Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

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2- Blog 1 “Ser Escritor”: http://www.doutorsilverio.blogspot.com.br

3- Blog 2 “Comportamento Crítico”: http://www.doutorsilverio42.blogspot.com.br

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5- Blog 4 “O grande segredo: A história não contada do Brasil”

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6- Perfil no Face Book “Silvério Oliveira”: https://www.facebook.com/silverio.oliveira.10?ref=tn_tnmn

7- Página no Face Book “Dr. Silvério”: https://www.facebook.com/drsilveriodacostaoliveira

8- Página no Face Book “O grande segredo: A história não contada do Brasil”

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segunda-feira, 30 de março de 2020

A morte



Por: Silvério da Costa Oliveira.

A morte não está em oposição à vida como alguns poderiam pensar e sim ao nascimento. Em verdade são as duas datas mais marcantes para qualquer pessoa, para qualquer ente, seu nascimento e sua morte. A ciência pode seguir o indivíduo para antes de seu nascimento, os nove meses sendo gestado pela mãe, o encontro de um óvulo com um espermatozoide, duas pessoas que se encontram para o ato sexual ou uma inseminação artificial, e por aí vai indefinidamente, no entanto, o indivíduo humano como um todo completo somente após o nascimento e poderíamos mesmo especificar a sua primeira respiração, seu primeiro sopro de vida e irá prosseguir até seu último sopro, mesmo podendo a ciência seguir o sujeito após sua morte, passo a passo do desligamento de cada função, do destino de cada parte de seu corpo, de suas células, de seus átomos. Entre o primeiro sopro ao nascimento e o último antes da morte, o que temos é um intervalo ao qual chamamos de nossa vida, digo nossa porque a vida não para, ela simplesmente prossegue pelas vias mais distintas e por vezes estranhas ao nosso banal conhecimento cotidiano.
No campo da religião e das mais distintas crenças, bem próximas à irracionalidade e bem longe da razão, a morte é vista como uma porta que dá acesso a uma outra vida, a uma outra realidade. Mas não é o caso aqui, neste artigo, pois, nosso intento é abordar somente a morte e não o que possa vir antes ou depois da mesma. Neste sentido, a morte é o fim da vida e deste nosso artigo.

