Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

Sites na Internet – Doutor Silvério

1- Site: www.doutorsilverio.com

2- Blog 1 “Ser Escritor”: http://www.doutorsilverio.blogspot.com.br

3- Blog 2 “Comportamento Crítico”: http://www.doutorsilverio42.blogspot.com.br

4- Blog 3 “Uma boa idéia! Uma grande viagem!”: http://www.doutorsilverio51.blogspot.com.br

5- Blog 4 “O grande segredo: A história não contada do Brasil”

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6- Perfil no Face Book “Silvério Oliveira”: https://www.facebook.com/silverio.oliveira.10?ref=tn_tnmn

7- Página no Face Book “Dr. Silvério”: https://www.facebook.com/drsilveriodacostaoliveira

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10- Página no You Tube: http://www.youtube.com/user/drsilverio

11- Currículo na plataforma Lattes: http://lattes.cnpq.br/8416787875430721

12- Email: doutorsilveriooliveira@gmail.com


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terça-feira, 1 de março de 2022

Filolau de Crotona: O primeiro a sistematizar as doutrinas Pitagóricas

 Por: Silvério da Costa Oliveira.

 Filolau de Crotona (ou de Tarento)

 Filolau de Crotona (480/470-385 a.C.) se apresenta como um dos mais importantes representantes do pitagorismo no século V a.C. Segundo a tradição, Filolau teria nascido na cidade de Crotona e atuado como professor na cidade de Tarento.

Segundo Diógenes Laércio, coube a ele ser o primeiro a sistematizar as doutrinas pitagóricas por meio da publicação de livros. Coube a ele escrever um livro, “Escritos pitagóricos”, contendo as descobertas e ensinamentos da escola pitagórica, bem como revelando os segredos desta Escola, livro este que foi comprado por Platão e que fundamentou o entendimento de Platão e Aristóteles sobre o que venha a ser esta Escola. A tradição também lhe atribui mais dois livros: “Sobre a natureza” e “Astronomia”.

Entendia que o fundamento de todas as coisas se encontrava nos conceitos de “limitado” e de “ilimitado”, associando os números pares ao ilimitado e os números ímpares ao limitado. Entende que toda a natureza se origina de forma harmônica a partir de ilimitados e limitadores. Por ilimitados entende: os números pares, ilimitado, indeterminado, divisível. Já por limitadores entende: os números ímpares, limitado, determinado, indivisível. Segundo seu pensamento, a natureza é composta por meio do limitado e do ilimitado, que ao relacionarem-se entre si produzem a harmonia.


 

Filolau entende que as características e faculdades dadas a um ilimitado seriam os limitadores, ou seja, se entendemos pela coisa algo como madeira ou um bloco de pedra, esta coisa pode ser entendida como sendo um ilimitado, e que por sua vez, tem como limitadores o peso, formato, tamanho, etc. Se somente existissem ilimitados, não seria possível o conhecimento, pois, só conhecemos realmente os limitadores.

Segundo o pensamento de Filolau, temos o limitado e o ilimitado como princípios de tudo o que há e justamente por serem princípios, não há como defini-los, pois nada lhes tem anterioridade, sendo estes o primeiro poder, em verdade, encontramos nestes dois conceitos a arché proposta por Filolau. “Peras” tem como significado “fim”, “limite”, “fronteira”, “aquilo que limita ou tem limite”. Por sua vez, “apeiron” tem como significado “ilimitado”, “sem fronteira”, “infinito”, “incontável”, “inumerável”, “indefinido”. Estes dois princípios que formam a arché para Filolau se apresentam como opostos entre si, o limitado e o ilimitado e a combinação de ambos. Será por meio desta combinação que o cosmos e todas as coisas serão criados. A junção de ambos princípios irá gerar um terceiro, que é a “harmonia” resultante, a qual permite produzir a unidade a partir da multiplicidade.

Para Filolau o “um” é a soma de todas as características presentes aos pares e aos ímpares, entende que o um, a unidade, é a origem e a totalidade de todos os números e de todas as coisas visíveis ou invisíveis. O universo é formado por meio de variações numéricas.

