Professor Doutor Silvério

Blog: "Comportamento Crítico"

Professor Doutor Silvério

Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)

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terça-feira, 14 de junho de 2022

Epicurismo: Afastar a dor e buscar o prazer com moderação

 Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Não há o que temer quanto aos deuses.

Não há nada a temer quanto à morte.

Pode-se alcançar a felicidade.

Pode-se suportar a dor.

(Tese de Epicuro)

 

Epicurismo

 Epicuro (341-270 a.C.) é o fundador da Escola, e Lucrécio (96-55 a.C.), poeta latino que se destaca na divulgação do Epicurismo. Lucrécio é o autor de um poema intitulado “De rerum natura” ou “Sobre a natureza das coisas”, no qual expõe a doutrina epicurista, esta obra é dividida em seis cantos ou seis partes (livros). Dentre as três divisões do Epicurismo, a canônica, a física e a ética, nesta obra Lucrécio desenvolve com detalhes somente a física, quanto a canônica não há uma abordagem mais completa, e quanto a ética, esta é exposta de modo mais esquemático.

Esta Escola tem nas suas origens Aristipo, discípulo de Sócrates, que entendia que cabia ao humano por meio dos seus sentidos obter o máximo possível de satisfação. Segundo ele, o prazer devia ser entendido como o bem máximo e a dor como o mal máximo, deste modo, o objetivo deveria ser afastar a dor e trazer o prazer para si.

Enquanto nas Escolas Cínicas e Estoica, objetivava-se suportar a dor e o sofrimento, na Escola Epicurista o objetivo era afastar de si a dor e o sofrimento.


 

Coube a Epicuro de Samos (341- 270 a.C.) fundar na cidade de Atenas, por volta do ano 306 ou 300 a.C., uma Escola que adota para si os fundamentos propostos por Aristipo. Esta Escola pode ser chamada de Escola dos Epicureus e nela, Epicuro mesclou, também, a teoria do átomo proveniente de Leucipo e Demócrito. A tradição nos diz que havia uma inscrição no portal que dava acesso ao jardim, na qual se lia: “Forasteiro, aqui te sentirás bem. Aqui, o bem supremo é o prazer”. Posteriormente se expande até o oriente e chega, também, a Roma, mantendo-se ativa por mais de seis séculos (em 529 d.C. todas as Escolas pertencentes ao mundo da cultura grega que ainda estavam ativas tiveram de encerrar suas atividades por ordem do imperador romano do oriente, Justiniano). Epicuro teria escrito muitas obras, mas só nos chegaram fragmentos e poucas cartas, além, claro está, da doxografia.

A tradição (por parte de Diógenes Laércio) nos diz que Epicuro escreveu mais de 300 obras em seu jardim, mas todas foram perdidas, restando-nos somente três cartas e alguns fragmentos e aforismos. Cabe destaque a “carta a Meneceu”, que nos fala sobre a felicidade, a “carta a Heródoto”, que nos fala sobre a física e os átomos, e a “carta a Pítocles”, que nos fala sobre os meteoros. Basicamente o que conhecemos hoje provém dos escritos de Lucrécio e de Diógenes Laércio.

Em Atenas comprou uma casa com jardim onde ministrava suas aulas e recebia os amigos, por se reunirem em um jardim, esta Escola também ficou conhecida como “os filósofos do jardim”. A matriz ontológica da filosofia proposta por Epicuro é materialista, pautada nas sensações, empirista e com forte influência do atomismo de Leucipo e Demócrito. Evita questões puramente especulativas e se afasta da matemática por não ser a mesma prática em termos de utilidade. Divide a filosofia em três partes: 1- canônica, 2- física, e 3- ética. A canônica é a lógica, que aborda os critérios para poder distinguir entre o verdadeiro e falso. Na canônica temos que a única fonte de conhecimento é proveniente das sensações. Esta teoria do conhecimento é inspirada na teoria atomista de Leucipo e Demócrito. A física tem como objetivo libertar os humanos do medo do destino, dos deuses e da morte, longe de uma finalidade especulativa, atém-se à realidade e está subordinada à ética. A ética trata dos meios próprios para se obter a felicidade.

