Textos filosóficos, críticos, comportamentais e sobre arte da escrita, sucesso e auto-ajuda.
Professor Doutor Silvério
Blog: "Comportamento Crítico"
Professor Doutor Silvério
Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.
(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)
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John Locke
(1632-1704) tem como suas principais obras o “Um ensaio sobre o entendimento
humano” (An Essay concerning Human Understanding), de 1689, “Ensaio sobre a
tolerância”, de 1666, “Dois tratados sobre o governo”, de 1689, dentre outros
trabalhos. Os dois principais problemas tratados pela filosofia de Locke são a
origem e o valor do conhecimento. Quanto à origem das ideias, Locke nega a
possibilidade da existência de ideias inatas e nos afirma que todo o nosso
conhecimento provém de nossos sentidos e experiência e que nossa mente ou
intelecto antes de qualquer experiência é uma tabula rasa na qual nada está
escrito. As ideias que temos, por sua vez, podem ser divididas em simples e
complexas, entendemos que as ideias simples provêm da experiência externa
(sensação) ou interna (reflexão). Já por ideia complexa entendemos a
combinação, comparação e ordenamento de ideias simples. Segundo Locke, teríamos
qualidades sensoriais primárias e qualidades sensoriais secundárias. As
qualidades primárias representam as coisas tais como elas de fato são. As
qualidades primárias são inerentes à coisa em si, mas as qualidades sensoriais
secundárias tendem a variar de pessoa para pessoa. Também em problemas e
soluções levantados por outros pensadores, tais como Berkeley e Hume, vemos a
presença de uma leitura atenta às consequências do pensamento de Locke. Todo o
desenvolvimento do liberalismo político posterior é devedor das ideias
propostas por Locke, que irão formar par com as ideias de Adam Smith sobre o
liberalismo econômico em um todo coerente.
Em meus blogs
"Ser Escritor" e "Comportamento Crítico" você encontrará um
artigo / texto de minha autoria que resume as ideias deste vídeo, apresentando
o tema em toda a sua complexidade. Leia:
"Da tábula
rasa ao contrato social, o Empirismo de John Locke".
John Locke (1632-1704)
nasceu em 29 de agosto de 1632 na Inglaterra e veio a falecer em 28 de outubro
de 1704 também na Inglaterra, aos 72 anos de idade. Tem como uma de suas
principais obras o “Um ensaio sobre o entendimento humano” (An Essay concerning Human Understanding),
de 1689, onde apresenta sua teoria sobre o conhecimento humano pautado na
experiência e na percepção da realidade por nossos órgãos de sentidos, bem como
sobre a negação da existência das ideias inatas. Também autor de alguns
trabalhos médicos e do “Ensaio sobre a tolerância”, de 1666, “Dois tratados
sobre o governo”, de 1689, dentre outros trabalhos.
Estudar a obra
de Locke é se deparar com questões profundas e se prioritárias para o século
XVII, são mais ainda atuais para o século XXI, como, por exemplo, a origem e o
valor de nosso conhecimento, a tolerância religiosa e sua relação com a
prosperidade da nação, a educação como preparadora para o viver em sociedade, a
existência de um direito natural e outras questões deveras interessantes e
presentes em estudos atuais nas áreas do Direito, Educação, Psicologia,
Política e Filosofia, só para citar algumas das mais relevantes.
Locke,
conjuntamente com Newton, é considerado o mestre do século XVIII, pois, há de
influenciar em muito a sociedade de sua época, bem como a diversos pensadores e
teorias elaboradas tendo a ele como norte. Mesmo seus críticos e pensadores
originais posteriores, tais com Berkeley e Hume, hão de serem dependentes das
contribuições de Locke para a elaboração de seus próprios trabalhos. Também exerceu
forte influência no movimento iluminista na França e nos enciclopedistas
franceses.
Segundo Locke a
filosofia tende a se restringir ao problema gnosiológico (ou gnoseológico;
teoria do conhecimento, epistemologia, origem e validação do conhecimento) e não
cabe tratarmos da metafísica, pois esta ultrapassa os limites da experiência
empírica aos quais devemos nos limitar. Cabe à filosofia proposta por Locke
mostrar a natureza e os limites do entendimento humano.
