Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

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quinta-feira, 13 de abril de 2023

Erasmo de Rotterdam: Uma postura reformista moderada

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Geert Geertsz (Gerardo filho de Gerardo)

Gerrit Gerritszoon

Herasmus Gerritszoon

Erasmo de Roterdã (português, Brasil)

Erasmo de Roterdão (português, Portugal)

Desiderius Erasmus Roterodamus (latim)

Erasmo de Rotterdam

 Desidério Erasmo de Rotterdam (1466-1536). Nasce em 28 de outubro de 1466 em Roterdã, Países Baixos, Burgúndios e falece em  12 de julho de 1536 na Basileia, antiga Confederação Helvética, então com 69 anos de idade. Escritor, teólogo, filósofo e humanista neerlandês (holandês, nascido nos países baixos). Cursou o Seminário dos Monges Agostinianos, tendo realizado os votos monásticos quando dos seus 25 anos de idade, consagrado sacerdote em 1492 e, posteriormente, dispensado de seus votos monásticos em 1517. Em 1506 obteve o título de Doutor em Teologia, em Turim, Itália. Viajou por vários países da Europa. Estudou e atuou como professor em algumas prestigiosas universidades. Esteve como aluno na universidade de Paris e Oxford e professor em Cambridge.


 

Erasmo criou uma história visando adaptar com algumas mudanças e suavizar historicamente a verdadeira história de seu nascimento, de modo que, portanto, tentou encobrir a sua origem. O que sabemos sobre sua infância é de fato muito pouco, mas há um consenso entre os comentadores de que seus pais não eram legitimamente casados. Seu pai, de nome Gerard, era padre e pároco da Igreja Católica em Gouda, logo, não podia se casar ou manter relações sexuais em virtude de seus votos, mas era algo comum na época que religiosos ignorassem tais votos e se relacionassem abertamente com mulheres, inclusive tendo filhos e família, mesmo que não oficial. Sua mãe, de nome Margaretha Rogers, filha de médico, talvez fosse a governanta de Gerard, não se sabe com certeza. O que se sabe é que Gerard, padre católico, teve uma relação com Margaretha da qual Erasmo é o segundo filho. Seus pais viveram juntos e cuidaram de seus filhos, formando uma família, até a morte precoce de ambos em virtude da peste negra, no ano de 1483.

Erasmo conhecia bem a língua grega e o latim, dando preferência por escrever em latim e depois estimular que traduzissem seus textos por todos os idiomas. Erasmo ficou conhecido pelas muitas traduções de obras clássicas que fez, vertendo-as para o latim. Pode, no transcorrer de sua vida, obter seu sustento por meio de seus livros, suas obras e traduções.

No ano de 1516 publicou uma versão do Novo Testamento, em grego e latim. O texto era dividido em duas colunas, uma em grego e a outra em latim. A obra também dispunha muitas notas comentando e explicando o texto. Esta obra depois foi usada como base pelos reformadores para a tradução do Novo Testamento para suas línguas nativas.

Dentre suas principais obras, podemos citar: “Adágios” (1500), “Manual (ou adaga) do Cavaleiro Cristão” (1503), “Elogio da Loucura” (Escrito em 1509 e publicado em 1511), “Sobre o método de estudo” (escrito em 1509 e publicado em 1511), “De Copia” (1512),A educação de um príncipe cristão” (1516),Colóquios” (1518), “Os Pais Cristãos” (1521), “Colóquios Familiares” (1516-1536), “As Navegações dos Antigos” (1532), “Do Livre Arbítrio” (1524), “Sobre civilidade em crianças” (1530), “Preparação para a Morte” (1533), dentre outras.

Na filosofia cabe destaque seu posicionamento na questão quanto ao livre arbítrio, pois, enquanto os reformadores da religião cristã tendiam a defender a inexistência deste e a total subordinação da liberdade humana aos desígnios de Deus, a defesa de um servo arbítrio, Erasmo se mostrava grande defensor do livre arbítrio.

Erasmo se posiciona contrário à doutrina protestante que nega o livre arbítrio, pois, entende que o humano tem liberdade e que justamente a força da vontade humana se dá por meio desta liberdade. É por meio do livre arbítrio que o humano pode buscar e encontrar a salvação, valendo-se de seus próprios méritos.