Para afastar o temor do sobrenatural torna-se importante a existência de uma ciência da natureza que nos auxilia na busca de uma autonomia espiritual, fim este destinado à filosofia. Para obtermos tal ciência, precisamos primeiro comprovar sua validade. O fim a ser alcançado é a ética e o meio para tal ser atingido se dá pela física, antecedida da teoria do conhecimento (canônica). A teoria do conhecimento ou canônica proposta no epicurismo, afirma que a experiência sensível é a fonte de todo saber, propondo a evidência desta experiência como critério de verdade. Epicuro também se baseia no princípio lógico da não-contradição como prova do que seja verdadeiro, dando ênfase não somente à experiência dos sentidos, mas também à razão. Por sua vez, a teoria da sensação defendida por Epicuro provém de Leucipo e Demócrito e em seus conceitos sobre os átomos, o vazio e o movimento. Este atomismo proveniente da filosofia de Leucipo e Demócrito e presente em Epicuro, tende a excluir toda finalidade, ação divina ou sobrenatural, tudo se desenrola dentro de um rigoroso mecanicismo.

Segundo Epicuro, os átomos caem no espaço em movimento vertical e com a mesma velocidade, mas ocorre de modo natural e espontâneo um pequeno desvio (Lucrécio chamou a este desvio de “Clinâmen”) que irá proporcionar o início dos choques entre os átomos. Por sua vez, este desvio, por menor que seja, traz em parte o aleatório para dentro do mecanicismo presente na teoria dos átomos, de modo que seu rigoroso determinismo e necessidade há de dar lugar a uma certa contingência que permita a liberdade.

Para se obter o prazer, deve-se medir as consequências de um ato em relação ao prazer que este possa proporcionar em dado momento e a possível dor que o mesmo poderá proporcionar em um momento subsequente, deste modo, comer em excesso pode ser prazeroso naquele momento, mas deve ser evitado para não se ter o desprazer resultante de complicações posteriores. O prazer não estaria unicamente vinculado aos sentidos corporais e incluiria outros objetivos, como, por exemplo, a amizade ou a contemplação de uma obra de arte. Torna-se muito importante neste contexto o autocontrole, a temperança e a serenidade, bem como, se libertar do medo da morte. Temos uma ênfase grande, dentro desta Escola, de se viver o momento presente, sem se preocupar com outros temas.

Diferenciando-se da Escola Estoica, os epicuristas não nutriam qualquer interesse por política ou pela sociedade. Tanto no Epicurismo, como no Estoicismo, temos pontos em comum a estas duas Escolas filosóficas. Ambas eliminam de seu arcabouço teórico qualquer forma de dualismo metafísico, assumindo um monismo materialista. Ambas combatem qualquer forma de inatismo e colocam a origem do conhecimento nas sensações. Ambas subordinam a investigação feita pela ciência e filosofia a um fim prático, a obtenção da felicidade.

Cabe à filosofia a função de libertar o humano das perturbações e propiciar o encontro da liberdade, por meio da serenidade e autocontrole. Há quatro males que nos impedem de alcançar esta serenidade, que são: temor dos deuses, medo da morte, intenso desejo de obter prazeres, sentimento de tristeza por dores presentes em nossa vida.

Admite Epicuro a existência dos deuses, fato provado pelas visões que os humanos deles possuem, mas entende que não devemos temer aos deuses ou a morte. Cabe prestar, não um culto servil, mas um culto de admiração aos deuses. Não devemos ter medo da morte, pois esta não existe para nós enquanto vivemos e quando ela surge nós não mais existimos. Em verdade esta tese foi anteriormente apresentada pelo sofista Prodicus ou Pródico de Céos (465-395 a.C.).

Segundo Epicuro, os deuses existem, mas não se preocupam com nós, humanos, não são responsáveis por nosso destino, benção ou maldição. Por meio de nossas escolhas, temos a responsabilidade pela nossa felicidade ou sofrimento, e podemos ser responsabilizados por tudo de bom ou mau que aconteça em nossa vida.

Propõe uma vida serena, livre da busca por prazeres ou tristeza pelo sofrimento e dores. Não busca um prazer em movimento como presente nos cirenaicos e sim um prazer em repouso, estável, ausência de perturbação (ataraxia) e ausência de dor (aponia). Cabe moderar os desejos para evitar a dor e as frustrações. Entende ser a amizade o elemento mais importante para a felicidade e o que deve ser buscado pelo sábio. Entende que a prudência antecede a felicidade e a virtude e amplia os horizontes da vida individual para incluir as demais pessoas com quem convivemos e podemos travar amizade, as quais são relações tidas como úteis, mas que também proporcionam manifestações de altruísmo e de sacrifício.

