos algumas notas críticas à sociedade de sua época e à defesa da
tolerância religiosa.
Seu livro Utopia
é inspirado na República de Platão, detalha uma ilha na qual teríamos um Estado
ideal, e por tal meio realiza uma crítica social às condições da Inglaterra a
sua época. O título de sua obra provém do grego, “u” que é uma negação e
“topos” que significa lugar, logo, “utopia” tem o significado de: lugar nenhum.
More foi o criador da palavra “utopia”. Sua obra é uma utopia renascentista
inspirada nos relatos provindos de marinheiros após a descoberta de novas
terras, do novo mundo. Por vezes os habitantes destas novas terras eram
descritos como pessoas felizes que viviam em estado de natureza.
O personagem
principal da obra, que conversa com o personagem que representa Thomas More, é
o marinheiro "nascido em Portugal", Rafael Hitlodeu, que narra sua
viagem até a ilha de Utopia, descrevendo a sociedade que vivenciou durante sua
estada no local. Neste livro fala sobre uma sociedade na qual os bens são comuns
a todos, temos igualdade entre homens e mulheres em várias situações, e um
governo feito por sábios. Em clara inspiração na obra “A República”, dista dela
na medida em que para Platão os bens comuns ocorreriam somente entre duas das
três classes existentes em sua cidade ideal. Para Platão, somente entre os
governantes e os guerreiros haveria bens comuns e ausência da propriedade
privada, já para Thomas More, esta situação se estenderia para todos na
sociedade. Em verdade, não há classes sociais na Utopia de More. Defende a
tolerância e o final das perseguições por motivos de crenças religiosas, no
entanto, não admite os ateus. Para este autor, não seria possível viver neste
Estado ideal quem não acreditasse na existência de Deus, na providência Divina
e na imortalidade da alma.
Cabe à
personagem da obra, o navegador português Rafael Hitlodeu, descrever tudo que
conheceu quando lá esteve na ilha de Utopia. O livro se divide em duas partes,
na primeira temos uma abordagem crítica a situação da Inglaterra na época em que
o livro é escrito, já na segunda parte temos uma descrição de Utopia, de modo
que o leitor possa comparar criticamente os prós e contras de ambas as
sociedades. Apesar de crítico à sociedade de sua época, o livro também se
mostra como uma sátira ao apresentar a sociedade da ilha de Utopia, seu
objetivo, menos que defender uma mudança radical nos costumes e na política do
Estado, é propor uma reflexão sobre formas de governo em busca de um modo
melhor de governar, mas tendo como base um Estado cristão.
Além de Platão,
temos presente a influência de Epicuro, onde o prazer moderado ganha lugar de
destaque, bem como o ócio para ser desfrutado de modo moral e intelectual. Na
sua cidade ideal o trabalho é organizado e distribuído de modo a não termos a
servidão ao senhor. A felicidade dos que residem nesta cidade se dá por poderem
ter prazeres simples e por não possuírem desejo por coisas supérfluas.
Em sua ilha a
felicidade e tranquilidade social e religiosa se dá pela tolerância e o
comunismo de bens. Em uma Europa onde se tornou comum a intolerância e as lutas
religiosas, nesta ilha temos um lugar ideal onde tais lutas inexistem. Ele idealizou
em seu livro uma sociedade perfeita, na qual haveria tolerância e liberdade
religiosa, educação igual para homens e mulheres, jornada de trabalho de seis
horas diárias, ausência de violência e os governantes atuariam em prol do bem
comum do povo da cidade.
No livro
“Utopia”, em linhas gerais, temos a elaboração de um contexto no qual possuímos
uma sociedade na qual coisa alguma pertence a quem quer que seja, e na qual
tudo é de todos, ou seja, a ausência da propriedade privada e a prevalência da
propriedade coletiva. Nesta sociedade da ilha de Utopia, temos que o bem-comum
é mais importante que o bem individual. A guerra é abominada e a caça é tida
como loucura. Já quanto ao ouro e demais metais preciosos, tão cobiçados pelos
europeus da época, não possuem o menor valor dentro desta comunidade, na qual
temos a presença de escravos, dois por família, e que são presos por correntes
de ouro, bem como, o ouro é usado na troca com outros povos, mas na ilha mesmo
não circula moeda alguma representando dinheiro. Nesta ilha as pessoas
trabalham somente seis horas diárias e podem dedicar seis ou oito horas para o
sono reparador e o restante do tempo para atividades do seu interesse.
