Textos filosóficos, críticos, comportamentais e sobre arte da escrita, sucesso e auto-ajuda.
Professor Doutor Silvério
Blog: "Comportamento Crítico"
Professor Doutor Silvério
Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.
(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)
E-mails encaminhados para doutorsilveriooliveira@gmail.com serão respondidos e comentados excluindo-se nomes e outros dados informativos de modo a manter o anonimato das pessoas envolvidas. Você é bem vindo!
Anti-Iluminismo
ou contra-Iluminismo se apresenta como uma corrente de pensamento que se opõe
aos valores e teses defendidos pelo Iluminismo (ou Ilustração) no transcorrer
do século XVIII (conhecido como o século das luzes).
O
anti-Iluminismo faz oposição ao Iluminismo, portanto, cabe entender o que seja
o Iluminismo. O movimento Iluminista esteve presente no século XVIII e dentre
suas principais bandeiras, temos a defesa da razão, da ciência, da liberdade
individual e de expressão, e a separação entre a Igreja e o Estado. O
Iluminismo valorizava a razão, a liberdade, a igualdade e seus ideais estiveram
presentes durante a Revolução Francesa.O Iluminismo defende a tolerância e o
progresso social.
Já o
Anti-Iluminismo defende ideias conservadoras, a religiosidade, a hierarquia. O
termo foi popularizado para descrever estes pensadores no século XX pelo
filósofo Isaiah Berlim (1909-1997). Trata-se de uma visão mais crítica quanto
aos limites da razão humana e que tende a valorizar os sentimentos e emoções.
Também encontramos a valorização do nacionalismo. Em suma, temos aqui um
movimento que se mostra em linhas gerais como sendo relativista,
anti-racionalista, vitalista e também possuindo uma visão orgânica da vida
social e política, características estas que também estarão presentes no Romantismo.
Para os
filósofos do anti-Iluminismo, uma sociedade representa um corpo orgânico, um
organismo vivo e não apenas um conjunto de cidadãos reunidos em dado local. Os
pensadores representantes do movimento anti-Iluminista defendem a importância
da história, da cultura, da língua e da religião de um povo, tornando-o único.
Temos em alguns
pensadores do período uma defesa política de uma sociedade hierárquica e de um
governo monárquico, da Igreja vinculada ao Estado, da exigência de todos dentro
do Estado manterem a mesma religião. Este movimento se mostra contrário as
ideias liberais, a liberdade de expressão, de reunião e de culto religioso.
O
anti-Iluminismo apresenta uma crítica ao Iluminismo, se contrapondo ao mesmo. É
questionada a fé na razão tida pelos Iluministas, considerada excessiva por
parte dos pensadores do anti-Iluminismo. Segundo tais pensadores, ao focar na
razão humana, pode-se obter uma visão muito simplificada e reducionista da
realidade ao nosso redor, deixando de observar com a devida atenção outros
aspectos também importantes, tais como as emoções e os sentimentos humanos, a
espiritualidade, a cultura e a história dos povos.
Os Iluministas
defendiam o progresso e os avanços científicos, já os anti-Iluministas tendiam
a se mostrar céticos com relação aos limites e às possíveis consequências deste
mesmo progresso. O avanço indiscriminado deste progresso poderia ser
encaminhado para finalidades danosas a humanidade, resultando em alienação e
desumanização.
Os anti-Iluministas
tendiam a valorizar a tradição e também a autoridade, entendendo serem as
mesmas, fonte de conhecimento e estabilidade social. A história e a cultura de
um povo guardam valores importantes que devem ser preservados. Já os Iluministas
defendiam uma ruptura mais radical com o passado e a tradição, na busca pelo
progresso incentivado pela razão.
Os Iluministas
defendiam a universalidade do conhecimento e, neste tocante, promoviam ideias
como universais, tais como os direitos humanos, a igualdade, a liberdade. Já os
anti-iluministas entendiam que tais princípios universais tendem a ignorar as
diversidades culturais, sociais e históricas de um povo, de uma comunidade.
Os
anti-Iluministas dão destaque e importância a questões espirituais e metafísicas
sobre a existência humana. Segundo estes autores, a compreensão da natureza
humana não pode ser limitada a categorias racionais ou desenvolvimentos
científicos, sendo bem mais ampla.
Muitos dos
anti-Iluministas não negavam a razão, mas buscavam um equilíbrio entre esta e
outros fatores também presentes na experiência humana. Há uma busca de
compreensão mais ampla e holística sobre a natureza humana e sua relação com o
meio social, com a comunidade na qual este humano vive.
Tal movimento
apresentou-se de modo múltiplo, não sendo homogêneo e se adaptando a cada novo
contexto cultural e histórico no qual emergia. Ao movimento associou-se o
pensamento conservador e tradicionalista voltado para o antigo regime. Temos
uma reação multifacetada e complexa ao Iluminismo, buscando uma ampliação da
visão sobre o humano e suas sociedades e valorizando aspectos negligenciados
pelo Iluminismo.
O Romantismo
também é fruto de seu tempo histórico. Os séculos XVIII e XIX foram palco de
profundas mudanças sociais, políticas e culturais ocasionadas por
acontecimentos marcantes. Tivemos a Revolução Industrial, a Revolução
Americana, a Revolução Francesa, a Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão, dentre outros eventos.
O Romantismo foi
um movimento cultural, artístico e literário Europeu que se espalhou por todo o
mundo (em sua origem alemã, veja o movimento literário e Romântico “Sturm und
Drang” (tempestade e violência), entre 1760 e 1780), que busca a criatividade e
a liberdade do espírito ou consciência. O Romantismo tem início no final do
século XVIII e prossegue até o final da primeira metade do século XIX, quando é
substituído pelo Realismo.
Sua origem alemã
é defendida por comentadores que entendem que três obras são em si responsáveis
por iniciar este movimento, a saber: 1- “O pólen”, 1798, de Novalis; 2-
“Fragmentos” (publicados em partes entre 1798 e 1800,na revista
Athenaeum), de Friedrich Schlegel; 3- “Baladas líricas”, publicado em 1798, de Words
e Coleridge. Por sua vez, o termo “Romantisch” ressurge (pois o termo
“Romântico” já havia sido usado anteriormente para designar um tipo de
literatura popular e medieval) dentro deste contexto a partir de discussões
literárias na Alemanha. Há comentadores que consideram Goethe como sendo o
autor da primeira obra literária romântica, no caso, o romance “Os sofrimentos
do jovem Werther” ("Die Leiden des jungen Werthers"), 1774. De
qualquer modo, fica nítida a preferência em comentadores por uma origem alemã
para este movimento.
Dentre seus
principais representantes, temos Schlegel, Goethe, Herder, Schiller, Novalis
(Friedrich von Hardenberg), Hölderlin e também os filósofos incluídos dentro do
movimento intitulado Idealismo Alemão (Fichte, Schelling, Schleiermacher e
Hegel), pois todos sofreram influência e também influenciaram o Romantismo. A
diferença se encontra mais na forma de trabalhar os temas abordados, seja de um
modo mais racional e filosófico por parte do Idealismo Alemão, ou mais para a
arte, literatura, poesia, por parte do Romantismo.
O Romantismo
inspirou vários campos da arte, tais como a literatura, a pintura, a escultura,
a arquitetura e a música. Ultrapassou as fronteiras da Alemanha, estando
presente em diversos países com representantes significativos do movimento.
Brasil: Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, José de Alencar, Álvares de
Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Castro Alves; Inglaterra: Lord
Byron, Walter Scott; Portugal: Almeida Garrett; França: Victor Hugo. Dentre
muitos outros.
O Romantismo
apresenta por parte de seus integrantes uma atitude e uma visão do mundo, ambas
centradas no indivíduo. Deste modo, o Romantismo há de se diferenciar e
contrapor a outro grande movimento, o Iluminismo, pois, este busca a
objetividade e prioriza a razão, já o Romantismo busca a subjetividade e
prioriza as emoções e sentimentos.
Algumas
características presentes nas obras artísticas presentes no movimento do
Romantismo, são: se opor ao modelo anterior e clássico da arte; adotar na
escrita o texto longo, em prosa; focar no sujeito e sua individualidade; ter
uma preocupação com o desenvolvimento histórico; exaltar o nacionalismo; dar
destaque a natureza; valorizar os sentimentos e emoções, o subjetivismo;
trabalhar o mito do personagem “herói”, idealizar a sociedade, o amor e a
mulher; manter uma nostalgia para com a infância passada; o humano se apresenta
ocupando um lugar no centro do universo, temos uma forma de egocentrismo.