O Epicurismo há de se diferenciar do mero hedonismo. Para o filósofo epicurista o prazer é passivo e encontrado na ausência de paixões, sofrimento, dor e medo. A ausência de dor é o maior prazer que podemos ter. O Epicurismo também defende uma vida simples e descarta os prazeres violentos ou muito intensos, pois podem trazer ao final, dor e sofrimento.

Apesar da importância dada à amizade para com outras pessoas, propõe o afastamento das questões de Estado e o não envolvimento na política da cidade, condição da serenidade do sábio.

Diógenes Laércio, em sua biografia de Epicuro, resumiu os principais pontos de sua doutrina para viver uma vida feliz e equilibrada, no que ficou conhecido como os quatro remédios, o tetrafármaco, a saber: 1- Não tema a deus ou aos deuses, 2- Não tema a morte, 3- As necessidades básicas e naturais vinculadas à felicidade são fáceis de serem obtidas, 4- Pode-se suportar a dor e o sofrimento.

Segundo o pensamento de Epicuro, podemos falar de três tipos de desejos: 1- os naturais, 2- os naturais, mas não necessários e, 3- os inúteis. Por desejos naturais e necessários devemos entender os que são básicos, como, por exemplo, comer, beber, dormir e ter amizades. A felicidade depende da satisfação destes desejos. Já por desejos naturais, mas não necessários, temos coisas que apesar de vinculadas a necessidades humanas, não são necessárias para nossa sobrevivência. Ou seja, precisamos de um abrigo ou casa para morar e nos proteger das intempéries do tempo, mas não de uma mansão. Precisamos comer para viver, mas não de um banquete. Precisamos beber para viver, mas podemos beber água e não vinho. Isto sem esquecer os excessos de tudo que for natural, pois os excessos levam posteriormente à dor e ao sofrimento. Quanto aos desejos inúteis, temos aqueles não vinculados a qualquer necessidade natural básica de nossa sobrevivência e sim a opiniões falsas sobre o que devemos buscar e possuir para sermos felizes, tal é o caso da fama, glória, dinheiro, poder, dentre outros.

A principal virtude para Epicuro é a prudência, com ela devemos nos afastar da dor e do sofrimento e buscar o prazer, sempre com moderação e ponderando o que ganhamos agora e o que obteremos depois, deste modo, é preferível aceitar uma dor ou sofrimento ou desprazer agora para obtermos um prazer maior depois, e da mesma forma, cabe às vezes deixar de aproveitar um prazer agora em virtude da dor ou desconforto que teremos depois. Suportar uma dor ou desconforto momentâneo, adiando o prazer, faz parte da vida do homem sábio e prudente, não se trata, portanto, de viver intensamente o aqui e agora esquecendo-se do que virá depois, e sim, viver de modo a termos um prazer estável e contínuo no decorrer do tempo.

Em linhas gerais bem resumidas, o Epicurismo é uma Escola filosófica que dentro da sua doutrina, busca a felicidade e o afastamento da dor, propondo obter isto por meio do autoconhecimento, da amizade e da prudência. Adota-se um modo de vida no qual são aceitos os prazeres moderados e evitados os prazeres exagerados, buscando por tal meio atingir a tranquilidade e libertação de qualquer dor ou sofrimento. Os desejos exacerbados são fonte de dor e perturbação, prejudicando o encontro da felicidade. A felicidade é decorrente do controle de nossos medos e desejos, de modo a obtermos um estado de prazer estável e equilibrado, conjuntamente com a tranquilidade e ausência de perturbação.

Epicuro, e sua filosofia, foi muito influente tanto em vida como após sua morte, nos séculos seguintes. Era comum as pessoas usarem a sua imagem reproduzida em anéis ou pequenas estatuetas e se tornou comum a frase “comporta-se como se Epicuro o estivesse observando”, de modo que a prática da doutrina epicurista deveria ocorrer sempre, seja em público ou no privado, sendo um modo de vida a ser adotado em todos os momentos e circunstâncias.

 Silvério da Costa Oliveira.

