“Conflict is the gadfly of thought.”
“O conflito é o aguilhão do pensamento.”
John Dewey, Human Nature and Conduct (1922), Parte IV, seção "Morals are human"
Por: Silvério da Costa Oliveira.
John Dewey
John Dewey foi um dos mais importantes filósofos norte-americanos do século XX e uma das figuras centrais do Pragmatismo. Seu nome é frequentemente associado à educação e à chamada educação progressiva, mas reduzir seu pensamento à pedagogia significa perder de vista a amplitude de sua filosofia. Dewey desenvolveu uma concepção própria da experiência, do conhecimento, da investigação, da ética, da democracia, da arte e da religião, procurando compreender todos esses domínios a partir da relação dinâmica entre o ser humano e o ambiente em que vive. Sua filosofia é, em grande medida, uma tentativa de substituir a busca por certezas absolutas por uma inteligência experimental capaz de enfrentar problemas concretos e reconstruir continuamente a experiência.
A importância de John Dewey está também na maneira como ele procura superar antigas separações que marcaram a tradição filosófica, como aquelas entre teoria e prática, pensamento e ação, indivíduo e sociedade, conhecimento e experiência. Para Dewey, pensar não é simplesmente contemplar uma realidade já pronta, mas investigar situações problemáticas e encontrar, por meio da inteligência, formas mais adequadas de agir. A educação, nesse contexto, deixa de ser apenas transmissão de conhecimentos e preparação para o futuro e passa a constituir uma dimensão fundamental da própria vida humana. Compreender Dewey é, portanto, compreender uma filosofia da experiência, da investigação e da reconstrução, profundamente ligada aos problemas da sociedade, da democracia e da formação humana.
1- Vida
John Dewey (1859-1952) nasceu em Burlington, Vermont, EUA, em 20 de outubro de 1859 e falece então aos 92 anos de idade (1º de junho de 1952) em Nova York. Filho de Archibald Sprague Dewey e Lucina Artemisia Rich Dewey (o casal teve no total quatro filhos e Dewey foi o terceiro a nascer), família de comerciantes e que assumiam a religião protestante congregacionalista. A família viveu em ambiente de classe média, com forte ênfase religiosa e moral. O pai serviu como intendente na Guerra Civil, o que levou a uma separação temporária da família.
Fez seus estudos básicos em Burlington, Vermont, e ali mesmo cursou uma universidade local (University of Vermont), na qual ingressa em 1875 e se forma em 1879. Em sequência passou a estudar na Johns Hopkins University, em Baltimore. O currículo clássico e a influência do professor Henry A. P. Torrey despertaram seu interesse pela filosofia. Após a graduação, lecionou por dois anos no ensino secundário em Oil City, Pensilvânia (1879-1881), e depois em Charlotte, Vermont. Nesse período começou a afastar-se da ortodoxia religiosa familiar, embora ainda frequentasse a igreja por algum tempo.
Neste início de formação foi iniciado ao pensamento dos evolucionistas, do Positivismo de Comte, do Idealismo de Hegel. Sua tese de Doutorado foi sobre a psicologia em Kant, desenvolvida entre 1882 e 1884 na Universidade Johns Hopkins. Entre 1884 e 1894 atuou como instrutor e professor da universidade de Michigan, EUA (Michigan em 1884–1888 e 1889–1894, com Minnesota em 1888–1889). Em seu período posterior à Universidade de Michigan, cabe destacar a influência filosófica de George Sylvester Morris no tocante ao papel exercido pelo idealismo hegeliano nesta fase do pensamento de Dewey. Até o final da década de 1890 sua postura o aproximava de uma visão filosófica neo-hegeliana, mas a partir desta época começa a adotar o Pragmatismo. Em verdade, John Dewey, conjuntamente com Charles Sanders Peirce e William James, são os fundadores do Pragmatismo nos EUA. Em verdade, a maioria dos historiadores da filosofia trata Peirce como o originador (Metaphysical Club, anos 1870), James como o divulgador, e Dewey como a "segunda geração", que sistematiza e desenvolve o movimento décadas depois. Apesar disto, preferia usar no lugar de “Pragmatismo” o termo “Instrumentalismo” para descrever sua própria filosofia. Em sua fase madura, Dewey também utilizou “experimentalismo” e chegou a preferir “cultural naturalism” / naturalismo cultural como caracterização de sua filosofia. Aqui há uma evolução terminológica: pragmatismo → instrumentalismo/experimentalismo → naturalismo cultural. Doutorou-se em 1884 com uma dissertação sobre a psicologia de Kant (perdida). Também ensinou na universidade de Minessota e, em 1894 passa a lecionar na universidade de Chicago, ocupando uma cátedra de pedagogia, onde fica até 1904. Em 1905 passa a lecionar na universidade de Columbia, Nova York, onde fica até o ano de 1930.