Mais perto de Sócrates do que do Aristóteles presente na Escolástica, defende que o objetivo presente na filosofia é conhecer a si próprio e deste modo atingir a sabedoria. Entende, no entanto, que esta sabedoria está ligada a prática de uma vida religiosa cristã e indica como leituras capazes de proporcionar a sabedoria, os evangelhos e também as cartas de Paulo. Também mantinha um posicionamento pacifista, contrário à guerra.

No tocante a religião, adotou para si uma posição reformista moderada, afastada de dogmatismos e tendo presente uma postura liberal e tolerante, pela qual entendia ser possível transformar a Igreja. Defende a tolerância e liberdade de pensamento. Manteve uma postura de oposição ao domínio então exercido pela Igreja Católica sobre a educação, a cultura e a ciência. No transcurso de sua obra criticou a vida monástica, o clero e a Igreja Católica Apostólica Romana.

Erasmo é a sua época um dos principais porta-vozes do movimento humanista. Defendeu e antecipou o fim da predominância da Igreja e religião na educação. A educação, a cultura e a ciência devem seguir seu próprio caminho, livres da tutela da religião. Também defendeu a importância da leitura dos clássicos, bem como, o desenvolvimento de todo potencial humano.

Erasmo foi instado a tomar partido, defendendo uma posição e atacando a outra, no tocante a reforma protestante versus a Igreja Católica, mas não o fez, assumindo uma postura de neutralidade que desagradou a ambas as correntes, havendo por parte de uns a opinião de que se aproximaria de heresia e de outros, de covardia. No entanto, durante toda sua vida foi bem recebido por toda a Europa, frequentando a corte e se relacionando bem com os eruditos e poderosos, nunca foi convocado pela Igreja para justificar as suas ideias e escritos. Somente após sua morte é que a Igreja Católica optou por colocar os seus livros no index das obras proibidas pela Igreja, o “Index librorum prohibitorum”.

 Silvério da Costa Oliveira.

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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terça-feira, 11 de abril de 2023

John Wycliffe: Precursor da Reforma Protestante

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

John Wycliffe (Wiclif ou Wyclif)

 John Wycliffe (1320 a 1328-1384), proveniente de família originária de Yorkshire, quando tinha em torno de seus 18 anos de idade foi encaminhado pela família para a universidade de Oxford, na Inglaterra, onde estudou Teologia, Filosofia e Legislação Canônica, mais tarde também atuou como professor na universidade de Oxford. Formou-se em Teólogo, bacharel (1365) e doutor (1372) em teologia. Foi ordenado sacerdote pela Igreja católica apostólica romana em 1361. Ele era pároco em Lutterworth, no condado de Yorkshire. Também foi nomeado reitor de Lutterworth, em Leicestershire, cargo este que manteve até seu falecimento. Às vezes John Wycliffe é mencionado como sendo a “Estrela da Manhã da Reforma”.


 

Também atuou como reformador religioso e é considerado um precursor da Reforma religiosa. Conhecido pela primeira tradução da Bíblia para o idioma inglês, que ficou conhecida como a Bíblia de Wycliffe. Sua tradução da Bíblia foi feita a partir dos textos em latim e não dos originais em grego e hebraico.

O movimento político e religioso iniciado por Wycliffe e tendo ele como primeiro líder, com a participação de padres que viajavam por toda a Inglaterra para levar a mensagem das Sagradas Escrituras, foi conhecido como Lollardismo (lolardos ou clérigos pobres).

Desde o início de suas pregações e escritos, Wycliffe teve apoio da nobreza da Inglaterra e do parlamento, que viam em suas ideias um modo de se contrapor à influência do papa e de uma nação com a qual estavam em guerra, não pagando taxas. O parlamento inglês, via com bons olhos a defesa realizada por Wycliffe quanto a não enviar dinheiro para o papa. Durante sua vida, além dos nobres e do parlamento, também teve apoio popular.

Na época o papa encontrava-se na França, em Avignon, e estando a Inglaterra em guerra com a França (a guerra dos cem anos; 1337-1453), entendiam os ingleses que pagar qualquer tributo ao papa era idêntico a fornecer dinheiro para um país com o qual estavam em guerra.

Quando em 1381 eclodiram pela Inglaterra revoltas camponesas contra a servidão, Wycliffe demonstrou apoio a tais movimentos contrários à nobreza, o que fez com que este fosse obrigado a se retirar para uma paróquia mais afastada, em Leicestershire, onde morreu em 1384. Com o apoio demonstrado aos camponeses, se afastou um pouco da nobreza, mas mesmo assim, não foi preso ou hostilizado, fora seu afastamento.