Dentre as principais características presentes neste movimento temos um foco
ampliado na fantasia, no sentimento, na paixão, na imaginação. Também o nacionalismo,
a religiosidade e a idealização da mulher, bem como, uma fuga da realidade.
Podemos citar
como características: Valorizar os sentimentos e emoções, ênfase na importância
do sonho, valorização da originalidade, busca do exótico (quanto mais diferente
o lugar, mais fácil fantasiar, fazer uso da imaginação), exaltação da natureza,
gosto pela Idade Média, defesa de ideais nacionalistas, defesa das liberdades
individuais e da liberdade do povo dentro da nação, entendimento de que Deus é
imanente estando presente em toda a natureza, individualismo, ênfase nos
sentimentos e emoções, subjetivismo, idealização da mulher, idealização do amor
e idealização da nação.
Este movimento
valoriza o desenvolvimento histórico, a formação na nação unindo determinado
povo, e a religiosidade presente no humano. Entende que a elaboração cultural
de um povo, incluindo a religião, é um produto histórico. Há uma valorização da
subjetividade humana, das emoções e sentimentos, do indivíduo, da liberdade de
pensamento.
A idealização de
uma realidade outra, distinta da vivida pelo romântico é algo presente neste
movimento. Era comum para o artista retratar um determinado herói que se
rebelasse contra as injustiças sociais e opressões políticas presentes na
sociedade. O artista romântico, portanto, objetiva deste modo, tentar
questionar e mudar por meio de sua obra o modo de vida e a sociedade de sua
época. Por meio de sua produção e da criação de um herói, busca-se manifestar o
desejo por parte deste indivíduo de ter uma pátria, construir uma nação,
conquistar um amor idealizado, algo perfeito e fora da realidade, tendo seu
enfoque voltado para suas expectativas e sentimentos subjetivos.
A subjetividade
estava presente, bem como a individualidade, sendo valorizadas as opiniões e a
percepção do mundo do sujeito. Há uma valorização da originalidade nas artes,
buscando mostrar a visão pessoal do autor sobre a sua produção. Por meio da
subjetividade a pessoa pode expor suas opiniões, seus sentimentos, suas
emoções. Há uma fuga da realidade concreta para um mundo idealizado pelo autor.
Podemos observar também uma exaltação da solidão e uma fuga da cidade.
Presente no
Romantismo nós temos: o egocentrismo (o humano como centro do universo, foco no
sujeito, ênfase no indivíduo), sentimentalismo, nacionalismo, idealização do
amor e da mulher. Trata-se também de um movimento notívago, pois, seus
integrantes adoravam a noite e não raro trocavam o dia pela noite.
O pessimismo
também é uma constante nas obras Românticas. Ao se deparar com a impossibilidade
de viver em um mundo idealizado, o autor ou o personagem “herói” de seu
romance, tende a demonstrar sentimentos tais como: angústia, solidão,
desespero, tristeza, frustração. Devido a não somente o “herói” na literatura
romântica apresentar este quadro de sentimentos, mas também o artista
romântico, este estado de espírito ficou conhecido como sendo o “mal do
século”. A saída para o “herói” por vezes é encontrada na morte, no suicídio,
na fuga para a natureza, na busca de sua nação e pátria. Há também uma busca
por um retorno a um tempo histórico passado e idealizado, onde torna-se
possível o ato heroico, a coragem, o amor. Em obras da literatura na Europa
deste período busca-se como herói o cavaleiro medieval defendendo sua pátria,
já no Brasil, como o contexto histórico é diferente, a busca se orienta para o
indígena, o habitante das florestas mesmo antes da chegada do homem branco
português.
No Romantismo a
natureza é exaltada e valorizada, se transformando em um personagem como o
próprio eu individual de cada um e deste modo, podendo transmitir emoções, tais
como a tristeza, a alegria, e o sentimento diante de vitórias e derrotas. A
natureza é mais do que a fauna e a flora, mostra-se como sendo uma força
incontrolável e divina que fascina os românticos. Por vezes são descritas
literariamente ou pintadas, paisagens exóticas e belas, podendo também a
natureza ser usada para exaltar o sentimento de nacionalidade, destacando as
diferenças entre sua nação e as demais.
O termo
“idealismo” foi aplicado em filosofia a diversos autores. Para alguns o
idealismo começa com Platão com o mundo das ideias e prossegue. Para outros,
cabe a Agostinho de Hipo ser considerado o primeiro idealista moderno, cuja
obra teria influenciado muitos outros filósofos na Idade Moderna. Mas há quem
defenda o idealismo ali presente em Descartes, Malebranche e outros autores do
Racionalismo continental, em oposição ao Empirismo britânico, com exceção,
claro está, do filósofo empirista britânico Berkeley, para quem não seria
possível negar o idealismo. Em Kant temos uma forma de idealismo, mas este
mantém a coisa em si, o númeno, que faz que ele possa ser entendido como um
realista moderado, daí o seu Idealismo Transcendental ser diferente em essência
do Idealismo Alemão que mais tarde veremos em autores que irão considerar o
númeno algo supérfluo e inútil e o retiraram de suas filosofias, como tal é o
caso de Fichte, Schelling, Schleiermacher e Hegel, dos quais iremos tratar
aqui. Estes, e outros autores, se afastam do Idealismo Transcendental de Kant,
dentre outros motivos, temos que Kant é um filósofo mergulhado na cultura
proveniente do Iluminismo, enquanto estes outros filósofos já pertencem a um
novo movimento, o Romantismo.
O pensamento de
Kant está vinculado a linha histórica de três grandes movimentos: o
Racionalismo (Descartes, Malebranche, Spinoza, Leibniz, Wolf), o Empirismo
(Bacon, Hobbes, Locke, Berkeley, Hume) e o desenvolvimento da Ciência Moderna
(Copérnico, Galileu Galilei, Tycho Brahe, Kepler, Newton). Já o pensamento
desenvolvido pelos filósofos do Idealismo Alemão encontra suas origens em
Spinoza e também em um eco das religiões orientais, em particular da Índia
(Hinduísmo, Budismo, etc.), ao considerar a multiplicidade e individualidade
como mera ilusão e buscar abarcar um todo, uma unidade, que englobaria a tudo.
É errado
considerar Kant como um membro do movimento Idealismo Alemão, este movimento
começa com Fichte e não com Kant. Ao nos referirmos a Kant é mais correto
designar seu trabalho como sendo o Idealismo Transcendental. O Idealismo
Transcendental de Kant é muito diferente do Idealismo Alemão, possuindo
vinculações históricas filosóficas distintas e conceitos filosóficos que os
diferenciam e muito como duas formas distintas de filosofar. Não considero ser
correto o julgamento de valor de considerar uma filosofia como a evolução,
desenvolvimento e aperfeiçoamento da outra. Não é por uma ser posterior no
tempo histórico que isto vem a torna-la superior, melhor ou mais desenvolvida
que a outra, tal julgamento de valor não é apropriado para ser exercido por um
filósofo. Também entendo ser errado entender Hegel como sinônimo de Idealismo
Alemão ou como a culminância deste movimento. Há outros relevantes membros do
Idealismo Alemão que possuem contribuições significativas ao movimento e
considerar somente Hegel tende unicamente a demonstrar por parte do comentador
uma equivocada tendência ideológica voltada para um suposto desenvolvimento ou
evolução que se direciona para os escritos de Marx.
O Idealismo
Alemão surge ao final do Iluminismo e conjuntamente com outros movimentos com
os quais se relaciona, havendo um cruzamento de ideias e valores, bem como,
contato por vezes pessoal ou por leituras, entre os diversos integrantes da
intelectualidade alemã que transitava entre o anti-Iluminismo, o Romantismo e o
Idealismo Alemão. Alguns comentadores chamam os filósofos do Idealismo Alemão
de “Pós-Kantianos”.
O foco principal
de disseminação do Idealismo Alemão se deu nas universidades de Jena e Berlim,
onde seus principais representantes marcaram sua presença e ali lecionaram.
Fichte foi professor em Jena e Berlim, Schelling e Hegel foram alunos na
universidade de Jena e ali se conheceram, posteriormente ambos foram cada qual
a sua vez, professores nas universidades de Jena e Berlim.
