Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Marcel Mauss: a Dádiva, o Fato Social Total e as Raízes da Antropologia Francesa

 

Le corps est le premier et le plus naturel instrument de l'homme.

O corpo é o principal e mais importante instrumento natural do homem.

Marcel Mauss, Les techniques du corps (1934), comunicação apresentada à Société de Psychologie em 17 de maio de 1934; publicada em Journal de Psychologie, 1936, e posteriormente em Sociologie et anthropologie.

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Marcel Mauss

 

Há pensadores que constroem sistemas; há outros que constroem olhares. Marcel Mauss pertence à segunda espécie. Sobrinho e discípulo de Émile Durkheim, viveu à sombra de um mestre que também foi tio, herdou dele o rigor do fato social, mas recusou-se a fechá-lo em fórmulas definitivas. Preferiu os ensaios densos, os problemas concretos, o material etnográfico deixado falar por si, e, exatamente por isso, tornou-se um dos pensadores mais férteis e mais citados das ciências sociais do século XX.

Marcel Mauss foi um dos mais importantes pensadores da sociologia e da antropologia francesa do século XX, embora sua obra permaneça menos conhecida do grande público do que a de seu tio e mestre intelectual, Émile Durkheim. Mas quem foi Marcel Mauss e por que seu pensamento continua sendo tão importante para compreender a sociedade, a cultura e o próprio humano?

Sob a influência de Durkheim, Mauss participou da formação da sociologia francesa e dedicou-se ao estudo das religiões, da magia, das formas de classificação, da troca, do corpo e da noção de pessoa. Entretanto, sua contribuição ultrapassou a simples continuidade do pensamento durkheimiano. Ao investigar fenômenos aparentemente cotidianos (como dar um presente, receber uma dádiva, retribuir um favor, utilizar o corpo ou assumir uma determinada posição social). Mauss mostrou que por trás desses atos existem relações econômicas, jurídicas, morais, religiosas, políticas e simbólicas profundamente interligadas.

É sobretudo por meio de conceitos como “fato social total”, “dádiva”, “prestação”, “reciprocidade”, “técnicas do corpo” e “noção de pessoa”, que Marcel Mauss desenvolveu uma maneira original de compreender a vida social. Para ele, não podemos compreender adequadamente o humano isolando a economia da moral, o corpo da sociedade ou o indivíduo das relações coletivas.

Este texto percorre a vida de Marcel Mauss, marcada pelo compromisso político, pela devastação de duas guerras mundiais e pela fidelidade a um projeto coletivo de conhecimento. Acompanharemos a vida e o pensamento de Marcel Mauss, sua relação com Émile Durkheim, sua contribuição para a sociologia e a antropologia, suas principais ideias e suas obras mais importantes. E, também, suas ideias centrais: o fato social total, a lógica da dádiva e da prestação, as técnicas do corpo e a construção histórica da noção de pessoa, temas presentes em sua obra e que permanecem fundamentais para compreender não apenas sociedades distantes, mas também aspectos centrais da própria vida social contemporânea. Mais do que um inventário de conceitos, trata-se de compreender por que Marcel Mauss continua importante e atual no contexto contemporâneo.

 

1- Vida

 

Marcel Israël Mauss (1872-1950) nasce em 10 de maio de 1872 em Épinal, Vosges, leste da França, e falece aos 77 anos de idade em Paris, França. Sobrinho de Émile Durkheim (tio materno), de quem sofre influência acadêmica, Mauss é proveniente de uma família judia, mas por volta dos 18 anos de idade deixou as práticas e rituais de sua religião familiar. Seu pai, Gerson Mauss, era comerciante e sua mãe, Rosine Durkheim (irmã de Émile Durkheim), fazia bordados que vendia em uma loja.

O tio, Émile Durkheim, quatorze anos mais velho, não apenas orientou seus primeiros passos intelectuais, mas se tornou a figura central em torno da qual se organizou o projeto coletivo da sociologia francesa. Mauss cresceu num ambiente em que o judaísmo ortodoxo ainda pesava, mas desde cedo se afastou da prática religiosa, sem nunca perder o interesse erudito pelas tradições religiosas em geral.


