Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

Sites na Internet – Doutor Silvério

1- Site: www.doutorsilverio.com

2- Blog 1 “Ser Escritor”: http://www.doutorsilverio.blogspot.com.br

3- Blog 2 “Comportamento Crítico”: http://www.doutorsilverio42.blogspot.com.br

4- Blog 3 “Uma boa idéia! Uma grande viagem!”: http://www.doutorsilverio51.blogspot.com.br

5- Blog 4 “O grande segredo: A história não contada do Brasil”

https://livroograndesegredo.blogspot.com/

6- Perfil no Face Book “Silvério Oliveira”: https://www.facebook.com/silverio.oliveira.10?ref=tn_tnmn

7- Página no Face Book “Dr. Silvério”: https://www.facebook.com/drsilveriodacostaoliveira

8- Página no Face Book “O grande segredo: A história não contada do Brasil”

https://www.facebook.com/O-Grande-Segredo-A-hist%C3%B3ria-n%C3%A3o-contada-do-Brasil-343302726132310/?modal=admin_todo_tour

9- Página de compra dos livros de Silvério: http://www.clubedeautores.com.br/authors/82973

10- Página no You Tube: http://www.youtube.com/user/drsilverio

11- Currículo na plataforma Lattes: http://lattes.cnpq.br/8416787875430721

12- Email: doutorsilveriooliveira@gmail.com


E-mails encaminhados para doutorsilveriooliveira@gmail.com serão respondidos e comentados excluindo-se nomes e outros dados informativos de modo a manter o anonimato das pessoas envolvidas. Você é bem vindo!

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Max Weber: Ética Protestante, Burocracia e Racionalização

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

“O destino de nossa época, caracterizada pela racionalização, pela intelectualização e, sobretudo, pelo 'desencantamento do mundo', fez com que os homens se tornassem incapazes de suportar as antigas concepções religiosas da vida”.

A Ciência como Vocação (Wissenschaft als Beruf, 1917/1919). Max Weber.

 

Max Weber

 

1- Max Weber: Vida, Contexto Alemão e Legado Duradouro

 

Poucos pensadores compreenderam com tanta profundidade o drama racional da modernidade quanto Max Weber. Maximilian Karl Emil Weber ou Max Weber (1864-1920) nasce em Erfurt, Reino da Prússia, e falece aos 56 anos em Munique, Alemanha, vitimado por pneumonia. Atuou como jurista, economista e sociólogo. Trabalhou como professor na Universidade Humboldt de Berlim, na Universidade de Freiburg, na Universidade de Heidelberg, na Universidade de Viena e na Universidade de Munique. Foi nomeado professor de Economia nas universidades de Freiburg em 1894 e de Heidelberg em 1896.

Seus pais, Max Weber Sr. (1836-1897) e Helene Fallenstein (1844-1919), tiveram um total de sete filhos, sendo Max Weber o primeiro. Seu pai atuou como advogado, político e membro do partido Nacional Liberal. Sua mãe era descendente de imigrantes huguenotes franceses.


 

Com relação aos seus estudos e sua formação profissional, no ano de 1882 Max Weber se matriculou na Faculdade de Direito da Universidade de Heidelberg, onde também frequentou disciplinas de outros cursos. Em 1884 passa a estudar na Universidade de Berlim e em 1889 obtém seu Doutorado em Direito. No ano de 1891 apresenta sua tese de habilitação.

Weber se inspirou em fontes diversas: o rigor lógico de Kant, a crítica à moral de Nietzsche, a distinção entre explicar e compreender de Dilthey, e a diferença entre ciências da cultura e da natureza de Rickert. Rejeitou o determinismo econômico de Marx, mas absorveu parte de sua análise crítica do capitalismo. Dos marginalistas (Menger, Böhm-Bawerk), foi influenciado pela racionalidade econômica individual.

Casou-se com Marianne Schnitger (1870-1954) no ano de 1893, prima em segundo grau, sua biógrafa e editora de suas obras completas. Sua esposa atuou como feminista, se dedicava aos estudos e foi posteriormente curadora da obra de Max Weber, quando de seu falecimento. Mais tarde, quando da publicação da correspondência de Max Weber, soube-se de seus relacionamentos amorosos com Else von Richtoffen (1874-1973) e Mina Tobler (1877-1943, datas históricas aproximadas).

Entre 1897 e 1901 registra-se que padeceu de forte depressão que paralisou suas atividades de pesquisa e ensino. Foi o período em que frequentou sanatórios e realizou viagens pela Europa, particularmente Roma, cidade na qual ficou por alguns meses. Recuperado, em 1903 renuncia ao cargo de professor e passa a ser diretor-associado dos “Arquivos de ciências sociais e política social” (Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik), uma revista na qual teve oportunidade de publicar em 1904 e 1905 as duas partes que compõe seu principal artigo: “A ética protestante e o espírito do capitalismo”. Neste período e entre a publicação da primeira e da segunda parte deste artigo, também visitou os EUA. Aqui cabe frisar que ao renunciar ao cargo de professor em 1903, pedindo sua demissão, esta lhe foi negada em virtude de sua comprovada competência e a administração entrou em um acordo com Weber para que este se afastasse com uma aposentadoria e que continuasse sendo professor honorário da universidade de Heidelberg, com uma pequena carga horária de trabalho enquanto melhorava sua condição de saúde abalada pela depressão.

Max Weber também se destaca pela participação em alguns momentos de relevância histórica para a Alemanha, como o tratado de Versalhes (1919) ao final da primeira guerra mundial (1914-1918) e a rendição da Alemanha, e a elaboração da constituição da República de Weimar (1920).

Weber viveu o auge e a crise do Segundo Reich (1871-1918), unificado por Bismarck sob o lema "sangue e ferro". Detalhe que o primeiro Reich (962-1806) se dá com o Sacro Império Romano-Germânico. Esse império industrial, militarista e burocrático presente no segundo Reich foi o laboratório vivo de suas teorias. Ele via a unificação da Alemanha como um triunfo da racionalidade política, mas também como prenúncio da "gaiola de ferro", a burocracia impessoal que sufocaria a liberdade individual. O colapso de 1918 e a República de Weimar (1919) confirmaram seu diagnóstico: a modernidade era algo irreversível, mas também podia ser perigosa.

No transcurso de sua vida, Weber publicou: “História agrária romana”, “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, “Economia e sociedade”, “A ciência como vocação”. Após seu falecimento, sua esposa assume a curadoria de suas obras, vindo a organizar e publicar outros três livros: “Economia e sociedade – volume 2”, 1921, “A metodologia das ciências sociais”, 1922, “História econômica geral”, 1923.

Parte considerável do seu trabalho tem como foco o capitalismo, o desencantamento do mundo e o processo de racionalização. Desenvolve um trabalho muito interessante sobre a sociologia da religião, associando o protestantismo ao surgimento do capitalismo. Suas reflexões e argumentações sobre este tema encontram-se em “A ética protestante e o espírito do capitalismo”.

Para Weber a sociologia tem como objetivo em suas investigações o que este chama de “ação social”. Esta ocorre a partir das ações individuais e suas respostas por parte de outros indivíduos. Nela estão envolvidos motivação, ação e efeitos buscados por todos os envolvidos. Segundo o pensamento de Max Weber, a ação social pode ser dividida em quatro tipos: 1- ação racional com relação a fins, 2- ação racional com relação a valores, 3- ação tradicional e 4- ação afetiva.

A abordagem sociológica de Weber recebe várias denominações, dentre as quais destaco "Sociologia compreensiva" (em alemão: verstehende Soziologie) que se encontra presente em textos do próprio autor. Mas há outras formas de se referir ao seu trabalho, como, por exemplo: “Sociologia interpretativa” ("interpretive sociology"), esta mais usada em contextos anglófonos. Outra denominação comum se encontra em “Sociologia da ação social”. A teoria desenvolvida por Max Weber também é comumente chamada de “Individualismo metodológico” já que não nega a existência ou importância de fenômenos sociais globais, mas proporciona ênfase ao entendimento das intenções e motivações individuais quando em sociedade. A sociedade deve ser entendida como sendo uma totalidade resultante das relações entre os diversos sujeitos que a compõe, ficando o sujeito na base de sua compreensão. Em última instância, não podemos esquecer que toda a vida acadêmica de Max Weber enquanto docente foi dedicada ao ensino da economia, o que aproxima seu trabalho em sua totalidade de um estudo sócio-histórico da vida aquisitiva em sociedade.

O legado de Weber transcende a sociologia. Jürgen Habermas o critica por pessimismo, mas herda sua teoria da ação. Talcott Parsons o traduz para o Funcionalismo. A Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer) vê na racionalização a raiz da dominação. No Brasil, Florestan Fernandes e Jessé Souza aplicam sua burocracia ao patrimonialismo. Conceitos como desencantamento do mundo, monopólio da violência legítima e tipos de dominação permanecem ferramentas indispensáveis para compreender populismo, tecnocracia e capitalismo financeiro. Weber não fundou somente uma escola, ele criou um método crítico que resiste ao tempo.

 

2- Max Weber: Os 3 Tipos de Dominação

 

"Dominação é a probabilidade de que um comando com determinado conteúdo encontre obediência por parte de pessoas dadas." Economia e Sociedade. Max Weber.

 

Na sociologia política Max Weber desenvolveu a teoria dos tipos de dominação: tradicional, carismática e racional-legal. A primeira ocorre por meio da obediência a tradição. O sujeito faz o que a tradição determina que seja feito. A segunda faz com que o sujeito exerça liderança por meio da atração que consegue exercer nas outras pessoas. A terceira se dá por meio do cumprimento das leis, regras e obrigações acordadas. Este poder só é exercido por quem foi determinado que possa exercê-lo, sendo esta ou estas pessoas somente os representantes da lei. Os tipos puros e ideais são ferramentas, construções analíticas, não descrições da realidade, mas ferramentas para comparar fenômenos históricos.

Weber desenvolve estes conceitos em seus trabalhos “Economia e sociedade” e “Política como vocação”. Weber entende que estas três formas de dominação são legítimas. Trata-se aqui da expectativa de que ordens dadas sejam cumpridas por quem as recebe, não havendo coerção direta neste comportamento, mas sim a crença em que se deva obedecer a aquela autoridade específica e não qualquer outra. Trata-se aqui de um modo particular de dominação no qual o poder se apresenta de modo estável e legítimo, podendo deste modo se prolongar no tempo. Weber distingue três tipos puros ou ideais aqui presentes: tradicional, carismático e racional-legal. Por serem tipos ideais, não existem isolados na prática histórica, sendo usados para melhor entendimento do processo por parte do pesquisador, são em verdade, construções analíticas que proporcionam uma melhor compreensão de fenômenos sociais complexos.

Na dominação tradicional temos a forte presença da crença na necessidade de obediência de ordens e costumes provindas de um passado histórico distante. Neste contexto a obediência passa a ser devida a um “senhor”, “mestre”, “patriarca”, vinculada a algum tipo de crença na santidade provinda de tais ordens ou da posição socialmente exercida por tal pessoa, que requer obediência e fidelidade, já que não é algo sujeito a questionamentos, estes não aceitos, em virtude do argumento de que “sempre foi assim”. Na dominação tradicional não há necessidade alguma de qualquer justificativa racional ou mesmo carismática, já que esta se baseia na inércia social e cultural de um povo, motivada pela identificação emocional com um passado comum real ou idealizado. Neste formato de dominação, a mesma é patrimonial, já que o senhor governa pessoas leais por meio de laços pessoais e sem divisão formal de tarefas. Trata-se de uma forma estável e resistente a inovações, presente em sociedades feudais e agrárias, tal dominação pode se encaminhar facilmente para a arbitrariedade, já que quem manda o faz a partir de sua própria vontade, não podendo ou devendo ser questionado e sim obedecido. Podemos ter na história alguns exemplos, como no caso de monarquias absolutas ou na relação existente entre o senhor e o servo na Europa medieval. No Brasil podemos encontrar algo semelhante no Nordeste, nas relações envolvendo o coronelismo presente no início de nossa história e que continua de certa forma vivo até os presentes dias. Esta relação também pode ser observada historicamente em sociedades patriarcais e escravagistas, nas quais poucas pessoas controlavam totalmente os demais membros de sua família, seus funcionários e seus escravos.

