Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

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5- Blog 4 “O grande segredo: A história não contada do Brasil”

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quinta-feira, 11 de abril de 2024

Félix Guattari

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Félix Guattari

 

Félix Guattari (1930-1992) foi escritor, roteirista, filósofo e ativista revolucionário francês a favor da esquerda comunista. Estudou filosofia na Sorbonne, em Paris, vindo a diplomar-se no ano de 1953. Interessou-se pela Psicanálise e pela Psiquiatria, tendo a partir de 1955 trabalhado no hospital psiquiátrico de La Borde, sob a direção de Jean Oury. Neste hospital Guattari atuou como pioneiro na implementação de práticas terapêuticas consideradas inovadoras, com base na psicanálise e na psicoterapia institucional.


 

Guattari trabalhou em algumas instituições psiquiátricas no decorrer de sua vida, na ordem cronológica temos: 1- Clinique des Maladies Mentales et de l'Encéphale (CMME), na década de 1950, 2- Clinique de La Borde, da década de 1950 a 1980, 3- Centre d'études, de recherches et de formation institutionnelles (CERFI), décadas de 1960 e 1970, 4- Institut de Recherche et d'Innovation (IRI), a partir de sua fundação em 1989. Destas clínicas há de se destacar o papel desempenhado pela Clinique de La Borde na vida de Guattari. Nesta clínica temos a presença de vários profissionais militantes políticos de esquerda, vinculados ao partido comunista e defendendo bandeiras coerentes com sua ideologia política por um prisma identitário.

Conhecido particularmente por sua colaboração e coautoria em algumas obras, com o filósofo Gilles Deleuze, quem conheceu no ano de 1968. Conjuntamente com Deleuze, publicou “O anti-Édipo”, em 1972, e “Mil Platôs”, em 1980. Nestes trabalhos e parceria, desenvolveu o conceito de “esquizoanálse”, além de estudar questões vinculadas ao desejo, à sociedade e ao poder. Considerado por alguns comentadores como representante do pós-estruturalismo.

Atuou como militante político pró-esquerda política, tendo se filiado a grupos e partidos comunistas. Profundamente envolvido com questões políticas e sociais, participou ativamente dos protestos de maio de 1968, na França, bem como, atuou em defesa da Palestina contra os israelenses que ocupavam seu território, do Vietnã contra os franceses e americanos, e mesmo do Brasil contra o regime civil-militar que dominou o país de 1964 a 1984. Atuou de modo ativo na busca por transformações sociais, pautadas em uma ideologia revolucionária de esquerda política pró comunismo e identitária.

Dentre os conceitos e ideias desenvolvidos por Guattari, temos: transversalidade, ecosofia, caosmose, desterritorialização, ritornelo, singularidade, produção de subjetividade e capitalismo mundial integrado. Em sua obra, discutiu temas, tais como: a transdisciplinaridade, o desejo, as instituições. Também defendeu a antipsiquiatria e combateu noções e conceitos básicos da psicanálise. Guattari se posiciona de modo crítico ao poder presente na sociedade.

Buscou desenvolver uma abordagem transdisciplinar em sua obra. Em “As três ecologias”, de 1989, ampliou o campo de sua análise visando incluir a esfera social, psicológica e ecológica.

O pensamento filosófico de Guattari se mostra como sendo complexo e inovador diante da filosofia tradicional, vinculado a bandeiras político-ideológicas da esquerda política, como sua atitude de se filiar a partidos e associações comunistas de mais de uma orientação, deixam claro no decorrer de sua vida. Seu pensamento filosófico perpassa diversas áreas do saber humano, tais como: psicanálise, filosofia, psiquiatria, política e ecologia.

 

IDEIAS

Guattari propõe o conceito de “ecosofia”, pelo qual expressa as formas como os sujeitos interagem entre si e com o meio ambiente. A ecosofia tem como base a união entre três ecologias: meio ambiente, relações sociais e subjetividade humana. Na ecosofia temos um estudo de como compreendemos, aprendemos e agimos, a partir do meio no qual estamos inseridos, atuando na problemática ambiental. Por meio da ecosofia busca Guattari compreender que a natureza e os humanos fazem parte de um mesmo ecossistema comunicativo. Por meio de tal conceito torna-se possível a discussão de temáticas associadas ao meio ambiente com a filosofia. A subjetividade da condição humana encontra-se resumida nos problemas ambientais decorrentes da evolução da sociedade na qual vive. Neste tocante, encontramos aspectos econômicos, políticos, sociais e educacionais. Mais que uma reflexão sobre temas na ecologia, a ecosofia mostra-se como sendo uma busca por ações concretas, apontando para a interação entre o humano e o meio ambiente.

O conceito de “ecosofia” está mais associado a Guattari, apesar de sua colaboração com Deleuze. Este conceito mostra-se como sendo uma síntese entre ecologia por um lado e filosofia por outro. Por meio do conceito de “ecosofia”, busca Guattari estudar a interconexão entre ecologia, subjetividade e sociedade.

Por meio do conceito de “ecosofia” busca-se uma integração entre a ecologia e a filosofia, ultrapassando um entendimento unicamente ambiental. Há por meio de tal conceito a intenção de abordar as inter-relações complexas entre o ambiente natural, as estruturas sociais e a subjetividade humana. Busca-se uma abordagem que seja interdisciplinar, que possa conectar questões provindas do meio ambiente, da sociedade e da esfera psicológica, rompendo as barreiras existentes entre as disciplinas para melhor trabalhar os desafios globais de modo holístico.

Segundo o pensamento do autor, a “ecosofia” deve se vincular às transformações sociais e subjetivas, não se limitando a questões ambientais. Deste modo, a “ecosofia” atua em prol de uma mudança nas práticas sociais, nos modos de vida e na forma como as pessoas se relacionam com o meio ambiente.

Visando facilitar o entendimento sobre este conceito, podemos imaginar uma dada comunidade que decida em conjunto criar uma horta comunitária. Trata-se de uma iniciativa que agrega questões ambientais, tais como práticas agrícolas sustentáveis, mas também tende a reforçar os laços sociais dentro desta mesma comunidade, exercendo papel significativo na subjetividade dos participantes ao promover uma conexão mais direta com a natureza.

Podemos também falar em uma educação ambiental holística, envolvendo além da transmissão de conhecimentos sobre ecologia, também o questionamento sobre como as escolhas individuais e coletivas interferem com o meio ambiente e influenciam o modo como as pessoas podem se perceber enquanto agentes de mudança.

Também podemos pensar na participação em movimentos pela justiça ambiental, que tenham como bandeiras, além da proteção do meio ambiente, questões sociais, econômicas e sociais vinculadas à distribuição desigual dos impactos ambientais.

No geral, o conceito de “ecosofia” nos traz um modo mais amplo e integrado para lidar com questões ambientais, fazendo reconhecimento das interconexões complexas existentes entre ecologia, sociedade e subjetividade, promovendo uma relação mais harmoniosa entre as pessoas, a sociedade e o meio ambiente.

Outro importante conceito presente na filosofia de Guattari é o de “esquizoanálise”, pelo qual entende que psicanálise tradicional se encontra limitada por uma abordagem individualista e pautada na doença mental. A esquizoanálise busca superar as limitações contidas na psicanálise, focando nas relações sociais e políticas presentes no inconsciente, bem como, nas estruturas coletivas presentes na formação do sujeito.

O conceito de “esquizoanálise” foi desenvolvido conjuntamente com o filósofo Deleuze, se apresentando como uma análise crítica direcionada a teoria e prática da psicanálise com base na obra de Freud e Lacan. Por meio de tal conceito são questionadas as estruturas e categorias presentes na psicanálise tradicional. Por tal análise é colocado o foco na multiplicidade e na dinâmica do desejo.

Por meio da elaboração do conceito de “esquizoanálise” é proposto uma reinterpretação do inconsciente e do desejo, tal como presente na psicanálise desenvolvida a época. Há aqui uma busca para desestabilizar as estruturas da psicanálise tradicional (Freud, Lacan), considerando o desejo como sendo uma força produtiva e libertadora. Guattari e Deleuze colocam a ênfase na multiplicidade, na criação e nas linhas de fuga em oposição à fixação em estruturas presentes no assim chamado complexo de Édipo.

O conceito de “esquizoanálise” foi desenvolvido por Guattari em parceria com Deleuze, em particular nas obras “O anti-Édipo”, 1972, e “Mil Platôs”, 1980, vindo a influenciar diversas áreas do saber, tais como a psicanálise, a psicologia, a filosofia e a teoria social. Na origem do desenvolvimento deste conceito temos a psicanálise e a participação de Guattari no grupo de Lacan. Trata-se de uma abordagem inovadora que busca explorar os aspectos coletivos e sociais da subjetividade, enquanto que a psicanálise se atém na análise individual do inconsciente.

A “esquizoanálise” possui alguns princípios básicos, tais como: múltiplas linhas de fuga; desejo e máquinas desejantes; multiplicidade de identidades.