 

Em vez de seguir o caminho clássico da École Normale Supérieure, Mauss optou, em 1890, por acompanhar o tio na Universidade de Bordeaux. Ali estudou filosofia, ao mesmo tempo em que se aproximava dos círculos socialistas. Em 1894 aderiu ao Parti Ouvrier Français. Em 1895 obteve a agregação em filosofia, classificando-se em terceiro lugar. Em vez de se tornar professor de liceu, como era comum, transferiu-se para Paris e ingressou na École Pratique des Hautes Études. Ali dedicou-se ao estudo das línguas e das religiões: sânscrito, hebraico, história das religiões da Índia e dos povos então chamados “não civilizados”. Entre 1897 e 1898 viajou pela Holanda e pela Inglaterra, onde entrou em contato com a antropologia britânica de Max Müller e James Frazer. Foi nesse período que começou a reunir material para uma tese de doutorado sobre a prece, trabalho que jamais concluirá.

Desde a fundação de L’Année Sociologique, em 1896, Mauss tornou-se um dos colaboradores mais assíduos e disciplinados da revista. Escreveu dezenas de resenhas por ano e participou de trabalhos coletivos que definiram o método da escola. Com Henri Hubert publicou o ensaio sobre o sacrifício (1899) e, depois, o esboço de uma teoria geral da magia. Com o próprio Durkheim elaborou o estudo sobre as formas primitivas de classificação. A colaboração não era apenas intelectual: Mauss internalizou a ética do trabalho em equipe, o “impersonalismo” consciente que o tio defendia, a ideia de que a ciência social se constrói coletivamente e não pela busca individual de originalidade.

No ano de 1901 pela École Pratique des Hautes Études de Paris (Escola Prática de Altos Estudos), foi nomeado para a cátedra de História das religiões dos povos não civilizados. Ali permaneceria durante décadas, formando gerações de pesquisadores. Em 1931 foi eleito o primeiro titular da cátedra de sociologia no Collège de France.

Durante o Caso Dreyfus, ele foi um dreyfusard, defendendo Dreyfus. Aliás, na sua juventude ele não somente atuou politicamente em defesa de Dreyfus, como também em defesa de uma forma de socialismo, mais próxima de Proudhon. Participou do “Groupe des Étudiants Socialistes” e aderiu ao “Parti Ouvrier Français” (POF). Participou também do “Groupe des Étudiants Collectivistes”, que buscava conjuntamente com o ativismo político refletir sobre como deveria ser o socialismo. Também publicou textos de cunho político e resenhas em diversas revistas e jornais socialistas: “Le Devenir Social”, “Le Mouvement Socialiste”, “Notes Critiques”, “Sciences Sociales”, “Action Socialiste” e no jornal “L’Humanité”.

Sua vida política acompanhou a vida acadêmica. Foi dreyfusard ativo, colaborou com jornais socialistas e, em 1904, participou da fundação de L’Humanité. Nunca abandonou o engajamento cooperativista e socialista democrático, embora se mantivesse crítico em relação ao bolchevismo após a Revolução Russa.

Entre 1914 e 1919 serviu no exército como oficial-intérprete no transcurso da primeira guerra mundial. Mauss se alistou voluntariamente e serviu junto a tropas britânicas e australianas, inclusive na linha de frente, período este de sua vida que ele gostou bastante, se identificando com o trabalho. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi crucial no desenvolvimento de Marcel Mauss, pois, ao término da mesma, muitos de seus amigos e colaboradores haviam falecido, inclusive o seu tio, Émile Durkheim. Entre os que faleceram se encontravam os principais representantes da Escola Durkheimiana, inclusive o sucessor e filho de Durkheim, André Durkheim. Mauss, desmobilizado do exército em 1919, viu-se na posição de herdeiro e guardião de uma escola quase destruída. Coube-lhe relançar a revista, publicar os trabalhos inacabados do tio e manter viva a tradição.