É diante da finitude da vida, de um sopro ao outro, que nossa civilização e história se desenvolveu e ainda se desenvolve. Se talvez não caiba falar em religião sem morte, não cabe falar em filosofia não estando diante da finitude da vida. É a morte que traz finitude a nossa existência individual, histórica e temporal. Pela reflexão presente da morte temos certeza do quanto as menores coisas que fazemos ou deixamos de fazer são importantes, porque únicas no tempo e espaço, irrepetíveis em essência. Dor e prazer, coisas mundanas ou excepcionais, metas ou descaso, amor ou ódio, seja lá o que for que sinta ou pense, isto e tudo o mais te faz vivo hoje e somente por um breve período de tempo pelo prisma do universo, do cosmos, do grande tempo não medido.
A morte é um termo que vem a significar o cessamento de toda atividade biológica de um dado organismo, a matéria, no entanto, persiste e a vida tenderá a se apresentar em outras formas após o falecimento de um ente biológico. Por vezes, a expressão também é usada de modo metafórico para representar o fim definitivo de algo não biológico, como uma empresa, um projeto ou mesmo um sonho a ser realizado. De qualquer modo, sempre representando um fim em si mesmo, mesmo que se possa acreditar que dali em diante haverá algum tipo de prosseguimento, por meio de alguma forma de transformação ou mutação ou persistência de uma essência básica, de uma alma ou espírito imortal.
Com a morte segue-se um problema para os que restam vivos, que é o que fazer com o corpo, os restos mortais. A isto foram culturalmente dadas algumas respostas que muitas vezes são adotadas sem maiores questionamentos pelas pessoas dentro de uma dada cultura e sociedade. Os restos podem ser cremados, enterrados abaixo ou acima da terra, mumificados, congelados (criogenia), devorados, etc. Temos o registro de culturas que guardam consigo os restos dos mortos pelo poder que os mesmos poderiam ter, seja no formato de uma múmia ou de ossos limpos da pele. Também temos aqui a presença das diversas religiões tentando explicar o que ocorre com a consciência daquele que morreu, pois, seu corpo continua ali, mas falta-lhe algo que antes lhe dava a vida e o fazia alguém único dentro da comunidade.
Uma decisão individual e particular sim, mas infelizmente nem sempre possível de ser concretizada, pois, pode ocorrer de querermos congelar nosso corpo na esperança de um dia a medicina ser capaz de nos reviver ou querermos mumificar para preservar pelo maior tempo possível, mas faltar-nos recursos financeiros para custear tal empreitada ou mesmo conhecimentos tecnológicos adequados para um processo eficaz. A história registra importantes líderes que foram mumificados e, no entanto, seus corpos entraram rapidamente em um processo de forte deterioração e decomposição por falhas técnicas no processo empregado.
A decisão sobre o que fazer com o corpo, no entanto, deveria ser pensada e decidida ainda em vida pela própria pessoa ao qual o corpo pertence e ser comunicada oralmente e por escrito via testamento para que não houvesse dúvidas sobre seu desejo. Poderia muito bem esta pessoa entender que gostaria que todos os seus órgãos fossem doados para quem deles precisasse, em vez de deixar que a morte a tudo levasse consigo. Como disse antes, há vários destinos possíveis para com o corpo após a morte. Você prefere ter seu corpo cremado ou devorado por vermes? Ir para a cova completo ou doar todas as partes que puder de seu corpo para que outras pessoas possam em suas vidas fazer uso das mesmas na qualidade e tempo que possam ter em suas vidas?
Neste tocante chega-nos algo preocupante se queremos decidir o que de fato faremos com este corpo após nossa morte, que é justamente saber quando de fato estamos mortos. A determinação da morte de alguém ainda é algo delicado e sujeito a controvérsias. Ainda há bem pouco tempo em nossa história era comum dar-se alguém como morto após parada dos batimentos cardíacos e da respiração, posteriormente com o advento de novas tecnologias passou a ser possível trazer de volta o paciente após uma parada cardiorrespiratória. Ainda em passado recente tivemos pessoas dadas como mortas que durante algum processo pós morte (embalsamamento, retirada de órgãos, algum tipo de estudo clínico no corpo, etc.) constatou-se ainda estarem vivas. Claro, não criemos pânico de modo desnecessário, hoje há todo um procedimento clínico específico para que a morte de alguém seja atestada e confirmada, pelo menos dentro de padrões possíveis.
Claro está que temos um corpo e uma consciência de estarmos neste mundo e conjuntamente com esta consciência podemos também falar em uma personalidade, bem como em uma sequência de coisas aprendidas e memorizadas. Outros animais não possuem uma consciência elaborada de si próprios, mas há evidências nítidas de uma memória, de comportamento aprendido e de uma personalidade que o diferencia de outros animais de sua própria espécie.
Poderia algo persistir após a morte? As religiões abraâmicas acreditam em uma ressuscitação do corpo e espírito em um momento futuro. As religiões espíritas e orientais tendem a acreditar na reencarnação do espírito em outros corpos. Alguns campos específicos da ciência entendem ser este o fim de tudo, indo ao esquecimento, ao término, a inexistência daquela consciência e a transformação da matéria daquele corpo em seus elementos mais básicos. A razão não proporciona elemento algum que corrobore que a consciência do indivíduo possa persistir a sua morte, que possa haver uma alma ou espírito imortal ou que possa haver algum tipo de ressurreição da carne ou reencarnação do espírito para viver outras vidas neste ou em outro mundo. Somente pela fé (crença irracional) podemos acreditar ser possível a permanência da vida tal qual a conhecemos após a nossa morte.
Havendo ou não outra vida, outra chance, tudo o que sabemos com exata certeza é que vivemos enquanto estamos vivos e que temos uma e somente uma única vida para ser por nós vivida e que por tanto, deve ser bem vivida e por via das dúvidas, havendo ou não outras vidas, a atitude mais sábia a tomar é viver agora a vida que lhe foi dada e que pode, por tudo o que sabemos, bem ser sua única vida tal como você é, pois, mesmo que seus elementos básicos persistam na formação da vida, você não mais existirá para todo o sempre.
Pensando nisto e buscando a imortalidade, mesmo que temporária, buscaram-se formas de manter vivo aquilo em que o indivíduo consistia, sabia e simbolizava. Sociedades tentaram preservar o corpo mumificando-o ou guardando seus ossos. Se tornou comum a frase que pregava plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro, tentando por este modo deixar sua memória por mais tempo do que a vida daqueles que nos conheceram pessoalmente e que um dia também irão morrer e com eles as memórias que tinham de nós, nos levando para o inexorável esquecimento.
Eu posso não querer morrer, mas ao nascer, o número máximo de meus dias entre os vivos já está contado, como uma sentença dada após o julgamento de meu nascimento. Outros animais, no entanto, não possuem esta consciência que nos permite saber que iremos também morrer. Um cão e um gato vivem felizes sua vida, pois para eles é eterno o momento presente, não havendo o conhecimento de que um dia não mais estarão aqui, não mais beberão seu leite, sua água ou comerão o que mais gostam. Sua vida é o momento presente e a presença de outros animais ou pessoas de que realmente gostem é o que importa e é demonstrado fisicamente pela presença e por vezes por um pedido de carinho e afago.
Temos o medo da morte, mas talvez devêssemos nos atentar para um outro medo que por vezes é ignorado e deveria ser levado a sério, que seria o medo de não viver de modo pleno e feliz, de ser aquele ou aquela que você de fato quis ser, de realizar seus verdadeiros sonhos e não somente os das demais pessoas que nos cercam.
O medo da morte para alguns pode ser o medo pelo julgamento por um deus severo e por penas pesadas a serem cumpridas após a morte, já para outros pode ser o medo pelo desconhecido ou ainda o medo pelo esquecimento, por deixar de ser, de existir para todo o sempre, por não ser mais lembrado, por não fazer mais falta a quem quer que seja e a si próprio. A consciência e a razão nos dizem da inevitabilidade da morte a qual estamos condenados mais cedo ou mais tarde, não podendo fugir ou enganar. E para um ser genuinamente racional, torna-se mais triste na medida em que qualquer crença religiosa poderia lhe ser vista como um modo de se auto enganar, crendo naquilo que de fato não acredita.
De certo modo, a inevitabilidade e por vezes urgência da morte leva o indivíduo a viver mais plenamente sua vida, dando sentido e significado a cada momento restante da mesma. É diante da morte que nos fazemos humanos ao valorizarmos as nossas realizações em vida. Se somos dignos, o somos diante da morte e perante a vida e esta dignidade é fruto do esforço cotidiano pela obtenção daquilo ao qual nos propomos em nossa breve existência humana. É belo, é trágico, é dolorido. Dor dos vivos pelos que se vão. Dor do que está vivo por não viver, desperdiçando sua vida. Dor por quem já morreu e não sabe, continuando vivo somente nas aparências fúteis de uma vida sem objetivos, realizações, prazeres e contentamento.