Os dois
principais problemas tratados pela filosofia de Locke são a origem e o valor do
conhecimento. Quanto à origem das ideias, Locke nega a possibilidade da
existência de ideias inatas e nos afirma que todo o nosso conhecimento provém
de nossos sentidos e experiência e que nossa mente ou intelecto antes de
qualquer experiência é uma tabula rasa na qual nada está escrito. Nós nascemos
uma tabula rasa ou, se o preferirem, uma folha de papel em branco, onde coisa nenhuma
foi ainda escrita.
Segundo o
pensamento filosófico de Locke, as ideias podem ser entendidas como inatas ou
adquiridas. Locke, no entanto, nega a existência de ideias inatas, logo, todas
as ideias são adquiridas. Quanto à origem das ideias, de acordo com Locke esta
se dá unicamente pela experiência.
Além dos
conceitos de ideia simples e ideia complexa, e da diferença entre sensação
(percepção externa) e reflexão (percepção interna), Locke nos fala também que o
mundo que percebemos não é necessariamente igual àquilo que percebemos e nisto
se afasta um pouco dos empiristas e sensualistas e se aproxima em parte dos
filósofos racionalistas.
Nossa mente é
incapaz de conhecer as coisas diretamente, pois há um intermediário entre a
mente que conhece e o objeto conhecido e este intermediário é formado pelas
ideias que usamos para descrever as coisas. A ideia em si mesma não é
verdadeira ou falsa. O conhecimento é formado pelo acordo ou desacordo entre
ideias.
Por ideia Locke
entende tudo que é objeto de nosso entendimento quando pensamos. Locke não
estabelece uma diferença que marque os limites entre as sensações, a imaginação
e o entendimento. Segundo Locke, pensar é perceber.
Já que todo
conhecimento provém da experiência, cabe explicar como se dá esta experiência.
Locke argumenta que a experiência pode ser dividida em duas: experiência
externa e experiência interna.
1- externa:
proveniente da percepção, da sensação, sobre as coisas circundantes, sobre a
realidade do mundo. São as impressões ocasionadas pelos objetos externos e
pelas qualidades sensíveis dos objetos, a saber: duro, macio, doce, amargo,
branco, amarelo, quente, frio.
2- interna:
proveniente da reflexão e voltada para as operações da mente humana, a saber:
perceber, pensar, duvidar, crer, raciocinar, conhecer, querer e outras ações
mais.
As ideias que
temos, por sua vez, podem ser divididas em simples e complexas. Quando falamos
de ideia simples, entendemos que a mente é passiva e receptiva como um espelho
refletindo uma imagem, entendemos que as ideias simples provêm da experiência
externa (sensação) ou interna (reflexão), entendemos que as ideias simples são
a matéria primária do conhecimento e fundamento da construção mental. Já por
ideia complexa entendemos a combinação, comparação e ordenamento de ideias
simples. Haveria um número infinito de ideias complexas.
Em Locke podemos
falar em ideias sensoriais simples e ideias complexas, vejamos um exemplo. Se
comemos uma fruta, sentimos sua consistência, seu tamanho, seu peso, seu sabor
(acidez, doçura), sua cor e outras ideias sensoriais simples dela provenientes,
com o passar do tempo, aprendemos que a junção de determinadas e específicas
impressões simples vêm a compor a ideia complexa de uma fruta em particular,
diferenciada da ideia complexa de outra fruta, pois cada qual é composta pela
soma de várias ideias simples distintas, deste modo surge a ideia complexa de
maça, pera, banana, morango, abacaxi.
As ideias
simples são obtidas unicamente pela experiência imediata, tal o caso da ideia
de frio, calor, amargo, doce, etc. As ideias simples são divididas em três
grupos, a saber: 1- ideias de sensação, 2- ideia de reflexão e 3- ideia
simultânea de sensação e reflexão.
Ideias de
sensação são as de calor e frio, doce e amargo, sólido, extensão, figura,
movimento, etc. As ideias simples de reflexão são provenientes de nossas
faculdades cognitivas, a saber: memória, atenção, etc, trata-se de uma
percepção interna por meio de tais faculdades mentais. A junção das duas se dá
por meio de ideias tais como: existência, duração, número.