Nele, como também em Pitágoras, os números tem um papel crucial em seu pensamento. Entende que o número é o princípio material de todas as coisas, uma vez que sem os números não nos é possível conhecer ou pensar o que quer que seja de nossa realidade.

Entende que pelos números se expressa e constitui toda a harmonia existente no universo, encontrada nos elementos da natureza e em tudo que possa ser observado, mesmo nas virtudes humanas, ou seja, o número é a essência de tudo, seja lá o que for, que exista.

Filolau entende a alma como algo que permita mover a si próprio, ou seja, um princípio de locomoção próprio dos animais e ausente nas plantas. Também podemos vislumbrar em seu pensamento a alma como a harmonia resultante da soma dos limitados e ilimitados. Este conceito de alma presente em Filolau praticamente exclui a possibilidade da transmigração das almas, que outros comentadores entendem estar presente junto aos pitagóricos e cria, portanto, uma dificuldade, no entanto, não há como fechar questão sobre o assunto já que nos fragmentos que nos chegaram deste autor, ele nada fala sobre o assunto, nem a favor, nem contra.

Nos baseando em alguns fragmentos de sua obra, temos que os seres vivos podem ser divididos em quatro partes, tomando por base a localização de suas faculdades, a saber:

1- A cabeça: intelecto; contém o princípio do humano.

2- O coração: alma e sensação; contém o princípio dos animais.

3- O umbigo: raiz do crescimento; contém o princípio dos vegetais.

4- Os genitais: semente de geração; contém o princípio de todos.

Dentro da Escola Pitagórica, os números tem significado simbólico e alegórico, como, por exemplo: o “1” por não admitir divisão ou divergência irá representar a razão, também há quem identifique o “1” com o “fogo central”. O “2” se apresenta como símbolo da terra e da feminilidade e, por admitir divergências, representa a opinião. O “3” é visto como o símbolo da masculinidade e também como símbolo da santidade, trata-se de número místico e santo por possuir princípio, meio e fim. O “4” representa a justiça, por ser um número quadrado, trata-se do produto do igual pelo igual (2x2=4). O “5” representa o matrimônio por ser a soma do primeiro número par, o “2”, com o primeiro número ímpar, o “3”, sendo que o “2” é considerado representante do elemento feminino e o “3” representante do elemento masculino. O “6” representa o princípio da vida por ser o produto do primeiro par com o primeiro ímpar (2x3=6). O “7” representa a saúde, a inteligência e a luz (o sol), marcando os períodos da vida (7, 14, 21, 28, 35, 42, etc.). Trata-se de um número perfeito e vem a simbolizar, também, o culto ao deus Apolo. O “8” representa o amor, a amizade e a destreza. O “9” representa a justiça, pois, da mesma forma que o “4”, é o produto do igual pelo igual (3x3=9). Já o “10” representa o sagrado e o perfeito, pois nele está inclusa a soma dos quatro primeiros números (1+2+3+4=10) e também ao ter cada resultado de soma acrescentado a “3” temos novamente o “10” (1+3=4 e 4+3=7 e 7+3=10). O “10” também é o resultado da soma das quatro mais simples figuras geométricas, o ponto (1), a linha (2), a superfície (3) e o volume (4) presente na Tetraktys, que era formada por pedrinhas (cálculo) em uma caixa de areia e na qual para se representar o volume levantava-se a quarta pedra, deixando as três iniciais formando um triângulo e a partir da quarta, uma pirâmide. O triângulo com 10 pedras era representado formando cada um dos lados por 4 pedras e deixando uma no meio. Claro que ao traçarmos uma linha sobre a reta formada por um dos lados deste triângulo, uma pedra é contada duas vezes, pois, compartilhada com o outro lado que lhe forma o ângulo. Para construir este triângulo, coloque uma pedra para formar cada uma das três extremidades e uma no centro, depois coloque duas pedras entre cada ângulo, nas laterais deste triângulo e teremos o conjunto das 10 pedras.