Enquanto a psicanálise busca explorar e entender os conflitos individuais que o sujeito apresenta durante seu tratamento, a esquizoanálise busca explorar as múltiplas linhas de fuga, ou, dizendo de outro modo, as formas usadas pelas pessoas para escapar de categorias pré-determinadas pela sociedade na qual vivem. As “linhas de fuga” mostram-se como sendo caminhos alternativos usados pelas pessoas para saírem dos caminhos convencionais dados pela sociedade, no tocante a compreensão e vivência de suas próprias vidas. Como exemplo de uma “linha de fuga”, podemos pensar em um adolescente proveniente de uma família de médicos já a algumas gerações, resolva romper com a tradição familiar e seguir uma carreira artística, seja voltada para o teatro, música, pintura, artes plásticas, ou outro ramo qualquer, rompendo com a expectativa social.

A esquizoanálise também se relaciona com o conceito de desejo e máquinas desejantes, destacando o desejo como sendo uma força central na formação da subjetividade. O desejo é expresso e produzido por meio de máquinas desejantes. Aqui entra tudo que possa fazer a pessoa sentir como estando viva e conectada com o mundo ao seu redor, como, por exemplo, a arte, a música, a escrita. Como exemplo podemos imaginar um adulto jovem cuja paixão seja a prática do skatismo, expressando seu desejo por meio desta prática.

A esquizoanálise não pensa identidades como sendo fixas, trabalhando a ideia de multiplicidade de identidades que uma mesma pessoa possa ter. A esquizoanálise entende que as pessoas não possuem uma identidade única e estável e sim que são formadas por diferentes “eus” em distintos contextos. Pensemos no exemplo de um adolescente, este pode simultaneamente, ter distintos “eus” em contextos diferentes, sendo ao mesmo tempo um estudante, um irmão, um filho, um atleta, um artista, etc., cada qual representando uma face diferente de uma mesma identidade, a sua.

Deste modo, a esquizoanálise defende um tratamento mais amplo e coletivo visando entender a subjetividade, dando destaque a diversidade, ao desejo e a busca por caminhos não convencionais enquanto elementos fundamentais para a estruturação daquilo que somos.

Outro importante conceito desenvolvido conjuntamente com Deleuze, em particular na obra “Mil Platôs” é o de “rizoma”, pelo qual os autores entendem uma rede de relações não lineares e também não hierárquicas, dando destaque a multiplicidade e a conectividade. Como exemplo e metáfora pode-se falar em uma árvore, onde temos as raízes, o caule, os galhos e as folhas. No rizoma não há uma estrutura central (caule) ou linear com conexões fixas entre as partes (raízes - tronco – galhos – folhas / frutos). No lugar da metáfora da árvore, o rizoma se apresenta como sendo uma rede horizontal (e não vertical), não centralizada (não há um centro de onde possam partir todas as conexões) e na qual todas as diversas conexões existentes possuem o mesmo grau de importância. O conceito de “rizoma” se opõe à ideia de uma estrutura linear e hierárquica. Esta visão descentralizadora teve influência não somente na filosofia, mas também na teoria cultural e na organização social.

Outro conceito introduzido por Guattari e Deleuze é o de “máquinas desejantes”, que surge na obra “O anti-Édipo”. Aqui destaca-se como o desejo é produzido e reproduzido em diferentes contextos. As máquinas desejantes representam as complexas interações entre o desejo e a realidade.

O conceito de “máquinas desejantes” enfatiza a natureza produtiva do desejo. O desejo não se vincula apenas a objetos específicos, sendo uma força que produz interações sociais e é também produzida, por meio de interações sociais complexas. Este conceito de “máquinas desejantes” reflete a dinâmica em constante mudança entre o sujeito e o seu ambiente.

Também presente no pensamento filosófico de Guattari, temos sua abordagem diante da macropolítica (ao nível social e global) e da micropolítica (ao nível individual e local). Segundo o pensamento do autor, torna-se necessário conectar as experiências pessoais com as dinâmicas sociais e políticas mais amplas.

No tocante às instituições terapêuticas hospitalares, Guattari entendia ser importante integrar a abordagem psicanalítica adotada na instituição com questões sociais e políticas, buscando, deste modo, transformar o ambiente institucional psiquiátrico.

Guattari militou pela transformação da instituição psiquiátrica, fazendo parte integrante do movimento denominado “anti-psiquiatria”. Segundo o pensamento do autor, as práticas terapêuticas ultrapassam os limites físicos da instituição psiquiátrica ou do consultório do psicoterapeuta. Defende a criação de espaços terapêuticos que sejam mais abertos, permitindo que o processo terapêutico possa fazer uso de uma maior interação social e expressão criativa.

Também desenvolveu o conceito de “três ecologias”, se referindo a junção de três dimensões para análise e intervenção: individual, social e ambiental. Buscou demonstrar as interconexões existentes entre a ecologia mental, a social e a ambiental, dentro de uma abordagem holística.

As três ecologias (mental, social e ambiental) propostas por Guattari ampliam o conceito de ecologia para além do meio ambiente presente na natureza ao incorporar novas dimensões (mental, social). Temos aqui um destaque e ênfase na interdependência entre as três esferas (mental, social e ambiental), buscando uma abordagem integrada para melhor atuar diante dos desafios atuais.

Também explorou os diferentes territórios do desejo presentes em distintos contextos culturais no seu livro “Cartografias do desejo”, publicado em coautoria com Suely Rolnik, onde aborda as interconexões existentes entre a psicanálise, a política e a arte.

Em outro insight interessante, temos o conceito de “ritornelo”, que foi desenvolvido por Guattari em colaboração com Deleuze, em particular na obra “Mil Platôs”. A origem deste conceito pode ser encontrada na música, fazendo referência ao “refrão” ou a uma determinada linha melódica que seja repetida em dada composição musical. Guattari e Deleuze ultrapassam as fronteiras da música, utilizando do conceito de “ritornelo” de modo amplo, para descrever fenômenos sociais complexos. Por meio do conceito de “ritornelo” os autores explicam como os territórios são construídos e como os sujeitos se relacionam com o espaço e a subjetividade.

O conceito de “ritornelo” é pelos autores, associado a construção de territórios, sejam estes físicos ou subjetivos. Podemos encontrar este conceito em uma melodia, em um gesto, em uma palavra ou qualquer outro elemento que seja repetido e pela sua repetição possa ajudar a demarcar e organizar um determinado território, levando-se em consideração a subjetividade.

O conceito de “ritornelo” atua como um porto seguro que permita a sensação de segurança e estabilidade durante transições, estando associado a ideia de “linha de fuga”. O sujeito pode se movimentar em direção a novas experiências ou territórios, tendo ao seu lado a sensação de segurança e estabilidade proporcionada pelo “ritornelo”. O “ritornelo” mostra-se como uma estratégia para melhor se relacionar com a complexidade presente na realidade, sendo uma resposta criativa ao caos e à multiplicidade, proporcionando a criação de padrões reconhecíveis e zonas de estabilidade em meio ao caos. Podemos encontrar a presença do “ritornelo” na música, na linguagem, nos gestos, nos rituais, nas estruturas sociais, não se limitando a uma forma específica, mas se apresentando como sendo uma estratégia geral de organização e expressão cuja manifestação pode se dar em distintos domínios e aplicações sociais. Por meio do conceito de “ritornelo”, podemos obter uma melhor compreensão da relação dinâmica entre estabilidade e movimento, ordem e caos, na construção dos territórios individuais e coletivos. Este conceito realça a contribuição da repetição criativa e da familiaridade com algo, no decorrer da exploração de áreas desconhecidas para o sujeito, bem como, no processo de negociação com a complexidade presente na realidade ao redor do sujeito.

Para melhor entender o conceito de “ritornelo”, pensemos em alguns exemplos básicos de sua aplicação. Ao nos lembrarmos de uma música da qual gostamos, em geral lembramos mais facilmente do refrão da música, ou seja, da parte que mais se repete. Este refrão pode ser entendido como um “ritornelo”. O refrão da música nos traz uma sensação de familiaridade, sendo um ponto de referência na canção, que ao se destacar na música, ajuda a melhor estrutura-la. Também podemos pensar como exemplo, nos rituais diários que fazemos no nosso dia-a-dia, seja em casa ou no ambiente de trabalho, ou mesmo nas nossas atividades de lazer e interativas. Ao chegar em casa, proveniente do trabalho ou da escola, o sujeito pode muito bem ter um dado ritual, como ligar o som para escutar determinado estilo musical, ou ligar a tv no seu canal favorito, preparar algo para comer e beber, verificar o telefone celular para saber se há novas mensagens nas redes sociais, etc. Este ritual inocente presente na nossa rotina diária, em praticamente tudo o que fazemos repetidamente, funciona como um “ritornelo”, oferecendo para nós um momento de reconhecimento, familiaridade, estabilidade e conforto diante das inúmeras mudanças diárias as quais estamos sujeitos no nosso dia-a-dia. A repetição de pontos de referência expressa pelo conceito de “ritornelo”, nos ajuda na criação de pontos de referência que proporcionem organização e compreensão da realidade na qual vivemos.