Em 1886 John Dewey casa com Harriet Alice Chipman (1858-1927), com quem tem seis filhos. Harriet Alice era uma de suas alunas, oriunda de Fenton, Michigan, órfã criada pelos avós maternos e mulher de forte personalidade, interesses feministas e sensibilidade social. Alice exerceu influência decisiva sobre Dewey, empurrando-o para questões práticas, educacionais e de justiça social, e afastando-o ainda mais da religião institucional. O casal teve seis filhos biológicos e adotou um, a saber: Frederick Archibald (1887); Evelyn Riggs (1889); Morris (nascido por volta de 1893, morreu de difteria em Milão, em 1895, durante viagem da família à Europa); Gordon Chipman (1896, morreu de febre tifoide na Irlanda, em 1904); Lucy Alice (1897); Jane Mary (1900); Sabino Lewis (adotado por volta de 1905, ele nasceu em Veneza em abril de 1898). As mortes de Morris e, especialmente, de Gordon foram golpes profundos. Dewey e Alice nunca se recuperaram plenamente; a perda do segundo filho ocorreu no momento em que a família deixava Chicago, agravando o trauma.
Dewey atuou como psicólogo, filósofo e educador. Como educador fundou e atuou conjuntamente com sua esposa, em escolas experimentais, nas quais adotava um método que buscava integrar a teoria provinda das ciências com a prática cotidiana no transcorrer da aprendizagem dos alunos. Dewey entende ser fundamental na educação o desenvolvimento da capacidade de raciocínio e crítica. As ideias estudadas e desenvolvidas devem estar voltadas para a solução de problemas reais cotidianos. John Dewey defendia a “educação progressiva”, na qual o aluno deve ser entendido como sendo um todo e o objetivo deve ser o desenvolvimento global, que inclui o físico, emocional e intelectual.
Entre 1888 e 1889 Dewey ocupou a cátedra de filosofia na University of Minnesota, retornando logo a Michigan como chefe do departamento após a morte de Morris. Em Michigan consolidou amizades intelectuais duradouras, sobretudo com George Herbert Mead e James Hayden Tufts, e iniciou a transição do idealismo hegeliano para uma filosofia mais experimental e naturalista, influenciada pela psicologia funcional e pelo darwinismo.
Em 1894 aceitou o convite de William Rainey Harper para dirigir o Departamento de Filosofia, Psicologia e Educação da University of Chicago. Ali fundou, em 1896, a University Elementary School (depois conhecida como Laboratory School ou “Dewey School”), experiência pioneira de educação progressiva centrada na atividade, no interesse da criança e na reconstrução da experiência. Alice passou a atuar como principal da escola em 1901. A experiência foi extraordinariamente frutífera do ponto de vista teórico, mas administrativamente turbulenta. Conflitos com o corpo docente (especialmente após a fusão com a escola de Francis W. Parker), críticas à gestão de Alice e pressões do presidente Harper levaram Alice a pedir demissão em 1904. Dewey, solidário e já exausto das funções administrativas, renunciou também e deixou Chicago.