Tanto para os números, como também para as figuras geométricas, os pitagóricos atribuíam várias virtudes, como cabe destacar:

O número “1” representa o deus Hermes e por sua vez o quadrilátero

O número “2” representa a deusa Artemis

O número “6” representa a deusa Afrodite

O número “7” representa a deusa Atena e por sua vez o triângulo

O número “8” representa o deus Poseidón

Também os ângulos eram dedicados a divindades.

Demos só um pequeno exemplo, havendo bem mais figuras com as correspondentes divindades a elas dedicadas, inclusive, também, aos seus ângulos. Também vinculavam aos deuses e aos números elementos tais como o fogo e a água.

Não há como desvincular de modo definitivo o pensamento de Pitágoras, do de Filolau ou mesmo dos demais representantes a Escola Pitagórica em virtude do segredo reinante nesta Escola e da proibição de falar ou de escrever sobre seus ensinamentos. O livro ou livros de Filolau foram os primeiros a serem escritos abordando a Escola Pitagórica e seus ensinamentos influenciaram Platão, Aristóteles e demais comentadores dos quais hoje nos baseamos para buscar entender este grupo de pensadores. Talvez a doxografia proveniente dos comentadores antigos também tenha se baseado em informação oral então circulante, mas o único material escrito por alguém desta Escola de que temos notícia é o livro de Filolau.

 Silvério da Costa Oliveira.

 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Zenão de Elea: A filosofia e os paradoxos de Zenão


 

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 Zenão de Elea (490-430 a.C.) é discípulo de Parmênides e no decorrer de sua vida se envolveu com a política local de sua cidade, culminando em sua prisão, tortura e morte. Escreveu vários paradoxos em apoio à teoria proposta por Parmênides e visando criar dificuldades para os que defendiam a tese do senso comum, poucos destes paradoxos chegaram até os nossos dias e há comentadores que argumentam que teria escrito cerca de 40 paradoxos.

Procura por meio do desenvolvimento de sua filosofia defender a de seu mestre, afirmando que a crença na existência do movimento e da pluralidade tende a gerar enormes dificuldades e também paradoxos. Os absurdos e paradoxos presentes quando aceitamos o movimento, tornam preferível a negação do movimento. Para Zenão temos um ser uno como propôs Parmênides, não há pluralidade de entes e não há movimento. Há um só ser e este é imóvel.

Encontramos em Aristóteles uma discussão sobre a obra de Zenão e seus paradoxos. São discutidos quatro paradoxos, a saber: 1- O argumento da dicotomia. 2- O argumento de Aquiles apostando uma corrida com uma lenta tartaruga. 3- O argumento da flecha disparada pelo arqueiro. 4- O argumento do estádio.

O que temos em Zenão é uma negação racional do movimento, o qual é somente uma ilusão e provém da “doxa”, opinião. O movimento passa a ser entendido como algo absurdo dentro de um princípio de racionalidade.

Segundo Aristóteles cabe a Zenão o mérito de ser o criador da dialética, arte que desenvolveu na tentativa de levar ao absurdo os argumentos de seus adversários que defendiam a multiplicidade do ser e o movimento.

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terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Zenão de Elea: A inexistência do movimento e da pluralidade

  Por: Silvério da Costa Oliveira.

 Zenão de Elea

 Zenão de Elea (490-430 a.C.) é discípulo de Parmênides e no decorrer de sua vida se envolveu com a política local de sua cidade, culminando em sua prisão, tortura e morte. Escreveu vários paradoxos em apoio à teoria proposta por Parmênides e visando criar dificuldades para os que defendiam a tese do senso comum, poucos destes paradoxos chegaram até os nossos dias e há comentadores que argumentam que teria escrito cerca de 40 paradoxos.

Procura por meio do desenvolvimento de sua filosofia defender a de seu mestre, afirmando que a crença na existência do movimento e da pluralidade tende a gerar enormes dificuldades e também paradoxos. Os absurdos e paradoxos presentes quando aceitamos o movimento, tornam preferível a negação do movimento. Para Zenão temos um ser uno como propôs Parmênides, não há pluralidade de entes e não há movimento. Há um só ser e este é imóvel.