Dentro os conceitos elaborados por Guatarri e Deleuze, temos também o de “transversalidade”, este conceito de uma abordagem transversal foi desenvolvido em particular nas obras “O anti-Édipo” e “Mil Platôs”. Por meio de tal conceito os autores exploram ideias que transcendam as fronteiras disciplinares adotadas convencionalmente. Há aqui uma busca por uma compreensão que seja mais ampla e interconectada por uma variedade de fenômenos, expandindo os limites das fronteiras tradicionais existentes entre filosofia, psicanálise e teoria social.

Por meio do conceito de “transversalidade” os autores fazem referência a ideia de se criar conexões horizontais e interdisciplinares que possam atravessar distintas áreas do saber, bem como, perpassar por práticas sociais e experiências individuais. Por meio de tal conceito, busca-se superar os limites tradicionais e desenvolver a interconexão entre distintos campos do conhecimento.

No lugar de se optar por seguir estruturas verticais e hierárquicas, abordando questões isoladamente em disciplinas específicas, pelo conceito de “transversalidade” busca-se a criação de conexões horizontais. É incentivada a colaboração entre as distintas áreas do saber, de modo a se obter a integração dos saberes. É um reconhecimento de que problemas complexos requerem abordagens multifacetadas. Com tal conceito busca-se a quebra de barreiras entre disciplinas acadêmicas e o desenvolvimento de um diálogo entre as distintas formas de saber.

Por meio do conceito de “transversalidade busca-se transpor fronteiras rígidas entre disciplinas, indo além das divisões e convenções acadêmicas sobre o campo específico de cada área do conhecimento. Busca-se a criação de uma rede de conexões que possa abarcar as ciências, as humanidades, as artes e também outras áreas do conhecimento humano.

O conceito de “transversalidade” possui aplicação prática em distintos contextos, não se limitando ao ambiente acadêmico. Podemos fazer uso de tal conceito nas questões sociais, políticas e culturais. Busca-se por meio de tal conceito o enriquecimento da compreensão sobre problemas diversos, bem como a facilitação da resolução de tais problemas em distintas situações onde possa ser aplicado.

Como exemplo, podemos pensar em uma turma de ensino médio na qual os alunos sejam incentivados pelos professores na elaboração de um projeto interdisciplinar. Por exemplo, sobre o clima e mudanças climáticas, dentre outras temáticas possíveis. No lugar do projeto ficar restrito as aulas referentes as disciplinas de ciências, uma abordagem baseada no conceito de “transversalidade” irá propor a colaboração com outras distintas disciplinas presentes na escola. Pode ser incluído as análises sociais e econômicas resultantes das mudanças climáticas, as possíveis soluções para o problema por meio da tecnologia e design, a evolução histórica da questão, o trabalho matemático com os dados obtidos e uma análise estatística sobre os mesmos, etc.

Em outro exemplo possível sobre “transversalidade”, alunos do ensino médio poderiam ser incentivados na escola para a criação de um clube de estudos sobre as mídias sociais. Caberia aos alunos abordar as implicações tecnológicas vinculadas à informática (TI), as questões éticas vinculadas à filosofia, as questões sociais vinculadas à sociologia, as questões individuais vinculadas à psicologia, às questões históricas, dentre outras abordagens possíveis e associadas a disciplinas correspondentes que estejam na grade curricular.

Por tais exemplos sobre o conceito de “transversalidade” e sua aplicabilidade no uso cotidiano podemos ilustrar como tal conceito pode se dar de modo interdisciplinar, enriquecendo a compreensão de distintas temáticas complexas em sua natureza.

Temos também o conceito de “caosmose”, que apesar de ter sido desenvolvido em parceria com Deleuze, está principalmente associado ao nome de Guattari, a quem é atribuído o termo e suas explorações conceituais. A ênfase dada à contextualização do conceito em um paradigma estético ético são características específicas dadas por Guattari. Neste conceito temos as preocupações com a interdisciplinaridade, bem como, a relação com a filosofia, psicanálise e estética. Trata-se de uma abordagem na qual busca-se de modo inovador compreender as dinâmicas ocorridas a partir da interação entre ordem e caos no universo. O conceito é elaborado principalmente na obra "Caosmose: Um Paradigma Estético Ético", 1992.

No conceito de “caosmose” temos a soma de duas palavras, “caos” e “cosmos”, dando ideia dos processos dinâmicos de transformação que estão presentes na interação entre por um lado elementos caóticos e, por outro lado, elementos que geram ordem no universo.

Por tal conceito, faz-se uma referência à dinâmica constante e criativa que ocorre entre o caos e o cosmos. Para Guattari o caos não atua como um elemento somente destrutivo, mas sim como a fonte de potencial criativo que age interagindo de modo contínuo com as formas de organização presentes no cosmos.

No conceito de “caosmose” temos o destaque a importância da multiplicidade e da singularidade, sendo o caos entendido como sendo uma multiplicidade de possibilidades e o cosmos como representante das formas organizadas e singulares que possam surgir de dentro deste caos.

O conceito de “caosmose” é entendido como sendo um paradigma estético ético, ou seja, as implicações decorridas da interação entre o caos e o cosmos (sua dinâmica), tem implicações estéticas e éticas. A estética se vincula à apreciação da beleza e da expressão, já a ética se mostra nas questões morais e de valor.

Dentro do contexto de “caosmose” a arte e a criatividade têm um papel de destaque. A arte é entendida como sendo uma expressão deste processo dinâmico. Por meio da criatividade artística pode-se capturar e comunicar as transformações constantes ocorridas entre o caos e o cosmos.

Se formos pensar em uma forma de exemplificar de modo mais simples, podemos imaginar uma pintura abstrata. As pinceladas livres e espontâneas representariam o caos, já a composição final obtida com a obra de arte pronta, representa o surgimento da ordem presente no cosmos. Há uma interação dinâmica na relação entre a expressão da liberdade (caos) e o resultado visual final presente na forma da obra de arte (ordem / cosmos), como resultado temos o conceito de “caosmose”.

Outro exemplo de “caosmose” pode ser obtido no ciclo natural da água na natureza. O caos pode ser entendido como sendo a evaporação da água, mas ao caos segue-se a ordem, que irá levar a formação de nuvens, a precipitação de chuvas, a criação de rios, e a chegada final da água nos oceanos, representando este ciclo contínuo a dinâmica natural presente no conceito de “caosmose”.

Também podemos ver a presença do conceito de “caosmose” na improvisação musical. Durante uma improvisação musical os músicos podem inicialmente começarem com um tema caótico no qual distintas possibilidades sonoras podem ser exploradas. No decorrer da apresentação musical, novos elementos surgem e são organizados em harmonias e padrões, deste modo, temos aqui também a interação presente entre o caos inicial e a ordem que se segue, “caosmose”. No conceito de “caosmose” temos o destaque para a relação dinâmica e produtiva entre elementos caóticos e ordenados, que se apresentam nos mais distintos e diferentes contextos.

Temos também o conceito de “desterritorialização” presente em Guattari, desenvolvido em colaboração com Deleuze. Por meio de tal conceito podemos entender a relação dinâmica entre o território (territorialização) e o processo de desvinculação ou transformação deste mesmo território (desterritorialização).

Por meio da ideia de “territorialização” temos uma referência a criação de territórios, que podem ser entendidos como sendo espaços físicos, ou sociais, ou psicológicos. A construção, destes territórios se dá por meio de limites, regras e estruturas, que, por sua vez, atuam de modo a organizar e definir determinada área.

Por meio da ideia de “desterritorialização” temos uma referência ao processo que resulta na dissolução, desorganização e transformação deste território. Este processo envolve a quebra de fronteiras e estruturas já estabelecidas, de modo a permitir a emergência de novas configurações.

Como possíveis exemplos para o conceito de “desterritorialização” temos a migração e o deslocamento de pessoas e populações em dada região. Podemos pensar em uma dada comunidade que tenha sempre vivido em determinado local e que repentinamente seja por algum motivo forçada a mudar para outra região. O território original onde residia estas pessoas é desfeito e novos territórios passam a ser formados, sejam territórios geográficos, sociais, culturais, comerciais ou outros.

Um outro exemplo para “desterritorialização” pode ser encontrado na globalização ou mundialização, onde temos uma desterritorialização cultural. Com a globalização temos a interação entre diversas culturas em uma escala ampla, na qual elementos culturais de uma dada região podem ultrapassar as fronteiras desta região e virem a ocupar espaço em outras regiões e populações, além da cultura na qual tais elementos já são tradicionais no decorrer da história deste povo. A música pop, por exemplo, tende a ultrapassar fronteiras, fazendo com que estilos musicais diferentes surjam em comunidades nas quais não faziam parte de sua tradição local. Deste modo, temos presente no conceito de “desterritorialização” as transformações culturais.