Apesar de
abominarem a guerra e não darem valor ao ouro em sua ilha, ambas as coisas são
mantidas. Se alguém de sua ilha for molestado por outro povo ou se houver
necessidade de expansão territorial fora da ilha, a guerra se faz necessária,
se bem que, neste caso, possa-se fazer uso do ouro para pagar mercenários para
fazerem a guerra no lugar dos nativos da ilha de Utopia e, neste novo caso, o
ouro também se faz necessário. Aliás, o ouro pode ser usado no comércio com
outros povos, de fora da ilha.
Thomas More, e
sua obra Utopia, não deve ser visto por um prisma social revolucionário, pois
não é esta a intenção do autor, e sim propor uma reflexão sobre a necessidade
de reformas sociais, a obra não é um manifesto e sim uma obra literária de
ficção.
Apesar de
revolucionário para sua época, ao sabor dos tempos atuais, a sociedade descrita
no livro Utopia, carece de liberdade e traz algumas questões consideradas hoje
inapropriadas, tais como a desigualdade presente entre homens e mulheres, a
existência de trabalho escravo, uma organização social que exige disciplina e
ordem ao mesmo tempo em que restringe liberdades individuais, como a de ir e
vir, que tornam o governo desta ilha muito semelhante a governos hoje autoritários.
Cabe citar, por exemplo, no caso desta vertente presente em um governo que hoje
seria tido como autoritário, indicar que profissões os cidadãos deveriam
seguir, uniformização das vestimentas, não valorização das liberdades
individuais.
Giovanni Pico
dela Mirandola (1463-1494) teve uma vida curta, vindo a falecer aos seus 31
anos de idade. Nasce em Mirandola, Itália e falece em Florença, Itália.
Proveniente de família nobre, recebe o título de conde. Detentor de dons artísticos
e famoso por sua boa memória, já a partir dos 14 anos passou a se dedicar a sua
formação profissional, vindo a estudar formalmente direito, teologia e
filosofia. Com objetivo nos estudos, viajou por cerca de sete anos pela Itália
e França, estando presente nas principais faculdades e também se dedicando a
aprender vários idiomas. Também se interessou pelo estudo da Cabala e do
Talmud. Tinha como objetivo poder conciliar a religião cristã com a filosofia e,
neste tocante, se aproxima de Marsílio Ficino (seu mestre), de Platão e do
neoplatonismo, ao mesmo tempo em que se afastava do pensamento de Aristóteles e
da Escolástica. Claro está, no entanto, que por ser um pensador eclético,
iremos encontrar em sua filosofia também elementos de Aristóteles e outros.
Sua morte ainda
bem jovem levantou suspeitas entre os comentadores e estudiosos de sua obra que
o mesmo poderia ter sido envenenado, algo comum a sua época histórica. No ano
de 2008, três universidades italianas formaram uma equipe de trabalho que pôde
exumar o corpo e realizar testes objetivando desvendar a causa de sua morte,
tendo a equipe de pesquisadores chegado à conclusão que a morte teria se dado
por veneno, mas especificamente, arsênico, ao mesmo tempo em que derrubava a
tese de ele ter contraído sífilis, pois não foram encontrados traços referentes
a presença desta doença.
Em 1486, então
com 23 anos de idade, publica “Conclusiones Nongentae” ou “Novecentas teses”,
buscando conciliar de modo eclético, correntes filosóficas e místicas com o
cristianismo. Tinha como objetivo realizar na cidade de Roma uma ampla
discussão a partir destas teses, mas foi proibido de o fazer pela Igreja
Católica Apostólica Romana. Inicialmente 13 de suas teses foram consideradas
heréticas e proibidas, posteriormente todas as 900 teses foram condenadas e ele
acabou preso, precisando seu mecenas, Lorenzo de Médici, O Magnífico,
interferir para obter sua liberdade.
Foi um dos
mestres da Academia de Florença e está incluso entre os mais destacados
humanistas do Renascimento italiano. Considerado eclético, nele temos presente
elementos de Platão, dos neoplatônicos e de Aristóteles, além de uma vertente
mística proveniente da teologia cristã, da cabala e do hermetismo. Sua
principal obra é “Sobre a dignidade do homem” (“De dignitate hominis” ou “Oratio
de Hominis Dignitate”), que é uma oração escrita como introdução as 900 teses
que pretendia apresentar em Roma, mas que não o fez em virtude de proibição
papal. Estas teses seriam um manifesto do Renascimento italiano.
Como
representante do humanismo renascentista, tende a mudar a ênfase e ponto de
partida de sua reflexão filosófica e teológica quando comparada à medieval, de
Deus para o humano. Enquanto na Idade Média havia uma tendência a exaltar a
natureza pecadora do humano, no Renascimento este humano passa a ser
valorizado, sendo entendido como um ser grandioso e valioso. Esta noção já vem
expressa, inclusive, no título de sua mais importante obra, “Sobre a dignidade
do homem”.