Para dar prosseguimento ao trabalho de seu tio, Mauss assume a direção da revista por ele criada, L’Année Sociologique (fundada em 1896 e com período de publicação efetiva 1898-1913), buscando dar prosseguimento e reconstruir a Escola Sociológica Francesa criada por seu tio, lançando em 1925 o primeiro tomo da segunda série desta revista.

Nos anos 1920 sua atividade se intensificou. Em 1925 publicou o Essai sur le don no primeiro número da nova série de L’Année Sociologique. Atuou como sociólogo e antropólogo e é conhecido como sendo o pai da etnografia francesa, pois, teve papel decisivo na institucionalização da etnologia francesa e na formação de sua primeira geração de pesquisadores de campo, mesmo ele próprio não sendo um pesquisador de campo.

Seguindo pelo caminho já trilhado por Durkheim, funda algumas instituições para a realização de pesquisas, visando preservar o legado de seu tio: l'Institut Français de Sociologie (1924) e o l'Institut d'Ethnologie, em 1925, com Lucien Lévy-Bruhl e Paul Rivet. Além da Sociologia presente nos trabalhos de Durkheim, tais instituições tiveram o papel de ajudar no desenvolvimento da antropologia por meio do estímulo de trabalho de campo feito por jovens acadêmicos. No Instituto de Etnologia ministrou, durante anos, as “instruções de etnografia descritiva” que mais tarde dariam origem ao Manuel d’ethnographie. Formou a primeira geração de etnólogos de campo franceses e contribuiu decisivamente para institucionalizar a disciplina na França.

Em 1931, após três tentativas, chegou a cadeira de Sociologia do Collège de France (foi eleito no final de novembro de 1930 e nomeado professor titular em 3 de fevereiro de 1931), a primeira dessa disciplina na instituição, ele tinha então 59 anos de idade quando chegou ao Collège de France.

Marcel Mauss viveu uma vida de solteiro por boa parte de sua existência, mas então com 62 anos de idade, se casa. Sua esposa, segundo alguns relatos biográficos, anteriormente atuava como sua secretária. Em 1934 casou-se com Marthe Rose Dupret. O casamento foi breve e marcado por dificuldades; a esposa adoeceu gravemente pouco depois. Infelizmente, pouco tempo após o matrimônio, ela sofreu uma grave intoxicação por gás que a deixou inválida e acamada de forma permanente. Mauss cuidou de sua esposa em Paris até o falecimento dela em 1947. O casal não teve filhos.

A Segunda Guerra Mundial trouxe novos sofrimentos. Em 1940, então com 68 anos de idade, com a ocupação da França pelos alemães nazistas e por sua condição de judeu e socialista, teve de mudar de residência, perdeu seus cargos acadêmicos, foi obrigado a se aposentar em 1940 e também perdeu seu apartamento devido às leis antissemitas do regime de Vichy, mas mesmo assim, e correndo riscos a sua integridade física, continuou vivendo em Paris, idoso, doente e com a esposa enferma. Mauss foi reintegrado no Collège de France em 1944 e nomeado professor honorário em 1945. A ocupação, a perseguição e o isolamento intelectual o atingiram profundamente. Nos últimos anos de vida, embora ainda respeitado, viveu um período de retraimento e declínio. Faleceu em Paris em 10 de fevereiro de 1950 (algumas fontes registram 11 de fevereiro), aos 77 anos.

Apesar de seu trabalho como etnólogo, nunca fez trabalho de campo e ele próprio se considerava um “etnólogo de museu”. Todo o seu trabalho baseado em Antropologia se dá a partir das leituras de outros pesquisadores, em particular britânicos, em suas pesquisas de campo. Ele trabalhou com materiais etnográficos, históricos, linguísticos, relatos, documentos etc. Mauss não é um autor de livros e sim de artigos, os quais escreveu abundantemente e sobre os mais diversos temas.