Segundo Locke,
teríamos qualidades sensoriais primárias e qualidades sensoriais secundárias. As
qualidades primárias representam as coisas tais como elas de fato são. As
qualidades primárias são inerentes à coisa em si, mas as qualidades sensoriais
secundárias tendem a variar de pessoa para pessoa. Esta variação se deve pelas
diferenças individuais de cada um. Podemos ter o certo ou o errado para
qualidades primárias, pois algo pesará, por exemplo, um quilo e duzentas
gramas, terá determinada forma e tamanho medido em centímetros e isto é
específico a este algo, podendo ser medido e mensurado. Posso falar algo
diferente, mas minha opinião estará certa ou errada ou mais próxima ou não da
verdade se comparada ao objeto, mas o mesmo não ocorre com as qualidades
secundárias cujas propriedades não são passíveis de serem absolutas e variam de
acordo com o percebedor. O acordo entre as propriedades primárias ocorre porque
elas são inerentes às coisas em si mesmas. A diferença, portanto, é bem
simples, se uma dada propriedade é primária podemos comparar, medir ou
averiguar e chegar a um acordo sobre a mesma e uma opinião contrária estará
errada, pois tal propriedade pertence a coisa em si mesma. Já para uma
propriedade secundária não cabe um julgamento sobre certo ou errado, pois, pode
ser percebida de modos diferentes por pessoas diferentes. Uma fruta, por
exemplo, pode ser doce para uma pessoa e a mesma fruta pode ser considerada
amarga para outra pessoa.
Locke nos fala
que as ideias podem ser agrupadas em classes. Os corpos são dotados de
qualidades e estas qualidades podem ser divididas em duas: 1- qualidades primárias
e 2– qualidades secundárias. As primeiras existem nas coisas, sendo objetivas, e
as segundas em nós, sendo subjetivas. Temos em Locke presente uma postura
nominalista.
Pelas qualidades
sensoriais primárias Locke entende somente a extensão, o volume, o peso, a
solidez, a impenetrabilidade, a forma, a figura, o movimento, o repouso, e o
número (a quantidade de cada coisa, corpos ou objetos).
Para as
qualidades primárias entende que nossos sentidos captam as propriedades reais
das coisas que percebemos. Agora, isto não ocorre para as qualidades
secundárias, pois nossos sentidos não conseguem captar suas propriedades reais
quando de sua percepção uma vez que as mesmas são o efeito delas decorrentes
sobre nossos sentidos.
As qualidades
secundárias são respectivamente: as cores, os sons, os sabores (pelo gosto), os
odores, pois são produzidas pela impressão dada por movimentos de minúsculos
corpos que não os percebemos como são de fato. Como exemplo de qualidades
secundárias podemos citar a dor, o prazer, o duro, o mole, o suave, o áspero, o
calor, o frio, as cores, os odores, os sabores, os sons.
Locke entende
que as qualidades primárias são inseparáveis dos corpos e que não mudam por
mais que os corpos passem por transformações, estas propriedades existem nos
corpos, são objetivas. Já quanto às qualidades secundárias, cabe dizer que são
subjetivas e não objetivas. As qualidades sensoriais secundárias não parecem em
coisa alguma com o objeto que as provocou. Enquanto as qualidades primárias
encontram-se nos corpos, as qualidades secundárias não estão nos corpos e sim
na ação que exercem sobre os nossos órgãos dos sentidos. As qualidades dos
corpos produzem em nossos sentidos as percepções das quais se originam as
ideias.
Temos as ideias
simples e as complexas (ou conjuntas). As ideias complexas são originadas da
atividade cognitiva do sujeito, pela análise, separação e união das ideias
simples. Existem três classes de ideias complexas, a saber: 1- ideia de
substancia, 2- ideia de modo e 3- ideia de relações.
Por substância
Locke entende diversas ideias simples unidas ao redor de algo, trata-se de uma
coleção de ideias simples associadas a um dado sujeito. A ideia de substância,
segundo o pensamento de Locke, foi equivocadamente entendida como uma ideia
simples, mas isto é falso, pois em verdade trata-se de uma ideia complexa. Apesar
de admitir a existência da substância, não entende ser possível sabermos no que
consistiria.
Quanto ao modo,
este pode se subdividir em dois: 1- simples e 2- misto ou composto. Modo são
ideias que não subsistem por si mesmas, sendo dependentes de outras, tais como:
o modo extensão, no qual temos o triângulo, o modo virtude, no qual temos a
gratidão, o modo crime, no qual temos o assassinato, por exemplo. O modo
simples pode ser entendido como a combinação de ideias simples homogêneas da
mesma espécie, tal é o caso de quando dizemos “uma dezena”, que é a agregação
de dez unidades. Já o modo composto ou misto é a união de ideias simples
heterogêneas como, por exemplo, “a beleza”, onde temos a figura e a cor, ou
também o furto ou roubo, no qual temos a troca de posse de algo sem que o
primeiro possuidor consinta com a troca. O modo composto ou misto é uma
combinação de ideias simples e distintas. Locke examina com maior atenção
alguns modos específicos, a saber: 1- espaço, 2- sucessão / duração, 3- número,
4- movimento, 5- modos compostos de sons, cores, sabores, odores, etc., 6-
pensamento, 7- prazer e dor – modos bem e mal, 8- poder, 9- liberdade.