Silvério da Costa Oliveira.

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.
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sábado, 22 de fevereiro de 2020

Doutor Silvério fala sobre: Ayn Rand (1) Uma filosofia radical e cotidiana

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Ayn Rand é uma importante pensadora do século XX e suas ideias políticas em geral apoiam e corroboram o pensamento de direita, sendo contrário ao comunismo, socialismo e demais ideologias coletivistas. Defende o individualismo, a propriedade privada, o Estado mínimo e não intervencionista, a liberdade, a razão e o egoísmo, entendido aqui como cuidar de seus próprios interesses. Para a autora, o altruísmo é o grande mal (evil) social, aqui entendido como sacrificar seus interesses pelos outros. Entende que a realidade é tal como a percebemos por nossos sentidos e para tal sustenta o princípio de identidade, "A é igual a A". Segundo a autora a necessidade não cria direitos. Defende o ateísmo e é contrária a todas as religiões e ao misticismo, bem como a mistura da política com religião. Defende o direito das mulheres poderem realizar abortamento se assim o desejarem e sem intervenção proibitiva do Estado. Ninguém tem o direito de iniciar o uso da força contra outra pessoa, mas tendo outro começado a agressão, temos o direito de nos defender. Segundo a autora, há somente dois meios de interagir socialmente, de nos relacionarmos com outras pessoas, de negociarmos: Ou o fazemos por meio do uso da razão ou do uso de uma arma, ou seja, pela persuasão ou pela força.
Link para este vídeo no YouTube: https://youtu.be/dtcwKMhG0FA

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Leonardo e Renascimento (1) Os valores e o ideal de homem do Renascimento

Inscreva-se no canal e visite nosso site onde encontrará vídeos, artigos e links para página de compra de todos os livros do autor e muito mais https://doutorsilverio.com Você gostou do vídeo? Ajude-nos a continuar este trabalho. Curta e compartilhe o vídeo. Na Itália dos séculos XIV ao XVI temos o Renascimento e Humanismo onde ocorre uma total transformação social e cultural em todas as áreas do saber humano. Neste período temos Leonardo da Vinci, cuja vida e obra bem ilustra o ideal de homem do Renascimento e seus valores, valores estes que ainda podem ser adotados mesmo em nossa sociedade atual. Link para este vídeo no YouTube: https://youtu.be/pUfNwUSS6yc

sábado, 2 de novembro de 2019

Leonardo, Renascimento e Humanismo


Por: Silvério da Costa Oliveira.

