Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

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terça-feira, 10 de setembro de 2024

São João da Cruz, grande místico e poeta espanhol

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

São João da Cruz

 

São João da Cruz (1542-1591) em castelhano: Juan de la Cruz. Seu nome dado ao nascer foi Juan de Yepes y Álvarez. Nasce em Fontiveros, província de Ávila, Espanha e falece em Úbeda, Jaén, na Espanha, aos 49 anos de idade. De origem em uma família pobre, convertida ao cristianismo, inicialmente dedicou-se a aprender o ofício de tecelão, mais tarde no decorrer de sua vida atuou como empregado do diretor de um hospital. Estudou em um colégio dos jesuítas e há relatos, por parte de comentadores, que no transcurso de sua vida tinha o hábito de praticar mortificação corporal (jejuns e abstinências; longas vigílias; uso de cilícios; autoflagelação).

Quando, em 1563 entrou para a Ordem Carmelita, adotou o nome de “São João de São Matias”. Em 1564 proferiu seus votos na Ordem Carmelita e, em seguida, foi para a cidade de Salamanca, onde passou a estudar teologia e filosofia. No ano de 1567 foi ordenado sacerdote. Em 1568, quando da fundação de um novo mosteiro (da Ordem dos Carmelitas Descalços e a pedido de Santa Teresa), muda seu nome para São João da Cruz.


 

Atuou como sacerdote, é considerado místico, bem como, foi frade carmelita espanhol, venerado como santo pela Igreja. É considerado, conjuntamente com Santa Teresa de Ávila, o fundador dos Carmelitas Descalços. Em 1567, quando cogitava em trocar a Ordem dos Carmelitas pela Ordem do Cartuxos (A Ordem era conhecida por sua extrema austeridade e silêncio, viviam em celas e de modo quase eremita) conhece Santa Teresa de Ávila, que o convence a participar de seu programa de reforma da Ordem dos Carmelitas, criando a Ordem dos Carmelitas Descalços (nome dado em alusão a estes não usarem calçados).

Entre os anos de 1574 e 1577, estando à época como prior do convento de El Calvario, em Baeza, Espanha, tem uma visão mística, intensa e profunda, enquanto rezava, esta experiência fez com que criasse o desenho de Cristo sendo crucificado, visto do alto. Esta nova forma de apresentar a cena, mostra a crucificação de Jesus Cristo da perspectiva celestial vista por Deus Pai, destacando a dimensão celestial e transcendente deste sacrifício, bem como a redenção da humanidade por meio deste sacrifício.

Em 1577, em decorrência das tensões existentes entre os monges Carmelitas Calçados e os Descalços no tocante às reformas impostas pelos segundos, foi preso pelos monges Carmelitas Calçados e assim mantido por nove meses em um mosteiro Carmelita em Toledo, Espanha, quando então, em 1578, conseguiu fugir. Ele ficou preso em uma cela minúscula vivendo a pão e água e pelo menos uma vez por semana (variando segundo os comentadores) era retirado da cela para ser chicoteado pelos irmãos da Ordem.

Em 1618 teve suas obras impressas e publicadas e em 1630 foi acrescentado o “Cântico Espiritual" às suas obras. São quatro os poemas por ele criados e comentados em detalhes, a saber: Cântico espiritual; A noite escura; Subida ao Monte Carmelo; Chama de amor a vida. São João da Cruz é considerado um dos principais poetas em língua espanhola. Sendo suas obras teológicas em grande parte comentários a estes poemas, aliás, suas obras foram escritas entre 1578 e 1591.