Segundo o
pensamento de Locke, temos quatro tipos distintos de relações entre as ideias
que constituem nosso conhecimento. 1- Identidade e diversidade, 2- relação, 3-
coexistência ou conexão necessária, 4- existência real.
Podemos dizer se
algo é idêntico ou diverso de si mesmo comparando o mesmo objeto em tempos
diferentes.
Já com a “relação”,
esta consiste na comparação de uma ideia com outra, como nos seguintes
exemplos: causa e efeito, identidade e diversidade, relações morais, bem e mal
ou bom e mau (bem / bom, vinculado ao prazer e mal / mau, à dor), conformidade
ou oposição das ações com as leis. Cabe também lembrar a de pai e filho, maior
e menor, leve e pesado, quente e frio, igual e desigual, semelhante e
dessemelhante, etc. Destaque deve ser dado à relação causa e efeito e a relação
identidade e diversidade.
O conhecimento
segundo Locke, pode ser definido como sendo a percepção que nós temos de haver
uma conveniência ou uma discordância entre ideias, conveniência ou discordância
esta expressa por meio de um juízo. Daí as classes possíveis de relações que
temos das ideias. O conhecimento é deste modo a percepção de uma relação entre
ideias, podendo ser imediato ou mediato. Por imediato entendemos algo que seja
oriundo de uma percepção intuitiva e por mediato quando necessitamos de uma
demonstração.
Segundo o pensamento
de John Locke, podemos estar confiantes de termos a posse de três verdades, a
saber: da existência do “eu”, da existência de Deus e da existência do mundo
que nos circunda, as coisas externas a nós próprios. Admitimos a existência do
“eu” por termos dele um conhecimento intuitivo e imediato. A existência de Deus
se comprova por demonstração pelo argumento contingencia mundi, que nos afirma
a necessidade de uma primeira causa que justifique os efeitos dela procedentes
e pelo fato de observarmos a existência de seres inteligentes, o que implica
que deva existir um ser inteligente que seja a causa da existência destes
seres. Já quanto à existência das coisas externas, esta é comprovada por meio
de nossas sensações provenientes de nossa percepção da realidade.
Seguindo a
tradição contratualista iniciada por Thomas Hobbes, também Locke entende que a
sociedade civil teve sua origem em um contrato social, mas difere profundamente
de Hobbes em vários pontos. Para Locke não há oposição entre estado de natureza
e sociedade civil e sim somente uma passagem. No estado de natureza temos
direitos fundamentais, o direito à vida, o direito à liberdade, o direito à
propriedade e outros mais, a passagem para a sociedade civil se dá para que
tais direitos sejam melhor garantidos e protegidos por meio de um poder
soberano que possui o direito e a capacidade para defender e punir. Se o Estado
não cumpre sua parte do acordo, privando os cidadãos de seus direitos, cabe a
justa oposição e revolta. Prevê no campo político que todos tenham liberdade
sem que esta prejudique aos demais e no campo religioso a tolerância. Educar,
para Locke, seria formar o ser humano para o convívio em sociedade.
Locke há de se
opor a tendência teocrática da Igreja anglicana, discordando que o rei tenha
poder absoluto ou de direito divino. Se opõe a ideia que o rei possa impor à
nação alguma forma de crença ou culto. Locke propõe a separação entre a Igreja
e o Estado para que se possa preservar a tolerância religiosa para todas as
religiões. Lembrando que este faz a ressalva quanto ao ateísmo e o papismo
(como era chamada à época a influência da Igreja Católica Apostólica Romana,
cujo líder religioso máximo era o Papa em Roma).
Locke há de
adotar que a sociedade civil não é um estado natural e sim criado
artificialmente por meio de um pacto social, quando o ser humano sai do estado
de natureza para a sociedade civil regulada por leis.
No estado de
natureza há uma lei moral racional e natural, um direito natural no qual temos
presente o direito à vida, à liberdade e à propriedade como fundamentais e que
após o pacto devem ser mantidos e preservados pelo governo sob pena do povo
justamente poder se revoltar, caso seus direitos básicos não estejam sendo
mantidos. A finalidade de criarmos uma sociedade civil e um governo é
justamente a preservação e garantia dos direitos naturais.