Ainda em 1904 aceitou o cargo de professor de filosofia na Columbia University, em Nova York (iniciando suas atividades em 1905), onde permaneceria até a aposentadoria em 1930 (continuando como professor emérito em residência). Em Columbia consolidou sua reputação internacional, publicou suas obras maduras e manteve intensa atividade pública. Foi presidente da American Psychological Association (1899-1900) e da American Philosophical Association (1905-1906).
Entre 1919 e 1921 realizou a mais importante de suas viagens: Japão e, sobretudo, China (onde permaneceu cerca de dois anos). Em Pequim e outras cidades proferiu centenas de conferências, testemunhou o “Movimento de 4 de Maio” e tornou-se referência para intelectuais chineses (Hu Shih e outros). A experiência reforçou sua fé na democracia como forma de vida e na educação como instrumento de reconstrução social. Em 1924 visitou a Turquia a convite do governo, elaborando um relatório sobre a reforma educacional. Em 1926 esteve no México e, em 1928, na União Soviética, onde observou as experiências educativas pós-revolucionárias com interesse inicial, mas também com reservas crescentes.
Alice Chipman Dewey morreu em 14 de julho de 1927, após anos de saúde frágil (malária contraída na Turquia, problemas cardíacos agravados no México). Dewey ficou viúvo por quase duas décadas. Em 11 de dezembro de 1946, aos 87 anos, casou-se com Roberta Lowitz Grant (viúva, cerca de 42 anos), antiga conhecida. O casal adotou dois irmãos (Lewis, depois chamado John Jr., e Shirley/Adrienne).
Nos últimos anos Dewey continuou a escrever, a intervir publicamente (defesa de direitos civis, crítica ao totalitarismo, participação na Comissão Dewey de investigação das acusações contra Trotsky em 1937) e a receber homenagens. Em novembro de 1951 fraturou o quadril. Em 1º de junho de 1952 morreu de pneumonia em seu apartamento na Fifth Avenue, em Nova York, aos 92 anos. Foi cremado no dia seguinte. O funeral ocorreu na Community Church of New York.
A vida de Dewey atravessou a Guerra Civil americana, a industrialização, as duas guerras mundiais, a Depressão e o início da Guerra Fria. Suas experiências pessoais (a formação religiosa e o abandono gradual dela, o casamento com Alice e a influência desta, as perdas dos filhos, a prática educacional em Chicago, as viagens orientais e o engajamento público) alimentaram diretamente a passagem do idealismo inicial para o naturalismo experimental, a centralidade da experiência, a defesa da democracia como forma de vida e a concepção da educação como reconstrução contínua da experiência.
2- Ideias
Segundo o pensamento desenvolvido por John Dewey, a complexidade presente em nossas sociedades contemporâneas, em constante e renovado processo de transformação social necessita desenvolver em seus cidadãos desde jovens algumas características que permitam a esta mesma sociedade manter e consolidar uma democracia, se assim não o for, não teremos uma verdadeira democracia e sim, somente uma democracia de nome, mas não real. Caberia, portanto, desenvolver por meio da educação dos jovens, o interesse nos estudos, iniciativa, saber desenvolver reflexões, entender o valor da liberdade e a responsabilidade em relação aos demais membros da sociedade. Para haver democracia real é preciso que haja participação ativa dos cidadãos na vida social. No pensamento de Dewey, democracia não é simplesmente uma instituição política; é uma forma de vida associada que exige hábitos de comunicação, reflexão, cooperação e investigação.
O processo de aprendizagem deve se dar de modo a permitir aos alunos uma experiência ativa e também participativa diante do aprendizado, de modo que estes possam explorar, questionar, refletir e buscar a descoberta de soluções e resultados para problemas. Esta abordagem participativa no tocante a aprendizagem nos lembra os futuros trabalhos de Jean Piaget, que ao partir deste pressuposto, desenvolve todo um trabalho em profundidade tendo como ideia principal que a aprendizagem se faz por meio da ação sobre o meio circundante. Não que Dewey tenha influenciado Piaget, mas sim que seu trabalho segue na mesma linha e anteriormente ao de Piaget.