Podemos
considerar que o primeiro filósofo do Idealismo Alemão é Fichte (1762-1814) e
que este movimento filosófico começa na década de 1790 com o início do
reconhecimento e notoriedade deste filósofo. Fichte se torna conhecido no meio
intelectual alemão em 1792 ao ter sido um livro por ele escrito confundido com
uma nova obra de Kant. Refiro-me ao trabalho “Ensaio de uma crítica de toda a
Revelação”, mas é somente no ano de 1794 que Fichte publica o que seria até
aquele momento, a sua principal obra no sentido de expor o seu pensamento
original, se afastando do pensamento de Kant, o livro: “Fundamentos de toda a
doutrina da ciência”. Este pode ser considerado o marco inicial do Idealismo
Alemão, já o final fica menos nítido, uma vez que mesmo após a morte de Hegel
(1770-1831) seu pensamento continuou a repercutir em toda a Europa. Schelling (1775-1854),
o segundo autor do Idealismo Alemão, vindo logo após Fichte, teve uma vida
longa e veio a ocupar a cátedra de Hegel em Berlim quando este falece, mas
neste momento de sua vida já está no que se convencionou chamar de terceira
fase de seu pensamento (fase da filosofia positiva negativa e crítica a Hegel),
na qual tende a se afastar das bases do Idealismo Alemão. Diria, portanto, que
o Idealismo Alemão no geral vai da década de 1790, final do século XVIII, até o
final da primeira metade do século XIX, apesar de continuar ainda a ter
representantes e repercussão no pensamento Europeu.
O Idealismo
Alemão há de se caracterizar por buscar desenvolver uma filosofia onde temos a
total identidade entre o sujeito e o objeto, pela valorização da consciência e
também da natureza, por uma tentativa de superar o dualismo. O conceito de
Geist (em alemão), pode ser traduzido por consciência, mente ou Espírito, e é
fundamental na filosofia do Idealismo Alemão em sua busca por um monismo. Muito
importante é a ideia de “absoluto” e como tal ideia se desenvolve nos diversos
pensadores que compõem o movimento. Kant, com seu Idealismo Transcendental,
exerce forte influência em Fichte e nos demais membros do Idealismo Alemão, mas
estes mudam o pensamento kantiano ao não aceitar a ideia da coisa em si ou
númeno, buscando a criação de uma filosofia sem tal dualismo entre sujeito e
objeto. Muito presente também é Spinoza, quando este une a Deus à natureza em
sua filosofia. Outras influências podem ser encontradas em Mestre Eckhart,
Pseudo-Dionísio o areopagita e também em São João da Cruz.
No Idealismo
Alemão, temos em Fichte e mais tarde também em Hegel e mesmo Schelling, um
desenvolvimento todo particular da dialética. Uma dialética apresentada em
cinco estágios na obra de Fichte. Já em três estágios na obra de Hegel, buscando,
neste autor, uma superação das afirmações iniciais (tese e antítese, como
didaticamente se convencionou chamar, em uma nova afirmação, a síntese). Ou
mesmo a integração, e não superação das fases iniciais, presentes em Schelling
em sua filosofia positiva negativa e crítica a Hegel, sua terceira fase
filosófica.
Só o que é real é racional e só o
que é racional é real.
1- VIDA
Georg Wilhelm
Friedrich Hegel (1770-1831) nasceu em Stuttgard, no Ducado de Württemberg, Sacro
Império Romano-Germânico, hoje Alemanha, e faleceu por motivo de cólera em
Berlim, Confederação Germânica, hoje também Alemanha.
Hegel é
proveniente de uma família religiosa protestante. Seu pai, Georg Ludvich Hegel,
estudou direito na Universidade de Tübingen e atuava como funcionário público.
Sua mãe, Maria Magdalena Louisa Hegel, era pessoa muito culta para uma mulher
de sua época e com ela pode aprender latim ainda em sua infância. Sua mãe veio
a falecer em 1781, quando o futuro filósofo contava com apenas 11 anos de idade
e conforme este confidenciou anos mais tarde, tal fato marcou profundamente a
sua vida. No ano de 1811, casou com Marie von Tucher, com quem teve filhos, Karl
Friedrich Wilhelm Hegel (1813-1901) eImmanuel Thomas Christian Hegel
(1814-1891). Algumas fontes colocam que teve três filhos, mais um faleceu ainda
criança.
Estudou teologia
e filosofia na Universidade de Tübingen, onde teve como colegas Schelling e
Hölderlin, e, posteriormente, atuou como professor universitário. Foi professor
nas universidades de Frederico-Guilherme, Tübingen, Jena, Heidelberg, Humboldt
de Berlim. Assume a cátedra da Universidade de Berlim em 1818, ficando nela até
seu falecimento. Atuou como professor, escritor e filósofo.
No
desenvolvimento de seu pensamento foi inicialmente influenciado por Kant,
Fichte e Schelling, se bem que encontramos influências outras, tais como
Heráclito, Aristóteles e Spinoza, só para citar algumas. E, claro, a influência
dos movimentos conhecidos por Romantismo e Idealismo Alemão, dos quais Hegel
sofreu influência e, por sua vez, também influenciou, sendo considerado um dos
representantes do “Idealismo Alemão”, mas a elaboração de seu sistema
filosófico apresenta diferenças consideráveis em relação a obra de Fichte e
Schelling, seus contemporâneos. É considerado por parte de alguns comentadores,
e já o era em vida, um pensador de difícil compreensão e mesmo obscuro.
Em sua vasta
obra abordou diversos temas, dentre os quais a consciência, a ética, a
estética, a religião, a política e também a história. Encontramos tratados em
sua obra, tópicos vinculados à ontologia e à epistemologia.
Há comentadores
que dividem sua obra em duas partes, a primeira com seus escritos iniciais e
geralmente mencionada como “o jovem Hegel” e a segunda com seus escritos
posteriores, conhecida por “Hegel de maturidade”ou por “velho Hegel” ou por
“Hegel sistemático”. Considera-se o ano de 1807 como o divisor entre os dois
períodos, com a publicação do livro “Fenomenologia do Espírito”, considerada
por muitos comentadores como a sua principal obra. Sua filosofia busca alcançar
a totalidade por meio da dialética, superando divisões e cisões presentes entre
por um lado o “sujeito” e por outro o “mundo ao seu redor”, ou, segundo outros
comentadores, “sujeito” e “realidade externa”.
O sistema
filosófico desenvolvido por Hegel é denominado, por alguns comentadores, de “Idealismo
Absoluto”, enfatizando que para este filósofo a realidade passa a ser
compreendida como manifestação do Espírito Absoluto, outros há que a denominem
de “Filosofia do Espírito”, em virtude da enorme ênfase dada ao desenvolvimento
do Espírito no transcurso da história da humanidade em busca da autoconsciência
e liberdade.
2- O ESTADO
Hegel dá
destaque ao Estado, aqui pensando na formação do Estado prussiano presente a
sua época histórica. Entende que a melhor forma de governo para ser adotada no
Estado é a monarquia constitucional. O poder do Estado não deve ficar restrito à
vontade arbitrária de um único indivíduo, cabe a este poder de Estado ser a
representação do Espírito do povo. Entende que o Estado é um universal
concreto, sendo a forma mais elevada de ética objetiva e a plenitude da ideia
moral, a realização da liberdade objetiva. No Estado temos a síntese entre tese
e antítese, presente na família por um lado e na sociedade (sociedade civil)
por outro. Em Hegel o Estado é a manifestação da Divindade no mundo. A sociedade
presente no Estado é mais que a mera soma de todas as pessoas, como também é
mais que uma pessoa isolada.
As vontades
individuais se desenvolvem dentro do Estado, sendo este a vontade suprema e
universal. Segundo o pensamento de Hegel e contrariamente ao pensamento liberal
ou o contrato social, o Estado não se encontra subordinado às pessoas, e sim
estas, conjuntamente com a família e a sociedade civil, se veem subordinadas ao
Estado.
O Estado não
recebe a sua soberania do povo, como proposto pela teoria do contrato social, e
seus limites se encontram somente diante das leis da moral e de outro Estado.
Qualquer tentativa de criar um direito válido entre Estados será mera
abstração, pois, todos os Estados são caracterizados por sua total autonomia
diante de qualquer outro Estado, resultando somente a guerra entre Estados como
opção. O Estado é a própria história, comparado a um deus vivo, englobando toda
a vida do seu povo, seja esta em que aspecto for: moral, religioso, jurídico.
Em Hegel o
Estado se apresenta como uma instituição fundamental, desempenhando um papel
central na realização da liberdade e também na organização da sociedade. O
Estado se apresenta como manifestação da vontade racional, encarnando os
valores e os princípios morais da comunidade e sendo o representante da vontade
geral. O Estado atua de modo a propiciar a reconciliação das tensões entre os
interesses individuais e coletivos, gerando uma situação de harmonia e
permitindo aos cidadãos buscar a autorrealização dentro da comunidade na qual
estão inseridos. O Estado é entendido como sendo o garantidor dos direitos e da
liberdade. Cabe ao Estado o papel de proteger os direitos e as liberdades
individuais, garantindo aos cidadãos que estes possam exercer de modo
equitativo as suas liberdades.