Há vários momentos da história que são interessantes e deveras importantes, para mim, no entanto, um dos que entendo ser bem impactante e mesmo fascinante em sua dinâmica é o Renascimento. Este período que fica localizado entre o final da Idade Média e o início da Moderna, marcante e geograficamente definido e limitado em seu início à região que hoje é ocupada pelo país Itália mas que na época era composto por diversas cidades Estado com autonomia e independência política. Podemos dizer que nesta região isto irá ocorrer entre os séculos XIV e XVI, sendo que para os italianos, quando estes se referem ao período o fazem pela expressão “quatrocento” (século XV) ou “cinquecento” (século XVI). Este processo social surge inicialmente na região que hoje compõe mais especificamente a Toscana, onde destacam-se inicialmente as cidades de Florença e Siena. Com toda certeza, um momento único e irrepetível na história da Itália e do mundo.
Posteriormente, claro está, a influência de tudo que foi gerado nas cidades italianas se espalhou pelo restante da Europa e obteve, inclusive, características próprias originárias do somatório com a cultura dos povos locais e de outras influências presentes em tais novos ambientes.
Não há uma concordância entre os estudiosos sobre o início e o fim do Renascimento, isto em parte também se deve pelo fato de que em outros países teve um início e fim mais tardio quando comparado ao que ocorreu nas cidades italianas, além disto, fica difícil datar um fato que marque em definitivo o início ou fim desta época. Em regra, no entanto, há uma concordância por parte de todos que o século XV é onde se desenrola o principal desta fase histórica, tendo, para muitos, seu auge e também final no decorrer do século XVI. Eu particularmente fico ao lado dos historiadores que entendem que o renascimento ocupa três séculos, tendo começado no século XIV, se desenvolvido durante o século XV e se encerrado, pelo menos em território italiano, no século XVI. Aliás, penso que o termo Renascimento é melhor aplicado quando utilizado para designar o que ocorreu nas cidades italianas, o restante da Europa importou parte do que ali ocorreu, mas a força deste momento histórico esteve tão presente nas cidades italianas que por um momento a língua italiana passou a ser a língua culta internacional, do mesmo modo que hoje o inglês é a língua comercial internacional.
É um momento que gira principalmente em termos de uma elite de artistas patrocinados por mecenas, não se caracterizando como sendo um movimento de base popular, mas claro está que como tudo na vida e na história, não há como algo assim tão expressivo e fabuloso não afetar a todos e fazer com que de algum modo todos dele participem, se não por nele atuarem como principais atores, pelos menos como participantes inclusos no momento de tempo histórico, como observadores participantes e que usufruem em alguma escala do que ali é de fato criado.
Nomes como Verrocchio, Leonardo, Michelangelo e Rafael, dentre outros, marcam em definitivo o gênio individual neste período, em contraste com o momento histórico anterior, onde o indivíduo e sua aptidão artística criativa se esvanecia em meio ao coletivo do qual fazia parte. Se antes o artista não assinava sua obra, agora este a assina e aqui temos o individualismo presente na valorização da pessoa humana no que ela faz de único e que a diferencia das demais pessoas.
Eu entendo que o que podemos aprender e levar desta época histórica para a nossa são os valores. Os valores então adotados no Renascimento seriam importantes mesmo hoje em dia, onde cada sociedade ou grupo social, ou mesmo ao nível individual, possa utilizar de tal balizamento em valores, ambições, metas e desejos, para seu próprio renascimento cultural. Os renascentistas até que não foram muito criativos, apesar de termos grandes contribuições inovadoras neste período, pois, diante de tanta informação nova provinda da antiguidade clássica, tanta coisa nova para aprender e tornar parte da vida e do tempo destas pessoas, pouco sobra para algo novo, já que tudo é novo, diante do dilúvio como encher um copo d’água na bica?
Podemos entender o Renascimento como um movimento histórico-social que marca justamente este renascer cultural amplo e em particular das artes clássicas.
Um período histórico que por vezes é chamado de Renascimento, bem como Renascença ou Renascentismo. Este período nos traz profundas mudanças e transformações em todos os setores da sociedade e da cultura, abrangendo a esfera social, política, econômica, científica, artística, literária, religiosa e filosófica. Nele temos transformações presentes em todos os campos do saber e do viver.
Trata-se de um momento de transição entre de um lado o feudalismo então reinante e do outro o capitalismo que começava a surgir no horizonte social. É o fim da Idade Média com todas as estruturas sociais que a caracterizaram no Ocidente e o surgimento da Idade Moderna. Apesar disto tudo, o termo popularmente ficou mais associado a mudanças profundas ocorridas em campos específicos do saber humano: artes, filosofia e ciências em geral.