 

Encontramos em Aristóteles uma discussão sobre a obra de Zenão e seus paradoxos. São discutidos quatro paradoxos, a saber: 1- O argumento da dicotomia, impossibilidade de movimento, já que qualquer coisa em movimento, saindo de um ponto em direção a outro e percorrendo determinada trajetória, antes de chegar ao seu destino tem de chegar à metade do percurso e esta necessidade de alcançar o meio antes de chegar ao fim ocorre infinitamente. 2- O argumento de Aquiles apostando uma corrida com uma lenta tartaruga. Se a tartaruga tem uma pequena vantagem na saída, Aquiles jamais conseguirá alcança-la, pois, quando este chega ao ponto em que ela se encontrava, esta já não está mais ali e sim mais a frente e isto infinitamente. 3- O argumento da flecha disparada pelo arqueiro, a qual se encontraria parada e totalmente imóvel em cada ponto da série que compõe sua trajetória. 4- O argumento do estádio, no qual temos blocos de elementos ali alinhados. Bloco AAAA, bloco BBBB e bloco CCCC. Se o bloco AAAA está parado, o BBBB se movimenta da direita para a esquerda passando por AAAA e o bloco CCCC se movimenta da esquerda para a direita também passando por AAAA na exata mesma velocidade que BBBB, temos que BBBB e CCCC ultrapassam o primeiro e o último A ao mesmo tempo. Agora, quando todos os B e todos os C tiverem passado uns pelos outros, ainda faltarão para cada grupo de B e C, ultrapassar dois A. Chegamos a conclusão de que o tempo será diferente, logo, a metade do tempo será igual ao seu dobro.

Zenão defende a tese de Parmênides de um ser que seja uno, contínuo e imóvel mostrando o absurdo e irracionalidade decorrente de seu oposto, ou seja, da existência de um ser múltiplo, descontínuo e móvel. Zenão busca reduzir os argumentos contrários a tese de Parmênides ao absurdo a partir de deduções resultantes das premissas adotadas por seus adversários. Eis abaixo como Zenão desenvolve seus paradoxos.

1- Contra a pluralidade e a descontinuidade do ser.

1.1- Argumenta que se existem múltiplos seres, estes devem ser obrigatoriamente tantos quantos são, nem mais nem menos. Se são tantos quantos são, seu número é finito, mas, se são compostos por infinitas partes, são ao mesmo tempo finitos e infinitos, donde a conclusão nos leva ao absurdo.

1.2- Se existem muitos seres, estes são a sua vez iguais e desiguais. Iguais porque são compostos por partes semelhantes divisíveis até o infinito e desiguais porque cada um se divide em partes distintas uma das outras.

1.3- Todos os seres extensos são compostos por partes e cada uma destas partes pode se dividir em novas partes, até que se chegue a pontos inextensos e que, portanto, não possam mais ser divididos. Se são pontos inextensos, são coisa alguma, puro nada. Por sua vez, se os seres extensos se constroem a partir de seres inextensos, todos são nada, ou seja, os seres extensos são compostos por nada.

1.4- Se algo é extenso, então é simultaneamente grande e pequeno ao infinito. Infinitamente grande já que são compostos de partes divisíveis ao infinito. Infinitamente pequenos já que com partes inextensas não se pode formar um corpo extenso uma vez que a partir da soma total das partes inextensas não se pode obter um corpo extenso.

1.5- Somar e dividir se mostram a mesma coisa, já que a soma das partes inextensas não aumenta a extensão e a totalidade das partes inextensas retiradas não diminuem a extensão original.

1.6- Se afirmamos que as coisas são ao mesmo tempo finita e infinitamente divisíveis entramos em contradição. Estas seriam finitas já que são compostas de partes distintas, separadas e limitadas pelo espaço vazio. No entanto, estas mesmas partes são simultaneamente divisíveis ao infinito. Daí a conclusão de que os seres seriam simultaneamente finitos e infinitos, já que contém partes que são infinitamente divisíveis.

2- Argumentação contra a realidade do espaço.

2.1- Qualquer coisa extensa está localizada no espaço e este por sua vez ou é alguma coisa ou é nada. Se o espaço é alguma coisa, deve estar contido em outra coisa, outro espaço, e isto sucessivamente ao infinito. Agora, se o espaço é nada, teríamos de concluir que os seres extensos estão localizados no nada.

