Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

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terça-feira, 30 de junho de 2026

Walter Benjamin: Vida, Ideias e a Crítica da História, da Arte e da Modernidade

 

“Es gibt kein Dokument der Kultur, das nicht zugleich ein Dokument der Barbarei ist.”

Tradução para o português:

“Não existe documento da cultura que não seja ao mesmo tempo um documento da barbárie.”

(Walter Benjamin, “Sobre o conceito de história”, Tese VII, 1940)

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Walter Benjamin

 

Walter Benjamin é, sem dúvida, uma das figuras mais originais, complexas e influentes do pensamento filosófico e crítico do século XX, em particular junto aos intelectuais da esquerda política. Intelectual judeu-alemão de múltiplos interesses, sua obra não se encaixa facilmente em nenhuma Escola ou corrente única. Benjamin transitou entre a filosofia da linguagem, a teoria da tradução, a crítica literária, a estética, a teoria política e uma concepção muito particular de história, mesclando elementos do romantismo alemão, do messianismo judaico e do materialismo histórico de forma profundamente heterodoxa e criativa. Podemos encontrar o estudo de Benjamin nos mais distintos campos formados por faculdades diversas na vida acadêmica atual.


 

Sua escrita fragmentária, alegórica e repleta de imagens dialéticas desafia o leitor a abandonar as explicações lineares e progressistas da história. Em vez de construir sistemas fechados, Benjamin preferiu constelações de ideias, montagens de citações e “imagens de pensamento” capazes de fazer o passado irromper no presente com força redentora. Embora tenha vivido à margem da academia oficial e morrido tragicamente no exílio, seu pensamento tornou-se, após a Segunda Guerra Mundial, uma referência indispensável para compreender a crise da experiência humana na contemporaneidade, a perda da aura na era da reprodutibilidade técnica, a natureza da violência estatal e as possibilidades de uma revolução que não seja mero avanço linear, mas interrupção salvadora do tempo. No fundo, um autor que mesmo não pertencente à Escola de Frankfurt ou outro movimento semelhante, contribui em particular com a discussão acadêmica dentro da esquerda política e numa linha que prevê, antecipa ou busca esperançosamente a revolução comunista que porá fim ao sofrimento social, como o salto de um tigre na história, rompendo a sua linearidade e quebrando ilusões consensuais.

Neste artigo, buscamos apresentar de forma clara e profunda a vida, as principais obras e as ideias centrais de Walter Benjamin, sempre a partir de sua própria produção intelectual. Longe de pretender esgotar a riqueza de seu pensamento, pretendemos oferecer ao leitor uma visão integrada e fiel da multiplicidade presente no pensamento e obra de Benjamin. Sua obra continua a iluminar, com luz própria e muitas vezes melancólica, as ruínas e as possibilidades de nosso tempo na visão do autor.

 

1- Vida

 

Walter Bendix Schönflies Benjamin (1892-1940), alemão de origem judaica, nasce na cidade de Berlim, na época império alemão, e falece no sul da França, fronteira com a Espanha (faleceu em Portbou, na fronteira franco-espanhola), então com 48 anos de idade. Filho de Emil Benjamin (1856–1926), comerciante e investidor, que manteve entre seus negócios um antiquário, e de Paula Schönflies (1869–1930), uma família intelectualizada e abastada da burguesia judia. Estudou nas universidades de Berlim, Friburgo e Berna. Teve dois irmãos mais novos: Georg (1895-1942), que viria a morrer em um campo de concentração nazista, e Dora (1901-1946).

A infância de Benjamin transcorreu em um ambiente de conforto material, marcado pela monumentalidade da Berlim guilhermina. Ele próprio descreveria mais tarde, em textos autobiográficos como “Infância em Berlim”, por volta de 1900, as impressões profundas deixadas pela cidade em transformação: suas passagens, lojas de departamentos, parques e a sensação de um mundo que se modernizava rapidamente. Desde cedo, demonstrou sensibilidade estética e intelectual aguda, influenciada pelo contato com a arte e os livros do antiquário paterno. Em 1904, devido à saúde frágil, foi enviado a um internato no interior da Turíngia. Lá conheceu o pedagogo reformista Gustav Wyneken (1875-1964), cuja visão antiautoritária da educação o marcou profundamente. Benjamin aderiu ao Movimento da Juventude Alemã, participando ativamente de debates sobre reforma educacional e publicando seus primeiros textos, sob pseudônimo, na revista Der Anfang. Essa experiência juvenil alimentou nele uma crítica precoce às estruturas autoritárias da sociedade burguesa.