No conceito de “desterritorialização” temos também a desconstrução de normas sociais ocorridas no contexto sociocultural. Um outro exemplo possível ocorre nos movimentos sociais que atuam desafiando normas tradicionais de gênero ou de papéis sociais, destruindo estruturas previamente estabelecidas.

Também temos a presença da “desterritorialização” quando da introdução de novas tecnologias, como, em décadas recentes, a introdução da Internet, dos smartphones e das diversas redes sociais. Estas mudanças tecnológicas atuam desfazendo fronteiras presentes na comunicação e na informação, proporcionando a criação de novos territórios, agora virtuais, e proporcionando a reconfiguração do modo como as pessoas se relacionam e compartilham informações sobre suas vidas.

Este conceito de “desterritorialização” atua como um processo dinâmico que surge e se desenvolve em distintas áreas da vida, tendo impacto em territórios físicos, culturais e sociais. Por meio da compreensão deste conceito temos um instrumento para analisar as mudanças, as inovações e as transformações que ocorram nos distintos territórios, sejam estes físicos, mentais ou sociais.

Um outro conceito importante é o de “singularidade”, desenvolvido por Guattari em parceria com Deleuze, em particular nas obras “O anti-Édipo”, 1972, e “Mil Platôs”, 1980. O conceito de “singularidade” se refere a individualidade única e irredutível de cada ser, fenômeno ou evento. Para os autores, cada entidade é considerada singular, única, diferente de qualquer outra.

O conceito de “singularidade” nos apresenta a resistência à generalização e à categorização. Por meio de tal conceito os autores buscam estudar o que há de único em cada pessoa, situação ou conceito, evitando reduzi-los a categorias predefinidas.

O conceito de “singularidade” se relaciona com outro conceito, “esquizoanálise”. A singularidade mostra-se como por demais importante para o entendimento do desejo e da subjetividade presente na esquizoanálise.  Na esquizoanálise temos que o desejo não é universal, mas singular. O desejo tende a resistir a todas as tentativas para sua normalização e padronização.

Como exemplo do conceito de “singularidade” podemos pensar em um pintor contemporâneo. Em cada obra por ele produzida temos a presença de sua expressão artística que possibilita tornar esta obra única, trazendo nela contida a sua visão pessoal, técnica e também suas experiências de vida. Percebemos a singularidade na escolha do material a ser trabalhado, na escolha da técnica, das cores usadas, no modo particular deste fazer suas pinceladas, nos temas escolhidos para serem desenvolvidos artisticamente, na interpretação dada ao mundo pelo artista por meio de sua obra. Dois ou mais artistas podem possuir obras semelhantes ou mesmo se assemelharem entre si na elaboração de sua arte, mas mesmo assim, cada qual é singular, mostra-se como uma expressão única da subjetividade nele presente.

Outro conceito é o de “produção de subjetividade”, desenvolvido por Guattari em parceria com Deleuze e que surgem particularmente nas obras “O anti-Édipo”, 1972, e “Mil Platôs”, 1980. Pelo conceito de “produção de subjetividade” temos que a subjetividade é apresentada como sendo um processo em constante movimento e transformação, e não uma entidade fixa ou estável. A subjetividade é algo que está sendo produzida de modo contínuo, sendo recriada e moldada no decorrer do tempo histórico.

O conceito de “produção de subjetividade” faz interconexão com o desejo e também o poder. O desejo mostra-se como sendo uma força produtiva que abastece a produção da subjetividade. Já o poder tende a influenciar e moldar esta mesma produção de subjetividade, conforme as dinâmicas nele presente.

A produção de subjetividade também se relaciona com as instituições e as estruturas sociais de poder, não ocorrendo de modo isolado. Normas, valores e práticas sociais tendem a proporcionar sua contribuição para a produção de distintos modos de subjetividade, dando forma as identidades individuais e coletivas.

Para exemplificar o conceito de “produção de subjetividade” podemos pensar em adolescentes contemporâneos, mergulhados em uma cultural digital, com forte presença de redes sociais na Internet e do uso de seus aparelhos de smartphones de última geração, participação em jogos online e em diversas plataformas digitais, que produzem e moldam a sua subjetividade. A formação da subjetividade única dentro deste contexto recebe fortes contribuições das expectativas sociais, das dinâmicas das redes sociais e das influências provindas da cultura digital.

Na produção de subjetividade proposta por Guattari e Deleuze temos um rompimento com abordagens tradicionais presentes na psicanálise, ao propor uma perspectiva mais dinâmica e processual para a subjetividade. A ativa participação dos indivíduos na criação de suas identidades surge por meio da ênfase dada a produção. Temos uma resistência a ideias fixas e deterministas presentes nas abordagens da psicologia tradicional.

Outro conceito presente na filosofia deste autor é o de “capitalismo mundial integrado”. Este conceito foi elaborado principalmente por Guattari, mas Deleuze também recebe os créditos por colaborar em sua criação, sendo o mesmo desenvolvido em maior profundidade nas obras “O anti-Édipo”, 1972, e “Mil Platôs”, 1980. Neste conceito temos uma reflexão sobre a atual sociedade contemporânea. Nele temos presente a globalização capitalista, ao se fazer referência à fase avançada do capitalismo que surge com a globalização. Nesta fase de desenvolvimento do capitalismo, as atividades econômicas, políticas e culturais se mostram de modo interconectado e global, havendo uma profunda e ampla integração dos mercados e das relações sociais.

Por meio do conceito de “capitalismo mundial integrado” temos a presença da interconexão de diversos fluxos como sendo a sua principal característica. Temos fluxos financeiros, comerciais, tecnológicos, culturais e outros que atuam além das fronteiras nacionais. No capitalismo mundial integrado temos a fluidez e a velocidade na qual estes fluxos circulam por todo o planeta.

O “capitalismo mundial integrado” oferece também, impacto nas subjetividades, na produção de subjetividade, e não apenas nos setores econômicos e políticos. A integração global nesta fase do capitalismo se relaciona com os modos como as pessoas percebem a si mesmas e se relacionam com a realidade circundante, influenciando-as.

Como exemplo para o conceito de “capitalismo mundial integrado” podemos pensar no grupo de jovens classificados como adolescentes em nossa cultura. Mesmo estando em partes distintas do mundo, muito afastadas entre si, tendem a usar as mesmas marcas, compartilhar as mesmas tendências, usar as mesmas plataformas digitais, debaterem sobre as mesmas questões, havendo a elaboração de uma uniformidade cultural mundial. Deste modo, o capitalismo mundial integrado atua de modo a influenciar a economia, mas também as preferências individuais e coletivas, os comportamentos sociais e a formação de identidade dos jovens em uma escala global. Pelo conceito de “capitalismo mundial integrado” é colocada a ênfase na natureza interconectada e mundial das dinâmicas sociais, econômicas e culturais na atualidade. O impacto se dá não somente no nível macroeconômico, pois, atinge também outras esferas nas vidas e relações entre as pessoas e sociedades, tais como a experiência cotidiana e a produção de subjetividade das pessoas envolvidas no processo.

No decorrer de seu trabalho filosófico, Guattari buscou uma compreensão ampliada sobre as relações existentes entre a subjetividade, a sociedade, a política e o meio ambiente, bem como, desafiou os paradigmas então reinantes, indo ao encontro de uma abordagem transdisciplinar.

 

PRINCIPAIS OBRAS

 

1- O anti-Édipo: Capitalismo e esquizofrenia ("L'Anti-Œdipe: Capitalisme et Schizophrénie"), 1972. Em coautoria com Gilles Deleuze.

Trata-se de uma crítica à psicanálise, em especial de Freud e Lacan. Os autores propõem uma abordagem nova que chamam de “esquizoanálise”. Na obra é analisada a relação existente entre o desejo, o poder e a sociedade, em um questionamento sobre as estruturas tradicionais de poder.

2- Kafka: Por uma literatura menor ("Kafka: Pour une littérature mineure"), 1975. Em coautoria com Gilles Deleuze.

Um exame da obra de Franz Kafka dentro da perspectiva de uma literatura menor, mostrando como o trabalho crítico de Kafka reflete as dinâmicas de minorias e oprimidos.

3- O Inconsciente Maquínico: Ensaios de Esquizoanálise ("Machinic Unconscious: Essays in Schizoanalysis"), 1979.

Conjunto de ensaios sobre a temática desenvolvida no livro “O anti-Édipo” e a relação entre máquinas, desejo e subjetividade contido no conceito de “esquizoanálise”.

4- Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia (“Mille Plateaux: Capitalisme et Schizophrénie”), 1980. Em coautoria com Gilles Deleuze.

Uma crítica à hierarquia e à linearidade nas estruturas sociais então presentes, a partir do conceito de “rizoma”. São abordadas questões vinculadas à multiplicidade e a conexão.