Para Dewey, o ensino tradicional tende a valorizar a passividade do aluno e se apresenta de modo autoritário, reforçando a memorização e não a solução de problemas. Ele entende que a aprendizagem deva ser ativa e experiencial, sendo o conhecimento construído por meio da interação com o mundo circundante e não absorvido de modo passivo e estático, portanto, a educação deve envolver atividades práticas e experiências reais, gerando contextos que possuam significado real para os alunos. Em verdade, temos que o trabalho filosófico e educacional apresentado por John Dewey traz enorme destaque para a experiência no tocante ao efetivo ensino / aprendizagem.
A filosofia desenvolvida por Dewey busca reconstruir o pensamento humano a partir da experiência concreta, rejeita o dualismo cartesiano e de toda tradição filosófica. Dewey parte de uma crítica radical aos dualismos que atravessam a história da filosofia ocidental: mente e corpo, sujeito e objeto, teoria e prática, fato e valor, indivíduo e sociedade, espírito e matéria. Esses dualismos, segundo ele, não são descobertas metafísicas, mas produtos históricos de condições sociais e intelectuais superadas. A filosofia tradicional, ao buscar certezas absolutas e imutáveis, separou o conhecimento da ação e transformou a experiência em algo privado, mental ou meramente subjetivo.
Para Dewey, a inteligência se localiza no interior da vida biológica, social e histórica dos indivíduos. Dewey não propõe um sistema fechado, mas um método experimental de investigação que se aplica igualmente à ciência, à ética, à educação, à política, à arte e à religião. O núcleo de sua cosmovisão é a continuidade: continuidade entre organismo e ambiente, entre experiência e natureza, entre conhecimento e ação, entre indivíduo e sociedade. Dewey propõe um naturalismo experimental (ou humanismo naturalista) no qual a experiência é compreendida como transação contínua entre organismo e ambiente. Experiência não é algo que acontece “dentro” da mente; é o próprio processo de interação, de fazer e sofrer as consequências do que se faz. A experiência é, ao mesmo tempo, ativa e passiva, e só se torna verdadeiramente educativa ou significativa quando é reconstruída de forma inteligente.
Essa concepção de experiência fundamenta sua teoria da investigação. O pensamento não é contemplação de verdades eternas, mas instrumento de adaptação e transformação de situações problemáticas. Diante de uma situação indeterminada, confusa ou frustrante, o organismo sente a necessidade de investigar. O processo reflexivo envolve a formulação do problema, a elaboração de hipóteses, o raciocínio sobre suas possíveis consequências e a verificação experimental. A verdade, nesse quadro, não é correspondência com uma realidade independente, mas o valor instrumental de uma ideia em resolver o problema e reconstruir a experiência de maneira mais satisfatória e controlada. A lógica, portanto, deixa de ser formal e abstrata para se tornar a teoria da investigação: o estudo dos métodos pelos quais as situações problemáticas são transformadas em situações resolvidas.
Essa lógica da investigação também é aplicada por Dewey à educação, domínio no qual sua influência foi mais ampla e, por vezes, mais deturpada. A educação não é preparação para a vida futura nem transmissão de conteúdos fixos; é o próprio processo de crescimento e de reconstrução contínua da experiência. A escola deve ser uma comunidade embrionária, um ambiente simplificado e ordenado no qual a criança possa viver experiências significativas, partilhar interesses e desenvolver a capacidade de pensar reflexivamente. O interesse da criança não é um ponto de partida espontâneo a ser seguido cegamente, nem um obstáculo a ser superado pelo esforço imposto; é a energia que, quando bem dirigida, permite a organização progressiva do conhecimento.