Entre 1912 e 1917, Benjamin estudou filosofia, literatura alemã e história da arte nas universidades de Freiburg im Breisgau, Berlim, Munique e Berna (Suíça). Opôs-se à Primeira Guerra Mundial desde o início, recusando-se a servir no exército alemão. Para evitar o alistamento, obteve licença médica e transferiu-se para a Suíça.

Em 1917 casa-se com a militante, jornalista e tradutora, Dora Sophie Pollak, nascida “Kellner” (1890-1964), com quem teve um filho, Stefan. Este casamento durará até 1930, quando então o casal se separa. Benjamin obteve o Doutorado com uma tese sobre a crítica da arte no romantismo alemão. A tese “Der Begriff der Kunstkritik in der deutschen Romantik" (O conceito de crítica de arte no romantismo alemão) foi defendida e aprovada em 1919, na Universidade de Berna, já a publicação ocorreu em 1920. Atuou como ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo. Em 1915, em Berlim, trava contato e forma amizade com Siegfried Kracauer (1889-1966) e em 1923 conhece Theodor Adorno (1903-1969).

Benjamin também estreitou laços com Gershom Scholem (grande amigo desde 1915, futuro estudioso da mística judaica), Siegfried Kracauer e Theodor Adorno, figuras centrais da futura Escola de Frankfurt.

De volta a Berlim em 1920, Benjamin enfrentou dificuldades financeiras crescentes, agravadas pela crise econômica da República de Weimar. Tentou seguir carreira acadêmica, mas o projeto de livre-docência (a tese Origem do drama trágico alemão, publicada em 1928) foi rejeitado pela Universidade de Frankfurt em 1925, por ser considerado excessivamente heterodoxo. Essa frustração acadêmica o levou a dedicar-se integralmente ao trabalho como crítico literário, ensaísta e tradutor. Traduziu obras de Baudelaire e Proust, atividades que aprofundaram sua reflexão sobre linguagem e tradução.

Sua obra começa mais focada no idealismo, mas com o passar da juventude e o amadurecimento, paulatinamente se aproxima do materialismo histórico. Foi no transcorrer de sua vida, influenciado pela tradição judaica, pelo romantismo alemão e pelo marxismo.

Nos anos 1920, sua vida intelectual ganhou novas direções. Em 1924, durante uma estada na ilha de Capri, conheceu a diretora de teatro letã Asja Lacis, militante comunista, por quem se apaixonou. Esse encontro foi decisivo: Lacis o introduziu ao pensamento marxista de forma mais concreta e o conectou a Bertolt Brecht. Sua obra passou a mesclar, de modo original e muitas vezes tensionado, elementos do messianismo judaico, do materialismo histórico e da crítica cultural radical.

Entre as amizades intelectuais que marcaram o período do exílio, a relação com Bertolt Brecht (1898-1956) merece destaque especial. Os dois se encontravam regularmente na Dinamarca, onde Brecht vivia exilado, e mantinham um diálogo intenso sobre teatro, política e técnica. Benjamin dedicou ensaios importantes ao teatro épico brechtiano, reconhecendo nele uma forma artística capaz de romper com a contemplação passiva e despertar no espectador uma consciência crítica e política. Embora os dois divergissem em pontos importantes (Brecht era mais cético em relação ao messianismo e à mística judaica presentes no pensamento de Benjamin) a amizade foi genuína e intelectualmente fecunda para ambos. Benjamin via no teatro de Brecht uma confirmação prática de suas próprias teses sobre o potencial político da arte na era da reprodutibilidade técnica.

Em 1926-1927, viajou a Moscou para visitar Asja Lacis, experiência registrada no Diário de Moscou. Em 1928, publicou Rua de Mão Única, livro fragmentário e experimental que sinalizava sua virada para formas de escrita mais políticas e literárias. Viveu um período de intensa produção, mas também de instabilidade pessoal: divorciou-se de Dora em 1930 e enfrentou crescentes dificuldades financeiras.

Com a ascensão de Adolf Hitler ao poder em janeiro de 1933, a situação tornou-se insustentável. Como intelectual judeu e de esquerda, Benjamin viu seus direitos civis suprimidos e seus bens ameaçados. Em março de 1933, exilou-se definitivamente, fixando-se principalmente em Paris. Nos anos seguintes, viveu em condições precárias, sustentando-se com colaborações em revistas, bolsas limitadas (como a do Instituto de Pesquisas Sociais) e ajuda de amigos. Continuou trabalhando no ambicioso Passagens (Passagen-Werk), um vasto projeto inacabado sobre a Paris do século XIX como pré-história da contemporaneidade.