2.2- Se os seres são múltiplos, todos individualmente devem ser percebidos. No entanto, quando colocamos grãos de qualquer espécie dentro de uma sacola e a balançamos, eles fazem barulho, mas se colocamos um único grão não temos barulho algum para perceber, por mais que balancemos a sacola.

3- Argumentação contra a realidade do movimento.

São os quatro paradoxos apresentados por Aristóteles, que não negam a aparência e sim a realidade do movimento.

3.1- O paradoxo do finito contendo o infinito

O movimento se dá quando um móvel percorre determinada distância em determinado tempo. Zenão procura demonstrar a impossibilidade do movimento no espaço, seja este espaço composto por pontos divisíveis ou indivisíveis. A ideia é que se o espaço é algo real, então deve poder ser percorrido por um objeto móvel, sendo que conforme este objeto se movimento por sobre o espaço, ambas as partes são posicionadas e comparadas em cada posição ocupada. O movimento se dá quando um corpo qualquer, móvel, percorre as distintas partes deste espaço em um tempo finito, ou seja, um corpo (móvel) percorrendo outro corpo (espaço) em um tempo (finito) determinado. Daí se segue que se o espaço é dividido ao infinito, temos que um dado móvel finito há de percorrer infinitas partes em um tempo finito, o que não é possível. Por sua vez, se entendemos que o espaço não é divisível e sim formado por pontos inextensos, por meros instantes, a existência do movimento também geraria absurdos.

3.1.1- O argumento da dicotomia (ou divisão), também conhecido como primeiro argumento do estádio.

Antes de chegar ao final temos de chegar ao meio, infinitamente. Entende que o espaço é divisível ao infinito e que não é possível chegar ao final de uma reta, pois sempre se pode dividir a distância restante ao meio e sempre haverá a necessidade de se chegar ao meio antes de se chegar ao final. Um corredor não conseguiria atravessar um estádio, pois sempre precisaria primeiro chegar a metade e sucessivamente a metade da metade.

3.1.2- Argumento de Aquiles. Trata-se da exemplificação de 3.2, onde para se chegar ao final precisa-se chegar ao meio primeiramente e isto ao infinito tornando o movimento impossível. Se Aquiles corre contra a tartaruga e esta tem uma pequena vantagem, Aquiles jamais conseguirá ultrapassá-la.

3.1.3- Argumento da flecha. Já que o espaço é composto por infinitos pontos e deste modo pode ser dividido ao infinito, e se o tempo também pode ser dividido ao infinito, uma flecha disparada por um arco terá de percorrer um a um, todos estes pontos, e estará parada em cada um deles, logo, a flecha em movimento está em repouso em cada instante e ponto no espaço.

3.1.3.1- Tudo que se move ou se move no ponto em que está ou no ponto em que não está. Não é possível o movimento no ponto onde se encontra e menos ainda onde não está presente, disto se conclui que o que aparenta estar em movimento em verdade não se move.

3.4- Argumento do estádio. Dois carros correndo em um estádio em direção contrária e com a mesma velocidade, um em direção ao outro, se movem com relação a si mesmos com o dobro da velocidade que com relação a um observador imóvel. Cada unidade de espaço deve ser entendida como igual a uma unidade de tempo. Deste modo chegamos à conclusão de que a metade de um dado tempo é igual ao dobro desse tempo.

Mesmo hoje em dia, já no século XXI e depois de diversas tentativas de refutação destes paradoxos, desde os tempos de Aristóteles, os mesmos ainda se mostram atuais, instigantes e provocativos. Novas questões surgem na medida em que a ciência e a tecnologia humana evoluem, imaginemos, por exemplo, um filme fotográfico de cinema, onde na película temos uma sucessão de imagens imóveis que ganham vida quando o projetor as passa em velocidade na tela do cinema. O movimento no cinema não seria meramente aparente?

O que temos em Zenão é uma negação racional do movimento, o qual é somente uma ilusão e provém da “doxa”, opinião. O movimento passa a ser entendido como algo absurdo dentro de um princípio de racionalidade.