O poema “Cântico espiritual” é uma versão livre do “Cântico dos cânticos”. Na época em que foi escrito, na Espanha eram proibidas traduções de livros da Bíblia. Neste poema, é apresentado uma noiva, que representa a alma humana, procurando um noivo, este representando Jesus. A noiva preocupada por perder o noivo, ao conseguir reencontra-lo fica, conjuntamente com este, feliz com o reencontro. O poema “Noite escura da alma” descreve a jornada da alma saindo do corpo e indo ao encontro de Deus, durante a noite. A noite, por sua vez, representa todas as dificuldades encontradas neste mundo pela alma na sua busca por Deus. No poema “Subida do Monte Carmelo” temos o doloroso e difícil caminhar da alma em sua ascensão ao monte Carmelo, aqui representando sua ascensão espiritual. Nesta jornada, cada apego e desejo é deixado para trás, em um caminho onde temos presente a renúncia radical, o desapego total. No poema “Chama amor viva”, temos a alma e Deus representados pela metáfora do fogo que tudo consome, consumindo as imperfeições da alma e enchendo-a de amor.

Seguindo por alguns de seus poemas, temos presente uma reflexão sobre a união entre criatura e criador e que tal união há de depender da fé. Em seu entendimento, Deus é tudo e as criaturas diante de Deus são nada, totalmente dependentes de Deus. Temos presente o auto-esvaziamento, o total desprendimento, a conformidade da vontade humana à Divina.

Dentro da doutrina mística proposta por São João da Cruz, temos a centralização na purificação da alma humana e a busca por uma completa união com Deus que se daria por meio do desapego e do amor.

Nos seus quatro poemas (Cântico espiritual, Noite escura da alma, Subida do Monte Carmelo e Chama viva de Amor) temos uma ênfase na purificação necessária para à união com Deus, no amor, nos resultados da união com Deus enquanto meta a ser alcançada. Os poemas exaltam o esvaziamento, desapego e desprendimento durante a jornada da alma, que leva ao nada, ao vazio interior que, na sequência dos poemas, há de ser preenchido pelo todo que é o amor e a plenitude de Deus. Ele é, portanto, conhecido como aquele que trabalha em sua obra o “nada” e o “tudo”.

Na obra teológica desenvolvida em seus quatro poemas e nos comentários explicativos aos mesmos, temos que para São João da Cruz o tema do “nada” e do “tudo” aparecem como motivos centrais de seu pensamento. Por meio do “nada” e do “tudo” temos a jornada espiritual da alma em direção a Deus, que deve primeiramente desapegar e se esvaziar até o “nada”, para estando neste vazio, abrir espaço para ser preenchida pelo “tudo” que é Deus. O “nada” é uma ideia presente na obra de São João da Cruz que se apresenta intimamente vinculada à purificação da alma e ao desapego, enquanto o “tudo” surge associado à plenitude e união mística com Deus.

Esta jornada que passa pelo “nada” em “direção ao “tudo” propicia o surgimento de uma relação direta e íntima com Deus, unindo a vontade da alma com a vontade de Deus. A união com Deus passa a ser o objetivo último da vida espiritual, proporcionando profunda paz e plenitude.

O desapego presente no “nada” há de incluir todas as coisas materiais e também espirituais. Inclui os prazeres sensoriais, e também os desejos, pensamentos e consolos espirituais, para que a alma não seja distraída de seu verdadeiro objetivo durante esta jornada. Por fim, a alma chegará ao “tudo”, sendo preenchida pela plenitude do amor e da graça de Deus. A alma não somente se une a Deus, mas também é transformada por Ele. Mesmo que a alma não o perceba, a presença de Deus é constante, mesmo durante a noite mais escura em que a alma passa por provações e dificuldades em sua jornada. No final desta jornada teremos o encontro com o amor profundo de Deus em uma união plena com a alma.

São João da Cruz foi beatificado em 1675 por Clemente X. Em 1726, o papa Bento XIII o canonizou, e em 1926, ele foi declarado Doutor da Igreja pelo Papa Pio XI, sendo, portanto, um dos Doutores da Igreja Católica, na Espanha. Também considerado o padroeiro dos místicos e poetas, além de patrono da rádio, por possuir uma voz possante.

 

PRINCIPAIS OBRAS

 

1- Cântico espiritual (poema)

2- A noite escura da alma (poema)

3- Subida do Monte Carmelo (poema)

4- Chama amor viva (poema)

 

1. Cântico Espiritual. Título Original: Cántico Espiritual. Escrito entre 1578 e 1579.

Neste longo poema temos na narrativa o desejo da alma humana em se unir com Deus Pai, o Criador. O texto faz uso da metáfora de um noivado, no qual a alma é a noiva e Jesus Cristo o esposo. Composta por 40 estrofes, a obra em questão reflete as experiências místicas do autor. Existe, também, um comentário detalhado que explica o sentido espiritual de cada verso contido na obra.