O direito
natural à propriedade tem como base o trabalho e se limita ao tamanho da terra
que pode ser cultivada por este humano, bem como as obrigações oriundas do
poder paterno, pois a família há de estar presente como uma instituição, se bem
que não política e sim natural. O direito à propriedade da terra em estado de
natureza advém do trabalho empregado na mesma, o ser humano modifica a natureza
por meio de seu trabalho e o resultado dos seus esforços, do seu trabalho, é
sua propriedade. Pelo trabalho é possível transformar o que antes era coletivo
em estado de natureza, no caso a terra, em algo particular, em uma propriedade
daquele que empenhou ali seu trabalho cultivando a terra, plantando ou nela
criando animais.
Pelo pacto
social não se criam direitos novos, trata-se da união das pessoas para fazerem
valer o direito natural por meio do poder originado desta união e abdicando de
fazerem valer seus direitos por si próprios. O poder real se sustenta na lei
que o criou e não pode atuar contra a mesma e contra os direitos das pessoas.
Entre súdito e soberano há uma relação de poder e obediência às leis de modo
bilateral, havendo, portanto, direito do súdito se revoltar se o monarca não
cumprir com sua parte no pacto.
Quanto à
liberdade, esta consiste no poder de fazer ou não fazer algo, por meio de
decisão oriunda de nosso pensamento e ação voluntária. O “querer” passa a ser
entendido como um ato da vontade. Locke se mostra como defensor da liberdade
religiosa e filosófica, propondo a tolerância.
Apesar de seus
posicionamentos quanto à tolerância, liberdade e participação do povo no
governo, Locke também é, como não poderia deixar de ser, um homem de seu tempo
e como tal sofre influências nem sempre auto questionáveis em relação à cultura
de sua época e as opiniões então correntes sobre diversos temas distintos, como
tal, por exemplo, a superioridade do europeu sobre nativos de outras terras ou
o direito de guerra do vencedor poder escravizar aquele que poderia matar. Por
mais genial que seja um pensador, não podemos exigir que esteja a frente de seu
tempo em todos os campos ou que questione a tudo no qual culturalmente está
imerso e muitas vezes sem o perceber.
Locke também pode
ser percebido por nós, hoje, como representante do Empirismo, do individualismo
liberal, da monarquia constitucional e do governo representativo. Crítico do
absolutismo monárquico e do direito divino dos reis. Cabe a Locke, também,
propor a divisão do poder do Estado em três: executivo, legislativo e
judiciário. No entanto, tal divisão do poder é distinta da proposta
posteriormente por Montesquieu, onde há pesos e contrapesos para que os poderes
se equilibrem e se fiscalizem mutuamente. Em Locke há uma predominância do
poder legislativo, composto pelo parlamento, sobre os demais.
Locke prevê
liberdade e tolerância religiosa, não devendo o poder civil se intrometer em
questões religiosas ou definir as crenças de seus súditos, a exceção a isto
encontra-se somente na não aceitação de intervenção externa nas crenças
religiosas (como no caso do papa enquanto líder da Igreja Católica) ou no caso
de ateísmo, em ambos os casos cabe a sociedade civil reprimir tais
manifestações. No caso do ateísmo este deve ser reprimido por ser considerado
que Deus se mostra como princípio de certeza no qual se baseiam as leis
naturais.
A moral em
Locke, pensando em bem e mal, deve ser entendida como não vinculada a qualquer
ideia inata, que Locke considera inexistente, e sim a experiência, onde o bem está
relacionado à sensação de prazer e o mal a sensação de dor. Por regra geral
devemos buscar o bem e nos afastar do mal. O bem sendo entendido como o
agradável, útil e gerador de prazer e o mal visto como algo desagradável, o
oposto do bem. Podemos moralmente definir bem e mal em relação às leis vigentes
e as recompensas ou punições sociais recebidas por termos feito ou deixado de
fazer algo, de modo que o bem nos gera uma sensação de bem-estar geral e o mal
uma sensação de desconforto. Segundo o pensamento de Locke, o que seja o bem e
o mal há de mudar e se adaptar de acordo com influências sofridas pelo ambiente
e o tempo histórico, bem como pelos costumes existentes nas mais distintas
regiões e governos. Há três tipos de leis: a lei divina contida na revelação e
na natureza, a lei civil proposta pela legislação em vigor e a lei da opinião pública,
proposta por filósofos e que define o que seja o vício e a virtude, portanto, temos
a divisão em três classes para as leis: 1- divina, 2- civil e 3- filosófica /
opinião.