O título “Mil Platôs” pode ser traduzido para o português como sendo “mil planaltos”, indicando que existe uma multiplicidade de planaltos ou níveis, em referência à complexidade e à diversidade de conceitos e ideias desenvolvidos nesta obra. O livro teria na sua composição e projeto uma série de “plateaux” ou capítulos, cada um destes tratando de conceitos e temas diferentes, mas conectados por uma lógica não linear. A multiplicidade de planaltos presentes no livro aponta para a variedade de perspectivas possíveis presentes nesta obra, que traz em si a natureza multifacetada e complexa presente nas reflexões sobre a filosofia, a psicanálise e a sociedade.

5- Cartografias do Desejo ("Cartographies schizoanalytiques"), 1986. Coautoria com Suely Rolnik.

Nesta obra são tratadas temáticas relacionadas à psicanálise, arte e política, abordando a relação entre subjetividade e práticas culturais em uma perspectiva transdisciplinar.

6- As três ecologias ("Les Trois Écologies"), 1989.

O autor amplia suas discussões para além da esfera social e psicológica, enfocando inter-relações existentes entre ecologia mental, ecologia social e ecologia ambiental, propondo uma visão mais ampla do conceito “ecologia” que possa incluir as dimensões subjetivas e coletivas da existência.

7- Caosmose: Um Paradigma Estético Ético ("Chaosmosis: An Ethico-Aesthetic Paradigm"), 1992.

O autor trata de questões éticas e estéticas dentro de um mundo complexo e caótico. São discutidas as transformações das práticas éticas e estéticas diante de mudanças sociais, tecnológicas e políticas.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

 



 


 


 


 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua autoria)

terça-feira, 9 de abril de 2024

Gilles Deleuze

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Gilles Deleuze

 

VIDA

Gilles Deleuze (1925-1995), nasce e falece na cidade de Paris. Cursou filosofia na universidade de Paris (Sorbonne) e, posteriormente atuou como professor de filosofia, além de escritor. Em 1968 conhece Félix Guattari, cuja influência e colaboração seria marcante em sua obra, em particular no tocante aos campos da política, psiquiatria e psicanálise. Foi casado com Fanny Deleuze, com quem teve dois filhos. Estando abatido, desde 1992, pelo desenvolvimento de um câncer e com menor capacidade respiratória, tornando-se necessário respirar com ajuda de aparelhos, impedindo-o de realizar seu trabalho filosófico, pôs fim a própria vida, ao praticar suicídio pulando da janela de seu apartamento localizado em Paris.


 

Em sua obra estão presentes temas, tais como: a sociedade, a subjetividade e a política. Alguns comentadores o consideram um representante do pós-estruturalismo. Conjuntamente com Foucault é considerado por parte de comentadores, como responsável por um aumento no interesse nas obras do filósofo Nietzsche. No desenvolvimento de sua filosofia, sofre significativa influência de: Nietzsche, Henri Bergson e Spinoza.

Alguns comentadores dividem o trabalho de Deleuze em dois grupos, um voltado para o estudo de filósofos específicos e outro para temas em filosofia. No primeiro grupo teríamos trabalhos interpretando Spinoza, Leibniz, Hume, Kant, Nietzsche, Bergson, Foucault, além de também artistas: Proust, Kafka e Francis Bacon (o pintor moderno). Já no segundo grupo temos o estudo de temas filosóficos ecléticos, focados na produção de conceitos: diferença, sentido, evento, rizoma, etc.

Sua filosofia apresenta múltiplas faces, justamente ao abordar diferentes pensadores clássicos e desenvolver o pensamento destes em sua obra. Cabe também citar sua colaboração com Félix Guattari, psicanalista, escritor e também filósofo. Em parceria escreveram suas principais e mais influentes obras, tais como: “Anti-Édipo: Capitalismo e esquizofrenia vol. 1” e “Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia vol. 2”.

A influência de Deleuze ultrapassa o campo da filosofia, ampliando-se para outros campos do saber e práticas humanas, tais como a literatura, o cinema e os estudos culturais. Deleuze continua um filósofo atual, sendo estudado e debatido, bem como, exercendo influência em vários campos de estudo. Algumas de suas ideias se destacam pela influência que exerceram na filosofia contemporânea, tais como: multiplicidade, diferença e produção de conceitos. No entanto, a filosofia de Deleuze se mostra de modo complexo e inovador, apresentando-se de modo desafiador para com a tradição filosófica.

 

IDEIAS

Deleuze entende a filosofia como criadora de conceitos. Esta questão surge inicialmente na obra “O que é filosofia?”, 1991, de Deleuze e Guattari. Nesta obra, no lugar de termos uma introdução ao modo tradicional sobre o que seja a filosofia, temos uma reflexão sobre o próprio ato de filosofar. Também é discutida a relação existente entre a filosofia, a arte, as ciências e o pensamento em geral. Nesta obra, a filosofia nos é apresentada como sendo uma atividade criadora de conceitos a partir do exercício constante de um pensamento inovador. A filosofia é um processo dinâmico no qual temos uma atividade criadora de conceitos, o filósofo se insere na atividade de produção de novas ideias. Segundo o pensamento destes autores, conceitos não são representações estáticas da realidade de nosso mundo, mas sim, mostram-se como ferramentas ativas de transformação da forma como entendemos a realidade. Por meio da criação de conceitos por parte dos filósofos, a filosofia permite a abertura e ampliação de novos horizontes para o pensamento humano, sendo, portanto, a criação de conceitos uma atividade produtiva e criativa.

No livro “O que é filosofia?”, de Deleuze e Guattari, é tratada a questão da diferenciação entre a filosofia, a arte e as ciências. A filosofia surge como uma disciplina voltada para a criação de conceitos e não para a busca de respostas definitivas. Os conceitos mostram novas possibilidades para o pensamento. Cabe à filosofia exercer uma atividade conceitual que trata sobre a multiplicidade do pensamento. A arte se mostra como voltada para a criação de sensações. Cabe aos artistas trabalhar com materiais sensíveis para produzir experiências estéticas. Ao atuar como uma forma de expressão que abarca a criação de percepções e afetos, a arte tende a ultrapassar a linguagem conceitual presente na filosofia. As ciências se definem pela criação de funções. Desenvolvem funções matemáticas que modelam regularidades e relações causais. Cabe às ciências atuar formulando explicações e previsões baseadas em leis e fórmulas.

Apesar da filosofia, da arte e das ciências serem atividades distintas, possuem interseções e sobreposições entre elas. Pode, por exemplo, a filosofia se inspirar na arte para a criação de conceitos, por sua vez, as ciências podem ser favorecidas pela abertura conceitual presente na filosofia. Não há fronteiras rígidas e sim uma dinâmica de influência mútua.

É importante que haja esta comunicação entre estes três campos do saber, e esta comunicação não deve ser entendida como sendo hierárquica, mas sim, como uma rede de relações criativas. Apesar de cada campo ter seu próprio modo de expressão, há uma troca constante de ideias e afetos entre eles.

Cada campo se mostra como uma atividade distinta e com um modo específico de criação, deste modo, para a filosofia temos a criação de conceitos, para a arte temos a criação de sensações e para a ciência temos a criação de funções. Mas tais atividades não são isoladas entre si, há uma interação constante e uma influencia a outra. Este entendimento apresenta a filosofia como uma atividade criativa, criadora de conceitos, que se relaciona de modo dinâmico com a arte e as ciências.

A filosofia é entendida como sendo uma força criativa que proporciona a criação de novas formas de compreensão da realidade por meio da criação de conceitos. A filosofia não é apenas uma atividade analítica e descritiva da realidade, mas sim um ato criativo e produtivo. Cabe à filosofia não somente representar e interpretar a realidade, mas criar novas formas de pensar e se relacionar com esta mesma realidade, transformando-a. A filosofia é uma atividade dinâmica e criativa, na qual a criação de conceitos tem um lugar de destaque.

Seus escritos iniciais estão vinculados a pensadores dentro da história da filosofia, a partir da publicação de “Diferença e repetição”,1968, e “Lógica do sentido”,1969, começa a seguir outro rumo filosófico. A ideia de diferença mostra-se central dentro de sua filosofia, presente no estudo das singularidades, que se mostram como sendo os fatos únicos e as anomalias.

  Ao nos trazer a discussão sobre os conceitos de “diferença e repetição”, Deleuze debate a ideia tradicional em filosofia na qual temos um maior destaque para o princípio da identidade. Ao contrário, Deleuze entende que no lugar da “identidade”, deve-se questionar e valorizar a “diferença”. Quando pensamos na construção da realidade, a “diferença” mostra-se como algo fundamental. Ao invés de tentar enquadrar as coisas em categorias predefinidas, buscando sua identidade, entende Deleuze a importância de valorizar o que torna justamente estas coisas como sendo únicas em sua diferença para com as demais.