Em filosofia, seu posicionamento com relação à questão dos universais o coloca em oposição aos nominalistas, pois, entende que os universais possuem uma realidade ontológica, podendo Wycliffe ser considerado um realista ou até mesmo um ultrarrealista. Entende Wyclife que os universais foram criados por Deus, mas são eternos uma vez que não podem ser destruídos, são indestrutíveis.

Defendeu enfaticamente os interesses da Inglaterra diante do papado. Entendia que a Igreja havia se afastado do que de fato deveria ser, defendendo reformas na Igreja. Segundo seu pensamento, as normas do clero estavam em oposição aos ensinamentos contidos na Bíblia sobre a vida de Jesus e seus apóstolos. Questionava as propriedades e a riqueza então presente no clero católico, buscando o ideal de pobreza presente na Igreja primitiva. Se opunha ao poder temporal da Igreja, pois, este não condizia com o ideal de pobreza necessário aos seguidores de Cristo. Entendia que as propriedades da Igreja deveriam ser apropriadas pelo Estado e que caberia ao Estado o sustento do clero. Defendia que nas questões materiais o rei deveria ter poder superior ao papa, devendo a Igreja renunciar ao poder temporal. O poder da Igreja deveria estar limitado unicamente a questões religiosas. Entende que o poder real também tem sua origem em Deus, sendo pecado opor-se ao poder do rei, devendo todos, mesmo o clero, pagar os tributos devidos ao rei. A Igreja deve se submeter às leis do Estado, cabendo ao rei o seu controle.

Contrário à soberania do papado e à existência das ordens monásticas, entendia que os escritos contidos na Bíblia tinham autoridade superior à tradição presente na Igreja. A única autoridade da Igreja encontra-se nos escritos sagrados.

Critica o tipo de vida então adotado pelo clero e o luxo reinante entre diversos religiosos. Segundo suas ideias, cabia ao governo do Estado assumir uma postura crítica e contrária aos abusos então presentes na Igreja Católica.

Critica a venda de indulgências. Entendia que a principal responsabilidade do sacerdote era pregar o evangelho, estando tudo o mais subjugado a esta responsabilidade. Entendia, também que cabia a cada paróquia, por meio de seus membros, indicar o sacerdote que ali iria atuar, discordando, portanto, que esta indicação fosse feita pela autoridade eclesiástica.

Segundo o pensamento de Wycliffe, a salvação se dá basicamente pela fé e não por meio da prática de boas obras. Em virtude de seu posicionamento sobre a importância e primazia da fé sobre as obras, entendia que para os sacramentos dados pela Igreja terem efeito não bastava unicamente a intermediação clerical, sendo necessário, também, a fé presente no crente.

Também questionou e criticou a doutrina da transubstanciação do pão e vinho durante a eucaristia, segundo seu pensamento, a hóstia não era Cristo e sim o símbolo de sua presença espiritual. Também apresentava um posicionamento favorável à ideia de predestinação.

Sua obra mais importante é “Summa Theologiae”, mas também cabe destaque para “De civili domínio” (1375-1376), “Tractatus De Officio Regis”, “Trialogus, Dialogus”, “Opus evangelicum”, “De sufficientia legis Christi”, “On Divine Domain” (1373-1374). Wycliffe escreveu 65 obras em inglês e 96 em latim, muitos sermões, além de traduzir a Bíblia do latim para o inglês, Antigo e Novo Testamento, com ajuda de auxiliares.

Em sua obra “De civili domínio”, ou em uma tradução livre “Sobre a Propriedade Privada”, amplia suas críticas ao papado, a venda de indulgências e ao modo de vida do clero de então. Nesta obra apresenta as suas famosas 18 teses, que se tornaram públicas em Oxford no ano de 1376. Defendia que todos os direitos provinham de Deus, incluindo nisto o direito à propriedade privada, e argumentava que todos os bens terrenos de posse da Igreja deveriam ser tomados pelo Estado, para que a Igreja pudesse se dedicar unicamente a questões espirituais. Segundo seu pensamento, o clero manter propriedades privadas era algo pecaminoso.

Wycliffe passou a gozar de grande e crescente popularidade, tanto junto ao povo, como também junto ao parlamento. O Parlamento inglês entendia que o clero em seu país poderia ser melhor controlado se ficassem livres de suas obrigações seculares. No entanto, a Igreja Católica não aprovava as ideias de Wycliffe e tentou exercer censura sobre as mesmas. Em fevereiro de 1377 ele é intimado a comparecer diante do bispo de Londres para explicar seus ensinamentos, nesta ocasião se apresenta conjuntamente com amigos influentes e uma multidão aglomerada na porta da Igreja lhe apoiando. A Igreja acusou Wycliffe de blasfêmia, orgulho e heresia. Mas a Igreja nada pode fazer contra Wycliffe na época.