Já a dominação carismática se dá diante de uma devoção afetiva vinculada a qualidades presentes em uma dada pessoa que são vistas como sendo excepcionais. Esta pessoa munida de tais qualidades percebidas pelos demais, passa a atuar como líder, exercendo uma liderança pautada em algum tipo de graça divina, dom sobrenatural, heroísmo ou genialidade. Aqui a obediência provém da crença desta pessoa possuir uma dada missão profética ou revolucionária, atraindo apóstolos ou seguidores que podem sacrificar tudo o que possuem para seguir esta pessoa. Temos a presença de uma administração informal e instável. O líder governa por revelação pessoal, com discípulos executando ordens como atos de fé, sem hierarquia fixa. Trata-se de uma forma frágil de dominação que tende a surgir durante guerras, revoluções ou mesmo desordens sociais. Tal dominação depende de uma constante prova de carisma, o qual, quando enfraquecido, pode direcionar para outras formas de dominação, como a tradicional ou a racional-legal. Aqui podemos pensar no profeta Maomé, em Jesus Cristo, nos profetas citados na Bíblia, em Napoleão ou mesmo líderes contemporâneos. No Brasil, exemplos clássicos incluem Antônio Conselheiro, o profeta de Canudos que mobilizou sertanejos em uma comunidade milenarista contra o Estado republicano, ou Lampião, o cangaceiro visto como justiceiro lendário por seus seguidores. Na política moderna, Getúlio Vargas, com seu apelo paternalista e nacionalista durante a Revolução de 1930, ou Juscelino Kubitschek, com o carisma visionário da construção de Brasília, representam essa dominação, capaz de romper tradições, mas também de levar a instabilidades.

O carisma não dura, deve ser rotinizado (transformado em tradição ou lei) para sobreviver. Pensemos no exemplo do cristianismo, que surge com um líder carismático, Jesus Cristo, mas evolui para a tradição da Igreja e, no caso da Igreja Católica Apostólica Romana, para a autoridade infalível do papa.

Na dominação racional-legal temos que esta se dá pela crença na legalidade de leis, regras e normas aplicadas por uma pessoa que tenha competência para tal. Deste modo, a obediência não se dá a uma pessoa em particular e sim ao cargo ou posto ocupado pela pessoa que representa a impessoalidade da lei, como no caso de um policial, onde no exercício correto de suas funções as demais pessoas não irão obedecer ao “Pedro”, “Manoel” ou a “Maria” e sim ao policial enquanto representante do Estado legal. Dentro das nossas sociedades contemporâneas é esta a forma que predomina, sendo corroborada por toda uma estrutura burocrática presente no Estado. A administração é hierárquica e especializada: divisão de tarefas, regras escritas, impessoalidade e registros sistemáticos garantem previsibilidade e eficiência. Weber a entende como o ápice da racionalização ocidental, mas alerta para sua "gaiola de ferro", a rigidez que esmaga a criatividade.

Resumidamente podemos nos referir a administração efetuada por cada tipo como sendo: 1- a tradicional é patrimonial e se dá por meio de laços pessoais. 2- a carismática é informal e se dá por meio de discípulos. 3- a racional-legal é burocrática e se dá por meio de hierarquia e impessoalidade.

Claro que tais tipos não são fixos e imutáveis, há transições de um tipo para outro. Aqui trata-se de tipos puros ou ideais, mas na prática encontramos uma mescla de tais tipos. No contexto brasileiro, vemos hibridismos, como, por exemplo, o carisma de líderes como Vargas rotinizou-se em burocracia estatal, enquanto resquícios tradicionais persistem no clientelismo político. A distinção entre dominação e poder bruto é crucial, pois, sem legitimidade, o comando vira mera coerção. Weber nos convida a analisar como essas formas moldam sociedades, questionando se a racional-legal moderna, apesar de eficiente, não sacrifica o humano ao cálculo frio.

Na atualidade o termo “dominação” se viu substituído em vários estudos pelo termo “liderança”. Pensando em Max Weber em particular, tal substituição poderia ser aceitável diante do tipo carismático em contextos contemporâneos, já que este evoca inspiração e visão estratégica, no entanto, a mera troca de expressões iria limitar e mesmo suavizar o aspecto coercitivo presente na ideia original de Weber. Há na “dominação” a ideia de hierarquia e coerção, enfatizando a obediência estrutural com potencial de violência legítima, não somente mera motivação voluntária diante de uma liderança contemporânea. Já para os tipos tradicional e racional-legal, "liderança" soa anacrônico e impreciso, pois não há "líder carismático" no patriarca ou no burocrata, há autoridade impessoal. A dominação racional-legal, com sua burocracia, é o pilar do capitalismo contemporâneo, tema que Weber explora em sua obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo”.

 

3- A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo

 

Foi a partir do cristianismo, em sua versão protestante e com seu ascetismo, que o Ocidente se diferenciou do Oriente evolutivamente. Esta distinção proporcionou o surgimento do capitalismo enquanto modelo econômico, o desenvolvimento da burocracia e também do Estado racional e legal na Europa ocidental.

Segundo o pensamento do autor, a religião cristã em sua vertente protestante apresenta a partir do século XVI, quando de seu surgimento, um caráter eminentemente ascético. Foi justamente esta vivência religiosa que motivou a ideia de se dedicar a uma vocação profissional, que, por sua vez, encontra-se na base do futuro sistema capitalista. Weber começa sinalizando as diferenças educacionais entre católicos e protestantes. Enquanto os primeiros preferem uma formação humanista, os segundos dão preferência para uma formação técnica. Weber não adota o posicionamento de que católicos teriam sua espiritualidade fundada no ascetismo e que isto os direcionaria para uma forma de estranhamento deste mundo resultando em um estado de indiferença para com os bens materiais e que, por sua vez, os protestantes seriam mais materialistas.

No entendimento de Weber, os protestantes apresentavam estranhamento ao mundo circundante, ascese e presença nas atividades da vida, inclusive a aquisição de bens. Para o autor o espírito do capitalismo não ocorre em uma busca desenfreada por obtenção de valores e bens materiais e sim no desenvolvimento de uma ética que valoriza o trabalho e a busca de riquezas. Para o autor o “espírito do capitalismo” não deve ser confundido com a “forma do capitalismo”, esta última vinculada ao sistema econômico. Sua preocupação se dá em como a moral protestante atua diretamente no comportamento das pessoas proporcionando um ambiente favorável ao desenvolvimento do capitalismo. Enquanto a “vocação” para os católicos se restringe a um chamado de Deus para o exercício da vida religiosa, a partir dos escritos e pregações de Lutero, a “vocação” passa a incluir também outras atividades, nas quais se insere o exercício profissional em atividades mundanas. Por meio desta interpretação dada por Lutero, o ascetismo presente no interior dos mosteiros e entre os religiosos de profissão, passa a ser delegado também a outras atividades laborais, surgindo uma forma de ascetismo mundano. Mas isto é só o início, em Lutero temos o começo, mas ainda há fortes ligações com o passado que serão posteriormente trabalhadas no desenvolvimento de uma ética econômica que perpassa o capitalismo, mas isto ocorrerá no protestantismo pós-luterano com influência provinda de Calvino e dos anabatistas.

Algo importante aqui é a ideia da predestinação presente no calvinismo, pois, independente do que faça o indivíduo, será sempre Deus a escolher quem será salvo ou condenado. A atividade de trabalho e o sucesso que a pessoa possa encontrar nesta atividade podem atuar como indícios de que a pessoa é ou não uma das escolhidas por Deus. Algumas destas seitas protestantes tendem a incentivar que o crente desenvolva uma vida ordenada, disciplinada, regida por normas éticas e morais. Deste modo, ao valorizar uma vida metódica, disciplinada e racional, bem como uma moral que valorize o trabalho e a obtenção de riqueza material como parte integrante da religiosidade (cujo sucesso ou não pode indicar a salvação ou condenação) torna o indivíduo predisposto a uma lógica econômica capitalista e nos permite melhor entender a sociedade atual. Weber não se funda em uma única causa para explicar o surgimento, desenvolvimento e manutenção da sociedade capitalista na qual vivemos hoje, busca uma sucessão de causas atuando nos fenômenos sociais, destacando fatores culturais e também materiais.

 

4- Burocracia e Racionalização: A Gaiola de Ferro de Weber

 

Interessante também o conceito elaborado por Max Weber de “desencantamento do mundo”. Algo presente ao tempo atual, marcado pela intelectualização e afastamento da religiosidade espiritual. O indivíduo se vê diante da escolha entre dois universos distintos, por um lado o religioso, exigindo o sacrifício de seu intelecto, e por outro lado o científico, que por sua vez retira qualquer sentido último sobre a sua própria existência e a razão de ser de tudo que há. Ao se dedicar somente de modo mecânico as tarefas diárias e as responsabilidades delas decorrentes, não encontrando além disto outra forma de dar sentido a sua vida, tende a assumir uma atitude de desencanto com o mundo no qual vive e que totalmente lhe circunda.

Max Weber estudou o uso da razão nas sociedades modernas criando o fenômeno da racionalização do mundo social e impactando as instituições, como, por exemplo, o Estado, mas também está presente no governo e na cultura do povo.

Weber propôs dividir a racionalidade em dois tipos: formal e substantiva. A primeira, racionalidade formal, se relaciona com as formas metódicas presentes no sistema jurídico e econômico das sociedades modernas, vinculando-se a estruturas institucionais e burocráticas, formando uma hierarquia composta por regras fixas. Preocupa-se com a eficiência dos meios, não com o valor dos fins. A segunda, racionalidade substantiva, se preocupa com os fins, ao contrário da racionalidade formal que não se preocupa com fins e objetivos a serem atingidos em um determinado contexto, avaliando-os segundo valores sociais, éticos ou culturais presentes no grupo.

Em sua obra “Economia e Sociedade”, Max Weber apresenta a burocracia como a forma mais pura e eficiente de dominação racional-legal, um sistema administrativo que representa o ápice da racionalização ocidental, onde a ação humana é organizada de modo calculável, previsível e impessoal, substituindo tradições, carisma ou arbitrariedade por normas escritas e hierarquias funcionais.

No total seis características fundamentais da burocracia enquanto tipo ideal são identificadas por Weber. Cabe lembrar mais uma vez que o tipo ideal proposto por Weber é formado por construções analíticas que não descrevem realidades perfeitas, mas servem para comparar organizações históricas e contemporâneas. Na primeira temos a divisão do trabalho. Cada novo cargo possui suas próprias competências e delimitações, deste modo, passamos a ter especialização e maior eficiência técnica. O exemplo aqui se encontra nas fábricas nas quais os operários executam tarefas repetitivas, cada operário dentro de sua área específica de atuação, sem interferir nas demais. Na segunda característica temos a hierarquia dentro de uma estrutura piramidal de autoridade, na qual temos canais de comando e subordinação que garantem que ordens dadas do alto desta pirâmide sejam obedecidas em todos os níveis e que relatórios elaborados descrevam exatamente as atividades executadas, informando os cargos mais elevados na pirâmide. Esta organização piramidal evita conflitos de autoridade e assegura uma unidade na direção da empresa. Na terceira característica temos as regras e os padrões escritos que regulam todas as atividades desempenhadas, proporcionando normas gerais, abstratas e estáveis que devem ser aplicadas uniformemente a todos os procedimentos independente das pessoas ali envolvidas. Na quarta característica temos o compromisso profissional, no qual os profissionais que atuam na empresa são selecionados pelo mérito técnico e treinados para a execução de seu trabalho, sendo inteiramente dedicados aquele cargo, com salários fixos e carreira progressiva, de modo que o trabalho possa atuar como uma vocação racional e não por atuação de troca de favores pessoais. Na quinta característica temos a impessoalidade, pela qual as relações são baseadas no exercício do cargo e não na pessoa que exerce o cargo. Deste modo elimina-se o favoritismo de alguns, o nepotismo, as emoções, buscando tratar todo e qualquer caso como igual diante de dada regra que o rege. Na sexta característica temos os registros escritos sistemáticos, nos quais todas as decisões e ações são arquivadas, permitindo deste modo a criação de um histórico da empresa, maior controle e continuidade.