Na filosofia de Deleuze, “diferença e repetição” torna-se em conceito central, proporcionando destaque à noção de diferença e apresentando-se como sendo a negação da identidade enquanto categoria fundamental na filosofia tradicional. Há um questionamento e crítica feitos a tentativa de tudo reduzir a categoria de identidade, apresentando como alternativa a valorização da multiplicidade e da singularidade. Segundo o pensamento de Deleuze, a repetição não é a mera cópia de algo, trazendo em si uma variação produtiva da diferença. Tal pensamento traz implicações para o modo como entendemos a individualidade, a criação e a mudança.

Deleuze aponta para a importância do que este chamou de filosofia da diferença, destaca conceitos tais como a multiplicidade, a diferença e a repetição, questionando as categorias tradicionais presentes na filosofia, tal como o caso da “identidade”.

Deleuze, conjuntamente com Guattari, desenvolve uma crítica à vinculação do desejo, como presente na Psicanálise de Freud e Lacan, à falta contida no complexo de Édipo. Trata-se de uma crítica à forma como na teoria psicanalítica o desejo encontra-se vinculado à questão da falta contida no complexo de Édipo. No lugar, propõe uma leitura a partir da categoria marxista de “produção”. Sua crítica ao complexo de Édipo e ao inconsciente se baseia na categoria Marxista de “produção”.

Dentro da teoria psicanalítica temos que o complexo de Édipo atua de modo central na formação da estrutura de personalidade do sujeito, de suas escolhas de vida e profissional, bem como, do desenvolvimento ou não de uma vida mental saudável e produtiva. Em linhas gerais, nos primeiros cinco anos de vida da criança, esta se envolve afetivamente com o genitor do sexo oposto e depois muda sua identificação para o genitor do mesmo sexo, havendo uma rivalidade amorosa no formato de um triângulo, tendo em uma das pontas a criança e nas outras duas pontas o representante do papel masculino (pai) e feminino (mãe). O desejo mostra-se associado à falta, à ausência de algo.

Segundo a concepção de Deleuze e Guattari, associar o desejo à falta é reduzir o desejo a uma busca constante por algo que o complete, ou, algo que satisfaça uma falta originária. Ambos autores entendem esta abordagem psicanalítica como sendo limitadora e determinante, gerando a construção de uma subjetividade focada na carência. Os autores propõem como alternativa substituir a noção de falta pela de “produção” de desejos e subjetividades, vinculando o desejo à categoria marxista da “produção”. No lugar de entender o desejo como uma tentativa de suprir uma falta, os autores defendem que o desejo se apresenta como uma força produtiva e criativa, que busca produzir novas formas de se relacionar com a realidade circundante.

No tocante ao complexo de Édipo, Deleuze e Guattari, criticam além da forma como o desejo é tratado, também a presença da hierarquia e da normatividade, questionando que o mesmo seja uma estrutura universal. Segundo os autores, haveria uma multiplicidade de expressões e produções de subjetividade.

No lugar de entender o desejo como falta associada a uma estrutura universal, entendem que o desejo se apresenta como uma expressão criativa originada nas relações sociais e nas experiências individuais.

Em sua obra, Deleuze desenvolveu e teorizou as instâncias do atual e do virtual. Há semelhanças com as ideias de Platão (teoria das formas) e com as ideias de Kant sobre a razão pura, mas também se afastam de tais conceitos, pois, tais instâncias em Deleuze não se apresentam como modelos ideais (Platão) ou algo que possa transcender a experiência (Kant). Em Deleuze, nas ideias do virtual, o conceito se mostra idêntico ao seu objeto, dissolvendo-se ambos no plano da imanência.

Outro conceito importante na filosofia de Deleuze é o de “rizoma”, desenvolvido conjuntamente com Félix Guattari, no qual temos uma estrutura sem hierarquia. No rizoma as ideias são interconectadas de modo não linear. Se pensarmos em uma metáfora na qual temos uma árvore com sua raiz, tronco e galhos, o rizoma se apresenta de modo diametralmente oposto, ao não possuir um começo com as “raízes”, um “tronco”, ou uma prolongação com os “galhos e folhas”. O rizoma mostra-se como uma rede na qual qualquer ponto pode se conectar com qualquer outro, não havendo ordem ou hierarquia nestes cruzamentos e ligações.

Como exemplo de uma aplicação da ideia de “rizoma”, podemos pensar em uma escola na qual os alunos ali matriculados possam ser incentivados a explorarem diversas áreas do saber, sem, no entanto, ficarem restritos ao conteúdo programático da ementa de uma dada disciplina. Deste modo, temos que o conhecimento não é estruturado de maneira rígida e os alunos podem escolher diferentes caminhos e interconectar as experiências vivenciadas.

O exemplo da “árvore”, presente no conceito de “rizoma”, em Deleuze e Guattari, tem sua origem em um filósofo mais antigo (século XVII), Descartes, o qual também dá como exemplo para explicar o conhecimento, uma árvore. Buscando ilustrar e explicar o método de busca por um conhecimento que não nos engane no futuro, Descartes utiliza como exemplo uma árvore. Esta metáfora pode ser encontrada no livro “Discurso do método” (Discours de la méthode), 1637. Descartes busca em sua obra um método que proporcione um conhecimento fundamentado e que não leve futuramente ao erro. A base de seu método encontra-se no “penso, logo sou”, que lhe proporciona uma base irrefutável para, a partir da mesma construir todo o edifício do conhecimento.

Segundo Descartes, podemos comparar o desenvolvimento do conhecimento, por meio de um método seguro e confiável, a uma árvore. As raízes representam a metafísica, ou seja, os fundamentos, já o tronco representa a filosofia, na qual temos a lógica dedutiva e o emprego do método correto, os galhos, com suas folhas e a produção de frutos, representam as diversas ciências, as distintas áreas do conhecimento. Segundo o pensamento de Descartes, devemos começar com a elaboração de fundamentos sólidos e indubitáveis (raízes), que irão proporcionar que toda a estrutura a partir daí levantada seja confiável e estável. Esta analogia enfatiza a importância da ordem e do método na busca pelo conhecimento verdadeiro.

Claro está, no entanto, que apesar da metáfora da árvore apresentada por Deleuze e Guattari também se encontrar em Descartes, os contextos filosóficos são distintos, e as implicações e objetivos são diferentes. Em Descartes tal metáfora enfatiza a hierarquia, a racionalidade e ordem na natureza e no método presente na construção do conhecimento. Já em Deleuze e Guattari a metáfora da árvore está associada ao conceito de “rizoma”. No “rizoma” temos um modelo não hierárquico, sem ter uma estrutura fixa. No lugar de uma linearidade apresentada por uma raiz, seguida por um tronco e depois por galhos, temos diversas e distintas conexões horizontais, não linearidade, multiplicidade e descentralização. O conhecimento possui uma organização não fixa, se espalhando por diversas direções e, deste modo, permitindo inesperadas conexões.

O conceito de “rizoma” se soma ao entendimento da filosofia como criadora de conceitos. O rizoma mostra-se como a multiplicidade de pensamentos e conexões que não se encaixam em estruturas pré-determinadas. Por meio do “rizoma” o foco é direcionado para a inovação, a criação e a abertura para novas possibilidades. No lugar da ordem, estabilidade, hierarquia e busca da verdade encontrada no método de Descartes e na metáfora da árvore por ele proposta, em Deleuze e Guattari temos um modelo mais flexível e descentralizado, onde está presente a multiplicidade, não linearidade, criatividade e a dinâmica do pensamento, na produção de conceitos e conhecimento.

Na filosofia de Deleuze e também Guattari, “rizoma” se apresenta como um conceito fundamental. Tal conceito surge no livro “Mil Platôs”, sendo uma metáfora para descrever uma forma de organização que contrasta com as estruturas hierárquicas e lineares presentes na sociedade tradicional. Um bom exemplo, em termos de metáfora, é o da árvore.

Alguns aspectos importantes dentro do conceito de “rizoma”, são: 1- uma estrutura não linear; 2- conectividade e multiplicidade; 3- ausência de ponto central; 4- flexibilidade e resistência à hierarquia.

1- Se pensarmos na metáfora da árvore, teremos uma linha de comando vertical e linear, já o rizoma se opõe a esta ideia, sendo caracterizado por apresentar uma estrutura não linear e não hierárquica. No conceito de “rizoma” não temos uma ordem fixa e pré-determinada. Em vez de uma estrutura vertical, os diversos elementos ali presentes são conectados de modo horizontal, não existindo clara hierarquia entre eles.

O “rizoma” não segue uma ordem linear ou sequencial, sendo caracterizado por possuir uma natureza não linear, podendo seus elementos se relacionarem de modo complexo e imprevisível. As conexões podem ocorrer em qualquer direção, sem seguirem qualquer ordem pré-definida ou específica.