2. Noite Escura da Alma. Título Original: Noche Oscura del Alma. Escrito entre 1578 e 1579.

A obra narra o processo de purificação espiritual que a alma passa para poder alcançar a união com Deus. Este trabalho é dividido em duas partes: “Noite dos sentidos” e “Noite do espírito”. Segundo o texto, a alma deve passar por um período de sofrimento e desolação, chamado aqui de “noite escura”, com o objetivo de purgar seus apegos terrenos e, deste modo, poder se aproximar de Deus.

3. Subida do Monte Carmelo. Título Original: Subida del Monte Carmelo. Escrito entre 1581 e 1585.

Tratado teológico que aborda o caminho ascético necessário para que seja alcançada a perfeição espiritual. A subida do monte Carmelo é uma imagem usada como metáfora para descrever as etapas da purificação da alma e a progressiva união com Deus. A obra se apresenta como um guia detalhado para os que buscam por uma vida de oração e desapego.

4. Chama Viva de Amor. Título Original: Llama de Amor Viva. Escrito entre 1585 e 1586.

Poema místico que descreve a união em êxtase da alma com Deus. O amor de Deus inflamando a alma é representado pela metáfora do fogo Divino que consome suas imperfeições e enche-a de paz e amor. Há também um comentário explicativo visando ampliar o entendimento espiritual do poema.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua autoria)

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

O Anti-Iluminismo de Johann Georg Hamann

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Johann Hamann

 

Johann Georg Hamann (1730-1788) nasce em Königsberg (cidade localizada na Prússia Oriental, hoje Kaliningrado, na Rússia). e falece aos 57 anos em Münster (cidade localizada no oeste da Alemanha, na região da Renânia do Norte-Vestfália). Filósofo alemão, escritor, teólogo protestante, historiador de arte e tocador de alaúde.

Estando a serviço da casa Berens em Riga (1756) e em viagem de negócios para Londres (1757) onde fica até 1758, foi mal sucedido em sua atividade comercial, o que o levou a um comportamento de excessos que o arruinou financeiramente e o colocou em profunda crise existencial. A par com tais acontecimentos em sua vida, passa a se dedicar à leitura da Bíblia e tem uma vivência religiosa que muito influencia em sua vida e postura religiosa. Hamann se apresenta como um radical crítico do Racionalismo e do Iluminismo, defendendo uma posição mais fundamentalista vinculada ao cristianismo. Tendo retornado para Könisberg em 1759, participa do movimento literário alemão, o Sturm und Drang (1760-1780).


 

Hamann durante sua juventude foi adepto do Iluminismo, mas após a vivência religiosa que teve em 1758, passa a se dedicar à tradição cristã pietista, ramo do luteranismo que se caracteriza por enaltecer a devoção pessoal, a introspecção, a abnegação de si mesmo e uma relação pessoal com Deus, além do puritanismo, pessimismo e conservadorismo. Desde a vivência religiosa e profunda conversão cristã ocorrida em 1758, adota para si o lema socrático de que “só sei que nada sei”.

No decorrer de sua vida atuou como defensor da fé cristã e seu trabalho veio a influenciar dentre outros, a Goethe, Johann Gottfried Herder, Friedrich Heinrich Jacobi, Lessing, Mendelssohn, Friedrich Schlegel, Schiller, Søren Kierkegaard.