Faleceu de morte natural em sua casa, mas 43 anos após sua morte, em 1427, teve a exumação e queima de seus restos mortais, que foram depois jogados no rio Swift, que banha Lutterworth. Isto ocorreu atendendo a uma determinação do Concílio de Constança (1414-1418), que em decreto datado do ano de 1415 considerou os escritos e a obra de Wycliffe heréticos, devendo ser queimados, bem como, que seus restos mortais fossem exumados e também queimados, e também, a uma ordem do então papa Martinho V (1369-1431), que fazia cumprir esta determinação do concílio.

Wycliffe faleceu em Lutterworth, Inglaterra, no dia 31 de dezembro de 1384, provavelmente em consequência de um derrame cerebral. Seu pensamento e obra há de influenciar as reformas nos séculos XV e XVI, tanto na Inglaterra de Henrique VIII, como na Boêmia de Jan Hus, ou na Alemanha de Lutero, dentre outros focos da Reforma religiosa.

 Silvério da Costa Oliveira.

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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quinta-feira, 6 de abril de 2023

Jan Hus: Reformador religioso tcheco

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Jan Hus, ou Jan Huss (em tcheco)

John Hus, ou John Huss (em inglês)

João Hus, ou João Huss, ou João Ganso (em português)

 

John Hus (Husinec, Boêmia, 1369, 1372 ou 1373 – Constança, 6 de julho de 1415) anteriormente era conhecido como Jan Husinecký, ou, em latim, Johannes de Hussinetz. Hus ou Huss é a abreviatura, feita por ele mesmo, da “cidade” onde nasceu, Husinec (que significa terra dos gansos, em tcheco). Filho de camponeses, se formou em Artes/Letras e Teologia, tendo sido ordenado sacerdote da Igreja Católica Apostólica Romana em 1400. No ano de 1401 ocupou o cargo de reitor da faculdade de filosofia. Em 1402 foi nomeado pregador da igreja de Belém, em Praga. Entre 1409 e 1410 foi eleito e ocupou o cargo de reitor da universidade Charles (Carlos), de Praga, onde também atuou como mestre. Foi acusado de heresia e excomungado pela Igreja no ano de 1412 e queimado na fogueira em 6 de julho de 1415.


 

Hus foi condenado pelo Concílio de Constança. Ocorre que na época estava ocorrendo o “cisma do ocidente”, situação na qual havia três papas em exercício em cidades diferentes da Europa (por Avignon, papa Bento XIII; por Roma, papa Gregório XII; por Pisa, papa João XXIII). O Concílio de Constança foi organizado em 1414 para resolver esta situação (convocado pelo papa João XXIII, único a comparecer. Os outros dois papas também foram convidados, mas não compareceram ao concílio) e aproveitou, também, para julgar casos de heresias, dentre os quais o de Hus. Quando convocado a se apresentar no Concílio, foi munido de um salvo-conduto dado pelo então rei Sigismundo de Luxemburgo, pelo qual poderia se apresentar e defender suas ideias, mas tal salvo-conduto não foi obedecido, tendo sido Hus preso e julgado, ficando assim por sete meses, quando então foi condenado à fogueira.

Quando atuava na universidade de Praga, seus professores e alunos estavam divididos entre os que defendiam o nominalismo e os que defendiam o realismo em filosofia. Quando as obras de Wycliffe começaram a ser discutidas na universidade (trazidas por Jerônimo de Praga em 1402, após seus estudos em Oxford), seu nome foi associado ao realismo, corrente filosófica que naquele momento histórico não estava na moda pelos pensadores de origem alemã. Parte do corpo docente e discente era de origem alemã e adotava o nominalismo, se opondo neste tocante também às ideias realistas de Wycliffe, consideradas por estes como ultrapassadas. Ocorre que os professores e alunos de origem tcheca se identificavam com o realismo e ficaram encantados ao descobrir um pensador proveniente de um centro cultural respeitável, a prestigiosa universidade de Oxford, um famoso mestre, que também defendia ideias baseadas no realismo em filosofia. Os alemães tendiam a ver nos tchecos um grupo de bárbaros antiquados que precisavam se atualizar no tocante as principais ideias em voga na filosofia e na teologia. Estava instaurado o conflito, de início, com forte base em questões e discussões acadêmicas. Este conflito iria se ampliar, incluindo o apoio ou a neutralidade na questão envolvendo os três papas então existentes (o cisma papal, de 1378 a 1417), o rei Venceslau havia exigido neutralidade do corpo docente da universidade de Praga, o que os tchecos fizeram, mas não os de origem alemã, que apoiaram o papa da cidade de Roma, Gregório XII. Isto desagradou o rei, pois, este papa não o apoiava em seu governo, o que culminou com a saída do corpo docente e discente de origem alemã da universidade de Praga no ano de 1409, que posteriormente fundaram a Universidade de Leipzig.