Em virtude do ambiente hostil encontrado nos países comandados pelos nazistas, na década de 1930 viajou ocasionalmente por diferentes países, incluindo visitas à Itália (San Remo - onde morava sua ex-mulher Dora), à Dinamarca (para encontrar Brecht) e a Ibiza, sem fixar residência permanente.

Com a expansão do nazismo, o início dos confrontos da segunda guerra mundial, e a invasão da França em junho de 1940, Benjamin se transladou para o sul da França ocupada, até Marselha. Benjamin pensava em atravessar a fronteira com a Espanha, mas ocorreu de a fronteira estar fechada justamente no dia da tentativa de travessia, e este cometeu suicídio com a ingestão de forte dose de morfina. Interessante que no dia seguinte a fronteira foi reaberta e o grupo que originalmente estava com ele pôde passar sem problemas. A coisa ocorreu assim, Benjamin conseguira um visto americano por intermédio de amigos e tinha como objetivo deixar a França passando pela fronteira com a Espanha e se direcionar aos EUA. Em setembro de 1940, cruzou os Pireneus a pé com um pequeno grupo de refugiados, guiado por Lisa Fittko. Ao chegar à fronteira em Portbou (Catalunha), as autoridades espanholas, seguindo ordens recentes do regime de Franco, recusaram a entrada a quem não possuía visto de saída francês válido. Diante da perspectiva de ser devolvido à França ocupada e entregue à Gestapo, Walter Benjamin, exausto e doente, decidiu pôr fim à própria vida. Na noite de 26 de setembro de 1940 (algumas fontes indicam 27 de setembro), no Hotel de França em Portbou, ele ingeriu uma dose letal de morfina. Tinha 48 anos. Seu corpo foi sepultado no cemitério local, em uma cova que permaneceu anônima por anos. Pouco depois, as mesmas autoridades espanholas permitiram que o restante do grupo prosseguisse viagem, um detalhe que reforça o caráter absurdo e desnecessário daquele ato radical de por fim a própria vida. Cabe ressaltar que a tragédia de sua morte simboliza o destino de tantos outros intelectuais perseguidos pelo nazismo, muitos mortos em pelotões de fuzilamento ou em campos de concentração, unicamente por não estarem em conformidade com os padrões ideológicos sobre o que seja a raça ariana pura ou por nutrirem visões políticas contrárias ao governo nazista.

Um detalhe biográfico de grande significado envolve justamente o texto que viria a ser seu testamento intelectual. Antes de deixar Paris em fuga, Benjamin entregou o manuscrito das Teses sobre o conceito de história à filósofa Hannah Arendt (1906-1975), que conseguiu cruzar o Atlântico e levar o texto aos Estados Unidos, entregando-o a Theodor Adorno. Sem esse gesto, um dos documentos mais importantes do pensamento filosófico do século XX poderia ter se perdido para sempre nas convulsões da guerra. A trajetória daquelas páginas (escritas por um homem em fuga, salvas por uma mulher também perseguida, publicadas postumamente por um amigo exilado) sintetiza, de forma quase alegórica, o próprio pensamento de Benjamin sobre a fragilidade da memória e a responsabilidade dos que sobrevivem diante dos que foram vencidos pela história.

Benjamin se relacionava com membros da Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer – Instituto de Pesquisa Social) sendo considerado por alguns comentadores como membro deste grupo, no entanto, isto não me parece correto em virtude das relações complexas, opiniões contraditórias e embate em diversos temas (como, por exemplo, o papel e valor da música – lembremos da avaliação do jazz e da música popular, que Benjamin tendia a ver com mais simpatia do que Adorno). Os desacordos existentes não o permitem colocá-lo como membro da Escola de Frankfurt.

Benjamin não chega a construir um sistema filosófico, consistindo sua obra em apresentação de intuições e ideias. Busca abordar como tema as obras de arte, ambientes, textos. O ponto central em sua obra é o poder exercido pela linguagem.

Pouco publicou em vida, ficando restrito a ensaios e artigos em periódicos. Coube a Adorno ser o responsável pela edição e publicação póstuma de sua obra. Diversos comentadores consideram Benjamin como um dos mais importantes pensadores contemporâneos, mas em vida sua obra não teve repercussão além de um círculo intelectual muito estreito. Adorno o considerava um filósofo crítico inclusive da própria filosofia. Sua obra se debruçou sobre temas concretos da literatura, arte, técnicas, vida social e outros pontos, podendo facilmente ser considerado um crítico de ideias e fatos.