A vida de Mauss não foi a de um teórico de gabinete isolado. Foi a de um homem que conjugou erudição filológica, engajamento político, trabalho coletivo e formação de instituições. Nunca fez trabalho de campo no sentido clássico, mas transformou a etnografia em disciplina científica na França. Carregou sobre os ombros a herança de Durkheim e, ao mesmo tempo, abriu caminhos próprios (o fato social total, a dádiva, as técnicas do corpo, a noção de pessoa) que permitiram à antropologia francesa se constituir como tradição autônoma. Sua biografia é, em grande medida, a biografia da passagem da sociologia durkheimiana para a antropologia social contemporânea.

 

2- Ideias

 

Segundo o pensamento de Marcel Mauss, a Sociologia é distinta da Psicologia, tendo como objeto de estudos as representações coletivas, enquanto a psicologia trataria das representações individuais. As representações coletivas possuem um caráter autônomo e inconsciente diante do indivíduo que as possui. Partindo da distinção durkheimiana entre fenômenos sociais e individuais, Mauss procura compreender como os fenômenos sociais se articulam com dimensões psicológicas e fisiológicas. Mauss valorizava muito os dados empíricos, dando bastante destaque aos fatos.

Mauss entendia que o trabalho desenvolvido pela sociologia deve se basear em fatos sociais concretos. Outra característica importante da Sociologia (e antropologia / etnografia) é que esta se dá necessariamente de modo coletivo, pois, são necessários diversos trabalhos para se poder atuar comparativamente. Ora, não é possível a um pesquisador somente realizar todos os trabalhos de pesquisa que seriam necessários para desenvolver sistematicamente uma metodologia comparativa entre eles. Somente uma grande quantidade de material de pesquisa empreendido por diferentes especialistas irá permitir que fatos observáveis em diversas sociedades possam ser adequadamente comparados. Ele entende que as teorias elaboradas devem se alicerçar em fatos e os modelos resultantes em um trabalho comparativo entre os diversos estudos, só sendo possível obter um vasto material empírico congregando diversos pesquisadores, cada qual em sua respectiva especialidade.

A obra de Marcel Mauss não se organiza como um sistema fechado e dedutivo. Diferentemente de Durkheim, que buscou construir uma arquitetura teórica geral, Mauss trabalhou por ensaios densos, por problemas concretos e por deslocamentos sucessivos. Suas ideias nascem da confrontação com materiais etnográficos e históricos, e só gradualmente revelam uma visão coerente do social. Essa visão se articula em torno de alguns eixos fundamentais: o caráter total dos fatos sociais, a lógica da dádiva, a força das representações coletivas, as técnicas do corpo e a construção histórica da pessoa.

O ponto de partida é a herança durkheimiana. Mauss aceita que os fatos sociais possuem existência própria, exterioridade e força coercitiva. Mas logo aprofunda e transforma essa noção. Em lugar de tratar o fato social como coisa isolada, ele passa a insistir em sua totalidade. O “fato social total” é aquele que mobiliza, de uma só vez, múltiplas dimensões da vida coletiva: econômica, jurídica, religiosa, moral, estética, política e mesmo corporal. Não se trata apenas de um fato que atravessa várias instituições, mas de um fenômeno cuja compreensão exige que se veja a sociedade em movimento, como um todo vivo. O conceito de “fato social total" não significa simplesmente "possuir muitos aspectos". Significa que determinado fenômeno mobiliza e expressa simultaneamente diferentes dimensões da vida social, permitindo apreender a sociedade em sua articulação. Essa noção, anunciada com maior clareza no Ensaio sobre a dádiva, torna-se o fio condutor de grande parte de sua reflexão madura.