 



Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua autoria)

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Ceticismo (1) * A arte de não julgar. Pirro, Pirronismo e Sexto Empírico

 


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 O ceticismo antigo pode ser dividido em três fases, a primeira com Pirro de Élis (365/360-275/270 a.C.), presente nos escritos de Timon de Flionte (320-241 a.C.), a segunda fase com a nova Academia, de Arcesilau de Pitane (315-241 a.C.) até Carnéades de Cirene (214-129 a.C.), cujas ideias e doutrinas foram escritas por Clitômaco (187-110 a.C.), a terceira fase com os assim chamados céticos posteriores, que vão de Enesidemo de Cnossos (século I) até Agripa e Sexto Empírico (séculos II e III d.C.).

A palavra ceticismo encontra sua origem no grego, “sképsis”, que significa “exame, investigação”. Para Pirro e os céticos, viver bem e feliz é viver sem emitir juízos, ou seja, na “epoché”. O fundador do ceticismo antigo foi Pirro de Élis, daí ser este movimento por vezes chamado de Pirronismo.

No Ceticismo há um retorno a argumentos anteriormente propostos pelo movimento sofista, deste modo, entendem que as sensações variam entre as pessoas e numa mesma pessoa, podendo um mesmo objeto proporcionar sensações distintas em pessoas diferentes ou mesmo na mesma pessoa. Também que por meio da razão podemos obter argumentos válidos pró e contra determinado assunto, anulando-se mutuamente.

O entendimento da Escola cética é que o sábio deve praticar a afasia, ou seja, não falar, abster-se de se pronunciar, também deve praticar a epoché, ou seja, abster-se de opinar, visando obter a ataraxia, ou seja, a ausência de preocupações. Há três perguntas propostas no ceticismo antigo, e uma resposta própria a cada uma delas.

1- Qual a natureza das coisas? Não tenho como saber, conheço apenas aparências

2- Como devo agir em relação a realidade? Suspensão do juízo (epoché) e não falar, não pronunciar-se, manter o silêncio (afasia).

3- Quais as consequências de minhas atitudes? Ausência de perturbações (ataraxia) e um estado de bem estar e felicidade (eudamonia).

Alguém que siga a doutrina de Pirro e Tímon não irá sequer afirmar que nada sabe e sim, no seu lugar, pôr em dúvida se sabe ou não sabe algo. Na vida prática deve-se agir de acordo com os costumes, as leis e as convenções sociais, reconhecendo, não obstante, nada saber com certeza, dando a tudo um valor relativo e convencional. Apesar do ceticismo tratar da teoria do conhecimento, gnoseologia, a ética e moral estão no princípio da elaboração do sistema cético e no seu resultado final.

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"O Ceticismo antigo".

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terça-feira, 7 de junho de 2022

O Ceticismo antigo

 Por: Silvério da Costa Oliveira.

 Ceticismo antigo – Pirro de Élis - Pirronismo

 Ceticismo

O ceticismo antigo pode ser dividido em três fases, a primeira com Pirro de Élis (365/360-275/270 a.C.), presente nos escritos de Timon de Flionte (320-241 a.C.), a segunda fase com a nova Academia, de Arcesilau de Pitane (315-241 a.C.) até Carnéades de Cirene (214-129 a.C.), cujas ideias e doutrinas foram escritas por Clitômaco (187-110 a.C.), a terceira fase com os assim chamados céticos posteriores, que vão de Enesidemo de Cnossos (século I) até Agripa e Sexto Empírico (séculos II e III d.C.).


 

Há quem divida o ceticismo, historicamente, em três momentos distintos e há outros que o dividem em quatro. A diferença é que para quem o divide em quatro, se acrescenta como segundo momento o ceticismo presente na Academia na época de Arcesilao e também Carnéades, quando a Academia combate o dogmatismo então presente nos estoicos.

O primeiro momento do ceticismo antigo se dá, portanto, com Pirro e Tímon, em seguida temos um segundo (ou terceiro) momento, onde encontramos a figura de Enesidemo (século I a.C.) e sua crítica à razão e à causalidade entre os corpos, negando a causalidade. Há um terceiro (ou quarto) e último período do ceticismo antigo, este vinculado a Sexto Empírico (século II d.C.). Sexto Empírico é hoje a principal fonte de conhecimento sobre o ceticismo.