A vida de Walter Benjamin foi marcada por genialidade intelectual, marginalidade acadêmica, exílio constante e um compromisso profundo com a crítica do mundo contemporâneo. Embora pouco reconhecido em vida, seu pensamento tornou-se, após a Segunda Guerra Mundial, uma das referências mais fecundas da filosofia, da teoria da cultura e da crítica estética do século XX, em particular em pensadores vinculados a esquerda política.

 

2- Ideias

 

Walter Benjamin foi um pensador de extraordinária multiplicidade. Seus textos não seguem um sistema fechado ou uma doutrina única. Em vez disso, constroem constelações de ideias que se entrelaçam através de diferentes períodos e temas. Linguagem, tradução, crítica literária, estética, política, história e teologia aparecem sempre em tensão criativa, muitas vezes mesclando influências do romantismo alemão, do messianismo judaico, do materialismo histórico e de uma sensibilidade aguda para as transformações técnicas e sociais da contemporaneidade. Benjamin não buscava respostas definitivas, mas formas de pensamento capazes de captar o efêmero, o fragmentário e o oprimido da experiência humana. Seu método privilegiava a montagem, a citação, a alegoria e a imagem dialética, técnicas que permitem que o passado irrompa no presente de modo disruptivo, revelando possibilidades redentoras.

Nesse contexto, Benjamin desenvolve também o conceito de fantasmagoria para descrever a forma como a realidade social, especialmente no capitalismo, se apresenta de modo ilusório e encantado. Inspirando-se nas exposições, vitrines e passagens de Paris do século XIX, ele observa que as mercadorias não aparecem apenas como objetos de uso, mas como portadoras de um brilho quase mágico, que encobre as relações sociais de produção. A fantasmagoria é, assim, uma forma de experiência na qual o humano se encontra imerso em um mundo de aparências sedutoras, onde o valor de troca se impõe sobre o valor de uso, e onde a própria realidade se torna espetáculo. Ao revelar esse caráter ilusório, Benjamin aproxima-se de uma crítica radical do capitalismo, mostrando que o encantamento das mercadorias é, ao mesmo tempo, um mecanismo de dominação e alienação.

Associado a esse diagnóstico, Benjamin identifica o papel central do choque (em alemão: Schock) na configuração da experiência na contemporaneidade. A vida nas grandes cidades, marcada pela velocidade, pela multidão, pela técnica e pela constante exposição a estímulos, submete o indivíduo a uma sucessão de impactos sensoriais que dificultam a elaboração de uma experiência duradoura. Diferentemente da experiência tradicional, que se sedimenta e pode ser narrada, o choque fragmenta a percepção e exige respostas imediatas, muitas vezes automáticas. Benjamin encontra na figura do flâneur e nas técnicas artísticas, como o cinema e a montagem, tentativas de lidar com essa condição. O choque não é apenas um empobrecimento da experiência, mas também um novo modo de percepção, que pode, em determinadas circunstâncias, abrir espaço para formas críticas de consciência, desde que seja apreendido e não apenas sofrido passivamente.

Para Benjamin a história não deve ser entendida como um progresso linear, nela temos que cada momento do presente carrega em si a responsabilidade para com os vencidos do passado. Ele entende sua época histórica como fruto da opressão. Segundo ele, devemos olhar o passado histórico não como mero arquivo e sim como campo de luta visando resgatar vozes que foram silenciadas.

Em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, 1936, argumenta sobre o impacto das novas tecnologias, tais como a fotografia e o cinema, na arte moderna. Ao mesmo tempo em que a reprodutibilidade retira a aura da obra de arte, já que esta deixa de ser única, torna-a mais acessível ao povo, podendo se tornar instrumento político de crítica e emancipação.

Sob influência do barroco alemão, entendia a alegoria como uma forma de pensamento que consegue capturar a fragmentação e a crise. No lugar de totalidade, a alegoria revela ruína, sendo cada parte impregnada de história, dor e ambiguidade presente no mundo.

Benjamin buscou na Paris do século XIX uma espécie de laboratório social para entender o surgimento da modernidade. Ao estudar sua paisagem arquitetônica (passagens cobertas, grandes boulevards, vitrines de lojas) encontra a figura do flâneur, o caminhante observador da cidade, mas com olhar crítico, buscando captar seus ritmos, ilusões e fantasias. Nela, a cidade, temos algo a decifrar, o capitalismo se mostra presente, mas também temos o surgimento de uma resistência.