Antes de chegar à dádiva propriamente dita, é preciso deter-se na noção de "prestação", central ao vocabulário maussiano e nem sempre explicitada nas exposições correntes de sua obra. Mauss não fala de simples trocas ou presentes isolados, mas de um sistema de prestações totais e de respostas recíprocas: cada dádiva compromete não apenas objetos, mas pessoas, grupos e gerações inteiras, numa cadeia de obrigações que se estende no tempo. A prestação é 'total' porque mobiliza, ao mesmo tempo, a economia, o direito, a moral, a religião, a estética e o parentesco; e, quando envolve uma contraprestação, esta não constitui um simples pagamento, mas uma resposta socialmente esperada, cada dádiva pressupõe, mais cedo ou mais tarde, uma resposta equivalente ou superior, capaz de prolongar ou transformar a relação entre os envolvidos.

Nesse sistema, a honra e o prestígio de quem dá dependem diretamente da generosidade e da regularidade da prestação: recusar-se a dar, ou tardar em retribuir, fragiliza o vínculo social e pode configurar, conforme o contexto, uma afronta entre os grupos envolvidos. A aliança entre clãs, famílias ou tribos nasce e se renova por meio dessas prestações recíprocas — casamentos, festas, trocas cerimoniais —, ao passo que a rivalidade, sobretudo nas formas mais agonísticas (competitivas) como o potlatch (exemplo clássico de antagonismo e rivalidade convertidos em rituais de troca), transforma a própria generosidade em instrumento de disputa: dar mais do que se recebeu é também uma forma de vencer o adversário pela dívida que ele não consegue saldar. É dentro dessa estrutura de prestações e contraprestações — tecida por obrigação, honra, aliança, rivalidade e reciprocidade — que a tríplice obrigação de dar, receber e retribuir ganha seu sentido pleno: ela não descreve um gesto isolado de boa vontade, mas o funcionamento de todo um sistema de circulação social.

Importante ressaltar a partir de uma leitura de “Ensaio Sobre a Dádiva: Forma e Razão da Troca nas Sociedades Arcaicas” (1925), a sua noção sobre a “dádiva” e o “intercâmbio”. A “dádiva” ocorre quando algo é dado a outro e, nesta transação, temos presentes diversos elementos, tais como a amizade, o conflito, o interesse, o desinteresse, a obrigação e a liberdade. Pelo “intercâmbio” os grupos sociais trocam aquilo que possuem por aquilo que não possuem, ou seja, cada qual faz uso da parte que possui para obter em troca a que não possui. Esta troca de “metades” presentes e ausentes ocorre em diversos grupos sociais, tais como as “tribos” e tem enorme relevância. Aqui temos a presença das festas, comidas, riquezas e mesmo mulheres e crianças, dentre outros elementos. Quando falamos em “dar” e “receber”, falamos também em competição entre pessoas de prestígio dentro do grupo social, na constituição e também manutenção das relações sociais ali presentes, e isto ocorre em relação a três momentos: “dar”, “receber” e “retribuir”. Estes três momentos carregam em si uma mescla entre por um lado a amizade e por outro o conflito, entre o interesse e o desinteresse, entre a obrigação e a liberdade.

Em 1925, com a publicação do ensaio sobre a dádiva, Mauss defende a dimensão política presente nas trocas em todas as sociedades, entendendo ser um procedimento universal, princípio formal-abstrato e não um fato empírico-concreto, fundamento de toda sociabilidade e comunicação humanas, estando presente em diversas sociedades, sejam estas contemporâneas ou antigas, capitalistas ou não, podendo, no entanto, apresentar nuances próprias a cada sociedade no tocante a sua institucionalização. Segundo o pensamento desenvolvido por Marcel Mauss, o valor das coisas não pode ser superior ao valor da relação. A análise de Mauss permite perceber que, nas relações de dádiva, o valor social da relação frequentemente ultrapassa o valor puramente material do objeto. Outro ponto importante a destacar é que o simbolismo se mostra como sendo fundamental a vida em sociedade.