Johann Georg Hamann é por vezes chamado de “Mago do Norte”, este apelido se deve ao seu estilo, que tende a contrastar com a tradição filosófica dominante em sua época. Hamann apresentava um estilo enigmático, no qual por vezes fazia uso de aforismos e de uma linguagem simbólica, trazendo para sua escrita uma aura de mistério e desafio. O nome “Mago do Norte” também se vincula a sua postura de crítica à filosofia racionalista e iluminista de seu tempo, bem como, de crítica as ideias de Kant em seu livro “Crítica da razão pura”. O apelido deve também estar associado ao contraste de seu pensamento com a tradição racionalista então presente a sua época e a sua imagem de ser um pensador não convencional e por assim dizer, quase “mágico” no tocante a sua abordagem dos problemas por ele tratados. Também sua associação com o movimento filosófico alemão que influenciou o desenvolvimento do pensamento europeu dentro da tradição romântica. O apelido também se deve a sua vida e personalidade excêntrica e intensa, que trazia a mente de seus leitores ser este um pensador quase místico ou mesmo “mágico”, ao desafiar as convenções e normas acadêmicas então presentes e criar para si uma reputação única. Ao falar em “Mago do Norte”, temos uma referência ao seu estilo enigmático, a sua crítica à época inovadora, a sua influência na filosofia e na cultura europeia.

Hamann é um pensador antissistemático, não possuindo um método rigoroso e racional como seus principais contemporâneos em filosofia (Kant, Hegel, etc.). Sua postura o aproxima dos movimentos Anti-Iluminismo e Romantismo, da mesma forma que o afasta do Racionalismo e do Iluminismo. Pode ser classificado como um representante do Anti-Iluminismo. Para o autor, todo o conhecimento tem sua base na fé em Deus, se posicionando firmemente contra o uso indiscriminado da razão e se apresentando como um anti-racionalista.

Embora fosse amigo de Immanuel Kant, também foi um feroz crítico de sua obra e da ênfase por este dada à razão. Segundo o pensamento de Hamann, Kant cometeu o erro de priorizar a razão humana e negligenciar a importância da linguagem, da fé e da tradição. No tocante a obra de Kant, “Crítica da razão pura”, Hamann era de opinião não ser a razão pura suficiente para compreender a verdade e o real conhecimento, necessitando da participação deveras importante da linguagem, da fé e da tradição. Entende que a linguagem é uma realidade histórica, não podendo se separar a razão da linguagem. Hamann é conhecido por sua posição crítica à razão e suas ideias sobre a linguagem e a religião.

Hamann se posiciona contrário aos conceitos enquanto tomados como a própria realidade, pois, o conhecimento para Hamann se dá como percepção direta das entidades individuais, coisa que os conceitos não permitem fazer.

A filosofia desenvolvia por Hamann se apresenta de forma única e multifacetada, onde predomina uma crítica ao Racionalismo e ao Iluminismo, bem como, a razão como soberana no tocante à resolução dos problemas humanos. Para Hamann falta a estes movimentos de seu tempo histórico, uma devida e maior ênfase aos aspectos referentes à fé, à linguagem e à tradição, bem como, a Revelação Divina. Seu pensamento é complexo e tende a se aproximar do Romantismo e do Anti-Iluminismo, bem como, há de encontrar guarida em correntes teológicas posteriores.

Hamann foi um severo crítico do Iluminismo presente no século XVIII, pois, entendia que este elevava a razão a um status quase divino, ignorando outros aspectos fundamentais da experiência humana, tais como a fé, a tradição e a linguagem. Hamann entendia que a razão humana é importante, mas contém limitações, sendo insuficiente para a real compreensão da totalidade da realidade. A razão também é limitada, parcial e incapaz de absorver toda a complexidade da experiência humana, não podendo, deste modo, sozinha, fornecer um completo entendimento sobre a vida ou mesmo sobre o mundo que nos circunda. Deste modo, destaca Hamann a importância da fé e da Revelação Divina na existência humana, proporcionando um conhecimento que vem complementar o conhecimento trazido pela razão.