2- O conceito de “rizoma” enfatiza a conectividade e a multiplicidade presente nas diversas relações ou pontos de contato. Cada ponto isolado dentro do conceito de rizoma pode se conectar a diversos outros pontos, daí a multiplicidade e diversidade das relações possíveis, não havendo a elaboração de um único caminho ou rota pré-definido a ser obrigatoriamente seguido nestas conexões e relações.

3- Presente, também, temos a ideia da ausência de um ponto central. Retornando para o exemplo da árvore, esta tem em seu tronco algo central que unifica todas as partes. O tronco da árvore se apresenta como um ponto central dominante. Já o conceito de “rizoma” carece deste ponto central dominante, sendo caracterizado por múltiplos pontos de conexão, sendo que qualquer destes pontos pode ser em determinado momento, central.

4- Flexibilidade e resistência a hierarquia se mostram presente no conceito de rizoma na medida em que este se mostra associado à ideia de opor uma resistência a estruturas rígidas e hierárquicas, sugerindo uma abordagem mais flexível, adaptável e resistente diante das formas tradicionais de controle e organização social.

O conceito de “rizoma” pode ser aplicado a diversas áreas de estudo, que vão desde teoria social até filosofia da mente. Por meio de tal conceito, busca-se um incentivo à exploração de multiplicidade e conectividade em múltiplos contextos, se afastando de uma ideia pautada em estruturas fixas e unificadas. A ideia de rizoma mostra-se como uma metáfora para expressar a possibilidade de formas não hierárquicas e não lineares de organização, buscando incentivar a multiplicidade, conectividade e resistência à rigidez estrutural.

O objetivo do desenvolvimento da ideia de “rizoma” por seus autores, Deleuze e Guattari, é apresentar uma abordagem filosófica que possa romper com estruturas tradicionais, hierárquicas e lineares. Este conceito possui ampla aplicabilidade: filosofia, teoria social, psicanálise, linguística, etc.

Busca-se se opor às formas convencionais e tradicionais de pensamento, baseadas em estruturas fixas, hierarquias e dualismos. Por meio da metáfora presente no conceito de “rizoma”, temos a busca por uma organização mais flexível, descentralizada e não linear.

O conceito de “rizoma” proporciona o desenvolvimento de modo complexo e não previsível de múltiplos caminhos e conexões possíveis, deste modo, enfatizando e incentivando a multiplicidade e a conectividade, ou seja, a possibilidade da multiplicidade de conexões possíveis entre os diferentes elementos presentes de modo a evitar uma simplificação excessiva.

Buscam os autores explorar a natureza descentralizada da realidade, trazendo uma visão de mundo não baseada em um ponto central dominante e destacando a descentralização e a ausência de uma estrutura fixa.

O conceito de “rizoma” mostra-se relacionado à filosofia da diferença proposta por Deleuze, que tende a valorizar a multiplicidade e a singularidade. Trata-se de substituir a busca por identidades fixas pelo destaque a diferença enquanto força criativa.

O conceito de “rizoma” foi aplicado por Deleuze e Guattari na sua crítica às bases da psicanálise tradicional. Na esquizoanálise proposta pelos autores, busca-se entender a mente e a subjetividade sem a presença de uma narrativa que seja linear e / ou centralizada.

Na teoria social e política desenvolvida pelos autores, o “rizoma” apresenta uma alternativa para a organização social. Temos uma crítica à sociedade disciplinar e a apresentação de um modelo social que seja mais descentralizado e fluído.

Cabe também ao conceito de “rizoma” ser uma crítica à estrutura binária presente na lógica, ao proporcionar uma visão de mundo mais complexa e interconectada. Temos em Deleuze uma crítica ao dualismo corpo-mente, bem como, a outros dualismos.

O conceito de “rizoma” tem um papel significativo dentro da filosofia de Deleuze, apresentando uma visão inovadora para o entendimento da realidade, da mente, da sociedade e da arte. Por meio de tal conceito, o leitor é direcionado para pensar questões vinculadas à multiplicidade, conectividade e descentralização, de modo a romper com as estruturas tradicionais e hierárquicas existentes na sociedade.

A construção do conceito de “rizoma” por Deleuze e Guattari pode ser vinculada historicamente ao contexto político e ideológico presente no decorrer da década de 1960, em particular as bandeiras defendidas pela esquerda política. Temos pontos de similaridade, como: a luta contra as hierarquias autoritárias; o anti-institucionalismo; a resistência à sociedade disciplinar; influência anarquista; o movimento antipsiquiatria; desafio a rigidez política.

O conceito expresso por “rizoma” mostra-se como uma forma de resistência à hierarquia e à rigidez presente nas estruturas de poder tradicionais, alinhando-se, portanto, com os movimentos de contestação política então presentes.

O conceito de “rizoma” mostra-se como sendo anti-institucional ao sugerir uma abordagem não centralizada e não linear, o que encontra eco nas contestações presentes nos movimentos estudantis e contra-culturais da década, que tendiam a entender as instituições existentes como sendo opressoras.

Mais um conceito importante encontra-se junto a expressão “Corpos sem órgãos” ou “CsO”. Por meio deste conceito, Deleuze sugere que as pessoas não são definidas apenas por meio de suas funções biológicas, podendo se libertar das restrições sociais e culturais, e, deste modo, poderem experimentar a vida de modos diferentes. Ou seja, é possível às pessoas que estas rejeitem as expectativas impostas pela sociedade e explorem diferentes possibilidades para sua existência.

O conceito de “Corpos sem Órgãos”, CsO (Bodies without Organs, BwO), elaborado por Deleuze e Guattari, em particular nas obras "O Anti-Édipo", 1972, e "Mil Platôs, 1980, pode ser vinculado a debates sobre a sexualidade humana, dentre os quais pode-se incluir o debate sobre a homossexualidade e também a identidade de gênero. Trata-se de um conceito flexível que pode ser aplicado a diversas dimensões da experiência humana.

O conceito de CsO atua na desconstrução das normas e hierarquias presentes na sociedade, incluindo as convenções socias sobre à sexualidade humana. Por tal conceito pode-se questionar as categorias fixas e binárias associadas a sexualidade humana e a uma normatividade heterossexual, trazendo para o debate a diversidade de experiências sexuais e atuando como resistência às estruturas sociais normativas. Por meio deste conceito temos uma abordagem que se mostra mais fluída e aberta, incluindo categorias que não se encaixem na normativa tradicional, abrindo, deste modo, espaço para a expressão de desejos e identidades. O corpo humano mostra-se como um campo amplo de possibilidades, onde nada se encontra pré-definido, podendo as identidades serem construídas e reconstruídas de formas as mais distintas. Por meio do conceito de CsO temos a possibilidade de uma melhor compreensão da multiplicidade de expressões sexuais humanas. Experiências sexuais não são limitadas por uma organização rígida, podendo se apresentar de modos diversos e inovadores.

Podemos associar o conceito de CsO com a desconstrução das categorias tradicionais de identidade sexual e de gênero, desafiando as normas heteronormativas e binárias presentes na sociedade e buscando a exploração de novas possibilidades, não restringindo a expressão sexual autêntica.

Por meio do conceito de CsO são desafiadas noções tradicionais de “corpo”, “subjetividade” e “organização”. Busca-se a desconstrução da concepção tradicional de “corpo” como sendo uma entidade orgânica e hierárquica, afastando-se de categorias fixas e de estruturas normativas e convencionais. O corpo passa a ser entendido como sendo um campo de possibilidades, intensidades e fluxos, não fixado por funções específicas. O corpo é apresentado como uma plataforma aberta e não estratificada, indo além de divisões tradicionais entre órgãos e sistemas.

O conceito de CsO se associa a outro conceito destes autores, o de “rizoma”, pois, do mesmo modo que “rizoma” se opõe a hierarquias fixas, CsO se opõe a uma organização convencional do corpo. Ambos conceitos destacam a desestratificação e a multiplicidade.

Pode ser pensado como exemplo o corpo de um artista, já que este tende a transcender as limitações dadas pelas normas, indo de encontro a experimentação, a fluidez e à liberdade expressiva.

CsO se caracteriza por fluxos e intensidades e não por estruturas rígidas. Temos em CsO um campo de possibilidades onde circulam livremente as energias. Por meio de CsO pode-se pensar a multiplicidade de subjetividades e experiências que não se apresentam em categorias fixas.

Os autores entendem que o conceito de CsO mostra-se como um modo de resistência à captura capitalista. Trata-se de uma ferramenta utilizada para tal finalidade. O capitalismo busca organizar e estratificar os corpos para poder maximizar a produção e o controle, deste modo, CsO mostra-se como a ferramenta de resistência contra este processo, resistência a essa captura, mantendo a singularidade e a potência dos corpos.

CsO nos traz a singularidade enquanto processo pelo qual os indivíduos se afastam das identidades sociais pré-determinadas, tornando-se algo singular e abertos para a multiplicidade de experiências e modos de ser.

CsO é uma forma de crítica à sociedade de controle contemporânea. Trata-se de uma crítica às formas de controle social que visam normalizar e disciplinar os corpos, se apresentando como uma resistência a homogeneização e à padronização dos corpos dentro da sociedade de controle.