Segundo o pensamento de Weber, tal estrutura burocrática surge como consequência natural e inevitável da racionalização. Pela racionalização toda a vida social passa a ser submetida ao cálculo, ao método e a eficiência. Esta abordagem substitui a magia, a tradição e as crenças religiosas e outras, pela lógica instrumental no trabalho.

Esta nova situação nas sociedades contemporâneas traz um lado sombrio, que Max Weber chama de “gaiola de ferro” ("stahlhartes Gehäuse" - casca dura como aço), uma metáfora por ele usada em sua obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo” e mais tarde desenvolvida em “Economia e sociedade”, pela qual entendemos que a burocracia que surge como sendo libertadora por trazer precisão e justiça formal, torna-se uma prisão rígida que destrói a liberdade individual, a criatividade e o próprio sentido da vida, gerando o “desencantamento do mundo” (Entzauberung der Welt), conceito central em “A ciência como vocação”, no qual a racionalização elimina o mágico, o mítico e o sagrado, reduzindo tudo a meios para fins calculados, deixando o humano contemporâneo em um mundo desprovido de encantamento, no qual especialistas dominam, mas sem emoção. Podemos observar isto em termos históricos na formação da administração prussiana no decorrer do século XIX, na burocracia do Estado brasileiro construída a partir do Estado Novo de Getúlio Vargas, em empresas contemporâneas de tecnologia de ponta que atuam globalmente por meio da eficiência burocrática e, por vezes, com algoritmos substituindo o julgamento humano.

Não há em Weber uma rejeição da burocracia, pelo contrário, ele reconhece sua superioridade sobre formas historicamente anteriores de administração, mas nos apresenta um paradoxo: quanto mais racional e eficiente, ao mesmo tempo será mais opressora, transformando vocação genuína em algo mecânico e o humano em uma mera engrenagem em uma enorme máquina que este sequer consegue toda vislumbrar. Essa análise conecta-se diretamente à ética protestante, onde o ascetismo intramundano gera a racionalidade que, secularizada, aprisiona a humanidade em estruturas impessoais. Em “Política como vocação”, ele estende o alerta à esfera pública, onde burocratas profissionais podem sufocar líderes carismáticos ou responsáveis.

Críticas posteriores, como as de Merton sobre disfunções burocráticas (rigidez excessiva) ou Habermas sobre legitimação sistêmica, ampliam Weber sem contradizê-lo. No contexto atual, a burocracia digital (com IA, big data e automação) intensifica a gaiola de ferro, prometendo eficiência, mas ameaçando privacidade e autonomia, convidando-nos a questionar se a racionalização é destino inevitável ou pode ser humanizada.

 

5- Ação Social em Weber e tipos ideais: Como Agimos na Sociedade?

 

Muito importante também é a teoria da ação social elaborada por Max Weber. Segundo o pensamento desenvolvido por Max Weber, as ações empreendidas pelos indivíduos são motivadas por determinados fatores que podem ser estudados. Estas ações podem possuir objetivos, motivações e intuitos distintos e cabe a sociologia entender o que se encontra por trás das ações empreendidas pelos indivíduos em sociedade. Para Weber a “ação social” se apresenta como sendo um comportamento dotado de sentido e significado, levando em consideração a ação empreendida por outra ou outras pessoas. Aqui temos uma relação na qual se faz presente a ação recíproca. Segundo seu pensamento as ideias, as crenças e os valores são os principais catalizadores das mudanças sociais.

Ele entendia ser importante para o sociólogo ter uma atitude de neutralidade em relação ao seu objeto de pesquisa. A partir de uma postura neutra e imparcial é que cabem as análises sociais. Weber, neste tocante, discorda tanto dos que seguem Marx, como também dos que seguem Durkheim. É por meio das ações individuais que podemos obter resultados válidos de nossos estudos sociais. Cabe ao sociólogo desenvolver um padrão metodológico que proporcione validade científica aos seus estudos. Weber encontra estes padrões no que entende por tipos ideais, ou seja, conceitos perfeitos que não existem na realidade do dia-a-dia, na qual encontramos somente ações que podem deles se afastar ou aproximar, o que nos lembra as ideias perfeitas de Platão em seu mundo das ideias e as cópias imperfeitas destas ideias em nosso mundo. Mas há uma diferença essencial entre as ideias de Platão e os tipos ideais de Weber. Para Platão as ideias são imutáveis e possuem realidade ontológica, já para Weber os tipos ideais são construções do pesquisador, mutáveis, não ontológicos. Diferente das ideias platônicas eternas, os tipos ideais são hipóteses do cientista, exageradas para medir a realidade: quanto mais uma ação se aproxima do tipo puro, mais compreensível se torna.

Max Weber entende a sociologia como “ciência compreensiva” ao por a ação social no centro de sua análise, o que Weber desenvolve em “Economia e sociedade”. Para Weber, a sociologia tem na ação social o seu objeto de estudo, sendo esta entendida como todo comportamento humano dotado de sentido subjetivo e orientado para a conduta de outras pessoas, estejam estas no tempo presente, passado ou futuro, ou mesmo, somente pessoas imaginadas e não reais. Não se trata de uma reação física ou de uma imitação inconsciente, a ação social exige que o indivíduo forneça significado ao seu comportamento e aguarde por alguma resposta ou influência dos demais, formando uma teia invisível que constitui a sociedade.

Compreender a sociedade significa poder reconstruir de modo racional o sentido dado pelos atores as suas próprias ações, sem, no entanto, reduzi-las a leis naturais ou determinismos históricos ou econômicos. Este método proposto por Weber passou a ser conhecido como “sociologia compreensiva” (verstehende Soziologie) e rejeita tanto o Positivismo por um lado, como o Idealismo pelo outro. O Positivismo entende os fatos sociais como coisas, já o Idealismo ignora a causalidade material. Weber propõe uma síntese pela qual busca explicar de modo causal por meio da compreensão interpretativa. O individualismo metodológico completa o quadro, já que embora fenômenos coletivos existam, só podem ser entendidos a partir das ações intencionais dos indivíduos, nunca como entidades autônomas acima deles.

Para organizar a imensa variedade de ações sociais, Weber constrói quatro tipos puros ou ideais, ferramentas analíticas que não descrevem comportamentos reais em sua totalidade, mas destacam traços dominantes para facilitar a comparação histórica e a interpretação.

Weber propôs uma classificação destas ações em quatro grupos, a saber: 1- ação social racional com relação a fins, 2- ação social racional com relação a valores, 3- ação social afetiva, 4- ação social tradicional.

No primeiro temos uma ação que foi planejada visando uma dada finalidade, como no caso do casamento, na qual a ação social é o matrimônio e a finalidade é a constituição de uma família. No segundo caso busca-se alcançar um determinado valor social com o planejamento e execução desta ação, como é o caso de cumprir os dez mandamentos hebraicos. No terceiro grupo temos uma ação que ao contrário das duas primeiras, não é racional, planejada ou calculada, na qual a pessoa segue seus afetos e paixões, seus sentimentos são priorizados em relação a outros motivos, entregando as ações da pessoa a presença de afetos, tais como o medo, o amor, ou mesmo a paixão e o ódio, dentre outros mais possíveis. No quarto grupo temos uma ação que também não é planejada, racional, calculada, estando sua execução em consonância com a tradição daquele grupo social. Neste caso, comporta-se deste ou daquele outro modo porque a sociedade assim o exige. E por fim, No Brasil temos um hibridismo, o "jeitinho" mistura racional com fins (contornar regra) com tradicional (relação pessoal), ilustrando que ações reais são mistas.

Em “Economia e sociedade” Weber apresenta os seguintes exemplos, na ordem correta por ele apresentada: 1- Racional com fins: Empresário calcula lucro. 2- Racional com valores: Capitão afunda com navio. 3- Afetiva: Mãe protege filho em perigo. 4- Tradicional: Saudação por costume.

Os tipos ideais, conceito metodológico central em Weber, são construções mentais exageradas que destacam características essenciais de fenômenos complexos, permitindo ao pesquisador medir a realidade contra um modelo puro. Não existem empiricamente em estado isolado, mas servem como bússola interpretativa. Por exemplo: uma greve pode começar afetiva, tornar-se racional com fins (salário) e rotinizar-se em tradição sindical.

Weber insiste na neutralidade axiológica: o cientista compreende o sentido, mas não julga o valor da ação, separando ser e dever ser. Essa abordagem diferencia sua sociologia de Comte (leis gerais), Durkheim (coerção externa) e Marx (determinismo de classe), posicionando o indivíduo como ponto de partida, mas dentro de estruturas que limitam suas escolhas. A ação social, assim, é o fio que costura dominação, burocracia e racionalização, revelando como significados subjetivos constroem o mundo objetivo.

 

6- Sociologia das maiores Religiões em Max Weber: De Confúcio ao Judaísmo

 

Max Weber ampliou seus estudos sobre a religião, abrangendo as principais e maiores religiões existentes em sua época. Suas pesquisas que anteriormente focavam o cristianismo nas vertentes católica e protestante, agora passaram a abordar o confucionismo, o taoismo, o hinduísmo, o budismo, o islamismo e o judaísmo. Após a publicação de “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, 1904-1905, Weber ampliou esta mesma tese na obra “A ética econômica das religiões universais” (escrito entre 1904-1917 e publicado postumamente entre 1920-1921 em Gesammelte Aufsätze zur Religionssoziologie) que é considerado o primeiro estudo interdisciplinar na história das ciências sociais, sintetizando história das religiões e história econômica.

Em Ensaios sobre a “Sociologia da religião”, obra póstuma organizada por Marianne Weber entre 1920 e 1921, Max Weber empreende uma das mais ambiciosas comparações histórico-religiosas da sociologia, analisando como diferentes sistemas de crenças moldaram ou impediram a racionalização econômica e social em civilizações não ocidentais.

Partindo da tese da Ética Protestante, ele agora inverte a pergunta: por que o capitalismo racional moderno surgiu apenas no Ocidente? A resposta não está em superioridade racial ou climática, mas em configurações específicas de ética religiosa que, combinadas com condições materiais, geraram ou bloquearam a mentalidade capitalista. Weber examina seis grandes tradições (Confucionismo, Taoísmo, Hinduísmo, Budismo, Judaísmo e Islamismo - embora este último em esboço) como tipos ideais de racionalização ética, contrastando-as com o protestantismo ascético. Seu método é compreensivo: reconstruir o sentido que os fiéis dão às suas práticas e verificar como esse sentido orienta ou desvia a ação econômica.

O Confucionismo chinês representa a racionalização adaptativa ao mundo, uma ética de harmonia cósmica e hierarquia social que legitima o funcionário letrado e o mandarinato burocrático, mas rejeita a tensão com o mundo necessária ao capitalismo. O sábio confuciano busca perfeição interna por meio de rituais e deveres familiares, não lucro ou inovação; a riqueza é aceitável se herdada ou obtida por cargo, mas a especulação mercantil é vista como indigna. A ausência de profetismo, de um Deus transcendente e de uma ética de vocação intramundana impede a ruptura com a tradição, mantendo a China em um "jardim bem cuidado" de estabilidade, mas sem dinamismo capitalista.