 Huss atuou como reformador religioso tcheco, tendo como base de suas ideias o pensamento de John Wycliffe. Teve vários seguidores, os quais eram conhecidos como Hussitas. Foi preso e condenado a ser queimado vivo em uma fogueira, quando da execução de sua sentença, ficou cantando o “Cântico de Davi” (Jesus filho de Davi tem misericórdia de mim).

Após sua morte os conflitos na Boêmia se intensificaram, culminando na Revolução Hussita. Suas ideias não foram interrompidas e seus seguidores na Boêmia participaram de várias batalhas, no que caracterizou as guerras Hussitas, que começaram por volta de 1419 e se estendem até 1434, com um acordo em novembro de 1436.

Hus defendia o sacerdócio universal dos crentes e adotava para si algumas das ideias presentes no pensamento de John Wycliffe. Entendia que a Bíblia tinha primazia sobre qualquer outra autoridade da Igreja, defendia a justiça social e uma sociedade igualitária, bem como, também defendia a comunhão dada a todos. Criticou o poder terreno da Igreja em prol da justiça social. Hus só reconhecia os Escritos Sagrados como autoridade nas questões de fé. Repudiava os tribunais de inquisição, bem como os juízes terrenos.

Hus criticou a venda de indulgências, criticou a enorme riqueza da Igreja diante da existência da pobreza. Entendia que a comunhão não somente deveria ser dada a todos, mas que deveria incluir para todos o pão e também o vinho. Suas pregações eram feitas na língua tcheca e não em latim, como determinava a Igreja Católica Apostólica Romana na época.

Hus também condenava a prática então comum, de comprar cargos eclesiásticos, conhecida como simonia, e o estilo de vida imoral e corrupto do clero de sua época, pois, Hus pensava que o religioso deveria levar uma vida simples, de pobreza e de humildade, coerente com os ensinamentos das Sagradas Escrituras.

Hus entendia que a situação vivida pelo mundo cristão de sua época era um indício da vinda do anticristo. Defendia um mundo de justiça social, sem a exploração e miséria a qual estavam então submetidos os camponeses da Boêmia.

O trabalho desenvolvido por Hus também exerceu forte influência na fixação da ortografia e na reforma da língua literária tcheca. Hus é o responsável pela introdução do uso de acentos na língua tcheca, de modo a fazer corresponder cada som a um único símbolo.

Alguns comentadores defendem que Hus entendia que as mulheres tinham direitos já presentes na Bíblia, pois, também foram feitas à imagem e semelhança de Deus e nada devem temer ao homem. Segundo sua opinião, as mulheres poderiam pregar o evangelho e também lutar em batalha, o que de fato ocorreu após sua morte, pois, mulheres participaram das guerras hussitas.

No tocante a transubstanciação do pão e vinho na eucaristia, negada por Wycliffe e posteriormente por Lutero e os demais membros da reforma protestante no século XVI, Hus adota uma posição teológica na qual aceita o entendimento católico sobre a transubstanciação, apesar de negar que o sacerdote tenha o poder de realizar a transubstanciação. Já com relação à doutrina protestante de sola fide, ou seja, que só há salvação pela fé, negando a prática das obras para a salvação, entende que a caridade desempenha, sim, um importante papel instrumental na justificação dos pecadores. Hus também criticou a veneração dos santos e de Maria.

Há a crença de que quando estava para ser queimado, no ano de 1415, fez a seguinte profecia: "Vocês hoje estão queimando um ganso, mas dentro de um século, encontrar-se-ão com um cisne. E este cisne vocês não poderão queimar." Esta frase foi direcionada ao seu carrasco e o termo “ganso” é o significado de “Hus” na língua boêmia e como ele era conhecido. Exatos 102 anos depois, no ano de 1517, Martinho Lutero prega na porta da Igreja do castelo de Wittenberg as suas famosas 95 teses sobre a venda de indulgências, que há de começar a reforma protestante, deste modo, a profecia é associada a Lutero, que passa a ser entendido como o “cisne”. Há, no entanto, os que defendem que no lugar de pronunciar tal frase, teria escrito algo semelhante falando sobre pássaros, numa carta que escreveu durante a sua prisão, a esperança de que “pássaros” mais fortes do que ele surgiriam para continuar seu trabalho.