O conhecimento
da filosofia de John Locke há de proporcionar instrumentos que nos ajudem a
compreender a evolução histórica do saber até os presentes dias, bem como sobre
o impacto que a mesma teve nos movimentos políticos e filosóficos que
sucederam, como no caso da revolução americana de 1776 e na constituição dos
EUA onde lemos claramente a presença do pensamento de Locke. Também em
problemas e soluções levantados por outros pensadores, tais como Berkeley e
Hume, vemos a presença de uma leitura atenta às consequências do pensamento de
Locke. Todo o desenvolvimento do liberalismo político posterior é devedor das
ideias propostas por Locke, que irão formar par com as ideias de Adam Smith
sobre o liberalismo econômico em um todo coerente. Para entendermos o nosso
mundo contemporâneo e como chegamos até aqui, cabe estudar e aprender o
pensamento de John Locke.
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Thomas Hobbes
(1588-1679) é conhecido por ser o autor dos livros “De Civi” (Do cidadão ou
Elementos da lei natural e política), de 1642, “Leviathan” (Leviatã), de 1651,
“De corpore” (O corpo), de 1655, “De homine” (O homem), de 1658. Teve contato
com vários pensadores eminentes na Europa, em particular na França e Itália,
aos quais cabe destacar Descartes e Galileu Galilei. Desenvolveu o gosto pelas
matemáticas, em particular a álgebra, e também pelas ideias mecanicistas.
Esteve sempre em convívio próximo e de amizade com a nobreza e família real
inglesa, trabalhou como professor e empreendeu viagens a Europa a par com
filhos da realeza, incluso o posterior rei da Inglaterra, Carlos II. Para
Hobbes não existem ideias inatas e todo o conhecimento que possuímos provém de
nossos sentidos e da percepção que temos por meio da experiência, o que vem a
caracterizar Hobbes como empirista, se bem que não faça uso do método indutivo
proposto por Bacon e prefira a dedução, tal como proposta por Galileu Galilei e
Descartes. Também busca uma explicação mecânica e matemática para tudo,
inclusive fazendo uso da ideia de que tudo é composto por corpos (o que nos
lembra da antiga teoria dos átomos) e movimento. O título do livro “Leviatã”
faz alusão a uma criatura mítica. Como metáfora, sugere pelo título que o
monarca é o leviatã todo poderoso que governa e protege seus súditos. Neste
livro Hobbes irá nos falar do estado de natureza no qual se encontrariam os
seres humanos antes da criação da sociedade civil e do contrato social que
fundou esta sociedade. Hobbes, portanto, passa a ser deste modo o primeiro
filósofo a propor a ideia segundo a qual haveria um contrato social na base da formação
de nossa sociedade civil e, portanto, passa a ser considerado hoje como um dos
filósofos contratualistas. No Leviatã, Hobbes apresenta o ser humano como uma
criatura egoísta, egocêntrica e insegura. No estado de natureza não possui leis
ou limites a não ser as limitações de sua própria força e esperteza diante da
de outro, também não cabe falar na presença de um conceito de justiça. Em
estado de natureza segue-se o predomínio das paixões e da busca por atender aos
seus próprios desejos, para frear um pouco a isto temos somente a razão
natural. Segundo o pensamento de Hobbes sobre o estado de natureza, neste
haveria a guerra de todos contra todos, daí a necessidade da sociedade ordenada
e da formação do Estado. Ainda segundo Hobbes, o homem é o lobo do homem, “homo
homini lúpus”. Um governo central forte baseado na autoridade de um monarca
absoluto tende a evitar guerras civis e criar um ambiente de paz e
prosperidade. A natureza humana está centrada em seus próprios interesses, daí
a importância da saída do estado de natureza para a constituição de um Estado
por meio do contrato social no qual todas as partes envolvidas cedem seu
direito particular para uma pessoa ou assembleia que irá constituir o Estado, o
governo, a sociedade civil. A sociedade civil, formada pela união das diversas
pessoas sob a autoridade de um governo, surge por meio do contrato social.
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"Thomas
Hobbes: A formação da sociedade civil, o Leviatã, o medo, o poder e a
liberdade".