É no estudo da dádiva que essa perspectiva atinge sua formulação mais potente. Mauss observa, em sociedades da Polinésia, da Melanésia e da costa noroeste da América do Norte, sistemas de troca de presentes que não se reduzem a meras transações econômicas. A dádiva não é um ato livre e desinteressado. Ela implica três obrigações solidárias: a obrigação de dar, a obrigação de receber e a obrigação de retribuir. Quem dá não apenas se desfaz de um objeto; transmite algo de si mesmo. O objeto carrega uma força espiritual (o hau maori, o mana polinésio) que exige retorno. Recusar o presente é recusar a aliança; não retribuir é perder prestígio, honra e, em última instância, a própria posição social. A troca de dádivas, portanto, não é um momento da economia; é o próprio tecido da sociabilidade. Por meio dela se estabelecem e se renovam as relações entre clãs, tribos e grupos. O mercado, quando aparece, é apenas um momento secundário e derivado desse movimento mais amplo de prestações totais.

Essa análise permite a Mauss criticar o utilitarismo e a ideia do homo economicus. O ser humano arcaico e, em larga medida, ainda o contemporâneo, não calcula apenas interesses materiais. Age também por honra, por prestígio, por obrigação moral e por desejo de comunhão. A dádiva revela uma moralidade profunda da troca que as sociedades contemporâneas tendem a esquecer ou a reduzir à esfera do contrato e do direito privado. Mauss sugere que elementos dessa moralidade ainda sobrevivem nas instituições de solidariedade e de proteção social, e que recuperá-los seria um caminho para uma sociedade menos fragmentada.

Paralelamente ao estudo da dádiva, Mauss desenvolve uma teoria das forças coletivas que animam a vida religiosa e mágica. No ensaio sobre o sacrifício, escrito com Henri Hubert (1872-1927), o rito aparece como mecanismo de comunicação entre o sagrado e o profano. No esboço de uma teoria geral da magia, também em colaboração com Hubert, a magia é distinguida da religião não tanto pelo conteúdo quanto pelo modo de operação e pelo caráter mais individual e técnico. O conceito de mana (força impessoal, difusa, ao mesmo tempo material e espiritual) permite compreender como as sociedades arcaicas pensam a eficácia dos ritos, dos objetos e das pessoas. O mana não é uma substância natural; é uma representação coletiva que se objetiva e se torna eficaz.

Outro eixo fundamental de sua reflexão diz respeito ao corpo. Em “As técnicas do corpo”, Mauss formula uma ideia de grande alcance: o corpo humano é o primeiro e mais natural instrumento do ser humano. Antes de qualquer ferramenta externa, há um conjunto de maneiras socialmente aprendidas de usar o próprio corpo (de andar, nadar, dormir, comer, procriar, lutar, dançar). Essas técnicas variam de sociedade para sociedade, de sexo para sexo, de idade para idade. Elas são tradicionais e eficazes; são transmitidas pela educação e pela imitação; e articulam, de modo indissociável, dimensões biológicas, psicológicas e sociais. O “homem total” de Mauss é aquele que só pode ser compreendido na interseção desses três planos. Com essa noção, ele abre o caminho para uma antropologia do corpo e das práticas cotidianas que influenciará decisivamente gerações posteriores.

Ligado a essa preocupação está o ensaio sobre a noção de pessoa. Mauss mostra que a categoria de “pessoa” e de “eu” não é um dado universal e natural. Ela se constrói historicamente. Em muitas sociedades, o indivíduo aparece sobretudo como portador de um personagem social, de um conjunto de papéis e máscaras ritualizadas. A noção que temos hoje de pessoa, com sua ênfase na interioridade psicológica e na responsabilidade individual, é o resultado de um longo processo que passa pelo direito romano, pelo cristianismo e pelo desenvolvimento da filosofia. A pessoa não é apenas um fato psicológico, é uma categoria do espírito humano, uma construção coletiva que organiza a experiência de si e do outro.

Essas ideias se articulam entre si. O fato social total exige que se considere o ser humano em todas as suas dimensões. A dádiva revela a circulação de bens, de prestígio e de pessoas. As técnicas do corpo mostram como o social se inscreve na carne. A noção de pessoa demonstra que até a subjetividade mais íntima é historicamente modelada. Em todos esses casos, Mauss recusa tanto o reducionismo economicista quanto o psicologismo individualista. O social não é um epifenômeno da economia nem um produto da consciência individual, é uma realidade sui generis que se manifesta em prestações, ritos, gestos e categorias mentais.