O Taoismo, embora não tenha recebido ensaio dedicado como Confucionismo ou Hinduísmo, aparece em “A religião da China: Confucionismo e Taoismo”, 1915, como contraponto místico à ética racional confuciana, representando uma racionalização mística-contemplativa que rejeita tanto a tensão com o mundo quanto a adaptação hierárquica. Para Weber, o taoista busca harmonia com o Tao (o caminho natural, inefável) por meio da não-ação (wu wei), da simplicidade e da rejeição ao esforço deliberado. O sábio taoista não calcula, não acumula, não inova: ele flui com a ordem cósmica, evitando conflitos e ambições. Essa ética é antirracional no sentido ocidental: recusa planejamento, vocação profissional ou ascetismo metódico. A imortalidade é alcançada por técnicas respiratórias, alquimia interna ou retiro na montanha, não por trabalho no mundo. O comerciante ou burocrata taoista age por necessidade, nunca por dever ético-religioso. O Taoismo reforça essa estagnação com sua ética de wu wei (não-ação): o sábio flui com o Tao, rejeitando planejamento ou acumulação racional.

Nenhum dos dois (nem Confúcio, nem Lao-Tsé) produz a tensão com o mundo que o calvinismo converte em motor capitalista. Weber contrasta isso com o confucionismo: enquanto o mandarim confuciano administra o mundo com ritual e dever, o taoista se retira dele ou o aceita passivamente. Nenhum dos dois gera a tensão ética necessária ao capitalismo: o confuciano por excesso de adaptação, o taoista por excesso de contemplação. A China, assim, permanece presa entre ordem burocrática estática (Confúcio) e misticismo irracional (Tao), sem o "impulso profético" que rompe tradições.

O Hinduísmo indiano oferece uma racionalização como fuga do mundo: o ciclo do karma e da reencarnação, combinado com o sistema de castas, transforma a desigualdade em lei cósmica, desencorajando mobilidade social e acumulação racional. O brâmane busca salvação por conhecimento ou ascetismo extramundano, não por trabalho metódico; o comerciante (vaishya) acumula, mas sem ética vocacional universal.

O Budismo leva essa fuga ao extremo: a iluminação é nirvana, dissolução do eu, incompatível com ação racional no mundo; monges mendicantes vivem de esmolas, e leigos acumulam mérito para melhor renascimento, não para reinvestir.

O Judaísmo antigo, em contraste, desenvolve uma racionalização em tensão com o mundo, mas direcionada à comunidade eleita, não à humanidade. O Deus pessoal e transcendente cria um pacto: obediência à Lei em troca de bênçãos materiais. A ética é rigorosa (proibição de usura entre irmãos, preservar o sábado, dieta), mas intramundana: Riqueza é sinal de favor divino, desde que usada para a nação. O profetismo gera expectativa messiânica e rejeição da magia, mas o universalismo é limitado: O judeu é “pária racional” em diáspora, acumulando por necessidade, não por vocação universal.

O Islamismo foi estudado por Weber no artigo Der Islam, 1915-1917, mas Weber morreu antes de finalizar o volume. No Islamismo temos a combinação de elementos guerreiros e proféticos: o guerreiro santo luta pela umma, mas a salvação é por submissão, não por trabalho metódico. Umma (em árabe: أمة) é o termo que designa a comunidade global dos muçulmanos, unida pela fé no Corão (por vezes traduzido como Alcorão) e na liderança do profeta Maomé. Para Weber, o guerreiro santo (o gazi ou mujahid) não luta por nação, tribo ou ganho pessoal, mas pela expansão e defesa da umma (a irmandade transcendente que ultrapassa fronteiras étnicas e políticas). É o equivalente islâmico do "povo eleito" judaico, mas com vocação universalista e militar. A ausência de ascetismo intramundano e a aceitação do prazer (poligamia, harém) bloqueiam a racionalização capitalista, apesar do comércio árabe.

O protestantismo ascético (especialmente calvinismo e semelhantes) é o único a gerar racionalização intramundana universal: Predestinação + vocação + ascetismo = trabalho como prova de eleição, lucro reinvestido, rejeição do gozo. Nenhum outro sistema combina tensão com o mundo, ética vocacional e universalismo ético. Weber não julga superioridade moral, apenas afinidade eletiva com o capitalismo. A secularização posterior transforma essa ética em "espírito do capitalismo" sem Deus, mas retendo a disciplina. No Brasil, sincretismo católico-protestante (ex.: evangélicos empreendedores) ilustra hibridismos weberianos.

 

7- A Vocação do Professor: Ciência como profissão (Beruf) em Weber

 

Em “A ciência como vocação”, palestra proferida em 7 de novembro de 1917 na Universidade de Munique e publicada em 1919, Max Weber dirige-se a estudantes inquietos com a guerra (“A Grande Guerra”, mais tarde conhecida como “Primeira Guerra Mundial) e a crise alemã, definindo a ciência como profissão (Beruf), não um hobby, não missão sagrada, mas trabalho racional especializado em um mundo desencantado, já que livre do Divino. Mas cabe uma ressalva aqui. O desencantamento é algo diferente do mero ateísmo. O desencantamento é a eliminação da magia presente no mundo, mas algum entendimento sobre a existência de deus pode existir, como ocorre no agnosticismo metodológico.

Diferente da “Política como vocação” (1919), aqui o foco é o intelectual, não o líder político. Weber desmistifica três ilusões românticas: a ciência não dá sentido à vida, não substitui a religião, e não garante progresso moral.

O desencantamento do mundo (Entzauberung der Welt), processo iniciado com o profetismo judaico, acelerado pela Reforma e consumado pela modernidade, eliminou a magia, o milagre e o mistério, deixando apenas o cálculo frio. A ciência é especialização: O professor não é profeta, guru ou salvador, mas o técnico do conhecimento, limitado a esclarecer meios para fins que o aluno escolhe por si.

A vocação científica exige três qualidades: Paixão controlada (entusiasmo pelo problema, não pela glória), clareza metódica (rigor lógico, não inspiração) e honestidade intelectual (reconhecer limites). O cientista trabalha com hipóteses refutáveis, não verdades eternas: "O que hoje é verdade, amanhã pode ser falso". A universidade não forma "personalidades completas", mas especialistas. O médico sabe do corpo, não da alma; o economista calcula, não julga. Weber ironiza o "professor carismático" que se vê como líder espiritual: Ele deve esclarecer, não converter. O aluno maduro escolhe seus valores; o imaturo busca ídolos. A ciência avança por progresso técnico, não moral. A ciência permite a construção de armas de destruição em massa e isto faz parte de seu desenvolvimento técnico, mas o uso ou não de tais armas ou quando usá-las já ultrapassa a ciência, recaindo no âmbito político, ético e moral.

Weber responde à pergunta crucial: "O que a ciência pode fazer por nós?" E neste momento subdivide esta questão em três pontos: O método, as ferramentas e os limites. O método nos permite pensar de modo claro e objetivo. As ferramentas nos proporcionam os meios para atingirmos os fins. Aqui temos a tecnologia, a estatística, etc. Os limites da ciência não nos permitem responder a pergunta sobre o que devemos fazer ou como devemos viver.

A ciência é profissão, não vocação no sentido religioso: O puritano trabalhava para provar eleição; o cientista trabalha porque não pode fazer outra coisa, é sua paixão racional. Mas o mundo está desencantado: Não há sentido último na equação ou no laboratório. O professor honesto diz: "Eu sei isso; além, é fé ou escolha sua." O que de certa forma nos faz lembrar do filósofo Kant com os limites da razão humana.

Afinal, quem busca por profetas, que vá a igreja, os estudos científicos são para quem busca clareza e objetividade racional. A religião busca a salvação, a ciência não. O professor em uma universidade não é um formador de cidadania, mas pode ser um estudioso da ética, por sua vez, não cabe ao aluno buscar por sentido, mas sim por competência crítica. No Brasil, o professor que "doutrina" ideologicamente viola a vocação weberiana; o que ensina método cumpre-a.

E nisto se resume a vocação pela ciência, diferente, portanto, da vocação religiosa. A vocação (Beruf) científica é secularização da vocação puritana: Trabalho como dever, sem salvação.

 

8- A Vocação do Político: Ética e Poder em Max Weber

 

Também interessante a reflexão feita por Weber em “A política como vocação”, que o Estado possui o monopólio do uso legítimo da violência física. Em “Política como Vocação”, palestra proferida em 28 de janeiro de 1919 na Universidade de Munique e publicada no mesmo ano, Max Weber define o político como aquele que vive da e para a política, exercendo liderança em um mundo onde o poder é inevitável e a violência é seu instrumento último.

Diferente da “Ciência como vocação”, aqui a vocação (Beruf) exige três qualidades decisivas: Paixão (pelo fim), responsabilidade (pelos meios) e senso de proporção (equilíbrio entre ambos). O político não é técnico nem profeta, ele é líder responsável que assume as consequências de seus atos, especialmente quando usa a violência física legítima (physischer Gewaltsamkeit).

Weber define o Estado moderno por quatro traços inseparáveis: 1- Território delimitado, no qual temos fronteiras fixas, não tribais. 2- Governo soberano, com autoridade central, não fragmentada. 3- Monopólio legítimo da violência física, só o Estado pode coagir legalmente. 4- Administração contínua, por meio de uma burocracia racional-legal.

Uma frase célebre resume sua visão sobre este tema: "Estado é a comunidade humana que, dentro de um determinado território, reclama para si o monopólio da violência física legítima." Essa legitimidade distingue o uso da violência feita pelo Estado da feita pelo criminoso ou revolucionário. O político legítimo usa a violência como meio último, nunca fim em si, e responde por ela perante a história.

Weber distingue duas éticas irreconciliáveis: 1- Ética da convicção (Gesinnungsethik), na qual se age por princípio, mesmo que cause mal, como no caso do pacifista que recusa guerra, negando sua participação em defesa de seu país. 2- Ética da responsabilidade (Verantwortungsethik), que age pelo resultado, assumindo o mal necessário, como no caso do líder que ordena bombardeio para salvar mais vidas e vencer uma batalha ou guerra.

O político maduro combina ambas formas de ética, a paixão pela causa, mas de olho nas consequências. Quem não suporta o "diabo" (violência, mentira, traição) deve sair da política. O demagogo carismático seduz; o burocrata obedece; o político vocacionado decide, e ao decidir, paga o preço.

Podemos aqui fazer uma comparação do uso do termo “violência” feito por Weber com Sorel. Georges Sorel, em “Reflexões sobre a violência”, 1908, faz a distinção entre força e violência. A força caberia ao Estado, já a violência ao proletariado. Sorel exalta a violência proletária como mito mobilizador, greve geral como ato ético puro, redentor. O termo exato usado por Max Weber em sua famosa definição do Estado, presente na palestra Politik als Beruf (“Política como vocação”, 1919), é derivado de "Gewalt", especificamente "physischer Gewaltsamkeit", que se refere à "violência física" ou "coerção física violenta". Essa definição enfatiza o Estado como a comunidade humana que reivindica com sucesso o monopólio da violência física legítima dentro de um território, sendo a única fonte autorizada para tal direito. Em alemão, "Gewalt" não é sinônimo direto de "força" no sentido neutro ou físico genérico (que seria mais próximo de "Kraft" ou "Macht"). "Gewalt" carrega uma conotação de violência, coerção ou força aplicada de modo potencialmente agressivo ou impositivo, especialmente no contexto sociológico e político de Weber. Ele usa "physischer Gewaltsamkeit" para especificar a dimensão física dessa violência/coerção, distinguindo-a de outras formas de poder (Exemplo: Influência econômica ou cultural). Isso reflete sua visão do Estado como entidade que monopoliza o uso legítimo da violência para manter a ordem, contrastando com sociedades pré-modernas onde grupos privados (Exemplo: Clãs ou senhores feudais) podiam exercer tal direito. Em inglês, é comumente traduzido como "monopoly of the legitimate use of physical violence". Em português, a tradução mais fiel e usual é "monopólio da violência física legítima" ou simplesmente "monopólio da violência legítima". Edições brasileiras clássicas adotam "violência", pois captura o tom coercitivo e potencialmente repressivo que Weber implica, não uma "força" abstrata ou neutra, mas uma capacidade de imposição física que pode envolver dor, punição ou morte (Exemplo: Polícia, exército). "Força física" é uma alternativa possível em algumas interpretações mais suaves, mas perde a nuance crítica de Weber, que via a modernidade como racionalização dessa violência em estruturas burocráticas. O termo "força física" não está errado, mas impreciso. Captura o "physischer" (Físico), mas ignora que "Gewalt" implica um elemento de dominação violenta, não mero poder mecânico. Em obras como “Economia e sociedade”, Weber expande isso para tipos de dominação (Racional-legal, onde a violência é burocratizada), reforçando "violência" como termo chave. Em Weber o Estado legitima o que em outros contextos seria visto como violência ilegítima, como execuções ou guerras.