Também vale destacar as contribuições sobre o Zenão quântico, onde um sistema instável, se ampla e frequentemente monitorado, torna-se imóvel ao observador. Aqui pensamos, dentre outros, em Schröndinger, 1935 e Misra e Sudarshan, 1977.

Uma outra contribuição a qual somos devedores de Zenão é o método de refutar as teses contrárias as suas por meio da redução ao absurdo. Como posso admitir o movimento se esta tese me leva a conclusões absurdas e racionalmente inaceitáveis? Método este que pode ser aplicado a outras questões em contenda, reduzindo os argumentos do adversário a conclusões absurdas e inaceitáveis. Segundo Aristóteles cabe a Zenão o mérito de ser o criador da dialética, arte que desenvolveu na tentativa de levar ao absurdo os argumentos de seus adversários que defendiam a multiplicidade do ser e o movimento.

 Silvério da Costa Oliveira.

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Empédocles de Acragas (1) * Os quatro elementos

 


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Empédocles de Acragas, hoje Agrigento, (495/483/482-430 a.C.) segundo a tradição escreveu dois livros, “Sobre a natureza” e “Purificações”, tendo-nos chegado somente fragmentos de sua obra. Os fragmentos hoje disponíveis foram preservados por serem citados nas obras de Aristóteles, Simplício e Plutarco, já as opiniões e explicações sobre sua obra, a doxografia, provém basicamente de Platão, Aristóteles e Teofrasto. Em 1990 foram encontrados novos fragmentos em um papiro que tinha sido obtido em 1904 de um antiquário no Cairo, Egito, e estava guardado no depósito da Biblioteca Nacional de Estrasburgo, notícia que foi dada aos meios de imprensa em 1999.

Segundo a tradição, foi médico, legislador, dramaturgo, político, poeta, professor e filósofo. A lenda que surgiu em torno de seu nome o apresenta também como mago, curandeiro e profeta.

Também defendia, do mesmo modo que os órficos e pitagóricos, um conjunto de teses místicas, como a transmigração das almas por meio de um longo ciclo de reencarnações, não somente em humanos, mas também passando por outros animais e até mesmo plantas.

Empédocles entende serem em número de quatro os elementos materiais que irão tudo compor, a saber: fogo, ar, água e terra. Acrescenta aos quatro elementos o amor (filia) e a discórdia ou ódio (nekos). O amor une e a discórdia desune. O primeiro agrega e o segundo desagrega. O amor e o ódio, em Empédocles, representam o poder natural e divino do bem e do mal, da ordem e da desordem, da construção e da destruição.

Segundo este filósofo, no começo de tudo teríamos o bem, a ordem, e predominaria o amor. Neste começo de tudo e por meio do amor, teríamos os quatro elementos mesclados entre si formando uma unidade orgânica e esférica. A criação de tudo se deu a partir do ódio. Mas se só houvesse o ódio não haveria a criação dos seres individuais, pois, a separação iria continuar sempre, é o amor que proporciona junção de elementos que irá criar os seres individuais.

Há uma alternância entre o domínio do mal e do bem. Com o tempo o império do ódio dará lugar ao império do amor. O amor volta aos poucos a se mesclar com o ódio e as coisas particulares até que haja novamente uma coisa só. Esta coisa única é Deus, perfeito e esférico. Esta perfeição é encontrada, portanto, na origem e no final do mundo. Nosso atual mundo, onde temos injustiça e ódio, é um lugar de expiação e purificação. Unindo-se tudo que existe temos o uno, com o qual se desfaz a pluralidade, com a separação de todas as coisas temos novamente a pluralidade e o uno perece.

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terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Empédocles de Acragas: O amor une e a discórdia desune

 Por: Silvério da Costa Oliveira.

 Empédocles de Acragas

 Empédocles de Acragas, hoje Agrigento, (495/483/482-430 a.C.) segundo a tradição escreveu dois livros, “Sobre a natureza” e “Purificações”, tendo-nos chegado somente fragmentos de sua obra. Enquanto o primeiro livro aborda a temática tratada de modo mais científico e filosófico, o segundo livro nos apresenta uma abordagem mais voltada a natureza e ao destino da alma. Os comentadores divergem quanto à ordem cronológica em que os mesmos foram escritos, apresentando seus argumentos sobre qual dos dois seria o primeiro a ser escrito e por qual motivo.