A palavra ceticismo encontra sua origem no grego, “sképsis”, que significa “exame, investigação”. Para Pirro e os céticos, viver bem e feliz é viver sem emitir juízos, ou seja, na “epoché”.

O fundador do ceticismo antigo foi Pirro de Élis, daí ser este movimento por vezes chamado de Pirronismo. Há quem defenda não ser apropriado a sua própria natureza ser designado como uma Escola, estando mais correto os termos “movimento” ou “corrente de pensamento” ou mesmo uma atitude diante dos problemas e questões da vida.

Vários comentadores citam que Pirro seguiu conjuntamente com o exército de Alexandre, o grande, e esteve na Índia, onde conheceu os sábios locais, chamados de gimnosofistas (sábios nus, faquires), que, juntamente com filósofos pré-socráticos (Heráclito, Leucipo, Demócrito) e das escolas socráticas menores, bem como os sofistas gregos, teriam influído sobre a elaboração do ceticismo.

No Ceticismo há um retorno a argumentos anteriormente propostos pelo movimento sofista, deste modo, entendem que as sensações variam entre as pessoas e numa mesma pessoa, podendo um mesmo objeto proporcionar sensações distintas em pessoas diferentes ou mesmo na mesma pessoa. Também que por meio da razão podemos obter argumentos válidos pró e contra determinado assunto, anulando-se mutuamente.

No silogismo proposto pela lógica, na premissa inicial já se encontra a conclusão, de modo que não se avança no conhecimento nem se comprova a conclusão, havendo aqui um círculo vicioso (1- todos os homens são mortais, 2- Sócrates é homem, 3- Sócrates é mortal). Em virtude disto, entende que não há um critério de verdade e propõe a suspensão de todo e qualquer juízo.

Enesidemo (século I a.C.) organizou as teses dos céticos sobre o caráter passageiro e não confiável dos nossos juízos em virtude dos limites de nossa razão, apresentando dez tropos (caminhos) para a suspensão do juízo, motivadas por diferenças contidas ao ser analisado cada um destes caminhos em relação a obtenção do conhecimento. A saber:

1- as diferentes espécies existentes de seres animais;

2- as diferenças entre os homens;

3- os diferentes estados segundo o tempo; diferentes órgãos dos sentidos, proporcionando sensações provavelmente diferentes;

4- as condições orgânicas; circunstâncias e disposições humanas mutáveis;

5- as distintas posições que se pode adotar diante do objeto observado; posição e distância no espaço;

6- os diversos meios interpostos entre os sentidos humanos e os objetos;

7- os diferentes e mutáveis estados do próprio objeto;

8- as relações das coisas entre si e entre o sujeito e as coisas que ele julga;

9- a frequência / número de encontros entre o sujeito e os objetos que ele julga; e

10- os tipos de educação, costumes, leis, crenças e opiniões dogmáticas do sujeito.

 

Por sua vez, Sexto Empírico (e também Agrippa), que é nossa principal fonte de informação sobre o movimento cético, apresenta os argumentos céticos contra o dogmatismo divididos em cinco, a saber:

1- o caráter relativo das opiniões, gerando controvérsias entre as teorias;

2- a necessidade de uma regressão ao infinito para encontrar-se o primeiro princípio, no qual todos os outros se sustentam;

3- o caráter relativo das percepções;

4- toda demonstração se funda em princípios que não se demonstram, mas se admitem por convenção; e

5- a circularidade decorrente de que demonstrar algo, supõe no homem a faculdade de demonstrar e a validade da demonstração.

 

O entendimento da Escola cética é que o sábio deve praticar a afasia, ou seja, não falar, abster-se de se pronunciar, também deve praticar a epoché, ou seja, abster-se de opinar, visando obter a ataraxia, ou seja, a ausência de preocupações.

Para Pirro e Timon há três problemas básicos: 1- qual a natureza das coisas, 2- que atitude devemos assumir, e 3- o que devemos fazer. A primeira questão encontra resposta no relativismo, no qual só podemos conhecer o que sentimos por meio de nossas sensações. A segunda questão nos apresenta como resposta o reconhecimento do fenômeno que percebemos, mas com a suspensão do juízo sobre a coisa em si mesma. Iremos agir diante do fenômeno, assumindo uma atitude eminentemente prática que não corresponda a algum critério de verdade. A terceira questão tem como resposta que o sábio e cético há de renunciar a propor um juízo sobre as coisas.