Para que possa ficar mais claro e esquemático, entendamos que o Renascimento é um período histórico do Ocidente onde temos presente os seguintes importantes elementos:
Retorno a antiguidade clássica;
Marcado por crise envolvendo o conjunto então reinante de crenças e idéias anteriormente aceitas;
Desenvolvimento do conceito de individualidade;
Conceber o Estado como uma obra de arte;
Descobrimento de novos fatos e idéias;
Ampliação dos limites geográfico e histórico;
Desenvolvimento de novas idéias sobre o mundo e o papel do ser humano;
Confiança na capacidade de adquirir no conhecimento o domínio sobre a natureza;
Ceticismo;
Misticismo;
Exercício da crítica;
Etc.
De fato, trata-se de um momento histórico de transição entre a Idade Média e a Moderna, por conseguinte, apresenta diversas correntes e idéias por vezes conflitivas, não sendo possível apontar uma única direção por onde tal momento histórico seguiu e se pautou.
Cabe lembrar e mesmo afirmar que todo o pensamento dito moderno tem início com o Renascimento italiano.
Os textos clássicos são lidos e estudados não mais com a intenção de acomodá-los à tradição religiosa, e sim numa tentativa de descobrir o que o próprio texto diz e seus significados originais, deste modo, temos também presente o estudo do latim e do grego e uma nova importância dada ao conhecimento destas línguas no seu uso mais correto. Temos aqui neste período uma orientação toda voltada para a antiguidade clássica.
Se antes tínhamos um teocentrismo, onde Deus era entendido como o princípio e fim de todos os demais seres finitos, agora temos o humano no centro de tudo, havendo um afastamento da idéia do teocentrismo e da própria unidade da cristandade, esta ênfase colocada no ser humano, como centro de todos os estudos nos traz o surgimento de um antropocentrismo.
Predomina o naturalismo, onde no meio da liberdade de novas doutrinas e pensamentos então reinantes, temos que não há uma submissão do todo a uma regra transcendente e sim uma busca pela imanência das coisas na natureza. Esta valorização da natureza e da experiência é que irá direcionar vários renascentistas famosos, dentre eles nosso Leonardo, a se dedicarem seriamente ao estudo de anatomia, dissecando cadáveres para estudar como se dá a postura e movimento do corpo a partir de seus músculos, órgãos internos e ossos, proporcionando posições mais reais a obras de arte tais como as esculturas e pinturas de pessoas.
Para os bizantinos em Constantinopla (capital do império bizantino), Deus era o centro e significado de tudo, mas com a queda da cidade (1453) e sua tomada pelos turcos, o polo principal de nossa civilização mudou-se para a Itália e a idéia motriz do pensamento então reinante também mudou, de Deus para o homem. Era o início do humanismo.
Renascimento e humanismo são momentos socioculturais e artísticos heterogêneos. Não há como falar em um único humanismo ou renascimento e sim em uma pluralidade dos mesmos.
Há diversas correntes e formas de apresentação do que venha a ser o humanismo, bem como sua presença na Idade Média, no Renascimento e na Idade Moderna. Há hoje os que veem o humanismo dentro de uma concepção de mundo liberal capitalista e outros que veem o humanismo dentro de uma abordagem marxista. Ou seja, não há um consenso sobre o que seja e o campo abarcado pelo humanismo. Desde o estudo de grego e latim somado a disciplinas provenientes da Antiguidade clássica, até uma maior valorização do ser humano, colocando-o no centro de nossa história, temos abordagens que variam diametralmente de um pensador/estudioso para outro.
A problemática central do humanismo é o homem. O Renascimento e o Humanismo vêm ambos a se caracterizarem como um momento de oposição a escolástica e de confiança na natureza e nas forças do homem, bem como de uma atitude ativa diante da vida. O homem passa a ocupar o centro do mundo.
O Renascimento italiano nos traz uma explosão de novas idéias e saberes, um retorno e redescoberta de autores clássicos da Antiguidade greco-romana, a substituição do transcendental pelo natural, a valorização não do homem meramente especulativo, mas do homem de ação que pela sua atuação se compromete com a mudança real do mundo que o circunda. Há alguns homens que marcaram profundamente esta época histórica e que são excelentes representantes do ideal de homem então buscado, dentre os quais, com certeza, cabe identificar e nomear a Leonardo, que inquestionavelmente muito bem veio a representar pela sua vida e obra o ideal contido neste período histórico-cultural.
Leonardo da Vinci (1452-1519), pintor, escultor, músico, arquiteto, engenheiro, anatomista, físico, matemático, astrônomo, mecânico, cientista, inventor, botânico, poeta, adotou a filosofia natural e é o precursor da aviação, da balística e de outros campos do saber. Sem dúvida alguma um polímata, ou seja, alguém que possui proficiência em vários campos distintos do saber. Leonardo apresenta um conjunto de idéias filosóficas e pode ser visto como um dos precursores da ciência moderna. Ter amplos conhecimentos perpassando diversas e distintas áreas do saber humano também era um dos ideais do homem do Renascimento, daí o fato histórico de Leonardo ser polímata vir a colocá-lo mais ainda em consonância com o espírito então da época.