Weber conclui: A política é luta lenta pelo poder, feita com a cabeça, o coração e a mão no gatilho, mas nunca sem alma. Quem quer pureza, vá ao mosteiro; quem quer mudar o mundo, assuma o diabo.

 

9- Diferença entre ciências humanas e da natureza

 

Em “A objetividade do conhecimento nas ciências e na política social”, 1904, ensaio metodológico publicado no Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik, Max Weber funda a epistemologia das ciências culturais (Kulturwissenschaften), distinguindo-as radicalmente das ciências naturais sem negar sua cientificidade. A diferença não é de rigor ou objetividade, mas de objeto e método: As ciências naturais buscam leis gerais e regularidades nomológicas; as ciências humanas (ou sociais) buscam compreensão de sentidos individuais em contextos históricos únicos. Cabe ressaltar que o termo alemão Verstehen (compreensão) se diferencia de Erklären (explicar).

As ciências naturais operam com abstração causal: Isolam variáveis, repetem experimentos, formulam leis universais ("sempre que A, então B"). O físico mede a queda de corpos; o químico prevê reações. O objeto é repetível, impessoal, desprovido de sentido subjetivo. Já as ciências humanas lidam com ações dotadas de sentido. O economista não prevê “o” preço, mas o comportamento de agentes que atribuem significado ao dinheiro; o historiador não explica “a” revolução, mas esta revolução francesa, com seus atores, crenças e contingências. O objeto é singular, histórico, carregado de valor.

Weber rejeita o Positivismo presente em Augusto Comte e Durkheim (Fatos sociais como coisas) e o historicismo rankeano, ou seja, a abordagem historiográfica de Leopold von Ranke (1795-1886), mera narrativa sem conceito.

Weber propõe uma síntese. 1- Os tipos ideais, construções lógicas e exageradas, para medir a realidade, não descrevê-la. Como exemplo de tipos ideais podemos citar o capitalismo e a burocracia enquanto conceito referentes a algo. 2- Compreensão causal (erklärendes Verstehen), entender o sentido subjetivo + explicar sua causalidade. 3- Neutralidade axiológica, o cientista seleciona fatos por relevância cultural, mas não julga valores.

Como exemplo para as ciências naturais podemos pensar na temperatura de ebulição da água em condições normais de temperatura e pressão, uma lei que afirma ser esta sempre 100ºC. Já para as ciências humanas podemos pensar no fato histórico de Martinho Lutero afixar suas 95 teses na porta da igreja. Isto que faz Lutero possui um sentido, que pode ser encontrado em um protesto teológico. Possui uma causa que pode ser encontrada na corrupção papal, na imprensa, na angústia diante da salvação cristã.

A cientificidade das ciências humanas está na transparência metodológica: Hipóteses refutáveis, fontes criticadas, causalidade plausível. Não há leis universais ("Sempre que crise religiosa, então capitalismo" – A implica em B), mas sequências históricas compreensíveis. O historicismo weberiano é crítico: O passado não se repete, mas ilumina o presente por analogia controlada.

Weber ensina: Nem lei, nem poesia. Em seu lugar compreensão racional de ações significativas. A sociologia não prevê o futuro, mas esclarece o presente por meio do passado interpretado.

 

10- A essência da sociologia, semelhança e diferenças fundamentais entre os seus principais fundadores: Comte, Durkheim, Simmel, Weber e Marx.

 

Em sua crítica metodológica e na introdução de “Economia e sociedade”, Max Weber (1864-1920) define a essência da sociologia como ciência compreensiva da ação social: Estudar sentidos subjetivos que indivíduos atribuem às suas condutas, em contextos históricos concretos, por meio de tipos ideais, compreensão causal e neutralidade axiológica. A sociologia não é filosofia, nem história, nem economia, é interdisciplinar, mas com objeto próprio: A teia de ações significativas que constitui a sociedade.

Auguste Comte (1798-1857), criador do Positivismo, via a sociologia como ciência positiva das leis sociais, última etapa do progresso humano após teologia e metafísica. Semelhança: Todos querem cientificidade. Diferença: Comte busca leis universais ("Sempre que A, então B"), como física; Weber rejeita: "Não há leis sociológicas no sentido presente nas ciências naturais." Para Comte, a sociedade é organismo; para Weber, ação individual com sentido.

Émile Durkheim (1858-1917) funda conjuntamente com Comte a sociologia francesa. Afirma os fatos sociais como coisas.  O fato social é externo, geral e coercitivo. Semelhança: Rigor metodológico. Diferença: Durkheim explica do coletivo para o individual (Exemplo: Suicídio por integração); Weber, do individual para o coletivo (Sentido subjetivo gera instituições). Durkheim é holista; Weber, individualista metodológico.

Georg Simmel (1858-1918), estuda formas de interação (Dupla, tríade, segredo, moda, etc.) independentemente de conteúdo. Semelhança com Weber: Foco na ação recíproca. Diferença: Simmel é formalista estético (Interações como geometria social); Weber, causal-compreensivo (Sentido + contexto histórico). Simmel evita tipos ideais; Weber os sistematiza. Simmel vê a sociedade como jogo de formas (Exemplo: O estranho, o pobre); Weber, como processo histórico-causal (Exemplo: Racionalização).

Karl Marx (1818-1883) explica a história por lutas de classes e modos de produção. Semelhança: ambos veem conflito e racionalização. Diferença radical: Marx é materialista histórico (base determina superestrutura); Para Marx a economia é determinante e dela surge a religião, inclusive a protestante calvinista, já para Weber o calvinismo, o puritanismo e outras formas de protestantismo favorecem o surgimento do capitalismo ao criarem condições favoráveis para o mesmo. Weber, multicausal (ética protestante + direito romano + cidades = capitalismo). Marx quer revolução; Weber, compreensão neutra. Weber usa afinidade eletiva (Wahlverwandtschaft): ética protestante não causa, mas se alia a condições materiais. Marx diria: "A religião é ópio do povo"; Weber: "Às vezes, é motor da história."

Max Weber ao seu modo sintetiza e ultrapassa o pensamento de Comte, Durkheim, Simmel e Marx. Weber aceita o rigor, mas rejeita as leis presentes na sociologia proposta por Comte. Aceita os fatos sociais presentes em Durkheim, mas vê neles um sentido individual. Aceita a interação presente na obra de Simmel, mas a partir de uma causalidade histórica. Reconhece a importância da economia presente em Marx, mas não como fator único determinante, buscando em seu trabalho a ética, a dominação e o desenvolvimento das religiões enquanto influências sociais que afetam o surgimento de modelos econômicos.

Em síntese, Weber usa ideias desenvolvidas pelos demais pesquisadores na área da sociologia, como é o caso da cientificidade presente em Comte, dos fatos sociais presentes em Durkheim, da interação presente em Simmel, do conflito econômico presente em Marx. No entanto, vai além destes pesquisadores, fazendo uso de outras ideias, tais como: seu conceito de ação individual com sentido, a multicausalidade, a neutralidade.

 

11- Algumas de suas principais obras

 

1- Die Verhältnisse der Landarbeiter im Ostelbischen Deutschland. Título traduzido para o português: As relações dos trabalhadores rurais na Alemanha Oriental do Elba. Data da primeira publicação: 1892.

Neste trabalho temos uma pesquisa empírica que foi encomendada sobre as condições de vida e trabalho dos trabalhadores agrícolas na região leste da Prússia, destacando migrações sazonais, exploração econômica e tensões sociais entre latifundiários junkers (aristocratas alemães que eram a nobreza de proprietários de terras e militares na Alemanha pré-1918) e mão de obra polonesa, revelando as bases para Weber entender desigualdades rurais e o impacto do capitalismo agrário na estrutura social alemã.

2- Die protestantische Ethik und der Geist des Kapitalismus. Título traduzido para o português: A ética protestante e o espírito do capitalismo. Data da primeira publicação:  1904-1905 (publicado em ensaios na revista Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik; edição em livro em 1920).

Nessa análise Weber estuda como o ascetismo protestante, especialmente o calvinismo, produziu uma mentalidade racional e disciplinada que impulsionou o surgimento do capitalismo contemporâneo, transformando o trabalho em vocação divina e a acumulação de riqueza em sinal de salvação, contrastando, deste modo, com visões puramente materialistas da economia.

3- Wissenschaft als Beruf. Título traduzido para o português: A ciência como vocação. Conferência proferida em 1917 e publicado em 1919.

Aqui temos uma palestra na qual Weber discute o papel da ciência na sociedade, argumentando que esta deve se limitar a fatos empíricos e análise racional, sem pretender oferecer sentidos últimos para a vida, alertando para o "desencantamento do mundo" pela burocratização e especialização, e enfatizando a paixão ética pelo conhecimento em um mundo polivalente de valores.

4- Politik als Beruf. Título traduzido para o português: A política como vocação. Data da primeira publicação: 1919.

Aqui, Weber define a política como a luta pelo poder estatal, distinguindo três tipos de dominação (tradicional, carismática e racional-legal), e explora as tensões éticas entre convicção (agindo por princípios absolutos) e responsabilidade (considerando consequências), defendendo uma abordagem realista para o político em um Estado monopolizador da violência legítima.

5- Wirtschaft und Gesellschaft. Título traduzido para o português: Economia e sociedade. Data da primeira publicação: 1921-1922 (póstuma; compilada e editada por Marianne Weber a partir de manuscritos de 1910-1920).

Essa obra, deveras importante, mas inacabada, organiza conceitos sociológicos fundamentais como ação social (tradicional, afetiva, racional), tipos de dominação (tradicional, carismática e racional-legal), burocracia como forma eficiente (mas potencialmente opressora) e relações entre economia, direito e religião, oferecendo ferramentas analíticas para compreender estruturas sociais complexas e o processo de racionalização ocidental.

6- Gesammelte Aufsätze zur Religionssoziologie. Título traduzido para o português: Ensaios reunidos sobre a sociologia da religião. Data da primeira publicação: 1920-1921 (compilação póstuma de textos escritos entre 1904-1917).

Essa coletânea examina o papel das religiões mundiais no desenvolvimento social, comparando protestantismo, confucionismo, hinduísmo e judaísmo antigo. Weber argumenta que ideias religiosas moldam condutas econômicas e éticas, com foco na racionalização ética do Ocidente e no impacto de salvacionismos na formação de elites intelectuais e também econômicas.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 


 


 


 


 


 


 


 

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua autoria)

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Georges Sorel: Vida, Ideias e Influência no Sindicalismo Revolucionário e Movimentos de Esquerda Contemporâneos

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Georges Sorel

 

1- Vida

 

Georges Eugène Sorel (1847-1922) nasceu em Cherbourg, hoje Cherbourg-en-Cotentin, França e falece aos 74 anos de idade em Boulogne-Billancourt, França. É proveniente de uma família de classe média ligada ao comércio. Seu pai era um empresário local. Desde cedo, Sorel demonstrou aptidão para os estudos, o que o levou a se mudar para Paris em 1864, aos 17 anos, para frequentar o Collège Rollin, uma instituição preparatória de prestígio. Em 1865, ingressou na renomada École Polytechnique, onde se formou em engenharia civil. Foi escritor e atuou como teórico do sindicalismo revolucionário de esquerda ou anarco-sindicalismo.