A linguagem tem um papel de destaque na filosofia desenvolvida por Hamann, estando vinculada ao pensamento e à experiência humana. O pensamento racional se dá dentro da linguagem, sendo esta última o fundamento do pensamento. Para Hamann a linguagem não é apenas um meio de comunicação e sim a base de todo o conhecimento. Em cada palavra ou expressão temos um enorme número de possíveis significados e interpretações que que atuam direcionando a compreensão humana. Hamann entende não ser correto abstrair conceitos da experiência concreta, como o querem os filósofos iluministas. Segundo seu pensamento, a abstração não abarca o todo, pois, a linguagem traz junto o contexto, a história e a experiência vivida. Segundo Hamann, a linguagem é um dom divino, meio pelo qual Deus pode se comunicar com a humanidade. Somente pela razão não seria possível compreender a Revelação Divina, pois, esta última está intrinsecamente vinculada à linguagem e à tradição.

Hamann não concorda com o dualismo entre razão e fé presente na tradição filosófica. Para Hamann razão e fé não são opostas, mas interdependentes. Há uma unidade na experiência humana, na qual razão, fé, linguagem, cultura e história se mostram interconectados. Tentar separar tais elementos tenderia a levar a um entendimento incompleto da realidade, não passando tal tentativa de mera falácia. A par com tal visão de mundo, Hamann empreendeu uma crítica a obra de Kant, em particular “Crítica da razão pura”, pois, em seu entendimento a obra de Kant se apresentava excessivamente racionalista e abstrata, não dando a devida importância e destaque à fé e à Revelação na formação do conhecimento humano. Daí sua obra “Metacrítica do purismo da razão”, 1784, onde argumenta não ser possível defender a razão pura sem a presença da fé e da tradição.

Sua visão religiosa é eminentemente cristã, acreditando que o verdadeiro conhecimento provém da Revelação e não de outras fontes, como, por exemplo, a razão humana. A Revelação Divina se mostra como a real fonte de todo o conhecimento verdadeiro que nos permita de fato conhecer a nós mesmos e ao mundo que nos circunda. Não é pela razão humana e sim pela Revelação Divina que nós, seres humanos, podemos encontrar a verdade última sobre a existência, a moral e Deus. Em última instância, a única fonte confiável de conhecimento se dá pelo cristianismo, o qual, segundo Hamann, deve ficar na base de todo empreendimento filosófico, estando em erro qualquer filosofia que possa tentar substituir a fé em Deus e na Revelação Divina pela razão, filosofia, ciência ou qualquer outra coisa.

 Apar com isto, o estilo literário de Hamann era diferente de seus conterrâneos, apresentando-se como único, aforístico, fragmentário e por vezes tido como enigmático, apoiando sua concepção de que a linguagem se mostra como algo complexo, com diversas nuances e incapaz de ser integralmente capturada por qualquer sistema filosófico rígido. É comum nos seus escritos o uso de metáforas e alegorias, bem como, de referências à Bíblia, visando melhor expressar suas próprias ideias. Segundo o pensamento de Hamann, não é possível colocar a vida e o conhecimento dentro de um sistema filosófico rígido, pois, isto provocaria uma distorção da realidade, já que a vida é caótica, multifacetada e complexa, entendimento este que acaba refletido em seus próprios escritos.

 

PRINCIPAIS OBRAS

 

1- Considerações Bíblicas. Título original de quando da publicação da obra: "Biblische Betrachtungen". Data da primeira publicação: 1758.

Reflexão sobre a influência da Bíblia na filosofia e na vida prática.  O autor entende que a Bíblia não é apenas um texto religioso, mas também uma fonte de sabedoria filosófica.

2- Pensamentos sobre o meu Currículo. Título original de quando da publicação da obra: "Gedanken über mein Curriculum". Data da primeira publicação: 1758/59.

Reflexão sobre a formação acadêmica e intelectual do autor, proporcionando uma visão crítica sobre o sistema educacional e os seus limites. O autor entende que é importante que a educação inclua não somente a razão, mas também a fé e a experiência pessoal.

3- Momentos Socráticos. Título original de quando da publicação da obra: "Sokratische Denkwürdigkeiten". Data da primeira publicação: 1759.

Reflexões sobre Sócrates e a sua filosofia, destacando a importância da dialética e da busca pelo autoconhecimento. Aqui são discutidas questões presentes na filosofia e na pedagogia.