CsO mostra-se como um conceito denso e multifacetado que se coloca de modo a desafiar noções convencionais sobre o corpo, a subjetividade e a organização, destacando a fluidez, a abertura para a multiplicidade e a resistência a estruturas rígidas.

Na filosofia de Deleuze, “Corpos sem órgãos”, mostra-se particularmente presente na obra “O anti-Édipo”, colocando em xeque a visão tradicional do corpo como sendo uma estrutura organizada por meio de estruturas fixas. No conceito de “CsO” temos algo a semelhança de um corpo sem limites ou estrutura predefinida. Por meio de tal conceito busca-se livrar o corpo das normas sociais e negar as limitações impostas pelas instituições e pela hierarquia. Em vez de algo sempre fixo e imutável, temos a possibilidade de uma abertura para o novo, para a experimentação, para a criação, para novas formas de subjetividade.

Deleuze também desenvolve em sua filosofia uma crítica à sociedade de controle e disciplinar. A sociedade de controle e disciplinar na qual vivemos se baseia na vigilância e normalização, fazendo uso das inovações trazidas pela tecnologia.

Tanto Deleuze, como também Guattari, desenvolveram uma crítica à sociedade disciplinar, ideia esta também acolhida por pensadores e grupos de esquerda de sua época. A ideia contida no conceito de rizoma apresenta uma alternativa para a disciplina rígida e para o controle, ideias estas presentes na discussão e reivindicações presentes em grupos de esquerda, associada à ideia de liberdade e resistência.

Deleuze e Guattari apresentam uma crítica à sociedade de controle e disciplinadora. No decorrer da evolução das sociedades e da tecnologia, o controle exercido pela disciplina passa a atuar por meio de sistemas mais difusos, na qual temos a vigilância constante. Aqui temos uma crítica à crescente e constante normalização e controle desenvolvidos na sociedade.

Também fica nítido a presença de elementos anarquistas nas ideias desenvolvidas por ambos autores em suas obras. Basta entendermos o “rizoma” como uma forma de resistência à autoridade centralizada. Os princípios anarquistas foram muito influentes na contracultura desenvolvida na década de 1960.

Por sua vez, Guattari estava pessoalmente envolvido com o movimento antipsiquiatria, movimento este que tinha por base o questionamento das práticas psiquiátricas institucionais. O conceito de “rizoma” apresenta uma visão não linear para a compreensão da mente humana, que se mostra coerente com a crítica da antipsiquiatria feita ao modelo médico tradicional.

Também no tocante a política, temos que a filosofia destes autores desafia a rigidez política, evitando categorias fixas e a divisão binária, se direcionando para uma compreensão que possa ser mais fluida e complexa das diversas relações políticas e sociais.

Na obra “O anti-Édipo” temos que os autores, Deleuze e Guattari, apresentam uma crítica à psicanálise de Freud e Lacan, além de proporcionar uma análise nova sobre as dinâmicas sociais e políticas associadas ao capitalismo.

Busca-se a desconstrução da Psicanálise por meio da crítica às suas bases, seja o inconsciente, o desejo ou o complexo de Édipo. No Édipo teríamos a estruturação da mente da pessoa em relação a uma família nuclear tradicional, já os autores propõem que no lugar de entendermos a mente como centrada em conflitos familiares, tenhamos uma abordagem descentralizada e múltipla.

Também essencial neste livro é o conceito de “corpos sem órgãos” ou “CsO”. Busca-se uma concepção que seja mais fluida e aberta dentro da experimentação e resistência às normas sociais, e a imposição de identidades fixas.

Deleuze e Guattari entendem a esquizofrenia, não de um modo clínico, como uma patologia, mas sim como condição produtiva. A esquizofrenia apresenta-se como um modo de resistência ao sistema e como uma abertura para a multiplicidade de desejos. A esquizofrenia pode ser vista como uma recusa em se adequar a estruturas normativas.

Ainda no livro “O anti-Édipo”, temos uma crítica à sociedade de controle, na qual as formas de poder se tornam cada vez mais difusas, se ampliando em relação aos limites anteriormente ocupados pelas instituições tradicionais. Esta análise vincula-se a uma crítica ao surgimento de uma forma de capitalismo mais flexível e ao mesmo tempo mais controlador.

O capitalismo não apenas explora o desejo já existente, como também produz este mesmo desejo de modo ativo. Mesmo as resistências ao sistema capitalista são por este incorporadas e transformadas em partes do sistema, gerando lucros por meio do consumo de produtos. Deste modo, formas de resistência são incorporadas e cooptadas pelo sistema capitalista na criação de produtos destinados ao consumo e ao lucro.

Deleuze também apresenta um trabalho filosófico sobre o cinema, tecendo argumentação sobre o cinema também ser uma forma de filosofia. Deleuze discutiu como o cinema expressa o movimento, o tempo e a multiplicidade. Diferentes cenas presentes em um mesmo filme podem ser apresentadas e coexistirem de modo independente uma das outras, inexistindo uma linearidade temporal.

Na concepção de Deleuze, o cinema é uma forma de filosofia e não apenas uma arte na qual conceitos filosóficos aparecem. O cinema mostra-se, ele próprio, como um meio pelo qual o pensamento é gerado. Por meio do cinema, conceitos tais como o tempo, a memória e a subjetividade, podem ser expressos de modo filosófico. Por meio das técnicas envolvidas na construção das obras do cinema, os cineastas podem criar novas formas de pensamento visual que se coloquem em oposição as convenções narrativas e proporcionem novas visões sobre a existência humana.

Deleuze aplicou o conceito de “rizoma” em sua filosofia no tocante à arte e ao cinema. Segundo o pensamento de Deleuze, o cinema se apresenta como uma manifestação artística que pode expressar a multiplicidade, saindo da linearidade. Pode o cinema proporcionar uma experiência que se afaste das narrativas tradicionais, apresentando algo novo, não linear e descentralizado.

Deleuze também apresenta uma contribuição original para as discussões sobre o papel do cinema em relação com a filosofia, destacando que o cinema pode expressar por si só, em suas obras, conceitos filosóficos. Também cabe destacar que análises feitas por Deleuze sobre o tempo, a diferença e a subjetividade, sofrem influência de filósofos anteriores, tais como: Friedrich Nietzsche e Henri Bergson.

Apesar de trabalharem juntos em algumas de suas mais importantes obras, há algumas diferenças entre o pensamento de Deleuze e Guattari. Enquanto Deleuze traz em sua bagagem uma ampla gama de conhecimentos sobre história da filosofia, Guattari tem experiência e convívio com a psicanálise, a antipsiquiatria e grupos ativistas políticos de esquerda. Apesar das inegáveis diferenças, ambos autores compartilhavam de um núcleo básico de opiniões semelhantes, tais como suas preocupações quanto a multiplicidade, a resistência às estruturas hierárquicas e também ao desenvolvimento de uma abordagem crítica em relação a normas sociais estabelecidas.

 

PRINCIPAIS OBRAS

1-      Diferença e repetição (“Différence et Répétition”), 1968.

Neste trabalho são estudadas as noções de diferença e repetição e como tais conceitos se mostram presentes na filosofia, na matemática e em outros campos do saber. Deleuze assume uma atitude de desafio diante de ideias tradicionais, como o caso da identidade, destacando a importância da multiplicidade. Inicialmente sua tese de Doutorado.

2- Lógica do sentido (“Logique du Sens”), 1969.

Nesta obra é abordada a relação existente entre a linguagem e o significado, estudando como os enunciados adquirem sentido. É introduzida a ideia de “corpos sem órgãos” e são analisadas questões relacionadas à linguagem, subjetividade e expressão.

3- Anti-Édipo: Capitalismo e esquizofrenia (“L'Anti-Oedipe: Capitalisme et Schizophrénie”), 1972. Em coautoria com Félix Guattari.

Trata-se de uma crítica social radical à psicanálise de base freudiana. Temos um estudo sobre as relações entre o desejo, o poder e a sociedade. Busca-se uma nova abordagem para a compreensão da psicologia humana dentro de um contexto social.

4- Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia (“Mille Plateaux: Capitalisme et Schizophrénie”), 1980. Em coautoria com Félix Guattari.

Os autores dão prosseguimento as ideias anteriormente apresentadas em “Anti-Édipo”, explorando conceitos como: rizoma, multiplicidade. Também um destaque para as interconexões presentes entre diversos campos do saber, tais como: filosofia, arte, ciências.

5- O que é filosofia? (“Qu'est-ce que la philosophie?”), 1991. Em coautoria com Félix Guattari.

Trata-se de uma investigação sobre a natureza e função da filosofia, focando a relação existente entre filosofia, arte e ciência. Os autores tratam de questões vinculadas a criação de conceitos e a importância do pensamento filosófico na compreensão do mundo atual.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 




 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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