Dewey rejeita tanto o formalismo tradicional quanto o espontaneísmo puro. A educação progressiva, no sentido técnico que ele atribui à expressão, designa precisamente essa tentativa de organizar a escola em torno da experiência ativa, da investigação e da cooperação democrática. É importante distinguir esse uso histórico e pedagógico da palavra “progressiva” do sentido político contemporâneo de “progressista”, frequentemente associado a agendas ideológicas de esquerda. Em Dewey, “progressiva” refere-se a um método experimental de educação e de reconstrução social, não a um programa político partidário. Embora sua filosofia tenha sido acolhida por movimentos de esquerda política, ela se opõe a qualquer tipo de autoritarismo, seja este ideologicamente de direita ou de esquerda, pois sua filosofia privilegia a inteligência coletiva, a experimentação e a comunicação livre em vez de dogmas ou supostas vanguardas iluminadas que tudo sabem. Dewey não pode ser simplesmente identificado com o significado atual de “progressista” como rótulo partidário ou cultural; porém, ele próprio foi um pensador político reformista, liberal e fortemente comprometido com a transformação social.
A democracia, para Dewey, não é primariamente uma forma de governo ou um conjunto de instituições. É uma forma de vida associada, de experiência compartilhada e mutuamente comunicada. Uma sociedade democrática é aquela em que os interesses dos grupos se entrecruzam de maneira ampla e em que a comunicação livre permite a reconstrução contínua dos hábitos e das instituições. A democracia exige, portanto, condições educativas e culturais que formem indivíduos capazes de participar inteligentemente da vida pública. Sem educação democrática, as instituições democráticas degeneram em formalismos ou em manipulação das massas. Dewey combateu tanto o individualismo atomista do liberalismo clássico quanto as formas coletivistas que sacrificam a individualidade em nome de um bem abstrato. Sua defesa da democracia é experimental e histórica: ela se justifica pelos resultados que produz na liberação das potencialidades humanas e na resolução inteligente dos conflitos.
Na ética, Dewey aplica o mesmo método experimental. Não existem princípios morais absolutos e a-históricos. A ação moral surge em situações concretas de conflito de valores. O bem é aquilo que, após investigação, se mostra capaz de harmonizar e enriquecer a experiência. A moralidade é social e histórica; os hábitos morais se formam na interação com o meio cultural e precisam ser constantemente reconstruídos pela inteligência. Dewey rejeita tanto o intuicionismo quanto o utilitarismo hedonista rígido, propondo uma ética da situação e da consequência inteligente.
Sua estética, desenvolvida sobretudo em “Art as Experience”, retoma a ideia de experiência consumatória. A arte não é um domínio separado da vida cotidiana, reservado a objetos especiais em museus. A experiência estética é a forma intensificada e completa da experiência ordinária, na qual o fazer e o sofrer, o instrumental e o final, se unem de maneira harmoniosa. A obra de arte é o produto de um processo de experiência que alcança plenitude e unidade. Ao recuperar a continuidade entre arte e vida, Dewey combate a alienação estética da sociedade industrial e afirma o valor da experiência estética como um dos modos mais elevados de realização humana.
Por fim, na religião, Dewey propõe uma fé naturalista e comum. Em “A Common Faith”, distingue o religioso (qualidade de experiência que unifica e eleva) das religiões históricas (sistemas de crenças sobrenaturais e instituições). A fé autêntica não depende de dogmas nem de realidades transcendentais; é a atitude de dedicação às possibilidades ideais da experiência humana e à cooperação inteligente para realizá-las. Dewey não é ateu no sentido banal, ele é na verdade um naturalista que recusa a oposição entre o sagrado e o secular e busca reintegrar a dimensão religiosa no interior da vida natural e social.
O pensamento de Dewey é, portanto, uma filosofia da reconstrução. Ele não pretende substituir um sistema por outro, mas sim fornecer um método que permita à inteligência humana enfrentar os problemas concretos de seu tempo. Sua confiança na experiência, na investigação e na democracia como forma de vida, dentro de um viés totalmente prático ou mesmo pragmático, permanece um dos legados mais potentes e, ao mesmo tempo, mais exigentes da filosofia contemporânea.