Ou, dito de modo mais suscinto, temos que há três perguntas propostas no ceticismo antigo, e uma resposta própria a cada uma delas.

1- Qual a natureza das coisas? Não tenho como saber, conheço apenas aparências

2- Como devo agir em relação a realidade? Suspensão do juízo (epoché) e não falar, não pronunciar-se, manter o silêncio (afasia).

3- Quais as consequências de minhas atitudes? Ausência de perturbações (ataraxia) e um estado de bem estar e felicidade (eudamonia).

 

Alguém que siga a doutrina de Pirro e Tímon não irá sequer afirmar que nada sabe e sim, no seu lugar, pôr em dúvida se sabe ou não sabe algo. Na vida prática deve-se agir de acordo com os costumes, as leis e as convenções sociais, reconhecendo, não obstante, nada saber com certeza, dando a tudo um valor relativo e convencional. Apesar do ceticismo tratar da teoria do conhecimento, gnoseologia, a ética e moral estão no princípio da elaboração do sistema cético e no seu resultado final.

Não se trata de uma crítica ontológica feita à existência ou não da verdade na realidade, ou, de se entrar em contradição com o princípio de não contradição, proposto por Parmênides ao afirmar que o ser é e o não ser não é. A ênfase não está na realidade externa (objetiva) ao sujeito e sim na sua capacidade humana (subjetiva) de chegar ao conhecimento desta verdade. Conhecemos por meio de nossas sensações e percepções e somos influenciados por nossas crenças e convenções sociais, de modo que temos acesso não à coisa propriamente dita, mas somente a aparências. Nossos juízos sobre a realidade são baseados nas convenções e tem como base as nossas sensações, as quais são mutáveis.

No pirronismo temos a suspensão do juízo (epoché). Não se trata de afirmar ou negar algo, seja o que for, e sim se ausentar de o fazer, de assumir a atitude na qual diga: “Eu não sei”. E meu não saber, não afeta que este algo seja verdadeiro ou falso.

Cabe cuidado para distinguir a real ênfase dada pelos céticos a questão do conhecimento. O questionamento feito por Pirro e demais céticos era sobre a capacidade humana de se chegar à verdade e não sobre a existência da verdade. Se estes afirmassem não existir a verdade, entrariam em contradição. O que afirmam é a ausência de um juízo, ou seja, ao ser perguntado se sabe algo, o cético diria que não sabe se sabe ou se não sabe, sem afirmar ou negar.

Põe sua ênfase na busca da felicidade e a entende como a ausência de paixões (apatia) e ausência de perturbações (ataraxia). Lembramos que a busca da felicidade por meio da apatia e da ataraxia está presente nos estoicos e nos epicureus. No caso específico do Movimento Cético, isto se dá, não por meio de conceitos teóricos, e sim por meio de um estado individual que nos proporcione nada afirmar e nada negar, suspendendo o juízo. Para Pirro e seu discípulo Tímon, a verdade nos é inacessível e a verdadeira natureza das coisas não é manifesta, estando além das aparências fenomenais.

 Silvério da Costa Oliveira.

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua autoria)

terça-feira, 31 de maio de 2022

Cinismo: Os cínicos e o mundo helênico

 Por: Silvério da Costa Oliveira.

 Cinismo

 Os cínicos

O termo “cínico” ou mesmo “cinismo”, nome dado a este movimento filosófico e também a seus adeptos, tem origem no termo grego “kynos”, que significa “cão”, deste modo, “cínico”, ou em grego, “kynicos”, faria referência ao cão, ou melhor dizendo, “como um cão”. Em verdade, o que temos aqui é uma alusão ao tipo de vida escolhido por tais pessoas, livres na cidade, cidadãos do mundo ou cosmopolitas, sem possuírem qualquer propriedade desnecessária e sem se incomodarem em obter conforto, ou seja, vivendo como cães soltos na cidade. Outra versão para o nome o faz proveniente de “Cinosargo”, um ginásio localizado perto de Atenas onde os membros do movimento se reuniam.

Quando dizemos que os cínicos se comportavam como cães livres na cidade, isto quer dizer que estes não se incomodavam em realizar qualquer atividade fisiológica (comer, beber, sexo, urinar, defecar) em público, do mesmo modo que cães soltos na cidade. Defendiam a total autarquia, ou seja, autossuficiência moral.