Os fragmentos hoje disponíveis foram preservados por serem citados nas obras de Aristóteles, Simplício e Plutarco, já as opiniões e explicações sobre sua obra, a doxografia, provém basicamente de Platão, Aristóteles e Teofrasto. Em 1990 foram encontrados novos fragmentos em um papiro que tinha sido obtido em 1904 de um antiquário no Cairo, Egito, e estava guardado no depósito da Biblioteca Nacional de Estrasburgo, notícia que foi dada aos meios de imprensa em 1999.

Segundo a tradição, foi médico, legislador, dramaturgo, político, poeta, professor e filósofo. A lenda que surgiu em torno de seu nome o apresenta também como mago, curandeiro e profeta.


 

As histórias lendárias sobre Empédocles são muitas e, por vezes, um pouco bizarras e provavelmente todas falsas ou deturpadas. Dentre estas histórias temos que ele teria posto fim a sua vida se atirando no interior da cratera do vulcão Etna, na região hoje pertencente a Itália. Em comentadores e doxógrafos encontramos relatos de que Empédocles afirmava saber compor poções mágicas contra doenças ou mesmo para retardar a velhice, habilidade para controlar os ventos e as chuvas, e também técnica para evocar a força vital (alma ou espírito) dos mortos que estavam no Hades. Há dentre os comentadores e doxógrafos quem afirme que Empédocles se considerava uma divindade, sendo por isto reverenciado e que ministrava ensinamentos em decorrência de tal fato.

Também defendia, do mesmo modo que os órficos e pitagóricos, um conjunto de teses místicas, como a transmigração das almas por meio de um longo ciclo de reencarnações, não somente em humanos, mas também passando por outros animais e até mesmo plantas.

Empédocles entende serem em número de quatro os elementos materiais que irão tudo compor, a saber: fogo, ar, água e terra. Acrescenta aos quatro elementos o amor (filia) e a discórdia ou ódio (nekos). O amor une e a discórdia desune. O primeiro agrega e o segundo desagrega. O amor e o ódio, em Empédocles, representam o poder natural e divino do bem e do mal, da ordem e da desordem, da construção e da destruição.

Segundo este filósofo, no começo de tudo teríamos o bem, a ordem, e predominaria o amor. Neste começo de tudo e por meio do amor, teríamos os quatro elementos mesclados entre si formando uma unidade orgânica e esférica. A criação de tudo se deu a partir do ódio. Mas se só houvesse o ódio não haveria a criação dos seres individuais, pois, a separação iria continuar sempre, é o amor que proporciona junção de elementos que irá criar os seres individuais.

Por meio da entrada do ódio neste sistema, e da mescla com o amor, passamos a ter a criação de tudo, dos seres individuais, de uma infinita e absoluta separação que diversificam estes seres individuais, e o domínio absoluto do bem cede lugar ao domínio absoluto do mal.

Há uma alternância entre o domínio do mal e do bem. Com o tempo o império do ódio dará lugar ao império do amor. O amor volta aos poucos a se mesclar com o ódio e as coisas particulares até que haja novamente uma coisa só. Esta coisa única é Deus, perfeito e esférico. Esta perfeição é encontrada, portanto, na origem e no final do mundo. Nosso atual mundo, onde temos injustiça e ódio, é um lugar de expiação e purificação.

Unindo-se tudo que existe temos o uno, com o qual se desfaz a pluralidade, com a separação de todas as coisas temos novamente a pluralidade e o uno perece.