 

Após concluir os estudos, em 1869, Sorel ingressou como engenheiro no Departamento de Obras Públicas do governo francês, vindo a ocupar o cargo de engenheiro-chefe. Seus primeiros anos de carreira foram marcados por uma série de atribuições em regiões periféricas da França e suas colônias. Ele passou um período em Córsega até 1871, seguido por postos no sul do país, incluindo cidades como Albi, Gap e Draguignan. Entre 1876 e 1879, serviu em Mostaganem, na Argélia, uma experiência que o expôs a realidades coloniais e sociais diversificadas. Seus últimos anos profissionais foram em Perpignan, onde permaneceu até sua aposentadoria precoce em 1892, aos 45 anos, por escolha pessoal e não motivada por circunstâncias externas fora de seu controle. Nesse ano, recebeu a condecoração da Légion d'Honneur por seus serviços. Com uma pensão modesta, Sorel pôde se dedicar integralmente à reflexão intelectual, mudando-se para Boulogne-sur-Seine, nos arredores de Paris, onde viveu com sua companheira, Marie David (nasceu por volta de 1855 e faleceu em 1897), uma mulher de origem operária que exerceu influência significativa em suas visões sociais e pessoais, com quem manteve uma relação estável e não convencional para a época. Quando de seu falecimento, Sorel se viu profundamente afetado e isto o impulsionou ainda mais para o engajamento com questões sociais.

O ponto de virada na vida de Sorel ocorreu por volta dos 40 anos, quando ele começou a se interessar por temas sociais, econômicos e filosóficos, abandonando gradualmente sua visão conservadora-liberal inicial. Influenciado por pensadores como Pierre-Joseph Proudhon, Karl Marx, Giambattista Vico, Henri Bergson e, mais tarde, William James, ele desenvolveu uma abordagem única ao pensamento político. Bergson, em particular, cujas aulas no Collège de France Sorel frequentou, inspirou sua ênfase na intuição e na criatividade humana. Em 1893, ele se declarou publicamente marxista e socialista, contribuindo para jornais e revistas emergentes do movimento, como L’Ère nouvelle e Le Devenir Social. Entre os anos de 1895 e 1897 atuou como editor da revista francesa “Le devenir social”. Nesta época sua proposta era de divulgar o que considerava essencial dentro da teoria marxista.

Participou ativamente dos debates revisionistas iniciados por Eduard Bernstein, questionando dogmas marxistas tradicionais. Durante o Caso Dreyfus, no final da década de 1890, Sorel defendeu o capitão Alfred Dreyfus, alinhando-se com intelectuais progressistas como seu amigo Charles Péguy, embora mais tarde expressasse desilusão com os resultados políticos deste episódio, vendo-a como uma oportunidade perdida para transformação social profunda.

Ao longo da primeira década do século XX, Sorel evoluiu para o sindicalismo revolucionário, rejeitando o parlamentarismo e a democracia representativa como compatíveis com o socialismo verdadeiro. Ele argumentava que o sindicalismo, baseado em sindicatos operários autônomos, era o caminho para a revolução proletária. Suas ideias foram publicadas em periódicos italianos e franceses, como Il Divenire sociale e Mouvement socialiste. Em 1905, começou a publicar por partes o que se tornaria sua obra mais famosa, "Reflexões sobre a Violência", lançada como livro em 1908, ao lado de "As Ilusões do Progresso". Nesses textos, ele defendeu o conceito de "mito" como força mobilizadora das massas, sugerindo que narrativas épicas, como a greve geral, poderiam inspirar ação coletiva sem necessidade de planos racionais detalhados. Ele via a violência proletária não como destruição gratuita, mas como um meio de preservar a divisão de classes e fomentar a moral revolucionária.

Politicamente, Sorel apresentou-se como inconstante e eclético. Entre 1909 e 1910, teve uma breve associação com o grupo monarquista Action Française, de Charles Maurras, embora discordasse de seu nacionalismo exacerbado. Essa colaboração influenciou a criação do Cercle Proudhon, um fórum que unia sindicalistas revolucionários e conservadores radicais. Em 1911, fundou a revista L'Indépendance com colegas como Édouard Berth e Georges Valois, mas desentendimentos, especialmente sobre o nacionalismo, levaram ao seu fim em 1913. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), opôs-se à "União Sagrada" francesa, que unia esquerda e direita contra a Alemanha. Em 1917, saudou a Revolução Russa, elogiando os bolcheviques em artigos para publicações soviéticas e italianas, comparando Lenin a Pedro, o Grande, por sua capacidade de transformação radical. Em seus anos finais, expressou admiração por Benito Mussolini em 1921, vendo nele um gênio político, embora criticasse aspectos do fascismo emergente, como sua desordem. O fascismo italiano deve muito ao trabalho de Sorel, tendo em parte nele se influenciado.

Sorel passou de um realismo científico inicial para um anti-positivismo e proto-pragmatismo. Influenciado por Vico, enfatizou que o conhecimento social surge da ação coletiva, não de leis deterministas. Seus trabalhos exploraram temas variados, desde hidrologia e arquitetura em sua fase inicial até filosofia da ciência, história política e moral. Publicou livros como "Contribuição ao estudo profano da Bíblia", 1889, "Questões de moral", 1900, "A ruína do mundo antigo", 1902, e "Materiais para uma teoria do proletariado", 1919. Sua epistemologia evoluiu para abraçar o pragmatismo americano, culminando em "Da utilidade do Pragmatismo", 1921, onde defendeu uma teoria do conhecimento vinculada à prática.

Sorel deixou um legado polêmico. Suas ideias inspiraram a esquerda radical revolucionária, o fascismo italiano de Benito Mussolini e movimentos sindicalistas. Embora nunca tenha fundado um movimento próprio, sua ênfase no seu conceito de mito, na violência transformadora criativa e em debates sobre ideologia e ação política, apresentam uma contribuição significativa que exerceu profunda influência na formação de movimentos políticos e nas estratégias ainda adotadas hoje, em particular pela esquerda política e seu braço mais violento que faz uso natural da violência em suas manifestações públicas.

 

2- Ideias e conceitos

 

Sua obra marcou o pensamento político e social do final do século XIX e início do XX, especialmente por sua abordagem original ao socialismo, sindicalismo revolucionário e filosofia da ação. Suas ideias, caracterizadas por uma combinação de marxismo, anti-positivismo, influências de Proudhon, Bergson e Vico, e mais tarde do Pragmatismo, rejeitavam ortodoxias ideológicas e propunham uma visão dinâmica da transformação social. Georges Sorel teve influência e popularidade na França, Itália e nos EUA. Ele pode ser considerado um marxista heterodoxo que sofreu grande influência de Proudhon, dentre outros. Suas múltiplas influências teóricas o tornaram polêmico e, por vezes, visto como eclético.

Ao se fixar na metáfora da “guerra” para tratar da luta de classes, entende quase de modo literal esta “guerra”, já que não considera producentes ações democráticas e parlamentares (socialismo parlamentar; participação dos socialistas no sistema eleitoral, etc.), buscando ações diretas e violentas. Não se trata aqui, segundo o autor, do uso da “força”, esta ainda instrumento presente em uma dada ordem social na qual uma minoria controla uma maioria, mas sim da “violência”, enquanto meio de destruição completa desta mesma ordem social.

Sorel entende que o desenvolvimento histórico da sociedade não é algo inevitável ou que siga regras determinísticas ou mesmo se atenha a uma providência divina. Segundo Sorel trata-se aqui de um desenvolvimento fruto de uma ação heroica e violenta que busca de modo constante restaurar a civilização da decadência. O ponto crucial sempre se encontra junto à ação criadora humana diante da história, por meio do uso da violência e do sacrifício em busca da conquista de objetivos. Deste modo, ao contrário dos marxistas que entendiam que a marcha natural da história levaria de modo determinístico a uma revolução do proletariado e a criação de uma sociedade comunista, Sorel entendia que era justamente o oposto, ou seja, que a própria revolução, obtida por meios violentos, fará a história avançar. Enquanto Marx e Engels apontam a “cientificidade” presente no comunismo, Sorel recusa esta premissa e se atem ao que entende ser o espontaneísmo da ação política presente nas massas operárias que levaria em algum momento a uma greve geral do proletariado que teria como resultado a abolição definitiva do capitalismo, sem, no entanto, a necessidade disto passar primeiro pela construção de um partido político revolucionário que tenha como meta a condução dos trabalhadores para a tomada do poder do Estado.

Influenciado por Marx, Sorel adotou uma visão materialista da história, mas com nuances próprias. Ele via as transformações sociais como impulsionadas por conflitos econômicos e de classe, mas enfatizava a ação dos trabalhadores e a importância da ação direta, em vez de esperar por determinismos históricos. Em “A Ruína do mundo antigo”, 1902, Sorel analisa o colapso do Império Romano como resultado de mudanças nas relações econômicas, como a crise da agricultura escravista. Ele usa esse exemplo para argumentar que as revoluções contemporâneas dependeriam de ações proletárias conscientes. Aqui entra a discussão efetuada em seu livro “Reflexões sobre a violência”, no sentido em que entende que o processo de evolução social não é determinado por uma dialética, como entenderam Marx e Engels baseados em uma interpretação de Hegel, nem por outro lado fruto de uma evolução natural da sociedade que implique uma necessidade, em verdade, esta evolução social em direção ao socialismo / comunismo deverá ocorrer por meio da violência.

Em vez de buscar uma análise das condições (objetivas e subjetivas) presentes no sistema econômico vigente para obter a sua transformação, busca Sorel uma teoria da ação revolucionária dentro do contexto da luta de classes. Para isto ser obtido não é necessário um partido político e sim a organização sindical. Sorel entende que a mera participação política e representativa nas instituições por parte do proletariado não é eficiente na luta pela transformação social.

Sorel era profundamente cético em relação à democracia representativa, que ele via como uma ferramenta da burguesia para neutralizar o potencial revolucionário do proletariado. Ele acreditava que os parlamentos e partidos socialistas reformistas diluíam a luta de classes, integrando os trabalhadores ao sistema capitalista. Em seus artigos no periódico Mouvement socialiste, Sorel criticava os socialistas franceses, como Jean Jaurès, que defendiam reformas através do parlamento. Ele apontava que a participação eleitoral enfraquecia movimentos como a CGT, desviando a energia dos trabalhadores para negociações com a elite política, como visto nas alianças socialistas durante o Caso Dreyfus.

Inspirado por Giambattista Vico, Sorel via a história como um processo criativo, moldado pelas ações e crenças humanas, em vez de um desenrolar de leis universais. Ele enfatizava a importância das narrativas culturais e dos mitos na construção da realidade social. Em “De Aristóteles a Marx” (compilação de escritos publicada postumamente em 1935), Sorel compara as visões de Vico sobre a história cíclica com as ideias de Marx sobre luta de classes. Ele sugere que os trabalhadores contemporâneos, como os antigos romanos descritos por Vico, criam suas próprias instituições (como sindicatos) para moldar o futuro, em vez de seguir um destino predeterminado.

A evolução que venha a permitir este enfrentamento das camadas proletárias contra o sistema deverá surgir a partir do desenvolvimento da consciência e não meramente de condições econômicas ou políticas. A mobilização do proletariado se daria de modo irracional e não a partir de análises racionais sobre as condições de trabalho e esta consciência coletiva irá se manifestar de modo violento pela força do mito. Seu sindicalismo revolucionário encontra sua base na ação direta das massas operárias.