Dentre os cínicos mais conhecidos e, além de Antístenes e Diógenes, pode-se citar também: Crates de Tebas (365-285 a.C.), Hipárquia de Maroneia (350-310 a.C.), Metrocles de Maroneia (Século IV / III a.C.), Mônimo de Siracusa (século IV a.C.), Onesícrito de Astipaleia ou de Égina (360-290 a.C.), Bión de Borístenes (325-246 a.C.), Menipo de Gadara (século III a.C. - 300-260 a.C.), Dião Crisóstomo (boca de ouro) ou  de Prusa ou Cociano (40-120 d.C.), Oinomao de Gadara (117-38 a.C.), Demonax de Chipre (80-180 d.C.), Peregrino Proteo (95-165 d.C.).


 

Filosofia Cínica ou Cinismo, foi um movimento fundado em Atenas por Antístenes (444/445-365/370 a.C.), natural de Atenas, discípulo de Sócrates, por volta de 400 a.C. Buscava a verdadeira felicidade, não nas coisas materiais, como, por exemplo, o luxo, o poder político e a boa saúde do corpo, mas justamente do afastamento de todas estas coisas, podendo ser alcançada por todos.

A escola cínica deve ser entendida não somente como um movimento filosófico dentro do Helenismo, mas também como uma das Escolas socráticas menores.

Depois do fundador, o cínico mais importante foi Diógenes de Sínope, ou também conhecido como Diógenes, o Cínico (413-324 a.C.), discípulo de Antístenes, natural de Sínope, mudou-se para Atenas onde estudou com Antístenes e atuou como filósofo Cínico e posteriormente mudou para Corinto. Segundo a tradição, Diógenes vivia dentro de um barril e quase nada possuía de bens materiais, os quais ficavam limitados a sua túnica, um cajado e um saco de pão.

Antístenes foi discípulo de Górgias e posteriormente de Sócrates, sendo contemporâneo de Platão e em essência o cinismo é uma escola socrática. Enquanto Platão desenvolveu sua Escola priorizando o aspecto metafísico de seu mestre, coube a Antístenes priorizar o aspecto moral e ético presente nos ensinamentos de Sócrates. Provavelmente o nome da Escola, fazendo referência a cães, foi inicialmente um insulto feito pelos seus contemporâneos, mas que foi abraçado pelos adeptos desta Escola, que gostaram do que representava o nome em termos de liberdade perante a sociedade e dentro da cidade. Presente no movimento cínico temos a ironia de Sócrates exacerbada conjuntamente com um humor sarcástico. Trata-se de uma filosofia da ação e não da contemplação e do discurso. É pelo fazer, mostrar, agir, que o filósofo dá o exemplo e ensina por meio do modo como vive a sua vida em total desapego dos bens materiais.

Nesta Escola de filosofia não temos um ambiente propriamente escolar, com a presença de mestre e discípulo e um conteúdo programático. O ensino se dá por meio da observação e imitação do comportamento moral, do estilo de vida adotado pelos cínicos. O importante é seguir o exemplo dado e adotar um modo de vida particular, no qual a verdadeira riqueza não é buscada ou encontrada na posse de bens e sim dentro de si mesmo.

O movimento propõe um novo caminho diante da sociedade grega e seus costumes sociais. Segundo o cinismo, para chegar à felicidade há necessidade de autodomínio e de uma postura de indiferença aos prazeres mundanos.

Enquanto doutrina filosófica entende que a virtude é o único caminho para se obter a felicidade, que devemos rejeitar as convenções sociais e praticar o ascetismo.

A vida e os poucos pertences dos filósofos cínicos simbolizavam o desapego e autossuficiência perante o mundo. A verdadeira realização de uma vida humana é a obtenção da felicidade e esta se dá pelo autodomínio e pela liberdade. A filosofia cínica combate o prazer, o desejo e a luxúria e entende que a prática da virtude é mais importante que qualquer teorização sobre a virtude. Este movimento persistiu até a época do Império Romano e como as demais Escolas de Filosofia representantes da cultura grega, desapareceu, indo no máximo até 529 d.C. como todas as demais, se bem que não findou por completo, uma vez que foi absorvido em essência por grupos dentro do nascente cristianismo.