Leonardo nasceu em 15 de abril de 1452 na região de Toscana, Itália, no vilarejo de Anchiano, pertencente a República de Florença, mas especificamente na comuna(1) de Vinci, no Vale do Arno, donde o “da Vinci”, que segue o seu nome, referência ao lugar de seu nascimento e não a um suposto sobrenome familiar, e faleceu aos 67 anos de idade em 2 de maio de 1519 no Reino de França (Amboise). A época em que viveu e exerceu suas atividades é considerada por alguns estudiosos como sendo o alto renascimento. Trabalhou em Florença, Milão, Veneza, Roma, Bolonha e França, além de ter percorrido outras cidades italianas. Durante boa parte de sua vida trabalhou em Milão (1482-1499) para o então Duque Ludovico Sforza, posteriormente à ocupação francesa saiu para Mântua, Veneza e novamente Florença. Em 1506 retorna a Milão onde é muito bem recebido pelos franceses e onde fica até a saída dos franceses em 1512, receando que algo pudesse lhe acontecer, sai novamente de Milão e segue para Roma, onde fica até 1515. Veio a falecer na França de Francisco I em casa lhe presenteada pelo rei.

Mais conhecido hoje como pintor, cerca de 15 pinturas ainda existem em nossos dias, das quais podemos citar a Mona Lisa, a Dama com Arminho, La Belle Ferronière, Retrato de um Músico, a Última Ceia e a Virgem dos Rochedos. Cabe destaque também ao famoso desenho: O Homem Vitruviano. Nos seus cadernos de anotações temos desenhos, diagramas, pensamentos. Deixou-nos mais de 13 mil páginas escritas que hoje estão divididas formando diversos códex (livros).
Há hoje uma certa polêmica com relação a sexualidade de Leonardo(2), no entanto, um homem com tantos interesses e tão diversos, uma multiplicidade de interesses distintos, tornando-o conhecido em diversas áreas do saber que nos permitem usar sem receio o termo “gênio” para descrevê-lo, que com autorização dos governantes locais passava noites e madrugadas acompanhado de cadáveres que dissecava em seus estudos de anatomia ricamente documentados por inúmeros desenhos de sua autoria das mais distintas partes do corpo humano, um homem perfeccionista que por vezes demorava a entregar trabalhos prometidos em virtude de sua busca da perfeição e que por isto deixou várias obras inacabadas, um Leonardo tão absorto totalmente no trabalho, me parece mais alguém que não tenha interesse sexual seja por homens ou por mulheres. O que não é algo raro de se observar quando toda a energia de vida de alguém está totalmente comprometida com seu trabalho, sua produção, sua criação. No tocante a opinião de Leonardo sobre a sexualidade, em suas próprias palavras retiradas de suas anotações: "O ato da procriação e tudo com ele relacionado é tão nojento que a raça humana rapidamente desapareceria se não existissem caras bonitas e inclinações sensuais".
Leonardo durante sua vida profissional manteve a crença na busca, experimentação e investigação o que também é percebido quando observamos como já dissemos acima, que ele dissecava cadáveres nos seus estudos de anatomia, elaborando lindos e detalhados desenhos sobre as mais diversas partes internas do corpo humano. Se sua obra baseada nos estudos de cadáveres fosse publicada teria revolucionado o estudo de anatomia. Cabe destacar também que seu mestre em Florença foi o renomado artista e pintor Andrea Verrocchio.