Título de uma de
suas mais importantes obras, “Sobre a dignidade do homem”, aponta para a
capacidade que este humano possui de autodeterminação e também de criação a
partir da transformação que possa exercer sobre a natureza ao seu redor. Nesta
obra percebemos a mudança de ênfase do teocentrismo anteriormente presente nos
filósofos medievais, para a nova visão do humano presente no Renascimento, onde
passamos a ter um antropocentrismo.
Em sua obra
destaca que é pelo uso da razão que este humano tende a tomar consciência de
sua liberdade e por tal modo temos presente a dignidade humana. Este humano na
escala da criação, encontra-se entre os anjos e o mundo natural, sendo mediador
justamente por possuir a capacidade de construir a si próprio. O animal só pode
ser aquilo mesmo, não evoluindo, preso a sua natureza, da mesma forma que o
anjo, nada mais pode ser além de anjo. Mas o humano é diferente, pois nele há
um poder que se assemelha ao divino, que lhe permite ser quem este quiser ser,
se autoconstruindo no decorrer de sua vivência. Por não possuir seu destino
previamente traçado, podendo escolher viver como um animal na natureza ou se
aproximar do divino, este mesmo humano possui uma dignidade que lhe é própria,
sendo o mais digno de toda criação de Deus.
O humano é o
grande milagre na criação de Deus justamente porque todas as demais criaturas,
ao nascer, já possuem um destino traçado que não poderá ser modificado, estas
demais criaturas são o que são e não podem ser outra coisa além do que lhes é
dado por seu destino ao nascer, diferentemente do humano, que possui a
capacidade de escolher por meio de sua razão, se irá viver no nível da natureza
dos demais animais ou se irá viver de modo a se aproximar de um ser divino. Não
estando, portanto, preso e ocupando um lugar fixo na cadeia de criação feita
por Deus.
O humano possui
uma natureza indeterminada, indefinida, já todos os demais seres, estejam
abaixo (animais, plantas) ou acima (anjos) do humano possuem uma natureza
determinada, fixa, necessária, não livre. Um gato é um gato e um cão é um cão,
e nada mais, pois suas naturezas são determinadas e definidas desde o
nascimento, isto não ocorre com o humano. O humano é livre, capacidade esta que
nem os anjos possuem. A tese presente na dignidade do homem é que o humano é um
milagre vivente. O humano é um ser intermediário entre o tempo e a eternidade.
Tendo Deus feito
toda sua obra maravilhosa de criação, encontrou um lugar e destino para cada
elemento nela presente, fossem astros, anjos, animais ou plantas, mas faltava
algo. Faltava alguém fora da cadeia de criação, que tivesse a liberdade de
contemplar a obra majestosa da criação e admirá-la. Neste momento Deus cria o
humano, um milagre. O humano é o último ser a ser criado e não possui um lugar
fixo na criação, pois, esta já estava realizada quando ele foi criado. O humano
em si mesmo é um milagre que por meio da sua razão pode escolher como viver, se
como animal ou como ser divino, um ser com liberdade, e que pode contemplar a
criação de Deus e se maravilhar da mesma.
Marsílio Ficino (1433-1499),
nasce em Figline Valdarno, nas proximidades de Florença, Itália. Filósofo,
tradutor, comentador das obras de Platão e outras, teólogo e, como filho de
médico renomado (seu pai era o médico particular de Cosme de Médici, o velho),
manteve durante sua vida interesse pela medicina (estudou os textos de Galeno e
Hipócrates, dentre outros), tendo traduzido e escrito obras sobre o tema. Foi
ordenado sacerdote em 1473. Foi o responsável pela primeira tradução para o
latim das obras completas de Platão. Além disto, traduziu outras obras, dentre
as quais Plotino, Porfírio, Proclo, Jâmblico e Hermes Trimegistos, bem como
outros autores relevantes.
Seu pensamento é
dominado pelo platonismo e neoplatonismo, mas em virtude da presença de
elementos filosóficos provindos de Aristóteles, é por vezes classificado como
um autor eclético. Membro célebre da assim chamada “Academia Florentina”. A ideia
de criação da Academia foi de Cosme de Médici, que pode, portanto, ser
considerado o fundador da mesma, se bem que alguns comentadores deixem esta
honra para Marsílio, já que Cosme teria agido somente como mecenas, enquanto
caberia a Marsílio atuar como filósofo na Academia. Cosme de Médici escolheu
Marsílio Ficino para chefiar a Escola e lhe presenteou com o local e prédio na
qual ficaria situada.