3- Palavras finais
O percurso de John Dewey (do idealismo hegeliano de juventude ao naturalismo experimental de maturidade) não é uma sucessão de fases desconexas, mas o desdobramento de uma única intuição central: a de que inteligência e experiência não se separam da vida concreta, e que todo problema, seja ele lógico, moral, estético, educacional ou político, se resolve pelo mesmo método de investigação, jamais por apelo a certezas prontas ou princípios imutáveis. É essa continuidade que confere unidade a uma obra tão vasta e aparentemente dispersa entre psicologia, lógica, ética, estética, religião e teoria política. Um século depois, essa filosofia permanece extraordinariamente atual. Os dilemas que Dewey enfrentou (como formar cidadãos capazes de pensar por si mesmos, como sustentar instituições democráticas contra a passividade e a manipulação, como reconciliar ciência e valores) continuam a ser, talvez de forma ainda mais urgente, os dilemas do presente.
Nem por isso sua filosofia deve ser lida sem tensões. A confiança de Dewey na inteligência coletiva e na comunicação livre como bases suficientes para a vida democrática foi posta à prova pela própria história que ele viveu. As décadas de 1920 e 1930, marcadas pela ascensão do fascismo e do stalinismo, revelaram o quanto os hábitos de cooperação racional que ele descrevia podiam ser rapidamente substituídos por dogmatismo e violência organizada, algo que o próprio Dewey precisou enfrentar em obras tardias como Freedom and Culture (1939). Da mesma forma, sua concepção de educação progressiva foi, com frequência, deturpada por seguidores que a reduziram a espontaneísmo sem direção, distorção que o próprio autor sentiu necessidade de corrigir em Experience and Education (1938). Essas tensões não diminuem sua obra; ao contrário, mostram um pensador disposto a submeter as próprias ideias ao mesmo teste experimental que exigia de qualquer outra crença. É por isso que Dewey ocupa um lugar decisivo na história crítica da filosofia: ponte entre o idealismo do século XIX e o naturalismo e o pragmatismo do século XX. Sua obra continua a alimentar debates contemporâneos sobre democracia, educação e o papel da inteligência na reconstrução da vida em comum.
4- Algumas das principais obras de John Dewey
1- Psychology. Tìtulo traduzido para o português: Psicologia. Ano da primeira publicação: 1887.
Obra de juventude ainda marcada pelo idealismo hegeliano. Apresenta uma psicologia experimental e filosófica que tenta conciliar a ciência positiva com a tradição idealista. Dewey trata da mente, da vontade, da percepção e da ação, já mostrando interesse pela continuidade entre organismo e ambiente. É um dos primeiros livros que o projetam no meio acadêmico americano.
2- Leibniz’s New Essays Concerning the Human Understanding: A Critical Exposition. Título traduzido para o português: Os Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano de Leibniz: Uma Exposição Crítica. Ano da primeira publicação: 1888.
Estudo detalhado da obra de Leibniz, escrito no período em que Dewey ainda se movia dentro do idealismo. Serve tanto como exposição quanto como crítica, revelando sua formação filosófica inicial e seu interesse pela teoria do conhecimento.
3- The Reflex Arc Concept in Psychology. Título traduzido para o português: O Conceito de Arco Reflexo em Psicologia. Ano da primeira publicação: 1896.
Ensaio fundamental para compreender a transformação da psicologia e da filosofia de Dewey. Nele, Dewey critica a concepção tradicional do arco reflexo como uma sequência mecânica de estímulo, resposta e reação, defendendo uma compreensão integrada da relação entre organismo e ambiente. A experiência não deve ser fragmentada em elementos isolados, pois percepção, ação, situação e finalidade formam uma unidade dinâmica. O texto é particularmente importante para compreender a passagem de Dewey da psicologia funcional para sua concepção posterior de experiência, organismo e ambiente.
4- My Pedagogic Creed. Título traduzido para o português: Meu Credo Pedagógico. Ano da primeira publicação: 1897.
Texto curto, mas de grande importância para compreender a concepção educacional de Dewey. Apresenta de maneira programática suas ideias sobre a natureza da educação, o papel da escola, a relação entre educação e sociedade, a importância da experiência e a função do professor. É particularmente importante porque antecipa princípios que serão desenvolvidos posteriormente em The School and Society e Democracy and Education. A conhecida formulação de Dewey segundo a qual a educação deve ser compreendida como um processo de vida, e não simplesmente como preparação para uma vida futura, encontra aqui uma de suas fontes mais importantes.