Leonardo com certeza é um gênio em busca da perfeição em tudo o que faz e um grande artista que marca e bem representa o período histórico que denominamos por Renascença, este espaço entre de um lado a Idade Média que se vai e a Idade Moderna que se aproxima. Dentre tantos, Leonardo é com certeza um dos mais fiéis representantes do movimento renascentista, sendo sua vida e valores por ele adotados a expressão do ideal de sua época e talvez seja por isto que ele nos impressione até hoje, gerando uma infinidade de livros, romances, filmes e diversas outras obras que acompanham nossa cultura formal e popular. Quadros por Leonardo pintados ou desenhos por ele feitos são inumeramente reproduzidos em camisas e outros objetos, bem como em paredes ou jornais, por vezes de modo fiel ao original e por vezes de modo satírico, mas sempre presente como parte de um mistério a ser decifrado.
Pensando em nossa sociedade contemporânea e no total de desconhecimento presente a maioria de nós sobre nossas próprias origens históricas e filosóficas, imagino o quanto que cada um de nós individualmente ou a sociedade como um todo não possa vir a se beneficiar de um novo renascimento, não voltado somente para a antiguidade esquecida, mas sim para toda a cultura perdida na falsa intimidade de uma simplificação obscena que diariamente nos é dada como restos do que já fomos e, meramente talvez, esperança do que um dia nossa sociedade possa vir a ser.
A vida de Leonardo e sua obra quando comparada a situações que vivemos hoje nos fazem pensar na atual dualidade entre o descartável e o perene. Nem tudo pode ser visto e criado para ser meramente descartável e jogado fora ou substituído pelo novo modismo que venha a surgir, há necessidade de aprendermos ou reaprendermos o caráter imutável e eterno de certas produções. Criar uma vida, família, sociedade, cidade ou outra obra humana deve por vezes ser entendido como algo que deva mostrar a nossa perfeição em sua própria essência para que as gerações futuras possam admirar, invejar e recriar.

Silvério da Costa Oliveira.

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Notas:
(1)   cidade – Equivalente no Brasil a um município ou cidade, trata-se na Itália de uma unidade básica de organização do território
(2)   Vou tomar a liberdade aqui de fazer uma pequena nota, em virtude de diversos comentários absurdos com os quais tomei contato. Há os que tentam deturpar a história encontrando em personagens do passado lutadores por causas contemporâneas das quais estes não tinham sequer idéia ou conceito. Infelizmente e sem base em fatos históricos narrativas são construídas e defendidas ferozmente contra qualquer um que possa pô-las em dúvida. Devo frisar que o termo homossexual ou homossexualismo tem uma origem na clínica psiquiátrica e em um modo de ver o homossexualismo como doença, o que já era para a época algo revolucionário, pois, anteriormente era tal comportamento visto em geral como crime ou pecado e também que o surgimento deste termo se dá na segunda metade do século XIX (por volta de 1870), não sendo correto usar o mesmo para se referir a um período histórico anterior. Já o termo gay, apesar de ter origem bem mais antiga, com o atual significado passou a ser empregado na segunda metade do século XX, ganhando maior destaque e ampliação por volta do final do século, também entendo não ser correto sua aplicação para antes desta época.  Apesar das lutas políticas sexuais contemporâneas em prol de uma ou outra orientação ou direcionamento, penso que o número de pessoas assexuais, que não se interessam por qualquer sexo, tem sido enormemente subestimado. Acrescentaria ainda que, mesmo não sendo correto transpor um conceito contemporâneo para uma época anterior a sua criação, relacionamentos afetivo-sexuais de adultos com crianças ou adolescentes ou mesmo somente o desejo e excitação por tal, recebe o nome de pedofilia e é considerado uma doença e mesmo crime de acordo com a legislação do país.

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.
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