Cabe ao Estado
regulamentar e harmonizar os interesses privados dos indivíduos, evitando
conflitos e garantindo o bem estar comum, bem como, evitando possíveis
perseguições que possam ocorrer a estes indivíduos e aos seus interesses,
dentro da sociedade civil. Por sua vez, cabe ao cidadão atuar de modo ético e
participar ativamente da vida política, cumprindo as suas obrigações cívicas
para com o Estado.
Entende que o
Estado deva possuir uma constituição, na qual temos a divisão entre os poderes,
a existência de um governo representativo e a proteção dos direitos
individuais, deste modo, o Estado é entendido como sendo uma organização
política e legal. O Estado é uma instituição em constante evolução, buscando o
aperfeiçoamento e, também a busca do ideal de poder incorporar a ética, a
racionalidade e a liberdade em sua estrutura.
O Estado
mostra-se como a síntese de toda a história da humanidade e seu desenvolvimento
espiritual no decorrer do tempo. A história é um processo pelo qual a
humanidade avança na direção da realização da liberdade. O Estado marcha em sua
evolução para o “fim da história”, o que ocorrerá quando este conseguir
alcançar o seu auge, quando a liberdade e a racionalidade forem plenamente
realizadas, quando os valores do Estado ético forem alcançados.
Esta visão sobre
o Estado exerceu influência significativa em pensadores subsequentes, em
particular na filosofia política, enfatizando a relação entre o indivíduo e a
sociedade, a proteção dos direitos e a importância da ética e da razão no
contexto da política.
3- A DIALÉTICA
Conceito central
e fundamental dentro da filosofia de Hegel, a dialética atua de modo a
proporcionar melhor compreensão do mundo e do pensamento. Apresenta-se como um
modo de raciocínio no qual temos uma série de desenvolvimentos, contradições e
resoluções.
Não é criação
única de Hegel, podendo suas origens serem buscadas mesmo em filósofos antigos,
tais como Heráclito, que em sua filosofia enfatizou a constante mudança, Platão
e Sócrates, com o processo dialético e maiêutico, e mesmo em Kant e Fichte,
dentre outros.
Os termos “tese,
antítese e síntese” geralmente associados a Hegel e usados para explicar a sua
teoria, ficam mais corretos quando direcionados para Fichte e não para Hegel.
Por questões didáticas, normalmente se adota com fins de explicação e ensino, a
divisão da dialética hegeliana em “tese, antítese e síntese”, apresentando uma
evolução ou progressão constante. Deste modo temos que a partir de uma posição
inicial, uma dada afirmação, temos na sequência uma outra afirmação que se
apresenta como negação ou oposição do primeiro enunciado e a estes dois é
seguida uma nova afirmação que proporciona uma superação em relação aos dois
primeiros, buscando a resolução das contradições presentes entre a tese e a
antítese.
A dinâmica
presente no processo dialético é em geral dividida em três etapas pelos
comentadores, que as denominam, respectivamente por: “tese, antítese e
síntese”. Com isto, dentro do pensamento de Hegel, se entende que a realidade:
1- se apresenta, 2- nega a si própria e, 3- elimina esta contradição superando
estas fases iniciais. Aqui temos três fases que Hegel denominou por: 1-
simplicidade, 2- cisão e, 3- reconciliação. A partir da síntese ou
reconciliação tem início um novo ciclo, com novas contradições e soluções.
Hegel entende
que o método próprio para a obtenção da verdade é a dialética. Ao se propor uma
nova argumentação, posição ou enunciado que afirme algo sobre alguma coisa,
temos uma tese que é ali formulada. Em um momento subsequente poderá ser
proposto um enunciado também válido, mas contrário ao primeiro e passamos a ter
uma antítese. Esta tensão entre a tese e a antítese será solucionada por um
novo enunciado que supere os dois primeiros, descartando alguns elementos e
aproveitando a outros, neste momento passamos a ter a síntese, a qual, por sua
vez, é uma nova tese que em algum momento se confrontará com uma nova antítese
e, deste modo, o pensamento vai evoluindo no decorrer da história humana.
Na dialética
presente em Hegel temos a ideia de “suprimir, guardar e elevar”, buscando sair
de um conhecimento estático e buscar um conhecimento em constante evolução, de
um discurso em total movimento histórico. Temos etapas que são percorridas pela
consciência dentro de um processo de autoconhecimento e dentro deste processo,
ensinamentos e eventos são ultrapassados, mas simultaneamente conservados,
havendo um estágio mais elevado que permita a observação e compreensão destes
fatos, eventos, conhecimentos. Conjuntamente com a supressão, a conservação e a
elevação, temos também a negatividade, a positividade e o progresso, dentro de
um mesmo processo. Esta relação dialética procura abarcar o vir-a-ser, que já
encontramos presente em Heráclito.
A dialética se
apresenta em Hegel como um método de raciocínio que permite o desenvolvimento
de ideias, integrando os opostos e resolvendo contradições. É um processo no
qual a realidade e o conhecimento se desenvolvem, sendo conceito importante
para a devida compreensão da história e a evolução do Espírito Absoluto, a
totalidade da realidade e do conhecimento.
A realidade se
apresenta como um processo dialético no qual temos a incorporação dos aparentes
opostos (tese e antítese) em algo novo (síntese), proporcionando uma elevação e
compreensão maior dos momentos iniciais do processo. Este processo dialético
ocorre no âmbito do sujeito individual, mas também se encontra presente no
“Ser”. Observamos este processo em diferentes estágios da sociedade, tal como a
relação existente entre, por exemplo, a família (tese), a sociedade civil
(antítese) e o Estado (síntese). Mesmo em questões vinculadas à ética e à
política, onde temos a moralidade, a justiça e a liberdade, a dialética se faz
presente na relação entre o indivíduo e a sociedade e entre a vontade e o
dever.
A dialética
também se faz presente do processo histórico em constante evolução, indo além,
portanto, de ser apenas uma ferramenta lógica. A dialética mostra-se presente
no transcurso histórico do desenvolvimento social e humano, pois, os diversos
eventos históricos evoluem por meio do embate com contradições em busca de
novas soluções e resoluções de conflitos.
Sua dialética
lida com a interação e superação de contradições, segundo o pensamento de Hegel,
as contradições estão presentes e fazem parte da realidade, não sendo correto
entender a contradição como um obstáculo e sim como a verdadeira força motriz
de toda a evolução e progresso da humanidade. É por meio da dialética que as
contradições são superadas, gerando uma síntese, uma nova unidade. É por meio
das contradições e resolução das mesmas, presente no processo dialético, que
obtemos o autoconhecimento e o desenvolvimento da autoconsciência.
A dialética se
mostra também presente na lógica desenvolvida por Hegel, explorando as
categorias do pensamento e sua evolução por meio do processo dialético, onde
temos em primeiro lugar a afirmação, em segundo a contradição e em terceiro a
resolução, superação ou síntese.
Quando pensamos
na obra de Hegel, devemos ter em mente que a noção de uma filosofia composta
por “ideias claras e distintas” não é algo buscado por Hegel, o qual entende
que a clareza não seria adequada para conceituar o objeto. A dialética
apresentada por Hegel se mostra como um sistema que objetiva entender a
história da filosofia e do mundo em sua constante evolução. Nesta dialética
temos que cada novo movimento se dá na sucessão de um outro, sempre buscando a
solução de contradições ali presentes.
O processo
dialético mostra-se também como parte do caminho para alcançar a realização da
liberdade absoluta, na medida em que as contradições são superadas e a razão é
concretizada na realidade. Deste modo, a dialética está presente no
desenvolvimento e obtenção da liberdade.
A dialética em
Hegel exerce papel de vital importância no contexto do desenvolvimento de sua
filosofia, conceito profundo e multifacetado, mais que uma ferramenta lógica,
se apresenta como sendo uma proposta de abordagem ampla para o entendimento do
mundo, da história, da evolução da consciência, buscando capturar a dinâmica do
pensamento, do ser e da realidade em sua constante transformação. A dialética
proposta por Hegel tem como objetivo chegar a um nível mais elevado de
compreensão e também liberdade.
A dialética em
Hegel exerceu significativa influência em pensadores e movimentos posteriores,
sendo também criticada e sofrendo modificações e alterações de acordo com o
contexto em pauta.