2.1- Filosofia da linguagem e da tradução

Desde os escritos juvenis, Benjamin desenvolveu uma concepção original de linguagem. Em textos como “Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem do humano”, 1916, ele via a linguagem não como mero instrumento de comunicação ou signo arbitrário, mas como medium da própria realidade espiritual. Toda criação, segundo ele, participa de uma “linguagem pura” ou “pura linguagem”, uma essência anterior à divisão entre palavras e coisas, que se manifesta na nomeação divina e na poesia.

A tradução, para Benjamin, não consiste em transmitir um significado idêntico de uma língua para outra. Em “A tarefa do tradutor”, 1923, ele argumenta que a tradução deve buscar o “puro idioma” subjacente a todas as línguas, revelando o parentesco entre elas através da literalidade. A tradução não serve ao original de forma servil; ela o faz sobreviver, enriquecendo a língua do tradutor e permitindo que a obra se renove no tempo. Aqui já se anuncia uma ideia central: a sobrevivência das obras não depende da eternidade, mas de sua capacidade de se transformar e de ser resgatada em novas constelações históricas.

2.2- Crítica da violência: mítica e divina

Em “Crítica da violência”, 1921, Benjamin distingue dois tipos fundamentais de violência. A violência mítica é fundadora e conservadora do direito. Ela estabelece e mantém ordens jurídicas baseadas no poder, na culpa e no castigo, como na mitologia antiga ou no monopólio estatal da força. Essa violência é sempre “sanguinária” e vinculada à perpetuação de uma ordem de dominação.

Em oposição surge a violência divina (ou pura), que é “law-destroying” (destruidora do direito). Ela não institui novas leis, mas expia, purifica e interrompe o ciclo de culpa e retribuição. Não é ameaçadora, mas fulminante; não busca poder, mas justiça. Benjamin via nessa distinção uma possibilidade ética e política de romper com as formas míticas de autoridade, abrindo espaço para uma justiça sem mediações violentas do Estado.

2.3- Teoria da alegoria e do drama barroco

No livro “Origem do drama trágico alemão”, 1928, Benjamin contrasta a tragédia clássica com o Trauerspiel (drama de luto) barroco. Enquanto a tragédia grega gira em torno do herói e do destino, o drama barroco apresenta um mundo de ruínas, soberania falida e melancolia. A forma privilegiada desse mundo é a alegoria, oposta ao símbolo romântico.

O símbolo sugere uma unidade orgânica entre aparência e essência. A alegoria, ao contrário, revela a fragmentação: o significado não habita naturalmente o objeto, mas é imposto a ele de fora, como em um emblema. No barroco, o mundo aparece como ruína, cadáver ou cenário vazio, imagem que Benjamin estenderia depois à própria contemporaneidade. A alegoria torna-se, assim, um método de conhecimento: capaz de ler a história como acumulação de destroços, mas também de resgatar, através da montagem, o que foi esquecido ou oprimido.

2.4- A perda da aura e a reprodutibilidade técnica

Um dos conceitos mais célebres de Benjamin é o de aura, desenvolvido especialmente em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, 1936. A aura é a singularidade única de uma obra de arte, sua presença irrepetível no aqui e agora, ligada à tradição, ao culto e à distância. Ela confere à obra um caráter quase cultual.

Com a fotografia, o cinema e as técnicas de reprodução em massa, a aura declina. A obra perde sua autenticidade ritual e torna-se reprodutível infinitamente. Essa perda tem consequências ambivalentes: por um lado, democratiza o acesso à arte e permite uma recepção coletiva e distraída; por outro, abre caminho para a estetização da política pelo fascismo (que transforma a vida em espetáculo). Benjamin, porém, via potencial revolucionário na arte de massa: ela poderia fomentar uma percepção politizada, capaz de despertar o espectador para a transformação social, em vez de mantê-lo na contemplação passiva.

2.5- Experiência em crise: Erlebnis versus Erfahrung

Benjamin diagnosticou uma “crise da experiência” na contemporaneidade. Ele distinguia Erlebnis (experiência vivida, imediata, fragmentária e chocante, típica da vida urbana moderna, do jornalismo e do cinema) de Erfahrung (experiência acumulada, narrável, transmitida pela tradição e pela memória coletiva).