Ao aderir a um sindicalismo revolucionário adotou como estratégia que a revolução não ocorreria como os teóricos marxistas apontavam, ou seja, por meio de uma tomada do Estado pelo proletariado e a subsequente criação de uma ditadura do proletariado. No lugar desta linha de pensamento, entendia Sorel que deveria ocorrer a completa eliminação de toda a estrutura do Estado, caso isto não ocorresse, após a revolução os trabalhadores teriam simplesmente trocado o comando de um grupo de privilegiados para outro, sem nada efetivamente conseguir de mudança real.

Sorel rejeitava a ideia positivista de progresso linear, comum entre liberais e socialistas reformistas de sua época. Ele argumentava que a crença no progresso inevitável era uma ilusão burguesa que desmobilizava os trabalhadores, promovendo a aceitação passiva do status quo. Em vez disso, ele enfatizava a necessidade de ação direta e ruptura com as estruturas existentes. Em “As ilusões do progresso”, 1908, Sorel critica pensadores como Auguste Comte, que viam a história como um avanço contínuo rumo à perfeição social. Ele apontava que o progresso técnico, como a industrialização, frequentemente aprofundava a exploração dos trabalhadores, como nas condições desumanas das fábricas têxteis francesas do final do século XIX, em vez de libertá-los.

Sorel é mais conhecido por sua defesa do sindicalismo revolucionário, uma corrente que via os sindicatos operários como o motor da revolução proletária, em oposição ao socialismo parlamentar ou reformista. Ele acreditava que os sindicatos, organizados de forma autônoma pelos trabalhadores, eram o espaço ideal para desenvolver uma consciência de classe e promover a luta direta contra o capitalismo. Para Sorel, o sindicalismo deveria rejeitar a integração no sistema político burguês, como partidos socialistas que buscavam reformas graduais. Em “Reflexões sobre a violência”, Sorel argumenta que os sindicatos devem organizar greves e ações diretas para desafiar a ordem capitalista. Ele via as greves não apenas como demandas econômicas, mas como atos de afirmação da identidade proletária, capazes de criar uma "moral revolucionária".

Importante é o conceito de “mito revolucionário” desenvolvido por Sorel, segundo o qual este se apresenta como um conjunto de imagens percebidas instantaneamente, intuições, capazes de evocar com a força do instinto o sentimento de luta. Neste contexto de “mito” encaixa Sorel o marxismo. A ideia de “mito” em Sorel está vinculada a algo a semelhança de uma crença irracional e religiosa na ocorrência de alguma coisa, como uma greve geral ou mesmo uma revolução socialista. Esta crença presente no mito tende a impelir em direção à ação e não meramente a uma contemplação ou análise racional dos fatos e do que poderá ocorrer futuramente. O “mito” para Sorel é algo que é aceito por um grupo social como sendo verdadeiro, as pessoas acreditam nele e atuam de acordo com tal crença, independente deste ser realmente verdadeiro ou falso. Neste tocante, qualquer coisa (teoria, religião, etc.) que faça as pessoas assim se comportarem deve ser entendida como sendo um “mito”, como tal é o caso do marxismo e também da religião cristã em suas várias denominações (católicos, protestantes, etc.).

O conceito de mito é talvez a contribuição mais original de Sorel ao pensamento político. Ele definia o mito como uma narrativa poderosa que mobiliza as massas para a ação, independentemente de sua veracidade ou viabilidade prática. Para Sorel, o que importava não era se o mito era "verdadeiro" ou "falso", mas sua capacidade de inspirar crenças profundas e motivar sacrifícios coletivos. Ele via o mito como uma força intuitiva, quase poética, que transcendia a racionalidade positivista e dava sentido à luta social. Embora o mito da greve geral seja o exemplo mais conhecido em sua obra, Sorel aplicava o conceito a outras narrativas, como o marxismo e o cristianismo primitivo. Ele argumentava que essas ideologias funcionavam como mitos porque ofereciam visões épicas de transformação (a revolução socialista ou a salvação espiritual) que mobilizavam seguidores a agir com fervor, mesmo enfrentando adversidades extremas. O mito, para Sorel, era uma "imagem de batalha" que unificava as massas e dava propósito à luta, independentemente de sua realização literal.

Em “Reflexões sobre a violência”, Sorel apresenta a greve geral como o mito central do sindicalismo revolucionário. Ele não a via como um plano concreto a ser executado, mas como uma visão que inspirava os trabalhadores a se unirem contra o capitalismo. Segundo Sorel, narrativas épicas, como a ideia de uma greve geral, não precisam ser racionalmente organizadas ou mesmo factíveis de serem postas em práticas com êxito, mas funcionam como visões inspiradoras que direcionam as massas para a ação. O mito, para Sorel, não é uma utopia detalhada, mas uma imagem poderosa que dá sentido à luta e motiva sacrifícios coletivos. Por exemplo, ele apontava como as greves gerais na França e na Itália no início do século XX, mesmo que não derrubassem o capitalismo, fortaleciam a solidariedade operária e desafiavam a hegemonia burguesa. A crença em uma causa maior, verdadeira ou não, pode impulsionar ações coletivas, alinhando-se com a visão de Sorel.

Sorel desenvolveu os conceitos de “violência” e “mito” como pilares centrais de sua filosofia política, particularmente em sua obra mais influente, “Reflexões sobre a violência”. Sorel defende e exalta a violência na luta de classes. Por meio da violência é possível manter viva a luta de classes, presente entre burguesia e proletariado, realçando esta divisão e simultaneamente empreendendo uma reforma moral do proletariado. Mostra-se contrário à conciliação e paz social, defendendo uma atitude de guerra onde se faça presente a luta de classes. Segundo Sorel, o proletariado não busca por concessões, mas sim pela ruína completa de seus adversários, os burgueses. Para Sorel a violência é entendida como sendo um instrumento libertador das massas proletárias, que são a maioria, de sua exploração por uma minoria, seja esta a burguesia ou uma minoria político-partidária.

Sorel entendia a sociedade burguesa como decadente e buscava o fim do capitalismo por meio da revolução do proletariado, o que permitiria a superação dos valores decadentes e a criação de novos valores morais heroicos provenientes da ação vigorosa do proletariado. Sorel não rejeita os avanços científicos ou industriais, mas sim o controle dos mesmos pela classe operária por meio de uma revolução onde temos presente a violência na destruição de valores decadentes e da corrupção moral burguesa. Sorel busca por tal meio uma renovação moral e espiritual, inspirada em sua fé cristã (católica), que se encontra com elementos de fé, tais como o ascetismo presente nas ordens monásticas, a aceitação e busca da pobreza e de uma vida simples. Isto é o que mais se aproximaria de sua visão de uma futura sociedade humana socialista.

Sorel via a violência proletária como um mecanismo essencial para a reformulação da sociedade, mas sua concepção era distinta de uma apologia à destruição indiscriminada. Para ele, a violência era um ato criativo e moral, uma expressão da vitalidade do proletariado contra a opressão capitalista. Ele a definia como uma força que preservava a divisão de classes, impedindo que os trabalhadores fossem assimilados pela ideologia burguesa. A violência, nesse sentido, não buscava apenas conquistar direitos materiais, mas afirmar a identidade e a dignidade da classe trabalhadora, criando uma "moral revolucionária" que rejeitava os valores individualistas e conciliatórios do capitalismo. Sorel defendeu a violência como um instrumento legítimo da luta de classes, mas com uma interpretação específica: a violência proletária não era destruição gratuita, mas uma forma de afirmar a identidade e a moral dos trabalhadores contra a opressão capitalista. Ele a via como um meio de manter a divisão entre classes, evitando a assimilação do proletariado pela burguesia, e como uma expressão de vitalidade revolucionária.

Sorel distinguia a violência proletária da "força" estatal, que ele considerava opressiva e destinada a manter a ordem burguesa. A violência proletária, por outro lado, era espontânea, coletiva e orientada por um propósito ético: romper com a submissão e inspirar a ação revolucionária. Ele argumentava que, sem a ameaça da violência, os trabalhadores seriam cooptados por reformas paliativas ou pela democracia parlamentar, que ele via como armadilhas para neutralizar o potencial revolucionário.

Em “Reflexões sobre a violência”, Sorel cita as ações diretas dos trabalhadores, como sabotagens ou confrontos com forças patronais, como formas de violência criativa. Ele contrastava essa violência com a repressão estatal, que considerava opressiva. Um exemplo prático seria sua análise das greves violentas na França, como os confrontos entre trabalhadores e polícia durante as greves ferroviárias de 1910, que ele via como demonstrações de resistência proletária. Um exemplo histórico que ele admirava era o movimento dos sindicatos franceses no início do século XX, como a Confédération Générale du Travail (CGT), que organizava greves gerais com forte caráter combativo, em que trabalhadores enfrentaram a polícia e sabotaram infraestruturas. Ele via esses atos como manifestações de resistência que fortaleciam a solidariedade operária e desafiavam a hegemonia capitalista. Por exemplo, a destruição de trilhos ou máquinas durante essas greves não era apenas um protesto econômico, mas um símbolo de recusa à exploração.

Sorel acreditava que o proletariado deveria desenvolver uma moral própria, distinta dos valores burgueses, baseada na solidariedade, na coragem e na luta. Essa moral seria cultivada nas práticas sindicais e na resistência coletiva, rejeitando tanto o individualismo liberal quanto o conformismo promovido por instituições estatais ou religiosas. Em “Materiais para uma teoria do proletariado”, 1919, Sorel destaca o papel das associações operárias em criar uma ética de classe. Ele citava os sindicatos italianos do início do século XX, que organizavam cooperativas e greves, como exemplos de espaços onde os trabalhadores desenvolviam valores de lealdade e sacrifício coletivo, contrastando com a ética competitiva do capitalismo.

Nos últimos anos de sua vida, Sorel abraçou elementos do Pragmatismo, inspirado por William James, e rejeitou o Positivismo determinista. Ele argumentava que o conhecimento não é uma verdade absoluta, mas uma construção derivada da ação prática e da experiência coletiva. Essa visão influenciou sua epistemologia, que via a história e a sociedade como produtos da criatividade humana, não de leis universais. Em “Da utilidade do Pragmatismo”, 1921, Sorel analisa como as ideias revolucionárias surgem da prática, não de teorias abstratas. Ele compara o desenvolvimento do socialismo às inovações tecnológicas, como a criação de máquinas a vapor, que emergiram de experimentações práticas, sugerindo que a luta de classes também se molda por ações concretas, como greves espontâneas.

Sorel é conhecido por sua trajetória intelectual eclética, flertando com diferentes correntes, do socialismo ao nacionalismo, sem se fixar em nenhuma. Ele via méritos em ideias que promovessem ação e ruptura, independentemente de sua origem ideológica, o que o levou a influenciar tanto a esquerda revolucionária quanto a direita radical. Entre 1909 e 1910, Sorel colaborou com a Action Française, de Charles Maurras, atraído por sua crítica à democracia burguesa, mas rompeu devido a divergências sobre o nacionalismo. Mais tarde, em 1921, ele elogiou Mussolini por sua capacidade de mobilizar massas, mas criticou a desordem do fascismo. Esses movimentos refletem sua busca por forças dinâmicas, como a Revolução Russa de 1917, que ele admirava pela liderança de Lenin.

Para Sorel, violência e mito eram interdependentes. O mito da greve geral, por exemplo, inspirava a violência proletária, que, por sua vez, reforçava a narrativa mítica ao demonstrar a força e a determinação dos trabalhadores. Essa interação criava um ciclo de mobilização: o mito dava propósito à violência, e a violência tornava o mito tangível.