4- DIALÉTICA DO “MESTRE
E DO ESCRAVO” OU “SENHOR E SERVO”
Muito importante
no livro “Fenomenologia do Espírito” é a dialética do mestre (senhor) e do
escravo (servo). A Dialética do "Mestre e do Escravo" é parte da
seção "Consciência" da "Fenomenologia do Espírito," onde
Hegel explora a evolução da autoconsciência. Por meio desta passagem dialética
em seu livro, temos uma análise profunda das relações humanas, do
autoconhecimento e da dinâmica da liberdade. Mestre e escravo se apresentam
como representações simbólicas das fases iniciais do processo de
autoconsciência e desenvolvimento humano.
A consciência de
si se desenvolve por meio do desejo e há uma diferença entre o desejo manifesto
entre os humanos e o desejo presente em outros animais. Para todos o desejo se
dá em relação a algo externo, mas o desejo dos demais animais se extingue quando
da obtenção deste objeto de desejo, saciando-se, mas o desejo humano não para
aí, pois, ele incide também sobre um outro desejo. Quando amamos alguém, nos
oferecemos a este outro alguém, mas em contraparte, exigimos que este alguém
também se ofereça a nós, o que de fato os humanos desejam não é outra pessoa
enquanto objeto e sim o desejo de outra pessoa. Há uma disputa entre forças
amorosas e destrutivas dentro de uma consciência que é a um só tempo egoísta e
altruísta. Busca-se o reconhecimento pelo outro. Há inicialmente um conflito
não dialético, que é a guerra, trata-se de um conflito radical entre
consciências, dentre do qual são possíveis três posições:
1- O equilíbrio
de forças entre os adversários em luta
2- Um é vencido
e aceita morrer
3- O vencido
pede perdão ao vencedor e aceita ser seu escravo.
Se o senhor faz
uso do seu direito de matar o servo, perde uma consciência que o reconheça e
ganha uma coisa, um objeto incapaz de reconhecer sua própria consciência.
Trata-se de uma dominação abstrata, pois, o senhor também é escravo nesta
relação, há uma dupla servidão.
Na dialética do
senhor e do servo, temos que o senhor se apresenta como uma consciência que faz
do sujeito que é escravo, esta outra consciência, somente um objeto. Mas, ao
submeter o servo a condição de objeto, necessita que este o reconheça na
qualidade de senhor. Para que o escravo o reconheça como senhor é preciso que
este atue como uma consciência, deste modo, o escravo é simultaneamente objeto
e consciência, e cabe ao mestre precisar que o escravo o reconheça como senhor
e neste momento, o mestre ocupa o papel de objeto diante de outra consciência,
a do escravo. Deste modo, posições de mestre e escravo, sujeito e objeto, são
constantemente trocadas dentro de uma relação dialética. A afirmação de um
sujeito, o mestre, a tese, precisa do reconhecimento do outro, do escravo, da
antítese, gerando a negação da negação (síntese), em um desenvolvimento
histórico. O desenvolvimento histórico está presente na superação das
contradições iniciais.
Ao analisarmos o
início desta relação entre mestre e escravo, temos que há uma relação de
dominação na qual o mestre detém o poder Absoluto sobre o escravo, incluindo
sua vida ou morte. Estamos diante de uma forma de dominação direta onde o
controle se dá sobre todas as esferas da vida e do trabalho deste que se
encontra na condição de escravo. Cabe destacar que mesmo diante desta relação
de total controle e subordinação, o mestre também é dependente do escravo, pois
dele necessita para atender as suas próprias necessidades materiais.
Ao permitir que
o escravo interaja com o mundo no lugar do mestre, por meio do trabalho, este
adquire autoconhecimento e autoestima, já por sua vez o mestre, não adquire o
mesmo justamente por não interagir com o mundo por meio do trabalho, por meio
desta experiência. Esta relação de dependência leva ao conflito e ao
reconhecimento.
O processo
dialético se faz presente quando passamos a ter uma inversão de papéis na
medida em que o escravo toma consciência de que é alguém que interage no mundo
circundante por meio de seu trabalho e que o seu mestre depende dos resultados
de seu trabalho. Aqui passamos a ter a inversão na relação de poder entre
mestre e escravo, na medida em que o escravo inicia a sua percepção e
compreensão sobre a sua própria liberdade e dignidade.
Este processo
dialético se encaminha para o reconhecimento mútuo e a liberdade, no qual tanto
o mestre, como também o escravo, tendem a reconhecer a igualdade essencial
presente em toda a humanidade, algo de suma importância para a real realização
da liberdade. A liberdade genuína envolve o reconhecimento do outro como também
sendo um ser livre.
A dialética do
mestre e do escravo aponta para que o autoconhecimento e a liberdade são
alcançados por meio das interações com outros humanos, sendo o reconhecimento
mútuo algo essencial para o desenvolvimento ético e político.
A dialética do
mestre e do escravo mostra como essencial a presença de contradições e
conflitos para que haja progresso do pensamento e da autoconsciência,
destacando a interação complexa entre a liberdade individual e o reconhecimento
mútuo.
5- O ESPÍRITO
Em sua obra
“Fenomenologia do Espírito”, Hegel argumenta que toda consciência é consciência
de si e se descobre pela razão. A razão, por sua vez, se realiza como Espírito
em direção ao Absoluto. O conceito de “Espírito” (em alemão: “Geist”),
mostra-se como central na filosofia de Hegel, desempenhando papel essencial no
tocante à compreensão do mundo, da história, da moral e da filosofia. O
conceito de Espírito se apresenta em Hegel como sendo uma categoria ampla e
complexa, abarcando a realidade transcendente e imanente. O “Espírito” não se
limita à esfera presente na psicologia de cada um, mas envolve a totalidade da
realidade. Neste conceito temos incluídos a história, a cultura, a ética e a
própria consciência humana.
Para Hegel, o
“Espírito” é formado pela vida do humano, seus pensamentos e cultura no
decorrer da história, deste modo, o “Espírito do mundo” ou “razão do mundo” abarca
tudo que o humano, único detentor do Espírito, produziu. A marcha do “Espírito
do mundo” no transcorrer da história humana é a marcha das criações históricas
deste humano. Todo conhecimento existente é conhecimento subjetivo e humano,
não havendo coisa alguma além ou aquém disto, deste modo, nega a possibilidade
de existência do “númeno” ou “coisa em si” presente na filosofia de Kant.
Não é possível
separar uma filosofia ou a elaboração de um pensamento do contexto histórico no
qual se origina, a própria verdade, ou seja, aquilo que se considera verdadeiro
ou falso, há de mudar de acordo com a evolução histórica e, deste modo, algo
que possa fazer muito sentido em determinada época, pode parecer incoerente e
absurdo em outra. A marcha sempre evolutiva do “Espírito do mundo” se dá por
meio da dialética.
O verdadeiro
encontro, para Hegel, não é do indivíduo consigo próprio e sim do “Espírito do
mundo” consigo mesmo, o que ocorre em seu nível mais elevado com a filosofia.
Este encontro do “Espírito do mundo” consigo próprio há de ocorrer em três
estágios. O primeiro ocorre na esfera do indivíduo, que é onde o “Espírito do
mundo” começa a sua conscientização, aqui temos a razão subjetiva. O segundo
estágio se encontra na família, na sociedade e no Estado, aqui temos a razão
objetiva, que surge da interação entre as pessoas. No terceiro estágio temos a
arte, a religião e a filosofia, sendo que o lugar mais elevado se encontra na
filosofia, que é a que permite que o “Espírito do mundo” reflita sobre si próprio.
A filosofia atua como se fosse um espelho no qual o “Espírito do mundo” pudesse
se observar.
O Espírito é um
só, mas didaticamente pode ser dividido em três estágios: subjetivo, objetivo e
Absoluto. Só há um Espírito e este se apresenta em sua atividade e não como
algo parado, no entanto, pode-se falar em um Espírito subjetivo, referente a
vida mental de um dado sujeito e de um Espírito objetivo, referente a todas as
manifestações e produções culturais e intelectuais presentes na coletividade. O
Espírito caminha em direção a Absoluto, a sua plenitude, no qual a ideia se
manifesta como ser em si e para si.
O Espírito
subjetivo é o que se sabe a si mesmo, a interioridade, a consciência individual
presente em uma pessoa e estudada pela antropologia e pela psicologia. O
Espírito objetivo se manifesta no direito das sociedades e no comportamento
aceito como moral. Já o Espírito Absoluto se apresenta como a síntese destes
dois, incluindo aqui a arte, a religião e a filosofia.
O Espírito
subjetivo se dá no tocante à esfera individual. Ele se faz presente na
consciência e na subjetividade do sujeito, envolvendo a experiência individual
e mental, bem como, o processo de autoconsciência do sujeito.