Na contemporaneidade, o choque constante impede a integração das vivências em uma Erfahrung significativa. A narração oral perde espaço para a informação fragmentada. Benjamin via nessa perda não apenas um empobrecimento, mas também a possibilidade de novas formas de percepção, como, por exemplo, a “iluminação profana” do surrealismo ou a montagem cinematográfica.

2.6- O projeto das Passagens e a imagem dialética

O “Passagen-Werk” (Trabalho das Passagens), projeto inacabado ao qual Benjamin dedicou mais de uma década, representa a ambição máxima de seu método. Nele, ele coleta milhares de citações, fragmentos e reflexões sobre as galerias parisienses do século XIX, que hoje em dia podemos ver como precursoras dos shopping centers, espaços de consumo, sonho coletivo e mercantilização da vida.

Benjamin não escreve uma história linear, mas constrói “imagens dialéticas”: constelações em que o passado e o presente se encontram em um “agora de reconhecibilidade”. Nessas imagens, podemos entender conjuntamente com o autor que o sonho da mercadoria (a “fantasmagoria” do capitalismo) é despertado e potencialmente rompido. O método é alegórico e montado: o historiador age como um trapeiro (em alemão: Lumpensammler, catador de trapos/farrapos) ou colecionador, resgatando os detritos da história para revelar seu potencial revolucionário.

2.7- Conceito de história: messianismo e materialismo

Nas “Teses sobre o conceito de história” (escritas em 1940, publicadas postumamente em 1942), Benjamin realiza uma das sínteses mais poderosas de seu pensamento. Ele critica duramente o historicismo progressista, que vê a história como uma marcha linear rumo ao progresso e que sempre escreve do ponto de vista dos vencedores.

Em oposição, propõe um materialismo histórico temperado por uma concepção messiânica. A história não é um continuum vazio, mas uma série de catástrofes. O famoso “anjo da história” (inspirado no quadro Angelus Novus, de Paul Klee) olha para o passado e vê um único monte de ruínas, enquanto o “progresso” o empurra para o futuro. O anjo gostaria de parar, despertar os mortos e recompor o que foi destruído, mas a tempestade do paraíso (chamada “progresso”) o impede.

Contra isso, Benjamin defende a rememoração (Eingedenken) como ato revolucionário. Cada geração carrega uma “fraca força messiânica”: o poder de redimir, no presente, o passado oprimido. A revolução não é o avanço teleológico, mas um “salto do tigre” (em alemão: Tigersprung) que interrompe o tempo homogêneo e faz explodir o continuum da história. O materialismo histórico, assim entendido, deve “escovar a história a contrapelo”, resgatando os vencidos e transformando o agora em porta de entrada para a redenção.

Podemos ter este salto do tigre dado pela moda ou pela dialética da revolução comunista. Quando dado pela moda trata-se de algo controlado, em verdade, um exemplo negativo deste salto. A moda se direciona para o que é atual. Ela “salta” para o passado (como um tigre que pula sobre a presa) e pega qualquer elemento antigo que possa ser usado para parecer novo e moderno no presente. Porém, esse salto acontece dentro da arena controlada pela classe dominante. É um salto que serve ao poder vigente, ele não rompe nada, apenas recicla o passado para reforçar a ordem atual. O verdadeiro salto é o dialético da revolução. Benjamin diz que o mesmo salto, quando feito “no ar livre da história” (ou seja, fora do controle das classes dominantes), torna-se dialético, é assim que Marx entendia a revolução. Esse salto revolucionário não é um avanço linear e progressivo no tempo (o que Benjamin critica como “tempo homogêneo e vazio”). Em vez disso, é um salto brusco, violento e criativo que: “Explode” o continuum da história, rompendo com a ideia de que a história é uma linha reta e inevitável de progresso; puxa o passado para dentro do presente de forma explosiva; carrega o passado oprimido com “agora” (Jetztzeit), que é um tempo saturado de possibilidades revolucionárias; permite que o presente “cite” o passado (como a Revolução Francesa citava a Roma antiga) não para repetir, mas para redimi-lo e interromper a catástrofe contínua. O “salto do tigre” é uma imagem de ação súbita e poderosa que arranca um fragmento do passado e o faz explodir no presente, criando uma interrupção revolucionária. Não é evolução lenta, mas um pulo feroz que faz “o continuum da história explodir”, abrindo espaço para a redenção dos vencidos e para a justiça no “agora”.