Entende que algo não existente não pode passar a existir e que algo que exista não pode passar a não existir, não seria isto a base de toda a mudança observada. A mudança observada no mundo decorre da união e separação da mistura entre os quatro elementos em diversas proporções e estes elementos são substâncias inalteráveis. A morte ou mesmo a aniquilação completa de algo, não passa de mera ilusão. A semelhança do que o pintor faz com algumas cores básicas, cuja mistura em determinada proporção lhe permite criar todas as cores de que necessita para pintar qualquer quadro e retratar seja lá qual for a cena escolhida, do mesmo modo, pela mistura dos quatro elementos tudo que há se forma a partir da presença do amor e do ódio, ou discórdia. Empédocles chamava os quatro elementos de “raízes”, o termo “elemento” parece ter sido usado a primeira vez pelo filósofo Platão, e Empédocles também identificou estas raízes (fogo, ar, água e terra) respectivamente com os nomes místicos de Zeus, Hera, Nestis (eufemismo para Perséfone) e Aidoneu. Há, no entanto, discordâncias entre comentadores quanto a qual a real correspondência entre as raízes e os deuses, ou seja, a qual elemento corresponde qual deus.

Em Empédocles, além dos quatro elementos, temos também duas forças da natureza, o amor (agregação, harmonia) e o ódio (desagregação, desarmonia) em um ciclo constante e como em qualquer ciclo (vide as estações do ano, por exemplo) não há como dizer quando realmente começou, só podemos escolher arbitrariamente um ponto inicial (primavera, verão, outono e inverno). Quando predomina totalmente o amor ou quando predomina totalmente o ódio não é possível haver vida. Esta situação de máxima predominância de uma destas duas forças nos lembra os solstícios de verão e inverno, já a vida se dá nos equinócios, onde o tempo é mais ameno, onde há um equilíbrio entre ambas as forças. Quando predomina totalmente o amor, temos uma esfera onde todos os quatro elementos não se distinguem e não há individualidade, havendo um único todo agregado, coeso e inseparável. Já quando o ódio domina também não temos qualquer tipo de agregação e sim somente o caos.

 Onde as pessoas ilusoriamente acreditam observar o devir ou movimento e transformação, geração e corrupção das coisas, surgimento e desaparecimento de todas elas, em verdade temos a reunião e separação dos quatro elementos básicos dos quais todas as coisas surgiram, trata-se da mistura desses elementos distribuídos em distintas proporções, havendo a maior ou menor presença de um ou outro destes elementos.

Nele temos presente uma antecipação do que mais tarde teremos com Charles Darwin em “A origem das espécies”, de 1859 d.C., pois, este autor consegue intuir, se bem que por meio de relatos fantásticos, o que mais tarde teremos com a teoria da evolução das espécies. Após a ruptura da esfera onde tudo estava coeso, separação esta provocada pelo ódio, teve início a criação do cosmos, por sua vez, os elementos individuais foram se aglutinando por meio do amor. Quando do surgimento da vida no nosso mundo, ocorreram primeiramente junções aleatórias provocadas pelo amor, muitas destas uniões não possuíam as capacidades necessárias para sobreviver e foram extintas, havendo uma seleção natural que priorizou as formações mais aptas a sobreviver.

Empédocles explica como conhecemos algo por meio de nossas sensações atribuindo ao conhecimento de algo o princípio de que o semelhante conhece o semelhante. É pelo fato de tudo ser composto pelos quatro elementos, incluso nós mesmos, que podemos conhecer. Ou seja, pelo elemento terra conhecemos o que possui este elemento, da mesma forma com o elemento fogo, ar, água e terra presentes em nós e nos objetos de nosso conhecimento.

Os opostos não se atraem, é o semelhante que atrai o semelhante e, por sua vez, o dessemelhante repulsa o dessemelhante. Trata-se de um movimento eterno, um ciclo constante no qual quando prevalece a harmonia é porque o amor está atuando, já quando prevalece a desarmonia ou desequilíbrio, temos a prevalência da discórdia ou ódio, sendo que isto pode ser observado em tudo ao nosso redor, seja na política, na saúde, nos aspectos emocionais, nas relações entre as pessoas ou entre as sociedades.

A teoria das quatro raízes proposta por Empédocles foi exposta e adotada por Aristóteles, que a chamou por “elementos” e perdurou em nossa civilização por cerca de vinte séculos como parte das concepções comumente aceitas sobre a composição da matéria, isto só veio a mudar com a química do século XVIII, a partir, particularmente, de Antoine Lavoisier.

 Silvério da Costa Oliveira.

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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