 

3- Influências contemporâneas

 

As ideias de Sorel sobre a violência ecoam em movimentos de esquerda atuais que recorrem a táticas disruptivas para desafiar regimes capitalistas ou governos conservadores. Embora muitos desses grupos não citem Sorel diretamente, sua ênfase na ação direta e na ruptura com a ordem estabelecida ressoa com sua filosofia. Esses movimentos frequentemente usam táticas como ocupações, barricadas ou enfrentamentos com forças policiais para desestabilizar sistemas percebidos como opressivos, refletindo a visão de Sorel de que a violência pode ser um catalisador para despertar a consciência de classe e mobilizar as massas. A visão de Sorel sobre a violência é controversa, pois, embora ele a defendesse, não detalhava os limites éticos da mesma, o que levanta questões sobre até onde a violência poderia ser justificada sem degenerar em caos ou repressão.

A influência de Sorel é evidente, mesmo que indireta, em movimentos de esquerda que combinam narrativas míticas com ações violentas ou disruptivas. Grupos como os Black Blocs, que emergiram em protestos antiglobalização na década de 1990, utilizam táticas violentas (como confrontos com a polícia ou destruição de propriedades) inspirados por visões de ruptura sistêmica, ecoando a ideia de Sorel de que a violência é um ato de afirmação contra a opressão. Da mesma forma, narrativas como a luta por justiça social, contra a desigualdade global, contra mudanças climáticas, etc. funcionam como mitos, mobilizando ativistas a ações que desafiam a ordem estabelecida, mesmo sem um plano de atuação ou comprovação das teses defendidas pelo grupo.

No cenário contemporâneo, essa influência é mais perceptível em grupos como a Antifa e o Black Lives Matter (BLM), onde a violência surge como resposta a estruturas percebidas como opressivas (capitalismo, racismo sistêmico ou fascismo). A Antifa (abreviação de "antifascista"), rede descentralizada de ativistas radicais de esquerda, incorpora elementos sorelianos por meio de táticas de confronto direto contra símbolos percebidos como de extrema-direita, polícia e instituições capitalistas. Sorel via a violência como um "mito mobilizador" que une as massas em atos de resistência, similar ao que ocorre na Antifa, onde confrontos físicos (como arremesso de objetos em forças policiais ou vandalismo de propriedades associadas ao "fascismo") são justificados como defesa ética contra a opressão estatal. A influência de Sorel aparece na doutrina da "diversidade de táticas", que permite ações violentas ao lado de protestos pacíficos, ecoando sua distinção entre violência criativa (proletária) e força repressiva (estatal). Estudos sobre anarquismo contemporâneo ligam isso diretamente a Sorel, vendo suas ideias como base teórica para práticas como o Black Bloc, táticas de anonimato em massa durante protestos, usadas para sabotar infraestruturas vistas como opressivas. Por exemplo, Sorel argumentava que a violência proletária "aniquila" o Estado sem buscar tomá-lo, um eco em ações antifa que visam deslegitimar a autoridade policial em vez de reformá-la.

Alguns exemplos podem ser obtidos e citados a partir do contexto presente neste início de século. Protestos do G20 em Hamburgo (2017): Grupos antifa, organizados em Black Blocs, incendiaram veículos e ergueram barricadas contra forças de segurança, causando danos estimados em milhões de euros. Essa violência foi interpretada como resistência transnacional ao capitalismo global, alinhada à visão soreliana de ações que inspiram medo na burguesia e fortalecem a solidariedade operária. Jornadas de Junho no Brasil (2013): O surgimento de Black Blocs em protestos contra aumentos de tarifas e corrupção estatal envolveu vandalismo e confrontos, transformando manifestações em eventos anarquistas que suspendiam a "legitimidade da ordem legal". Ativistas viam isso como "propaganda pelo ato" (um conceito anarquista próximo ao mito soreliano da greve geral), expondo a violência estatal e mobilizando massas. Protestos nos EUA pós-2020: Durante os levantes contra a brutalidade policial, a Antifa foi acusada de transformar protestos antes pacíficos, com ações como a destruição de comissariados e estátuas confederadas. Analistas libertários ligam isso ao sindicalismo soreliano, onde a violência contra instituições capitalistas (como bancos ou propriedades privadas) serve para desestabilizar o sistema, mesmo que resulte em caos. O BLM - Black Lives Matter, movimento global contra o racismo sistêmico e a violência policial, tem uma relação mais ambígua com o conceito soreliano. Oficialmente, o BLM enfatiza protestos não violentos e reformas (como desfinanciamento da polícia), mas elementos radicais dentro do movimento (especialmente em interseções com anarquistas ou anticapitalistas) adotam táticas disruptivas que ecoam a violência como afirmação de dignidade coletiva. Sorel, influenciado por Proudhon, via a violência como preservadora da divisão de classes; analogamente, no BLM, atos de revolta contra o "capitalismo racial" servem para rejeitar a assimilação pacífica à ordem liberal. Levantes de 2020 nos EUA: Após o assassinato de George Floyd, protestos do BLM evoluíram em cidades como Portland e Minneapolis, com incêndios em comissariados e saques a lojas de luxo. Grupos como Antifa se uniram, transformando ações em "sindicalismo marxista", termo usado para descrever violência contra instituições capitalistas, como a queima de veículos da polícia ou destruição de propriedades corporativas. Isso pode ser visto como eco de Sorel: uma "greve geral" urbana que expõe contradições raciais e econômicas, inspirando solidariedade global. Interseções com Antifa: Em Portland (2020-2021), blocos autônomos do BLM-Antifa ocuparam zonas autônomas e confrontaram a Guarda Nacional, justificando a violência como defesa contra "fascismo policial". Analistas conectam isso à herança soreliana via diversidade de táticas, onde a violência é um "motor para o socialismo" contra o Estado opressor. No BLM, porém, a influência é diluída: líderes centrais condenam a violência, mas facções radicais (como o capítulo de Portland) adotam posturas mais sorelianas, vendo confrontos como essenciais para "manter a oposição fundamental" ao racismo capitalista.

A influência de Sorel em Antifa e BLM é mais genealógica que direta (transmitida via anarquismo, marxismo herético e teorias de ação direta), promovendo a violência como ferramenta de empoderamento dos marginalizados contra estruturas opressivas. Isso explica o uso de táticas disruptivas em protestos globais, de Hamburgo a Minneapolis, onde o confronto não visa vitórias eleitorais, mas rupturas simbólicas. A influência aparece na ideia de que a violência não é mero vandalismo, mas uma resposta moral à opressão histórica, similar à "violência proletária" de Sorel que canaliza "sentimentos nobres" da classe oprimida. Embora o BLM não cite Sorel, sua retórica de "queimar tudo" (em contextos de revolta) reflete o mito soreliano: narrativas de libertação (como a abolição do racismo estrutural) mobilizam massas para ações radicais, independentemente de viabilidade imediata. Críticos argumentam que essa "violência criativa" perpetua ciclos de destruição sem transformação sustentável, facilitada por líderes locais relutantes em reprimir. Neste começo de século XXI, com polarização crescente, o legado de Sorel nos lembra que a violência política pode alienar aliados e fortalecer narrativas não fundamentadas, levando ao caos e ao oposto de um autogoverno libertário, cedendo espaço a ditaturas cruéis e sem qualquer liberdade de expressão, com total repressão em nome do mito, seja este o de uma sociedade libertária, do comunismo ou do socialismo, dentre outros.

 

4- ALGUMAS DAS PRINCIPAIS OBRAS DE GEORGES SOREL

 

1- Contribution à l’étude profane de la Bible. Título traduzido: Contribuição ao estudo profano da Bíblia. Data de publicação: 1889.

Nesta obra inicial, Sorel explora a Bíblia sob uma perspectiva histórica e sociológica, desvinculada de interpretações teológicas tradicionais. Ele analisa o contexto social e cultural dos textos bíblicos, utilizando métodos históricos para entender como as narrativas moldaram a moral e a organização social. O livro reflete sua formação inicial como engenheiro e pensador racional, antes de sua guinada ao socialismo.

2- Le Procès de Socrate: Examen critique des thèses socratiques. Título traduzido: O processo de Sócrates: Exame crítico das teses socráticas. Data de publicação: 1889.

Sorel examina o julgamento e as ideias de Sócrates, questionando a idealização do filósofo na tradição ocidental. Ele analisa o impacto das teses socráticas na sociedade ateniense, argumentando que Sócrates desafiou normas estabelecidas, mas também provocou tensões que culminaram em sua condenação. A obra revela o interesse precoce de Sorel pela filosofia e pela história das ideias.

3- Essai sur l’Église et l’État. Título traduzido: Ensaio sobre a Igreja e o Estado. Data de publicação: 1900.

Este ensaio investiga as relações históricas entre instituições religiosas e poder político, com foco na tensão entre autoridade espiritual e secular. Sorel analisa como a Igreja influenciou estruturas políticas na Europa, especialmente na França, e questiona o papel do clero na sociedade moderna e contemporânea. O texto reflete sua transição para questões sociais e políticas mais amplas.

4- La Ruine du monde antique: Conception matérialiste de l’histoire. Título traduzido: A ruína do mundo antigo: Concepção materialista da história. Data de publicação: 1902.

Nesta obra, Sorel adota uma perspectiva materialista para explicar o declínio do Império Romano, enfatizando fatores econômicos e sociais em vez de narrativas morais ou religiosas. Ele explora como mudanças nas estruturas produtivas e nas relações de classe contribuíram para o colapso, antecipando sua adesão ao marxismo e ao estudo das dinâmicas históricas.

5- Introduction à l’économie moderne. Título traduzido: Introdução à economia moderna. Data de publicação: 1903.

Sorel apresenta uma análise crítica das teorias econômicas de seu tempo, combinando influências marxistas com reflexões sobre o impacto do capitalismo industrial. O livro discute a organização do trabalho, a exploração econômica e o papel das classes trabalhadoras, servindo como base para suas ideias posteriores sobre o sindicalismo revolucionário.

6- Les Illusions du progrès. Título traduzido: As ilusões do progresso. Data de publicação: 1908.

Neste texto, Sorel critica a crença otimista no progresso linear propagada por pensadores liberais e positivistas. Ele argumenta que a ideia de progresso contínuo mascara desigualdades sociais e serve aos interesses da burguesia, propondo que apenas ações coletivas radicais podem gerar mudanças significativas. A obra reflete seu ceticismo em relação às ideologias dominantes.

7- Réflexions sur la violence. Título traduzido: Reflexões sobre a violência. Data de publicação: 1908.

Considerada sua obra mais influente, este livro defende o sindicalismo revolucionário e o conceito de "mito" como força mobilizadora. Sorel argumenta que a greve geral, enquanto mito, inspira a ação proletária, e que a violência operária é um meio de afirmar a identidade de classe contra a opressão capitalista. O texto combina filosofia, sociologia e política.

8- Matériaux d’une théorie du prolétariat. Título traduzido: Materiais para uma teoria do proletariado. Data de publicação: 1919.

Nesta coleção de ensaios, Sorel reflete sobre o papel do proletariado na transformação social, enfatizando a autonomia dos trabalhadores e o potencial revolucionário dos sindicatos. Ele discute a moral proletária e a necessidade de uma cultura de classe distinta, consolidando suas ideias sobre o sindicalismo e a ação direta.

9- De l’Utilité du pragmatisme. Título traduzido: Da utilidade do Pragmatismo. Data de publicação: 1921.

Em sua última grande obra, Sorel explora o Pragmatismo, influenciado por William James, como uma abordagem para compreender o conhecimento e a ação social. Ele defende que o conhecimento é construído pela prática coletiva, rejeitando visões positivistas e enfatizando a criatividade humana. O livro marca sua evolução para uma epistemologia mais flexível.

10- D’Aristote à Marx (L’ancienne et la nouvelle métaphysique). Título traduzido: De Aristóteles a Marx (A antiga e a nova metafísica). Data de publicação: Escrito em 1910-1911, publicado postumamente em 1935.

Este trabalho analisa a evolução do pensamento filosófico de Aristóteles a Marx, com ênfase nas concepções metafísicas que moldam as visões de mundo. Sorel conecta ideias clássicas às modernas, destacando como o materialismo histórico de Marx oferece uma nova compreensão da realidade social e da luta de classes.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua autoria)