O Espírito
objetivo se vincula às instituições sociais, culturais e políticas que regem a
vida social das pessoas. Aqui temos a ética e moral, o direito, a família, o
Estado. O Espírito objetivo é a expressão da racionalidade em ação na
sociedade.
O Espírito
Absoluto se mostra como a síntese resultante do Espírito subjetivo com o
Espírito objetivo, representando a realização mais elevada da liberdade e da
racionalidade. O Espírito Absoluto se manifesta na arte, na religião, na
filosofia, sendo esta última a mais alta expressão do Espírito, pois, permite a
reflexão sobre si mesmo. A arte se mostra como a expressão sensível da verdade.
A religião é a expressão simbólica da verdade. A filosofia é a expressão
conceitual da verdade.
O Espírito
Absoluto evolui no transcurso da história. A história é direcionada pela
racionalidade, seguindo uma lógica própria, interna, que possui um propósito,
um sentido. A história não é um conjunto de fatos aleatórios, ou o resultado da
atuação de forças sobrenaturais. O Espírito Absoluto é a totalidade da
realidade e do conhecimento, se manifestando e evoluindo na história do mundo
no sentido da realização da liberdade e da autoconsciência que observamos no
humano. Deste modo, a história evolui seguindo um determinado padrão onde
percebemos eventos que podem ser interpretados como sendo a tese, a antítese e
a síntese, proporcionado que contradições e eventuais conflitos que possam
surgir no transcurso da história sejam solucionados por meio de um processo
dialético, o que resulta em evolução, desenvolvimento e progresso. O objetivo
da história mostra-se como sendo a realização da liberdade e da autoconsciência
humana.
O Espírito busca
sua autorrealização no curso da história. É no transcurso da história que o
Espírito se desenvolve e realiza a sua liberdade, sendo cada época histórica
entendida como uma fase do desenvolvimento do Espírito.
O Espírito se
mostra como agente na realização da liberdade, por sua vez, a dialética tem um
importante papel na evolução do Espírito, superando as contradições entre tese
e antítese e tornando mais concreta e completa a liberdade.
Devido a enorme
ênfase dada por Hegel ao Espírito e seu desenvolvimento no transcurso da
história buscando a liberdade, por vezes há quem chame a filosofia de Hegel de
“Filosofia do Espírito”. Conceito fundamental na filosofia de Hegel, cabe ao
Espírito ligar a subjetividade individual com a objetividade social e com o
desenvolvimento histórico unificado da realidade. O Espírito mostra-se como a
força motriz de todo o progresso da humanidade, da autorrealização, sendo a
filosofia a forma mais elevada de expressão de todo este complexo processo. O
Espírito é a manifestação da razão e da liberdade na história.
6- ÉTICA E MORAL
Os deveres
éticos limitam a liberdade abstrata do indivíduo e são obrigatórios. O
comportamento ético se dá não individualmente, mas na coletividade de
indivíduos, a unidade de sujeitos, a comunidade social enquanto algo que existe
historicamente. Este algo é o Espírito de um povo, o seu Espírito nacional.
Este modo de ser ético se manifesta em três distintos momentos: 1- a família;
2- a sociedade civil; 3- O Estado, como se fosse a tese, a antítese, e a
síntese expressa no Estado.
Intrinsecamente
ligados a ética e moral em Hegel encontram-se os conceitos de liberdade, razão
e autorrealização. Dentre as preocupações deste filósofo, encontramos a
natureza da liberdade humana e como esta se relaciona com a moral e ética.
Hegel entende que a moral e ética se mostram como essenciais para o
desenvolvimento da autoconsciência e também da liberdade.
A liberdade
mostra-se como a principal característica que há de distinguir a natureza
humana, não podendo ser imposta externamente e sendo o resultado de uma escolha
livre e racional por parte deste humano. Há, portanto, uma nítida e marcante
relação entre liberdade por um lado, e ética e moral por outro.
A moral deve se
basear em princípios racionais e universais oriundos da natureza racional do
humano, deste modo, a razão há de desempenhar um papel significativo na ética e
moral em Hegel.
Hegel faz uma
distinção entre a moralidade subjetiva e a ética objetiva. A ética objetiva
mostra-se como uma forma mais elevada de moralidade, se baseando em deveres
objetivos e obrigações éticas com relação a família, à sociedade civil e ao
Estado. Estamos diante de uma ética do dever. A moralidade se faz presente não
somente no indivíduo, mas também na família, na sociedade civil e no Estado,
tendo cada um destes níveis as suas próprias obrigações e deveres.
A comunidade é
importante na autorrealização do indivíduo, a ética objetiva se desenvolve em comunidade,
sendo o local onde valores e princípios morais são compartilhados entre todos.
A dialética
também se encontra presente no desenvolvimento ético e moral. Conflitos éticos
e morais são oportunidades para o desenvolvimento e a autorrealização moral,
pois, com a confrontação com dilemas éticos e morais temos a busca de soluções
para a correta e racional resolução dos mesmos.
A filosofia
mostra-se como a forma mais elevada de expressão da ética, pois, envolve a
busca por meio do uso da razão, pela verdade, pela liberdade, pela
autorrealização. No Idealismo ético defendido por Hegel, temos a ênfase nos
princípios éticos e morais, na autorrealização do indivíduo, na construção de
uma sociedade mais justa.
7- O SER
O conceito de
“Ser”, ou “Sein” em alemão, mostra-se central dentro da filosofia de Hegel,
sendo complexo e estando em evolução conjuntamente com o pensamento de Hegel no
transcurso de suas obras.
Se pensarmos no
processo dialético a partir da história da filosofia, em particular nos
filósofos pré-socráticos, temos que para Parmênides “o Ser é, e o não Ser não
é”, sendo toda mudança ilusória. Já Heráclito enfatiza em sua filosofia o devir
e a constante mudança observável.
Hegel busca
superar esta dicotomia entre as visões filosóficas de Parmênides, Górgias e
Heráclito, mostrando que “Ser” e “Nada” apresentam-se intrinsecamente ligados e
em constante evolução. Com a evolução do pensamento filosófico de Hegel, o
conceito de “Ser” passa a ser integrado a sua dialética, tornando-se mais
complexo e vinculado ao sistema filosófico mais amplo deste filósofo. O “Ser”
em Hegel não se apresenta como uma categoria filosófica abstrata, mas como um
processo em constante evolução, no qual temos contradições e transformação,
atuando na busca pela compreensão e pela verdade.
Temos na
filosofia e lógica tradicional, desde Parmênides e Aristóteles, que: “o ser é e
o não ser não é”. O Ser mostra-se idêntico a si mesmo. Aqui temos o princípio
da identidade e também o princípio da não contradição presentes na lógica. Já
para Hegel a coisa é diferente, pois, este filósofo entende que a realidade em
sua essência é mudança, constante mudança, um eterno devir, sempre tendo algo
mudando para o seu oposto em uma relação dialética.
É por meio da
dialética que as contradições são superadas e a realidade se desenvolve em
direção a maior compreensão e racionalidade e este processo dialético encontra-se
presente no desenvolvimento do conceito de “Ser”.
Hegel nos
apresenta o real como síntese a priori dialética, e o conceito como sendo a
forma do Absoluto. Temos a seguinte identidade do racional e do real: “o que é
real é racional e o que é racional é real”, ou também, “Só o que é real é
racional e só o que é racional é real”.
O objetivo da
filosofia se mostra como idêntico ao da religião, ou seja, a busca do Absoluto,
que a religião chama por Deus. Este Absoluto é a síntese resultante do finito com
o infinito. Deus se faz na própria história, logo, Deus é imanente e não
transcendente. É por meio da história que o Absoluto se auto revela.
Para Hegel o
“Ser” não é uma categoria estática e sim algo em constante evolução. Em sua
abordagem inicial sobre o tema, o “Ser” mostra-se como uma categoria abstrata e
quase vazia de conteúdo, sendo a categoria mais simples e, com uma definição
aparentemente circular, na qual o “Ser” é o “Ser”, sem conteúdo substancial.
Em um momento
seguinte, Hegel empreende uma transição na qual transforma a categoria do “Ser”
em “Nada”. Percebemos aqui a presença do processo dialético nesta transição do
“Ser” para o “Nada”. A contradição e a evolução são inerentes ao pensamento.
Passamos para a
unidade entre o “Ser” e o “Nada”, os quais não podem ser entendidos como
categorias separadas, estando em uma relação de contradição mútua. Não é
possível compreender o “Ser” sem que este esteja em relação com o “Nada” e
vice-versa. Temos aqui a unidade presente na contradição.