Sua obra permanece aberta e, em certo sentido, inacabada. Mauss raramente sistematiza até as últimas consequências. Prefere indicar caminhos, sugerir hipóteses e deixar que o material etnográfico fale. Essa incompletude, longe de ser um defeito, é uma das razões de sua fecundidade. Ao recusar tanto o sistema fechado quanto a mera descrição empírica, ele oferece um método de atenção ao concreto que continua a inspirar a antropologia e as ciências sociais.

 

3- Palavras finais

 

Ao final deste percurso, o que fica de Marcel Mauss não é um sistema fechado de conceitos, mas um modo de olhar para a vida social que se recusa a separar o que a contemporaneidade insiste em separar: a economia da moral, o indivíduo do coletivo, o corpo do espírito, o gesto banal do fato de civilização. Foi assim que ele leu a dádiva não como curiosidade etnográfica de povos distantes, mas como espelho crítico das próprias sociedades ocidentais, que se creem regidas pelo cálculo racional e pelo contrato, mas continuam a depender, para se manterem coesas, de gestos de generosidade, obrigação e reciprocidade que a linguagem do mercado não sabe nomear.

Herdeiro de Durkheim e, ao mesmo tempo, autor de um caminho próprio, Mauss deixou uma obra fragmentária na forma, mas unificada no espírito: cada ensaio (sobre o sacrifício, a magia, a dádiva, as técnicas do corpo, a noção de pessoa, etc.) é uma tentativa de flagrar o ser humano total, agindo simultaneamente como corpo, psique e ser social. Essa recusa de reduzir o humano a uma só dimensão é, talvez, seu legado mais duradouro: um convite permanente a pensar a sociedade e o próprio sujeito em sua complexidade indivisível, convite que a antropologia, a sociologia e as ciências humanas em geral ainda não deixaram de responder.

 

4- Algumas das principais obras de Marcel Mauss

 

1- Essai sur la nature et la fonction du sacrifice (com Henri Hubert). Título traduzido para o português: Ensaio sobre a natureza e a função do sacrifício. Data da primeira publicação: 1899 - Publicado em L’Année Sociologique, tomo II (1897-1898), efetivamente 1899.

Análise clássica do sacrifício como rito que estabelece comunicação entre o sagrado e o profano. Hubert e Mauss descrevem a estrutura do sacrifício (entrada no sagrado, imolação, saída), distinguem tipos e mostram sua função social de criar e reforçar vínculos coletivos. Texto fundador da abordagem sociológica dos rituais religiosos.

2- La sociologie: objet et méthode (com Paul Fauconnet). Título traduzido para o português: Sociologia: objeto e método. Artigo publicado na Grande Encyclopédie. Data da primeira publicação: 1901.

Exposição clara e programática do objeto e do método da sociologia durkheimiana, ainda sob forte influência de Durkheim. Define os fatos sociais e a especificidade do olhar sociológico.

3- De quelques formes primitives de classification. Contribution à l’étude des représentations collectives (com Émile Durkheim). Título traduzido para o português: Sobre algumas formas primitivas de classificação. Publicado em L’Année Sociologique. Data da primeira publicação: 1903.

Estudo sobre a origem social das categorias de classificação (espaço, tempo, gêneros etc.). Argumenta que as classificações lógicas têm raiz nas classificações sociais e nas representações coletivas, e não em meras operações mentais individuais.

4- Esquisse d’une théorie générale de la magie (com Henri Hubert). Título traduzido para o português:  Esboço de uma teoria geral da magia. Data da primeira publicação: 1904 (volume de L’Année Sociologique de 1902-1903).

Primeira teoria sociológica sistemática da magia. Distingue magia de religião e de técnica, analisa agentes, ritos e representações mágicas, e introduz a noção de mana como força coletiva impessoal. Texto de grande influência posterior (Evans-Pritchard, Lévi-Strauss etc.).