Essas ideias propostas por Walter Benjamin não formam um sistema harmônico. Benjamin mantinha em tensão permanente o materialismo e a teologia, o marxismo e o messianismo, a crítica cultural e a esperança revolucionária. Sua força reside exatamente nessa multiplicidade: ele pensava por imagens, fragmentos e constelações, buscando salvar o que a história ameaça esquecer. Em tempos de catástrofe (como os que viveu e como os que ainda vivemos segundo uma interpretação plausível do pensamento do autor), seu pensamento continua oferecendo ferramentas para despertar do sonho da mercadoria e para enxergar, no monte de ruínas do passado, a possibilidade de justiça.

 

3- Palavras finais

 

O pensamento de Walter Benjamin permanece como uma das mais instigantes e desafiadoras tentativas de compreender a condição do humano na contemporaneidade. Recusando os sistemas fechados e as explicações simplificadoras, Benjamin nos oferece uma filosofia construída por fragmentos, imagens e tensões, na qual história, linguagem, arte e política se entrelaçam de forma inseparável.

A crítica de Benjamin ao progresso linear e ao historicismo dominante nos obriga a reconsiderar a própria ideia de tempo histórico. Ao insistir que cada geração carrega consigo a responsabilidade diante dos vencidos do passado, Benjamin desloca o eixo da reflexão histórica: não se trata apenas de conhecer o passado, mas de resgatá-lo, de redimi-lo no presente. A história deixa de ser um relato dos vencedores e passa a ser um campo de disputa, onde memória e esquecimento possuem consequências éticas e políticas profundas.

Ao mesmo tempo, sua análise da reprodutibilidade técnica e da perda da aura revela as transformações radicais da experiência estética e da percepção humana em um mundo marcado pela técnica e pela massificação. Longe de uma simples nostalgia, Benjamin identifica nessas mudanças tanto riscos quanto possibilidades: se por um lado a técnica pode ser instrumentalizada pela dominação, por outro, ela pode abrir caminhos para novas formas de consciência e ação coletiva.

A tensão permanente entre materialismo histórico e messianismo, longe de ser uma fraqueza, constitui o núcleo vital de seu pensamento. É justamente nessa tensão que se encontra a possibilidade de ruptura com a ordem estabelecida, não como continuidade do progresso, mas como interrupção crítica do curso da história. A revolução, nesse sentido, não é avanço gradual, mas gesto decisivo que rompe com o tempo homogêneo e resgata o passado oprimido.

Em um mundo que ainda se apresenta como um acúmulo de ruínas (marcado por crises, desigualdades e ilusões de progresso), o pensamento de Benjamin permanece atual e necessário. Ele nos convida a despertar do conformismo histórico, a desconfiar das narrativas dominantes e a reconhecer, no presente, as possibilidades ainda abertas de transformação. Pensar com Benjamin é, em última instância, recusar a passividade diante da história e assumir a responsabilidade crítica pelo tempo em que se vive.

 

4- Algumas das principais obras de Walter Benjamin

 

1- Zur Kritik der Gewalt. Título traduzido para o português: Crítica da Violência (ou Para a Crítica da Violência). Ano da primeira publicação: 1921.

Neste ensaio pioneiro, Benjamin realiza uma análise radical do conceito de violência no âmbito do direito e do Estado. Ele distingue a violência mítica (fundadora e conservadora de ordens jurídicas baseadas na culpa e no poder) da violência divina ou pura (que rompe com o ciclo mítico e instaura justiça sem mediações). O texto questiona a legitimidade intrínseca do monopólio estatal da violência e abre caminho para uma crítica ética e política que influenciou profundamente debates sobre direito, soberania e revolução no século XX.

2- Die Aufgabe des Übersetzers. Título traduzido para o português: A Tarefa do Tradutor. Ano da primeira publicação: 1923.

Escrito como prefácio à tradução de poemas de Baudelaire, o ensaio propõe uma teoria revolucionária da tradução. Benjamin rejeita a ideia de mera transferência de sentido e defende que a tradução deve buscar o “puro idioma” subjacente a todas as línguas — uma forma de parentesco entre elas que se revela pela literalidade e pela fidelidade ao original. Longe de ser um ato secundário, a tradução enriquece a própria língua do tradutor e permite que a obra sobreviva e se transforme ao longo do tempo.

3- Ursprung des deutschen Trauerspiels. Título traduzido para o português: Origem do drama trágico alemão (também conhecido como Origem do drama barroco alemão). Ano da primeira publicação: 1928.