A realidade é
dinâmica e está sempre em um constante processo, de modo que o “Ser” e o “Nada
se encaminham para o “Tornar-se” (devir), o que significa que as ideias
representadas pelo “Ser” e pelo “Nada” não são estáticas, mas estão em
constante transformação.
8- A CONSCIÊNCIA
INFELIZ
O conceito de
“consciência infeliz” está presente na obra “Fenomenologia do Espírito”, no
estudo sobre o desenvolvimento da consciência, mostrando o percurso pelo qual a
consciência humana progride em sua compreensão do mundo e de si mesma, sendo
muito importante para a filosofia de Hegel, bem como um conceito bem complexo.
A ideia
principal presente neste conceito é que a busca da satisfação e realização por
parte dos humanos, a busca por felicidade e plenitude, faz a consciência individual
se deparar, por vezes, com desafios e contradições presentes na natureza da
autoconsciência. A consciência tende a se mostrar infeliz na medida em que esta
supõe um além dela mesma, ou seja, uma linha de tradição histórica e também uma
ruptura, dentro de uma dinâmica característica do processo dialético.
Estamos diante
de uma fase do desenvolvimento da autoconsciência na qual o sujeito confronta
as limitações e contradições inerentes à busca de satisfação e significado.
Este conceito surge como parte do processo dialético estudado na “Fenomenologia
do Espírito”, representando um estágio caracterizado pela busca por parte da
consciência, da satisfação em objetos ou condições externas a si própria, o que
acaba gerando desafios e desilusões.
A consciência
infeliz é um conceito presente na filosofia de Hegel que fundamenta o trabalho
de reparar a cisão histórica encontrada na relação do finito com o infinito, o
sensível com o suprassensível, o mutável com o imutável. Este esforço de
reparação e superação se mostra por meio da consciência infeliz, que nos traz o
esforço do espírito em obter reconhecimento histórico racional de si mesmo, em
sua liberdade. A consciência infeliz mostra-se como herdeira de dois grandes
movimentos filosóficos: o Estoicismo e o Ceticismo. Se pensarmos em um
movimento triádico, sua síntese se encontraria no cristianismo.
Movimentos como
o Estoicismo, Ceticismo e Cristianismo podem ser analisados dentro do contexto
da consciência infeliz. Por meio da tese, antítese e síntese, em Hegel, as
contradições são confrontadas e superadas. Neste tocante, Estoicismo, Ceticismo
e Cristianismo também podem ser entendidos como equivalentes da tese, antítese
e síntese.
Estoicismo,
Ceticismo e Cristianismo podem ser interpretados como momentos dentro de um
processo dialético tríade, onde temos tese, antítese e síntese. Cada posição
traz consigo suas próprias contradições e contribui para o processo de
desenvolvimento dialético, numa busca por uma síntese que permita uma
compreensão mais ampla que proporcione a reconciliação entre todas as propostas
anteriores e transcendendo as suas limitações.
O Estoicismo
pode ser entendido como sendo a tese, na qual temos a posição inicial da
consciência na busca por satisfação e felicidade, assumindo uma aceitação
passiva das circunstâncias. Aqui temos a virtude, a autodeterminação e a
conformidade a uma dada ordem cósmica.
O Estoicismo
valoriza a virtude e a autodeterminação, entendendo que a felicidade provém da
aceitação do destino, vislumbrando uma razão universal presente a tudo. Deste
modo, busca-se superar a consciência infeliz por meio da aceitação e
conformidade com uma ordem cósmica, no entanto, esta aceitação passiva pode
encaminhar o humano para a não obtenção de uma autoconsciência verdadeira.
O ceticismo pode
ser entendido como sendo a antítese no decorrer do processo dialético de
evolução da consciência infeliz, ao enfatizar a incerteza, a relatividade de
todas as crenças e conhecimento.
O ceticismo
apresenta um questionamento sobre a posse de um conhecimento realmente
verdadeiro, priorizando que vivemos em um mundo de incertezas e crenças. No
tocante à consciência infeliz, o ceticismo contribui com a dúvida e a
desilusão, ao questionar a validade da busca por satisfação. Ao não fornecer uma
base sólida para que seja construído o conhecimento e dado significado a
realidade, tende a gerar incerteza e aumentar a insatisfação presente na
consciência infeliz.
O cristianismo
pode se apresentar como sendo uma síntese possível, numa tentativa de superação
das limitações percebidas nas posições anteriores, tanto estoicas como também
céticas. No Cristianismo temos a ênfase na transcendência, na renúncia, na
busca espiritual, mas também pode levar a novas contradições, reiniciando o
ciclo dialético.
O cristianismo,
nas suas expressões mais ascéticas e monásticas, pode apresentar uma resposta
mais satisfatória para a consciência infeliz, integrando os movimentos
anteriores do Estoicismo e do Ceticismo. No cristianismo temos uma ênfase na
transcendência, na renúncia aos desejos materiais e na busca pela salvação
espiritual, apresentando a soma destes elementos uma tentativa de superação da
insatisfação presente no humano. Cabe, no entanto, a crítica que o cristianismo
pode também representar uma fuga da realidade terrena concreta de nossa
existência e que a verdadeira reconciliação deva ocorrer no âmbito da
existência no dia-a-dia.
A consciência
infeliz traz a confrontação do humano com contradições e desafios na busca por
satisfação e significado. Tanto o Estoicismo, como também o Ceticismo e o
Cristianismo, enquanto abordagens filosóficas, podem proporcionar respostas a
insatisfação humana no tocante a consciência infeliz, mas também podem se
mostrar insuficientes ou apontar para formas limitadas de autoconsciência.
Para entendermos
a consciência infeliz em Hegel torna-se necessário observar a oposição presente
entre a finitude do humano e o pensamento do infinito, já que o pensamento do
infinito só consegue se realizar por meio da finitude humana. O espírito se
manifesta na história, onde torna-se possível a realização de sua verdade. A
arte, a religião e a filosofia tendem a conciliar a ideia e a forma na história
de cada povo em sua vivência histórica e universal. Para entendermos a
consciência infeliz é preciso entender o desenvolvimento e papel social da arte
no decorrer da história.
Na consciência
infeliz temos uma excessiva dependência da experiência sensível e do mundo
circundante com o objetivo de obter satisfação e prazer, preencher o vazio
interno. A busca da felicidade pode levar a contradições, já que o que pode
inicialmente trazer satisfação, pode posteriormente se mostrar insatisfatório e
mesmo contraditório. A consciência infeliz tende a surgir do conflito entre a
busca individual para obter satisfação, com a necessidade de reconciliar esta
mesma busca com princípios que sejam universais e também éticos. Ao buscar a
satisfação plena por meio de objetivos externos, o humano não consegue resolver
contradições fundamentais, daí temos um confronto com a própria limitação
humana.
No começo, a
consciência busca preencher seu vazio interno por meio de objetos externos, são
relacionamentos ou realizações diversas. É a busca da satisfação e da plenitude
no mundo externo. Esta busca gera contradições e as coisas que em um primeiro
momento pareciam trazer algum tipo de satisfação ou prazer, acabam mostrando-se
como insatisfatórias na busca por significado e realização. Esta busca externa
acaba por se mostrar como algo inadequado.
A consciência
infeliz tende a depender da experiência sensível para validar a sua própria
existência, caindo em um ciclo de busca por prazer material ou mesmo por
reconhecimento, que tende a se mostrar insatisfatório, não resolvendo as
necessidades mais profundas.
Temos uma tensão
presente entre os desejos individuais e as normas sociais e éticas, o conflito
entre a busca individual por satisfação e a necessidade de reconciliar esta
busca com princípios que sejam universais e também éticos. Um conflito entre a
individualidade e a universalidade.
Ao confrontar o
espaço deixado vazio entre por um lado as expectativas e por outro a realidade,
temos a desilusão, a insatisfação e o descontentamento, algo semelhante a uma
consciência desiludida.
Diante do
reconhecimento da limitação humana, a consciência infeliz percebe que a
satisfação total é uma ilusão, deste modo, a constante busca pela obtenção de
objetivos externos não resolve as diversas contradições presentes. Quando a
pessoa percebe as limitações das abordagens puramente externas e passa a buscar
uma compreensão mais profunda de si mesmo, vinculado a questões sociais e
éticas, tende a se colocar no caminho para superar a consciência infeliz.
Ao caminhar em
direção a estágios mais elevados de desenvolvimento espiritual, desenvolvendo uma
compreensão mais madura e complexa da autoconsciência, tende a transcender as
contradições iniciais e se encaminhar para um processo de superação e
reconciliação consigo mesmo e com o mundo, buscando também o desenvolvimento de
uma compreensão mais rica e reconciliada da própria existência. Trata-se de
confrontar e superar as contradições, promovendo o desenvolvimento de uma
síntese em busca da autoconsciência.