4- Cruzadas do Filólogo. Título original de quando da publicação da obra: "Kritische Kreuzzüge des Philologen". Data da primeira publicação: 1762.

Conjunto de ensaios contendo análises críticas sobre temas literários e filosóficos.

5- Metacrítica do Purismo da Razão. Título original de quando da publicação da obra: "Metacritik des Reinheitsgebots der Vernunft". Data da primeira publicação: 1784.

Crítica sobre o “purismo” da razão”, enfocando os limites e os problemas da filosofia racionalista. A razão não deve ser entendida isoladamente e sim integrada a outros aspectos da experiência humana, tais como a religião e a linguagem.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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terça-feira, 3 de setembro de 2024

O Iluminismo de Claude-Adrien Helvétius

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Claude-Adrien Helvétius

 

Claude-Adrien Helvétius (1715-1771) nasce e falece na cidade de Paris, aos 56 anos de idade. Proveniente de uma família de médicos, seu pai era médico da corte de Luís XV e Helvétius estudou em um colégio Jesuíta. Helvétius teve uma excelente educação, sendo instruído em latim, grego, filosofia, matemática e outras ciências de sua época. Seu sobrenome original era Schweitzer, do alemão, que foi latinizado como Helvétius. Em 1751 se casa, sua esposa, Anne-Catherine de Ligniville, Madame Helvétius, ficou famosa por manter um salão que no transcorrer do século XVIII recebia várias figuras ilustres da sociedade de sua época. A tradição o considera um filósofo, escritor, moralista, poeta, Enciclopedista, maçom e ateu. Em vida publicou somente o livro (considerado por comentadores como sendo sua principal obra) “Filosofia do Espírito” (De l'esprit), 1758, que foi condenado pela Igreja por ter uma postura de oposição à autoridade religiosa, anticlericalismo, e também pelo parlamento francês, que determinou que a obra fosse queimada. Suas demais obras foram publicadas somente após sua morte.

Sofre influência de John Locke, Condillac e Pierre Bayle, se posicionando dentro de uma abordagem empirista que se propunha a ampliar o escopo da mesma para englobar, também, questões de índole moral e política. Suas ideias, bem como seu aspecto materialista, exerceram influência em diversos autores posteriores, tal é o caso de John Stuart Mill, Jeremy Bentham, Barão d'Holbach, Karl Marx.


 

São temas centrais a Helvétius, e também aos seus contemporâneos, o materialismo, a natureza humana e a educação.

Segundo Helvétius, todas as nossas ideias e pensamentos são provenientes de nossos sentidos, não existindo uma faculdade especial distinta das sensações para ocupar o lugar da reflexão. As faculdades humanas, como a memória, por exemplo, são reduzidas a sensações físicas.

Segundo o pensamento de Helvétius, todos os humanos são iguais e teriam seus comportamentos baseados nos seus interesses (egoísmo), objetivando obter o prazer e evitar a dor. Pensava que por meio da educação é possível fazer com que os interesses individuais venham a coincidir com os interesses coletivos. Defendia o combate ás superstições e preconceitos religiosos, que teriam sua origem no egoísmo da classe sacerdotal e seriam o impedimento para que fosse possível a coincidência entre interesses individuais e coletivos.

Entendia que mesmo um comportamento caracterizado como sendo de auto-sacrifício, no fundo, baseia-se na sensação de prazer e dor que possa vir acompanhada do mesmo ou como resultado da ação. Para Helvétius, os humanos possuem liberdade de escolha entre o bem e o mal, mas não haveria algo que fosse absolutamente certo ou errado, pois, as ideias do que seja a justiça ou a injustiça tendem a mudar no transcorrer do tempo histórico, nos povos e costumes adotados. Deste modo, o comportamento humano pode ser controlado socialmente pelo governo de acordo com o oferecimento de recompensas ou punições, visando sempre maximizar a sensação de prazer obtido ao se comportar de determinado modo.