Antístenes nega os conceitos universais e só aceita a realidade do particular e concreto, só existindo aquilo que possa ser percebido pelos nossos sentidos. Entende que o pensamento se reduz a palavras e que estas são materiais. Adota como fim prático da moral e ética a obtenção da felicidade, uma vida tranquila e o exercício da virtude. A virtude pode ser ensinada e aprendida e o caminho para chegar a ela é por meio da prática, do esforço e da imitação dos sábios, tendo como modelo ideal a Sócrates. Sendo este ideal presente no sábio, visto como autossuficiência, independência e domínio de si mesmo. Deste modo, o sábio não se deixa dominar por bens materiais, riquezas, paixões ou obtenção de prazer.

Antístenes e Diógenes argumentam contra os sofistas e a teoria platônica do mundo das ideias, opondo o individual e concreto, pois, a realidade visível é inquestionável, deste modo, negam os conceitos universais a favor do particular. Só existe o que pode ser percebido pelos nossos sentidos. Como negam o universal, o pensamento se reduz a palavras que apontam para algo único.

Diógenes defendia o cosmopolitismo, se considerando cidadão do mundo, entendia que todas as pessoas dos diversos povos são iguais, não devendo haver qualquer distinção, seja por posição social ou mesmo entre senhor e escravo, deste modo, também se opunha à escravidão. Também pensava que os filhos deveriam ser cuidados pela sociedade e que o sábio não deveria se casar e assumir uma família.

Diógenes procurava fortalecer sua vontade e corpo por meio de privações, fadiga e indiferença para com todas as coisas desnecessárias a sua sobrevivência, mantendo o mínimo necessário para viver, sem luxo ou conforto. Conta-se que dormia em um barril, tinha somente as roupas do corpo e bebia em um pequeno copo. Uma vez viu um menino bebendo somente com o uso das mãos em concha e isto o fez jogar fora o copo e adotar este modo de beber água. Em outra oportunidade, saiu de dia pelas ruas de Atenas com uma lanterna acesa procurando um homem.

A tradição também nos conta sobre a visita que Alexandre Magno fez a Diógenes. Alexandre encontrou Diógenes sentado próximo de seu barril pegando sol. Alexandre, aluno de Aristóteles, impressionado pelo que aprendera sobre Diógenes, perguntou se este tinha algum desejo e caso o tivesse, este seria satisfeito. A resposta foi que Diógenes desejava que Alexandre saísse da frente do sol, pois estava fazendo sombra no sol que estava tomando. Esta passagem geralmente é interpretada como uma mostra de que Diógenes era mais rico que o mais poderoso dos homens, pois ele tinha tudo o que precisava para viver.

O pensamento presente na Escola cínica nos diz que não devemos nos preocupar com qualquer coisa, seja esta a saúde, o sofrimento, a morte, ou mesmo o sofrimento próprio ou de outras pessoas.

Diógenes entendia que a educação cínica deveria propor e ensinar a prudência para os jovens, o consolo para os velhos, a riqueza para os pobres, ornamento para os ricos.

A felicidade - entendida como autodomínio e liberdade - era a verdadeira realização de uma vida. Sua filosofia combatia o prazer, o desejo e a luxúria, pois isto impedia a autossuficiência. A virtude, como em Aristóteles, deveria ser praticada e isto era mais importante que teorias sobre a virtude. Além do ascetismo presente ao movimento, cabe destacar também o amor pela virtude e a indiferença para com a riqueza, o status social e a opinião pública. Este movimento acabou também sendo importante ao exercer influência sobre o estoicismo.

A verdadeira felicidade não depende de qualquer coisa externa a si próprio, e há necessidade de se libertar destes laços, sejam bens materiais, reconhecimento, saúde, sofrimento, morte, preocupações consigo ou com outras pessoas.

Estamos diante da defesa e prática de um modo de vida simples que em muito pode se assemelhar a um mendigo na cidade. Os cínicos ficavam longe das convenções sociais ou da prática do pudor social.

Para encontrar a felicidade precisamos retornar à natureza, ao animal humano livre das imposições sociais, é preciso desapegar-se de tudo, alienar-se em relação aos bens e expectativas sociais. Trata-se de uma ética da fuga da prisão social e da liberação do estado natural, animal, que nos aproxima de um cão solto na cidade.

 Silvério da Costa Oliveira.

 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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