5- Essai sur les variations saisonnières des sociétés eskimos. Étude de morphologie sociale (com Henri Beuchat). Título traduzido para o português: Ensaio sobre as variações sazonais das sociedades esquimós. Data da primeira publicação: 1906. Publicado em L’Année Sociologique.

Análise de morfologia social: mostra como a densidade e a dispersão demográfica (inverno congregado / verão disperso) determinam profundas transformações na organização social, jurídica e religiosa dos esquimós. Um dos primeiros estudos de ecologia social.

6- Mélanges d’histoire des religions (com Henri Hubert). Título traduzido para o português: Miscelânea de história das religiões. Data da primeira publicação: 1909.

Coletânea que reúne, entre outros, o ensaio sobre o sacrifício, textos sobre a origem dos poderes mágicos e a introdução à análise de alguns fenômenos religiosos. Segunda edição em 1929.

7- La Prière. I. Les origines (espécime / fragmento). Título traduzido para o português: A prece. Data da primeira publicação: 1909.

Início da tese de doutorado que Mauss nunca concluiu. Retirou o texto da impressão. Aborda as origens e as formas da oração como fenômeno social e religioso.

8- Essai sur le don. Forme et raison de l’échange dans les sociétés archaïques. Título traduzido para o português: Ensaio sobre a dádiva (também traduzido como Ensaio sobre o dom). Data da primeira publicação: 1925 (volume de L’Année Sociologique de 1923-1924).

Esta é a obra mais célebre e influente de Mauss, ela analisa sistemas de troca de presentes (kula, potlatch etc.) em sociedades da Polinésia, Melanésia e da costa noroeste da América do Norte. Demonstra que a dádiva não é ato livre e desinteressado, mas implica as três obrigações de dar, receber e retribuir. Introduz o conceito de “fato social total”. Texto fundador dos estudos sobre reciprocidade e troca.

9- Les techniques du corps. Título traduzido para o português: As técnicas do corpo. Data da primeira publicação: 1934 / publicação 1936. Conferência pronunciada em 17 de maio de 1934 perante a Société de Psychologie; publicada no Journal de Psychologie em 1936.

Define as técnicas do corpo como “atos tradicionais eficazes”. O corpo é o primeiro instrumento e o primeiro objeto técnico do ser humano. Classifica técnicas por sexo, idade, rendimento e biografia (do nascimento à morte). Texto seminal para a antropologia do corpo e das técnicas.

10- Une catégorie de l’esprit humain: la notion de personne, celle de « moi ». Título traduzido para o português: Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa, a de “eu”. Data da primeira publicação: 1938. Publicado no Journal of the Royal Anthropological Institute.

História social da categoria de pessoa e de “eu”. Mostra que a noção de pessoa individual não é universal nem natural, mas uma construção histórica e social que se desenvolve de forma distinta em diferentes civilizações.

11- Manuel d’ethnographie. Título traduzido para o português: Manual de etnografia. Data da primeira publicação: 1947. Curso ministrado no Institut d’Ethnologie (a partir de 1926), reunido e publicado por Denise Paulme (com colaboração de Michel Leiris).

Manual prático e teórico de etnografia descritiva. Cobre morfologia social, tecnologia, estética, economia, direito, moral e religião. Ainda hoje útil como guia de observação de campo e como exposição do método maussiano.

12- Sociologie et anthropologie. Título traduzido para o português: Sociologia e antropologia. Data da primeira publicação: 1950 (póstumo).

Coletânea organizada sob a direção de Georges Gurvitch, com a célebre “Introdução à obra de Marcel Mauss” de Claude Lévi-Strauss. Reúne os principais ensaios maduros: o esboço sobre a magia, o Ensaio sobre a dádiva, as técnicas do corpo, a noção de pessoa, as relações entre psicologia e sociologia, o efeito físico da ideia de morte etc. A partir da 3ª edição (1966) inclui também o ensaio sobre as sociedades esquimós. É a edição de referência da obra de Mauss em volume único.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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