 Silvério da Costa Oliveira.

                                          


 

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terça-feira, 4 de abril de 2023

Ulrich Zwingli: Principal líder da Reforma protestante na Suíça

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Ulrich Zwingli

Ulrico Zuínglio

Ulríco Zwinglio

Hulrico Zuínglio

Hulricus Zvinglius

Huldericus Zvinglius (latim)

Huldrych Zwingli (alemão)

 

Ulrich Zwingli (1484-1531) nasce em Wildhaus, Cantão de São Galo, nordeste da Suíça e falece aos 47 anos de idade em Kappel am Albis, Suíça. Teólogo e principal líder da Reforma protestante na Suíça, suas ideias vieram a influenciar o Calvinismo. Em 1506 foi ordenado sacerdote e em 1519 foi transferido para Zurique.

O conselho municipal organizou, em janeiro de 1523, um debate público em Zurique sobre as teses defendidas por Zwingli em seus sermões. Nesta ocasião Zwingli apresentou suas ideias sobre teologia nos “67 Discursos finais”. Zwingli adota e desenvolve os princípios e que a autoridade provém somente das Escrituras e que só Cristo salva.


 

Criticou a prática de venda de indulgências, foi contrário ao celibato, tendo ele próprio se casado em 1524. Em 1522 casou-se secretamente com Anna Reinhard, viúva, e em 1524 publicamente. Anna Reinhard já possuía três filhos do primeiro casamento e teve mais quatro com Zwingli.

Entre 1525 e 1527 entra em conflito com os Anabatistas, pois, estes defendiam o batismo somente em adultos e Zwingli defendia o batismo em crianças. Morreu como capelão das tropas que lutavam contra os católicos.

Escreveu uma vasta obra, que, tendo sido organizada nos anos 90 do século XX tende a ocupar 21 volumes, mas desta vasta obra, sua principal é “Comentário sobre a verdadeira e a falsa religião”, de 1525, bem como, “67 Discursos finais (ou proposições, ou artigos, ou conclusões, ou teses)”, de 1523.

Foi crítico da devoção aos santos e da virgem Maria. Questionou a autoridade dogmática e disciplinar dos concílios e também do papa. Foi contra o culto das imagens. Não entendia a missa como um sacrifício. A missa não é um sacrifício, mas é uma lembrança do sacrifício e garantia da salvação dada por Cristo (sentença 18). Adotava o princípio de que somente a Bíblia possui a doutrina para a salvação, sendo a autoridade máxima em questões religiosas. Defendia que Jesus Cristo é a única autoridade da igreja e que a salvação se opera pela fé. Nega a salvação pelas obras, esta se daria somente pela fé. Nega que haja intercessão de santos. Nega a obrigatoriedade dos votos monásticos. Nega a existência do purgatório. Nega a obrigatoriedade do jejum ou da proibição de comer carne e derivados em determinadas épocas do ano (quaresma). Adotou a língua alemã na liturgia da missa, substituindo o latim. Ao contrário de Lutero, que apesar de não aceitar a transubstanciação do corpo e sangue de Cristo no pão e vinho durante a eucaristia, aceitava a consubstanciação, entendia que a eucaristia era somente simbólica.

Seu pensamento possui fortes traços humanistas e racionalistas, os quais podem ser encontrados ao analisarmos a base de algumas de suas doutrinas, como, por exemplo: a redução do pecado original a um vício hereditário não merecedor de condenação eterna e que não acarreta diminuição das forças éticas do homem; o valor positivo da Lei; a felicidade eterna também é possível de ser obtida pelos sábios pagãos pela prática da lei moral natural. Entendia que o humano possui uma bondade essencial que proporciona a ele não precisar de qualquer coleção de impulsos para ir até Deus, podendo fazê-lo por suas próprias forças.

Após a morte em batalha de Ulrich Zwingli, este foi sucedido na liderança do movimento que criara em Zurique, Suíça, por Heinrich Bullinger e, mais tarde, por João Calvino.

 Silvério da Costa Oliveira.

 


 

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