Os humanos são naturalmente iguais em termos de inteligência, todos possuem uma igual disposição para o entendimento, segundo Helvétius. O humano nasce como uma tábula rasa, no estilo do pensamento de Locke, não havendo ideias inatas, mas somente uma inata disposição e propensão. Defende um total igualitarismo entre pessoas de diferentes localidades, segundo Helvétius, as diferenças entre humanos em regiões e nações distintas não se devem a algo inato e sim ao sistema de educação e ao governo da região. Todos os humanos possuem o mesmo potencial natural e a mesma capacidade para aprendizagem. O método que deve ser adotado para reformar as sociedades é a educação das pessoas. Helvétius tem como opinião que a educação e cultura de um povo está fortemente vinculada ao desenvolvimento social do mesmo.

Helvétius desenvolve um sistema filosófico materialista, empirista / sensualista, que se posiciona a favor da educação para moldar e desenvolver o comportamento humano em sociedade, defende a igualdade natural entre todos os humanos independente do lugar de nascença, se posiciona como ateu e a favor de uma moral utilitária. Segundo seu pensamento, o humano é produto do seu meio social, de sua educação, de seu governo.

 

PRINCIPAIS OBRAS

 

1- Do Espírito. Título Original: De l'Esprit. Ano da Primeira Publicação: 1758.

Considerada por comentadores como sendo a obra magna de Helvétius, proporcionou uma enorme controvérsia entre as autoridades eclesiásticas e do Estado francês na época em que foi publicada, sendo este o principal motivo pelo qual Helvétius nada mais publicou em vida. Nesta obra o autor faz a defesa de que todas as capacidades intelectuais e morais humanas se encontram como o resultado da educação recebida e do meio ambiente no qual este se encontrava, deste modo, nega que haja talentos ou virtudes que sejam inatos e independentes da educação e do meio social. Todo o comportamento humano é formado a partir da busca de prazer e da evitação da dor, de modo que entende que a sociedade deva ser organizada pelo governo para poder maximizar o bem estar coletivo como resultado do comportamento diante do prazer e da dor, ou seja, oferecendo recompensas e punições. Esta obra foi condenada pela Igreja e também pelo Parlamento francês, sendo que este último determinou que as cópias do livro fossem queimadas.

2- Do Homem, de suas Faculdades Intelectuais e de sua Educação. Título Original: De l'Homme, de ses facultés intellectuelles et de son éducation. Ano da Primeira Publicação: 1772 (postumamente).

Nesta obra o autor aprofunda as ideias apresentadas em “De l’Esprit”, explorando em maiores detalhes seu entendimento sobre a natureza humana, bem como, a importância da educação e do ambiente para moldar o caráter e as habilidades sociais apresentadas pelas pessoas. O livro trata de questões vinculadas à moral, psicologia, leis e instituições, no tocante a como tais fatores atuam na formação das pessoas. O autor entende que para a efetiva realização do progresso humano é fundamental que haja uma reforma social e educacional.

3- Sobre a felicidade (poema). Título Original: Du Bonheur (Poème). Ano da Primeira Publicação: 1772 (postumamente).

Neste poema filosófico Helvétius trabalha o conceito e a busca de felicidade. Segundo o autor, a felicidade é obtida por meio do prazer e da satisfação dos desejos, mas a sociedade e suas leis podem exercer influência sobre a capacidade das pessoas alcançarem a felicidade. Materialistamente a felicidade é mostrada como sendo um estado resultante de circunstâncias externas, do meio social e da educação, e não como sendo algo inato ou de cunho metafísico.

4- Os Progressos da Razão na Busca da Verdade. Título Original: Les Progrès de la raison dans la recherche du vrai. Ano da Primeira Publicação: 1775 (postumamente).

Este trabalho trata do desenvolvimento da razão humana e do papel exercido pelo pensamento crítico na busca pela verdade. Dentro de uma abordagem coerente com o movimento Iluminista, questiona as tradições e superstições, argumentando que é por meio de uma postura racionalmente crítica que se obtém o progresso do conhecimento. Temos uma crítica da religião e das instituições de sua época, as quais estariam agindo no sentido de barrar o progresso do conhecimento e da verdade, deste modo, Helvétius, dentro da tradição Iluminista, defende uma sociedade baseada na razão e na educação.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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