5- The School and Society. Título traduzido para o português: A Escola e a Sociedade. Ano da primeira publicação: 1899. (existem edições revisadas posteriores).
Três conferências que se tornaram clássicas. Dewey defende a escola como comunidade embrionária e como instrumento de reconstrução social. Critica a educação tradicional desligada da vida e propõe uma pedagogia centrada na atividade, no trabalho e na cooperação. É um dos textos fundadores da educação progressiva.
6- The Child and the Curriculum. Título traduzido para o português: A Criança e o Programa Escolar (ou A Criança e o Currículo). Ano da primeira publicação: 1902.
Curto e denso ensaio sobre a relação entre os interesses da criança e o conteúdo organizado do currículo. Dewey rejeita tanto o excesso de formalismo quanto o espontaneísmo puro, propondo a mediação inteligente entre a experiência infantil e o conhecimento sistematizado.
7- Studies in Logical Theory. Título traduzido para o português: Estudos de Teoria Lógica. Ano da primeira publicação: 1903.
Coletânea que marca a virada pragmática de Dewey. Desenvolve a ideia de que a lógica não é formal e abstrata, mas o método da investigação a partir de situações problemáticas. Antecipa a lógica experimental que ele elaborará ao longo da vida.
8- Ethics (com James H. Tufts). Título traduzido para o português: Ética. Data da primeira publicação: 1908 (edição revisada em 1932).
Tratado sistemático de ética. Distingue a moral consuetudinária da moral reflexiva e situa a ação moral no contexto social e histórico. A edição de 1932 incorpora amadurecimentos do pragmatismo deweyano.
9- The Influence of Darwinism on Philosophy Título traduzido para o português: A Influência do Darwinismo sobre a Filosofia. Ano da primeira publicação: 1910.
Obra decisiva para compreender a influência do evolucionismo sobre a filosofia de Dewey. O pensamento darwiniano fornece a Dewey um modelo para abandonar concepções fixas e imutáveis da realidade, da natureza humana e dos problemas filosóficos, substituindo-as por uma perspectiva histórica, dinâmica e experimental. Dewey passa a compreender o pensamento, os valores e as instituições como elementos inseridos em processos de transformação. O darwinismo, nesse sentido, contribui decisivamente para sua crítica à busca tradicional por certezas absolutas e para a formação de seu naturalismo experimental.
10- How We Think. Título traduzido para o português: Como Pensamos (ou Como pensamos: como se relaciona o pensamento reflexivo com o processo educativo). Data da primeira publicação: 1910 (edição revisada e ampliada em 1933).
Obra fundamental sobre o pensamento reflexivo. Dewey descreve as fases da investigação (dúvida, formulação do problema, hipótese, raciocínio, verificação) e mostra sua importância para a educação. É um dos textos mais lidos e traduzidos do autor no Brasil.
11- Democracy and Education: An Introduction to the Philosophy of Education. Título traduzido para o português: Democracia e Educação: Introdução à Filosofia da Educação. Data da primeira publicação: 1916.
Provavelmente a obra mais influente de Dewey no campo educacional. Apresenta a educação como processo de crescimento e de reconstrução contínua da experiência, e a democracia como forma de vida associada baseada na comunicação e no intercâmbio de experiências. Integra filosofia, pedagogia e teoria social de maneira sistemática.
12- Essays in Experimental Logic. Título traduzido para o português: Ensaios de Lógica Experimental. Ano da primeira publicação: 1916.
Desenvolvimento da concepção instrumentalista da lógica. O pensamento é instrumento de adaptação e transformação de situações problemáticas. Reforça a ruptura com a lógica formal tradicional.
13- Reconstruction in Philosophy. Título traduzido para o português: Reconstrução em Filosofia (ou A Filosofia em Reconstrução). Data da primeira publicação: 1920.