Baseado em sua tese de livre-docência, o livro examina o drama barroco alemão do século XVII (Trauerspiel) como forma distinta da tragédia clássica. Benjamin desenvolve uma teoria da alegoria como modo de representação da história marcada pela melancolia, pela soberania falida e pela visão do mundo como ruína. O texto é ao mesmo tempo uma análise literária profunda e uma reflexão filosófica sobre o tempo, a culpa e a modernidade, influenciando fortemente a teoria da alegoria e da crítica cultural.

4- Einbahnstraße. Título traduzido para o português: Rua de Mão Única. Ano da primeira publicação: 1928.

Obra fragmentária e experimental, composta por aforismos, reflexões curtas, imagens de pensamento e observações urbanas, o livro marca a passagem de Benjamin para um estilo mais literário e político. Misturando crítica cultural, filosofia e impressões de viagem (dedicado a Asja Lacis), ele critica a burguesia, o progresso ilusório e a mercantilização da vida, ao mesmo tempo em que explora temas como a infância, a técnica e a revolução. Seu formato de “rua de mão única” antecipa o método de montagem que Benjamin desenvolveria depois.

5- Kleine Geschichte der Photographie. Título traduzido para o português: Pequena história da fotografia. Ano da primeira publicação: 1931.

Publicado originalmente em três partes na revista Die literarische Welt, este ensaio representa um passo decisivo no desenvolvimento do pensamento benjaminiano sobre a técnica e a arte. Nele, Benjamin analisa o surgimento e a evolução da fotografia desde seus pioneiros (Daguerre, Nadar, Atget) até sua consolidação como medium de massa. É aqui que o conceito de aura aparece de forma ainda embrionária, associado à presença singular e ao "aqui e agora" da imagem fotográfica primitiva, em contraste com a reprodutibilidade crescente que caracterizaria a fotografia comercial e jornalística. O ensaio antecipa diretamente as teses desenvolvidas cinco anos depois em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” e constitui leitura indispensável para compreender a gênese daquele que seria um dos conceitos mais influentes de Benjamin.

6- Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit. Título traduzido para o português: A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica. Ano da primeira publicação: 1936.

Um dos ensaios mais célebres de Benjamin, o texto investiga como a reprodutibilidade técnica (fotografia, cinema, gravação) transforma radicalmente a obra de arte. Ele introduz o conceito de “aura” — a singularidade e distância cultual da obra única — e mostra como sua perda abre caminho para uma recepção coletiva, distraída e politizada. Benjamin analisa as implicações estéticas, sociais e políticas dessa mudança, defendendo o potencial revolucionário da arte de massa contra a estetização fascista da política.

7- Der Erzähler. Betrachtungen zum Werk Nikolai Lesskows (Leskov em português). Título traduzido para o português: O Narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. Ano da primeira publicação: 1936.

Publicado no mesmo ano que “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, este ensaio é complementar àquele e igualmente fundamental. Partindo da obra do escritor russo Nikolai Leskov (1831-1895), Benjamin desenvolve uma reflexão profunda sobre a crise da narrativa e da experiência na contemporaneidade. Ele distingue a narração oral tradicional (forma de transmissão coletiva da experiência acumulada, Erfahrung, sedimentada pelo tempo e pela sabedoria prática) da informação jornalística, fragmentária, imediata e descartável, típica da modernidade. O narrador tradicional, seja o camponês sedentário ou o marinheiro viajante, transmite experiência vivida que carrega conselho, sentido e memória coletiva. Com a ascensão do romance e, sobretudo, do jornalismo e da informação de massa, essa forma de narração entra em declínio irreversível. O ensaio articula-se diretamente com a distinção benjaminiana entre Erfahrung e Erlebnis e com sua crítica mais ampla ao empobrecimento da experiência humana na contemporaneidade.

8- Über den Begriff der Geschichte. Título traduzido para o português: Sobre o conceito de história (ou Teses sobre o conceito de história). Ano da primeira publicação: 1942 (Escrita na primavera de 1940 e publicada postumamente).

Composto por 18 teses e mais dois apêndices (algumas edições os numeram como teses A e B e aí passamos a ter 20 e não 18 teses), este texto tardio é uma das sínteses mais poderosas do pensamento benjaminiano. Critica o historicismo progressista e linear, propondo em seu lugar uma concepção materialista e messiânica da história. Com a famosa imagem do “anjo da história” (inspirada em Paul Klee), Benjamin defende a rememoração do passado oprimido como ato revolucionário no presente. As teses articulam teologia, marxismo e messianismo judaico para pensar a redenção possível em tempos de catástrofe.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

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