Com ajuda da
família dos Médicis, de Florença, fundou uma Academia platônica na parte norte
da cidade. Além das diversas traduções por ele realizadas, na Academia eram
realizadas reuniões, debates e mesmo bailes e banquetes ao som da lira com a
presença de intelectuais.
É considerado um
dos mais importantes humanistas italianos, tendo exercido forte influência em
outros pensadores, além de ser, no século XV, um dos principais divulgadores
das ideias e da obra de Platão, Plotino, Pitágoras, além de outros.
Escreve um
tratado onde organiza e sintetiza suas ideias, baseadas em seus estudos sobre
Platão e outros, sobre a imortalidade da alma. Neste tratado, uma de suas mais
importantes obras, busca conciliar as ideias provenientes da tradição platônica
com a tradição cristã, seu título é “Teologia platônica: Sobre a imortalidade
da alma” (finalizado em 1474 e impresso em 1482). Quanto à tradução das obras
completas de Platão, ele a termina nos anos de 1460, mas esta não é publicada
até 1484. Antes desta tradução do grego para o latim, algumas obras já eram
conhecidas, mas nem de longe a totalidade de sua obra. Este retorno ao
platonismo veio se contrapor a então predominante presença de interpretações de
Aristóteles provenientes da Escolástica.
O platonismo
presente em Marsílio Ficino tem um inequívoco sentido cristão, tanto que, tende
a considerar Platão como um precursor de Cristo e do cristianismo, sendo de
utilidade na conversão daqueles que ainda não tem fé em Cristo, seja por serem
judeus ou por não crerem em Deus. A filosofia de Platão proporcionaria as
razões para permitir o convencimento e conversão de tais pessoas.
Além de suas
traduções, em particular da obra completa de Platão, do grego para o latim,
muito importante, também, são seus comentários às obras por ele traduzidas.
Cabe destaque a elaboração do seu pensamento, inspirado na obra de Platão,
sobre o amor e sobre a luz. Suas reflexões sobre o amor se baseiam nos seus
comentários sobre a leitura e tradução da obra “O Banquete” (ou “o Simpósio”), de
Platão, já por sua vez, as reflexões sobre a luz se baseiam nos seus
comentários sobre a leitura e tradução da obra“A República” (livro 6), de
Platão, “A alegoria do sol”. Marsílio, do mesmo modo que Platão, argumenta
igualando a luz do sol, fazendo uso de metáfora, a luz ao Bem e, tomando por
base sua visão cristã do mundo, igualando o Bem a Deus.
A ele é
atribuída a expressão, com seu significado: “amor platônico”. O termo “amor
platônico” foi cunhado por Marsílio Ficino e por ele usado em seus escritos e
correspondência, bem como, usado por vários pensadores contemporâneos e
posteriores. Este termo faz referência ao amor divino. Quando olhamos com amor
para outra criatura humana, isto ocorre de modo semelhante a uma preparação,
mais ou menos consciente, para o amor de Deus. A meta e a verdade contida no
amor e no desejo humano para com outras pessoas e objetos deste mundo é um
reflexo do esplendor Divino, da bondade e beleza de Deus. Encontramos o amor de
Deus em nossa inclinação a amar pessoas e objetos deste mundo, pois, Deus se
faz presente neste amor enquanto preparação para o amor de Deus. O amor
verdadeiro é sempre recíproco ou não existe. O amor que nutrimos por Deus está
na base de toda genuína relação entre duas pessoas. Em verdade, nunca são
somente duas pessoas a nutrirem amor, há uma terceira pessoa, pois, sempre há
entre elas, ali presente, Deus, o amor de Deus. O amor entre as pessoas é
sempre uma variação do amor que nutrimos para com Deus. Não é correto ler o
termo “amor” na correspondência trocada entre Ficino e pessoas de sua época,
como referência a um amor carnal, sexual.
Segundo o
pensamento de Marsílio Ficino, haveria um conhecimento antigo, passado por
mestres na história da civilização, uma tradição teológica antiga e única como
origem do conhecimento filosófico e religioso judaico-cristão. Esta origem
única e antiguíssima culminou nos desenvolvimentos filosóficos até Platão, por
um lado, e, por outro lado, no desenvolvimento da religião judaico-cristã,
chamou a isto de “prisco teologia”.
Conjuntamente
com a filosofia de Platão e o cristianismo, defendia a imortalidade da alma.
Defendia também que a verdadeira filosofia e religião não estavam em oposição.
Claro está, no entanto, que entendia por verdadeira filosofia o platonismo e
variações do mesmo até o neoplatonismo, já por verdadeira religião entendia o
cristianismo.