Conferências proferidas no Japão e na China. Dewey defende a reconstrução da filosofia a partir da ciência experimental e da experiência humana concreta, abandonando dualismos metafísicos herdados da tradição.
14- Human Nature and Conduct: An Introduction to Social Psychology. Título traduzido para o português: A Natureza Humana e a Conduta: Introdução à Psicologia Social. Data da primeira publicação: 1922.
Análise da natureza humana a partir do hábito, do impulso e da inteligência. Dewey rejeita tanto o instintivismo rígido quanto o racionalismo abstrato, situando a conduta no intercâmbio entre organismo e meio social.
15- Experience and Nature. Título traduzido para o português: Experiência e Natureza. Data da primeira publicação: 1925 (edição revisada em 1929).
Obra central da metafísica deweyana. Defende a continuidade entre experiência e natureza, criticando dualismos (mente/corpo, sujeito/objeto, valor/fato). Apresenta o empirismo naturalista ou humanismo naturalista maduro de Dewey. É considerada por muitos sua mais importante obra filosófica.
16- The Public and Its Problems. Título traduzido para o português: O Público e seus Problemas. Data da primeira publicação: 1927.
Reflexão política sobre a democracia. Dewey discute a formação do “público”, o papel da comunicação e da investigação coletiva, e responde a críticas como as de Walter Lippmann. Afirma que a democracia exige condições de experiência compartilhada e inteligência pública.
17- The Quest for Certainty: A Study of the Relation of Knowledge and Action. Título traduzido para o português: A Busca da Certeza: Um Estudo da Relação entre Conhecimento e Ação. Data da primeira publicação: 1929.
Crítica à busca filosófica tradicional de certezas absolutas e imutáveis. Dewey opõe a isso a lógica da investigação experimental e a continuidade entre conhecimento e ação prática.
18- Art as Experience. Título traduzido para o português: A Arte como Experiência. Ano da primeira publicação: 1934.
Principal obra de estética de Dewey. Argumenta que a experiência estética é a forma consumada e intensificada da experiência ordinária. Rejeita a separação entre belas-artes e vida cotidiana e situa a arte no contínuo da experiência humana.
19- A Common Faith. Título traduzido para o português: Uma Fé Comum. Data da primeira publicação: 1934.
Ensaio sobre religião. Dewey propõe uma fé naturalista e humanista, centrada na experiência religiosa como qualidade da experiência, sem necessidade de crenças sobrenaturais ou dogmas.
20- Liberalism and Social Action. Título traduzido para o português: Liberalismo e Ação Social. Data da primeira publicação: 1935.
Defesa de um liberalismo renovado, experimental e social, diante dos desafios do século XX. Critica tanto o individualismo clássico quanto o autoritarismo.
21- Experience and Education. Título traduzido para o português: Experiência e Educação. Data da primeira publicação: 1938.
Texto curto e clarificador em que Dewey responde a distorções da educação progressiva. Distingue experiência educativa de experiência deseducativa e reafirma a necessidade de continuidade, interação e direção inteligente.
22- Logic: The Theory of Inquiry. Título traduzido para o português: Lógica: A Teoria da Investigação. Data da primeira publicação: 1938.
Obra maior de lógica. Apresenta a lógica como teoria da investigação controlada. O pensamento é o método pelo qual situações problemáticas são transformadas em situações resolvidas. É o coroamento de décadas de reflexão lógica.
23- Freedom and Culture. Título traduzido para o português: Liberdade e Cultura. Data da primeira publicação: 1939.
Análise das condições culturais da liberdade democrática, com atenção aos desafios do totalitarismo e à importância da inteligência científica na vida pública.
24- Knowing and the Known (com Arthur F. Bentley). Título traduzido para o português: O Conhecedor e o Conhecido. Data da primeira publicação: 1949.
Última grande obra filosófica. Desenvolve uma teoria transacional do conhecimento, superando dualismos residualmente presentes em formulações anteriores.
Silvério da Costa Oliveira.
Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.
Site: www.doutorsilverio.com
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