A superação da
consciência infeliz ocorre ao reconhecer as limitações presentes em uma busca egoísta
pela felicidade, havendo um retorno para uma tentativa de compreensão de si
mesmo, em termos éticos e sociais. A consciência infeliz mostra-se como sendo
um estágio transitório. Cabe ao humano transcender uma compreensão
individualista e buscar uma compreensão abrangente reconciliada com a ética em
um constante processo dialético.
A verdadeira
superação da consciência infeliz ocorre quando o humano reconhece as limitações
das abordagens unicamente éticas, céticas e religiosas, passando a buscar uma síntese
maior que reconcilie as dimensões individuais e universais presentes na
existência. Este processo de superação se encontra na dialética proposta por
Hegel, na qual as contradições são confrontadas e integradas, buscando uma
melhor e mais completa compreensão da realidade.
9- LÓGICA
Seu principal
desenvolvimento dentro da filosofia de Hegel encontra-se no livro “Ciência da
lógica”, no qual a lógica não é abordada somente como sendo uma disciplina
formal, mas sim como sendo um processo dinâmico.
Hegel propõe em
sua lógica uma série de encadeamentos categoriais para expressar o movimento do
real. A filosofia se apresenta como a compreensão deste processo de auto
exposição, de auto apresentação do absoluto. Neste processo temos uma exposição
de categorias sequencialmente progressivas, desde a indeterminação primeira
encontrada na díade “ser e nada”, que encontra sua solução no “devir”, até a
completude da ideia do absoluto. O mundo se apresenta como sendo racional e as
categorias não são, como propôs Kant anteriormente, categorias de nosso modo de
pensar e assim perceber e entender o mundo ao redor, mas as categorias são do
próprio ser.
A lógica em
Hegel mostra-se como um processo dinâmico e dialético que reflete o
desenvolvimento do pensamento e da realidade, ultrapassando a realidade
estática na busca por trazer a natureza viva e contraditória existente no
pensamento absoluto, na sua manifestação na realidade.
A lógica é a
ciência das determinações do pensamento puro, deste modo, não é apenas a
reunião de regras formais, mas sim uma investigação do conteúdo do pensamento e
das categorias que são inerentes ao desenvolvimento do real.
A dialética se
apresenta como sendo o método principal na lógica de Hegel. Enquanto a lógica
formal tradicional faz uso dos princípios de identidade e de não-contradição, a
dialética proposta por Hegel engloba as contradições dentro de um processo de
contínuo desenvolvimento dialético. Pensemos em tese, antítese e síntese, ora,
podemos ocupar estas posições com “ser”, “nada” e “devir”. Deste modo, o “ser”
de Parmênides se encaminha para o “devir” de Heráclito.
Cada estágio
dentro da dialética de Hegel é superado e integrado no estágio seguinte,
construindo uma rede de determinações conceituais que refletem o
desenvolvimento do pensamento rumo ao absoluto.
A partir de
categorias lógicas que refletem o movimento incessante do pensamento, temos um
desenvolvimento que vai do mais simples ao mais complexo, na tentativa de
capturar a natureza dinâmica e simultaneamente contraditória, presente na
realidade circundante, deste modo, caminhamos do “ser”, para o “nada” e, destes
para o “devir”. A lógica não é somente a descrição do processo de pensamento,
mas é também a descrição da própria realidade, deste modo, há uma identidade
entre o pensamento lógico e o desenvolvimento do ser. O “devir” ou “tornar-se”
descreve um processo conceitual lógico, mas também reflete um processo de
transformação e desenvolvimento que ocorre na realidade. A realidade, por sua
vez, mostra-se com o lugar da manifestação do pensamento absoluto na sua forma
mais desenvolvida. Deste modo, a lógica ultrapassa ser uma ferramenta de
compreensão da realidade, para ser a substância desta mesma realidade.
Podemos entender
a lógica proposta por Hegel como uma forma de ontologia ou mesmo de metafísica.
Em Hegel, sua lógica desempenha um papel muito importante na busca por
compreensão unificada do pensamento e da realidade e, neste tocante, está
intimamente vinculada à ontologia e também à metafísica. Como ontologia na
medida em que a lógica para Hegel não se apresenta somente como uma disciplina
formal voltada para o estudo de regras do pensamento, mas sim como sendo
basicamente uma exploração das categorias e determinações que compõe a
realidade. Podemos afirmar que a lógica para Hegel é ontológica na medida em
que cada categoria lógica é entendida como uma determinação do ser. Como
metafísica na medida em que esta busca compreender as estruturas fundamentais e
os princípios que permeiam toda a realidade. Podemos afirmar que a lógica para
Hegel é metafísica na medida em que tradicionalmente a metafísica se ocupa com
problemas além do mundo físico, buscando o entendimento da natureza última da
realidade.
Em Hegel temos
uma identidade entre lógica, por um lado, e realidade, por outro. Não há uma
nítida separação entre lógica e realidade. A lógica não é somente uma
ferramenta para compreender o mundo circundante, a lógica se mostra como a
própria substância da realidade. A realidade é entendida como estando
intrinsecamente vinculada às categorias lógicas.
Na lógica temos
a presença de um processo dialético dinâmico, que reflete o movimento e o
desenvolvimento da realidade. A realidade é entendida como sendo um processo em
constante evolução, trata-se de uma forma de metafísica dinâmica.
A lógica se
apresenta como uma tentativa de desvelar o absoluto nas suas estruturas
fundamentais, o absoluto, por sua vez, se mostra como sendo o fundamento
metafísico último, englobando tanto o pensamento, como também toda a realidade.
Não há como separar
nitidamente a lógica, da metafísica e da ontologia, dentro do pensamento
filosófico de Hegel. A lógica se apresenta como sendo um meio para a
compreensão da natureza última da realidade e dos princípios que a organizam.
Nesta lógica, a dialética é mais do que uma ferramenta formal, se apresentando
como uma representação do movimento intrínseco e dinâmico do Absoluto, deste
modo, se mostrando como um tratamento metafísico da realidade.
10- PRINCIPAIS OBRAS
1- A diferença
entre os sistemas filosóficos de Fichte e Schelling (Die Differenz des
Fichte'schen und Schelling'schen Systems der Philosophie), 1801.
Nesta obra Hegel
examina e compara os sistemas filosóficos de Fichte e Schelling, dando destaque
tanto às semelhanças, quanto às diferenças presentes em ambos sistemas.
2- Introdução à
história da filosofia (Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie), 1805.
Palestras
ministradas sobre a história da filosofia nas quais é abordado o
desenvolvimento da filosofia desde os pré-socráticos até os filósofos
contemporâneos a Hegel, buscando traçar a evolução do pensamento filosófico no
transcurso da história.
3- Fenomenologia
do Espírito (Phänomenologie des Geistes), 1807.
Obra considerada
por muitos comentadores como sendo a mais influente do filósofo e na qual
explora a jornada da consciência em direção à autoconsciência, tratando de
temas tais como: conhecimento, ética, filosofia da mente.
4- A Ciência da
Lógica (Wissenschaft der Logik), publicada em três volumes entre 1812–1816.
Trata da lógica
pelo prisma da dialética, estudando a estrutura do pensamento e do ser. A
dialética é tratada como um método de investigação. Na filosofia de Hegel, esta
visão da lógica exerce um papel significativo e deveras importante.
5- Enciclopédia
das Ciências Filosóficas (Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften),
1817–1830.
Uma introdução
sistemática da filosofia desenvolvida por Hegel, abarcando os seus principais
conceitos e categorias filosóficas, os quais são organizados em três partes:
lógica, natureza e Espírito.
6- Princípios da
Filosofia do Direito (Grundlinien der Philosophie des Rechts), 1820 (publicado
em 1820, sendo que a data na folha de rosto é 1821).
Aqui é abordada
a filosofia do direito, tratando de temas relacionados à ética, justiça,
direito político e a moral. Nesta obra é analisada a natureza do Estado e a
relação entre indivíduos e sociedade, bem como a relação do indivíduo com o Estado,
propriedade, moralidade e justiça.
7-Lições sobre a
filosofia da história (Vorlesungen über die Philosophie der Geschichte), 1837.
Obra publicada postumamente.
Aqui temos um
estudo sobre a filosofia da história, enfocando a evolução das sociedades e
culturas no decorrer do tempo histórico, bem como, a ideia de um “Espírito do
mundo”, orientando o curso da história.